segunda-feira, dezembro 22, 2008

A era da buzina assassina



O caos do trânsito da Grande São Paulo está transformando um instrumento fundamental do automóvel em uma vilã das ruas paulistas e paulistanas. A criminalização da buzina chegou a um ponto que ela passou a ser uma arma contra o "buzinador" e uma "justificativa" para que atrocidades seja cometidas por quem se sentiu "ofendido".

As conseqüências do uso da buzina do trânsito, quase sempre trágicas, mostram a que ponto chegou o nível de falta de educação e desfaçatez do povo que vive nas grandes cidades. Buzinar virou um ato obsceno, uma agressão, que merece ser punida com a morte.

A buzina, se pudesse, seria proscrita pela maioria dos motoristas, justamente os mesmos que trocam de faixa e fazem conversões sem sinalizar com a seta; são os mesmo que param em fila dupla; os mesmos que andam, na contramão; que fazem conversões proibidas; estacionam em local proibido; param em cima da faixa de pedestres; e que andam a 120 km/h por hora em ruas que admitem no máximo 60 km/h de velocidade; são os mesmos que bebem antes de dirigire que não ligam que os filhos menores façam o mesmo, dirigindo sem autorização; e são os mesmo motoristas que compram carteiras de habilitação e pagam propinas para evitarem multas.

Há tempos os barsileiros estão no desvio ético. Conseqüência, em grande parte, dos desmandos do lixo autoritário do regime militar ditatorial que dominou a vida política nacional entre 1964 e 1985.

Foi na Ditadura Militar que o jeitinho brasileiro foi alçado a instituição. O mundo era dos espertos, daqueles que tinham conexões, conhecidos em lugares estratégicos, daqueles que sabiam os atalhos para se "dar bem", roubando dinheiro público ou simplesmente furar a fila do ingresso no jogo de futebol.

A ética na vida cotidiana primeiro foi escanteada, para depois ser soterrada e, por fim, ignorada. Já h0uve dirigente de futebol que disse que ética é coisa de e para filósofos. Ele resumiu bem o pensamento nojento que a classe média adotou no "vale tudo" do fim dos anos 70 e começo dos anos 80.

Ninguém vota mais no melhor candidato, mas naquele que pode favorecer ou não "prejudicar". Não é por outro motivo que políticos carregados de denúncias, como Paulo Maluf e Jáder Barbalho, por exemplo, ainda conseguem se eleger deputados federais e obtêm considerável número de votos em eleições majoritárias.

Em pleno século XXI, existem eleitores que não acham nada de errado na máxima "rouba, mas faz", atribuída ao político paulista Adhemar de Barros, um trator eleitoral nos 50 e 60 do século passado.

É justamente essa falta de ética, ou a ética do jeitinho totalmente exacerbado, que pesa contra a buzina, instrumento importante de alerta em um automóvel. Uma buzinada pode ser uma sentença de morte no trânsito enlouquecedor da Grande São Paulo.

Em um trajeto de menos de três quilômetros, da avenida Kennedy, a rua dos bares de São Bernardo, à avenida Pereira Barreto, próximo ao falido hospital Baeta Neves, duas buzinadas que dei foram motivos suficientes para xingamentos e início de brigas, no último domingo, dia 21 de dezembro.

Na avenida Lucas Nogueira Garcez, um Megane, da Renault, atravessou dois semáforos vermelhos e trocou de faixa sem sinalizar duas vezes, quase atropelando uma família e colidindo com dois carros, um deles o meu. Os dois buzinaram.

O motorista do Megane, um cidadão gordo com olhar feroz, típico representante da classe média que se acha melhor do que a patuléia, destilou todos os palavrões que sabia e ficou provocando o motorista do Vectra que havia buzinado. Chegou a jogar o carro em cima do Vectra, quase provocando o que seria nova colisão.

Na avenida Pereira Barreto, um Gol cheio de garotos de não mais de 18 anos, com latas de bebida nas mãos, saiu de uma travessa e entrou na movimentada avenida, o que fez com que um outro Gol tivesse de desviar em cima, jogando o carro para outra faixa, e que um Corsa freasse bruscamente para evitar a colisão. Inevitavelmente, as buzinas soaram. Novos xingamentos e ameaças e uma lata foi arremessada contra o Corsa.

No intuito de perseguir o motorista do Corsa, o Gol baderneiro, dirigido por um animal, me fechou, quase batendo no meu carro e em outro Gol, que estava a minha direita. Outras duas buzinas soaram e a ira dos jovens aparentemente bêbados se voltou contra mim, com xingamentos e manobras provocativas.

Isso é comum todos os dias, nas ruas da Grande São Paulo. Se a classe média abandonou de vez a ética, como exigir um comportamento decente de pessoas de classes mais populares, sem acesso a uma educação de qualidade mínima e oprimida por um modelo econômico às vezes injusto - ainda que esse seja bem melhor do que os outros?
Oportunismo agora é explícito


A pressão está dando certo. A conversa agora sobre a crise, e que parte principalmente da Fiesp (Federação das Indústrias doEstado de São Paulo), é a do chamado Pacto Social. Não passa de mais um eufemismo para cortar direitos trabalhistas e jogar para as costas do governo federal uma massa de trabalhadores desempregados que teriam de sobreviver com o seguro-desemprego.

Oportunistmo e casuísmo é pouco para definir a falta de discernimento do empresariado nacional para enfrentar esses tempos de crise. Durante quatro anos todo mundo ganhou dinheiro a rodo com a boa conjuntura internacional e a condução responsável e inteligente da política econômica brasileira.

Entretanto, com dois meses de crise financeira mundial, muitas empresas começam a falar em demissões e pactos para reduzir custos - leia-se redução de salários e benefícios trabalhistas.

É claro que já está mais do que na hora de se discutir novas formas de organização e legislação trabalhistas, até porque muito do que foi criado para proteger nos anos 70 e 80 hoje se voltam contra o trabalhador, muitas obrigado a cair na informalidade se quiser trabalhar - é a famigerada "pessoa jurídica", uma afronta total à legislação, onde a empresa terceiriza os encargos trabalhistas.

Só que querer discutir agora alterações e alternativas à lei vigente é nojento, é um oportunismo mais do que vil. Há pelo menos 14 anos que se debate a necessidade de uma lei do trabalho mais adequada ao século XXI, mas sempre alguém empurra a discussão - invariavelmente, empresários e governo.

Para as empresas, a única reforma trabalhista aceitável é aquela que acaba com benefícios trabahistas. Não sendo assim, preferem burlar a lei, como fazer a maioria dos empresários. É o maldito pensamento que prega a extinção do 13º salário, das férias, da licença-maternidade, do aviso prévio e de outras conquistas do trabalhador.

O curioso é que ninguém fala em rever a tributação sobre os salários. E nem mesmo os impostos pesados sobre outros aspectos da vida econômica nacional. E o momento está passando.

Afinal, se um governo do PT, o partido dos trabalhadores, chefiados por um ex-metalúrgico, não abre a discussão, após seis anos no Palácio do Planalto, o que esperar de um eventual governo de outro partido, que certamente estará pouco ou nada comprometido com os trabalhadores?

O novo "Pacto Social" proposto pela Fiesp é um colosso de desfaçatez. E entidade quer propor um acordo para minimizar os efeitos da crise sobre o nível de emprego com base em duas medidas: a redução de salários e jornada de trabalho e a flexibilização do pagamento de direitos como férias, 13º salário e participação nos lucros.

Roberto Della Manna, vice-presidente da Fiesp, explicou que a instituição tem propostas para evitar as dispensas de funcionários, que serão detalhadas no início de 2009. Segundo Della Manna, uma das alternativas é a redução da jornada de trabalho com a conseqüente diminuição dos salários. “A lei permite que isso seja feito até 20% do salário mediante acordo com os sindicatos.”
A outra alternativa, diz Della Manna, é fazer um acordo para novas formas de divisão de pagamento de benefícios como adicional de férias de 30%, 13º salário e participação nos lucros.

E o interessante é que até agora nenhuma liderança sindical se manifestou sobre tais abusos sugeridos por entidades empresariais - ou, se houve manifestação, ninguém percebeu. Os empresários tomaram a dianteria na discussão. O que é que os sindicatos estão esperando?
Terrorismo econômico é inaceitável


Não há dúvidas de que a crise financeira já chegou ao Brasil. São vários os setores que sentem e diminuição das vendas e das encomendas. Entretanto, já há setores gritando antes da hora e se pendurando na gorda aba da União.

As montadoras reduziram a produção com a queda nas vendas de até 20%, dependendo do indicador e do índice econômico analisado. Quase todas ou já concedera ou vão conceder férias coletivas aos funcionários, por períodos maiores do que os usuais.

Para completar, eis o que o setor de autopeças prevê para a primeira semana de janeiro, em texto publicado em 3 de dezembro, no jornal O Estado de S. Paulo:

Diante da queda das encomendas das montadoras, que viram as vendas de carros despencarem, e da redução das exportações, por causa da crise internacional, o setor de autopeças prevê 7,5 mil demissões até o fim do ano. As empresas também vão suspender toda a produção pelo menos durante 16 dias neste mês e dar férias coletivas. Várias planejam reduzir os investimentos.

Sondagem feita pelo Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos (Sindipeças) com 95 empresas, responsáveis por 41% do faturamento do setor, aponta para incertezas em 2009. “O primeiro trimestre será muito difícil”, afirmou o presidente da entidade, Paulo Butori, em nota.


Não se trata de ignorar a crise e seus efeitos, longe disso. Neste mesmo espaço já avia comentado que em breve teríamos que conviver com o fantasma dos problemas retração econômica. O que não se pode admitir é o terrorismo que começa a pipocar na imprensa.

Ameaçar demitir 7,5 mil trabalhadores é terrorismo puro, inaceitável em um momento de ajustes e de análises mais detalhadas sobre o efeito da crise. Esse tipo de terrorismo é o estopim para mais uma onda de pânico financeiro.

Quando a economia cresceu e a indústria bateu seguidos recordes de vendas e produção por quase três anos foi uma festa, todo mundo aproveitou e se esbaldou de ganhar dinheiro. Agora, aos primeitros sinais de problemas, o setor de autopeças resolve, como primeira medida, demitir. Inaceitável sobre todos os aspectos.

Não bastam somente medidas "sindicais" para conter e protestar, é preciso que o poder público, que está acenando com ajudas bilionárias à indústria em âmbitos estadual e federal, tome providências e puna quem resolver demitir.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Mais uma aula de Jeff Beck




Depois de muito tempo sem lançar nada, Jeff Beck, um dos maiores guitarristas da história, retorna com novo álbum ao vivo, já à venda pela internet e também na livraria Saraiva. "Jeff Beck Live Performing at Ronnie Scott's Jazz Club" traz uma apresentação realizada em novembro de 2007 na famosa casa noturna de Londres - apesar do nome, até nomes como Dream Theater já tocaram por lá.

É tão bom quando o lançamento anterior, "Live at the BB King's Club", gravado em 2004 em Nova York. O novo CD, que também tem lançamento em DVD, é estupendo, com uma sonoridade inigualável e uma banda mais enxuta, porém estrelada.

Na bateria, o mestre norte-americano Vinnie Colaiuta. No baixo, uma menina franzina de 22 anos, uma virtuose norte-americana chamada Tal Wilkenfeld, que fez bonito com Beck no Crossroads Festival, em agosto de 2007, um festival de blues organizado por Eric Clapton no interior dos Estados Unidos.

O detalhe é que os show registrado no novo CD é o do dia 29 de novembro - Beck ficou o mês inteiro tocando na casa (na internet existe o áudio dos dosi shows, mas com qualidade apenas razoável, sob o nome de "Exhaust Notes").

Os dois últimos, dos dias 29 e 30, foram gravados e tiveram a participação de Eric Clapton nas três últimas músicas, infelizmente não editadas na obra por questões contratuais. Compre já!


Track Listing
1. Beck's Bolero
2. Eternity's Breath
3. Stratus
4. Cause We've Ended As Lovers
5. Behind The Veil
6. You Never Know
7. Nadia
8. Blast From The East
9. Led Boots
10. Angels (Footsteps)
11. Scatterbrain
12. Goodbye Pork Pie Hat / Bush With The Blues
13. Space Boogie
14. Big Block
15. A Day In The Life
16. Where Were You

sábado, dezembro 06, 2008

Simples assim



Do blog 'Trivela'


Mata-mata? Tô fora!
Postado em 05/12/2008 às 16:59 por Caio Maia

Se o Brasileirão deste ano ainda utilizasse a fórmula de mata-mata, haveria neste momento duas torcidas interessadas no campeonato.

Mais: se imaginarmos que a tabela que vai se definir no domingo pode acabar com o Botafogo em oitavo - por mais que isso seja improvável -, não se pode eliminar a possibilidade de que a torcida do Botafogo fosse uma delas.

O que, por si só, já desmoraliza qualquer defesa do sistema.

Brincadeiras com o Botafogo à parte, nem o mais fanático alvinegro carioca pode achar que sua equipe mereceria disputar o título deste ano.

Assim como o Coritiba, o Goiás e até mesmo Palmeiras e Cruzeiro.

Não fizeram por merecer o ano todo, não seria justo que, em uma partida ruim, São Paulo ou Grêmio pudessem ver detonado tudo o que construíram o ano todo.

Vai haver, claro, anos em que as coisas vão se definir mais cedo, e a graça vai ser menor.

A tendência, porém, como estamos vendo ano a ano, é que as pessoas entendam cada vez melhor o sistema, que os clubes também o façam, e a que a graça só aumente.

A se lamentar, apenas o fato de que demoramos tanto tempo para implantar esta fórmula.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Vida de Bon Scott, do AC/DC, vai virar filme


Da Folha Online

A vida de Bon Scott, o segundo e principal vocalista do AC/DC, morto em 1980, vai virar filme. A informação é do site especializado "Undercover".



Scott foi encontrado morto no banco de trás de um carro sufocado no próprio vômito
De acordo com o site, foi o cineasta Eddie Martin quem afirmou que está trabalhando em um filme sobre Scott.

O cineasta disse que o projeto vem sendo desenvolvido há dois meses. No momento, ele está empenhado em escrever o roteiro. O elenco e o nome do filme ainda não foram escolhidos.



Scott foi encontrado morto em 1980 no banco de trás de um carro sufocado em seu próprio vômito depois do consumo excessivo de álcool. Naquele mesmo ano, ele foi substituído por Brian Johnson, que gravou com a banda seu principal disco: "Back in Black".

Neste ano, a banda lançou um novo álbum depois de oito anos: "Black Ice", que chegou a liderar as vendas em mais de 29 países.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Coerência não se compra na farmácia



O economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda do governo José Sarney, é muito melhor articulista do que executivo, embora seja um consultor requisitado. Seus textos, bem escritos, geralmente são um amontoado de obviedades. Entretanto, na última edição da revista Veja, ele acertou ao relembrar coisas que geralmente são esquecidas de forma proposital, especialmente pela mídia simpática ao governo lulo-petista:


No governo Collor, a abertura da economia se acelerou; no de Itamar, veio o Plano Real. O período FHC foi rico em novas mudanças: saneamento do sistema financeiro (Proer), Lei de Responsabilidade Fiscal, Comitê de Política Monetária (Copom), câmbio flutuante, metas de inflação e superávits primários. A política econômica modernizou-se.

O PT se opôs a tudo isso. Mudar a política econômica era sua obsessão. O título de seu programa de governo nas eleições de 2002 era inequívoco: "A ruptura necessária". Incorporava erros grosseiros de diagnóstico, dirigismo econômico infantil, reavaliação e revisão da privatização, corte voluntarista nos juros, controle de capitais e denúncia do acordo com o FMI. Propunha até um cartel internacional contra os credores externos. Daí por que os mercados azedaram quando perceberam que Lula poderia ser eleito.

Felizmente, Lula manteve e reforçou a política econômica (para horror dos petistas e dos que até hoje professam as mesmas idéias). Fomos salvos pela excepcional intuição do presidente e graças aos conselhos de pessoas sensatas como Antonio Palocci e Henrique Meirelles. O Brasil pôde se beneficiar da prosperidade mundial do período 2003-2007. O acúmulo de reservas internacionais permitiu antecipar o término do acordo com o FMI, como ocorreu em muitos outros países.

Lula tem reivindicado as glórias dessas realizações. Nunca antes teria havido nada igual. Dá a entender que o pagamento antecipado ao FMI foi um fato isolado e uma decisão pessoal. Coisas da política. Mesmo assim, cabe reconhecer sua coragem em jogar no lixo o programa do PT e outras más idéias sobre a política econômica. Sem isso, em vez do swap com o Fed estaríamos nos preparando para pedir ajuda ao FMI. Mudamos de patamar.

Religião infecciosa e moral mortal


Em que pese todas as restrições que pesem sobre a revista Veja entre os jornalistas em geral - a maioria bossais de esquerda que enxergam na revista a mão de uma suposta direita escabrosa e extremamente liberal -, o veículo é o único que toca na ferida em questões polêmicas.

É o caso das células-tronco e do aborto, assuntos normalmente contaminados pela visão obtusa e nojenta da religião e da "moral", seja ela qual for. O colunista André Petry coloca as coisas em seus devidos lugares:

"Obama prometeu em campanha, e reafirmou depois da eleição, que vai revogar as restrições impostas por Bush às pesquisas com células-tronco embrionárias, nas quais repousam as melhores esperanças de alívio e até de cura de doenças como diabetes, Alz-heimer e Parkinson. Bush proibiu o uso de dinheiro público para financiar essas pesquisas sob o argumento de que, ao destruir embriões, elas matam seres humanos. Bush é da opinião que óvulo e gente se equivalem."

"Nos Estados Unidos, quem melhor representa essa corrente são os radicais da direita cristã. Eles defendem o absolutismo moral, religião infecciosa segundo a qual a moral não comporta exceção. Se eles são contra o aborto, o serão em qualquer situação, mesmo no caso da menina de 13 anos que engravida ao ser estuprada pelo próprio pai. O absolutismo moral é o que leva, como no caso das pesquisas com embriões, à defesa da moral que mata. Mata portadores de doenças incuráveis e fatais. Mata gente para preservar óvulo. Eles chamam essa obtusidade de firmeza."

"A eleição de Obama é um sinal de que as coisas podem mudar. Os eleitores do estado do Colorado, além de escolher o presidente, votaram a Proposição 48, que previa incluir na Constituição estadual que um óvulo fertilizado é igual a uma pessoa – o que implicaria enormes restrições ao aborto e às pesquisas com embriões. Resultado: 73,3% rejeitaram a idéia. No estado de Michigan, a Proposição 2 removia restrições às pesquisas com células-tronco de embriões. A proposta passou por 52,6% contra 47,4%, placar mais apertado que a aprovação do uso medicinal da maconha (62,6% a 37,4%)."

quinta-feira, novembro 13, 2008

Morre Mitch Mitchell, baterista de Hendrix


Do site Último Segundo (IG)


"O baterista britânico Mitch Mitchell, o último sobrevivente da lendária banda dos anos 60 'The Jimi Hendrix Experience', foi encontrado morto na quarta-feira em um quarto de hotel no Oregon, Estados Unidos.
O músico tinha 62 anos.

O corpo de Mitchell, cujo estilo inovador de tocar bateria o tornou peça crucial no grupo liderado por Hendrix, foi encontrado no quarto do hotel em que estava hospedado, confirmou um legista à imprensa.

A causa da morte não foi divulgada pelas autoridades, mas um comunicado oficial publicado em um site em memória a Jimi Hendrix afirma que Mitchell faleceu por causas naturais.

"Estamos todos devastados ao saber que Mitch morreu", destaca no comunicado Janie Hendrix, diretora executiva do 'Experience Hendrix'.

"Foi um homem maravilhoso, um músico brilhante e um verdadeiro amigo. Seu papel na formação do som da 'Jimi Hendrix Experience' não pode ser subestimado", acrescenta.

Mitchell acabara de encerrar uma turnê por 18 cidades dos Estados Unidos com a 'Experience Hendrix', uma série de apresentações em tributo àquele que é considerado por muitos o melhor guitarrista de todos os tempos.

Jimi Hendrix faleceu em Londres em 1970, aos 27 anos, o que encerrou uma curta mas intensa carreira de um gênio do rock, que redefiniu o som da guitarra em álbuns como "Are you experienced" e "Electric Ladyland".

O terceiro membro do grupo, o baixista inglês Noel Redding, morreu em 2003, aos 57 anos."

segunda-feira, novembro 10, 2008

Vela ruim para um defunto bem pior



É inacreditável que Larry Rohter, ex-correspondente do New York Times no Brasil, ainda seja levado em consideração por aqui. A revista Veja da semana passada dedicou oito páginas ao lançamento do livro "Deu no New York Times", de autoria do repórter norte-americano que quase foi expulso do país por ter mencionado a preocupação de "certos políticos" com o suposto excesso de consumo de álcool do presidente Lula.

É fato que o governo federal errou, e feio, na tentativa de expulsá-lo. Ouso dizer que talvez tenha sido um dos três maiores erros do governo Lula. Liberdade de imprensa e expressão são sagradas em qualquer lugar que se diga civilizado e moderno. A reação da cúpula petista e do Palácio do Planalto foi desproporcional, até porque foi um desgaste inútil com um persoagem tão pequeno e inexpressivo.

Além do mais, a reportagem à época sobre o consumo de bebida por Lula era estapafúrdia, malfeita, cheia de erros de procedimento e com fontes pra lá de duvidosas.

Já o livro é um amontoado de besteiras. Parece que ele tentou fazer uma compilação de suas "melhores" reportagens acrescentando comentários posteriores. O que era ruim ficou pior, especialmente no trecho transcrito por Veja a respeito do episódio da morte de Celso Daniel, em 2002.

O trechinho publicado pela revista sobre o assunto mostra erros factuais e concentuais, com uma visão deturpada e tendenciosa, tentando envolver o Palácio do Planalto e o PT com o crime, o que já ficou comprovado que não ocorreu.

E a revista Veja conseguiu desperdiçar oito páginas com esse lixo. Exagerou na editorialização e na parcialidade de seus textos. Simplesmemte nojento.
Os fantasmas estão voltando


O passado está assombrando o ABCD. Enquanto a General Motors decide se pede ou não concordata nos Estados Unidos, metalúrgicos da GM de São Caetano e de São José dos Campos passam os dias atuais pescando ou contando as horas para o fim das férias coletivas. O mesmo ocorre em outras montadoras e autopeças com a desaceleração da economia. O fantasma das demissões voltou com força neste final de ano.


O crédito farto para a compra de automóveis não existe mais. A inadimplência deve aumentar até fevereiro, o que encarecerá o valor do pouco dinheiro que ficará disponível no mercado. A pergunta, então, é a seguinte: para onde correr?


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva promete crédito mais acessível para o setor automotivo e para a construção civil, mas a questão é que o mundo real funciona em uma dimensão diferente do mundo financeiro. Se a internet acelerou à velocidade da luz o volume das transações financeiras, o mundo real ainda fica angustiado com a demora para ver o dinheiro na conta. Ainda é mais vantajoso deixar o dinheiro parado no banco: por que liberá-lo se os títulos do governo brasileiro rendem mais?


Enquanto não houver pressão da sociedade sobre o governo federal para que haja punição aos bancos que segurarem o dinheiro destinado ao incentivo à produção, nada mudará nos próximos 90 dias. A redução do volume de recursos que os bancos têm de deixar ao final do dia no Banco Central, o chamado compulsório, foi reduzido pela instituição para que houvesse mais crédito na praça e que o Natal de 2008 não fosse o último lance de bonança antes de uma eventual recessão.


Só que o dinheiro a mais que os bancos passaram a controlar não foram acompanhados de contrapartidas. Ou seja, o governo federal aliviou o torniquete e deu mais oxigênio aos bancos, mas nada exigiu em troca. Os bancos não se sentiram obrigados a liberar os recursos.
Passaram a perna? Do ponto de vista legal, não. Do ponto de vista ético, talvez.

O fato é que o governo federal e o Banco Central ainda estão complacentes com o mercado diante das incertezas que a crise financeira mundial. As estratégias estão sendo traçadas em relação à macroeconomia, e o mundo real está sendo negligenciado. É hora de agir. Ou então ficar novamente refém do mundo virtual e veloz das finanças.


Enquanto isso, as fábricas do ABCD continuam paradas, com seus funcionários, pescando, jogando futebol, empinando pipas com os filhos ou simplesmente contando as horas para bater o cartão. E cada vez mais temerosos de ficar sem emprego se as vendas continuarem caindo de forma acelerada.

********

Os bancos estão empurrando com a barriga a liberação do crédito, mas é inquestionável que as medidas adotadas pelo Banco Central, com o aval do governo federal, de irrigar o mercado com mais dinheiro e eventual mente salvar instituições “penduradas” são corretas.

É comum observarmos jornalistas e especialistas de várias áreas criticarem o governo americano pelo socorro aos bancos e ao mercado em geral, denominado agora pejorativamente de Wall Street.

O mundo em que vivemos, desde os anos 80 do século passado, é movido basicamente por duas palavras (ou atitudes, como queiram): credibilidade e confiança. Sem isso, a sociedade como conhecemos desaba, independentemente das crenças e das ideologias.

A crise financeira mundial é reflexo da falta de credibilidade e de confiança do mercado financeiro global como um todo. E por que falta credibilidade e confiança? Porque houve excesso das duas coisas durante o início do século XXI, com as garantias inexistentes para ativos que sólidos como bolhas de ar.

Quando os bancos sofrem com a falta de credibilidade, a economia se esfarela. Uma corrida aos caixas de todos os correntistas é capaz de quebrar um país. Assim, a questão não é devemos salvar os bancos, mas como salvá-los sem afrontar os limites da decência.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Notícias da F-1



Do blog PandiniGP, do especialista Luiz Alberto Pandini:

Camarada Bruno Vicaria, que ficou a meu lado no camarote da Porsche nos últimos três dias, relembra algo que ele publicou há umas três semanas: pela primeira vez na história da F1, todos os pilotos que iniciaram a temporada a terminaram. Nenhum piloto se acidentou com gravidade, nenhuma equipe trocou de piloto durante o ano. Inédito.

Meu comentário: a temporada 2008 foi bastante interessante e quase teve um brasileiro como campeão. Mas que ninguém se iluda: o nível é apenas mediano. Lewis hamilton está sendo considerado gênio, mas ele só conseguiu o título com um ponto de vantagem sobre Felipe Massa, mesmo a Ferrari cometendo pelo menos seis erros grosseiros e inadmissíveis. Vai demorar para a F-1 empolgar pela qualidade, como nos tempos de Piquet, Senna, Prost e no comecinho da era Schumacher.

Mais magia nas seis cordas


Stanley Jordan é um dos responsáveis pelo ressurgimento da guitarra no jazz nos anos 80 nos Estados Unidos, ao lado de George Benson. O timbre é cristalino e suave, mas as palhetadas são precisas e cirúrgicas, com muito feeling. A idéia veio do grande amigo e camarada Valter Mendes Júnior, guitarrista da banda Código 13 e brilhante advogado, titular do blog Bends Up - Guitarras, Café, Jack Daniel´s & outros que tais....


STAIRWAY TO HEAVEN



ELEANOR RIGBY

União mágica dos ases da guitarra


Em 1983, o cantor e baixista inglês Ronnie Lane (ex-Faces e Small Faces) reuniu um time de estrelas do rock para uma série de shows nos Estados Unidos e na Inglaterra com renda revertida para uma entidade chamada A.R.M.S., que recolhia dinheiro pelo mundo para investir em pesquisas na busca da cura da esclerose múltipla, uma doença degenerativa até então incurável.

Lane foi diagnosticado com portador da doença no final dos anos 70, o que o obrigou a reduzir drasticamente as atrividades de sua carreira solo - ele viria a morrer na Inglaterra em 1998 em conseqüência da esclerose múltipla aos 51 anos de diade.

Entre os amigos que participaram do show estavam Eric Clapton, Steve Winwood, Jimmy Page, Jeff Beck, Bill Wyman, Charlie Watts, Ray Cooper, Phil Collins (em alguns shows) e muitos outros. Abaixo dois trechos de algumas apresentações. São raridades, porque reúnem pela primeira e única vez Jimmy Page, Jeff Beck e Eric Clapton no mesmo palco.

Os três sempre foram amigos desde a juventude, mas também eram rivais. Divirtam-se com a versão instrumental de "Stairway to Heaven", clássico do Led Zeppelin, e "Layla", de Eric Clapton (lançada em 1970 por seu grupo na época, Derek and the Dominos).

STAIRWAY TO HEAVEN



LAYLA

Mais um engodo via internet



Da série "pocarias da internet". Mallu Magalhães não passava de uma simples tocadora de violão aos 15 anos de gostava de Bob Dylan e alguma coisa folk de baixa qualidade dos Estados Unidos. Achou que poderia ser compositora e colocou algumas de suas músicas no MySpace.

Algum repórter desavisado do caderno Folhateen, da Folha de S. Paulo, achou o trabalho fantástico e assim meia dúzia de trouxas elegeram a adolescente como o "hype" do momento.

E o pior é que até gente que se diz profissional, como Marcelo Camelo, do Los Hermanos, caiu no engodo e passou a apadrinhar a garota. Hoje ela aparece em programas de TV "jovens" e está sendo incensada como fenômeno da música pop.

Só que não pegou. Ninguém conhece a menina, ninguém ouve suas músicas (ela acabou de fazer 16 anos e lançar um CD, a maioria das músicas com letras em inglês). O trabalho de Mallu é constrangedor, até mesmo para uma adolescente esperta e inteligente.

Por mais que sua produção tenha contratado produtores caros e renomados, o resultado é ruim, bem ruim. Ela é uma prova de que a internet é um excelente veículo para a divulgação de porcarias.

Vergonha ao vivo



Não bastasse o caráter duvidoso, assim como o comportamento em várias circunstâncias no futebol, o técnico do Vanderlei Luxemburgo agora debochou de toda a torcida do Palmeiras ao não viajar para um jogo na Argentina e ainda comentar o mesmo jogo pela TV que transmitiu a partida. Falta de profissionalismo é pouco para descrever essa palhaçada. Esse cara não merece treinar times de ponta, muito menos a seleção brasileira.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Mais uma obra de encher os ouvidos, David Gilmour...



O Pink Floyd não existe mais e nunca mais vai existir, mas David Gilmour, o guitarrista da banda, não vai jamais nos deixar esquecer do legado da banda de rock progressivo que simboliza o estilo. "Live in Gdánsk" foi gravado em 2006 na cidade polonesa de mesmo nome, em concerto que comemorava os 25 anos de criação do sindicato Solidariedade, liderado por Lech Walesa e ajudou a minar o comunismo no Leste Europeu.

O CD/DVD traz o melhor de Gimour, sua guitarra limpa, econômica, precisa e maravilhosa, com temas do Floyd e de seu álbum mais recente, "On a Island". O CD/DVD ao vivo também é histórico por ser o último registro sonoro de Rock Wright, tecladista do Pink Floyd, que morreu neste ano, aos 65 anos, de câncer. Indispensável.


E por falar em mestres, Motorhead...



Álbum poderoso, "Motörizer" é mais do mesmo, com qualidade estupenda. O novo do Motorhead traz uma produção mais limpa, com guitarras mais à frente e mais solos de Phil Campbell, um guitarrista discreto mas subestimado. Não há nenhuma música memorável, mas o conjunto é poderoso. As músicas são mais pesadas que as de "Kiss of Death", o álbum anterior, e tem um toque de modernidade que vai agradar aos metaleiros mais jovens. Compre já!!!!!!!



A volta dos mestres do AC/DC, em grande estilo



Não poderia ser melhor a volta ao mercado AC/DC, a maior e melhor banda de rock australiana de todos os tempos e uma das melhores de todos os tempos. E voltou quebrando recordes, em tempos de downloads gratuitos e quebradeira de gravadoras. O álbum "Black Ice" já vendeu quase 2 milhões de cópias pelo mundo, a imensa maioria em CDs físicos.

E o material é de ótima qualidade, com as canções "Rock'n'Roll Train" e "War Machine" valendo o CD. Compre já!!!!!!


Pensar conservadoramente


Merece uma reflexão a interessante análise que o jornalista Daniel Lima, diretor da revista Livre Mercado e um dos principais do ABC, fez sobre o comportamento da classe média nas eleições municipais de outubro último. A íntegra dos textos pode ser encontrada em http://www.blogdaniellima.com.br.

Em larga escala, a classe média de Santo André pensa conservadoramente. Pensar conservadoramente é detestar desembolso para pagamento de impostos municipais da moradia urbana e esquecer que a moradia litorânea ou de campo é muito mais onerosa. Pensar conservadoramente é considerar o IPTU reajustado um acinte contra o bolso do contribuinte e aceitar bovinamente o IPVA extorsivo. Pensar conservadoramente é imaginar todo empresário ponte de enriquecimento da sociedade. Pensar conservadoramente é fechar-se em copas, restringindo relacionamentos aos bem-nascidos, em torno dos quais erguem-se barricadas preconceituosas.

Em larga escala, a classe média de São Bernardo pensa menos conservadoramente. Pensar menos conservadoramente é não acreditar piamente que esquerdistas comem criancinhas, que trabalhadores engajados sejam perniciosos ao capitalismo, é desconfiar de correlação imediata entre empresário e solidariedade.

Estava demorando...


A eleição de Barack Obama para a presidência dso Estados Unidos abre uma nova era na história do Ocidente, para o bem e para o mal. Acredito que a mudança será benéfica e há uma pequena esperança de que tenhamos mais responsabilidade na Casa Branca. Entretanto, a eleição de um negro não ficaria impune... veja abaixo:

DIÓGENES MUNIZ
editor de Informática da Folha Online

O pastor protestante e diretor da Ku Klux Klan, Thomas Robb, declarou após a vitória democrata na corrida à Casa Branca que o presidente eleito dos EUA é "só metade negro". A KKK é a associação racista mais famosa do planeta, identificada historicamente por seus capuzes brancos, cruzes incandescentes e crimes raciais.

Em um texto publicado no site do grupo supremacista branco, Robb afirma que "Barack Obama se tornou o primeiro presidente mulato dos Estados Unidos", e não negro, já que "ele não foi criado em um ambiente negro". "Ele foi criado por sua mãe [branca]", argumenta, na nota intitulada "América, nossa nação está sob julgamento de Deus!".

Robb interpreta que, com a eleição de Obama, o "povo branco" dos EUA vai perceber que é hora de se unir contra aqueles que odeiam seu modo de vida --estrangeiros e negros, de acordo com a KKK. "Essa eleição de Obama nos chocou? Nem um pouco! Nós vinhamos avisando ao nosso povo que, ao menos que os brancos se juntassem, seria exatamente isso que aconteceria", incitou.

Para ele, a votação do última terça-feira (4) não foi uma disputa entre liberais e conservadores, mas "uma guerra racial e cultural, travada contra o povo branco".

Embora já tenha passado por várias "refundações", a KKK foi criada originalmente na segunda metade do século 19, após a Guerra Civil Americana (1861-1865), que pôs fim à escravidão no país. A facção foi erguida com fins de, entre outros, impedir a integração social dos negros recém-libertos.

Durante a campanha eleitoral deste ano, a polícia de Michigan chegou a abrir investigação para apurar a autoria de pichações em um outdoor da campanha de Obama. As ofensas, com suásticas e símbolos da KKK, foram feitas no mês passado.

The Kinks anuncia retorno da formação original



A banda britânica The Kinks se prepara para voltar à ativa, segundo declaração do próprio vocalista, Ray Davies, em entrevista à "BBC". Ele também afirmou que um novo álbum já está em produção.

Depois de 12 anos separados, The Kinks marcam reunião e já produzem novo álbum
"Começamos a fazer um pouco disso, um pouco daquilo. Vai depender da qualidade final. Queremos fazer boas músicas novas", afirmou Davies. A banda está longe dos palcos há doze anos.



Diferentemente de algumas bandas que anunciam retorno depois de um longo período, os Kinks preservam os quatro membros originais - os guitarristas e vocalistas Ray e Dave Davies, que são irmãos, o baterista Mick Avory e o baixista Pete Quaiffe. A reunião da banda dependia da evolução do estado de saúde de Davies, que sofreu um derrame em 2004.

A banda, formada em 1963, lançou seu primeiro álbum --homônimo-- em outubro de 1964. Ao lado de Beatles, Rolling Stones, The Who e The Zombies, ela fez parte da primeira "invasão britânica" às rádios norte-americanas, ocorrida em meados da década de 60.

Mas a maturidade musical do quarteto só chegou em 1966, com o lançamento de "Face to Face". Em 1967, o grupo lança outro clássico: "Something Else by the Kinks". É deste álbum o single "Waterloo Sunset", considerada a 42ª melhor música de todos os tempos segundo uma lista com 500 músicas elaborada pela revista americana "Rolling Stone".

A maior vitória e a pior derrota do PT



A periferia decidiu as eleições no segundo do turno das cidades do ABCD. Enquanto alguns candidatos esperaram que as pesquisas lhes dessem a vitória por inércia, outros trabalharam incansavelmente e obtiveram o prêmio maior. Mais do que em outra eleição na Grande São Paulo, a periferia mostrou em São Bernardo, Santo André e Mauá que decide e tem poder.

Luiz Marinho, a maior vitória do PT, andou mais do que ninguém por São Bernardo. Percorreu todos os bairros pelo menos três vezes e mostrou que tinha projeto de governo. Fez a lição de casa e se mostrou muito bem informado sobre os principais problemas de cada uma das regiões. Méritos de uma equipe de campanha muito bem entrosada e bastante próxima dos líderes comunitários.

Orlando Morando, do PSDB, apostou pesado nas áreas de classe média e acreditou que o fato de ser um empresário conhecido nas áreas mais distantes, onde possui uma rede de supermercados, poderia ser suficiente para lhe render os votos que o distanciavam de Marinho. Perdeu terreno na periferia não porque não a visitou, mas porque não a visitou o suficiente.

O PT e sua coligação soube explorar de forma magistral as contradições do programa de governo tucano, e atacou cirurgicamente as falhas da atual administração, que apoiava Morando. As divisões internas do grupo governista, que perdeu o ex-prefeito Maurício Soares e Alex Manente, se encarregaram de alargar a já enorme distâncias nas pesquisas.

De forma simplista, pode-se dizer que Marinho venceu pela competência de sua campanha em fazer política, em agregar apoios e em escancarar os problemas administrativos da gestão William Dib (PSDB).

Ao adversário restou insistir nas velhas denúncias contra o PT – mensalão, dólares na cueca e outras coisas –, fazer terrorismo a respeito da suposta revogação de benefícios tributários para a classe média caso o PT ganhasse e promessas desesperadas e irresponsáveis, como a redução do preço da passagem de ônibus para R$ 2. Vitória do PT e grande vitória – por que não? – do presidente Lula.
Em Mauá, nenhuma surpresa. Após a caótica administração Diniz Lopes-Leonel Damo, pouco sobrou da prefeitura que pudesse ser aproveitada de forma positiva em qualquer campanha.

Não bastasse isso, o PT colocou o peso pesado Oswaldo Dias, duas vezes prefeito, para soterrar qualquer pretensão dos chamados grupos políticos tradicionais da cidade. A periferia mais uma vez decidiu, embora a realização do segundo turno tenha, de certa forma, surpreendido. A vitória petista era mais do que esperada.

Já em Santo André, a maior derrota petista no país, exatamente na cidade-modelo de gestão experimental bem-sucedida e berço de um dos maiores administradores públicos do Brasil nos últimos anos (Celso Daniel).

Para muitos, surpreendente. Para outros, temerosos com o rumo da campanha de Vanderlei Siraque, não tão surpreendente.

Em que pese a guerra de guerrilha que se transformou a disputa andreense, com lances de bastidores de arrepiar, o fato é que o PT de Siraque perdeu a eleição dentro de casa. A militância, o grande trunfo do PT, desapareceu. Mais do que isso, se recusou a votar em certo sentido.

Siraque encolheu em termos de votos na comparação entre os dois turnos. A altíssima abstenção (16%), mais os votos brancos e nulos, jogaram contra o PT, que desta vez não contou com a militância – exatamente como em 1992, quando os grupos internos se digladiaram e implodiram a candidatura de José Cicote, derrotado por Newton Brandão.

Desta vez, o racha interno foi pior, pois envolveu o não cumprimento de acordos políticos, afastamento de colaboradores históricos e até mesmo a suspeita de sabotagem interna. Sem capacidade de mobilização e de agregação, é de se espantar, na verdade, que Siraque quase tenha ganho no primeiro turno, também com altíssima abstenção.

O fato é que Aidan Ravin (PTB) ganhou a eleição facilmente. A prefeitura caiu-lhe no colo, já que o adversário ajudou, e muito. A periferia aqui também decidiu, mas rejeitando o pleito e sumindo das zonas eleitorais. Rejeitou os candidatos, e decidiu não ir votar. Azar de quem mais dependia dela.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Gloriosa Folha de S. Paulo ABCD


Um pouco de história... a foto abaixo é da redação da Folha ACBD, suplemento da Folha de S. Paulo que circulou na região do ABC entre 1990 e 1995. A foto é do final de 1994. O autor deste blog é o último à direita, de barba.

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Título merecido e festa


Depois de 12 anos, o Palmeiras venceu novamente o Campeonato Paulista em 2008, após duas vitórias contra a Ponte Preta. Como manda a tradição na redação do Jornal Tarde, todo time que ganha um título merece uma foto de todos os torcedores que ali trabalham. Aí está a galera palmeirense da redação.

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Um pouco de blues


O autor do blog insiste em perturbar o sossego dos amigos que tentam tocar alguma coisa. Aqui, em meados de outubro, durante uma megafesta de aniversariantes da redação do Jornal da Tarde, no Johnny's Bar, o autor do blog (à direita) tenta fazer um solo de gaita durante a execução de "Black Night", do Deep Purple. Abismado, o vocalista e guitarrista Júlio Maria (esquerda) tenta disfarçar o constrangimento...

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"Polícia", dos Titãs, em versão death metal



Em meados de setembro, o autor deste blog deixou o constrangimento de lado e resolveu fazer uma versão death metal da música "Polícia", dso Titãs, em um karaokê montado especialmente para uma festa no Johnny's Bar, ao lado do prédio do jornal Estado de S. Paulo. Se não houve constrangimento na hora de cantar, o resultado foi totalmente constrangedor, mas valeu pela farra.

Correção tem de vir de cima


Os bancos voltaram a ser os vilões da sociedade, algo que não se via há uns bons sete ou oito anos. Talvez nunca deixem sê-los, mas neste período o ódio ao símbolo máximo do capitalismo foi amainado por um surto de crescimento que começou após o vexaminoso apagão energético de 2001 e foi potencializado a partir de 2003 no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

É certo que a conjuntura internacional favoreceu, e muito, a melhora econômica de nosso país, e que a política econômico-financeira responsável do governo Lula tratou de manter nos trilhos uma nação castigada por mais de 20 anos de estagnação e crises.

No entanto, na mais recente quebradeira mundial, os bancos voltaram a ficar em evidência. E não está adiantando nada o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, alardearem que o nosso sistema bancário é sólido e que não há risco de quebra ou de falta de crédito. Os bancos voltaram ser vilões, mais uma vez.

Esse pensamento é extremamente perigoso, pois traz de volta o perigo da ideologização das discussões econômicas em um momento delicado, que requer sangue frio, calma, cautela e muito rigor técnico.

O bordão “Bancos, deixem o país crescer”, é bonito e sonoro enquanto peça de marketing de uma época que já passou há muito tempo. É um bordão que soa datado em tempos de sindicatos e centrais sindicais buscando alternativas de financiamentos, novos discursos para atrair mais associados e principalmente novas idéias para ajudar a manter o ritmo crescente do nível de emprego.

Culpar os bancos pela falta de dinheiro no mercado é algo que pode ser injusto dependendo do ponto de vista.

A crise é global e a falta de crédito é generalizada.
Se o governo permite que haja mais dinheiro com os bancos – seja por conta da redução do compulsório que é necessário apresentar ao Banco Central ou por conta de qualquer outra medida de desoneração dos custos do dinheiro –, é claro que os bancos vão se preocupar em capitalizar suas operações antes de que o dinheiro chegue às empresas e aos consumidores.

Afinal, quando não há segurança institucional no mercado, o perigo do “efeito manada” – uma corrida de correntistas as bancos para retirar dinheiro, por exemplo – pode jogar no lixo qualquer tentativa de conter a crise. Afinal, nunca é bom esquecer, estamos lidando com bancos, instituições especialistas em sobrevivência e em ganhar dinheiro. E é bom que se diga, os bancos nada fizeram de ilegal até o momento.

A questão é mais complexa. Se o governo acertou ao permitir mais crédito à sociedade, por meio das ações do Banco Central, ainda peca pela falta de exigências para a sua concessão. As regras ainda estão frouxas, afinal, não bastam apenas discursos indignados do presidente da República sobre o dinheiro empacado nos guichês bancários.

A pressão tem de ser feita é nas ante-salas do Palácio do Planalto e nos corredores do Banco Central. Lula ameaçou rever a as medidas que foram tomadas para que houvesse mais crédito.

Em outras palavras, ameaçou retomar o dinheiro que deixou de ser recolhido ao Banco Central. Não surtiu efeito. Os bancos precisam ser efetivamente cobrados e fiscalizados, e não é o que está acontecendo.

Enquanto todo mundo fica embasbacado com a fusão entre o Itaú e o Unibanco, criando a maior instituição bancária do Hemisfério Sul, o crédito continua represado. Chutar porta de agência bancária não adianta nada.

A sociedade precisa cobrar uma ação mais efetiva dos deputados federais e dos senadores para que o dinheiro saia da toca. Infelizmente, os bancos não estão cometendo nenhuma ilegalidade na letra da lei, por isso eles precisam ser pressionados de forma mais incisiva pelo poder público.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Richard Wright, fundador do Pink Floyd, morre aos 65 anos


da AP e estadão.com.br

LONDRES - O fundador da banda Pink Floyd, Richard Wright, morreu nesta segunda-feira, 15, aos 65 anos, segundo informou o porta-voz do grupo. O músico lutava contra um câncer e morreu em sua casa, na Inglaterra. Segundo o porta-voz, a família não quer dar mais detalhes sobre a perda.


Wright conheceu os também membros do Pink Floyd Roger Waters e Nick Mason durante a faculdade e, juntos, eles formaram a banda Sigma 6, que se tornaria o Pink Floyd. Wright escreveu e cantou alguns dos maiores sucessos do grupo, como The Great Gig In The Sky e Us And Them, do disco The Dark Side Of The Moon, de 1973.


Pink Floyd em 1988; Wright é o da direita

Durante a gravação de The Wall (1979), Wright teve que abandonar a banda por suas diferenças irreconciliáveis com Waters. No entanto, Wright, seguiu tocando com o conjunto como músico contratado durante shows de promoção do The Wall em 1980 e 1981.



Autor de dois discos solos, Wet Dream (1978) e Broken China (1996), o músico continuou colaborando com o Pink Floyd, sobretudo após a saída de Waters da banda, em 1985.



Em 2005, o grupo formado por David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright voltou a se reunir, pela primeira vez desde 1981, para participar do show Live 8, em Londres.

sábado, setembro 13, 2008

Yes fará turnê de 40 anos de aniversários com novos vocalista e tecladista


do Whiplash


Foi divulgado no site oficial do YES o que já corria por fortes boatos. A banda (Steve Howe, Chris Squire e Alan White) fará a turnê em comemoração aos 40 anos de formação com o tecladista Oliver Wakeman (filho de Rick Wakeman) e o vocalista Benoit David, encontrado pela banda na internet.

Benoit, que atualmente está na banda de Rock Progressivo MISTERY, atuava também em uma banda cover-tributo ao YES chamada "Close To The Edge" e sua voz e timbre lembram muito Jon Anderson, o vocalista original. Jon Anderson não poderá participar da turnê devido a um severo ataque asmático que sofreu e comprometeu seu sistema respiratório.

A turnê, intitulada "In the Present", começa em 4 de novembro, em Hamilton, Ontario.
The Who, the best gets better

Vou estrear a primeira postagem de vídeo, por meio do You Tube. Vamos ver se dá certo. É simplesmente o final apoteótico do fime "The Kids All Right", uma coletânea de apresentações do Who entre 1965 e 1977. A música é a fantástica "Won't Get Fooled Again".

sexta-feira, agosto 22, 2008

Dunga é passado



Mesmo quando supostamente acrta, Dunga erra. O técnico da seleção brasileira aceitou a convocação forçada de Ronaldinho "Fantasma" Gaúcho sme condições de sequer dar voltas no campo, engoliu o desprezo pelo torneio olímpico por parte da CBF e aceitou passar vergonha em Pequim.

Seis jogos, cinco vitórias, uma derrota e medalha de bronze. Em tese o futebol masculino não fez feio, mas o que valia mesmo era o ouro. E o timinho de Dunga só enfrentou mesmo um time de verdade, e perdeu com olé. O prazo de Dunga já venceu.

Pelo fim das Olimpíadas



Brilhante a participação brasileira nos Jogos Olímpicos de Pequim. Duas medalhas de ouro faltando quatro dias para o final, com uma delegação de quase 300 atletas. A Jamaica levou dez e ganhou quatro ouros. Questão de eficiência ou puro desperdício de dinheiro público?

É inaceitável que bancos públicos financiem atletas medíocres de modalidades inexistentes. Não dá para mandar gente para o atletismo que vai ficar apenas em 50º lugar. O mesmo vale para outros esportes. Corte já de dinheiro para incompetentes e incapazes, como os vagabundos da ginástica olímpica, tão incensados pela mídia, mas que amarelam sempre. Fora com o vôlei de praia.

Na verdade, os Jogos Olímpicos não passam de um campeonato mundial de educação física. O que importa mesmo é o futebol. Masculino, bem entendido.

Lançamentos rocqueiros do segundo semestre




  • Metallica - Death Magnetic - Finlamente o Metallica começa a a sair das trevas depois do péssimo "St. Anger", de 2003. O CD sai em setembro, prometendo o peso e a qualidade que faltou no anterior. Mais informações aqui.



  • David Gilmour - Live in Gdansk 2006 - Outro subproduto da turnê "On a Island", do guitarrista do Pink Floyd. Sai em CD e DVD. Mais informações aqui.



  • Brian Wilson - That Lucky Old Sun - O ex-Beach Boys vlta mais comedido e lírico. Leia mais aqui.



  • The Law - The Law - Supergrupo de apenas um disco, lançado em 1991. Paul Rodgers (Free, bad Company, Firm, Queen) vai relançar a obra, que teve a participação de Kenney Jones (Small Faces, Faces, Who), Brian May (Queen) e David Gilmour (Pink Floyd). leia mais aqui.

  • quinta-feira, agosto 14, 2008

    Pink Floyd será tema de um cruzeiro marítimo


    do G1

    Roberto Carlos e as micaretas que se cuidem: o Pink Floyd também está nos ramos dos cruzeiros marítimos. O "Great gig in the sea" (referência a um dos clássicos da banda) levantará âncora em 2009. Durante o trajeto Miami-Bahamas, uma banda cover que diz ter sido aclamada por David Gilmour, tocará "Dark side of the moon" na íntegra.



    Ao preço mínimo de US$ 379 (cerca de R$ 615) por pessoa, o pacote de três dias inclui jogos e festas tendo a banda progressiva inglesa como tema. Marcado para maio do ano que vem, o cruzeiro foi concebido por duas empresas, uma delas a responsável pelas turnês do Pink Floyd nos EUA (e intitulada Think Floyd).



    Hits dos discos "Wish you were here", "Animals" e "The wall" também serão tocados pela banda cover.



    Mais informações sobre o cruzeiro são encontradas no site http://greatgiginthesea.com.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 9 - continuação da saga de Rubens Marujo

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se


    As bocas de rango são muito concorridas. Uma das principais é a Casa Dom Orione, que fica na rua 13 de Maio, no Bexiga. É mantida por voluntários que frequentam a igreja N.S. de Achiropita (Xeropita, para os moradores de rua).

    O roteiro é o seguinte: os albergados saem lá pelas 7h da manhã e vão tomar café lá, que é mais reforçado que o do albergue. Depois, esperam até cinco horas para almoçar, às 12h. Na Dom Orione é tudo muito bem organizado.

    Ninguém fica na rua. Todos esperam num amplo saguão, com cadeiras e televisão. Do lado de fora há tanques para lavar roupa e banheiros com chuveiros. Tudo limpinho, bastante higiênico. Para se almoçar ali é preciso pegar uma senha. Os responsáveis pela casa atendem 180 pessoas.

    Outro lugar famoso é o Refeitório Comunitário Penaforte Mendes, que fica na rua de mesmo nome, também no Bexiga. Lá é preciso se cadastrar e são atendidas cerca de 300 pessoas por dia. Ontem fui lá entrevistar alguns freqüentadores. Eles não gostam de fotografias. Têm vergonha ou medo. Apesar da insistência, não obtivemos muito sucesso para fotografá-los almoçando.

    Maloqueiro e corintiano – Denilson de Oliveira, 26 anos, havia acabado de almoçar. Mora na rua e, para sobreviver, vende pastilhas. Trabalhou durante oito anos como palhaço no circo Orlando Orfei, viajou por toda a América Latina e fala muito bem o castelhano.

    Ontem ele estava com pressa. Queria vender tudo rápido para assistir o jogo do Corinthians, à noite, no Pacaembu. Disse a ele que já havia morado num albergue e também era corintiano. Nem poderia ser diferente - disse a ele - maloqueiro é maioria na torcida do Corinthians. Ele riu.

    É verdade: jornalista, maloqueiro e corintiano. Conversamos também com Roberto Gomes, 30 anos, auxiliar de pintura. Está sobrevivendo com a venda de algodão-doce e mora no albergue Pedroso, localizado no viaduto do mesmo nome, sobre a avenida 23 de Maio.

    Mantido pela Igreja Metodista, esse albergue é bem conceituado em todos os sentidos. Por isso mesmo, conseguir uma vaga ali é difícil. "Tive sorte e me sinto bem lá", disse, enquanto aguardava a ordem para entrar na boca de rango.

    Fiz questão de passar na Casa Irmão Faria, que fica na rua Jaceguai, uma ruazinha paralela ao viaduto Jacareí. Lá, eles servem sopa, todos os dias, às 14h. Ali não é necessário pegar senha nem se cadastrar.

    Junto com o pessoal que mora na rua até o cachorro entra. E dá para repetir a sopa de legumes, doada pelo Sacolão do bairro quantas vezes for possível. Um dia, assoei o nariz com meu lenço e os meus companheiros me chamaram a atenção: "Isso não se faz à mesa", me disseram.

    O albergue mais conceituado, em todos os sentidos, é o Arsenal da Esperança. Fica no bairro da Mooca, perto da estação Bresser do metrô. Aos domingos e feriados abre as suas portas às 14h, impedindo que os moradores passem o dia inteiro na rua. O mesmo ocorre quando chove. Está equipado com duas ou três ambulâncias, tem médico e enfermeiras. Oferece vários cursos para os albergados, entre eles, de teatro. Mantém convênios com empresas que oferecem trabalhos temporários, oferece emprego para os albergados que lá residem, remunerando e fazendo registro na Carteira de Trabalho.

    O sistema de identificação digital evita a formação de enormes filas e conta ainda com quadras de futebol de salão. Todos os albergados que por lá já passaram falam muito bem dele. Eu mesmo estava pensando em me transferir para lá, caso continuasse por mais tempo tendo de morar num albergue. Era administrado por pessoas da comunidade italiana, com verbas do governo do Estado. Agora, esse albergue passou para as mãos da Prefeitura e seus moradores temem que a qualidade dos serviços oferecidos caia.

    O albergue São Camilo, administrado por religiosos que também cuidam de um hospital com o mesmo nome é menor, mas o tratamento oferecido é mais humano. O pior de todos era o São Francisco, onde fiquei. Ele foi desativado depois de 8 anos (nunca se tomou uma providência antes para tirá-lo debaixo do viaduto Jacareí). Era uma pocilga. Lembrava muito Auschwitz. Agora, funciona na Baixada do Glicério, mas continua superlotado e muito criticado por seus moradores. Encontrei com alguns deles ontem na Praça da Sé. Eles não gostam de ser identificados, com medo de serem cortados e irem de vez para a rua. Mas ainda reclamando das humilhações a que continuam sendo submetidos.

    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 8 - continuação da saga de Rubens Marujo

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se



    Bocas de Rango

    Ao contrário das pessoas que trabalham normalmente, quem mora em albergue ou na rua detesta os fins de semana, principalmente domingos e feriados. Além de ter menos gente nas ruas, a tristeza bate forte e nos obriga a refletir mais.

    Isso acontecia freqüentemente comigo. Outro grande problema é que boa parte das bocas de rango existentes pela cidade fecham. Bocas de rango são lugares que oferecem refeições gratuitas para os pobres. E é bom lembrar que, na Capital, existem dezenas delas.

    Só no Centro deve haver, aproximadamente, umas vinte. Isso incluindo pessoas que, generosamente, se dedicam à causa social, no anonimato, sem fazer alarde. Assim é, por exemplo, com a senhora japonesa que distribui café da manhã com pão e manteiga na praça da Sé, aos domingos de manhã; outro grupo de senhoras japonesas que distribui lanches no Anhangabaú; e os espíritas, que levam sopa a quem vive sob o Minhocão, além de albergues e outras casas. As que funcionam, naturalmente, são mais disputadas.

    Formam-se filas enormes. Isso acontece porque o número de moradores de rua cresce sem parar. Pouca gente sabe disso, mas da mesma forma que a polícia prende dezenas de pessoas por dia, outras saem livres. E saem em condições deploráveis.

    Jovens que cometeram pequenos delitos, mas ficaram com a ficha suja, não arrumam emprego devido aos antecedentes criminais e só lhes resta a rua para sobreviver. Vergonha – As ruas de São Paulo estão ficando cada vez mais povoadas por eles. Conheci vários e deu para perceber que, muitos, possuem boa índole.

    Trajando apenas uma bermuda e uma camiseta, exibem os pés rachados, sangrando de tanto andar à procura do que comer, do que vestir. E acabam descobrindo as bocas de rango.

    Mas há ainda famílias inteiras que são despejadas, casais com filho recém-nascido, enfim todo tipo de gente que da vida só conhece vicissitude e amargura. Confesso que muitas vezes sentia vergonha ao conversar com eles.
    Nasci em berço de ouro, tive instrução, boa educação e, acima de tudo, uma profissão. Mas estava ali disputando um lugar na fila com aquelas pessoas humildes, com pouca ou sem nenhuma instrução. Meu astral piorava diante da resignação e a força que aquelas pessoas demonstravam. Sentia-me humilhado.

    Minha mente parecia girar como um carrossel, com os seguintes dizeres: fracassado, inútil, não serve para nada. Sentia vergonha até de manchar o nome da profissão que sempre exerci. - O sr. mora em albergue? - Sim, estou morando, por quê? - Mas o sr. não tem cara de quem bebe. Por acaso o sr. é drogado? - Também não, respondia eu, sem graça. -Então o que o sr. está fazendo aqui? O sr. tem cara de doutor, fala muito bem, aqui não é lugar para o sr. - Paciência, coisas da vida. - Mas o que o sr. faz? O que aconteceu? - Sou jornalista, fui imprevidente, não fiz a lição de casa e estou aqui.

    Eu ia chorar – Esses diálogos se repetiram várias vezes nas filas das bocas de rango. Às vezes eu ia chorar. Escolhia a praça Pérola Byington, ali na avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde fica o teatro Imprensa e o Hospital da Mulher. Sentava num banco, abaixava a cabeça e chorava arrependido. - Agora, não adianta chorar, dizia para mim mesmo. Busque força para descascar o abacaxi que você mesmo plantou, falava comigo

    quarta-feira, agosto 13, 2008

    Para melhorar a discussão, uma opinião contrária a respeito do diploma para o jornalismo


    A obrigatoriedade do diploma avilta o jornalismo

    por Maurício Tuffani, do blog Laudas Críticas


    A formação superior em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para o exercício dessa profissão com base em seus preceitos técnicos e éticos. Ela não é obrigatória em países como Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e em vários outros.

    A concepção que vigora na maior parte desses países é a de que não pode haver impedimentos para qualquer cidadão não só ingressar no jornalismo, mas até mesmo criar e manter seu próprio jornal. Na contramão desse princípio estão, além do Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia, que exigem o diploma.

    É por isso que Claude-Jean Bertrand, professor da Universidade de Paris II, afirma em seu livro A Deontologia das Mídias, de 1997: “A excepcionalidade de que goza o jornalismo, dentre as instituições democráticas, consiste em que seu poder não repousa num contrato social, numa delegação do povo por eleição ou por nomeação com diploma ou por voto de uma lei impondo normas. Para manter seu prestígio, e sua independência, a mídia precisa compenetrar-se de sua responsabilidade primordial: servir bem à população.”

    Haveria um mínimo de razoabilidade para a exigência do diploma se ela, por exemplo, valorizasse a profissão. Ao invés disso, ela levou justamente ao seu aviltamento, pois estimulou a criação desenfreada de cursos superiores de jornalismo, que por sua vez gerou um efeito perverso e crônico na relação entre oferta e procura de trabalho, sem falar na baixa qualidade do ensino oferecido.

    Em junho de 2005, havia 35.322 jornalistas com carteira assinada no Brasil, segundo dados da RAIS apresentados pelo próprio Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Nesse mesmo ano, foram diplomados 28.185 alunos pelos 497 cursos superiores em jornalismo, nos quais ingressaram 47.390 alunos, de acordo com o Censo da Educação Superior. Supondo por baixo que os contratados pela CLT sejam um terço do total de profissionais em atividade, bastariam menos de quatro “fornadas” anuais para ocupar todo o mercado de trabalho. Na Itália, cuja população é um terço da brasileira, em 2005 havia 12 cursos de graduação em jornalismo.

    Os cursos superiores de jornalismo do Brasil deveriam ser o que eles são em outros países: um diferencial na formação de profissionais. Para isso, é necessário o fim dessa obrigatoriedade estabelecida pelo decreto-lei 972, de 1969, que não foi assinado por nenhum presidente, mas pela junta militar que governou o Brasil com o Congresso Nacional em recesso, e cujo texto não se ampara em nenhuma constituição ou lei, mas somente no AI-5 e no AI-16.

    De novo em defesa da obrigatoriedade do diploma para o jornalismo


    Volto ao tema porque o STF (supremo Tribunal Federal) deve julgar em breve a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. A obrigatoriedade do diploma está diretamente ligada à regulamentação da profissão. Sem regulamentação, vira terra de ninguém, com modelos virando "jornalistas" e vagabundos diversos querendo o MTB apenas para de beneficiar eventualmente de algumas "benesses" que as carteiras supostamente oferecem.


    Infelizmente, muita gente que eventualmente não tem diploma mas que poderia se tornar jornalista é prejudicada. Paciência, mas as exceções não podem prevalecer, senão não existe mais regra. A exigência do diploma disciplina e regula uma profissão que é frequentemente objeto de cobiça e vilipêndio.


    Pode até não proteger e nem garantir qualidade, mas é o mínimo que a categoria conseguiu para obter um mínimo de respeito e benefícios. Se com a profissão regulamentada os salários caíram e os calotes aumentaram, imaginemos como seria sem a regulamentação.

    A profissão tem uma regulamentação, ainda que esteja sendo atacada e precarizada. E mesmo assim as redações estão lotadas de estagiários, que trabalham de graça, assim como "profissionais" sem diploma trabalhando de graça em jornais do interior.


    Sem a regulamentação, as empresas substituirão com mais voracidade mão-de-obra qualificada por trabalhadores precários em todos os sentidos - intelectual, cultural e legalmente.


    Defendo a exigência do diploma e a importância das faculdades de nossa área, por pior que sejam. É uma forma de garantir (um pouco de) dignidade à nossa profissão e, em tese, mais qualidade na difusão da informação. Os argumentos da promotora são frágeis e genéricos e afrontam a legislação em vigor.


    Os mesmos argumentos que servem para tornar a exigência "inconstitucional" também servem para o contrário. Da mesma forma que não existe advogado sem diploma e sem OAB, defendo que não exista jornalista sem diploma e, no futuro, sem "OAJ" ou CFJ.

    quinta-feira, agosto 07, 2008

    Acredite se quiser...


    Retirado do blog de Juca Kfouri


    Processo No 2008.211.010323- 6

    TJ/RJ - 06/08/2008 15:06:31 - Primeira instância - Distribuído em 11/07/2008


    Regional da Pavuna

    Cartório do 25º Juizado Especial Cível


    AUTOS N.º 2008.211.010323- 6

    RECLAMANTE: CARLOS ALMIR DA SILVA BAPTISTA

    RECLAMADO: JORNAL MEIA HORA DE NOTÍCIAS


    SENTENÇA


    Dispensado o relatório, nos termos do artigo 38 da Lei 9.099/95.

    Primeiro registro que é absolutamente incrível que o Estado seja colocado a trabalhar e gastar dinheiro com uma demanda como a presente, mas... ossos do ofício!

    Ressalto, desde já, estarem presentes todos os pressupostos de regular desenvolvimento do processo e as condições para o legítimo exercício da ação. O autor é capaz e está bem representado, o juízo é competente e a demanda está regularmente formada. As partes são legítimas, há interesse de agir, já que a medida é útil na medida em que trará benefício ao autor, necessária, já que sem a intervenção judicial não poderia ser alcançado o que se pede, e o pedido, por sua vez, é juridicamente possível, tratando-se de compensação por dano moral e pedido de retratação. O que não existe nem de longe é direito a proteger a absurda pretensão do reclamante. A questão é de direito e de mérito e assim será resolvida evitando-se maiores delongas com esse desperdício de tempo e dinheiro do Estado.

    O reclamante, cujo time foi derrotado na final da Libertadores, sentiu-se ofendido com matérias publicadas pelo jornal reclamado, que, segundo ele, ridicularizavam os torcedores, incitavam a violência e traziam propaganda enganosa.

    As matérias, no entanto, são apenas publicações das diversas gozações perpetradas pelas demais torcidas do Estado em razão da derrota do time do reclamante. Tais gozações são normais, esperadas e certas de vir sempre que um time perde qualquer partida, quanto mais um título importante que o técnico, jogadores e torcedores afirmavam certo e não veio. Mais. As gozações são inerentes à existência do futebol, de modo que sem elas este não existiria porque muito de sua graça estaria perdida se um torcedor não pudesse debochar livremente dos outros.

    É certo que o reclamante "zoou" os torcedores de outros times da cidade em razão de derrotas vergonhosas na mesma competição em que seu time foi derrotado, em razão de um dirigente fanfarrão ou em razão de uma choradeira com renúncia, e nem por isso pode o mesmo ser processado. Ressalto que se o reclamante viu tudo isso e ficou quietinho, sem mangar de ninguém e sem se acabar de rir, – não ficou, mas utilizo-me dessa (im)possibilidade para aumentar a argumentação – deve procurar outros esportes para torcer, porque futebol sem deboche não dá!

    Ainda que a matéria fosse elaborada pelo jornal reclamado, é possível à linha editorial ter um time para o qual torcer e, em conseqüência lógica de tal fato, praticar "zoações", o que, em se tratando de futebol, é algo necessário e salutar à existência do esporte. Registro que há jornais que não só têm a linha editorial apoiando um ou outro clube, como há os que são criados pelos torcedores para, dentre outras coisas, escarnecer os rivais, o que é perfeitamente viável.

    Evidente, por todo o ângulo em que se olhe, que não há a menor condição de existir a mínima lesão que seja a qualquer bem da personalidade do reclamante. "Zoação" é algo inerente a qualquer um que escolha torcer por um time de futebol e vem junto com a escolha deste. O aborrecimento decorrente do deboche alheio é inerente à escolha de uma equipe para torcer e, portanto, não gera dano moral, ainda que uma pessoa, por excesso de sensibilidade, se sinta ofendida e ridicularizada.

    Continua o reclamante na sua petição afirmando que o reclamado incita a violência com sua conduta. É engraçado, porque o próprio reclamante afirma que teve que dar explicações à diretoria de seu local de trabalho em razão de desavenças com seus colegas. A inicial não é clara neste ponto, mas se houve briga em razão do reclamante não aceitar as gozações fica ainda mais evidente que o mesmo deve escolher outro esporte para emprestar sua torcida, porque, como já dito, futebol sem deboche, não dá! E o que é pior! O reclamante, se brigou, discutiu ou se desentendeu foi porque quis, porque é de sua vontade e de sua índole e não porque houve uma publicação em jornal. Em momento algum o jornal sugere que haja briga, o que só ocorre em razão de eventual intolerância de quem briga, discute ou se desentende.

    Por fim, o argumento mais surreal! A propaganda enganosa! Chega a ser inacreditável, mas o reclamante afirma que houve propaganda enganosa porque na capa do jornal há um chamado dizendo existir um pôster do seu time rumo ao mundial, mas no interior a página está com "uma foto com os jogadores (...) indo em direção a uma rede de supermercados". Ora, e a que outro mundial o time do reclamante poderia ir se perdeu o título da Libertadores? Qualquer um que leia a reportagem, inclusive toda a torcida de tal time e em especial o reclamante, sabe, por óbvio, que jamais poderia existir foto da equipe indo à disputa do título mundial no Japão, porque isso nunca ocorreu.

    A pretensão é tão absurda que para afastá-la a sentença precisaria apenas de uma frase: "Meu Deus, a que ponto nós chegamos??!! !", ou "Eu não acredito!!!" ou uma simples grunhido: "hum, hum", seguido do dispositivo de improcedência.

    É difícil encontrar nos livros de direito um conceito preciso do que seria uma lide temerária, mas esta, caso chegue ao conhecimento de algum doutrinador, será utilizada como exemplo clássico para ajudar na conceituação.

    O reclamante é litigante de má-fé por formular pretensão destituída de qualquer fundamento, utilizar-se do processo para conseguir objetivo ilegal, qual seja, ser compensado por dano inexistente, além de proceder de modo temerário ao ajuizar ação sabendo que não tem razão e cuja vitória jamais, em tempo algum, poderá alcançar.

    Isto posto, JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO.

    Condeno o reclamante como litigante de má-fé ao pagamento das custas, nos termos do caput do artigo 55 da Lei 9.099/95.

    Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

    Após as formalidades legais, dê-se baixa e arquivem-se.

    Rio de Janeiro-RJ, 31 de julho de 2008.

    José de Arimatéia Beserra Macedo

    Juiz de Direito
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 7 - continuação da saga de Rubens Marujo

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se

    Monopólio da Igreja – Depois disso tudo, cheguei à conclusão de que deve existir "uma indústria da miséria". Em São Paulo, o monopólio dos moradores de rua está nas mãos da Igreja. Ela usa a verba da Prefeitura, mas gasta muito pouco na melhoria dos serviços do albergue.

    Na época em que se chamava Cireneu (nome de um empresário ligado ao grupo Copagaz) a coisa era ruim, mas só aceitavam pessoas com mais de 40 anos. Depois que a Igreja assumiu o albergue, abriu as portas para todo mundo. Então, jovens, líderes de facções criminosas, assaltantes e até traficantes passaram a almoçar e morar lá. Eram comuns os princípios de tumulto.

    "Muquiranas" – Para se conseguir almoçar era preciso esperar, em média, 3 horas, debaixo de chuva ou de sol. Os padres se recusavam a abrir os portões para que pudéssemos entrar e nos abrigar. Um papel colado na parede interna do dormitório indicava que a dedetização estava vencida havia 3 meses. Os dormitórios ficavam infestados de baratas e de outros insetos, principalmente de "muquiranas", uma espécie de piolho que dá no corpo de quem não toma banho, produzindo uma coceira insuportável. É muito fácil ficar infestado. São os moradores de rua que os trazem.

    Com auto-estima muito baixa, mas com alguma dignidade, suportávamos todo tipo de humilhação que nos era imposta, com medo de sofrer represálias: ser cortado e ir para rua. Era fila para entrar, fila para pegar alguma roupa no bagageiro, fila para tomar banho (quando os chuveiros funcionavam) e fila para jantar. Não adiantava muito tomar banho, porque éramos obrigados a vestir a mesma roupa, que cheirava mal.

    Vícios – Pude constatar que a maioria dos albergados já está, de alguma forma, mentalmente comprometida com os vícios adquiridos e não existe uma política específica para tratar dessa questão social. Não há tratamento diferenciado para cada tipo de problema, curso técnico, suporte jurídico, assistência médica. Enfim, não há nada. Entra-se no final da tarde, só toma banho quem quer, dorme-se e, às 5h da manhã, todo mundo acorda.

    No café da manhã é servido um pão (de hot-dog) com manteiga e café com leite de soja (mais dor de barriga em todo mundo). Depois, dez horas passadas na rua. Essa é a rotina. Do jeito que funcionam, esses albergues não contribuem para nada. Dali, a maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Poucos trabalham ou fazem bicos. Estão todos abaixo da linha da pobreza. Dificilmente conseguem se reintegrar à sociedade.

    Chá com política – Quem mora em albergue ou pelas ruas da cidade conhece muito bem o que é uma "boca de rango". É aquele lugar que oferece comida de graça aos pobres. Em São Paulo existem várias delas e uma das mais conhecidas, e bastante freqüentada, é a do "chá do padre". De segunda a sexta-feira, as 14h, a igreja de São Francisco, com entrada pela rua Riachuelo, oferece chá com dois pãezinhos com manteiga. O salão fica lotado e é nessa hora que os religiosos aproveitam para fazer suas pregações políticas, incitando os moradores de rua e albergados a se organizarem em movimentos políticos para reivindicar seus direitos junto ao governo. Até um terceiro mandato do Lula já foi questionado lá.

    Quando não é no chá, essa doutrinação política é feita nos albergues, por meio das assistentes sociais. Mas os albergados são avessos a esses movimentos. As assistentes sociais também convocaram todo mundo para protestar no dia 1º de Maio, a pedido da Igreja. Disseram que era importante a presença dos albergados nessas manifestações. A Igreja mandou confeccionar vários cartazes e distribuíram farto material para que fossem feitas faixas e cartazes. Todos deveriam estar reunidos na praça da Sé. Mas ninguém deu a menor importância a isso.

    A Prefeitura, por sua vez, faz propaganda enganosa, espalhando pelas principais praças da cidade peruas Kombi azuladas, com os dizeres "São Paulo Protege". Existem cerca de 13 mil moradores de rua em São Paulo, mas só a metade deles mora em albergue. Essas peruas só recolhem as pessoas da rua no final da tarde. E nem sempre existem vagas nos albergues. Cheguei a ver gente entrando às 2h da manhã para sair logo depois, às 5 horas."
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 6

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se

    Sem camas – Um dia, com princípio de pneumonia, pedi para ficar lá dentro, pois chovia e fazia frio. Me sentia muito mal. Solicitei a um dos monitores que me deixasse ficar e ouvi:

    "Não enche o saco, meu. Você não sabe que os padres não querem ninguém aqui dentro? Vá embora".

    No dia seguinte, muito mal, me escondi na biblioteca e não saí. Era começo de maio, fazia um frio insuportável. Foi então que presenciei uma cena lamentável: o coordenador dos franciscanos dentro do albergue mandou retirar centenas de camas (são beliches) do dormitório para colocá-las nos porões daquele fétido lugar. Ele dizia aos outros monitores: "Quanto menos camas, melhor. Agora vem o frio, a Prefeitura vai querer mandar mais gente para cá e, desse jeito, podemos dizer que não há lugar". Depois, espaçou as camas que restaram para dar a impressão de que não havia mais lugar.

    Indústria da miséria – Do jeito que funcionam, os albergues não contribuem para nada. A maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Dificilmente conseguem se reintegrar.

    No albergue São Francisco, que funcionava sob o viaduto Jaceguai, muitos dos idosos que lá dormiam não conseguiam mais fazer suas necessidades fisiológicas no banheiro. E sujavam na roupa, na cama, no chão. Não havia fralda geriátrica para eles.

    Muitas vezes vi albergados mais novos ajudando os mais velhos a tomar banho. Vi vários deles caídos no chão, pedindo ajuda. O pior de tudo é que o albergue São Francisco foi desativado, mas na baixada do Glicério (seu novo endereço) a situação continua a mesma, segundo relatos dos albergados que foram removidos para lá. Outros foram encaminhados para um hotel social (a Prefeitura o chama de Centro de Recolhimento), na rua Francisca Michelina, na região central da cidade. A comida é razoável, mas costuma provocar indisposições estomacais.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 5

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se



    "Sentiam prazer em nos humilhar" (Segundo capítulo da série)

    Nesta segunda reportagem, Marujo conta sua dura experiência de três meses num albergue da Prefeitura, onde a Igreja mostrou sua face mais intolerante. Durante o dia, nas ruas e praças. À noite, refúgio nos albergues municipais. Segundo ele, moradores de rua e desempregados são humilhados e usados como massa de manobra por religiosos. Segue o texto.

    “Morei ali no albergue São Francisco, que ficava na esquina da rua Santo Amaro, com o viaduto Jacareí, bem em frente à Câmara Municipal de São Paulo. Ele foi desativado há 15 dias, da noite para o dia, por força de um abaixo-assinado dos moradores, pois o local se transformou em um ponto de albergados e marginais de todo o tipo, e retornou para a baixada do Glicério que estava sendo fechado. Antes o São Francisco chama-se Cireneu e era administrado por uma Ong de quinta categoria, com verba liberada pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social.

    Pois bem. Em abril, os padres franciscanos assumiram o comando do albergue e o que era ruim ficou pior. Acho muito estranho que o padre Júlio Lancelotti e outros religiosos liderem uma passeata com moradores de rua, usando albergados como massa de manobra para conseguir, talvez, mais recursos da Prefeitura.

    Maus tratos – Ali , no albergue São Francisco, os padres, que zelam tanto pela fraternidade, tratavam os albergados de forma desumana. Éramos mais de 400 pessoas amontoadas num imenso porão-dormitório sujo, que alagava quando chovia. Era um depósito de seres humanos, com um cheiro insuportável. Senhores com mais de 80 anos misturavam-se a jovens alcoólatras, drogados, crianças, mulheres, deficientes físicos e mentais, tuberculosos, portadores do vírus da aids, ex-presidiários e outros ainda cumprindo pena condicional, sem nenhum tipo de assistência.

    Aquilo se assemelhava mais a um campo de concentração nazista. Durante cinco anos, o albergue funcionou ali, debaixo do viaduto, sob um estridente barulho, o "dum-dum" dos veículos que passam pelas emendas sobre o viaduto. Esse incômodo barulho martelava nossos ouvidos a noite toda. Nunca se tomou uma providência.

    Com raríssimas exceções, os monitores, contratados pela igreja sem a mínima qualificação profissional, sentiam prazer em nos humilhar, deixando-nos na fila, debaixo de chuva e frio, à espera da hora de entrar. As regras são draconianas. Entra-se após às 17h30 e acorda-se às 5h. Até as 7h, todos têm que ir para a rua, inclusive aos domingos e feriados. As assistentes sociais explicavam que eram ordens da Prefeitura e não podiam fazer nada. Assim, todos, até mesmo as senhoras e outras pessoas com idade avançada tinham de sair, fizesse sol ou chuva.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 4

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se


    Ano todo – Ele funciona assim: um outro agenciador alicia, de uma só vez, albergados ou desempregados que têm RG limpo. Nesse caso, ele precisa formar um grupo de dez a vinte pessoas. O aliciador leva os RGs, tira cópias e os devolve aos proprietários mediante o pagamento de R$ 10. Só que esses RGs serão usados o ano inteiro para a prática dessas operações de câmbio ilegais.

    Bem, eu fui para o Hotel Renaissance. O esquema, porém, conta com casas de câmbio alternativas, em shoppings como o Anália Franco, o Center Paulista, o Interlagos e o Shopping Light. Além desses locais, as operações de lavagem de dinheiro também são feitas em algumas casas de câmbio localizadas no Centro da cidade, como por exemplo nas avenidas São Luís e Paulista.

    Outros Golpes – Mas não é todo dia que acontecem as operações de lavagem de dinheiro. Quando não tem negócio para fazer, o aliciador, já conhecido dos freqüentadores, diz que "a barra tá suja" e que a polícia está dando em cima. Fiquei sabendo que, às vezes, para confundir os policiais, o esquema é feito dentro da estação Sé do metrô, bem em frente às catracas. Na região da rua 25 de Março existem vários outros locais de lavagem de dinheiro. Entretanto, outros golpes são aplicados ou tramados nas adjacências. Um deles, muito conhecido dos malandros, é o do aluguel da conta bancária.

    Ouvi comentários e perguntei do que se tratava:

    "O senhor é albergado"?

    "Sim", respondi.

    "Tem conta bancária"?

    "Não".

    "Então, tá fora".

    É claro que eu não iria participar desses golpes sujos. Mas como repórter-albergado sentia curiosidade de saber como agiam. Diante de minha insistência em saber o que era, o rapaz me contou.

    "O negócio é o seguinte: a gente rouba dinheiro de uma conta bancária, ou das pessoas, e não têm onde colocá-lo. Então, 'alugamos' uma conta-corrente. Por isso perguntei se o senhor tinha uma conta. Colocamos a grana lá. Depois, sacamos o dinheiro e o senhor ficaria com 20% do valor depositado. Esse é o esquema".

    Falsificação – Aí fui percebendo que as escadarias do Teatro Municipal se transformaram num grande ponto de golpes e outras contravenções, apesar da constante e ostensiva presença da polícia. Descobri também que há quem "esquente" Carteiras de Trabalho. Isso significa que quem tem carteira, mas nunca trabalhou, ganha uma série de registros falsos, como se já tivesse trabalhado há muito tempo. Outros querem levantar dinheiro para comprar um computador, a fim de falsificar dólares e outros documentos. Nesse tipo de fraude, pelas conversas que ouvi, a concorrência é grande: um se diz melhor falsificador do que o outro. E há vários outros tipos de golpes tramados e executados ali mesmo, nas escadarias do Teatro Municipal.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 3

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se

    Chá quente – No hotel, eu e o outro colega estávamos com a barba por fazer, mal vestidos e mal cheirosos. Entramos assim mesmo, sem que ninguém nos perguntasse quem éramos. A moça foi conversar com o funcionário do câmbio. Pediu que entrássemos e esperamos para ser atendidos, sentados em confortáveis poltronas. Numa delas havia uma mesinha com um bule de chá quente, que algum hóspede deixara ali. Meu amigo não hesitou em tomá-lo. Fomos chamados. Na minha vez, o funcionário da casa de câmbio solicitou o CPF e o RG. Tirou uma cópia e, antes de completar a operação, fez uma ligação telefônica.

    "Alô, agora não posso mais fazer a R$ 1,77, só a R$ 1,78. Pode ser? Então vou fechar o negócio", afirmou.

    Em seguida, imprimiu um papel numa máquina, tirou cópia dos documentos e me pediu endereço com CEP. Inventei um na hora, porque não fui avisado de que me faria tal pedido. Mas ele aceitou minha resposta. Negócio fechado. Devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro. O funcionário fez a mesma coisa com o outro rapaz e fomos embora. Na porta de saída do hotel, a moça que nos acompanhava nos deu os R$ 15 mais o dinheiro da condução e fomos embora.

    É bom que se esclareça que esse tipo de operação é permitida. O Banco Central autoriza que cada pessoa possa comprar, vender ou remeter até US$ 5 mil por mês. Mas no caso em questão, os doleiros e seus agentes que agem no Centro da cidade aliciam dezenas de albergados para a lavagem de dinheiro sujo. Não se sabe se ele vem de contrabando, tráfico de drogas, de desvios de recursos ou do crime organizado. Muitos albergados já fizeram essa operação mais de uma dúzia de vezes. O esquema é antigo e tão bem montado que existe até uma alternativa para quem não tem CPF.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 2

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se

    Segue o texto de Marujo (1º capítulo da série)

    “O esquema é sofisticado e participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Negócio fechado. Eu devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro.

    Todos os dias, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo e arredores, bem no Centro da cidade, funciona um esquema muito bem planejado de lavagem de dinheiro sujo, patrocinado por grandes casas de câmbio.

    Essas operações são feitas quase o dia todo, mas os horários de pico ocorrem às 11h30 e às 13h30, quando homens agenciados por doleiros aliciam pessoas, na sua maioria albergados, que ficam ali sentados. Esses aliciadores ficam à espera de uma oportunidade para comprar, vender ou fazer remessas de dólares para o Exterior, pagando a cada albergado a desprezível quantia de R$ 15. Como esses albergados não têm dinheiro nem para um cafezinho, se sujeitam a esse tipo de prática, atuando como laranjas.

    O esquema é sofisticado. Eu mesmo participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Não tinha almoçado, estava com fome, então, me deram a dica. Ainda permanecia bem vivo o meu faro de jornalista.

    A operação – Eram quase 14h de uma ensolarada segunda-feira. Fui para a escadaria e, minutos depois, apareceu um homem me perguntando se meu CPF era limpo. Limpo, no caso, significa não ter pendências na Receita Federal. É possível ter o nome sujo na praça, mas um CPF em dia. Além disso, ele perguntou se eu tinha RG e se estava tudo correto. Respondi que sim.

    "Então, tudo ok", afirmou.

    Fui aprovado para fazer a operação. Nas escadarias do Municipal opera-se, principalmente, para três casas de câmbio: Light, Turismo Dez e Brasileiro. Com esta última é mais difícil, porque ela exige comprovante de residência. Mas há quem venda esse documento no local.

    Junto comigo, havia outro albergado que, como eu, estava morrendo de fome. O aliciador pediu que acompanhássemos uma moça grávida (sua irmã) até a região dos Jardins. Até então, não sabíamos exatamente o nosso destino. Nós três pegamos um ônibus (a passagem ela pagou) e descemos na rua Augusta, quase esquina com a alameda Santos. Chegando lá, ela nos contou que deveríamos ir à casa de câmbio que funciona dentro do luxuosíssimo Hotel Renaissance para efetuar a operação com dólares.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 1

    Eduardo Ribeiro
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se


    Ele perdeu tudo o que tinha na vida, inclusive a esperança de viver. Sofreu todos os tipos de humilhação, passou frio e fome, viveu da caridade organizada e nem tão filantrópica assim, perambulou por aí sem lenço e sem documento, tendo as ruas de São Paulo como moradia.

    Mas viu muita coisa errada, outras um tanto suspeitas e foi testemunha de uma das ações mais calhordas que alguém minimamente comprometido com a integridade humana pode aceitar: o uso dos miseráveis para promover lavagem de dinheiro, a céu aberto, no centro de São Paulo, nas barbas da polícia.

    Humilhado mas com o faro jornalístico apurado, ele também viu miseráveis serem usados como massa de manobra da igreja, que tem se valido do rebanho de desamparados para ter acesso a verbas públicas generosas e também para encorpar movimentos políticos com gente que sequer sabe o que está fazendo.

    Rubens Ferreira Marujo, 57 anos, é seu nome e sua história já esteve aqui presente na coluna de 14 de maio, sob o título Sem lenço sem documento e a rua como moradia, que teve imensa repercussão.

    Marujo deixou as ruas, mora hoje num pequeno apartamento no centro de São Paulo e após algumas semanas frilando para o Diário do Comércio foi contratado como repórter de Política para cobrir a temporada de eleições que vem por aí. Voltou a ser um cidadão. Ironia do destino, a história da qual foi personagem transformou-se em reportagens para o próprio DC.

    As duas primeiras, publicadas respectivamente nas edições de segunda e terça-feira desta semana, estão reproduzidos na íntegra a seguir, autorizadas que foram pelo diretor de Redação do jornal, Moisés Rabinovici, e obviamente pelo autor.

    Nelas Marujo conta o que viu e o que viveu, ao lado de centenas de outros moradores de rua, os quais, além do abandono da sorte, sofrem também com os ataques oportunistas de quem, por incrível que pareça, se propõe a tirar vantagem da miséria.

    O título da primeira matéria é “Albergado é usado para lavar dinheiro”. A abertura destaca: “Só quem viveu um drama para saber relatá-lo com fidelidade. Durante três meses, o jornalista Rubens Marujo teve de viver em um albergue da Prefeitura.

    Uma dura experiência de vida, que lhe trouxe uma visão crua, mas privilegiada da cidade e dos esquemas ilegais que perseguem albergados, desempregados e moradores de rua. Difícil imaginar que aquelas pessoas maltratadas que passam os dias sentadas nas escadarias do Teatro Municipal, no Centro de São Paulo, são usadas como laranjas num amplo esquema de lavagem de dinheiro.

    Aliciadores agenciados por doleiros se aproveitam da fragilidade social, emocional e financeira de albergados para, com seus documentos, comprar dólares em casas de câmbio espalhadas por hotéis e shoppings. Por ceder seus documentos, os albergados recebem R$ 15. Tudo isso acontece à luz do dia, todos os dias.”