sexta-feira, maio 13, 2011

Música eletrônica é barulho, não é música



Música eletrônica não passa de barulho, e DJ pode ser tudo, menos músico. Aparentemente não há muito o que discutir sobre as duas máximas, mas há gente que insiste em brigar com os fatos, em espancar e torcer a realidade.

Os recursos eletrônicos sempre foram levados em consideração a partir do momento em que se inventou o abominável sintetizador, no finalzinho dos anos 60, trambolho barulhento que encantou gente decente como George Harrison (Beatles) e Pete Townshend (The Who).

Quando usado de forma inteligente e criativa, sem abuso, o sintetizador foi bastante útil, como nas trilhas sonoras compostas por Harrison e nas obras-primas do Who “Who’s Next” e “Quadrophenia”. Infelizmente, por outro lado, foi responsável por algumas das maiores porcarias já feitas dentro do rock.

Por que essa discussão surgiu? Por dois fatos isolados. Um deles foi uma antiga entrevista de Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, uma extinta revista de música pop a respeito do Benzina, seu projeto paralelo dos anos 90 com forte influência da música eletrônica.

Um amigo músico, ex-roqueiro e maluco por novas tecnologias, mas com gosto musical turvado pelas próprias porcarias eletrônicas que andam ouvindo. Ele fazia referência ao fato de Scandurra ter feito elogios às possibilidades criativas a respeito da música cibernética e artificial, feita por máquinas.

Para azar de meu amigo, ficou sozinho na defesa da “música eletrônica” em uma roda de amigos em um churrasco recente. Foi massacrado por gente inteligente e que tem discernimento e que não se contenta com barulhos artificiais de computadores e sintetizadores.

O outro fato que suscitou esse texto foi uma acidental passagem por um fórum roqueiro de discussões na internet, vinculado a uma revista, em que alguém foi igualmente massacrado por elogiar o trabalho da dupla de DJs MixHell, formada por Iggor Cavalera, ex-baterista do Sepultura e atualmente no Cavalera Conspiracy, e sua esposa, a artista plástica Laima Layton.

Assim como qualquer outra trilha de danceteria, o trabalho do MixHell é forrado de barulhinhos eletrônicos irritantes, tem o som artificial de baixo estrondoso e ensurdecedor e sua “trilha melódica” é repetitiva e anódina, como convém às pista de dança. Ou seja, pode ser tudo, menos música.

Respeito demais o trabalho instrumental de Cavalera. Com certeza ainda é um dos mais importantes bateristas de heavy metal, criou um estilo rico e técnico, com peso e velocidade que viraram referência no estilo. A migração para o barulho eletrônico chocou os puristas.

Se a música eletrônica “amplia os horizontes criativos e as possibilidades musicais”, como acredita Edgard Scandurra, então não é o caso do próprio Benzina e muito menos do MixHell, cujos trabalhos, vamos dizer assim, estão bem abaixo das qualidades musicais que o guitarrista do Ira! e Cavalera sempre apresentaram em suas carreiras.

Boa parte dos músicos consagrados e mesmo os de apoio costumam ser diplomáticos ao falar do uso de elementos eletrônicos em seus trabalhos, mas simplesmente ignoram o que conhecemos por música eletrônica, aquele barulho artificial e insuportável das pistas de dança.

Alguns aceitam que produtores criem arranjos com base em barulhos de computador, outros até brincam com os mesmos barulhinhos que os DJs e os incluem de forma discreta em seus trabalhos. Mas são poucos os artistas sérios que realmente fazem uso desses recursos de forma explícita e escancarada.

Dois gigantes do rock cometeram trabalhos péssimos nos últimos 20 anos, seduzidos pela suposta “modernidade”. Eric Clapton escorregou feio com “Pilgrim”, de 1998, CD no qual suas guitarras foram soterradas por arranjos eletrônicos e barulhos artificiais.

Jeff Beck, outro gênio da guitarra, caiu na armadilha e gravou os insuportáveis “Jeff”, de 2001, e “You Had It Coming”, de 2003, sendo que já flertava com o estilo em 1999 no álbum “Who Else!” Beck gostou do resultado de sua ousadia, mas os fãs não. O jeito foi voltar ao rock, ao blues e ao jazz para gravar “Emotion & Commotion” neste ano.

É possível ficar dias e dias colhendo exemplos para torpedear o barulho eletrônico. Quem gosta deste tipo de música se contenta com muito pouco. Isso não é música, e DJ não é músico, é um tocador de CD. No máximo, animador de festa. DJs que acham que são artistas não merecem respeito. São o que são, o que já é demais.

quarta-feira, maio 11, 2011

Chega de choradeira no metal nacional



De vez em quando bate um ressentimento em algum músico brasileiro de heavy metal e aí começa um rosário de reclamações e queixas sobre a falta de apoio ao estilo no Brasil, sobre a preferência de parte do público aos artistas estrangeiros e de como eles são dedicados e “heróis” por “defenderem” o metal brasileiro e outras pataquadas.

Desta vez o autor das lamúrias é Thiago Bianchi, atual vocalista do Shaman e produtor musical bastante requisitado. Ele enviou uma carta há algumas semanas a vários sites e revistas especializadas reclamando do que chama de “fim de linha do heavy metal brasileiro”. Leia a íntegra da carta aberta aqui.

Em janeiro de 2oo9 a cantilena foi a mesma: alguns músicos brasileiros importantes do heavy metal choramingando a preferência do público por bandas estrangeiras, em vez de apoiar quem batalha pelos botecos da vida divulgando material próprio.

Eduardo Ardanuy, guitarrista do Dr. Sin, é um dos melhores que já vi ao vivo. O estupendo músico concedeu uma entrevista na edição de janeiro de 2009 à revista Roadie Crew, onde fala do lançamento de seu CD solo, “Electric Nightmare”.

No meio do texto, reclama de novo da falta de apoio aos músicos nacionais. “O público brasileiro continua ‘paga-pau’ de gringo, prefere gastar R$ 300 para ver o Judas Priest do que R$ 20 ou R$ 30 para assistir a uma boa banda nacional”, diz o músico, cheio de rancor.


Thiago Bianchi

Essa é uma batalha perdida e esse tipo de lamento já encheu a paciência. Se Thiago Bianchi e o Dr. Sin - banda maravilhosa – não fazem tantos shows quanto gostariam, não adianta culpar o público de shows internacionais. Por mais que o Dr. Sin seja bom – e, repito, é excelente – qual banda você veria se os shows fossem simultâneos? A citada Dr. Sin ou o AC/DC? Dr. Sin ou Black Sabbath? Dr. Sin ou Iron Maiden?

Parece que falta um pouco de bom senso a alguns músicos nacionais. Não é simplesmente uma questão de qualidade – as bandas de rock citadas e milhares de outras são melhores do que o Dr. Sin. É uma questão de oportunidade.

O AC/DC, por exemplo, já tocou mais de 30 vezes na cidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, uma espécie de Belo Horizonte americana. E só vieram três vezes ao Brasil.

A América do Sul não é rota assídua de shows internacionais, embora a situação esteja melhorando bastante. Então é natural que, quando uma banda estrangeira aporte por aqui, mesmo que de porte médio, ganhe a atenção do público.

É o caso dos alemães do Grave Digger, metal tradicional dos melhores, mas que nunca passou de uma banda mediana em termos de público em seus 30 anos de carreira. Entretanto, quando vem ao Brasil – e já veio cinco vezes – lota seus shows.

Por outro lado, é cada vez mais comum vermos shows do Dr. Sin no Brasil, assim como os do Angra, da banda de André Matos, do Almah de Edu Falaschi (Angra) e até mesmo do Krisiun. Todas essas bandas tocam com bastante regularidade e lotam seus shows.

Bianchi escreveu muito, mas disse muito pouco. Clamar pela união do metal e blábláblá blá sobre a falta de apoio não resolve e não vai resolver. Conclamar os amantes do heavy metal brasileiro a entupir caixas de e-mails de emissoras de rádio, TV, jornais e revistas para que ampliem a cobertura do gênero também não é uma alternativa viável – na verdade, é bisonha.

O próprio Bianchi cita várias bandas brasileiras de qualidade em sua carta. Então o que está errado? Culpar a mídia não ajuda, é só uma forma de transferir a responsabilidade por uma situação supostamente desastrosa – será que realmente é?

A cada dia aparecem bandas novas brasileiras e bandas antigas nas páginas de revistas e sites especializados anunciando o lançamento de seus novos trabalhos em CD e em formato digital. Não me consta que todas essas bandas façam isso apenas por hobby. Alguma luz ou alguma esperança de retorno, mesmo que pequeno, existe. Então por que continuar a choramingar?

É ilusão achar que o heavy metal brasileiro terá algum espaço compatível com a sua importância. E não adianta culpar a imprensa e o público. É de se perguntar o porquê de o próprio público do metal nacional ser tão infiel.

O que acontece? Falta organização? Falta qualidade? Falta comunicação? Falta inteligência? Falta tudo isso ao mesmo tempo? Ora, se nem os produtores acostumados a trabalhar no meio investem, o que fazer então? Tentar encher casas de show por decreto?

O metal nunca será popular no Brasil como é na Europa e como já foi nos Estados Unidos – e é raro algum músico norte-americano renomado ficar reclamando de falta de apoio. Trabalhar muito e sempre é a única solução – e isso Bianchi e Ardanuy fazem e são referência no mercado. Reclamar em público sobre falta de apoio não passa, infelizmente, de choramingo inútil.

domingo, maio 08, 2011

Quem criou o heavy metal? Acerta quem diz Blue Cheer



Quem inventou o heavy metal? Essa é a pergunta mais inconveniente do rock, quase tão infame como aquela básica: “Qual a origem do universo? De onde viemos”? As teorias são muitas, mas falta credibilidade para quase todas elas. Então a questão vira briga de arquibancada, com zero de razão e tudo de paixão.

O lugar comum diz que o surgimento do Led Zeppelin, em outubro de 1968, é o inicio do heavy metal. Na mesma época, os Beatles soltavam o famoso “Álbum Branco”, que trazia a obra-prima “Helter Skelter”, que muitos consideram a primeira música pesada da história.

Os radicais preferem cravar 13 de fevereiro de 1970 como a data de nascimento do metal, dia em que foi lançado “Black Sabbath”, álbum intitulado da banda homônima de Ozzy Osbourne e Tony Iommi.

Já os “arqueólogos” do rock gostam de citar o lançamento do compacto “You Really Got Me”, dos Kinks, no começo de 1964, como o marco zero da música pesada – assim como “I Can’t Explain”, do Who, do final deste mesmo ano, asia o marco zero do punk rock.

Eu prefiro seguir uma outra linha, até em homenagem a um baixista que morreu em 2009 e que integrou aquela que provavelmente foi a primeira banda integralmente pesada dos anos 60 – e do rock, em geral.

O Blue Cheer é cria do baixista Dickie Peterson e surgiu em San Francisco, na Califórnia, em 1966, bem no comecinho da era hippie e do flower power. Só que, radicais como eram, o então quinteto já adotava uma postura metaleira e tocava muito alto, com muita distorção, a ponto de destroçar os amplificadores.


Capa do álbum "Vincebus Eruptum", do Blue Cheer

As letras comuns do rock, falando de garotas, carros, bebedeiras e sacanagem em geral, conviviam com os temas soturnos, negativos e pesados. E foi como um trio que no fim de 1967 gravaram rápido e lançaram em janeiro de 1968 o primeiro álbum, “Vincebus Eruptum”, que trazia uma versão para “Summertime Blues”, de Eddie Cochrane, imortalizada na versão pesadíssima e suja do Who ao vivo.

A versão do Blue Cheer era mais pesada ainda, com toneladas de peso e muitos efeitos de guitarra. Peterson era o baixista e vocalista, sendo que a formação clássica era completada por Paul Whaley na bateria e Leigh Stephens na guitarra.

“Vincebus Eruptum” é considerado nos Estados Unidos como primeiro álbum de heavy metal da história. Peterson nunca escondeu que suas influências principais foram o Jimi Hendrix Experience – especialmente a apresentação do Monterey Pop Festival, em 1967 – o Who e o Cream.


O trio Blue Cheer no começo de 1968

Dickie Peterson costumava dizer que o Blue Cheer não fazia nada demais. “Nós pegávamos o blues e o distorcíamos até se tornar irreconhecível. Parece que fomos os primeiros a fazer isso com tamanha competência…”

Seja por desconhecimento, ou mesmo por falta de informação – na verdade, uma checagem de datas –, alguns críticos ingleses citam de vez em quanto “In-A-Gadda-Da-Vida”, o segundo álbum de estúdio da banda Iron Butterfly, lançado em meados de 1968.

Tanto o álbum como a música-título são bastante pesados, mas ainda assim perdem por pouco para o Blue Cheer – diz a lenda que o vocalista do Iron Butterfly, Doug Ingle, estava tão bêbado quando gravou a música “In the garden of Eden”, que a faixa 6 passou a se chamar “In a gadda da vida”.

Seja como for, o primeiro álbum do Blue Cheer, “Vincebus Eruptum”, merece uma audição para conferir o verdadeiro marco zero do heavy metal.