sexta-feira, março 29, 2013

Falta clareza e inteligência aos partidários da regulação da mídia

Transcrevo artigo do Sandro Vaia, que está no blog do Noblat: Quanto riso, quanta alegria no partido de reguladores da mídia: exultam ao citar como exemplo as medidas que a Inglaterra tomou para domar seus tablóides amalucados. E, com o cinismo que os caracteriza, querem usar isso como exemplo de que países democráticos, sim, regulam a mídia e que quem resiste a medidas semelhantes no Brasil é um renitente reacionário. Esquecem de algumas pequenas diferenças: na Inglaterra, os tablóides (notadamente os de Rupert Murdoch, como o News of The World, que acabou sendo fechado ) usaram métodos criminosos para adulterar ou forjar informações. O que provocou as reações da sociedade e as medidas anunciadas não foram informações desabonadoras ao governo mas o uso de práticas criminosas. Noticiar o mensalão, denunciar casos de corrupção e criticar medidas do governo não tem nada a ver com uso de chantagem, espionagem através de grampos ilegais ou extorsão que os tablóides, e mais especificamente o News of The World , foram acusados de praticar. Delitos são delitos e não consta que a imprensa brasileira esteja sendo acusada de praticar ações criminosas que motivem medidas voluntárias de “regulação” como as que estão sendo adotadas na Grã Bretanha. O órgão regulador criado na Grã Bretanha é independente, de adesão voluntária, prevê a criação de um código de normas, pedidos de desculpas por eventuais erros publicados e direito de resposta às pessoas que eventualmente sejam envolvidas de forma equivocada no noticiário. Uma solução britanicamente civilizada que não tem nada a ver com vingança rancorosa por diferenças políticas. Agora leia e compare as medidas britânicas com esse item da proposta encaminhada pela CUT e pela FNDC (Forum Nacional de Democratização da Comunicação) e endossada pelo diretório nacional do PT: “O FNDC reivindica que este Marco Regulatório leve efetivamente à regulação da mídia, e contenha, também, mecanismos de controle, pela sociedade, do seu conteúdo e da extrapolação de audiência que facilita a existência dos oligopólios da comunicação que desrespeitam a pluralidade e diversidade cultural. Há alguma dúvida a respeito do que possa significar o pedido de “mecanismos de controle, pela sociedade, do seu conteúdo (...) ? É isso mesmo que está escrito: mecanismos de controle de conteúdo. Por quem ? Por que motivo? Que espécie de controle? Quem decide ou define o que é a sociedade, o que é e como ela pretende controlar conteúdos ? E quais são os conteúdos bons e os maus para ela? É aí que mora a diferença entre o caso britânico e o caso brasileiro, que os petistas, com ar de inocência, preferem fingir que ignoram. Como se nós - e Paulo Bernardo,o ministro deles,que sabe muito bem quais são as intenções - fossemos idiotas.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Para Cuba, com carinho

Eugenio Bucci * A visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil, esta semana, mobilizou opiniões de todo tipo. Em Brasília, parlamentares reagiram de modos antagônicos à presença dela no Congresso Nacional. Uns, como o senador petista Eduardo Suplicy, puseram-se de pé para aplaudi-la. Outros torceram o nariz. Representantes de autodenominados "movimentos sociais" esgoelavam-se para xingá-la de "agente da CIA", etc., como já tinham feito no Recife. Eram reações esperadas, assim como era esperado que Yoani roubasse a cena em todos os noticiários. Simpatizantes do governo cubano, mesmo os de boa-fé, dizem que tudo não passa de propaganda da imprensa burguesa contra o socialismo dos irmãos Castro. Não é bem assim. Colunista deste jornal, autora do livro De Cuba, com Carinho (Editora Contexto), uma antologia de crônicas em que descreve com acidez e delicadeza o seu cotidiano em Havana, Yoani é uma dessas pessoas que se tornam símbolo de uma causa. Está para a ditadura cubana, hoje, mais ou menos como Nelson Mandela, guardadas as proporções, esteve para o apartheid na África do Sul, tempos atrás. Conquistou notoriedade internacional e foi apontada como uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. Os militantes que aqui a hostilizam com ares de fúria deveriam parar para refletir e considerar, ao menos considerar a hipótese de que o interesse público em torno da figura frágil dessa mulher não venha de nenhuma estratégia de propaganda engendrada pelo imperialismo ianque. Não somos todos nós, aqui, cordeiros obedientes do Tio Sam, por mais que tenhamos um dedo de simpatia por Barack Obama (por sinal, é bem pouco provável que o Tio Sam, esteja ele onde estiver, fique preocupado com uma blogueira de Havana). Yoani Sánchez é notícia não por obra de uma conspiração internacional. Em primeiro lugar, ela é notícia, em boa parte, graças à barulheira de seus detratores, que fazem com que sua passagem por aqui vire um incidente de parar o trânsito. Em segundo lugar, e no que mais importa, ela é notícia porque, em sua saga pessoal, se escancara a grande contradição da qual Cuba nunca soube se libertar. Em Yoani vemos o significado final de mais de meio século da tirania da opinião que tomou conta da ilha. Na história dessa blogueira podemos vislumbrar o que foi feito (e desfeito) das utopias coletivistas que ainda enrijecem a fisionomia da América Latina. Sob qualquer perspectiva, Yoani é notícia. Os seus movimentos interessam a qualquer cidadão que preze a liberdade. É certo que autocracias existem em toda parte do globo terrestre, enclausurando dissidentes (como em Cuba) e perseguindo homossexuais (os de Cuba chegaram a ser confinados). Por que, então, falar tanto de Cuba e tanto de Yoani Sánchez? Porque essa mulher é a prova viva da promessa libertária não cumprida pelos Castros, uma promessa que seduziu e envolveu, em seu início, algumas das maiores inteligências do nosso continente. Falar de Cuba - e de Yoani - é entender a nossa História. Aí vêm as acusações conhecidas. Ela recebe fortunas do exterior. Colabora com o imperialismo. Mente. Ora, e daí? Mesmo que isso seja absolutamente verdadeiro, não muda nada. Mesmo que ela não passe de uma embusteira, isso por acaso retira dela o direito de viajar para onde bem entender? Agora Yoani conseguiu o seu passaporte, mas não foi simples. Foram 20 tentativas frustradas. Ela era uma prisioneira, como muitos de seus conterrâneos são até hoje. O regime castrista, acuado, teve de ceder, teve de outorgar-lhe o documento como se fosse um indulto. Mas até aqui vinha prevalecendo o argumento de que, sob suspeita de ser uma agente provocadora, uma cubana não poderia sair do país. Os militantes que a hostilizam deveriam refletir um pouco: desde quando isso é democracia? Mesmo que Yoani defendesse abertamente os Estados Unidos - o que ela não faz, pois, entre outras coisas, critica o bloqueio imposto por Washington contra Cuba -, por que isso deveria retirar dela o direito de ir e vir? Com base em que princípio dos direitos humanos? O fato é que a simples existência de Yoani Sánchez desmascara o arbítrio que se fantasia de democracia participativa. A democracia não se resume ao respeito à vontade da maioria (se é que, em Cuba, a maioria apoia mesmo o regime); a democracia exige igual respeito aos direitos da minoria, mesmo que essa minoria não passe de uma só pessoa. O socialismo que cobra seu preço em liberdade não pode ser chamado de igualitário. O socialismo que faz a História girar para trás, que volta no tempo, que adota uma ordem mais repressiva e mais primitiva que a do liberalismo político, não constitui um avanço, como se diz, mas um retrocesso (quase sempre com traços de selvageria). Quando as massas, embriagadas pela crença de que exercem o poder das multidões, marcham para silenciar os desviantes, a serviço de um governo, o que se tem é o germe do totalitarismo, nunca a libertação. Que agora, no Brasil, alguns jovens tenham tentado, aos berros, impedir Yoani de falar é compreensível. Talvez seja até aceitável. Apesar de deselegante, esse tipo de protesto faz parte do código gestual do embate político (este modesto escrevinhador, quando estudante, já participou de manifestações assim, tentando cassar a palavra das autoridades do governo em solenidades públicas). Mas agora a ilusão que move os manifestantes contra Yoani é mais problemática. Eles tentam suprimir a expressão de uma pessoa comum, para que nela ninguém veja o vazio insuportável do regime político que adotaram como religião. No Jornal Nacional de terça-feira, o senador Suplicy, ao lado da visitante cubana, apareceu com o rosto transtornado, gritando, tentando acalmar os que a insultavam: "Tenham coragem de ouvir!". Não adiantou. Eles estavam surdos. Inabaláveis em sua fé. *Eugênio Bucci - JORNALISTA, PROFESSOR DA ECA-USP e DA ESPM. EX-PRESIDENTE DA RADIOBRAS NO PRIMEIRO GOVERNO LULA (2003-2007)

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Jornal da Tarde: uma luta histórica

Em conjunto com o Sindicato, jornalistas enfrentam demissão em massa, resistem e preservam mais da metade dos empregos ameaçados Guto Camargo e Paulo Zocchi Os jornalistas de São Paulo receberam uma péssima notícia em outubro passado: o fechamento do Jornal da Tarde, diário que, desde o seu surgimento, nos anos 60, renovou a imprensa nacional, com uma linguagem moderna e criativa. A reação coletiva da redação, porém, deixou um saldo imensamente positivo: conjuntamente com o Sindicato dos Jornalistas, iniciou-se de pronto uma luta decidida em defesa do emprego e dos direitos de todos. Foram semanas de mobilização, que impediram a empresa de demitir os jornalistas após o fechamento da redação, em 31 de outubro, e, ao final, garantiram a permanência da maioria em novas funções na empresa e um pacote de benefícios considerável para os que saíram. Tudo somado, a luta constituiu-se num marco histórico: é a primeira vez em anos que os jornalistas paulistas conseguem enfrentar coletivamente uma demissão em massa, estabelecendo uma barragem à decisão da empresa. Nesta matéria, contamos um pouco desse episódio. Certamente, suas lições são valiosas para nossa atual vida sindical, marcada por vagas de demissões em muitas empresas. Um leitor reclama O telefone tocou na redação do Jornal da Tarde, em 10 de outubro passado. Um leitor ligava para protestar contra o fechamento iminente da publicação. Ao contatar o setor de assinaturas para fazer sua renovação, havia sido informado pela atendente que o jornal deixaria de circular no início de novembro. A redação entrou em tumulto. Vários jornalistas telefonavam para confirmar a informação com o setor de assinaturas. Aparentemente, apenas a redação não sabia do que já era corrente em outros setores da empresa. Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado, tentou acalmar os ânimos, afirmando que eram apenas boatos e uma confusão do pessoal das assinaturas. Ainda antes do final do dia, o Sindicato dos Jornalistas tentou em vão um contato com a direção da empresa. Enviou então um comunicado ao Grupo Estado, estabelecendo sua posição: “A hipótese de demissão em massa dos profissionais é inconcebível e poderá ser alvo de ação de dissídio coletivo junto ao Tribunal Regional do Trabalho, pois fere os princípios da OIT da função social do trabalho”. Para os jornalistas, a possibilidade de fechamento do JT, naturalmente, causava tristeza e preocupação quanto ao futuro. Nossa categoria vive uma realidade tão difícil que se pode dizer que o direito mais fundamental, atualmente, é o direito ao trabalho. O comportamento da empresa, porém, de querer tapar o sol com a peneira, tratando com total falta de respeito jornalistas que, por vezes, dedicaram vários anos de sua vida à publicação, causou uma indignação crescente, que explodiu em 16 de outubro, quando vazou um e-mail entre diretores da corporação confirmando o que se tentava esconder. Na véspera, a diretoria do Sindicato havia solicitado autorização para conversar com os jornalistas na redação, recusada pela empresa. Em nota, a entidade propunha uma linha de ação: “O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo opõe-se a qualquer demissão e luta para que todos os profissionais hoje vinculados ao JT mantenham seus empregos”. Após uma redução significativa de pessoal nos últimos anos, o jornal chegava ao final de 2012 com menos de 50 profissionais: eram 47 ligados à sua folha de pagamento, mas seis já estavam alocados no Estadão. No total, então, somavam 44 jornalistas, sendo 41 contratados e três PJs. Havia mais três estagiárias. Desde o início das conversas, os diretores do Sindicato propuseram um foco claro: deveríamos lutar para que, mesmo que o JT fechasse, o Grupo Estado mantivesse o conjunto em seus quadros, no Estadão, na Agência Estado ou na internet. A ideia tornou-se também a de toda a redação. Negociações Após combinar com jornalistas do JT, diretores do Sindicato foram à porta do Grupo Estado, em 17 de outubro, para conversar com a categoria. Também protocolaram na portaria um ofício, reivindicando a formalização de Termo de Compromisso Formal de Intenções da empresa, com as seguintes medidas: - garantia de manutenção da circulação do Jornal da Tarde até 31 de dezembro; - compromisso da direção do Grupo Estado de comunicar o Sindicato com prazo mínimo de 30 dias de antecedência caso houvesse intenção de fechar qualquer de seus veículos de comunicação; - abertura imediata de negociações com o Sindicato para “buscar alternativas que minimizem o impacto de qualquer mudança na empresa”. No ofício, o Sindicato insistia em conversar com a empresa, “visando defender os legítimos interesses dos jornalistas”, e protestava contra a falta de transparência: “As empresas jornalísticas são boas para defender a ‘liberdade de expressão’ para seu público externo, mas, quando se trata de relações de trabalho, o que vemos são medidas secretas, entabuladas às escondidas, e a negativa em debater e negociar abertamente”. No meio da tarde, a redação do JT desceu em peso para a calçada. Realizou-se então a primeira assembleia, que debateu a difícil situação em curso. Aprovou-se o ofício e a luta por nenhuma demissão. Decidiu-se dar um prazo de 72 horas para a resposta da empresa e marcar uma nova assembleia. A pressão surtiu efeito. No final da tarde, a direção da empresa aceitou conversar com o Sindicato pela primeira vez – representado então pelo presidente, Guto Camargo; Paulo Zocchi, diretor Jurídico; e o advogado Raphael Maia. Pelo Grupo Estado, dois executivos reuniram-se com o Sindicato, receberam em mãos o ofício e desmentiram categoricamente que o fechamento do JT já estivesse demitido. Comprometeram-se a dar uma resposta às reivindicações no prazo proposto. Nos dias que se seguiram, surgiam novas informações a cada momento confirmando a realidade da decisão tomada. Os jornalistas sentiam crescer o sentimento de indignação e a decisão de comprar a briga. Decidiram que a assembleia marcada para a terça-feira, 23 de outubro, aconteceria às 18h, em frente à própria empresa. Para sua realização, o trabalho seria interrompido já relativamente próximo ao horário do fechamento, de modo a mostrar a firmeza e determinação dos funcionários. Estado de greve Inutilmente, o Sindicato dos Jornalistas buscou uma resposta do Grupo Estado ao ofício entregue. Nada na segunda-feira, nada na terça, a apenas uma semana da data prevista para o último dia de trabalho. Nesta situação, instalou-se a assembleia. A redação ficou deserta. Apesar da garoa, praticamente todos os jornalistas do JT estiveram presentes. Foram informados da situação. Em seguida, a direção do Sindicato propôs que se decretasse estado de greve. A empresa seria notificada no dia seguinte de que, em 48 horas, a redação poderia cruzar os braços. O movimento, porém, insistiria em negociar enquanto fosse possível. Houve perguntas, questões e debate. Ao final, a aprovação da proposta foi unânime. Os jornalistas voltaram sem pressa a suas mesas de trabalho, como para deixar clara sua postura inconformada diante das imposturas da empresa. A entrega da notificação de greve, no dia seguinte, não foi tão fácil. A portaria não quis receber o comunicado, fazendo um gerente da empresa vir buscá-la pessoalmente depois de um certo tempo. Com a notificação entregue formalmente e protocolada pela empresa, os advogados do Sindicato partiram para o Tribunal Regional do Trabalho tentando a marcação de uma audiência de emergência para tratar do conflito. Foram bem-sucedidos. Enquanto isso, espontaneamente, jornalistas do Estadão passavam um texto em solidariedade aos colegas do JT, obtendo 104 assinaturas: “Nós, abaixo-assinados, estamos solidários aos profissionais do Jornal da Tarde, hoje em estado de greve. Como funcionários do Grupo Estado, declaramos apoio à postura de nossos colegas, que sempre fizeram do JT um dos veículos de maior respeito e credibilidade do país. Unidos, também desejamos uma maior transparência neste momento. É difícil e doloroso trabalharmos com normalidade enquanto, do outro lado da redação, nossos colegas do JT estão nesta situação.” Passaram as folhas aos diretores do Sindicato e pediram, de forma decidida, que fossem entregues como um protesto à direção da empresa, num grande momento de toda esta batalha! Assim, tomou forma concreta um dos pilares dessa luta exemplar: a questão dizia respeito a todos os funcionários do Grupo Estado, e não apenas à redação do Jornal da Tarde. Pega de surpresa pelo desenrolar dos acontecimentos, e sob pressão de seu corpo de jornalistas, a direção do Grupo Estado tratou de convocar o Sindicato rapidamente para uma reunião, em 25 de outubro. Desta vez, a equipe da empresa estava reforçada por um advogado de fora, notório especialista em crises trabalhistas. O encontro foi marcado, da parte da empresa, pelo excesso de expressões diplomáticas – “décadas de tratamento respeitoso”, “grande cuidado com os funcionários”, “transparência na gestão” – e pelo vazio de informações concretas. Novamente, o fechamento do JT não foi confirmado. Transferiu-se a continuidade da conversa para a audiência, marcada para a segunda-feira 29 de outubro. Conquista da estabilidade Presidida pela desembargadora Rilma Hemetério, e acompanhada pelos jornalistas do JT, a audiência de conciliação no TRT tornou-se memorável. De início, os representantes da empresa anunciaram pela primeira vez que o JT encerraria sua circulação em 31 de outubro. Em outras palavras, a redação fecharia seus trabalhos no dia seguinte. Dos 41 contratados, 25 seriam demitidos. O Sindicato protestou e defendeu o reaproveitamento integral dos jornalistas pelo grupo. Após uma interpelação da magistrada, os prepostos empresariais propuseram quatro dias de prazo para a negociação. A juíza reagiu: “Absurdo!” Ao final, por proposta da desembargadora, chegou-se ao seguinte acordo: - estabilidade para todos os jornalistas pelo prazo de um mês, período aberto para negociar; - constituição de uma comissão de negociação com três representantes eleitos pela redação e participação do Sindicato dos Jornalistas; - realização de assembleia no final daquela tarde dentro da empresa. O Sindicato levantou ainda a questão dos três PJs, que não estavam integrados pelo acordo, e destacou a importância da mobilização realizada pelos jornalistas do JT, condição essencial para tudo o que se havia conseguido. Sem ela, o Grupo Estado teria realizado as demissões sumariamente. Naquela tarde, a assembleia discutiu a estratégia de negociação e elegeu os três representantes: Alessandro Osmar Gil, Marcelo Moreira e Roberto Fonseca. Nas semanas seguintes, realizaram-se quatro reuniões da Comissão. Na primeira, a empresa se comprometeu a estender aos três PJs as mesmas condições negociadas para os demais jornalistas. Propôs dar ao conjunto dos profissionais licença ou férias no mês de novembro. Os jornalistas, porém, propunham-se a trabalhar no site durante este período. Na semana seguinte, acordou-se que todos continuariam vindo à redação, e que poderiam ser pautados. A empresa anunciou ainda que estaria absorvendo 18 jornalistas imediatamente (dos 47 registrados), deixando a situação dos demais 29 (e três PJs) em discussão. Os três estagiários foram remanejados e mantidos no grupo. Nas negociações, a linha dos jornalistas – Sindicato e representantes – foi a de tentar acertar um vantajoso plano de demissões voluntárias, com 12 salários de gratificação e um ano de plano de saúde, buscando garantir os empregos de todos que desejassem permanecer no grupo. A empresa, por sua vez, quis enveredar pela discussão de “critérios” para demissão, iniciativa rejeitada liminarmente. A distância entre as duas posturas levou as negociações a um impasse, que se estendeu até 4 de dezembro, quando, em nova audiência, a desembargadora enviou a questão para julgamento. Enquanto isso, os jornalistas – agora do ex-JT – mantinham-se agrupados, vindo à empresa diariamente e realizando assembleias periódicas, nas quais se discutiam o andamento das negociações e as medidas a tomar. Mais de um mês após o fechamento do jornal, nenhuma demissão havia ocorrido. Em 7 de dezembro, nova vitória: o relator do processo, desembargador Davi Meirelles garante, por liminar, a estabilidade para os jornalistas do JT até o julgamento da questão. Acordo Para tentar solucionar a questão ainda antes do final do ano, Meirelles acabou convocando uma reunião entre as partes em 19 de dezembro, no TRT. Na audiência, a direção da empresa acabou chegando à seguinte proposta: incorporar mais 12 trabalhadores, demitindo 17 em 21 de dezembro. Estes teriam três salários de indenização e mais seis meses de convênio médico. Assembleia realizada na redação, na mesma tarde, aprovou a proposta. Ao final, dos 44 jornalistas do JT, 24 foram mantidos na empresa. Os demitidos acabaram recebendo quase cinco meses de salários a mais, considerando os três de indenização e os 51 dias obtidos de estabilidade (além dos demais direitos, como 13º, férias e FGTS, associados ao período estável). Os três PJs tiveram as mesmas condições. Na assembleia final, além da óbvia tristeza pela partida de vários colegas, havia um sentimento generalizado de orgulho e de vitória. Afinal, por sua luta coletiva, os jornalistas conseguiram reduzir o número de demissões, forçar a negociação com a empresa, manter-se presente no local de trabalho por semanas e arrancar compensações importantes para os demitidos. Todo o processo mostrou a força de nossa categoria quando consegue agir coletivamente, em conjunto com o Sindicato. E a entidade conseguiu dar respostas adequadas e em tempo de ajudar a mobilização. Como disse Guto Camargo na assembleia final: “Travamos o bom combate. Foi uma conquista histórica, não só para os jornalistas do JT, mas para toda a categoria dos jornalistas de São Paulo”. No atual contexto, em que diversas empresas anunciam demissões, as lições do JT são fundamentais, pois apontam o caminho da resistência. A possibilidade de uma luta vitoriosa depende, sobretudo, da ação unida e organizada dos próprios jornalistas.

domingo, fevereiro 24, 2013

Jornal da Tarde: uma luta histórica

Uma professora e dona de casa nem um pouco sofisticada, e simplória até, que se diz blogueira, conseguiu demolir sem esforço as precárias fundações do "pensamento" de uma parte expressiva e inútil da esquerda nacional. Yoani Sanchez demonstrou a fragilidade intelectual e institucional dessa esquerda: arbitrária, fascista, retrógrada, sem conteúdo e tutelada. O que era para ser uma simples turnê sem glamour e com interesse zero para a maioria das pessoas se tornou em um fenômeno midiático. Essa blogueira não merecia um vigésimo da atenção que teve por aqui. Mesmo em países onde existe uma real admiração, ela nunca passou de uma figura meramente exótica. No entanto, a esquerda brasileira, em sua falta de inteligência crônica desde os anos 90, conseguiu a façanha de transformá-la em uma intelectual respeitável, em uma celebridade política internacional. Nenhuma ação política de desinformação no Brasil foi tão desastrosa quanto essa "campanha" contra a blogueira cubana. Meia dúzia de pessoas sabia quem ela era antes da palhaçada promovida por grupelhos esquerdistas. Três dias depois do desembarque, ela já era uma celebridade internacional, com cobertura diária até do Jornal Nacional, que pretendia ignorá-la por completo. É difícil encontrar tamanha incompetência nos anos recentes da política brasileira. O único mérito que a blogueira tem é a sua origem dissociada da tradicional "dissidência" cubana: não é uma intelectual, não é uma artista, não é professora universitária, não tinha aspirações políticas e não era egressa da nomenklatura cubana, além de ter a intenção de se suicidar por meio de uma greve de fome. Aí reside o fascínio que despertou em certos círculos intelectuais europeus e latino-americanos: é uma pessoa comum que decidiu se manifestar. E é isso o que mais enfureceu a esquerda retrógrada da América Latina: é um a dissidente que não cita pensadores e filósofos, que faz poeminhas libertacionistas. É uma pessoa que tenta trabalhar todo dia e que é perseguida por discordar e pensar. Yoani Sanchez narra em seus textos o seu cotidiano e o de seus vizinhos, e mostra que mais gente do "povo" sabe, quer e consegue pensar, e que quer mudanças. Ainda que suas ideias sejam toscas - e muitas delas são -, primárias (quase todas) e que supostamente esteja tendo as despesas pagas por entidades e organizações não-esquerdistas ou de "direita" (é óbvio que a esquerda babenta de raiva jamais a financiaria), Yoani está longe de representar um perigo para a paranoica ditadura cubana. Gente mais bem preparada e mais representativa não conseguiu essa honra. Não será essa blogueira que conseguirá. Mas ela precisa agradecer até o fim de sua vida o empurrão que recebeu da esquerda brasileira, que a transformou em aquilo que ela nunca foi e que provalmente jamais voltará a ser: uma celebridade política internacional. A esquerda brasileira é muito ingênua e inocente, e parte expressiva de sua composição é completamente burra e ignorante, muito mais do que a direita asquerosa, corrupta e igualmente retrógrada.

sexta-feira, novembro 09, 2012

Como destruir um grande jornal

Ethevaldo Siqueira Temo pelo futuro dos maiores jornais brasileiros. A começar do Estadão. Eles estão ameaçados de desaparecer porque ainda não encontraram o modelo de negócios que lhes permita sobreviver nesse mundo caótico do jornalismo eletrônico. O mais grave não é fim dos jornais impressos, cujos dias estão, realmente, contados. Mas a falência das empresas ou instituições por eles responsáveis. É claro que o jornalismo não morrerá. Entretanto, a inviabilidade econômica das empresas jornalísticas significa, acima de tudo, a dispersão das melhores equipes profissionais, a perda da maioria de seus talentos e a desestruturação de um setor. Por conhecer o jornal de perto há mais de 45 anos, meu maior temor é com o futuro do Estadão. Publicação centenária e, sem dúvida, um patrimônio da cultura do País, o Estadão precisa cruzar o abismo da mudança tecnológica e superar o desafio econômico que essa mudança significa. E pode fazê-lo. Creio que ainda há tempo para salvar as empresas ou instituições que fazem os grandes jornais brasileiros. As duas grandes ameaças que podem liquidar essas publicações, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, são duas: o novo cenário tecnológico e a desvalorização das redações. Diferentemente da degradação progressiva das redações, que pode ser revertida, a quebra dos paradigmas tecnológicos não tem alternativa. Afirmo, por outro lado, que, se a direção e os acionistas assim o decidirem, os grandes jornais poderiam ganhar longa sobrevida com a elevação da qualidade das redações. Afirmo, também, com todas as letras, que a desvalorização da redação não afeta apenas o Estadão, mas muitos outros jornais brasileiros. Nunca me esqueço de uma observação sábia que ouvi certa vez, há quase 30 anos, de Júlio de Mesquita Neto: “A redação é a alma e o coração de um jornal. Máquinas, prédios e móveis são apenas meios físicos”. No entanto, no afã de cortar despesas, os novos executivos das redações estão empobrecendo os jornais, com a perda de seus melhores repórteres, redatores, editores e colunistas – dos mais jovens aos mais velhos e experientes, especialistas e generalistas. Sob pressão de acionistas, os salários se aviltam continuamente, por decisão ou conivência de diretores de redação que parecem agir muito mais como capatazes. O que me move, neste depoimento, é tão somente despertar a atenção de todos para o risco cada dia maior de fechamento dos grandes jornais e revistas brasileiros, a começar pelo Estadão. Faço-o, também, como forma de repúdio à campanha primária e irracional de um grupelho que insiste em acusar a grande mídia de ser um partido político, o PIG (Partido da Imprensa Golpista). Nunca vi cretinice maior. Acredito, sinceramente, que o Brasil precisa de uma imprensa realmente livre, republicana, pluralista, com todos os matizes, desde que comprometida com o bem e o desenvolvimento da sociedade brasileira. É a grande mídia, tanto a impressa quanto a eletrônica, que garante a sobrevivência da democracia, noticiando e debatendo tudo com liberdade plena, sem nenhum controle totalitário ou qualquer forma de censura. Não desejo nem aceito para o Brasil os percalços da imprensa argentina nem da mídia venezuelana. Reconheço, acima de tudo, que o Brasil precisa de um portfólio de jornais e revistas diversificado, capaz de abrigar publicações como o Estadão, a Folha, O Globo, Veja, Istoé, Época, Piauí, Brasileiros, Carta Capital ou Correio Braziliense, para citar apenas alguns exemplos. E relembro as palavras da presidente Dilma Rousseff, no começo de seu governo, ao dizer, mesmo sem o respaldo de seu partido, que “o único controle que o governo admite para a mídia é o controle remoto”. Espero que mantenha, na prática, esse conceito. Por que saí do Estadão Centenas de amigos e colegas me pedem que explique melhor minha saída do Estadão. Esclareço, de início, que não deixei o Estadão por questões salariais, ainda que me desagradasse a perspectiva incontornável de redução de minha remuneração. Muitos leitores talvez tenham lido minha coluna de despedida, no domingo, 21 de outubro de 2012, na qual fiz um balanço dos 45 anos que vivi no jornal. Aos que não o fizeram sugiro que o façam pelo link de meu blog pessoal: http://ethevaldo.com.br/coluna/despedida-apos-45-anos/. Além de agradecer a todos que me escreveram, devo explicar-lhes com toda sinceridade e equilíbrio as razões que me levaram a antecipar a saída do jornal, já que pretendia permanecer ainda por alguns anos, com minha coluna semanal e fazendo matérias especiais na área tecnológica e, em particular, em coberturas internacionais. Mesmo enfrentando problemas de relacionamento pessoal com o diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, eu ainda estava disposto a continuar no jornal, até porque aprendi a conviver com chefias problemáticas. Sempre tratei Gandour com educação e cortesia. Ele, igualmente, nunca foi rude ou grosseiro comigo. Sempre me disse “não” com um sorriso superior nos lábios. Só não pude tolerar nos últimos meses suas sucessivas interferências e restrições à minha liberdade, na coluna. Conto apenas dois ou três episódios, entre dezenas de situações inaceitáveis que vivi. O caso mais antigo ocorreu em 2006. Uma noite, Ricardo Gandour chegou a ligar para o meu celular, sabendo que eu estava em Londres, às 3 horas da madrugada (meia-noite no Brasil), para censurar uma coluna inteira que eu havia escrito sobre um programa de atendimento ao usuário da antiga Brasil Telecom. Por sorte, eu tinha outra coluna pronta, de reserva, para publicar. Depois, em sucessivas oportunidades, pediu que eu amenizasse minhas críticas à política de telecomunicações dos ministros das Comunicações, tanto de Hélio Costa quanto de Paulo Bernardo. A situação mais grave e inaceitável foi impedir que eu me defendesse diante de uma mensagem do ministro Paulo Bernardo. No texto, publicado no Fórum dos Leitores, por determinação de Gandour, o ministro desmentia categoricamente minhas críticas à sua tolerância e conivência diante de uma licitação da Telebrás, com valores superfaturados em mais de R$ 100 milhões, segundo o Tribunal de Contas de União (TCU). Em lugar de anular a concorrência, o ministro autorizou a Telebrás a “renegociar” os preços inflados. E, creiam, com apoio do TCU. Por isso, minha coluna tinha o título: O TCU não assusta ninguém. Na coluna, eu contava aos leitores que, na entrevista exclusiva com Paulo Bernardo, eu lhe havia perguntado se não lhe preocupavam os aspectos éticos daquela solução heterodoxa. A resposta irrefletida do ministro foi a seguinte: “Quero que a ética vá para o inferno. Eu quero é trabalhar…” Diante da resposta insensata, ainda lhe perguntei se ele não temia que eu publicasse literalmente aquela declaração. “Publique, se quiser”, desafiou. Só por isso, registrei-a em minha coluna, em 25-09-2011. Dias depois, Paulo Bernardo pediu ao diretor de conteúdo do Estadão o direito de resposta, o que foi concedido – coisa perfeitamente justa e cabível –, mas Gandour não me deu conhecimento prévio do desmentido nem me permitiu reiterar a verdade dos fatos, em Nota da Redação. Com o silêncio do jornal, eu passava a ser considerado mentiroso, por decisão e censura do diretor de conteúdo do próprio jornal. Imaginem, amigos, o que significa enfrentar esse tipo de cerceamento, em plena democracia, em 2011, dentro do Estadão, jornal em que vivi a censura imposta pela ditadura, que testemunhei de 1968 a 1975. Com desencanto e desestímulo crescentes, o que me restou nos últimos 12 meses de jornal foi remoer a tristeza das muitas decepções e perceber o clima de desânimo que marca hoje a redação do grande jornal. No organograma empresarial do Estadão falta um conselho editorial que supervisione as diretrizes e as decisões do diretor de conteúdo, o que o transforma em figura absoluta, detentor da última palavra sobre tudo no âmbito da redação. E, infelizmente, nenhum outro diretor, nem o CEO, parece disposto a interferir em seu território, para não ferir “as regras de governança”. Por tudo isso, ao longo dos últimos seis anos da gestão desse diretor de conteúdo, o Estadão tem perdido excelentes profissionais, como César Giobbi, Pedro Dória, Carlos Alberto Sardenberg e Renato Cruz. Chegou a demitir Roberto Godoy, um dos raros jornalistas especializados em tecnologia de defesa do País, com mais de 30 anos no jornal, para readmiti-lo, mas com menor remuneração, depois da repercussão profundamente negativa. E pode perder muitos outros. São diretores como esse, mesmo com currículos brilhantes, mas sem passado nem raízes na história do Estadão, que aceleram o fim do grande jornal.

sexta-feira, outubro 19, 2012

O lamento de um dinossauro

MARIO CHIMANOVITCH - publicado originalmente na seção Tendências & Debates, da Folha de S. Paulo Como velho jornalista da velha escola, aquela que nos ensinava na unha e nos cascudos de chefias que acatávamos sem chiar, gratos por podermos conviver com nomes cujo simples som nos intimidava, observo que em algum momento algo muito importante se rompeu --e ninguém lhe deu a menor importância. Hoje, por todo lado, apregoa-se que só o novo é bom e todos disputam a honra de serem mais novos do que os demais. Ser velho, nestes tempos estranhos, é ser um estorvo, ser inútil, um dinossauro improvável, movimentando-se num universo de frágeis louças. Eu sou um dinossauro e vivo trombando o grande rabo da minha longa história contra as prateleiras deste mundo asséptico. Acho que estou sobrando. Muito se fala, nos discursos eleitoreiros, das bondades que cada campanha sugere a seu candidato, para agradar a nós, os mais velhos. Cada vez que vejo um almofadinha desses abraçando a senhorinha sofrida e prometendo-lhe mundos e fundos, a ira me sobe à cabeça e por pouco não arremesso a bengala que me ampara de encontro ao televisor. Porque, no fundo, no fundo mesmo, o que todo mundo quer é tirar a nós, os velhos, do caminho e dos cofres da previdência. Somos aquelas criaturas que parecem servir, apenas, para confrontar cada jovem pimpão com sua própria finitude e com o fato de que a única alternativa disponível à morte, por enquanto, é mesmo sobreviver, como der. E é aqui que a coisa complica. Provavelmente nunca na história se desprezou tanto a experiência e a memória dos mais velhos como nas últimas décadas. Se você, como eu, é um jornalista "das antigas", vale menos que um PC 386, daqueles que um dia pareceram uma enorme inovação e hoje não passam de lixo eletrônico descartável e, como tal, ambientalmente incorreto. Eu me sinto ambientalmente incorreto quando tento mostrar o muito que a memória de duas guerras cobertas, alguns prêmios de imprensa e reportagens memoráveis, inutilmente, me ensinou. Desempregado desde 2007, sobrevivendo de cada vez mais raros bicos, sinto que cheguei aos meus limites. A autoestima se esfacela e posso entender porque tantos não resistiram e acabaram sucumbindo ao álcool, às drogas ou, tanto pior, à ideia da própria morte. Tolo e romântico que sempre fui, imaginava que essa vivência toda, mais tarde, me permitiria ajudar os mais novos a melhorarem o mundo imperfeito que é o campo de colheita dos bons jornalistas. Ledo engano, porém. Tudo o que a história pode ensinar a um jovem, ao que parece, pode ser encontrado nos meandros da nebulosa da internet. Com a vantagem de que lá não haverá nenhum velho chato para dizer que noutros tempos, no meu tempo, algo era assim ou assado por causa disto ou daquilo. A informação brotará do tablet, cristalina, fria e desinfetada pelo distanciamento tecnológico. O dedicado repórter, com o ímpeto de seus jovens anos, vai poder navegar pelos escaninhos da memória que me resta, sem precisar me aturar e a minha própria história. Acho que vou ter de procurar emprego de empacotador de caixa de supermercado. E se um dia algum candidato se aproximar de mim, entre um pé de alface e uma caixa de ovos, agradecerei cada migalha que os governos me oferecerem como dádiva. Ao menos assim, talvez, eu tenha alguma utilidade.

quarta-feira, outubro 17, 2012

A volta da censura, por Hélio Schwartsman*

Publicado originalmente no Folha.com, de 4 de outubro de 2012 Em tempos de YouTube e celulares com câmera, nos quais praticamente qualquer cena presenciada por um ser humano pode ser registrada e disponibilizada para todo o planeta, não é surpreendente que assistamos a um número cada vez maior de pedidos de censura judicial, isto é, de pessoas exigindo, via Judiciário, que as imagens e comentários sejam retirados da rede de computadores. O fenômeno chega ao paroxismo agora que o Brasil vive um período eleitoral em que milhares de postulantes a prefeito e vereador tentam evitar tudo o que possa prejudicar-lhes a candidatura e, para isso, contam com a mão amiga de uma Justiça Eleitoral excessivamente intervencionista e pouco afeita aos cânones do liberalismo político. A fórmula é complementada ainda pelos místicos e moralistas de sempre, que buscam na Justiça e fora dela calar as manifestações com as quais não concordam. A conjunção desses fatores levou a uma onda de proibições que ficou evidente na semana passada, com a detenção de um diretor da Google que se recusara a cumprir ordem judicial e várias notícias de censura a sites. Até o trailer do polêmico filme "Inocência dos Muçulmanos" foi proscrito no Brasil. Meu momento favorito, porém, é a campanha do deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) para proibir ou pelo menos tornar impróprio para menores de 18 anos um longa-metragem juvenil que traz cenas de um ursinho de pelúcia fumando maconha. Ninguém com um pouco de amor à lógica pode defender direitos de forma absoluta. Afirmar qualquer um deles em grau superlativo implica relativizar e eventualmente até negar todos os demais. A menos que acreditamos que só existe um direito digno deste nome, temos de aprender a conviver com o conflito entre normas constitucionais. Mesmo reconhecendo isso, advogo por uma liberdade de expressão robusta, como sabem os que acompanham minha coluna. Acho que o direito de manifestar a opinião deve abarcar até mesmo nazistas que defendam teses racistas e pedófilos que descrevendo suas preferências sexuais. Enquanto estamos no campo das ideias, vale tudo. É só quando algum desses malucos tenta pôr seus delírios em prática que o Estado, particularmente a polícia, deve intervir. Não faço isso por nutrir um fetiche secreto pela liberdade de expressão. A questão também é lógica. Ninguém precisa de licença para dizer o que todos querem ouvir. Se as salvaguardas à manifestação livre de ideias fazem algum sentido (e eu tentarei mais abaixo mostrar que fazem), é preciso que abarquem justamente aquilo que a maioria considera infame, desprezível e, portanto, digno de ser censurado. Depois de uma defesa tão entusiasmada da livre opinião, acho que preciso dar exemplos de limitações que considero razoáveis, sob pena de a estar absolutizando sub-repticiamente. Pois bem, creio que em diversas situações em que a liberdade de expressão entra em choque com o direito do cidadão à própria imagem é a segunda que deve prevalecer. Não é aceitável, por exemplo, que alguém publique uma calúnia ou mesmo uma informação demonstravelmente falsa sobre outrem. Nestes casos, cabe não apenas uma reparação como também a retificação dos dados. Não tenho a mesma convicção no que diz respeito a injúrias e difamações. Como elas dão muito mais margem à subjetividade, fica fácil colocar obstáculos à publicação de uma obra legítima com base em considerações metafisicamente pessoais. Não é por outra razão que biografias se tornaram um gênero literário ameaçado de extinção no Brasil. O artigo 20 do novo Código Civil, ao postular com força a tese da defesa da "honra, boa fama ou respeitabilidade" permite que até descendentes remotos censurem esse tipo de trabalho. Pior, podem fazê-lo "a priori". Outro ponto em que insisto é que o direito à autoimagem só deve valer para pessoas físicas, não para grupos. Caso contrário, sempre que um autor imprecar contra a natureza humana, estará se sujeitando a ser processado e censurado por qualquer um dos 7 bilhões de terráqueos. Em suma, se você pertence a uma categoria que se sentiu ofendida pela declaração de alguém, ofenda o bando de seu agressor e todos ficam felizes. Resta agora apenas tentar mostrar por que a liberdade de expressão merece tanta consideração. Uma possibilidade é que, numa manifestação da religiosidade iluminista, nós, liberais, a tivéssemos convertido numa espécie de ícone sagrado da laicidade, que defenderíamos de todos os ataques como fazem os muçulmanos com Maomé. É uma hipótese divertida, mas não creio que resista a uma análise mais detida. A diferença fundamental é que, enquanto a preservação da imagem de Maomé interessa apenas aos fiéis do islamismo, a liberdade de expressão regula um elemento essencial para o funcionamento da sociedade, que é a circulação de informações. Como escrevi na semana passada numa coluna da edição impressa, sem a troca de ideias entre múltiplas partes, a própria democracia cessa de funcionar. Um de seus pressupostos é o de que um eleitor razoavelmente informado escolhe seus dirigentes. Uma imprensa livre também é necessária para controlar as ações dos dirigentes. Não é uma coincidência que ditadores invariavelmente comecem sua escalada autoritária calando as vozes dissonantes. E o papel virtuoso das informações não está restrito à política. O trânsito de ideias também é fundamental para a ciência. Um dos antecedentes necessários à revolução científica que se esboçou a partir do século 16 na Europa foi a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg. É claro que havia livros antes disso, mas, produzidos artesanalmente por copistas, eles eram obscenamente caros. Um volume de cerca de 500 páginas saía pelo equivalente a US$ 20 mil de hoje. Apenas gente podre de rica podia dar-se ao luxo de possuir essas obras. Foi só depois da imprensa que as ideias que estão na base da ciência puderam atingir o ponto crítico a partir do qual provocaram grande impacto. Não é um acaso que esse período também marque o início do movimento de secularização da sociedade. E a ciência, nunca é demais lembrar, é a principal responsável pela era de bem-estar material e sanitário que vivemos. Até a revolução industrial, que pode ser descrita como a domesticação do vapor pela ciência, o crescimento econômico anual médio da humanidade era da ordem de 0,1%. De lá para cá, o padrão de expansão explodiu, com vários países sustentando taxas de dois dígitos ao longo de décadas. Pela primeira vez, o crescimento ocorreu mais rapidamente do que o aumento da população, gerando uma prosperidade nunca antes imaginada. É por isso que há uma corrente de economistas encabeçada por Julian Simon que sustenta que a riqueza, em última análise, são ideias, a capacidade das pessoas de inovar. A imaginação humana, dizem, é o recurso final. Se essa tese é correta, limitar a liberdade de expressão equivale a um suicídio social, algo que nem candidatos nem fiéis de nenhum credo parecem muito dispostos a fazer. *Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha.com.e na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos

sábado, outubro 13, 2012

Guerra suja e o risco à liberdade de expressão

Carlos Brickmann Há várias maneiras de colocar em risco a liberdade de expressão: a policial, a econômica, a judicial, a violenta. Todas estão sendo aplicadas no Brasil: algumas, que de tão escancaradas beiram a desfaçatez, são defendidas mas não aplicadas (coisas como o tal “controle social da informação”, ou o sistema chavista da Ley de Medios – tão colonizada que até o nome está em castelhano); outras, por serem mais utilizadas longe dos grandes centros, merecem acompanhamento esparso – assassínio de jornalistas, empastelamento de jornais adversários, pressão direta sobre anunciantes; há as condenações de jornalistas incômodos, que acabam ganhando a causa mas depois de muitos aborrecimentos e amplos gastos; e a que hoje é a mais usada de todas, combinando ações legais e pressões econômicas para calar quem diz o que, na opinião dos inimigos da liberdade de imprensa, deveria continuar secreto (e eles conhecem as vantagens do sigilo). Há coisas incríveis acontecendo: uma delas, a ordem de prisão do diretor-geral do Google no Brasil, Fábio Coelho, por desobedecer à ordem de tirar do YouTube vídeos contra um candidato a prefeito de Campo Grande. Como diz Marcelo Tas, “prender diretor do Google por causa de vídeo político no YouTube é como punir vendedor de asfalto por acidente em rodovia”. O caráter intimidatório da medida ficou claro quando o mesmo juiz que determinou a prisão revogou a medida, no dia seguinte, por considerar a atitude do diretor do Google de pequeno potencial ofensivo. Se o potencial ofensivo era pequeno, por que houve a prisão? Se a prisão era necessária, por que houve a rápida libertação? O Google, evidentemente, não pode estar acima da lei; mas a aplicação da lei deve levar em conta a função exercida pela empresa. Uma biblioteca que tenha livros proibidos pela Justiça não gerou o conteúdo, nada tem a ver com ele: apenas o coleciona. Se obteve os livros legalmente, que é que fez de errado? Outro caso interessantíssimo é o do jornalista Cristiano Silva. Há alguns dias, um juiz comandou a apreensão de seu livro Operação Ouro Negro – História do milionário assalto aos cofres da Prefeitura de Catalão durante debate na Universidade Federal de Goiás. Em outras palavras, ao discutir temas de interesse da comunidade, a universidade foi invadida para a apreensão do livro que vinha sendo discutido. Pior: o jornalista foi detido por desacato à autoridade e levado à delegacia. A obra trata de problemas ocorridos na gestão do ex-prefeito Nagib Elias, e o juiz que determinou a apreensão foi quem extinguiu o processo montado com base na Operação Ouro Negro da Polícia Federal. Detalhes: nem o jornalista nem seu advogado tinham sido informados da proibição do livro. Mas as ameaças já vinham de antes. Certo dia, Cristiano foi abordado na rua por várias pessoas, na cidade de Catalão, em Goiás. Um homem disse aos companheiros, em tom irônico: “Ah, mete bala na cara desse vagabundo. Vamos fazer picadinho dele, igual fizemos com o livro”. Outro completou: “Tem de acertar no olho para não estragar a pele”. Há casos mais antigos: a pressão constante sobre o jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará, que desafia as famílias que comandam o estado; a censura que já perdura há dois anos contra O Estado de S.Paulo, para impedi-lo de publicar informações sobre o império da família Sarney, conforme investigações da Polícia Federal na Operação Boi Barrica; o processo que este colunista sofre de um ex-secretário tucano, que deixou o governo de São Paulo para defender uma empresa que se opunha a interesses do governo de São Paulo. Mas o caso mais emblemático, agora, é o do Blog do Pannunzio. Guerra suja O jornalista Fábio Pannunzio, da Rede Bandeirantes, é sério e competente. Abriu um blog em 2009 e, de lá para cá, jamais aceitou ofertas de patrocínio. Paga as despesas com dinheiro do próprio bolso, tirado do salário de repórter. Que é que fizeram contra ele? Aquilo que a Igreja Universal do Reino de Deus tentou fazer contra a repórter Elvira Lobato: sufocá-la com imenso volume de processos (no caso, espalhados por todo o Brasil, para obrigar a repórter a gastar fortunas com viagens e advogados, e ao mesmo tempo reduzir sua produção jornalística, por falta de tempo). Só que Elvira Lobato trabalhava como repórter da Folha de S.Paulo, que bancou as despesas, denunciou as manobras da Universal e transformou o caso num foco permanente de suas reportagens. Pannunzio foi processado inúmeras vezes, sem êxito. Mas, em todas elas, teve de perder tempo, contratar advogado, gastar com documentação, viajar até o local dos processos. O objetivo, claro, era este; pessoas que se julgam atingidas em sua honra não entram com processos cíveis, já que honra não se mede em dinheiro (a não ser algumas pessoas, que já têm até a etiqueta de preço afixada). Quem tem a honra atingida entra com processo-crime, exatamente por considerar que sua reputação não tem preço. Pannunzio foi processado por gente das mais diversas ideologias, partidos, interesses. A gota d’água foi o processo que lhe é movido pelo atual secretário da Segurança de São Paulo, coronel Ferreira Pinto, herança de Serra para Alckmin: o secretário do governo tucano quer uma indenização monumental de Pannunzio. E o repórter decidiu desistir do blog. “Escrevo depois de semanas de reflexão e com a alma arrasada”, disse Pannunzio, “especialmente por que isso representa uma vitória dos que se insurgem contra a liberdade de opinião e informação.

quarta-feira, outubro 10, 2012

Politicamente correto e mediocridade elegem novo alvo: a crítica

O politicamente correto está em cruzada firme para matar a liberdade de expressão e de opinião. Tem fracassado na maioria das vezes, principalmente quando “respaldado” por argumentos ideológicos retrógrados ou de origem religiosa igualmente estapafúrdios. De mãos dadas com a ignorância e com a falta de respeito, o politicamente correto agora está atacando, ainda que de forma atabalhoada, a crítica nas áreas de cultura, artes e espetáculos, tanto em jornais como na internet. Parece existir uma regra não escrita de que é proibido falar mal de qualquer coisa e de alguém, e que tudo precisa ser sempre relativizado, e que a tal “contextualização” serve como muleta para toda e qualquer justificativa para que se não se fale mal de uma obra de arte. Os exemplos vão do mais simples e rasteiro – legiões de fãs inconformado com críticas negativas a seus ídolos – ao mais pedante e arrogante pseudointelectualismo de boteco movido a tintas malcheirosas de ideologia burra e ultrapassada – a situação absurda mais recente é o patrulhamento em cima do suposto conteúdo racista de algumas obras de Monteiro Lobato. Se a internet revolucionou a forma de como o ser humano lida e obtém informação, também mudou para pior a forma de como as pessoas discutem e debatem. A internet jogou o debate na lata do lixo em grande parte dos assuntos relevantes em qualquer parte do mundo. Transformou-se em uma enorme cracolândia (parafraseando o sábio jornalista Décio Trujillo Júnior), onde a desqualificação virou o principal argumento de discussão – e ferramenta obrigatória de indigentes intelectuais e culturais para mascarar a própria ignorância. Ter opinião é pecado no século XXI dominado pela tecnologia, pela web e pelas redes sociais. A crítica negativa de um disco ou um livro é apedrejada de forma inacreditável apenas por ser negativa – com a interatividade, leitores/internautas travam um debate de baixíssimo nível, como se o ídolo fosse unanimidade e inatacável. Não se respeita mais na internet e nos jornais o direito de jornalistas, críticos e especialistas respeitados, com pelo menos duas ou três décadas de ofício, de opinar. Ninguém diverge, contesta ou discorda com educação ou argumentos. Diverge-se, contesta-se e se discorda com ameaças e agressões verbais de todos os tempos. É um movimento inaceitável de cassação do direito de criticar e opinar. Tal quadro desalentador é observado de forma mais acentuada na área de cultura popular, particularmente na música. O anonimato e a distância tornaram a covardia e a agressão gratuita ferramentas essenciais para a imposição de ideias ou para protestar de forma a intimidar articulistas ou especialistas de todos os matizes. Os ataques veementes e constantes contra a opinião e a crítica, quase sempre de forma tola, vazia e inconsequente, instauraram um clima de inquisição na internet. Mais do que a arquibancada violenta de um Fla-Flu ou um Corinthians e Palmeiras, qualquer crítica ao trabalho de certos artistas vira motivo para um autêntico linchamento moral e ético contra o autor. Vários textos do Combate Rock foram alvo de leitores enfurecidos e atormentados por conta de críticas aos trabalhos de gente como Mutantes, Nirvana, Raul Seixas, Legião Urbana, Restart, Charlie Brown Jr e Los Hermanos, entre outros. Parte expressiva dos “comentários”, em língua com algum parentesco com o português, abusou de xingamentos, desqualificações rasteiras e protestos estéreis contra os autores. Em nenhum momento chegaram perto de argumentar com algum nível de decência o objeto da questão – as críticas em si. O poeta e escritor Luiz Carlos “Barata” Cichetto, conhecido no meio underground do rock e dos cenários literários alternativos de São Paulo e Rio de Janeiro, sofreu uma ação massiva de xingamentos e desqualificações quando publicou no site Whiplash, o melhor e mais diversificado sobre rock em português. Ele escreveu um texto onde apontava as coincidências e quase plágios na obra de Raul Seixas – texto já reproduzido no Combate Rock. Detalhado e bem fundamentado, o artigo foi desqualificado por todos, mas em nenhum momento foi contestado de forma séria. Acreditar que toda essa várzea é o retrato da internet é um equívoco tremendo e uma injustiça para com a imensa maioria de pessoas sérias e que usam a web com prudência e inteligência. No entanto, não há como ignorar a sensação de que é justamente a cracolândia é que domina o ambiente virtual, tanto em português como em qualquer língua. A precarização e o baixo nível não são privilégio dos brasileiros. Ainda assim, é assustadora a indigência intelectual que dominam fóruns e páginas de opinião de blogs, portais e sites brasileiros. Nem é o caso de mencionar os ambientes esportivos dedicados ao futebol, onde o clima de arquibancada é compatível com a ausência de educação e inteligência na maioria das vezes – na verdade, parece que isso é requisito básico para tais ambientes. O desconhecimento total da função de jornalistas e críticos revela de forma inequívoca o elevado grau de desinformação do público em geral, evidenciando, por outro lado, um viés extremamente perigoso: a intolerância para com a divergência, a diversidade e a diferença. Não são poucos os iletrados que “questionam” o papel do jornalismo, da mídia e da imprensa, chegando à petulância de dizer (ou seria “determinar”) o que um jornalista deve ou não escrever, e como tem de escrever. “Jornalista não pode dar opinião” é apenas a mais frequente dos lixos publicados em páginas de comentários em grandes portais de internet. O baixo nível predominante na internet e a incapacidade – ou recusa – de compreensão de qualquer texto opinativo é um indicativo preocupante de uma tendência autoritária que predomina no grande público – algo bastante comum em ambientes de discussão política, seja de direita ou esquerda, igualmente de níveis baixos de inteligência, cultura e tolerância. A tentativa de imposição de uma “homogeneização” de pensamento artístico-cultural – onde o politicamente correto, a ausência de senso crítico e a esterilidade de ideias predominam – é inócua, mas não menos desalentadora. Qual o sentido de opinar, criticar, debater e pensar em um ambiente que repele a vida inteligente, onde o que interessa é a futilidade e o entretenimento mais rasteiro e pueril que existe? Levar luz às trevas? Por mais que intelectualmente seja tentador, essa motivação é pedante demais. Satisfação pessoal? Egoísta demais. O fato é que críticos, colunistas e jornalistas especializados são cada vez mais lidos na internet, seja em blogs pessoais ou em espaços próprios em grandes portais ou portais de grandes jornais. Os acessos e o número de comentários só aumentam no Estadão.com e na maioria dos blogs e espaços de colunistas no UOL, só para citar alguns exemplos. Portanto, eis a maior vitória da vida inteligente na internet: criticados, desqualificados, xingados e até ameaçados, mas cada vez mais lidos em um verdadeiro mar de mediocridade. É maior prova de vida inteligente na web – prova incontestável de que críticos, colunistas e jornalistas especializados serão sempre cada vez mais necessários.

sábado, outubro 06, 2012

“Mensalão”, hipocrisia e corrupção preservada

STF e mídia fingem resgatar ética, mas mantêm intactos mecanismos que subordinam candidatos ao dinheiro e interesse de grandes empresas Por Ladislau Dowbor, em Carta Maior “The idea that in a democracy you should be able to trade your wealth into more influence over what the government does is just wrong.” Lawrence Lessig [1] “Les vices n’appartiennent pas tant à l’homme qu’à l’homme mal gouverné” Rousseau [2] Transformar o exercício da justiça em espetáculo midiático não é correto nem ético. Fazê-lo em nome da ética, menos ainda. Para muita gente, parece tratar-se de uma catarse política, canalização de ódios acumulados. Não se resolve grande coisa desta maneira. e gera-se sim dinâmicas perigosas. E sobretudo, canaliza-se toda a energia contra pessoas, obscurecendo os vícios do sistema. O sistema agradece, e permanece. A realidade, é que há um imenso desconhecimento, por parte de não-economistas, de como se dão os grandes vazamentos de recursos públicos. Bem, vamos por partes. Primeiro, a grande corrupção, a grande mesmo, aquela que é tão grande que se torna legal. Trata-se do financiamento de campanhas. A empresa que financia um candidato – um assento de deputado federal tipicamente custa 2,5 milhões de reais – tem interesses. Estes interesses manifestam-se do lado das políticas que serão aprovadas, por exemplo contratos de construção de viadutos e de pistas para mais carros, ainda que se saiba que as cidades estão ficando paralisadas. As empreiteiras e as montadoras agradecem. Do lado do candidato, apenas assentado, já lhe aparece a preocupação com a dívida de campanha que ficou pendurada, e a necessidade de pensar na reeleição. Quatro anos passam rápido. Entre representar interesses legítimos do povo – por exemplo, mais transporte coletivo, mais saúde preventiva – e assegurar a próxima eleição, ele que estudou economia ou direito, e por tanto sabe fazer as contas e sabe quem manda, está preso numa sinuca. O próprio custo das campanhas, quando estas viram uma indústria de marketing político, é cada vez mais descontrolado. Segundo The Economist, no caso dos EUA, os gastos com a eleição de 2004 foram de 2,5 bilhões de dólares, em 2010 foram de 4,5 bilhões, e a estimativa para 2012 é de 5,2 bilhões. Isto está “baseado na decisão da Corte Suprema em 2010, que permite que empresas e sindicatos gastem somas ilimitadas em marketing eleitoral”. Quanto mais cara a campanha, mais o processo é dominado por grandes contribuintes, e mais a política se vê colonizada. O resultado é a erosão da democracia. E resultam também custos muito mais elevados para todos, já que são repassados para o público através dos preços. [3] Comentando os dados dos gastos corporativos na campanha eleitoral de 2010, Robert Chesney e John Nichols, da universidade de Illinois, escrevem que os financiamentos corporativos “traduziram-se numa virada espetacular para a direita: a captura da vida política por uma casta financeira e midiática mais poderosa do que qualquer partido ou candidato. Não se trata apenas de um novo capítulo no interminável romance entre o dinheiro e o poder, mas de uma redefinição da própria política pela conjunção de dois fatores: o fim dos limites de doações eleitorais por parte das empresas e a renúncia por parte da imprensa ao exame dos conteúdos das campanhas. Resulta um sistema no qual um pequeno círculo de conselheiros mobiliza montantes surrealistas para orientar o voto para os seus clientes. Este “complexo eleitoral dinheiro-mídia” constitui presentemente uma força temível, subtraída a qualquer forma de regulação, liberada de qualquer obrigação de prudência por uma imprensa que capitulou. Esta máquina é permanentemente mediada por cadeias comerciais de televisão que faturaram, em 2010, 3 bilhões de dólares graças à publicidade política”. [4] No Brasil este sistema foi legalizado em governos anteriores. A lei que libera o financiamento das campanhas por interesses privados é de 1997 [5]. Podem contribuir com até 2% do patrimônio, o que representa muito dinheiro. Os professores Wagner Pralon Mancuso e Bruno Speck, respectivamente da USP e da Unicamp, estudaram os impactos. “Os recursos empresariais ocupam o primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral)”. [6] E a deformação é sistêmica: além de amarrar os futuros eleitos, quando uma empresa “contribui” e portanto prepara o seu acesso privilegiado aos contratos públicos, as outras se vêm obrigadas a seguir o mesmo caminho, para não se verem alijadas. E o candidato que não tiver acesso aos recursos, simplesmente não será eleito. Todos ficam amarrados. Começa a girar a grande quantidade de dinheiro no sistema eleitoral. Criminalizar as empresas, ou as pessoas, não vai resolver, ainda mais se os criminalizados são apenas de um lado do espectro político. É preciso corrigir o sistema. Mas custos econômicos incomparavelmente maiores resultam do impacto indireto, pela deformação do processo decisório na máquina pública, apropriada por corporações. O resultado, no caso de São Paulo, por exemplo, de eleições municipais apropriadas por empreiteiras e montadoras, são duas horas e quarenta minutos que o cidadão médio perde no trânsito por dia. Só o tempo perdido, multiplicando as horas pelo PIB do cidadão paulistano e pelos 6,5 milhões que vão trabalhar diariamente, são 50 milhões de reais perdidos por dia. Se reduzirmos em uma hora o tempo perdido pelo trabalhador a cada dia, instalando por exemplo corredores de ônibus e mais linhas de metrô. serão 20 milhões economizados por dia, 6 bilhões por ano se contarmos os dias úteis. Sem falar da gasolina, do seguro do carro, das multas, das doenças respiratórias e cardíacas e assim por diante. E estamos falando de São Paulo, mas temos Porto Alegre, Rio de Janeiro e tantos outros centros. É muito dinheiro. Significa perda de produtividade sistêmica, aumento do custo-Brasil. Este tipo de corrupção leva a que se deformem radicalmente as prioridades do país, que se construam elefantes brancos. A deformação das prioridades mediante desvio dos recursos públicos daquilo que é útil em termos de qualidade de vida para o que é mais interessante em termos de contratos empresariais, gera um círculo vicioso, pois financia a sua reprodução. Uma dimensão importante deste círculo vicioso, e que resulta diretamente do processo, é o sobrefaturamento. Quanto mais se eleva o custo financeiro das campanhas, conforme vimos acima com os exemplos americano e brasileiro, mais a pressão empresarial sobre os políticos se concentra em grandes empresas. Quando são poucas, e poderosas, e com muitos laços políticos, a tendência é a distribuição organizada dos contratos, o que por sua vez reduz a concorrência pública a um simulacro, e permite elevar radicalmente o custo dos grandes contratos. Os lucros assim adquiridos permitirão financiar a campanha seguinte. Se juntarmos o crescimento do custo das campanhas, os custos do sobre-faturamento das obras, e sobre tudo o custo da deformação das grandes opções de uso dos recursos públicos, estamos falando em muitas dezenas de bilhões de reais. Pior: corrói o processo democrático, ao gerar uma perda de confiança popular nos processos democráticos em geral. Não que não devam ser veiculados os interesses de diversos agentes econômicos. Mas para a isto existem as associações de classe e diversas formas de articulação. A FIESP, por exemplo, articula os interesses da classe industrial do Estado de São Paulo, e é poderosa. É a forma correta de exercer a sua função, de canalizar interesses privados. O voto deve representar cidadãos. Quando se deforma o processo eleitoral através de grandes somas de dinheiro, é o processo democrático que é deformado. A moral da história é simples. Comprar votos é ilegal. Vincular o candidato com dinheiro não é ilegal. Já comprar o voto do candidato eleito é de novo ilegal. A conclusão é óbvia: vincula-se os interesses do candidato à empresa, o que é legal, e tem-se por atacado quatro anos de votação do candidato já eleito, sem precisar seduzi-lo a cada mês [7]. O absurdo não é inevitável. Na França, a totalidade dos gastos pelo conjunto dos 10 candidatos à presidência em 2012 foi de 74,2 milhões de euros. [8] A grande corrupção gera a sua própria legalidade. Já escrevia Rousseau, no seu Contrato Social, em 1762, texto que hoje cumpre 250 anos: “O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o dono, se não transformar a sua força em direito e a obediência em dever” [9]. Em 1997, transformou-se o poder financeiro em direito. O direito de influenciar as leis, às quais seremos todos submetidos. Ético mesmo, é reformular o sistema, e acompanhar os países que evoluíram para regras do jogo mais inteligentes, e limitaram drasticamente o financiamento corporativo das campanhas. (*) Ladislau Dowbor, economista, é professor da PUC de São Paulo, e consultor de várias agências das NNUU. http://dowbor.org NOTAS [1] “A ideia que numa democracia você deveria poder trocar a sua riqueza por maior influência sobre o que faz o governo é simplesmente errada” – Lawrence Lessig – Republic Lost: how money corrupts congress – and a plan to stop it – Twelve, New York, 2011, p. 313 [2] “Os vícios não pertencem tanto ao homem, quanto ao homem mal governado” – J.J. Rousseau, Narcisse [3] Ver dados completos em The Economist, Of Mud and Money, September 8th 2012, p. 61; Sobre esta decisão da corte suprema americana, Hazel Henderson produziu uma excelente análise intitulada “Temos o melhor congresso que o dinheiro pode comprar” (We have the best congress money can buy). [4] Robert W.McChesney e John Nichols – Et les spots politiques ont envahi les écrans – Le Monde Diplomatique, Manière de Voir, n. 125, Où va l’Amérique, Octobre-Novembre 2012, p. 62 – A liberação do financiamento corporativo das campanhas eleitorais foi conseguida pelo lobby conservador Citizens United, junto à Corte Suprema dos Estados Unidos, em 21 de janeiro de 2010, em nome da “liberdade de expressão”. [5] O financiamento está baseado na Lei 9504, de 1997 “As doações podem ser provenientes de recursos próprios (do candidato); de pessoas físicas, com limite de 10% do valor que declarou de patrimônio no ano anterior no Imposto de Renda; e de pessoas jurídicas, com limite de 2%, correspondente [à declaração] ao ano anterior”, explicou o juiz Marco Antonio Martin Vargas, assessor da Presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo.” – Revista Exame, 08/06/2010, Elaine Patricia da Cruz, Entenda o financiamento de campanha no Brasil. [6] “Pouquíssimos candidatos conseguem se eleger com pouco ou nenhum dinheiro”, comenta Mancuso, que coordena o projeto de pesquisa Poder econômico na política: a influência de financiadores eleitorais sobre a atuação parlamentar. Ver em Bruna Romão, Agência USP. [7] No plano propositivo, há um excelente trabalho de Lawrence Lessig, professor de direito da Universidade de Harvard, Republic Lost: how money corrupts Congress and a plan to stop it, Twelve, New York 2011, em particular p. 266 e seguintes. [8] Le Monde Diplomatique, Manière de Voir, Où va l’Amérique, Octobre-Novembre 2012, p.11 [9] “Le plus fort n’est jamais assez fort pour être toujours le maître, s’il ne transforme sa force en droit et l’obéissance en devoir”. Du Contrat Social, 1762. “Maître” em francês é muito mais forte do que “mestre” em português, implica força, controle.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Repórter da Folha é afastado após sofrer ameaças

Vanessa Gonçalves - Portal Imprensa Entre as áreas mais difíceis e incômodas para cobertura – sobretudo no jornalismo diário – está a editoria de polícia. Seja pelas pautas sempre áridas, seja pelo contato frequente com temas que, vira e mexe, acabam “desagradando” um ou outro lado. Não é raro que membros da polícia se sintam “ofendidos” por abordagens da imprensa, principalmente quando noticiados, por exemplo, casos de abusos de poder, violência sem justificativa e ações de milícias. Recentemente, o jornalista André Caramante, da Folha de S.Paulo, que atua na área há 13 anos, tornou-se mais uma vítima desse imbróglio. Há cerca de três meses, o repórter vem recebendo ameaças – umas veladas, outras nem tanto – que partiriam de Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, ex-chefe das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e candidato a vereador pela cidade de São Paulo pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), assim como de seus seguidores e eleitores. Segundo Caramante, tudo começou quando, incomodado com a cobertura jornalística do repórter, o ex-chefe da Rota usou sua página pessoal no Facebook para expor sua opinião acerca do tema. “Resolvemos fazer um texto para falar sobre a página pessoal do Paulo Telhada, onde ele chamava suspeitos de vagabundos e dizia que tinham que morrer mesmo”, conta o jornalista. A pressão sobre o jornalista começou ainda na internet, quando diversas pessoas reproduziram as palavras do ex-chefe da Rota. “Muitas pessoas abriram o eco pelo que ele havia escrito, com os mais variados comentários, como ‘bala nesses vagabundos mesmo e em quem defende vagabundo também’ ”. O repórter defende sua atuação como jornalista e reafirma não ter partidarismo para defender policiais ou criminosos. “Não estou aqui para defender A ou B. Defendo o cumprimento da lei.” BODE EXPIATÓRIO A partir de então, a paz para exercer seu ofício terminou. Toda e qualquer matéria de Caramante publicada no site da Folha era bombardeada por comentários ameaçadores e ofensivos. Em texto publicado no dia 7 de agosto de 2012, sob o título “Dois PMs são detidos após morte de suspeito de roubo em SP”, um leitor comenta: “Não estou rogando praga. Mas o nosso estimado ‘experiente foca’ ainda será vítima de um sequestro relâmpago e irá discar para o celular do Marcola.” A situação ficou ainda mais grave quando o blog “Flit Paralisante”, ligado a policiais militares, divulgou uma foto de Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, como se fosse Caramante, com uma mensagem ainda mais ameaçadora do ex--juiz e advogado Ronaldo Tovani, citado em matéria por ter sido denunciado à Justiça por lavagem de dinheiro: “A palavra escrita, mentirosa e ferina, do jornalista André Caramante agora tem ‘cara’. A foto dele está estampada no ‘Flit’ e passou a ser do conhecimento de todos, inclusive dos policiais militares que ele tanto critica e ofende. Espero, contudo, que não apareça algum maluco querendo fazer justiça com as próprias mãos, quando se deparar com ele por aí”. Para o jornalista, atitudes como essa não passam de intimidação para evitar que a Folha e o repórter cumpram sua função de informar. LIBERDADE DE IMPRENSA Ao tomar conhecimento das ameaças contra Caramante, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) se posicionou, visando salvaguardar a integridade do repórter emitindo uma nota de repúdio, além de solicitar providências por parte do governador e do secretário da Segurança Pública de São Paulo. Além disso, também solicitou à Folha que fizesse cobertura total do caso, de forma a torná-lo público. Segundo José Augusto Camargo, presidente do SJSP, “a entidade sempre orienta o jornalista agredido a tornar o ato público, pois funciona como proteção à própria pessoa, uma vez que a falta de punição alimenta o agressor”. Buscando zelar pelo jornalista, o sindicato também encaminhou ofício para diversos órgãos, entre eles a Ouvidoria das Polícias, Corregedoria da PM, Ministério Público do Estado de São Paulo e à Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, relatando a situação. Em razão disso, a ouvidoria da polícia pediu abertura de inquérito para averiguar se há irregularidade no comportamento do coronel Telhada. Até o fim da reportagem, não havia nenhuma conclusão sobre a investigação. Na opinião do deputado Protógenes Pinheiro de Queiroz (PC do B /SP), autor do Projeto de Lei nº 1.078/11, que visa federalizar crimes contra jornalistas, a ameaça a André Caramante deve ser apurada, pois se trata de uma forma de censura à imprensa. “Em qualquer hipótese de ameaça à atividade de jornalista e dos profissionais de comunicação, o caso merece ser apurado no âmbito federal, pois representa uma ameaça à democracia e uma mordaça na voz do povo, que são os jornalistas em sua maioria”, revela. CORONEL NEGA Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, Telhada começou afirmando não ter problema algum com o jornalista da Folha. “Eu sou um cara da paz. A pessoa fica falando da pessoa errada e depois não quer ouvir a verdade”, afirmou. “Eu acho uma grande covardia, uma grande falta de profissionalismo, o jornalista escrever o que ele pensa e depois se dizer vítima de ameaça”, completa. Ainda assim, o coronel, mais uma vez pelo Facebook, mostrou seu descontentamento em relação ao trabalho do jornalista. Em 15 de julho de 2012, em resposta à matéria “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, o coronel comentou em sua página pessoal. “Acho incrível que um jornal com a envergadura da Folha de S.Paulo mantenha em seu quadro de funcionários pessoas que defendem abertamente o crime, procurando tratar criminosos como suspeitos ou civis, enquanto a população sabe a verdade das coisas.” Após repercussão de suas palavras, o post foi apagado.Ainda que as conversas não tenham acontecido pessoalmente, o jornalista garante já ter falado com o coronel por diversas vezes. “Realmente, nunca nos vimos, mas já nos falamos diversas vezes ao telefone, basta ver algumas matérias que têm aspas dele.” O coronel afirma que jamais ameaçou o jornalista e que as reações aferidas pelo jornal e pelo repórter têm a ver com pessoas que se irritaram com as críticas à corporação, publicadas nas matérias. “Jamais fiz isso, não incentivei ninguém a fazer isso. A população se sentiu irritada com esse cidadão por causa das inverdades que ele vive dizendo e o criticou duramente. Eu não pedi, não incentivei isso e falei o seguinte: ‘As pessoas que se sentiram ofendidas que mandassem um e-mail à Folha de S.Paulo’. E foi o que foi feito. Se alguém o ameaçou, o ofendeu, pode ter certeza de que não fui eu”, completa. O fato é que a situação se tonou insustentável. Em meados de setembro, a Folha de S.Paulo optou por enviar André Caramante, junto de sua família, para destino desconhecido para sua segurança. Ainda que temporariamente, calaram-se as denúncias. *Com Luiz Vassallo

quarta-feira, setembro 19, 2012

Analfabetismo histórico

Hélio Schwartsman - Folha de S. Paulo O movimento negro, bem como outros grupos que tentam reduzir os níveis de intolerância na sociedade, tem toda a minha simpatia. Isso dito, é ridículo o que estão tentando fazer com Monteiro Lobato. Se a iniciativa legal, que já chegou ao Supremo, prosperar, o autor poderá ter parte de sua obra banida das bibliotecas escolares. Não há a menor dúvida de que Lobato se utiliza de expressões que hoje soam rematadamente racistas, como o termo "macaca de carvão", para referir-se à Tia Nastácia. A questão é que estamos falando de escritos dos anos 30, época em que quase todo mundo era racista. E, se há um pecado mortal na crítica literária e na análise histórica, é o de interpretar o passado com os olhos de hoje. "Não sou nem nunca fui favorável a promover a igualdade social e política das raças branca e negra... há uma diferença física entre as raças que, acredito, sempre as impedirá de viver juntas como iguais em termos sociais e políticos. E eu, como qualquer outro homem, sou a favor de que os brancos mantenham a posição de superioridade." Odioso, certo? Também acho. Mas, antes de condenar o autor da frase ao inferno da intolerância, convém registrar que ela foi proferida por Abraham Lincoln, o presidente dos EUA que travou uma guerra civil para libertar os negros da escravidão. E Lincoln não é um caso isolado. Encontramos pérolas racistas em ditos de Gandhi e Che Guevara. Shakespeare traz passagens escancaradamente antissemitas, Eurípides era um misógino e Aristóteles defendia com empenho a escravidão. Vamos banir toda essa gente das bibliotecas escolares? A verdade é que todos somos prisioneiros da mentalidade de nossa época. Há sempre um horizonte de possibilidades morais além do qual não conseguimos enxergar. Aplicar critérios contemporâneos para julgar o passado é uma manifestação de analfabetismo histórico.

sábado, setembro 01, 2012

Tendências/Debates: Verbos que não se ensinam

CLÓVIS ROSSI

Jornalismo é um exercício basicamente simples, que depende da boa execução de apenas quatro verbos: saber ler, ouvir, ver e contar. Se alguém acha que ao menos um desses verbos (o ideal seria que fossem todos) pode ser ensinado em uma faculdade de jornalismo, deve mesmo ser a favor do diploma específico. Quem, como eu, duvida dessa possibilidade só pode ser contra. Eu sou.

Pegue-se o verbo ler, em ambos os sentidos, o mais primário, de alfabetização para compreender palavras escritas, e o mais nobre, o de gosto pela leitura. No primeiro caso, ou se aprende a ler na escola primária ou nunca mais, salvo raros casos de autodidatas.

No segundo, tampouco a faculdade pode ensinar o gosto pela leitura. Ou vem do berço ou se adquire nos primeiros tempos pós-alfabetização.

Como não creio que se possa escrever bem sem ler bastante, depender da faculdade de jornalismo para desenvolver esse gosto só fará o profissional chegar ao mercado de trabalho com um deficit talvez irreparável.

Alguma faculdade pode ensinar a ver? Ou a ouvir? Duvido.

Pode, sim, desenvolver o talento, de todo modo natural, para contar histórias. Mas qualquer faculdade pode fazê-lo, acho.

Pulemos da teoria para os fatos concretos. Ricardo Kotscho não fez faculdade de jornalismo. Nem qualquer outra, a não ser depois que já estava solidamente instalado na profissão. Nada disso o impediu de se tornar um dos melhores repórteres de todos os tempos no jornalismo brasileiro.

Se, quando eu lhe dei o primeiro emprego na chamada grande imprensa (no "Estadão"), já vigorasse a exigência do diploma, o jornalismo brasileiro teria perdido um imenso talento.

Se a obrigatoriedade do diploma valesse nos anos 1960, o jornalismo brasileiro teria ficado sem o gênio de Cláudio Abramo (1923-1987), que foi corresponsável pelas reformas que tornaram o "Estadão", primeiro, e a Folha, depois, os grandes jornais que são.

Abramo não tinha diploma algum. Não obstante, foi convidado pela USP para ministrar curso de aperfeiçoamento para estudantes de pós-graduação. Irônico, não?

Desconfio que boa parte das equipes com as quais Cláudio trabalhou tampouco tinha diploma de jornalista, o que não impediu que fizessem grandes jornais.

Esclareço, antes que alguém suspeite que estou advogando em causa própria, que eu, ao contrário de Kotscho e Abramo, tenho, sim, diploma específico, aliás o único. Mas garanto que aprendi mais, na prática, com gente como Kotscho, Abramo e tantos outros sem diploma do que na faculdade.

Um segundo ponto que me leva a ser contra o diploma específico é a evidência de que nem a mais perfeita faculdade de jornalismo do mundo pode ter um currículo que ensine a seus alunos todos os temas que, um dia ou outro, podem lhes cair sobre a cabeça. Não dá para ensinar agricultura e transportes, tênis e política, legislação e teatro --e por aí vai. Não dá.

Quem pensa em entrar para o jornalismo com um objetivo definido (jornalismo econômico, digamos) deve fazer economia e não jornalismo. Se tiver desenvolvido os quatro verbos-pilares (ver, ouvir, ler e contar), estará mais pronto para a profissão, na área específica, do que se fizer jornalismo.

Último ponto: não entro na discussão sobre a diferença entre profissões (medicina, engenharia, por exemplo) que, mal exercidas, podem matar, e aquelas (jornalismo) que não podem e, portanto, não precisam de diploma específico. Jornalismo pode matar, sim, mesmo que seja moralmente. Mas é de uma presunção absurda supor que só faculdades de jornalismo ensinam ética.

CLÓVIS ROSSI, 69 anos, 49 de profissão, é colunista da Folha. Formado em jornalismo, trabalhou também nos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Jornal do Brasil". É autor dos livros "O que É Jornalismo" (editora Brasiliense) e "Enviado Especial" (Senac)

Tendências/Debates: Que jornalista é esse?

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO

Dizem que o diploma é uma reserva de mercado. Não é. Jornalista vocacionado e com energia para enfrentar profissão tão estressante acaba achando emprego, seja qual for a forma de ingresso na profissão. Jornal sem jornalista nunca vai ter.

Assim, para o profissional, tanto faz ter lei de diploma ou não ter. Já para a nação...

É bom que jornalista tenha sólida formação --sim, com curso superior-- tanto quanto é bom que, para toda profissão, de funileiro a dentista, haja a melhor qualificação possível. Um país se faz com bons profissionais em todas as áreas. Malandragem e jeitinho podem ser engraçados, mas não levam a nada.

Quase 70% da população adulta no Brasil não consegue entender um texto de dez linhas. A universidade brasileira, que devia estar entre as dez melhores do mundo --coerente com nossa posição de 6ª ou 7ª maior economia-- não aparece nem entre as cem. Num país assim, tão atrasado e carente, ser contra escola de jornalismo, qualquer escola, é cinismo ou má intenção.

Argumento muito usado: o decreto que regulamentou a profissão é de 1969, no governo militar, sendo assim "entulho autoritário". Primeiro: a luta pela formação superior do jornalista vinha desde os anos 1930. Segundo: gato que nasce no forno é biscoito ou é gato? Seria o caso então de dinamitar Itaipu, a ponte Rio-Niterói e acabar com a fluoretação da água potável das cidades?

Existe um axioma no jornalismo: notícia deve ser feita com isenção, não envolve opinião de quem escreveu. Opinião o leitor encontra nos editoriais, nos colunistas, nos colaboradores (não jornalistas).

Em 2009, o STF acabou com o diploma --após 40 anos, com resultados tão bons que até mudaram a "paisagem" das redações, com a chegada (hoje hegêmonica) das mulheres, antes excluídas. A sentença foi tão inapropriada que, de certa forma, não "pegou": estudantes, professores, entidades, intelectuais e políticos iniciaram movimento para restabelecer a regulamentação pelo Congresso. Já passou pelo Senado, com mais de 90% dos votos dos presentes. Agora vai para a Câmara, onde deve também ser aprovada.

O STF confundiu liberdade de expressão com regras para exercício de uma profissão. Liberdade de expressão tem a ver com partidos políticos livres, as pessoas poderem se unir em sindicatos e associações, com a porta da Justiça aberta a todos. Nada a ver com requisitos para ingresso numa profissão, como de advogado, jornalista ou médico.

Antes do diploma, os integrantes de uma redação tinham origem em frustrados de outras profissões, estudantes sem rumo, boêmios, poetas (alguns finíssimos) e... braçais das empresas jornalísticas. O jovem entrava no jornal (ou TV) como faxineiro, boy, porteiro. Ia se enturmando, acabava jornalista --principalmente pela porta da fotografia, reportagem policial e esportiva.

Pesquisa de 1997 do Sindicato de São Paulo revelou a existência, a três anos do século 21, de 19 jornalistas sindicalizados --e analfabetos. Um contou sua história para um livro que escrevi: era "chapa" de caminhão, descarregava de madrugada pacotes de jornais. Tornou-se "colega" do motorista, aprendeu a fotografar, virou "jornalista". Dizia que nunca esteve numa escola.

É um perfil diferente do jornalista que veio com a escola de comunicações, com no mínimo 16 anos de estudo, sendo quatro na universidade (com todo aquele agito) e anos de inglês. Uma estrutura cultural e psicológica aparentemente mais forte do que a do ex-carregador de caminhão...

Qual jornalista é melhor para um país que quer um dia ser sério, desenvolvido?

JOSÉ HAMILTON RIBEIRO, 77 anos, 57 de profissão, é repórter do "Globo Rural" (TV Globo). Formado em jornalismo, trabalhou nas revistas "Realidade", "Quatro Rodas" e na Folha. É autor de "O Gosto da Guerra" (Objetiva) e "Jornalistas 37/97" (Imesp), entre outros

quarta-feira, agosto 29, 2012

Carta de Rodger Hodgson condenando o lançamento do DVD 'Paris'

“Queridos amigos,

Muitos de vocês têm me perguntado sobre o lançamento do DVD Paris, então eu gostaria de escrever diretamente para vocês sobre as últimas novidades. Infelizmente muitas leis, tanto legal quanto moral, foram quebradas e o DVD Paris agora está sendo lançado através de métodos ilegais e antiéticos.

Ele está agora nas mãos de advogados para resolver a disputa legal entre a editora e os rótulos (marcas). Eu não sei qual lado vai ganhar ainda, apesar de eu ter aprendido que na indústria da música geralmente são os advogados que têm a maior parte do rendimento, e não necessariamente aqueles que estão corretos.

O que a Eagle Rock, John, Bob e Dougie (que estão chamando-se de “Parceria Supertramp”), estão tentando fazer é tirar os nossos direitos legais como compositores. Legalmente, um rótulo (marca), precisa de aprovação dos compositores e dos editores para lançar esse tipo de material, e ao invés disso eles estão tentando algum mecanismo e dizendo que não precisam de licença para lançar o DVD.

Compositores têm direitos legais e mesmo assim na indústria da música, eles estão sendo roubados em todos os tipos de formas, e isso tudo torna as coisas ainda mais difíceis para os compositores. O que eles estão tentando fazer agora, alegando que podem tirar os direitos dos compositores e das editoras, pode fazer com que outros rótulos (marcas) façam a mesma coisa com outros compositores e editoras no futuro.

Um amigo meu que é advogado e também editor na indústria da música por mais de 40 anos, tendo trabalhado até no catálogo dos Beatles, disse para mim que nunca ouviu falar de alguém fazendo isso na indústria da música – um rótulo (marca) lançar um DVD sem a aprovação da editora de música e dos compositores. Toda esta questão é muito maior do que esse DVD. Eles não estão apenas tentando tirar os direitos de Rick e eu como compositores, estão também modificando as leis dos direitos autorais, dos compositores, no mundo todo.

Voltando para a primavera e verão de 2011, eu estava trabalhando com a Eagle Rock, em espírito de colaboração para o lançamento do DVD Paris. Eu passei por muitas e muitas horas de revisão para dar a minha opinião artística, e isso foi apenas no início de montar o DVD.

Havia muitas coisas que eu tinha me comprometido com eles, e ainda disse que eu daria a minha aprovação como compositor e outros direitos legais que eu tenho como um dos membros fundadores do Supertramp; eles concordaram por escrito e então eu nunca mais ouvi nada sobre isso.

No verão passado fomos informados de que o DVD foi arquivado devido a problemas de qualidade, verificados por Rick, e ele não aprovou o lançamento. Nós dissemos a Eagle Rock para não lançar o DVD até que tivessem a aprovação da editora musical que representa os compositores - então eu pensei que o projeto estava morto.

Depois de algumas semanas atrás, eu descobri que eles estavam trabalhando o tempo todo nesse DVD, secretamente pelas minhas costas, violando completamente o espírito de colaboração que tinham recebido de mim, até então.

A única razão de eu mesmo já ter recebido uma cópia desse DVD foi porque um fã me avisou sobre o lançamento desse DVD, e eu pedi para a Eagle Rock me enviar uma cópia.

Eu fiquei chocado ao receber o DVD completamente fabricado e produzido antes de eu ter visto o produto! Há toda uma montagem de fotos, materiais de bônus e encarte que eu nunca vi e nunca tive a oportunidade de opinar. Eles estão lançando um produto que supostamente representa todos os cinco de nós, e isso não é verdade. É representado apenas por três de nós.

Bob, John e Dougie estão declarando-se a Eagle Rock como a "Parceria Supertramp" e que o contrato é só entre os três e a Eagle Rock. Se você é um fã de Rick ou de Roger, ou ainda de ambos, então eu suponho que todos vocês vão concordar que isso não é correto; os três não são os compositores das músicas e não podem controlar o catálogo do Supertramp alegando que eu não tenho voz artística, e nem direitos de participar na criação de qualquer produto relacionado ao Supertramp, e mesmo assim ainda usam minhas atuações, minhas imagens e minhas canções.

Receber esse DVD todo embalado no último minuto, feriu a minha integridade. Eles não cumpriram os seus acordos e não honraram os meus direitos como compositor, músico e artista.

Por exemplo, eu queria que as canções fossem corrigidas em relação aos créditos dos compositores, para que fosse esclarecido quem compôs cada música. E, ao invés disso, eles foram tão longe que enterraram os compositores do publico. Não há nenhum crédito sendo dado aos compositores e aos editores na embalagem e no filme, entretanto, está sendo dado crédito aos comerciantes, a empresa de transporte rodoviário e qualquer um usando um terno de macaco. Eles não dando crédito aos compositores, dão a ilusão ao publico de que Supertramp, toda a banda, escreveu as canções, o que não é verdade.

E eles sabem o quanto é importante para eu ser reconhecido como compositor de minhas músicas. Essa é a única coisa que me ajudou a continuar com a minha carreira após o Supertramp.

Eu sei que os três vão dizer que estão fazendo isso para os fãs, mas isso não é o que realmente está ocorrendo. Se fosse realmente pensando nos fãs, eles saberiam que os fãs gostariam de ver os meus créditos no DVD. Isso tudo não é para os fãs ou sobre música. Este DVD é sobre um jogo de poder, é sobre dinheiro, controle, inveja e táticas de negócios escusos na indústria da música e eu não quero ter nada a ver com isso.

Particularmente, eu realmente estava envolvido nesse projeto, porque eu sei que muitos de vocês queriam um DVD daqueles concertos, quando eu estava com a banda (Supertramp). E eu espero que vocês compreendam que, embora eu sempre quis algo assim, eu não posso aprovar um produto que é criado com esse tipo de manipulação e fraude.

A outra razão que eu queria trabalhar no lançamento do DVD era para garantir que to...dos os cinco membros pudessem compartilhar suas experiências daquela turnê, e eu queria ter a certeza de que seria um produto da melhor qualidade possível. Infelizmente, eu também não posso endossar um DVD que tenha deficiências técnicas, imprecisões editoriais e má qualidade.

Então, eu não quero que nenhum fã seja enganado, e para aqueles que quiserem comprar o DVD, eu quero que saibam que esse DVD foi criado de uma maneira ilegal. A banda que você vê tocando no DVD não existe há mais de 30 anos.

Agora é tudo negócio, e parte da indústria da música tem crueldade e traição, assim como qualquer outra indústria pode ter. Essa é uma das razões que eu deixei de viver em Los Angeles e sair do negócio da música, todos aqueles anos atrás. Não é como eu quero viver a minha vida, e não é por isso que eu faço música.

Esta é uma das razões que agora eu estou mais feliz do que nunca, fazendo turnês, do que antigamente - não quero participar da indústria da música e de todas as partes feias do negócio.

Nenhuma gravadora me possui, nenhuma editora me possui, nenhum empresário me possui, nenhum agente me possui. Eu posso ficar fiel a mim mesmo e fazer tournês quando eu quiser, e como eu quiser. Eu posso tocar para 3.000 ou 85.000 pessoas em qualquer lugar. Eu não preciso mais tocar em arenas enormes, o importante é tocar música para ajudar a fazer as pessoas felizes, não importa o tamanho do publico.

Tornei-me um músico quando eu tinha 12 anos. É o que eu amo fazer e é o que eu sei fazer. E eu vou continuar por quanto tempo for possível a viajar pelo mundo, fazendo shows. Para mim, uma das coisas mais importantes como artista, é tocar música para a arte, para a magia que é possível com a música ajudando e elevando os espíritos das pessoas, abrindo seus corações para receber alguma cura e alívio de todos os problemas deste mundo.

Eu quero manter este DVD Paris separado daquilo que eu fui como artista durante todos estes anos, separado das minhas razões de fazer tournês e de tocar música. Eu sei que muitos de vocês queriam saber os meus pensamentos sobre o DVD Paris, de modo que é por isso que eu estou enviando este texto para os sites de fãs e você está convidado a deixar algum comentário lá nos sites.

Para algo mais positivo e edificante, você pode visitar o meu site do Facebook ou o meu livro de visitantes no meu website e ler algumas histórias realmente incríveis e emocionantes de fãs ao redor do mundo. Eu adoro muito todos vocês e estou plenamente ciente de que se não fosse por vocês amarem a minha música ou minhas canções, eu não estaria aqui realizando estas coisas. Ler as histórias e experiências que vocês escrevem sobre os meus shows é a minha inspiração.

Com amor,

Roger

P.S. Você também pode encontrar a minha agenda de turnê no meu website e na página de eventos no meu Facebook - espero que você possa se juntar a mim.”

quinta-feira, agosto 16, 2012

Cota desrespeita inteligência

Fernando Reinach - ESTADÃO.COM.BR Todo professor responsável enfrenta o desafio de lidar com a diversidade dos alunos. Parte da diversidade resulta de diferenças na motivação deles. Enquanto alguns chegam famintos por novos conhecimentos, outros preferiam estar longe da sala de aula. Mas também existe a diversidade dos conhecimentos na mente de cada aluno. Enquanto alguns sabem o suficiente para compreender o conteúdo da aula, outros têm dificuldade ou ainda são incapazes de acompanhar a matéria. Claro que essas duas categorias se entrelaçam. Muitos alunos perdem a motivação por estarem despreparados para acompanhar a aula, outros a perdem pelo fato de a aula não ser suficientemente desafiadora e instigante. O dilema é sempre o mesmo. Ao puxar o ritmo do aprendizado, o professor motiva os preparados, mas aliena os retardatários. Se optar por ajudar os retardatários, perde o interesse dos mais adiantados. Desde o surgimento da escola na sua forma atual, em que muitos alunos são ensinados por um professor, o problema da heterogeneidade das classes tira o sono de docentes dedicados. Esse problema está na origem do ensino seriado, em que alunos da mesma idade e conhecimento são agrupados em uma sala de aula e sua promoção para a próxima série depende do cumprimento de certas metas. Esse mecanismo, que garante um mínimo de homogeneidade, é a mãe dos exames de avaliação, da temida reprovação e das aulas de recuperação, talvez o melhor mecanismo para reduzir a diversidade. Nas cortes europeias, em que os jovens príncipes eram educados individualmente por tutores, esse problema não existia. Mas, assim que o ensino formal foi massificado, mecanismos capazes de organizar alunos em grupos relativamente homogêneos foram desenvolvidos. O custo de desrespeitar essa regra básica é um aproveitamento menor dos alunos e uma diminuição na eficiência e velocidade do ensino. Aprovação automática. Há alguns anos foi introduzida no Brasil a aprovação automática dos alunos, independentemente do conhecimento adquirido. Além de ser uma maneira barata e simplista de isentar o sistema educacional da responsabilidade de dar aulas de reforço e acompanhamento, essa medida aumenta a heterogeneidade das classes, dificulta o trabalho dos professores e diminui a eficiência do ensino. Nossos professores agora têm de motivar, durante uma mesma aula, alunos preparados e despreparados. Mas ninguém reclamou muito. Professores e diretores se livraram da meta básica de todo educador: fazer a maioria de seus alunos aprender, de maneira estimulante, o currículo de cada série. O governo pode mostrar estatísticas de aprovação róseas e os pais se livraram da frustração de ter seus filhos reprovados. O resultado é que a pressão por um sistema educacional melhor foi aliviada. Agora uma nova lei promete aumentar a heterogeneidade entre os alunos das universidades federais. É o sistema de cotas para alunos que estudaram em escolas púbicas. Não há dúvida de que é injusto que toda a população pague pela manutenção das universidades federais e somente os mais ricos, vindos de escolas privadas, ingressem nessas instituições. A questão é saber se as cotas são a melhor solução para essa distorção. Com o novo sistema de cotas, 50% das vagas nas universidades federais serão disputadas por todos os alunos. O restante será disputado por alunos de escolas públicas. Esse novo sistema vai gerar dois grupos de alunos em todas as classes, em cada um dos cursos de todas as universidades federais. Quão diferentes serão esses grupos? Se os melhores alunos da escola pública tivessem preparo semelhante ao dos melhores alunos das escolas privadas, a nova lei seria desnecessária. O alunos da escola pública já ocupariam hoje mais de 50% das vagas. Mas esse não é o caso e metade das vagas será ocupada por alunos menos preparados (mas não menos inteligentes). Basta simular esse tipo de seleção com base nos resultados dos vestibulares passados para verificar quão diferentes serão esses dois grupos. Qual será o efeito dessa medida sobre a qualidade do ensino ministrado nas universidades federais? Como o ensino será ministrado nessas novas classes, em que metade dos alunos será menos preparada que a outra metade? Os professores adequarão o ensino a essa metade, desestimulando os mais preparados, reduzindo o nível de toda a universidade? Ou será que o nível das aulas será mantido, alienando os alunos menos preparados e desencadeando reprovações em massa? Será que os defensores dessa lei acreditam que os professores das universidades federais são tão capazes, motivados e tão bem remunerados que facilmente darão conta desse novo desafio? Ou será que as universidades federais adotarão o sistema que existia nas pequenas escolas primárias do interior do País, em que todos os alunos do curso primário eram colocados na mesma sala, organizados por fileiras. Os de 7 anos numa fileira, os de 8 em outra e assim por diante, enquanto o professor dividia seu tempo entre as fileiras. Qualidade ameaçada. O mais provável é que esse aumento na heterogeneidade diminua a qualidade do ensino nas universidades federais. Só resta esperar que na esteira dessa nova lei não venha a obrigação da aprovação automática nas universidades federais ou um novo programa de cotas que garanta para os alunos egressos dessas universidades 50% das vagas no funcionalismo público. Antes de sancionar a nova lei, o governo deveria visitar diversos programas experimentais financiados pelo setor privado. Muitos desses programas, ministrando aulas complementares nos finais de semana, conseguem colocar até 80% de alunos carentes, vindos do ensino público, nas melhores universidades brasileiras. Isso depois de concorrerem com os melhores alunos do ensino privado. Vale a pena ver o orgulho estampado na face desses jovens. Na minha opinião, as cotas colaboram para a piora do ensino público e são um desrespeito à inteligência e à autoestima dos alunos das escolas públicas. Precisamos não de cotas, mas de um ensino público melhor. O ingresso de 50% de alunos do sistema público nas universidades federais deveria ser uma meta do Ministério da Educação e não mais uma maneira de diminuir a pressão da sociedade por uma educação de melhor qualidade. * BIÓLOGO