quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Adeus melancólico, mas sereno


Em São Paulo o mercado jornalístico possui uma espécie de veículo oficial, o Jornalistas&Cia, produzido por um amigo, jornalista e empresário Eduardo Ribeiro, da Megabrasil. É um boletim semanal que mostra o que acontece nas redações e assessorias de imprensa de todo país, quem saiu em tal lugarm quem chegou, quem lançou livro, etc.

Na edição de 26 de fevereiro de 2009, há uma notícia sobre a morte de um jornaista, Claudio Faviere, de 60 anos, com passaagens por vários jornais,entre eles a folha de S. Paulo. Nunca ouvi falar dele. Entretanto, sua morte for registrada e traz um depoimento de um contemporâneo, nei Duclós, também jornalista, que descobriu o texto abaixo do amigo e o tornou público novamente.

O texto é interessante, mostra a desolação de Faviere com o jornalismo atual e a decisão de abandonar as redações para abrir uma pousada em Cunha, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro. Suas posições são compartilhadas por Duclós. Discordo toalmente da opinião de ambos sobre a avaliação do jornalismo atual.

Respeito, mas abomino essa visão apocalíptica descrita no texto e, principalmente, esse comportamento absurdo de abandonar tudo em vez de lutar para melhorar. Entretanto, o texto de Faviere é um retrato amargo da profissão, mas profundamente sincero. Considero-o um marco recente da análise do trabalho jornalístico.



NO DIA EM QUE EU VIM-ME EMBORA


Não tinha nada demais. Tinha
o vento a favor. Havia comprado
o sítio em Cunha sem que tivesse
planejado comprar sítio, construído
a casa sem que estivesse
nos planos mudar de cidade.
Tudo aconteceu sem planejamentos
e intenções. Coisas do
destino ou sabe-se lá do quê. Era
1993.

Dois anos depois, ao sair
do último emprego, sentia um
grande desencanto com o jornalismo,
do jeito que passara a ser
praticado. Morte da reportagem,
imprensa oficialesca, sem investigação
e denúncia, império do
release, matérias feitas em série
como em uma fábrica de salsichas,
visões áridas, estatísticas,
sem contemplação do ser
humano.

No período entre a compra do
sítio e a saída do emprego mesclava
o trabalho em São Paulo
com a construção da casa, nas
rápidas viagens de fim de semana
a Cunha. Nas conversas de bares
na pequena cidade ou nos humildes
armazéns da zona rural, nas
visitas às casas e nos passeios aos
pequenos vilarejos da roça, o contato
com novas realidades, novos
cenários, novas pessoas. E a descoberta
de novas histórias, de uma
nova cultura, de um novo e prazeroso
relacionamento com os moradores.

Tudo em contraste relevante
com a metrópole, onde nasci,
vivi, trabalhei. O fascínio por
tudo isto era grande. Destes contatos
e histórias surgiu a vontade
de uma nova experiência: escrever
um romance ambientado naquela
realidade, a primeira entrada no
mundo da ficção.

Fazia quase 30
anos que praticava o exercício de
escrever, mas sempre em cima de
fatos e acontecimentos.
Somando tudo: desencanto com
o jornalismo, a saída do último
emprego, um dinheirinho no bolso,
a casa semipronta (mas já em
condições de morar), as primeiras
linhas do romance se delineando
nos breves intervalos do cotidiano
de São Paulo. Pronto. Lá vou eu.
Bye-bye tudo.

E vim-me embora com o projeto
de passar um ano com dedicação
exclusiva ao romance. O dinheirinho
dos direitos trabalhistas não
era muito, mas o suficiente para
não ter outra preocupação do que
viver plenamente a experiência da
liberdade proporcionada pela literatura.

E aqui no sítio tudo era a
favor: as cachoeiras rodeando a
casa, a mata, o silêncio, o sagrado
isolamento, as montanhas, o céu
que chega a dar um porre de azul.
Só uma coisa não foi a favor: a realidade.
O dinheiro acabou, parei
o romance quase concluído, fui
atrás da sobrevivência, retomei o
romance, parei novamente, fui
atrás da sobrevivência.

Em 2000, recebi uma pequena
herança e construí uma pousada
com o claro objetivo de ela não ser
um fim, mas o meio através do
qual fosse possível atingir o objetivo
maior: ler e escrever. Passaram-
se quase cinco anos de
trabalho árduo para que a pousada
se estruturasse, ficasse conhecida,
possibilitasse a sobrevivência
e, enfim, eu alcançasse a
paz e tranqüilidade para terminar
o romance.

Penso que assim como o destino
me trouxe para cá e me privilegiou
com um pedacinho de terra
tão sagrado (sem que eu houvesse
planejado ou pretendido), o
mesmo destino designou a hora
certa para concluir este sonho de
liberdade. Era inexorável e foi agora.

O livro chama-se “Na Cacunda
do Lagarto” e só falta um pequeno
detalhe: editá-lo. Vamos
ver. Mas os percalços desta batalha
nunca me tiraram a felicidade
de estar aqui, mais perto da vivência
do que da sobrevivência.

Nota: O título deste artigo e a primeira
frase são de uma música de Caetano
Veloso.

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