Espaço coordenado pelo jornalista paulistano Marcelo Moreira para trocas de idéias, de preferência estapafúrdias, e preferencialmente sobre música, esportes, política e economia, com muita pretensão e indignação.
domingo, maio 31, 2009
O fim de um jornal melhor que os seus donos
por Thales Guaracy
A imprensa anda de luto pela Gazeta Mercantil, o jornal que estertorou nas mãos da CBM, Companhia Brasileira de Multimídia, de Nelson Tanure. Seu fim não se dá pela crise da imprensa, que vai abalando grandes jornais do mundo, a começar pelo New York Times, nos Estados Unidos, com a prevalência crescente da internet sobre a mídia impressa. É apenas um caso de má administração e incompreensão da natureza de um negócio. Com a Gazeta, vai se encerrando parte da história do jornalismo brasileiro, mas ela ainda nos dá uma lição, sua última contribuição para o futuro.
Comecei a trabalhar na Gazeta em 1986, recém-saído da faculdade, depois de rápido estágio na TV Bandeirantes. Instalada num edifício da rua Major Quedinho, a Gazeta era um jornal venerável, considerado leitura obrigatória no mundo profissional. Sua circulação era menor que a da Folha de S. Paulo e de O Estado de S. Paulo, porém seu público era mais qualificado.
Possuía também um braço na TV, o programa Crítica e Autocrítica, capitaneado pelo seu diretor editorial, Roberto Muller, que ia ao ar no domingo à noite. Era uma alternativa para o público que queria ver uma conversa mais séria, ainda que às vezes meio sonolenta, em lugar das mesas redondas de futebol.
Na redação do jornal, havia uma constelação de estrelas do jornalismo, a começar pelo seu diretor, Matias Molina, o secretário de redação, Alexandre Gambirasio, e um time de repórteres tratados como primas-donas: Celso Pinto, José Casado, Getúlio Bittencourt, entre outros - todos premiados e com vasta folha de serviços prestados ao jornalismo brasileiro.
A Gazeta era não apenas um grande jornal de negócios, como uma escola de jornalismo. Isso incluía princípios como a imparcialidade e a honestidade absolutas; a obsessão pela informação correta, segundo elemento essencial para a credibilidade; a busca incansável pela notícia exclusiva, que fazia a diferença.
A disputa aberta e estimulada entre os repórteres pelo espaço da primeira página era uma forma de garantir a perseguição permanente pela qualidade, num mercado em que ainda não havia concorrentes importantes. A Gazeta valorizava o jornalista, que assinava todas as suas reportagens e era tratado como patrimônio da casa, a própria essência do negócio.
Parecia uma fortaleza inexpugnável, e teria sido, não fossem os seus proprietários: a familia Levy, cujo patrono, o deputado federal Herbert Levy, deixara a administração do jornal ao filho Luiz Fernando para cuidar de suas atividades políticas. A gestão fez da Gazeta Mercantil o único órgão de imprensa em que trabalhei a atrasar salário. Porto seguro para a publicidade de bancos e outras empresas que tinham no jornal um veículo perfeito, o uso dos recursos fazia com que volta e meia a empresa entrasse em dificuldades.
Por sorte, naquela época, havia um grupo de empresários que, nos momentos mais difíceis, socorriam o jornal. Sabiam que ele era melhor que os seus donos. Agiam não por amizade, compromisso, ou mesmo medo, mas pelo entendimento de que o serviço prestado pela Gazeta era importante e insubstituível para a comunidade de negócios e o país.
Assim, o jornal prosseguiu não por causa de seus criadores, mas apesar deles; pertencia não a uma família, mas à sociedade. Sempre foi respeitado muito graças ao espírito de corpo dos jornalistas que nele trabalhavam, enquanto seus proprietários eram tratados com reserva.
Lembro de certa tarde em que eu, ainda um repórter principiante, fui fazer uma entrevista com o então diretor do Banco Central, Wadico Bucchi, em São Paulo. Encontrei Luiz Fernando Levy já na ante-sala, à espera de uma audiência. Levy continuou esperando, enquanto eu entrei na sua frente, atendido primeiro.
Para Bucchi, o repórter principiante merecia preferência em relação ao dono do próprio jornal onde trabalhava. Ele sabia que eu estava ali em busca de notícia, fazendo meu serviço para uma publicação de prestígio. Levy estava lá para pedir alguma coisa.
Quando o mercado se torna mais difícil, uma má gestão fica mais evidente e faz a diferença, sempre para pior. Surgiu o Valor Econômico, um concorrente que tomou da Gazeta boa parte de seu principal ativo: os jornalistas. A empresa mergulhou em dívidas e mesmo os seus mais antigos defensores desistiram de salvá-la. Acossado pelos credores, Levy entregou o título a Nelson Tanure, empresário do ramo de transportes, que resolveu investir em comunicação e cobriu-lhe dívidas.
Tanure não tem a mesma familiaridade com as qualidades que fizeram da Gazeta um grande veículo e poderiam recuperá-la. E anunciou que fecharia o jornal por conta da cobrança na Justiça de dívidas trabalhistas anteriores à sua gestão e que, segundo explicou no próprio jornal, não lhe dizem respeito.
Há hoje uma onda de empresários que arriscam tornar-se editores sem compreender a dependência desse negócio de sua matéria-prima essencial – gente. A Gazeta teve seus quadros reduzidos, os salários aviltados. A qualidade do jornal era até miraculosa, dadas as condições de trabalho.
O que assusta hoje na imprensa não é a mudança da mídia impressa para a digital. A verdadeira ameaça ao negócio é a entrada de gente com dinheiro e ousadia, mas sem conhecimento do riscado – sobretudo, da importância da separação entre Igreja e Estado. Para mercadores vindos de outras áreas, é difícil aceitar que não se barganha conteúdo jornalístico por dinheiro, e que a credibilidade, que exige o sacrifício do ganho fácil, é a fonte do sucesso duradouro nesse tipo de negócio.
A Gazeta virará agora uma embrulhada jurídica para que se saiba quem pagará as contas, se Levy ou se Tanure – um tipo de disputa à qual ambos, por sinal, estão habituados. Esse, porém, não é o verdadeiro fim da história. Jornal que sempre analisou em suas reportagens as causas do sucesso e do fracasso empresarial, a Gazeta fez de sua própria trajetória uma parábola do assunto que explorava.
Em sua agonia, a Gazeta deixa como ensinamento o que é capaz de levantar e também derrubar um negócio de comunicação, não importa qual seja sua plataforma – o papel, a TV ou o mundo virtual. E, nesses tempos tão cheios de dúvidas sobre o futuro do negócio da informação, reafirma a convicção de que, enquanto os bons princípios do jornalismo forem praticados, sempre haverá uma imprensa livre e economicamente forte para proteger a sua e a nossa liberdade.
do site Whiplash
OZZY OSBOURNE está processando seu companheiro de Black Sabbath Tony Iommi, alegando que ele teria ilegalmente reivindicado ser o único proprietário da marca Black Sabbath junto ao U.S. Patent and Trademark Office (Escritório de patentes dos EUA).
Ozzy decidiu tomar esta atitude para ter 50% da marca "Black Sabbath", igualmente com uma porção dos lucros de Iommi com o nome.
A corte federal da Manhattan alega também que os "vocais característicos" de Osbourne são em grande parte responsáveis pelo "extraordinário sucesso" da banda, notando a queda livre de popularidade do grupo no período entre 1980 e 1996, na ausência de Ozzy.
Em uma declaração lançada na tarde do dia 29 de maio, Ozzy falou sobre sua decisão de processar Iommi: "É com grande pesar que tive que recorrer à essa ação legal contra meu companheiro de longa data Tony Iommi, mas depois de três anos tentando resolver esse problema amigavelmente não tive outra escolha".
"No meio da década de 90, depois de constantes e numerosas mudanças na formação do grupo, a marca Black Sabbath estava literalmente no fosso, e Iommi (fazendo turnês com o nome BLACK SABBATH) foi reduzido à tocar em clubes. Desde 1997, quando Geezer (Butler, baixo), Bill (Ward, bateria) e eu nos juntamos novamente à banda, o SABBATH retornou à sua antiga glória e nós tocamos em arenas e anfiteatros lotados para mais de 50 mil pessoas em show por todo o mundo. Trabalhamos coletivamente para restaurar a credibilidade e trazer dignidade novamente ao nome Black Sabbath, o que levou a banda a conquistar uma posição no Rock and Roll Hall of Fame do Reino Unido em 2005 e dos EUA em 2006".
"Ao longo dos últimos 12 anos, foram meus representantes que supervisionaram o marketing e o controle de qualidade da marca Black Sabbath durante a Ozzfest, turnês, merchandising e re-lançamentos de álbuns. O nome Black Sabbath hoje tem prestigio no mundo inteiro e um valor de mercado que não teria se continuasse na estrada antes da turnê de reunião em 1997".
"Tony, estou muito triste que isso tenha chegado neste ponto, de tomar esta ação contra você. Eu não tenho o direito de falar por Geezer e Bill, mas eu sinto que moralmente e eticamente a marca deveria pertencer a nós quatro de maneira igual. Eu espero que este primeiro passo termine de uma vez por todas com isto. Nós todos trabalhamos muito em nossas carreiras para deixar que você venda merchandise que apresenta a cara de todos nós, capas de álbuns antigos do Black Sabbath e logotipos da banda, e então você nos diz que os direitos autorais lhe pertencem".
"Estamos todos nós com mais de 60 anos agora, o legado do Black Sabbath irá viver depois que todos nós tivermos ido, por favor, faça a coisa certa".
Osbourne adicionou em um outro post em separado: "Estou muito triste que eu tenha que tomar ações legais contra Tony. Isto é algo que eu tentei desviar por anos. Não sou a voz de Geezer ou Bill, porém, até o dia que eu morrer não irei mudar de ideia sobre isto. A marca Black Sabbath deveria pertencer igualmente à Geezer, Bill, Tony e eu, pois a formação verdadeira do Black Sabbath é Tony, Geezer, Bill e eu. Somos todos companheiros desde a escola, eu sempre disse que havia uma linha invisível que nos mantinha juntos".
"Tony, vamos deixar este negócio ridículo de lado e continuar com nossas vidas. Você tem 61, eu tenho 60. Eu espero que ainda tenhamos uns bons 20 anos pela frente. Mas se não, Deus me livre que aconteça algo contigo, o que irá acontecer com a marca BLACK SABBATH? Quem irá olhar por ela? Você não acha que depois que nós formos deste mundo os direitos devam ficar com sua família, a minha, de Bill e Geezer?"
O processo de Ozzy se segue a outro arquivado por Iommi em dezembro de 2008 contra a Live Nation. Neste arquivo, Iommi alega que a gigante vendia merchandises com o logotipo da banda, mesmo após o contrato ter expirado em 2006, em algo que valia em torno de 80 milhões de dólares. Depois deste acordo ser concluído, Iommi requisitou os direitos da banda.
quinta-feira, maio 28, 2009
Informação é poder e comunicação está na base da criação de qualquer sociedade. São conceitos fundamentais que são ensinados em diversos cursos superiores, tanto no Brasil como no mundo. E geralmente a frase inicial deste texto abre as aulas magnas dos cursos de jornalismo.
Acredito com fé na frase e é com ela que louvo a minha profissão, jornalista, e falo de sua importância para candidatos a jornalistas, estudantes de jornalismo e recém-formados.
E as três “categorias” sempre me perguntam a respeito da eventual queda, na Justiça, da proibição de pessoas exercerem o jornalismo sem ter o diploma. É bom lembrar que temos importantes faculdades do curso no ABCD, como a Metodista, a Unimes e Uniban, entre outras.
O STF (Supremo Tribunal Federal) acabou com a Lei de Imprensa, entulho do tempo da ditadura e deve julgar em definitivo a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.
Sou favorável à obrigatoriedade, pois ela está diretamente ligada à regulamentação da profissão. Sem regulamentação, vira terra de ninguém, com modelos virando “jornalistas” e aventureiros diversos querendo o registro apenas para se beneficiar eventualmente de algumas “benesses” que as carteiras supostamente oferecem.
Infelizmente, muita gente que eventualmente não tem diploma mas que poderia se tornar jornalista é prejudicada. Paciência, mas as exceções não podem prevalecer, senão não existe mais regra. A exigência do diploma disciplina e regula uma profissão que é frequentemente objeto de cobiça e vilipêndio.
Pode até não proteger e nem garantir qualidade, mas é o mínimo que a categoria conseguiu para obter um mínimo de respeito e benefícios. Se com a profissão regulamentada os salários caíram e os calotes aumentaram, imaginemos como seria sem a regulamentação.
A profissão tem uma regulamentação, ainda que esteja sendo atacada e precarizada. Sem a regulamentação, as empresas substituirão com mais voracidade mão de obra qualificada por trabalhadores precários em todos os sentidos - intelectual, cultural e legalmente.
Defendo a exigência do diploma e a importância das faculdades de jornalismo, por pior que sejam. É uma forma de garantir (um pouco de) dignidade à profissão e, em tese, mais qualidade na difusão da informação. Da mesma forma que não existe advogado sem diploma e sem OAB, defendo que não exista jornalista sem diploma e, no futuro, sem “OAJ” ou CFJ.
sábado, maio 02, 2009
Carioca ignora visita do COI
População não vai às ruas de verde e amarelo, apesar dos apelos feitos pelos dirigentes
Bruno Lousada, RIO
Foi em vão a campanha para os cariocas irem às ruas de verde e amarelo e pendurar bandeiras do País na varanda de suas casas para sensibilizar a Comissão de Avaliação do Comitê Olímpico Internacional (COI), que transitou ontem pela cidade para inspecionar várias instalações esportivas. O número de pessoas que aderiu à convocação, feita à exaustão em rádio e televisão, foi inexpressivo.
Na Avenida Atlântica, área nobre de Copacabana muito frequentada por turistas e cariocas, foi raro ver alguém, durante boa parte do dia, com as cores pedidas pelos defensores da candidatura carioca. O Rio disputa com Madri, Tóquio e Chicago o direito de ser sede dos Jogos Olímpicos de 2016.
"Eu não estava junto da comissão (internacional), mas o relatório que tive de quem estava com eles diz que houve bastante apoio popular durante a passagem (da comitiva)", disse Leonardo Gryner, diretor de marketing do comitê Rio-2016.
A equipe do COI visitou o Forte de Copacabana, o Parque Maria Lenk, a Arena Olímpica, o Estádio João Havelange, o Maracanã, a Marina da Glória, o Complexo de Deodoro e seguiu de metrô da Glória a Copacabana, bairros da zona sul.
Todas as instalações ganharam banho de loja e foram repaginadas. Estavam limpas e bem decoradas para receber os 13 membros do COI, sete deles com poder de voto. Até estrelas do esporte brasileiro foram escaladas para recepcionar os delegados internacionais nos principais equipamentos da cidade.
A campeão olímpica Maurren Maggi deu as boas vindas à comitiva na pista de atletismo do Engenhão. Pelé fez o mesmo no Maracanã e disse ter ficado emocionado com a visita.
"Tenho de agradecer a Deus. Eles ficaram surpresos com tanta coisa bonita, tanta coisa boa. O pior é que meu inglês não é dos melhores e eu tive de explicar para eles que não tremi no milésimo gol (feito no estádio)", declarou, com largo sorriso. "Foi uma alegria geral e eles se sentiram à vontade. Quem sabe não ganhamos a batalha".
De acordo com Pelé, a comitiva deixou o Maracanã impressionada com o que viu. "Senti tanto entusiasmo neles que eu tenho três cartões dos membros (do COI), incluindo o da presidente (da comissão, a marroquina Nawal El Moutawakel)", contou. "Ela disse que quer vir para cá sem trabalhar."
Truculência no vagão especial do metrô
Seguranças agridem e ameaçam repórter do Estado
Pedro Dantas, RIO
Seguranças à paisana isolaram a comitiva do Comitê Olímpico Internacional (COI) no último vagão do Metrô da Glória à estação Cantagalo, em Copacabana (zona sul), uma das etapas finais da vistoria de ontem. Os demais passageiros foram orientados a "dispersar" por homens em trajes civis, que impediam a entrada do público comum. O repórter do Estado também foi barrado: teve de obedecer à ordem de seguir em outro vagão, acompanhado por dois seguranças à paisana.
No fim da viagem, três homens, identificando-se como policiais, mas sem exibir documentos, o empurraram para um banheiro, torceram-lhe o braço e o ameaçaram. "O procedimento é este", disse um deles.
Durante a viagem, o jornalista se identificou para um dos agentes que ostensivamente o seguiam. O homem pediu desculpas e se disse aliviado, mas afirmou que seria obrigado a desmontar "todo um esquema" já pronto para abordar o repórter. Pediu que não citasse nada no jornal, pois poderia "desclassificar a candidatura do Brasil". Em tom de ameaça, disse que sabia "muito bem" como encontrá-lo.
O constrangimento começou perto da escada rolante da estação Cantagalo. Um homem de camisa preta e boné mandou o profissional "desenrolar" e "seguir em frente sem olhar pra trás". O repórter se identificou e perguntou quem era o estranho. "Polícia", respondeu, ríspido. O jornalista tentou seguir em direção à escada rolante. Outro homem se aproximou e o repórter foi empurrado para um banheiro. Seu braço foi torcido e o rosto mantido junto ao azulejo. Outras pessoas que estavam no banheiro saíram, assustadas.
Após verificar o crachá do repórter, o agressor sumiu. Um deles telefonou para a sucursal do Estado, sem se identificar, e perguntou se o jornalista trabalhava lá. Outro agente, de cavanhaque, que estava na estação Glória, então reapareceu e repreendeu o jornalista, dizendo que a viagem era apenas para credenciados. A informação, contudo, não era verdadeira. Não houve credenciamento para acompanhar a viagem de metrô. Os homens interrogaram o repórter: queriam saber onde mora, se é "experiente" na profissão. Diante da alegação de que a truculência não era necessária, um deles afirmou que o "procedimento" era normal.
Antes da viagem, desde cedo, o bairro da Glória, que recebeu os integrantes do COI para o embarque, amanheceu sem os habituais ambulantes e mendigos, que deixam pouco espaço para pedestres na Rua da Glória. Uma hora antes da chegada da comitiva, ônibus da Guarda Municipal, garis, carros de reboque da Secretaria Municipal de Trânsito e viaturas da Polícia Militar deram os últimos retoques.
A Secretaria de Segurança do Rio alegou não ter participação na segurança dos eventos ligados à Rio-2016, que são de responsabilidade de agentes privados, contratados pelo CO-Rio, e da Polícia Federal. O CO-Rio disse que não usou segurança para a visita ao metrô e que sequer foi informado sobre o episódio. O Estado procurou a PF, sem sucesso.
sexta-feira, maio 01, 2009
Que o escândalo do abuso das passagens aéreas pelos congressistas brasileiros é repugnante e asqueroso já está mais do que dito e sacramentado. Mas quando o presidente da República, que pertence a um partido outrora conhecido pela sua defesa da ética, vem a público para defender os parlamentares que debocham dos eleitores, aí não dá! É revoltante, para dizer o mínimo.
Sites de notícias reproduzem neste 1º de maio os comentários do presidente Lula dizendo que não acha “nada demais os parlamentares usarem as passagens para transportar parentes e sindicalistas e que considera hipocrisia a gritaria contra essas práticas”.
O presidente não parou por aí. “Não acho correto, mas não acho crime dar passagem para outra pessoa. O problema do Brasil não é esse. Isso pode ser corrigido por decisão da Mesa Diretora da Câmara. Esse não é o mal do Brasil. Se o mal do Brasil fosse esse, o país não teria mal”, segundo publicou a Folha Online.
Que o presidente da República demonstrou ter imensos problemas na distinção entre o que é ético e o que não é desde que assumiu o posto, em 2003, não é novidade, mas, no caso presente, é um acinte que a maior autoridade do país defenda as práticas condenadáveis e nojentas realizadas por deputados e senadores de todos os partidos.
Lula sai bem menor das comemorações deste 1º de Maio.
Um dos passeios mais bonitos que o morador do ABCD ou o turista podem fazer é percorrer os cerca de 30 quilômetros que separam São Bernardo e Suzano pela rodovia SP-31, a Índio Tibiriçá. Embora o governo do Estado esteja realizando obras de melhorias e de pavimentação, especialmente no acostamento em alguns trechos, a estrada ainda permanece um pouco descuidada, e deve mais abandonada com a entrada em operação do Rodoanel Mário Covas em seu trecho sul.
O passeio é gostoso porque é feito bem no meio de um trecho que é o início da Serra do Mar, com grandes braços da represa Billings sendo cortados, e com bonitas propriedades e clubes nas suas beiras.
Alguns trechos à margem da rodovia SP-31 são exemplos de preservação do meio ambiente, mas outros são exatamente o contrário. E é justamente por conta desses trechos que os administradores da região precisam ficar preocupados, aliás muito preocupados.
O ponto é que os núcleos habitacionais estão crescendo demais ao longo da estrada, e os que já se tornaram bairros e distritos estão inchando, a ponto de causar congestionamentos constantes.
O trecho do distrito de Ouro Fino Paulista, em Ribeirão Pires, é desolador. O vairro cresceu muito e desordenadamente, sem qualquer controle e à mercê de oportunistas e vigaristas de toda a espécie, que ainda incentivam a ocupação criminosa – e o pode público municipal, no mínimo, está sendo omisso há anos.
Ou seja, em tempos de debates acalorados sobre os muros erguidos nas favelas cariocas pela prefeitura do Rio de Janeiro, parece que a discussão é convenientemente ignorada pelos agentes públicos do ABCD. Não só do ABCD, mas também de Suzano e Mogi das Cruzes, para ficar apenas nas cidades mais próximas das sete cidades.
Aliás, fica em Suzano outro trecho preocupante à beira da Índio Tibiriçá, com ocupações desordenadas (quando não criminosas). Fica na Estrada do Koyama, que leva à rodovia Mogi-Bertioga ao parque de diversões Magic City.
O começo da estrada é no km 58,5, pouco depois da divisa entre Suzano e Ribeirão Pires. Essa região de divisa de municípios praticamente virou uma extensão de Ouro Fino Paulista, o bairro de Ribeirão. Do outro lado da divisa, o núcleo habitacional e comercial surge emendado e já espalha para morro adentro, na Serra do Mar.
E ninguém percebe, ninguém reclama. Os moradores do local não estão nem aí. E parece que as prefeituras também não, assim como os promotores públicos do meio ambiente.
Com essa situação totalmente favorável, é claro que o comércio informal e ilegal prolifera. E cada vez mais fica difícil organizar o caos urbano em mais um núcleo em área de manancial (área localizada nas imediações de nascentes de rios).
Avançando serra adentro, logo aparecem vereadores sedentos por votos e loucos para “legalizar” a irregularidade levando infraestrutura completa, com transporte, energia elétrica e ligações de água e esgoto.
O Ministério Público Estadual precisa se manifestar com urgência sobre a questão, antes que Ouro Fino Paulista e a Ipelândia (bairro de Suzano vizinho) se transformem na Vila São Pedro e no Montanhão, favelas que viraram bairros em São Bernardo.
A discussão sobre os muros nas favelas cariocas amainou, e parece que a serenidade começa a tomar conta do debate sobre a viabilidade ou não de se fazer a contenção nos morros do Rio de Janeiro.
A ideologização do tema prejudicou a compreensão da iniciativa da prefeitura do Rio, e acabou por gerar um festival de sandices, inclusive de um prêmio Nobel de literatura, o português José Saramago. Houve de tudo, de acusações de discriminação social e racial a aplicação de supostas teorias “nazistas”.
O fato é que a questão dos muros em favelas no Rio de Janeiro está voltando ao foco original, que é a aplicação de medidas para conter a expansão dos barracos.
E isso tem tudo a ver com o ABCD. É hora de os gestores públicos da região olharem para o que está sendo feito na capital fluminense e iniciar o mais rápido possível o debate sobre o avanço indiscriminado e criminoso das favelas nas cidades – exceto em São Caetano.
Não se trata de estigmatizar as favelas do ABCD e seus moradores. Os crimes contra a sociedade e contra as administrações públicas foram gestados e incentivados durante 30 anos pro políticos inescrupulosos e bandidos de toda a espécie, com as invasões de morros e de áreas de manancial (áreas que ficam nas imediações de nascentes de rios).
Desde o crescimento da indústria automotiva em São Bernardo e em Santo André que o processo de favelização na região é contínuo, contando com a cobertura criminosa de vereadores e “grileiros” desde o final dos anos 70 do século passado, com o tácito apoio das fábricas – afinal, era melhor ter os trabalhadores morando perto das linhas de montagem, mesmo que em favelas nos morros da Vila São Pedro, no Montanhão e no bairro Battistini, todos em São Bernardo.
Para completar, o acabamento: a legalização das lotes irregulares e invadidos pelas prefeituras, que se encarregaram de levar energia elétrica, asfalto, ligações de água e esgoto, legitimando na marra os “novos bairros”.
O resultado é um inchaço indecoroso na população dos sete municípios, com a precarização dos serviços básicos de saúde, educação e transportes. Na esteira da favelização, vieram os crimes e a violência – em parte como grito de socorro de um população acuada, indefesa e abandonada pelo poder público, após o apoio inicial oportunista na hora da “legalização”.
A situação piora ano a ano, com novas áreas invadidas e com a chega de novas modalidades de crimes. Tudo isso sem que haja qualquer reação do poder público. Enquanto a discussão avançou no rio de Janeiro e alguma medida foi tomada, aqui nas sete cidades nem mesmo se fala no assunto.
E vai piorar, não resta dúvida. O trecho Sul do Rodoanel Mário Covas deve ficar pronto até o primeiro trimestre de 2010. Absolutamente necessária e indutora de desenvolvimento, a obra também trará o ônus do aumento de bolsões de miséria, a exemplo do que ocorreu no trecho oeste, nas cidades de Barueri, Carapicuíba e Osasco.
Várias favelas surgiram às margens das pistas naquela cidades, numa tentativa desesperada de uma parte do povo que fugia desesperadamente da pobreza, para encontrar não mais do que miséria, só que um pouco mais perto da Capital.
A vida dos prefeitos do ABCD está cheia de desafios neste ano, e a contenção da expansão das favelas em São Bernardo, Santo André, Mauá e Ribeirão Pires talvez seja o principal deles, justamente por conter custos políticos altos, mas necessários. Neste quesito, Diadema é o modelo a ser seguido.
Sintomas de crises financeiras e econômicas costumam aparecer primeiro em relação aos níveis de emprego. A queda dos postos de trabalho está mais do que documentada em qualquer índice que se consulte desde novembro do ano passado em todo o país, em quase todos os setores.
Passados seis meses da eclosão da crise, nota-se a parte de agora um crescimento do número de mendigos e pedintes nas cidades da Grande São Paulo. Não é mera coincidência. Afinal, há tempos não se viam as degradantes e chocantes cenas de pessoas dormindo ao relento, sob o Minhocão, na avenida Amaral Gurgel, no centro de São Paulo.
As políticas de assistência social das prefeituras sempre foram pífias na região metropolitana de São Paulo, mesmo naquelas identificadas com a chamada “responsabilidade social”, notadamente administradas por partidos de esquerda.
O bom momento da economia vivido pelo Brasil a partir de 2004 ajudou a diminuir o caos social nas metrópoles, assim como o incremento de programas como o Bolsa-Família. O número de miseráveis nas ruas diminuiu, até porque aumentou também a demanda por serviços temporários informais.
A realidade mudou e os mendigos reapareceram. Mais do que ultrajante, a existência desse nível de miséria representa a maior derrota que uma sociedade pode registrar. Mostra a incapacidade da mesma sociedade de amparar qualquer necessidade dos mais pobres e mostra a incompetência da administração pública como um todo não questão da redução da atividade econômica e da assistência social.
Não que isso seja novidade na prefeitura de São Paulo. A assistência social é possivelmente uma das últimas preocupações da administração José Serra-Gilberto Kassab, iniciada em 2004. Como também não tinha espaço na administração William Dib, em São Bernardo.
É inconcebível que uma administração pública não tenha meios de amparar mendigos e lhes oferecer algo mais do que abrigos no inverno. Não é possível que cidades com arrecadações das maiores do Brasil, como São Paulo, Osasco, São Bernardo, Santo André, Guarulhos e Barueri sejam incapazes de formular políticas públicas de inclusão e assistência a pessoas que não só são mendigos, mas possivelmente portadores de doenças mentais, entre outras.
A Páscoa foi triste em São Paulo e em algumas regiões de Guarulhos e ABCD por conta do aumento do número de mendigos nas ruas. Isso significa que perdemos de novo.
O fechamento de mais uma empresa no ABCD, agora em Diadema, não apenas revolta, como assusta. Não se trata mais de ficar discutindo se estamos sendo atingidos ou não por marolinhas, mas de saber se conseguiremos atravessar a tempestade mais ou menos inteiros.
A fabricante de máquinas Cross Hueller, pertencente ao grupo americano Maxcor, fechou sua fábrica de Diadema e não pagou os direitos trabalhistas dos 130 funcionários que foram demitidos.
Segundo sindicalistas, a empresa, cuja administração vinha cambaleando nos últimos meses, não teria resistido ao cancelamento de uma encomenda da General Motors para entrega de máquinas no valor de R$ 46 milhões que seriam utilizadas na nova fábrica de motores da montadora em Joinville (SC).
O caso da Cross Hueller não é o único e, infelizmente, não será o último. Empregos industriais estão sendo exterminados e não há no horizonte luz que possa iluminar o caminho da economia da região.
Se ainda há dúvidas sobre o tamanho da crise, é só verificar o que está acontecendo fora de nosso mundinho. A General Motors anunciou nesta quinta-feira, 23, que planeja fechar temporariamente 13 fábricas na América do Norte durante o segundo e o terceiro trimestres deste ano, o que vai gerar um corte de produção de 190 mil veículos, enquanto a companhia tenta reduzir seus estoques.
A GM disse que a paralisação das fábricas também vai ajudar a proteger a montadora contra uma eventual suspensão nos trabalhos da fabricante de peças Delphi, que está em concordata. Nada se falou sobre a fábrica de São Caetano, que, em princípio, estaria fora das medidas de extermínio de empregos e fábricas.
O Estado de São Paulo, por sua vez, perdeu mais de 300 mil empregos formais no período de dezembro de 2008 a março deste ano, de acordo com o secretário do Emprego e Relações do Trabalho, Guilherme Afif Domingos.
Segundo ele, embora haja sinais que indicam uma recuperação da economia brasileira, esses efeitos ainda são pouco perceptíveis no emprego.
Por fim, o número de cheques devolvidos em pagamentos à vista e a prazo atingiu em março o maior nível dos últimos 18 anos, mostra o indicador da empresa de análise de crédito Serasa Experian.
Portanto, marolinhas à parte, é hora de enfrentar a tormenta e tomar medidas radicais na defesa do emprego, mas parece que essa não vem sendo uma preocupação no Palácio dos Bandeirantes e no palácio do Planalto.
sexta-feira, abril 03, 2009
Uma fonte constante de reclamações, de todos os lados, é a venda de ingressos para espetáculos artísticos e esportivos, seja pelos preços altos, seja pela existência da nefasta figura do cambista, que lucra de forma nojenta com o excesso de procura.
Entretanto, já faz pelo menos dez anos que a meia entrada para estudante também causa uma série de constrangimentos por conta da indiscriminada emissão pelas entidades responsáveis isso, entre elas a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), entre outros.
A farra na distribuição de carteiras e as incontáveis fraudes cometidas são responsáveis diretas pela absurda explosão dos preços dos espetáculos no Brasil, já que fica inviável para qualquer artista ou empresário do ramo investir em uma produção se houver risco de ter toda a plateia pagando meia entrada, respaldada pela lei.
A distorção da aplicação da lei da meia estrada também provoca situações esdrúxulas, como a do leitor do blog Advogado de Defesa (do portal Estadão.com) Claudio Ribeiro, de Curitiba. Leiam o seu relato:
“Uma pessoa foi comprar um ingresso para um show, que estava sendo vendido por um valor X, mas que se a pessoa trouxesse 1 kg de alimento não perecível, pagaria meia-entrada.
Acontece que esse rapaz é um estudante e pleiteou pagar meia entrada, sobre o valor (de meia-entrada) calculado sobre o desconto dado. A funcionaria se negou a conceder o desconto, já que o rapaz pagaria 25% apenas do valor original da entrada para o show.
Ofendido, o rapaz chamou a policia e foram todos para a delegacia, onde após um acordo, os organizadores aceitaram que o rapaz pagasse os 25%.
Quem estaria correto nessa situação, o rapaz, que sendo estudante teria direito a desconto de 50% sobre o valor da entrada que era de 50% por ter levado o quilo de alimento, ou a empresa/funcionária, que achou que aquilo seria abuso?”
São excessos como esse que fazem aumentar diariamente os protestos contra a lei da meia entrada. E aumenta cada vez mais o número de pessoas que pedem a revisão de lei, justamente para não inviabilizar a produção de espetáculos e para não penalizar quem não é estudante.
No caso descrito por Ribeiro, em meu entendimento, a empresa estava correra ao não permitir um desconto sobre o desconto.
O espírito da lei da meia entrada é válido, mas foi corrompido. A medida foi elaborada com a melhor das intenções, como uma forma de facilitar o acesso à cultura aos estudantes carentes e estimulá-los a procurar os espetáculos e ir a museus, por exemplo.
Só que faltou cuidado na elaboração da lei, em todas as suas versões pelo país afora. Em nome de uma oportunista "igualdade", o mesmo estudante carente que sempre esteve excluído do acesso à cultura é equiparado ao aluno abonado de colégios e faculdades particulares, que pagam mensalidades superiores a R$ 1 mil - e parte deles provavelmente gasta R$ 500 em qualquer balada por aí.
Sou favorável a, no mínimo, uma revisão urgente das leis da meia entrada em todo país, com a consequente redução da emissão de carteiras e do estabelecimento de critérios muito mais rígidos sobre quem tem direito e quem não tem, levando-se em conta a situação financeira do estudante.
Do jeito que é aplicada hoje, de forma equivocada, torna-se inaceitável. Na verdade, acho que a meia entrada deve ser banida em razão das distorções observadas em qualquer espetáculo cultural no Brasil.
quinta-feira, março 26, 2009
Depois das águas de março, uma boa notícia para o ABCD. Um dos programas terapêuticos mais bem-sucedidos do Estado de São Paulo, a equoterapia da ONG (organização não-governamental) Voo da Liberdade se prepara para ampliar os atendimentos a pessoas portadoras de necessidades especiais a partir de abril.
O trabalho é realizado na Pousada dos Pescadores, que fica no km 36 da Estrada Velha de Santos, em São Bernardo. São 14 atendimentos realizados às terças-feiras e aos sábados, com resultados fantásticos. O trabalho é tão bem feito que os profissionais envolvidos são obrigados a recusar pacientes por conta da falta de tempo.
A Voo de Liberdade é um sonho dois profissionais dedicados, Danielle Mialich Rodrigues e Fabiano Tiezzi. Numa parceria com a Pousada dos Pescadores, que é uma das iniciativas de turismo mais importantes da região, consegue prestar um atendimento imprescindível a pacientes e aos familiares.
De acordo com o site www.equoabc.com.br, a equoterapia é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo como instrumento de trabalho, objetivando a habilitação ou reabilitação de pessoas com comprometimentos físicos, mentais ou comportamentais auxiliando em seu desenvolvimento motor, psíquico e social.
As primeiras referências que se tem do uso da Equoterapia podem ser encontradas em 458-370 a.C. no livro “Das Dietas” de Hipócrates.
A ampliação dos trabalhos da ONG depende de acertos jurídicos e de estatuto, situação que será finalizada em abril. Entretanto, como a maioria das ONGs que presta serviços de assistência superespecializada, a Voo da Liberdade tem as dificuldades normais que instituições do tipo enfrentam no Brasil.
A capacidade de atendimento está no limite, mesmo com a ampliação prevista para abril. Com patrocinadores, públicos ou privados, individuais ou empresariais, o ganho de qualidade – que já é muito alta – seria inestimável, assim como o apoio oficial da prefeitura de São Bernardo. Luiz Marinho, o prefeito que assumiu em janeiro, sempre foi atento a esse tipo de serviço.
Danielle Rodrigues, que coordena o programa ao lado de Fabiano Tiezzi, afirma que os interessados em conhecer a equoterapia na Pousada dos Pescadores podem entrar em contato por meio dos telefones 3423-8896, 7602-3862 e 9237-4406 . Esse serviço tem de ser ampliado e qualquer ajuda ou incentivo é mias do que bem-vindo.
Pacotes habitacionais e financeiros têm efeitos limitados e demorados sobre mercados em crise. A burocracia costuma devorar tempo precioso na concessão do crédito e agentes econômicos, especialmente os bancos, são extremamente conservadores na análise do risco quando a sociedade é a avalista.
Não seria diferente agora, com o mundo do dinheiro farto virtual para a casa própria. E a tendência é de que o dinheiro seja cada vez mais virtual, em razão da falta de arrojo na fiscalização do mercado financeiro pelo governo – qualquer governo, em qualquer país.
A grande pergunta que fica após o pomposo anúncio do pacote da habitação feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva anteontem, quarta-feira, é a seguinte: como é que as pessoas vão poder comprar se o emprego está diminuindo? Sem emprego não se compra casa; não se compra quase nada.
Até agora não se ouviu nada a respeito de um pacotão de emprego. A arrecadação de impostos logo vai cair e o número de empresas quebradas vai explodir. De que adianta liberar dinheiro para comprar casa se o trabalhador estiver desempregado?
Enquanto o governo federal fica refém de discussões intermináveis a respeito da prorrogação do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) menor para a indústria automotiva, as demissões continuam, e em ritmo acelerado.
Por mais que as empresas estejam sendo pressionadas pela Justiça, como são os casos da Embraer e de muitas outras, o fato é que essas demissões vão ocorrer. E não medidas decentes sendo estudadas a curto prazo, nem mesmo paliativas.
O grande nó da questão ainda é a carga tributária asfixiante que pesa sobre os contribuintes de todas as categorias no Brasil.
Carga de impostos alta aliada a falta de crédito crônica é uma bomba permanente no colo da sociedade – um governo muito endividado tem de pagar juros altos para conseguir rolar dívidas, fazendo com que bancos e agentes financeiros tenham mais interesse em comprar os títulos desse mesmo governo do que em emprestar ao setor produtivo.
E é quase inacreditável que não consigamos observar sequer um grande economista ou mesmo um executivo público defendendo um pacote generalizado de criação de empregos, que envolva redução de impostos e a criação de contrapartidas do setor produtivo de manutenção de empregos.
Toda a gritaria promovida pelas centrais sindicais e pelos sindicatos em outubro passado surtiu pouco ou nenhum efeito. O dinheiro público que está sendo usado para tentar debelar os efeitos da crise no Brasil está irrigando setores que ainda têm fôlego. Ações pontuais e direcionadas, mas com pouco efeito prático no contexto geral da crise.
É claro que as medidas do pacote habitacional terão efeito sobre a questão do emprego, mas não agora. E o epicentro da crise do emprego é a indústria descapitalizada. Medidas para estimular o consumo de bens duráveis ainda são tímidas, enquanto o nível de emprego continua diminuindo.
É sempre bom lembrar que o emprego industrial é um emprego de mais qualidade, de mais valor agregado, com salários maiores e mais capacidade de consumo. Logo, qualquer impacto da crise sobre a grande indústria é muito mais delicado e danoso.
Os setores de comércio e serviços não têm condições de segurar a onda da desaceleração econômica. Então, volto a perguntar: com o desemprego aumentando, vamos financiar casas para quem?
A revista Veja desta semana, 25 de março, traz uma interessante reportagem sobre o livro O Culto do Amador, de Andrew Keen. Ele conseguiu fazer o melhor resumo que é a internet hoje:
Terra arrasada
A internet está destruindo a cultura, diz Andrew Keen, autor de O Culto do Amador – livro que acusa a rede de pecados graves
Anonimato
É fácil assumir identidades falsas na rede. Pedófilos, fraudadores de cartão de crédito e propagandistas políticos podem esconder suas verdadeiras (e más) intenções
Ignorância
Em um meio em que todos podem escrever – e até contribuir com verbetes para enciclopédias como a Wikipedia –, o conhecimento dos especialistas tem menos valor que os equívocos da massa
Pirataria
A noção de direito autoral foi posta em xeque pelo download de músicas, filmes e livros na rede, causando prejuízos a empresas e artistas
Impunidade
Na imprensa tradicional, os jornalistas podem responder judicialmente pelo que escrevem. A internet, ao contrário, é anônima e irresponsável – um território livre para caluniadores
da Folha Online
Uma das faixas do novo álbum de Iggy Pop, "Preliminaires" (preliminares), será "How Insensitive", versão em inglês de "Insensatez", de Antônio Carlos Jobim. O CD chegará ao Brasil no dia 18 de maio pela EMI. Nesse trabalho, Iggy se afasta do punk rock e se volta para o jazz.
"É um álbum mais tranquilo com alguns harmônicos de jazz", disse Iggy em um vídeo. "Isso é porque chegou um certo momento em que simplesmente fiquei enjoado de ouvir brutamontes idiotas com suas guitarras, tocando música ruim."
Para compor esse disco, o músico se inspirou em Louis Armstrong e jazz no estilo de Jelly Roll Morton, e no romancista francês Michel Houellebecq, autor de "A Possibilidade de uma Ilha".
"Ele [o livro] fala sobre morte, sexo, o fim da raça humana e também sobre outras coisas bastante engraçadas (...). Li o livro de forma verdadeiramente prazerosa, assim que ele foi lançado, e, na minha cabeça, estava compondo as músicas que seriam a trilha sonora da minha alma ao ler aquela história", explica.
Outro título que constará no álbum é "King of the Dogs", em que conta a história de um cachorro chamado Fox, que explica "como é mais legal ser um cachorro".
A arte do novo álbum será criada pela iraniana Marjane Satrapi, autora do quadrinho "Persépolis", que também virou uma animação para os cinemas.
Satrapi conheceu Iggy em 2007, quando ela o convidou para emprestar sua voz a um dos personagens do seu filme.
domingo, março 15, 2009
do blog de cosme Rímoli
Enquanto a direção do Corinthians se prepara para anunciar o maior patrocínio de camisas do Brasil, o futebol feminino foi extinto.
Ou melhor, repassado para o São Caetano, que é quase a mesma coisa.
A promessa de fazer a Seleção Brasileira colocar a camisa preta e branca, inclusive, com Marta, se mostrou um factóide.
Assim como quando dirigentes espalhavam no Parque São Jorge que Michael Phelps viria disputar o Troféu Brasil de Natação pelo Corinthians.
Se na natação foi uma piada, no futebol feminino, a realidade foi dura, sofrida.
"Vou explicar tudo o que aconteceu. Nós só perdemos dinheiro com as meninas e elas fracassaram.
Demos tudo do bom e do melhor. Viajaram no ônibus do futebol profissional, jogaram no Pacaembu.
Montamos uma estrutura que consumia R$ 100 mil mensais. E não tivemos retorno algum. As meninas não mostraram garra.
O nosso time era o mais caro e acabou no vergonhoso quarto lugar do Campeonato Paulista.
Dispensamos as meninas, passamos a camisa para o São Caetano. E damos R$ 10 mil de apoio por mês. Está ótimo.
Futebol feminino no Brasil é perda de tempo, de dinheiro. As pessoas não querem ver.
Por que você acha que os times grandes não estão no futebol feminino?"
A explicação, misturada com desabafo, é do diretor de esportes amador do Corinthians, o desembargador Miguel Marques e Silva.
"Eu mesmo tinha falado com a Marta. E ela quase veio. Mas contratei a Cristiane, a Juliana Cabral. Só que o time não andou.
A Cristiane recebia R$ 10 mil, mas tinha contrato com um time dos Estados Unidos.
A Juliana Cabral, além de não jogar bem, estava falando mal da diretoria para as outras jogadoras.
Eu peguei, eu ouvi. Ninguém tinha comprometimento.
As meninas não tiveram a garra do time de juniores masculino que foi campeão da Copa São Paulo.
Elas não entenderam o que significa jogar pelo Corinthians.
Então, o melhor repassar tudo para o São Caetano.
Acabou o prejuízo, acabou a dor de cabeça.
Eu soube que formaram um time lá onde o salário é, de no máximo, R$ 500,00.
Está ótimo. Futebo feminino no Brasil não dá...", afirma, sincero, Miguel Marques.
quinta-feira, março 05, 2009
Não pretendia entrar no assunto, até porque acho de uma irrelevância absurda, mesmo que a repercussão tenha ido além do normal. A Folha de S. Paulo publicou há duas semanas um editorial em que usou o termo "ditabranda" para comparar a "intensidade" da violência contra opositores e instituições.
Para o autor do editorial (opinião) da Folha, a ditadora militar brasileira foi mais branda, menos feroz, do que outras na América Latina e África, já que matou muito menos. O termo "ditabranda" causou furor nos meios intelectuais brasileiros, com fortes doses de razão, principalmente entre aqueles que lutaram contra a ditadura e foram torturados e entre aqueles que tiveram parentes assassinados pelos militares.
O jornal se defendeu e afirma categoricamente que jamais defendeu a ditadura, ou a volta dela, ou a violência praticada pela mesma - o que é verdade, porque o editorial em nenhum momento faz defesa alguma do regime de exceção.
Na verdade, o que aconteceu foi um erro grosseiro de quem escreveu o editorial. Tentou relativizar algo que não pode ser relativizado ou amenizado. O regime militar derrubou um governo eleito democraticamente, desrespeitou a Constituição vigente - emporcalhando a história do Brasil - e cometeu atrocidades.
Entretanto, o erro grosseiro não justifica a gritaria em torno do assunto, que está morto e encerrado há 30 anos, com a Lei da Anistia. Ficar elaborando ranking de quem matou mais ou menos ou criar uma disputa de arquibancada direita x esquerda são artifícios de indigentes intelectuais para ideologizar da pior forma possível o debate.
O temo "ditabranda" é ofensivo em sua essência, na origem do conceito. É uma tentativa canhestra de relativizar a truculência, a violência, a afronta aos direitos humanos e os crimes perpetrados pelo regime militar brasileiro.
O Estado comandado pelos militares incentivou, patrocinou e ordenou tortura e assassinatos, derrubou governo legal e dmeocraticamente eleito e surrupiou direitos básicos dos cidadãos brasileiros.
Portanto, a comparação sobre o nível de ferocidade entgre ditaduras é totalmente incabível, já que na imensa maioria das vezes elas se igualam na essência: regimes políticos que praticao o crime de Estado, assassinando, torturando e confiscando, entre outras coisas.
Embora o texto do editorial não tenha tido a intenção de defender a ditadura militar brasileira, deixou margem para esse tipo de interpretação oportunista. O erro foi grosseiro, mas foi hiperdimensionado.
E os oportunistas já apareceram como o tal do Movimento dos Sem-Mídia, um grupo de desocupador e enviezados intelectualmente que pretendeu fazer uma manifestação na frente da sede da Folha de S. Paulo no dia 7 de março. É gente que leu o editorial pela metade ou nem leu, mas que adora fazer barulho contra os chamados "donos do poder".
Os pecados da imprensa são muito mais complexos e fundamentais do que um erro grosseiro no texto de um editorial. Esse tipo de gente são os mesmos que adoram culpar a imprensa pela suposta espetacularização de casos policiais - e até mesmo pelo desfecho dos mesmos.
São os mesmos que se excitam ao ficar regurgitando que os grandes veículos de comunicação do Brasil apoiaram o golpe militar de 1964 - o que é verdade. Mas são desonestos intelectuais ao omitirem deliberadamente que os mesmos veículos foram vítimas de censura na ditadura, que seus jornalistas foram igualmente vítimas, investigados, perseguidos, presos e torturados.
Esse é um debate estéril, pois a ideologização, o oportunismo e a má-fé de boa parte dos integrantes dos dois lados desvia o foco da discussão e joga a razão na lata do lixo.
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
Só contextualizando: a Folha de S. Paulo publicou recentemente um editorial sobre as sucessivas e bem-sucedidas tentativas de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, de usar a democracia para destruí-la, ao propor plebiscitos para se perpetuar no poder, por meio de reeleições sucessivas e aprovasr medidas autoritárias que minam cada vez mais a autonomia e a liberdade no país.
No meio do texto, o infeliz editorialista errou feito, ao tentar relativizar a ditadura militar brasileira - que matou pouco - em comparação com as ditaduras militares argentina, chilena, uruguaia e tantas outras. Usou o termo "ditabranda", provocando a ira e a fúria de diversos setores da sociedade, notadamente de gente que foi vítima ou teve parentes vitimados pelo odioso regime militar brasileiro. O texto abaixo é mais uma reação ao equívoco que foi o editorial, mas é bastante expressivo porque veio de dentro da própria Folha.
Ditadura, por favor, por Fernando de Barros e Silva
Fernando de Barros e Silva (*)
Fonte:Folha de S. Paulo
Certamente não é a primeira vez que um colunista da casa diverge de uma posição expressa pelo jornal em editorial.
Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância, inclusive em nome do que aprendeu durante 20 anos nesta Folha.
O mundo mudou um bocado, mas "ditabranda" é demais.
O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou "níveis baixos de violência política e institucional" parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção, e não para compreendê-lo melhor.
O que pretende ser um avanço analítico parece, mais do que um erro, um sintoma de regressão.
Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante. Devemos agora contar cadáveres para medir níveis de afabilidade ou criar algum ranking entre regimes bárbaros?
Por essa lógica, chega-se à conclusão absurda de que o holocausto nazista não passou de um "genolight" perto do extermínio de 20 milhões promovido por Stálin.
Ora, se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno ou o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido "brandos".
Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a "ditadura escancarada", para falar como Elio Gaspari. Seria um equívoco de mau gosto associar qualquer tipo de "brandura" até mesmo ao que Gaspari chamou de "ditadura envergonhada", quando o regime, entre 64 e 68, ainda convivia com clarões de liberdade, circunscritos à cultura.
Brandos ou duros, o fato é que os regimes autoritários só mobilizam a indignação de grande parte da esquerda quando não vêm acompanhados da retórica igualitarista.
Muitos intelectuais se assanham agora com a tirania por etapas que Chávez vai impondo à Venezuela sob a gosma ideológica da revolução bolivariana. Isso para não lembrar o fascínio que o regime moribundo mas terrível de Fidel Castro ainda exerce sobre figurões e figurinhas da esquerda nativa.
É bem sintomático, aliás, que, ao protestar contra a "ditabranda" em carta à Folha, o professor Fábio Konder Comparato, guardião do "devido respeito à pessoa humana", tenha condenado os autores do neologismo a ficar "de joelhos em praça pública" para "pedir perdão ao povo brasileiro".
Que coisa. Era assim, obrigando suas vítimas a ajoelhar em praça pública, submetendo-as à autêntica "tortura chinesa", que a polícia política maoísta punia desvios ideológicos durante a Revolução Cultural. Quem sabe, como a "ditabranda", seja só um palpite infeliz.
(*) Editor de Brasil da Folha de S. Paulo. Escreveu no espaço do colunista Marcos Nobre, que está em férias. - Artigo publicado na edição de 24/02/09
Em São Paulo o mercado jornalístico possui uma espécie de veículo oficial, o Jornalistas&Cia, produzido por um amigo, jornalista e empresário Eduardo Ribeiro, da Megabrasil. É um boletim semanal que mostra o que acontece nas redações e assessorias de imprensa de todo país, quem saiu em tal lugarm quem chegou, quem lançou livro, etc.
Na edição de 26 de fevereiro de 2009, há uma notícia sobre a morte de um jornaista, Claudio Faviere, de 60 anos, com passaagens por vários jornais,entre eles a folha de S. Paulo. Nunca ouvi falar dele. Entretanto, sua morte for registrada e traz um depoimento de um contemporâneo, nei Duclós, também jornalista, que descobriu o texto abaixo do amigo e o tornou público novamente.
O texto é interessante, mostra a desolação de Faviere com o jornalismo atual e a decisão de abandonar as redações para abrir uma pousada em Cunha, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro. Suas posições são compartilhadas por Duclós. Discordo toalmente da opinião de ambos sobre a avaliação do jornalismo atual.
Respeito, mas abomino essa visão apocalíptica descrita no texto e, principalmente, esse comportamento absurdo de abandonar tudo em vez de lutar para melhorar. Entretanto, o texto de Faviere é um retrato amargo da profissão, mas profundamente sincero. Considero-o um marco recente da análise do trabalho jornalístico.
NO DIA EM QUE EU VIM-ME EMBORA
Não tinha nada demais. Tinha
o vento a favor. Havia comprado
o sítio em Cunha sem que tivesse
planejado comprar sítio, construído
a casa sem que estivesse
nos planos mudar de cidade.
Tudo aconteceu sem planejamentos
e intenções. Coisas do
destino ou sabe-se lá do quê. Era
1993.
Dois anos depois, ao sair
do último emprego, sentia um
grande desencanto com o jornalismo,
do jeito que passara a ser
praticado. Morte da reportagem,
imprensa oficialesca, sem investigação
e denúncia, império do
release, matérias feitas em série
como em uma fábrica de salsichas,
visões áridas, estatísticas,
sem contemplação do ser
humano.
No período entre a compra do
sítio e a saída do emprego mesclava
o trabalho em São Paulo
com a construção da casa, nas
rápidas viagens de fim de semana
a Cunha. Nas conversas de bares
na pequena cidade ou nos humildes
armazéns da zona rural, nas
visitas às casas e nos passeios aos
pequenos vilarejos da roça, o contato
com novas realidades, novos
cenários, novas pessoas. E a descoberta
de novas histórias, de uma
nova cultura, de um novo e prazeroso
relacionamento com os moradores.
Tudo em contraste relevante
com a metrópole, onde nasci,
vivi, trabalhei. O fascínio por
tudo isto era grande. Destes contatos
e histórias surgiu a vontade
de uma nova experiência: escrever
um romance ambientado naquela
realidade, a primeira entrada no
mundo da ficção.
Fazia quase 30
anos que praticava o exercício de
escrever, mas sempre em cima de
fatos e acontecimentos.
Somando tudo: desencanto com
o jornalismo, a saída do último
emprego, um dinheirinho no bolso,
a casa semipronta (mas já em
condições de morar), as primeiras
linhas do romance se delineando
nos breves intervalos do cotidiano
de São Paulo. Pronto. Lá vou eu.
Bye-bye tudo.
E vim-me embora com o projeto
de passar um ano com dedicação
exclusiva ao romance. O dinheirinho
dos direitos trabalhistas não
era muito, mas o suficiente para
não ter outra preocupação do que
viver plenamente a experiência da
liberdade proporcionada pela literatura.
E aqui no sítio tudo era a
favor: as cachoeiras rodeando a
casa, a mata, o silêncio, o sagrado
isolamento, as montanhas, o céu
que chega a dar um porre de azul.
Só uma coisa não foi a favor: a realidade.
O dinheiro acabou, parei
o romance quase concluído, fui
atrás da sobrevivência, retomei o
romance, parei novamente, fui
atrás da sobrevivência.
Em 2000, recebi uma pequena
herança e construí uma pousada
com o claro objetivo de ela não ser
um fim, mas o meio através do
qual fosse possível atingir o objetivo
maior: ler e escrever. Passaram-
se quase cinco anos de
trabalho árduo para que a pousada
se estruturasse, ficasse conhecida,
possibilitasse a sobrevivência
e, enfim, eu alcançasse a
paz e tranqüilidade para terminar
o romance.
Penso que assim como o destino
me trouxe para cá e me privilegiou
com um pedacinho de terra
tão sagrado (sem que eu houvesse
planejado ou pretendido), o
mesmo destino designou a hora
certa para concluir este sonho de
liberdade. Era inexorável e foi agora.
O livro chama-se “Na Cacunda
do Lagarto” e só falta um pequeno
detalhe: editá-lo. Vamos
ver. Mas os percalços desta batalha
nunca me tiraram a felicidade
de estar aqui, mais perto da vivência
do que da sobrevivência.
Nota: O título deste artigo e a primeira
frase são de uma música de Caetano
Veloso.
Está circulando na internet um interessante vídeo de futurologia sobre como a comunicação global evoluirá nos próximos 20 anos. Está no YouTube, no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=5SJup6CGiO4. A tese central de Prometeus, o nome do vídeo, é a convergência total de mídias e meios de comunicação, com o surgimento do "prosumor", uma espécie de consumidor que também é produtor de conteúdo.
Cabecismos à parte, a tese é interessante, embora sua base teórica ainda seja frágil. E é claro que tem um viés esquerdista, e dos mais retrógrados - eis o paradoxo. Apresenta os meios de comunicação atual como vilões da humanidade e fadasos ao desaparecimento, como jornais, revistas e emissoras de TV vinculadas a grandes grupos de negócios.
O pior de tudo, entretanto, é a ênfase na "liberdade total" de escolha de conteúdo, informação e expressão, como se nós hoje fôssemos completamente impedidos de acessarmos o que queremos - ao menos no Ocidente democrático.
O paradoxo é que o vídeo termina com a previsão de que existirão poucos grupos realmente globais e mundiais produtores de conteúdo total, hegemônicos - Google comprará a Microsoft, Amazon comprará o Yahoo e a BBC será a grande empresa europeia - ou seja, o mundo da informação caminha para o monopólio...
Essa "liberdade total" de expressão pregada pelo autor do vídeo e da tese coroa o trabalho com a estapafúrdia tese de que "direitos autorais" são ilegais, ou seja, prega abertamente o crime de fraude intelectual. Defende os atuais pirateadores de programas de computador, os baixadores de arquivos musicais e literários e afirma que no futuro os direitos autorais é que serão considerados um crime.
A apologia criminosa contra o copyright é um perigo, pois tgraz a gênese do suposto socialismo total nas ideias, com o equivocado conceito de que o conhecimento tem de ser livre para todos e disseminado sem restrições.
Ora, mas esse é um dos pressupostos do conceito de direito autoral no mundo democrático. Entretanto, como em qualquer sociedade civilizada e avançada, o copyright é uma regulação e uma garantia de que o conteúdo será disciplinado e distribuído de acordo com certas regras, respeitando o trabalho do autor.
A quebra total de patentes e direitos autorais éum câncer que é defendido por gente de bem e por vagabundos preguiçosos que nada mais são do que sanguessugas que se aproveitam do trabalho alheio de quem realmente trabalha e pensa.
Aliás, os sanguessugas são a maioria, é o mesmo tip0o de gente nojenta que xeroca livros na biblioteca e copia ilegalmente arquivos, programas e músicas. Alegam que não têm dinheiro para comprar "livros caros", mas sempre têm dinheiro para gastar na balada do fim de semana,para viajar à praia e eventualmente comprar drogas. Mas gastar com livros, para quê? Está fácil ali, de graça... É esse tipo de preguiçoso que compõe a maioria dos que defendem a quebra das patentes e direitos autorais.
É bom lembrar que o sistema de patentes e direitos autorais é o que a produção intelectual/cultural/empresarial do mundo. Assim como a democracia é um sistema político muito ruim, mas que ainda é o melhor que já foi inventado, o capitalismo é um péssimo sistema econômico, mas é de longe o melhor que existe.
E, ao contrário do que pregam seus detratores, possui mecanismos para coibir abusos em qualquer setor. A questão é vontade política para coibir os abusos. Não foi por outro motivo que o Brasil conseguiu quebrar as patentes dos remédios contra a Aids, numa homérica briga contra os laboratórios internacionais. Foi o típico caso de abuso dentro do capitalismo. Laboratórios infames querendo lucrar alto com os doentes de Terceiro Mundo.
Não quero eliminar o direito de os laboratórios de serem remunerados por suas inovações e criações - afinal, esse lucro precisa ser reinvestido para que novas técnicas novos remédios, novos produtos e novos inventos surjam. E o Brasil não se recusou a pagar pelas patentes, apenas queria um preço justo e honesto pelos remédios contra a Aids.
Os laboratórios internacionais pagaram para ver e perderam. A posição brasileira foi elogiada em todo o mundo e ajudou a disseminar o programa nacional de atendimento às vítimas em todo mundo.
Quebrar indiscriminadamente patentes e direitos autorais não interessam à sociedade, mas somente aos teóricos do caos e do consumo fácil e sem custo algum. Para eles, o trabalho intelectual é de segunda classe. É extremamente perigoso que esse conceito se torne hegemônico no futuro.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Por falar em Veja, a edição desta semana traz uma entrevista bem interessante e reveladora de Jarbas Vanconcellos, ex-governador de Pernambuco e atual senador pelo PMDB daquele Estado.
Vasconcellos atira para todos os lados, contra aliados, contra o governo federal, contra o seu próprio partido. Adora falar em corrupção e que é um "dissidente dentro de seu partido". Ou seja, ficou 40 anos na vida pública praticando e apoiando os mesmos cidadãos que são alvos de suas próprias críticas, e agora posa de ético e bastião da moralidade. Não é digno de respeito.
Independente disso, foi cirúrgico em apenas um parágrafo ao definir o governo Lula:
O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.
Atirou-se para todos os lados no caso da advogada brasileira que afirma ter sido atacada por skinheads em uma cidadezinha suíça nesta semana. A moça afirma categoricamente que eram skinheads neonazistas.
A polícia suíça, de forma irresponsável e demonstrando desprezo pelos estrangeiros, apressou-se em dizer que a advogada se auto-mutilou, mesmo antes da realização de qualquer exame decente.
Já o governo brasileiro, de forma tosca e atrapalhada - características da éssima olítica exerna brasileira - tratou de tornar o caso um braço-de-ferro diplomático, quando o caso nada mais é do que uma questão policial. O fato é que ainda é cedo para estabelcer qualquer julgamento - é tudo mentira, não houve ataque algum e a garota tem problemas psicológicos? Ou realmente houve um ataque xenófobo contra a moça brasileira?
A reação da imprensa brasileira, diante das circunstâncias e das informações que chegavam de forma picada, até que foram razoavelmente equilibradas, pelo menos em relação aos grandes jornais. Já na Suíça isso não ocorreu, com os jornais tratando a questão como ofensa nacional.
A Folha de S. Paulo teve um comportamento sereno em seu noticiário, mas os seus articulistas perderam a mão. Não gosto do estloo e do tipo de jornalismo que Reinaldo Azevedo, da revista Veja, faz. Mas ele foi feliz na análise que vez em seu blog, hospedado no portal da revista.
A quantidade de bobagem na imprensa brasileira é de assustar. Em um dos artigos que escrevi sobre o caso, afirmei que alguém ainda diria que o episódio foi útil porque serviu para denunciar a xenofobia etc... Batata! Eliane Cantanhede escreveu um texto verdadeiramente imodesto no gênero (em vermelho), destacando que estamos todos envergonhados... Bem, pessoalmente, não estou: não caí na conversa nem linchei o povo suíço. A ela.
Com Alemanha, Reino Unido, Holanda, Portugal, Espanha e Itália em recessão e registrando aumento de desemprego, a xenofobia perde o pudor e emerge. Com ou sem skinheads, a história de Paula toca numa ferida tão real que habitava e explodiu no inconsciente da moça. E no nosso.
Ninguém sabe direito o que aconteceu, mas Eliane sabe: a xenofobia explodiu “no inconsciente da moça e no nosso”... É a primeira vez na história da psicanálise que o inconsciente revela um conteúdo igual ao da consciência. UMA VERDADEIRA REVOLUÇÃO. Se Freud era o Darwin da mente, não é mais. Eliane o substituiu: descobriu a congruência entre o consciente e o inconsciente. Nada mais será como antes.
O Brasil foi do ataque à defensiva, depois de autoridades, imprensa e cidadãos suíços reclamarem retratações. O que, além de constrangedor, enfraquece futuras investidas em defesa de brasileiros agredidos e humilhados no mundo desenvolvido, mas não elimina a essência de toda a discussão: a resistência crescente e agressiva aos imigrantes de países emergentes ou periféricos.
Como se vê, “os brasileiros agredidos e humilhados no mundo desenvolvido” passaram a ser a “essência de toda a discussão”. Assim, conclui-se que o episódio tem seu lado positivo, que é chamar a atenção para a “essência"... Um povo e um país são acusados de xenófobos, de tolerantes com o neonazismo e de racistas e são insultados pelo governo brasileiro, MAS A CULPA É DELES.
Se os cortes em Paula são superficiais, lineares e femininos demais para terem sido feitos por brutais skinheads, eles não eliminam as dores dos brasileiros humilhados em aeroportos espanhóis, sem banho, sem ressarcimentos e até sem dentes, perdidos a socos policiais.
Paula pode ter sido um erro, mas o erro maior está lá. Por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads? Porque há quem não creia em xenofobia, mas que ela existe, existe. E tende a piorar.
Com o perdão da palavra, é uma das coisas mais boçais que li sobre o caso. O sentido moral do que escreve Eliane é o seguinte: "Eles podem até ser inocentes nessa, mas são essencialmente culpados". Afinal, pergunta ela, “por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads?” Ora, ao longo da história, tem sido fácil inventar e acreditar que judeus são exploradores que só pensam em lucrar com a cobrança de juros; tem sido fácil inventar e acreditar que todos os islâmicos gostam de explodir bombas: tem sido fácil inventar e acreditar que brasileiras na Europa são todas garotas de programa... Eliane demonstra, a partir da própria experiência, como nasce um preconceito. Ela está olhando para os suíços e dizendo: VOCÊS SÃO OS CULPADOS PELA ACUSAÇÃO INJUSTA. Ademais, quem é que não acredita em xenofobia? Xenofobia não é como disco voador. É matéria de fato. Existe em todos os lugares do mundo, inclusiove no Brasil. NO MUNDO CIVILIZADO, ELIANE, NÃO SE ACUSA UMA PESSOA — OU UM PAÍS — DE UM CRIME QUE ELA PODERIA TER COMETIDO. SEI QUE UM EXAGERO DO CONSERVADORISMO, MAS É ASSIM...
Clóvis Rossi também viu “embaraço nosso e deles”. A coisa já começa interessante no título. Enquanto ele aceitou — “precipitadamente”, admite — a versão de Paula, o vexame era só dos suíços. Agora que a versão da moça naufraga, ele decidiu dividir com aquele povo “os embaraços”. Entenderam a lógica? Acho que não.
E ele prossegue:
“Mesmo que tenha se automutilado, não há razões para, ao contrário do que diz certa mídia suíça, o país ficar ofendido pelas críticas à xenofobia. O Partido do Povo Suíço e seu líder, Christoph Blocher, são um embaraço para boa parte do establishment político local, exatamente pela xenofobia. Blocher é da mesmíssima família política de outros líderes da extrema-direita, como o francês Jean-Marie Le Pen e o austríaco Jörg Haider, recentemente morto, para não falar da Liga Norte italiana. O embaraço é tamanho que a União Europeia chegou a impor sanções à Áustria quando o partido de Haider entrou para a coalizão governante. Portanto, a hipótese de um atentado racista era verossímil. Nem seria o primeiro, aliás.”
É a mesma lógica de Eliane: eles não cometeram esse crime, mas o que interessa é que poderiam ter cometido. Logo, o país não tem de se ofender. É verdade, Rossi. Se alguém disser que os brasileiros não dão a menor bola à vida humana e que não passam de um bando de carniceiros — já que se cometem por aqui 50 mil homicídios por ano —, devemos acatar a crítica como justa e decente.
Agora prestem atenção a este parágrafo:
Mas, se a versão da polícia for a verdadeira, só vai reforçar a desconfiança com que os brasileiros são vistos em parte da opinião pública européia. Por mais que a maioria se mate de trabalhar, clandestinos ou não, os escândalos provocados por uma minoria de vigaristas contaminam todos, a ponto de ter ouvido, uma vez, de uma brasileira residente em Portugal, que todas as brasileiras são tratadas como prostitutas.
Rossi acha uma injustiça que imigrantes brasileiros sejam vistos com desconfiança, “embora a maioria se mate de trabalhar etc,” por causa de uma minoria de vigaristas. Mas acha compreensível (e censura os suíços por terem se ofendido) que todo um povo seja visto como xenófobo por causa de uma minoria — E É MINORIA — de racistas. Ou seja: os nossos vigaristas não podem ser tomados pela maioria, mas os racistas deles sim.
Não é por acaso que Celso Amorim fez fama de competente no Brasil.
Ainda a questão religiosa: também é inacreditável que se discuta a validade das teorias evolucionistas de Charles Darwin - teorias só no nome, porque já foram eficientemente comprovadas. Na efeméride dos 200 anos do nascimento do cientista inglês que mudou a história da humanidade, ainda existem imbecis defendendo o criacionismo.
Pior: existem imbecis - criminosos, na verdade - que defendem a disseminação do ensino do criacionismo - que nada mais é do que a crença na existência de Deus e a crença de que ele criou tudo e todos - em todos os níveis. Esses imbecis - sempre ligados a algum tipo de "religião" ou seita - agora insistem na contaminação das aulas de ciências nas escolas com essa doutrina nefasta.
Insistir no criacionismo é estelionato, é insistir na existência de Papai Noel. É um crime conra a humanidade.
Inacreditável como a religião continua epurando o mundo para as trevas. As reações absurdas à morte da jovem italiana mantida viva por aparelhos por 17 anos mostra a que ponto chega a estupidez humana. Impedir que familiares desliguem os aparelhos de pessoas que tiveram morte cerebral é um crime. A eutanásia é um alívio para a família e para o doente em si, é um ato de grandeza e de generosidade. E os vagabundos que arrotam religião - seja qual lixo for - colocam a sua imbecilidade acima da humanidade para defender conceitos sociais medievais. A religião é um câncer e precisa ser combatida.
Mais uma briga envolvendo torcidas organizadas em clássicos paulistas. Anda bem que desta vez integrantes da Gaviões da Fiel se deram mal e saíram bem machucados. O fato é que a POlícia Militar de São Paulo mais uma vez demonstrou incompetência para gerenciar torcedores no clássico São Palo 1 x 1 Corinthians. Quando precisou enfrentar vândalos e bandidos da Gaviões, no entanto, fez o que tinha de fazer.
O fato é que, ao final do jogo, contrariando as orientações da PM para esperar uma hora para deixar o estádio do Morumbi, os bandidos da Gaviões começaram a depredar instalações do estádio - como sempre. Ao mesmo tempo, resolveu deixar o local onde estava sem auorização da PM. Energúmenos da torcida jogaram uma grade de 100 quilos por cima de um muro.
.A grade caiu sobre dois carros no estacionamento dos sócios do São Paulo. A PM pressentiu o tumulto e tratou de evitar a saída dos corintianos. Uma boma de efeito moral foi usada. O tumulto começou, houve corre-corre de volta para a arquibancada e muita gente se machucou.
Mas um grupo grande de torcedores da organizada Gaviões da Fiel investiu contra a PM e foi devidamente rechaçado. Um desfecho lamentável para um gerenciamento lamentável - incusive do São Pauoo, que colocou os torcedores corintianos em local inadequado no estádio.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Legislação atual faz a maioria das pessoas conectadas estarem à margem da lei. Mas de quem é o erro: das pessoas ou da lei?
LUCAS PRETTI E RODRIGO MARTINS - CADERNO LINK DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO (E COPIADO DO BLOG LÁGRIMAS PSICODÉLICAS -
A Campus Party, que terminou há uma semana em São Paulo, escancarou uma realidade urgente: os novos hábitos de consumo de cultura, conhecimento e diversão não cabem mais na legislação de direitos autorais e antipirataria em vigor no Brasil e no mundo.
O que 4 mil pessoas fizeram durante uma semana com uma conexão à internet de 10 gigabits por segundo? A resposta é óbvia: trocaram arquivos digitais dos mais diversos tipos – músicas, filmes, seriados e games, entre outros –, tanto “baixando” quanto “subindo” conteúdo em grande quantidade. E grande parte desse conteúdo é, segundo as leis atuais, ilegal.
Quer dizer que os participantes do evento merecem ser punidos? Nada disso: se você ler esta reportagem do Link verá que provavelmente, como quase todos nós, também é pirata.
Numa época em que, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), 95% dos downloads de música na internet são ilegais e a tecnologia permite copiar, subir, baixar e compartilhar arquivos pela rede, as leis continuam as mesmas do século 20: para ter acesso a um disco, filme ou livro você precisa comprar uma cópia. Se copiar ou tiver acesso sem pagar, é criminoso.
Segundo uma pesquisa da Comscore, 46% dos internautas brasileiros acessam o YouTube. De acordo com a legislação, ter acesso a conteúdo ilegal, mesmo que apenas para assistir, é crime. Então, apenas no YouTube, há muitos potenciais piratas brasileiros. Quem subir conteúdo protegido para o site pode pegar até quatro anos de prisão.
Você tem um MP3 player ou um celular que toca música? De onde vieram as músicas que estão lá? Se foi de programas do tipo P2P ou Torrent, com certeza são piratas. Mas sabia que digitalizar um CD que você mesmo comprou também é crime?
Segundo dados do Ibope/NetRatings, os downloads ilegais eram feitos por 38% dos internautas brasileiros há um ano. Hoje, são 46%. Uma pesquisa da Fecomércio-RJ aponta que apenas 5% da população não recorre à pirataria por medo de ser punida.
Toda essa situação está fazendo surgir um debate: no momento em que a maioria das pessoas está à margem da lei, de quem é o erro: das pessoas ou da lei? “Há um descompasso entre o que as pessoas fazem e o que a lei prevê”, disse ao Link Lawrence Lessig, criador das lincenças Creative Commons (leia entrevista na pág. L8).
Em praticamente todo o mundo a legislação está desatualizada, mas no Brasil a lei de direitos autorais, de 1998, é particularmente rígida. Prevê, por exemplo, que a cópia privada de material entre dispositivos eletrônicos é pirataria.
Também não é o caso de apontar o dedo para a Justiça e o meio jurídico ou os detentores de direitos autorais, sejam eles artistas ou a indústria de cultura e entretenimento. Afinal, eles precisam defender seus direitos e, para tanto, apelam para profissionais afinados com a lei em vigor.
“A pirataria nunca é benéfica, mesmo como uma resposta a um modelo comercial de formato e preço que está em xeque. Não podemos defender uma lei que exclua o direito de autor”, afirma o advogado Luiz Henrique Souza, especialista em direito digital. O consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), João Carlos Muller, é mais enfático: “As redes P2P são a desgraça dos direitos de autor”.
No meio do tiroteio está o Ministério da Cultura. Desde 2007, comissões debatem novas saídas para a lei de direito autoral brasileira. A ideia mais próxima de ser aprovada é o conceito de cópia privada, em vigor, por exemplo, nos EUA. Não resolve o problema por completo, mas é um avanço.
A questão por trás da discussão é: por que baixar arquivos? As respostas são óbvias: alto preço de CDs e DVDs, praticidade de consumir conteúdo quando quiser e ter acesso a produtos que não estão no mercado brasileiro. “Se fosse pagar por todos os álbuns que ouço, não conheceria 1% das músicas”, diz o DJ carioca Rodrigo, que admite baixar torrents a rodo – e que, como os outros exemplos de “baixadores” desta reportagem, terá o sobrenome preservado.
A realidade é mesmo complexa por ter diversos interesses em jogo. Mas tem saída, seja na lei ou no mercado. Nesta edição, o Link discute, sem hipocrisia e conservadorismo, uma questão ainda sem resposta: quando vamos deixar de ser piratas digitais?
Legislação atual faz a maioria das pessoas conectadas estarem à margem da lei. Mas de quem é o erro: das pessoas ou da lei?
LUCAS PRETTI E RODRIGO MARTINS
DO CADERNO LINK DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO (E COPIADO DO BLOG LÁGRIMA PSICODÉLICA)
A Campus Party, que terminou há uma semana em São Paulo, escancarou uma realidade urgente: os novos hábitos de consumo de cultura, conhecimento e diversão não cabem mais na legislação de direitos autorais e antipirataria em vigor no Brasil e no mundo.
O que 4 mil pessoas fizeram durante uma semana com uma conexão à internet de 10 gigabits por segundo? A resposta é óbvia: trocaram arquivos digitais dos mais diversos tipos – músicas, filmes, seriados e games, entre outros –, tanto “baixando” quanto “subindo” conteúdo em grande quantidade. E grande parte desse conteúdo é, segundo as leis atuais, ilegal.
Quer dizer que os participantes do evento merecem ser punidos? Nada disso: se você ler esta reportagem do Link verá que provavelmente, como quase todos nós, também é pirata.
Numa época em que, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), 95% dos downloads de música na internet são ilegais e a tecnologia permite copiar, subir, baixar e compartilhar arquivos pela rede, as leis continuam as mesmas do século 20: para ter acesso a um disco, filme ou livro você precisa comprar uma cópia. Se copiar ou tiver acesso sem pagar, é criminoso.
Segundo uma pesquisa da Comscore, 46% dos internautas brasileiros acessam o YouTube. De acordo com a legislação, ter acesso a conteúdo ilegal, mesmo que apenas para assistir, é crime. Então, apenas no YouTube, há muitos potenciais piratas brasileiros. Quem subir conteúdo protegido para o site pode pegar até quatro anos de prisão.
Você tem um MP3 player ou um celular que toca música? De onde vieram as músicas que estão lá? Se foi de programas do tipo P2P ou Torrent, com certeza são piratas. Mas sabia que digitalizar um CD que você mesmo comprou também é crime?
Segundo dados do Ibope/NetRatings, os downloads ilegais eram feitos por 38% dos internautas brasileiros há um ano. Hoje, são 46%. Uma pesquisa da Fecomércio-RJ aponta que apenas 5% da população não recorre à pirataria por medo de ser punida.
Toda essa situação está fazendo surgir um debate: no momento em que a maioria das pessoas está à margem da lei, de quem é o erro: das pessoas ou da lei? “Há um descompasso entre o que as pessoas fazem e o que a lei prevê”, disse ao Link Lawrence Lessig, criador das lincenças Creative Commons (leia entrevista na pág. L8).
Em praticamente todo o mundo a legislação está desatualizada, mas no Brasil a lei de direitos autorais, de 1998, é particularmente rígida. Prevê, por exemplo, que a cópia privada de material entre dispositivos eletrônicos é pirataria.
Também não é o caso de apontar o dedo para a Justiça e o meio jurídico ou os detentores de direitos autorais, sejam eles artistas ou a indústria de cultura e entretenimento. Afinal, eles precisam defender seus direitos e, para tanto, apelam para profissionais afinados com a lei em vigor.
“A pirataria nunca é benéfica, mesmo como uma resposta a um modelo comercial de formato e preço que está em xeque. Não podemos defender uma lei que exclua o direito de autor”, afirma o advogado Luiz Henrique Souza, especialista em direito digital. O consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), João Carlos Muller, é mais enfático: “As redes P2P são a desgraça dos direitos de autor”.
No meio do tiroteio está o Ministério da Cultura. Desde 2007, comissões debatem novas saídas para a lei de direito autoral brasileira. A ideia mais próxima de ser aprovada é o conceito de cópia privada, em vigor, por exemplo, nos EUA. Não resolve o problema por completo, mas é um avanço.
A questão por trás da discussão é: por que baixar arquivos? As respostas são óbvias: alto preço de CDs e DVDs, praticidade de consumir conteúdo quando quiser e ter acesso a produtos que não estão no mercado brasileiro. “Se fosse pagar por todos os álbuns que ouço, não conheceria 1% das músicas”, diz o DJ carioca Rodrigo, que admite baixar torrents a rodo – e que, como os outros exemplos de “baixadores” desta reportagem, terá o sobrenome preservado.
A realidade é mesmo complexa por ter diversos interesses em jogo. Mas tem saída, seja na lei ou no mercado. Nesta edição, o Link discute, sem hipocrisia e conservadorismo, uma questão ainda sem resposta: quando vamos deixar de ser piratas digitais?
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
O governo José Serra e pífio, entre outras coisas, por transformar o caos social e a miséria em política. Sua polícia militar deixou a desejar, mais uma vez, na desordem que atingiu a favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, próximo do bairro nobre do MOrumbi.
Em vez de coibir o vandalismo de bandidos que quebravam carros e depredavam imóveis, deixou tudo correr solto à espera da Tropa de Choque, que demorou uma eternbidade para chegar ao local. Enquanto isso, barricadas eram montadas com pneus e carcaças de veículos em chamas e mais veículos eram depredados.
A atuação da PM foi vergonhosa. Ficou com medo e evitou o confronto. POr quê? POrque os comandantes não confiam mais no governador, ue os largou no fogo no episódio da morte da menina Eloá PImentel, em Santo André, no ano passado. A cúpula da PM tem medo da mídia e não confiam no governador, que faz uso político da corporação e a queima quando algo dá errado.
A PM tem que entrar com tudo, quebrando tudo e passando por cima de manifestates que insistem em bloquear vias importantes. E não pode ter medo de atirar para matar vândalos.
Um mês de 2009 e a crise econômica promete não dar tréguas aos prefeitos que assumiram em janeiro. Se por um lado o ABCD teve a menor taxa de desemprego de sua história em dezembro, segundo a Fundação Seade, o horizonte está com nuvens pesadas para uma tempestade que promete ser longa.
Enquanto o governo federal arregaça as mangas e luta para dar incentivos ao consumo e a uma produção industrial em franca desaceleração, o governo do Estado ainda se mostra tímido. O governador José Serra (PSDB) anuncia um pacote de obras de recuperação de estradas que já estava programado - copmo se isso fosse suficiente para compensar a perda progressiva de postos de trabalho na indústria.
Uma questão que surge neste momento: o que os municípios podem fazer para amenizar os estragos da crise e segurar empregos industriais? Por mais que se tente imaginar soluções milagrosas, o fato é que os novos prefeitos terão de conviver com um período de turbulências que vai se refletir rapidamente na arrecadação de impostos.
Alguns economistas radicais neoliberais - sim, eles existem - sugerem até que os municípios retomema política de alívio fiscal, numa postura tão irresponsável quanto esdrúxula. Abrir mão de receitas fixas neste momento é alimentar uma planta carnívora, que nada dá em troca.
Os exemplos macroeconômicos são claros: o governo federal diminuiu o valor compulsório recolhido pelo Banco Central nos bancos e estes ignoraram os apelos de baixar os juros, mesmo em tempos de taxa Seelic - a taxa básisca da economia - em queda.
É o spread bancário (taxa de risco que é cobrada em cada operação de empréstimo), dizem os sabujos da Febraban, a associação dos bancos. O oportunismo nojento é claro: ao afirmar que ainda é alto o risco de calote no Brasil, os banqueiros jogam no lixo todos os avanços monetários e fiscais que o país conseguiu desde a década passada, e mais ainda a partir do governo Lula, em 2003.
Já as indústriais receberam dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e redução de alíquotas de impostos - necessárias, de qualquer forma, com ou sem crise.
Mesmo assim, não tiveram vergonha de acelerar as demissões em todos os ramos. E ainda reclamam de quem sugere condicionar a concessão de crédito e incentivos fiscais à manutenção do nível de emprego.
A lamentar apenas a falta de medidas drásticas e duras do governo federal para conter esse movimento destruidor de empregos mesmo recebendo benefícios. Já o governo estadual simplesmente ignora a questão.
Diante de um quadro desolador e cínico, como sugerir aos municípios que abram mão de receitas futuras para "ajudar" empresas em dificuldades, se estas mesmas se recusam a se comprometer em manter o nível de emprego?
Apesar da dificuldade de encontrar soluções viáveis, ainda assim está faltando debate na região. Onde estão as associações comerciais e os Ciesps (Centros da Indústria do Estado de São Paulo)? E os vereadores, será conitnuam mais preocupados com seus quintais? Será que vão se preocupar somente com as miudezas das intrigas e briguinhas por cargos em comissões ou para mostrar poderzinho em votações de regimento interno?
Mais uma vez será a imprensa a estimular e criar um debate de alto nível sobre o futuro do emprego no ABCD. E quando digo imprensa me refiro aos veículos comprometidos com a região, como o ABCD Maior, desde o primeiro dia de sua existência. Já outros, com décadas de existência, ignoram deliberadamente o assunto - comportamento histórico, diga-se de passagem.
Todos os problemas do mundo acabaram. Barack Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos e o Copom (Comitê de Política Monetária) cortou os juros em um ponto porcentual. Tudo vai ficar bem, a crise econômica deixou de existir e os empregos voltarão a surgir em profusão neste primeiro trimestre.
A sociedade brasileira tem a tendência perigosa e extremamente arrogante de simplificar ao máximo os problemas e suas pretensas soluções como forma de mascarar a realidade e fugir da responsabilidade.
O resultado imediato desse comportamento suicida é a criação de factoides e mais factoides. O mais nojento deles nesta semana foi a ameaça de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, deputado federal pelo PTB paulista e presidente da Força Sindical, de ameaçar invadir o Banco Central caso não houvesse redução da taxa básica de juros da economia, a Selic, na última quarta-feira. Além de inútil, pueril e mentirosa, a ameaça do sindicalista foi de uma irresponsabilidade imensa.
O fato é que ninguém se atreve a atacar os pontos que têm de ser atacados. Reduzir a taxa de juros é apenas um paliativo no combate à crise, que está engolindo a economia brasileira com uma voracidade impressionante. Afinal de contas, 654 mil demissões em dezembro último é muito mais do que indigesto, é perturbador.
Enquanto o governo federal se distrai com polêmicas inúteis – como a concessão de refúgio e asilo político a um terrorista italiano, por exemplo –, as supostas medidas de punição para empresas que estão demitindo mesmo após receber ajuda com dinheiro público ficam pelo caminho.
São meras palavras ao vento, assim como a suposta indignação de autoridades do Ministério da Fazenda e do Banco Central com os altos spreads bancários – espécie de comissões que os bancos cobram pelo risco de emprestar dinheiro. Afinal, como disse o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, baixar juros somente não resolve, “o problema são os spreads”. Os banqueiros ficam irritadinhos, dizem que as “coisas não são bem assim” e ignoram solenemente o Banco Central.
Os debates estéreis continuam em ritmo de marola, enquanto a realidade atropela todo mundo. E o imobilismo já contamina parte das entidades que representam os trabalhadores.
Em Jacareí, no Vale do Paraíba, em decisão extremamente preocupante que revela falta de democracia -, um sindicato filiado à central Conlutas, ligado ao radical PSTU, impede o acordo de redução de jornada de trabalho e salário numa empresa. O detalhe é que o acordo foi aprovado pelos próprios funcionários, diante do dilema monstruoso: sem a redução, a empresa fecha.
A ideologização da discussão sobre as formas de combater o desemprego teve o seu valor no início da crise. Foi importante para marcar posição e recolocar as centrais sindicais no debate.
O problema é que a realidade insistiu em passar por cima de tudo. As opções oferecidas até agora pelos trabalhadores foram rechaçadas ou ignoradas pelas empresas, tudo diante da passividade e da lentidão do governo federal e da omissão do governo estadual.
Rejeitar redução de jornada de trabalho com redução de salário é uma bandeira histórica dos sindicatos. Mas quando a base começa a entender que emprego é mais importante do que tudo e que salário de desempregado é zero, é sinal de que é preciso forçosamente perceber o que está em jogo.
Credibilidade e coerência são virtudes desejáveis, mas, dependendo do ponto de vista, podem se chocar com a realidade, emperrando a vida. E a realidade insiste em corroer conceitos históricos. Como lidar com isso?
Em algum momento, a solidariedade desapareceu das grandes cidades brasileiras. Alguns dizem que foi no final dos anos 70 do século passado, quando as sucessivas crises econômicas brasileiras começaram a época dos índices de desemprego de dois dígitos. Outros dirão que foi no começo dos ano 80, ainda no bojo das mesmas crises, quando as favelas explodiram de vez em São Paulo e no Rio de Janeiro, inaugurando o pesadelo da violência urbana nos anos pós-ditadra militar.
Alguns esquerditas mais apressados dirão que a solidariedade desapareceu de vez nos anos 90, quando a abertura indiscriminada dos governos Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Hnrique Cardoso devastaram parques industriais e jogaram milhares de trabalhadores na informalidade e no desemprego prolongado.
O fato é que a cordialidade e a boa receptividade que os estrangeiros que nos visitam sempre elogiam nunca existiu de fato. Caso contrário, jamais permitiríamos o aumento indecoroso de mendigos na cidade de São Paulo. O endurecimento das relações pessoais nas metrópoles e nas cidades de porte médio ultrapassa qualquer sintoma de crise econômica, de pobreza ou mesmo de abjeta desigualdade de distribuição de renda.
A falta de solidariedade é sintoma de ausência de Estado, como observamos na batalha entre vândalos da comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, e a Polícia Militar. O que era uma manifestação nada legítima - já que execrava a PM por ter abordado e revidado a uma agressão de um ladrão - se transformou no grito de uma população maltratada e abandonada pela prefeitura de José Serra/Gilberto Kassab.
A baderna promovida por uma turma de vândalos ensandecidos é um sintoma de sociedade que já não está mais doente: está anestesiada. A paralisia atinge desde a PM, instrumento politiqueiro do governo estadual, que titubeou na repressão aos verdadeiros bandidos de Paraisópolis; atinge a população, que não tem para onde correr; e atinge a imprensa, onde apresentadores de TV falastrões e irresponsáveis berram por sague.
Saindo do macro e aterrissando no nosso microcosmo do ABCD, a solidariedade sumiu quando deixamos de olhar para o lado, para fora do carro. O embrutecimento atingiu níveis inimagináveis até mesmo para quem sempre participou de atividades filantrópicas. É cada vez mais comum observarmos nos semáforos de nossas sete cidades toda a sorte de pedintes e oportunistas.
Como discernir entre o que é verdade é o que é golpe? Como identificar naquela criança rota e miserável um instrumento absurdo de pais inescrupulosos? Como não desconfiar daquele rapaz forte que afirma jamais conseguir emprego e pedir dinheiro dentro dos ônibus - e que em seguida vai para o botquim tomar pinga?
No último sábado à noite, chuvoso e mal iluminado, um homem com uma criança no colo, com guarda-chuva e acompanhado por uma mulher, pedia dinheiro no semáforo do Paço Municipal de São Bernardo, em frente ao Teatro Cacilda Becker. A história o denunciava: "acabei de sair do hospital com minha filha e não tenho dinheiro para ir paracasa..."
A mesma história de sempre. Recusei o pedido de dinheiro e tive de escutar: "Tá vendo a crianã na chuva e ainda recusa ajuda. Deus tá vendo..."
Não tenho a obrigação de dar esmola - sou totalmente contra isso. Além do mais, se realmente ele estava no hospital com a filha e sem dinheiro, deveria ter procurado a assistência social da instituição - todo hospital tem uma.
Entretanto, pelo inusitado da reação, creio ter sido um sinal de alerta para que procuremos entender, de alguma forma, o temo em que vivemos em nossa cidade. A solidariedade sumiu e nada indica que nós, habitantes da metrópole, consigamos encontrá-la no médio prazo.