Merece uma reflexão a interessante análise que o jornalista Daniel Lima, diretor da revista Livre Mercado e um dos principais do ABC, fez sobre o comportamento da classe média nas eleições municipais de outubro último. A íntegra dos textos pode ser encontrada em http://www.blogdaniellima.com.br. Em larga escala, a classe média de Santo André pensa conservadoramente. Pensar conservadoramente é detestar desembolso para pagamento de impostos municipais da moradia urbana e esquecer que a moradia litorânea ou de campo é muito mais onerosa. Pensar conservadoramente é considerar o IPTU reajustado um acinte contra o bolso do contribuinte e aceitar bovinamente o IPVA extorsivo. Pensar conservadoramente é imaginar todo empresário ponte de enriquecimento da sociedade. Pensar conservadoramente é fechar-se em copas, restringindo relacionamentos aos bem-nascidos, em torno dos quais erguem-se barricadas preconceituosas. Em larga escala, a classe média de São Bernardo pensa menos conservadoramente. Pensar menos conservadoramente é não acreditar piamente que esquerdistas comem criancinhas, que trabalhadores engajados sejam perniciosos ao capitalismo, é desconfiar de correlação imediata entre empresário e solidariedade.
Espaço coordenado pelo jornalista paulistano Marcelo Moreira para trocas de idéias, de preferência estapafúrdias, e preferencialmente sobre música, esportes, política e economia, com muita pretensão e indignação.
quinta-feira, novembro 06, 2008
A eleição de Barack Obama para a presidência dso Estados Unidos abre uma nova era na história do Ocidente, para o bem e para o mal. Acredito que a mudança será benéfica e há uma pequena esperança de que tenhamos mais responsabilidade na Casa Branca. Entretanto, a eleição de um negro não ficaria impune... veja abaixo: O pastor protestante e diretor da Ku Klux Klan, Thomas Robb, declarou após a vitória democrata na corrida à Casa Branca que o presidente eleito dos EUA é "só metade negro". A KKK é a associação racista mais famosa do planeta, identificada historicamente por seus capuzes brancos, cruzes incandescentes e crimes raciais. Em um texto publicado no site do grupo supremacista branco, Robb afirma que "Barack Obama se tornou o primeiro presidente mulato dos Estados Unidos", e não negro, já que "ele não foi criado em um ambiente negro". "Ele foi criado por sua mãe [branca]", argumenta, na nota intitulada "América, nossa nação está sob julgamento de Deus!". Robb interpreta que, com a eleição de Obama, o "povo branco" dos EUA vai perceber que é hora de se unir contra aqueles que odeiam seu modo de vida --estrangeiros e negros, de acordo com a KKK. "Essa eleição de Obama nos chocou? Nem um pouco! Nós vinhamos avisando ao nosso povo que, ao menos que os brancos se juntassem, seria exatamente isso que aconteceria", incitou. Para ele, a votação do última terça-feira (4) não foi uma disputa entre liberais e conservadores, mas "uma guerra racial e cultural, travada contra o povo branco". Embora já tenha passado por várias "refundações", a KKK foi criada originalmente na segunda metade do século 19, após a Guerra Civil Americana (1861-1865), que pôs fim à escravidão no país. A facção foi erguida com fins de, entre outros, impedir a integração social dos negros recém-libertos. Durante a campanha eleitoral deste ano, a polícia de Michigan chegou a abrir investigação para apurar a autoria de pichações em um outdoor da campanha de Obama. As ofensas, com suásticas e símbolos da KKK, foram feitas no mês passado.
DIÓGENES MUNIZ
editor de Informática da Folha Online
A banda britânica The Kinks se prepara para voltar à ativa, segundo declaração do próprio vocalista, Ray Davies, em entrevista à "BBC". Ele também afirmou que um novo álbum já está em produção.
Depois de 12 anos separados, The Kinks marcam reunião e já produzem novo álbum
"Começamos a fazer um pouco disso, um pouco daquilo. Vai depender da qualidade final. Queremos fazer boas músicas novas", afirmou Davies. A banda está longe dos palcos há doze anos.
Diferentemente de algumas bandas que anunciam retorno depois de um longo período, os Kinks preservam os quatro membros originais - os guitarristas e vocalistas Ray e Dave Davies, que são irmãos, o baterista Mick Avory e o baixista Pete Quaiffe. A reunião da banda dependia da evolução do estado de saúde de Davies, que sofreu um derrame em 2004.
A banda, formada em 1963, lançou seu primeiro álbum --homônimo-- em outubro de 1964. Ao lado de Beatles, Rolling Stones, The Who e The Zombies, ela fez parte da primeira "invasão britânica" às rádios norte-americanas, ocorrida em meados da década de 60.
Mas a maturidade musical do quarteto só chegou em 1966, com o lançamento de "Face to Face". Em 1967, o grupo lança outro clássico: "Something Else by the Kinks". É deste álbum o single "Waterloo Sunset", considerada a 42ª melhor música de todos os tempos segundo uma lista com 500 músicas elaborada pela revista americana "Rolling Stone".
A periferia decidiu as eleições no segundo do turno das cidades do ABCD. Enquanto alguns candidatos esperaram que as pesquisas lhes dessem a vitória por inércia, outros trabalharam incansavelmente e obtiveram o prêmio maior. Mais do que em outra eleição na Grande São Paulo, a periferia mostrou em São Bernardo, Santo André e Mauá que decide e tem poder.
Luiz Marinho, a maior vitória do PT, andou mais do que ninguém por São Bernardo. Percorreu todos os bairros pelo menos três vezes e mostrou que tinha projeto de governo. Fez a lição de casa e se mostrou muito bem informado sobre os principais problemas de cada uma das regiões. Méritos de uma equipe de campanha muito bem entrosada e bastante próxima dos líderes comunitários.
Orlando Morando, do PSDB, apostou pesado nas áreas de classe média e acreditou que o fato de ser um empresário conhecido nas áreas mais distantes, onde possui uma rede de supermercados, poderia ser suficiente para lhe render os votos que o distanciavam de Marinho. Perdeu terreno na periferia não porque não a visitou, mas porque não a visitou o suficiente.
O PT e sua coligação soube explorar de forma magistral as contradições do programa de governo tucano, e atacou cirurgicamente as falhas da atual administração, que apoiava Morando. As divisões internas do grupo governista, que perdeu o ex-prefeito Maurício Soares e Alex Manente, se encarregaram de alargar a já enorme distâncias nas pesquisas.
De forma simplista, pode-se dizer que Marinho venceu pela competência de sua campanha em fazer política, em agregar apoios e em escancarar os problemas administrativos da gestão William Dib (PSDB).
Ao adversário restou insistir nas velhas denúncias contra o PT – mensalão, dólares na cueca e outras coisas –, fazer terrorismo a respeito da suposta revogação de benefícios tributários para a classe média caso o PT ganhasse e promessas desesperadas e irresponsáveis, como a redução do preço da passagem de ônibus para R$ 2. Vitória do PT e grande vitória – por que não? – do presidente Lula.
Em Mauá, nenhuma surpresa. Após a caótica administração Diniz Lopes-Leonel Damo, pouco sobrou da prefeitura que pudesse ser aproveitada de forma positiva em qualquer campanha.
Não bastasse isso, o PT colocou o peso pesado Oswaldo Dias, duas vezes prefeito, para soterrar qualquer pretensão dos chamados grupos políticos tradicionais da cidade. A periferia mais uma vez decidiu, embora a realização do segundo turno tenha, de certa forma, surpreendido. A vitória petista era mais do que esperada.
Já em Santo André, a maior derrota petista no país, exatamente na cidade-modelo de gestão experimental bem-sucedida e berço de um dos maiores administradores públicos do Brasil nos últimos anos (Celso Daniel).
Para muitos, surpreendente. Para outros, temerosos com o rumo da campanha de Vanderlei Siraque, não tão surpreendente.
Em que pese a guerra de guerrilha que se transformou a disputa andreense, com lances de bastidores de arrepiar, o fato é que o PT de Siraque perdeu a eleição dentro de casa. A militância, o grande trunfo do PT, desapareceu. Mais do que isso, se recusou a votar em certo sentido.
Siraque encolheu em termos de votos na comparação entre os dois turnos. A altíssima abstenção (16%), mais os votos brancos e nulos, jogaram contra o PT, que desta vez não contou com a militância – exatamente como em 1992, quando os grupos internos se digladiaram e implodiram a candidatura de José Cicote, derrotado por Newton Brandão.
Desta vez, o racha interno foi pior, pois envolveu o não cumprimento de acordos políticos, afastamento de colaboradores históricos e até mesmo a suspeita de sabotagem interna. Sem capacidade de mobilização e de agregação, é de se espantar, na verdade, que Siraque quase tenha ganho no primeiro turno, também com altíssima abstenção.
O fato é que Aidan Ravin (PTB) ganhou a eleição facilmente. A prefeitura caiu-lhe no colo, já que o adversário ajudou, e muito. A periferia aqui também decidiu, mas rejeitando o pleito e sumindo das zonas eleitorais. Rejeitou os candidatos, e decidiu não ir votar. Azar de quem mais dependia dela.
quarta-feira, novembro 05, 2008
Depois de 12 anos, o Palmeiras venceu novamente o Campeonato Paulista em 2008, após duas vitórias contra a Ponte Preta. Como manda a tradição na redação do Jornal Tarde, todo time que ganha um título merece uma foto de todos os torcedores que ali trabalham. Aí está a galera palmeirense da redação.
O autor do blog insiste em perturbar o sossego dos amigos que tentam tocar alguma coisa. Aqui, em meados de outubro, durante uma megafesta de aniversariantes da redação do Jornal da Tarde, no Johnny's Bar, o autor do blog (à direita) tenta fazer um solo de gaita durante a execução de "Black Night", do Deep Purple. Abismado, o vocalista e guitarrista Júlio Maria (esquerda) tenta disfarçar o constrangimento...
Em meados de setembro, o autor deste blog deixou o constrangimento de lado e resolveu fazer uma versão death metal da música "Polícia", dso Titãs, em um karaokê montado especialmente para uma festa no Johnny's Bar, ao lado do prédio do jornal Estado de S. Paulo. Se não houve constrangimento na hora de cantar, o resultado foi totalmente constrangedor, mas valeu pela farra.
Os bancos voltaram a ser os vilões da sociedade, algo que não se via há uns bons sete ou oito anos. Talvez nunca deixem sê-los, mas neste período o ódio ao símbolo máximo do capitalismo foi amainado por um surto de crescimento que começou após o vexaminoso apagão energético de 2001 e foi potencializado a partir de 2003 no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
É certo que a conjuntura internacional favoreceu, e muito, a melhora econômica de nosso país, e que a política econômico-financeira responsável do governo Lula tratou de manter nos trilhos uma nação castigada por mais de 20 anos de estagnação e crises.
No entanto, na mais recente quebradeira mundial, os bancos voltaram a ficar em evidência. E não está adiantando nada o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, alardearem que o nosso sistema bancário é sólido e que não há risco de quebra ou de falta de crédito. Os bancos voltaram ser vilões, mais uma vez.
Esse pensamento é extremamente perigoso, pois traz de volta o perigo da ideologização das discussões econômicas em um momento delicado, que requer sangue frio, calma, cautela e muito rigor técnico.
O bordão “Bancos, deixem o país crescer”, é bonito e sonoro enquanto peça de marketing de uma época que já passou há muito tempo. É um bordão que soa datado em tempos de sindicatos e centrais sindicais buscando alternativas de financiamentos, novos discursos para atrair mais associados e principalmente novas idéias para ajudar a manter o ritmo crescente do nível de emprego.
Culpar os bancos pela falta de dinheiro no mercado é algo que pode ser injusto dependendo do ponto de vista.
A crise é global e a falta de crédito é generalizada.
Se o governo permite que haja mais dinheiro com os bancos – seja por conta da redução do compulsório que é necessário apresentar ao Banco Central ou por conta de qualquer outra medida de desoneração dos custos do dinheiro –, é claro que os bancos vão se preocupar em capitalizar suas operações antes de que o dinheiro chegue às empresas e aos consumidores.
Afinal, quando não há segurança institucional no mercado, o perigo do “efeito manada” – uma corrida de correntistas as bancos para retirar dinheiro, por exemplo – pode jogar no lixo qualquer tentativa de conter a crise. Afinal, nunca é bom esquecer, estamos lidando com bancos, instituições especialistas em sobrevivência e em ganhar dinheiro. E é bom que se diga, os bancos nada fizeram de ilegal até o momento.
A questão é mais complexa. Se o governo acertou ao permitir mais crédito à sociedade, por meio das ações do Banco Central, ainda peca pela falta de exigências para a sua concessão. As regras ainda estão frouxas, afinal, não bastam apenas discursos indignados do presidente da República sobre o dinheiro empacado nos guichês bancários.
A pressão tem de ser feita é nas ante-salas do Palácio do Planalto e nos corredores do Banco Central. Lula ameaçou rever a as medidas que foram tomadas para que houvesse mais crédito.
Em outras palavras, ameaçou retomar o dinheiro que deixou de ser recolhido ao Banco Central. Não surtiu efeito. Os bancos precisam ser efetivamente cobrados e fiscalizados, e não é o que está acontecendo.
Enquanto todo mundo fica embasbacado com a fusão entre o Itaú e o Unibanco, criando a maior instituição bancária do Hemisfério Sul, o crédito continua represado. Chutar porta de agência bancária não adianta nada.
A sociedade precisa cobrar uma ação mais efetiva dos deputados federais e dos senadores para que o dinheiro saia da toca. Infelizmente, os bancos não estão cometendo nenhuma ilegalidade na letra da lei, por isso eles precisam ser pressionados de forma mais incisiva pelo poder público.
segunda-feira, setembro 15, 2008
da AP e estadão.com.br
LONDRES - O fundador da banda Pink Floyd, Richard Wright, morreu nesta segunda-feira, 15, aos 65 anos, segundo informou o porta-voz do grupo. O músico lutava contra um câncer e morreu em sua casa, na Inglaterra. Segundo o porta-voz, a família não quer dar mais detalhes sobre a perda.
Wright conheceu os também membros do Pink Floyd Roger Waters e Nick Mason durante a faculdade e, juntos, eles formaram a banda Sigma 6, que se tornaria o Pink Floyd. Wright escreveu e cantou alguns dos maiores sucessos do grupo, como The Great Gig In The Sky e Us And Them, do disco The Dark Side Of The Moon, de 1973.
Pink Floyd em 1988; Wright é o da direita
Durante a gravação de The Wall (1979), Wright teve que abandonar a banda por suas diferenças irreconciliáveis com Waters. No entanto, Wright, seguiu tocando com o conjunto como músico contratado durante shows de promoção do The Wall em 1980 e 1981.
Autor de dois discos solos, Wet Dream (1978) e Broken China (1996), o músico continuou colaborando com o Pink Floyd, sobretudo após a saída de Waters da banda, em 1985.
Em 2005, o grupo formado por David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright voltou a se reunir, pela primeira vez desde 1981, para participar do show Live 8, em Londres.
sábado, setembro 13, 2008
do Whiplash
Foi divulgado no site oficial do YES o que já corria por fortes boatos. A banda (Steve Howe, Chris Squire e Alan White) fará a turnê em comemoração aos 40 anos de formação com o tecladista Oliver Wakeman (filho de Rick Wakeman) e o vocalista Benoit David, encontrado pela banda na internet.
Benoit, que atualmente está na banda de Rock Progressivo MISTERY, atuava também em uma banda cover-tributo ao YES chamada "Close To The Edge" e sua voz e timbre lembram muito Jon Anderson, o vocalista original. Jon Anderson não poderá participar da turnê devido a um severo ataque asmático que sofreu e comprometeu seu sistema respiratório.
A turnê, intitulada "In the Present", começa em 4 de novembro, em Hamilton, Ontario.
sexta-feira, agosto 22, 2008
Mesmo quando supostamente acrta, Dunga erra. O técnico da seleção brasileira aceitou a convocação forçada de Ronaldinho "Fantasma" Gaúcho sme condições de sequer dar voltas no campo, engoliu o desprezo pelo torneio olímpico por parte da CBF e aceitou passar vergonha em Pequim.
Seis jogos, cinco vitórias, uma derrota e medalha de bronze. Em tese o futebol masculino não fez feio, mas o que valia mesmo era o ouro. E o timinho de Dunga só enfrentou mesmo um time de verdade, e perdeu com olé. O prazo de Dunga já venceu.
Brilhante a participação brasileira nos Jogos Olímpicos de Pequim. Duas medalhas de ouro faltando quatro dias para o final, com uma delegação de quase 300 atletas. A Jamaica levou dez e ganhou quatro ouros. Questão de eficiência ou puro desperdício de dinheiro público?
É inaceitável que bancos públicos financiem atletas medíocres de modalidades inexistentes. Não dá para mandar gente para o atletismo que vai ficar apenas em 50º lugar. O mesmo vale para outros esportes. Corte já de dinheiro para incompetentes e incapazes, como os vagabundos da ginástica olímpica, tão incensados pela mídia, mas que amarelam sempre. Fora com o vôlei de praia.
Na verdade, os Jogos Olímpicos não passam de um campeonato mundial de educação física. O que importa mesmo é o futebol. Masculino, bem entendido.



quinta-feira, agosto 14, 2008
do G1
Roberto Carlos e as micaretas que se cuidem: o Pink Floyd também está nos ramos dos cruzeiros marítimos. O "Great gig in the sea" (referência a um dos clássicos da banda) levantará âncora em 2009. Durante o trajeto Miami-Bahamas, uma banda cover que diz ter sido aclamada por David Gilmour, tocará "Dark side of the moon" na íntegra.
Ao preço mínimo de US$ 379 (cerca de R$ 615) por pessoa, o pacote de três dias inclui jogos e festas tendo a banda progressiva inglesa como tema. Marcado para maio do ano que vem, o cruzeiro foi concebido por duas empresas, uma delas a responsável pelas turnês do Pink Floyd nos EUA (e intitulada Think Floyd).
Hits dos discos "Wish you were here", "Animals" e "The wall" também serão tocados pela banda cover.
Mais informações sobre o cruzeiro são encontradas no site http://greatgiginthesea.com.
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se
As bocas de rango são muito concorridas. Uma das principais é a Casa Dom Orione, que fica na rua 13 de Maio, no Bexiga. É mantida por voluntários que frequentam a igreja N.S. de Achiropita (Xeropita, para os moradores de rua).
O roteiro é o seguinte: os albergados saem lá pelas 7h da manhã e vão tomar café lá, que é mais reforçado que o do albergue. Depois, esperam até cinco horas para almoçar, às 12h. Na Dom Orione é tudo muito bem organizado.
Ninguém fica na rua. Todos esperam num amplo saguão, com cadeiras e televisão. Do lado de fora há tanques para lavar roupa e banheiros com chuveiros. Tudo limpinho, bastante higiênico. Para se almoçar ali é preciso pegar uma senha. Os responsáveis pela casa atendem 180 pessoas.
Outro lugar famoso é o Refeitório Comunitário Penaforte Mendes, que fica na rua de mesmo nome, também no Bexiga. Lá é preciso se cadastrar e são atendidas cerca de 300 pessoas por dia. Ontem fui lá entrevistar alguns freqüentadores. Eles não gostam de fotografias. Têm vergonha ou medo. Apesar da insistência, não obtivemos muito sucesso para fotografá-los almoçando.
Maloqueiro e corintiano – Denilson de Oliveira, 26 anos, havia acabado de almoçar. Mora na rua e, para sobreviver, vende pastilhas. Trabalhou durante oito anos como palhaço no circo Orlando Orfei, viajou por toda a América Latina e fala muito bem o castelhano.
Ontem ele estava com pressa. Queria vender tudo rápido para assistir o jogo do Corinthians, à noite, no Pacaembu. Disse a ele que já havia morado num albergue e também era corintiano. Nem poderia ser diferente - disse a ele - maloqueiro é maioria na torcida do Corinthians. Ele riu.
É verdade: jornalista, maloqueiro e corintiano. Conversamos também com Roberto Gomes, 30 anos, auxiliar de pintura. Está sobrevivendo com a venda de algodão-doce e mora no albergue Pedroso, localizado no viaduto do mesmo nome, sobre a avenida 23 de Maio.
Mantido pela Igreja Metodista, esse albergue é bem conceituado em todos os sentidos. Por isso mesmo, conseguir uma vaga ali é difícil. "Tive sorte e me sinto bem lá", disse, enquanto aguardava a ordem para entrar na boca de rango.
Fiz questão de passar na Casa Irmão Faria, que fica na rua Jaceguai, uma ruazinha paralela ao viaduto Jacareí. Lá, eles servem sopa, todos os dias, às 14h. Ali não é necessário pegar senha nem se cadastrar.
Junto com o pessoal que mora na rua até o cachorro entra. E dá para repetir a sopa de legumes, doada pelo Sacolão do bairro quantas vezes for possível. Um dia, assoei o nariz com meu lenço e os meus companheiros me chamaram a atenção: "Isso não se faz à mesa", me disseram.
O albergue mais conceituado, em todos os sentidos, é o Arsenal da Esperança. Fica no bairro da Mooca, perto da estação Bresser do metrô. Aos domingos e feriados abre as suas portas às 14h, impedindo que os moradores passem o dia inteiro na rua. O mesmo ocorre quando chove. Está equipado com duas ou três ambulâncias, tem médico e enfermeiras. Oferece vários cursos para os albergados, entre eles, de teatro. Mantém convênios com empresas que oferecem trabalhos temporários, oferece emprego para os albergados que lá residem, remunerando e fazendo registro na Carteira de Trabalho.
O sistema de identificação digital evita a formação de enormes filas e conta ainda com quadras de futebol de salão. Todos os albergados que por lá já passaram falam muito bem dele. Eu mesmo estava pensando em me transferir para lá, caso continuasse por mais tempo tendo de morar num albergue. Era administrado por pessoas da comunidade italiana, com verbas do governo do Estado. Agora, esse albergue passou para as mãos da Prefeitura e seus moradores temem que a qualidade dos serviços oferecidos caia.
O albergue São Camilo, administrado por religiosos que também cuidam de um hospital com o mesmo nome é menor, mas o tratamento oferecido é mais humano. O pior de todos era o São Francisco, onde fiquei. Ele foi desativado depois de 8 anos (nunca se tomou uma providência antes para tirá-lo debaixo do viaduto Jacareí). Era uma pocilga. Lembrava muito Auschwitz. Agora, funciona na Baixada do Glicério, mas continua superlotado e muito criticado por seus moradores. Encontrei com alguns deles ontem na Praça da Sé. Eles não gostam de ser identificados, com medo de serem cortados e irem de vez para a rua. Mas ainda reclamando das humilhações a que continuam sendo submetidos.
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se
Bocas de Rango
Ao contrário das pessoas que trabalham normalmente, quem mora em albergue ou na rua detesta os fins de semana, principalmente domingos e feriados. Além de ter menos gente nas ruas, a tristeza bate forte e nos obriga a refletir mais.
Isso acontecia freqüentemente comigo. Outro grande problema é que boa parte das bocas de rango existentes pela cidade fecham. Bocas de rango são lugares que oferecem refeições gratuitas para os pobres. E é bom lembrar que, na Capital, existem dezenas delas.
Só no Centro deve haver, aproximadamente, umas vinte. Isso incluindo pessoas que, generosamente, se dedicam à causa social, no anonimato, sem fazer alarde. Assim é, por exemplo, com a senhora japonesa que distribui café da manhã com pão e manteiga na praça da Sé, aos domingos de manhã; outro grupo de senhoras japonesas que distribui lanches no Anhangabaú; e os espíritas, que levam sopa a quem vive sob o Minhocão, além de albergues e outras casas. As que funcionam, naturalmente, são mais disputadas.
Formam-se filas enormes. Isso acontece porque o número de moradores de rua cresce sem parar. Pouca gente sabe disso, mas da mesma forma que a polícia prende dezenas de pessoas por dia, outras saem livres. E saem em condições deploráveis.
Jovens que cometeram pequenos delitos, mas ficaram com a ficha suja, não arrumam emprego devido aos antecedentes criminais e só lhes resta a rua para sobreviver. Vergonha – As ruas de São Paulo estão ficando cada vez mais povoadas por eles. Conheci vários e deu para perceber que, muitos, possuem boa índole.
Trajando apenas uma bermuda e uma camiseta, exibem os pés rachados, sangrando de tanto andar à procura do que comer, do que vestir. E acabam descobrindo as bocas de rango.
Mas há ainda famílias inteiras que são despejadas, casais com filho recém-nascido, enfim todo tipo de gente que da vida só conhece vicissitude e amargura. Confesso que muitas vezes sentia vergonha ao conversar com eles.
Nasci em berço de ouro, tive instrução, boa educação e, acima de tudo, uma profissão. Mas estava ali disputando um lugar na fila com aquelas pessoas humildes, com pouca ou sem nenhuma instrução. Meu astral piorava diante da resignação e a força que aquelas pessoas demonstravam. Sentia-me humilhado.
Minha mente parecia girar como um carrossel, com os seguintes dizeres: fracassado, inútil, não serve para nada. Sentia vergonha até de manchar o nome da profissão que sempre exerci. - O sr. mora em albergue? - Sim, estou morando, por quê? - Mas o sr. não tem cara de quem bebe. Por acaso o sr. é drogado? - Também não, respondia eu, sem graça. -Então o que o sr. está fazendo aqui? O sr. tem cara de doutor, fala muito bem, aqui não é lugar para o sr. - Paciência, coisas da vida. - Mas o que o sr. faz? O que aconteceu? - Sou jornalista, fui imprevidente, não fiz a lição de casa e estou aqui.
Eu ia chorar – Esses diálogos se repetiram várias vezes nas filas das bocas de rango. Às vezes eu ia chorar. Escolhia a praça Pérola Byington, ali na avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde fica o teatro Imprensa e o Hospital da Mulher. Sentava num banco, abaixava a cabeça e chorava arrependido. - Agora, não adianta chorar, dizia para mim mesmo. Busque força para descascar o abacaxi que você mesmo plantou, falava comigo
quarta-feira, agosto 13, 2008
A obrigatoriedade do diploma avilta o jornalismo
por Maurício Tuffani, do blog Laudas Críticas
A formação superior em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para o exercício dessa profissão com base em seus preceitos técnicos e éticos. Ela não é obrigatória em países como Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e em vários outros.
A concepção que vigora na maior parte desses países é a de que não pode haver impedimentos para qualquer cidadão não só ingressar no jornalismo, mas até mesmo criar e manter seu próprio jornal. Na contramão desse princípio estão, além do Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia, que exigem o diploma.
É por isso que Claude-Jean Bertrand, professor da Universidade de Paris II, afirma em seu livro A Deontologia das Mídias, de 1997: “A excepcionalidade de que goza o jornalismo, dentre as instituições democráticas, consiste em que seu poder não repousa num contrato social, numa delegação do povo por eleição ou por nomeação com diploma ou por voto de uma lei impondo normas. Para manter seu prestígio, e sua independência, a mídia precisa compenetrar-se de sua responsabilidade primordial: servir bem à população.”
Haveria um mínimo de razoabilidade para a exigência do diploma se ela, por exemplo, valorizasse a profissão. Ao invés disso, ela levou justamente ao seu aviltamento, pois estimulou a criação desenfreada de cursos superiores de jornalismo, que por sua vez gerou um efeito perverso e crônico na relação entre oferta e procura de trabalho, sem falar na baixa qualidade do ensino oferecido.
Em junho de 2005, havia 35.322 jornalistas com carteira assinada no Brasil, segundo dados da RAIS apresentados pelo próprio Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Nesse mesmo ano, foram diplomados 28.185 alunos pelos 497 cursos superiores em jornalismo, nos quais ingressaram 47.390 alunos, de acordo com o Censo da Educação Superior. Supondo por baixo que os contratados pela CLT sejam um terço do total de profissionais em atividade, bastariam menos de quatro “fornadas” anuais para ocupar todo o mercado de trabalho. Na Itália, cuja população é um terço da brasileira, em 2005 havia 12 cursos de graduação em jornalismo.
Os cursos superiores de jornalismo do Brasil deveriam ser o que eles são em outros países: um diferencial na formação de profissionais. Para isso, é necessário o fim dessa obrigatoriedade estabelecida pelo decreto-lei 972, de 1969, que não foi assinado por nenhum presidente, mas pela junta militar que governou o Brasil com o Congresso Nacional em recesso, e cujo texto não se ampara em nenhuma constituição ou lei, mas somente no AI-5 e no AI-16.
Volto ao tema porque o STF (supremo Tribunal Federal) deve julgar em breve a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. A obrigatoriedade do diploma está diretamente ligada à regulamentação da profissão. Sem regulamentação, vira terra de ninguém, com modelos virando "jornalistas" e vagabundos diversos querendo o MTB apenas para de beneficiar eventualmente de algumas "benesses" que as carteiras supostamente oferecem.
Infelizmente, muita gente que eventualmente não tem diploma mas que poderia se tornar jornalista é prejudicada. Paciência, mas as exceções não podem prevalecer, senão não existe mais regra. A exigência do diploma disciplina e regula uma profissão que é frequentemente objeto de cobiça e vilipêndio.
Pode até não proteger e nem garantir qualidade, mas é o mínimo que a categoria conseguiu para obter um mínimo de respeito e benefícios. Se com a profissão regulamentada os salários caíram e os calotes aumentaram, imaginemos como seria sem a regulamentação.
A profissão tem uma regulamentação, ainda que esteja sendo atacada e precarizada. E mesmo assim as redações estão lotadas de estagiários, que trabalham de graça, assim como "profissionais" sem diploma trabalhando de graça em jornais do interior.
Sem a regulamentação, as empresas substituirão com mais voracidade mão-de-obra qualificada por trabalhadores precários em todos os sentidos - intelectual, cultural e legalmente.
Defendo a exigência do diploma e a importância das faculdades de nossa área, por pior que sejam. É uma forma de garantir (um pouco de) dignidade à nossa profissão e, em tese, mais qualidade na difusão da informação. Os argumentos da promotora são frágeis e genéricos e afrontam a legislação em vigor.
Os mesmos argumentos que servem para tornar a exigência "inconstitucional" também servem para o contrário. Da mesma forma que não existe advogado sem diploma e sem OAB, defendo que não exista jornalista sem diploma e, no futuro, sem "OAJ" ou CFJ.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Retirado do blog de Juca Kfouri
Processo No 2008.211.010323- 6
TJ/RJ - 06/08/2008 15:06:31 - Primeira instância - Distribuído em 11/07/2008
Regional da Pavuna
Cartório do 25º Juizado Especial Cível
AUTOS N.º 2008.211.010323- 6
RECLAMANTE: CARLOS ALMIR DA SILVA BAPTISTA
RECLAMADO: JORNAL MEIA HORA DE NOTÍCIAS
SENTENÇA
Dispensado o relatório, nos termos do artigo 38 da Lei 9.099/95.
Primeiro registro que é absolutamente incrível que o Estado seja colocado a trabalhar e gastar dinheiro com uma demanda como a presente, mas... ossos do ofício!
Ressalto, desde já, estarem presentes todos os pressupostos de regular desenvolvimento do processo e as condições para o legítimo exercício da ação. O autor é capaz e está bem representado, o juízo é competente e a demanda está regularmente formada. As partes são legítimas, há interesse de agir, já que a medida é útil na medida em que trará benefício ao autor, necessária, já que sem a intervenção judicial não poderia ser alcançado o que se pede, e o pedido, por sua vez, é juridicamente possível, tratando-se de compensação por dano moral e pedido de retratação. O que não existe nem de longe é direito a proteger a absurda pretensão do reclamante. A questão é de direito e de mérito e assim será resolvida evitando-se maiores delongas com esse desperdício de tempo e dinheiro do Estado.
O reclamante, cujo time foi derrotado na final da Libertadores, sentiu-se ofendido com matérias publicadas pelo jornal reclamado, que, segundo ele, ridicularizavam os torcedores, incitavam a violência e traziam propaganda enganosa.
As matérias, no entanto, são apenas publicações das diversas gozações perpetradas pelas demais torcidas do Estado em razão da derrota do time do reclamante. Tais gozações são normais, esperadas e certas de vir sempre que um time perde qualquer partida, quanto mais um título importante que o técnico, jogadores e torcedores afirmavam certo e não veio. Mais. As gozações são inerentes à existência do futebol, de modo que sem elas este não existiria porque muito de sua graça estaria perdida se um torcedor não pudesse debochar livremente dos outros.
É certo que o reclamante "zoou" os torcedores de outros times da cidade em razão de derrotas vergonhosas na mesma competição em que seu time foi derrotado, em razão de um dirigente fanfarrão ou em razão de uma choradeira com renúncia, e nem por isso pode o mesmo ser processado. Ressalto que se o reclamante viu tudo isso e ficou quietinho, sem mangar de ninguém e sem se acabar de rir, – não ficou, mas utilizo-me dessa (im)possibilidade para aumentar a argumentação – deve procurar outros esportes para torcer, porque futebol sem deboche não dá!
Ainda que a matéria fosse elaborada pelo jornal reclamado, é possível à linha editorial ter um time para o qual torcer e, em conseqüência lógica de tal fato, praticar "zoações", o que, em se tratando de futebol, é algo necessário e salutar à existência do esporte. Registro que há jornais que não só têm a linha editorial apoiando um ou outro clube, como há os que são criados pelos torcedores para, dentre outras coisas, escarnecer os rivais, o que é perfeitamente viável.
Evidente, por todo o ângulo em que se olhe, que não há a menor condição de existir a mínima lesão que seja a qualquer bem da personalidade do reclamante. "Zoação" é algo inerente a qualquer um que escolha torcer por um time de futebol e vem junto com a escolha deste. O aborrecimento decorrente do deboche alheio é inerente à escolha de uma equipe para torcer e, portanto, não gera dano moral, ainda que uma pessoa, por excesso de sensibilidade, se sinta ofendida e ridicularizada.
Continua o reclamante na sua petição afirmando que o reclamado incita a violência com sua conduta. É engraçado, porque o próprio reclamante afirma que teve que dar explicações à diretoria de seu local de trabalho em razão de desavenças com seus colegas. A inicial não é clara neste ponto, mas se houve briga em razão do reclamante não aceitar as gozações fica ainda mais evidente que o mesmo deve escolher outro esporte para emprestar sua torcida, porque, como já dito, futebol sem deboche, não dá! E o que é pior! O reclamante, se brigou, discutiu ou se desentendeu foi porque quis, porque é de sua vontade e de sua índole e não porque houve uma publicação em jornal. Em momento algum o jornal sugere que haja briga, o que só ocorre em razão de eventual intolerância de quem briga, discute ou se desentende.
Por fim, o argumento mais surreal! A propaganda enganosa! Chega a ser inacreditável, mas o reclamante afirma que houve propaganda enganosa porque na capa do jornal há um chamado dizendo existir um pôster do seu time rumo ao mundial, mas no interior a página está com "uma foto com os jogadores (...) indo em direção a uma rede de supermercados". Ora, e a que outro mundial o time do reclamante poderia ir se perdeu o título da Libertadores? Qualquer um que leia a reportagem, inclusive toda a torcida de tal time e em especial o reclamante, sabe, por óbvio, que jamais poderia existir foto da equipe indo à disputa do título mundial no Japão, porque isso nunca ocorreu.
A pretensão é tão absurda que para afastá-la a sentença precisaria apenas de uma frase: "Meu Deus, a que ponto nós chegamos??!! !", ou "Eu não acredito!!!" ou uma simples grunhido: "hum, hum", seguido do dispositivo de improcedência.
É difícil encontrar nos livros de direito um conceito preciso do que seria uma lide temerária, mas esta, caso chegue ao conhecimento de algum doutrinador, será utilizada como exemplo clássico para ajudar na conceituação.
O reclamante é litigante de má-fé por formular pretensão destituída de qualquer fundamento, utilizar-se do processo para conseguir objetivo ilegal, qual seja, ser compensado por dano inexistente, além de proceder de modo temerário ao ajuizar ação sabendo que não tem razão e cuja vitória jamais, em tempo algum, poderá alcançar.
Isto posto, JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO.
Condeno o reclamante como litigante de má-fé ao pagamento das custas, nos termos do caput do artigo 55 da Lei 9.099/95.
Publique-se. Registre-se. Intimem-se.
Após as formalidades legais, dê-se baixa e arquivem-se.
Rio de Janeiro-RJ, 31 de julho de 2008.
José de Arimatéia Beserra Macedo
Juiz de Direito
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se
Monopólio da Igreja – Depois disso tudo, cheguei à conclusão de que deve existir "uma indústria da miséria". Em São Paulo, o monopólio dos moradores de rua está nas mãos da Igreja. Ela usa a verba da Prefeitura, mas gasta muito pouco na melhoria dos serviços do albergue.
Na época em que se chamava Cireneu (nome de um empresário ligado ao grupo Copagaz) a coisa era ruim, mas só aceitavam pessoas com mais de 40 anos. Depois que a Igreja assumiu o albergue, abriu as portas para todo mundo. Então, jovens, líderes de facções criminosas, assaltantes e até traficantes passaram a almoçar e morar lá. Eram comuns os princípios de tumulto.
"Muquiranas" – Para se conseguir almoçar era preciso esperar, em média, 3 horas, debaixo de chuva ou de sol. Os padres se recusavam a abrir os portões para que pudéssemos entrar e nos abrigar. Um papel colado na parede interna do dormitório indicava que a dedetização estava vencida havia 3 meses. Os dormitórios ficavam infestados de baratas e de outros insetos, principalmente de "muquiranas", uma espécie de piolho que dá no corpo de quem não toma banho, produzindo uma coceira insuportável. É muito fácil ficar infestado. São os moradores de rua que os trazem.
Com auto-estima muito baixa, mas com alguma dignidade, suportávamos todo tipo de humilhação que nos era imposta, com medo de sofrer represálias: ser cortado e ir para rua. Era fila para entrar, fila para pegar alguma roupa no bagageiro, fila para tomar banho (quando os chuveiros funcionavam) e fila para jantar. Não adiantava muito tomar banho, porque éramos obrigados a vestir a mesma roupa, que cheirava mal.
Vícios – Pude constatar que a maioria dos albergados já está, de alguma forma, mentalmente comprometida com os vícios adquiridos e não existe uma política específica para tratar dessa questão social. Não há tratamento diferenciado para cada tipo de problema, curso técnico, suporte jurídico, assistência médica. Enfim, não há nada. Entra-se no final da tarde, só toma banho quem quer, dorme-se e, às 5h da manhã, todo mundo acorda.
No café da manhã é servido um pão (de hot-dog) com manteiga e café com leite de soja (mais dor de barriga em todo mundo). Depois, dez horas passadas na rua. Essa é a rotina. Do jeito que funcionam, esses albergues não contribuem para nada. Dali, a maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Poucos trabalham ou fazem bicos. Estão todos abaixo da linha da pobreza. Dificilmente conseguem se reintegrar à sociedade.
Chá com política – Quem mora em albergue ou pelas ruas da cidade conhece muito bem o que é uma "boca de rango". É aquele lugar que oferece comida de graça aos pobres. Em São Paulo existem várias delas e uma das mais conhecidas, e bastante freqüentada, é a do "chá do padre". De segunda a sexta-feira, as 14h, a igreja de São Francisco, com entrada pela rua Riachuelo, oferece chá com dois pãezinhos com manteiga. O salão fica lotado e é nessa hora que os religiosos aproveitam para fazer suas pregações políticas, incitando os moradores de rua e albergados a se organizarem em movimentos políticos para reivindicar seus direitos junto ao governo. Até um terceiro mandato do Lula já foi questionado lá.
Quando não é no chá, essa doutrinação política é feita nos albergues, por meio das assistentes sociais. Mas os albergados são avessos a esses movimentos. As assistentes sociais também convocaram todo mundo para protestar no dia 1º de Maio, a pedido da Igreja. Disseram que era importante a presença dos albergados nessas manifestações. A Igreja mandou confeccionar vários cartazes e distribuíram farto material para que fossem feitas faixas e cartazes. Todos deveriam estar reunidos na praça da Sé. Mas ninguém deu a menor importância a isso.
A Prefeitura, por sua vez, faz propaganda enganosa, espalhando pelas principais praças da cidade peruas Kombi azuladas, com os dizeres "São Paulo Protege". Existem cerca de 13 mil moradores de rua em São Paulo, mas só a metade deles mora em albergue. Essas peruas só recolhem as pessoas da rua no final da tarde. E nem sempre existem vagas nos albergues. Cheguei a ver gente entrando às 2h da manhã para sair logo depois, às 5 horas."
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se
Sem camas – Um dia, com princípio de pneumonia, pedi para ficar lá dentro, pois chovia e fazia frio. Me sentia muito mal. Solicitei a um dos monitores que me deixasse ficar e ouvi:
"Não enche o saco, meu. Você não sabe que os padres não querem ninguém aqui dentro? Vá embora".
No dia seguinte, muito mal, me escondi na biblioteca e não saí. Era começo de maio, fazia um frio insuportável. Foi então que presenciei uma cena lamentável: o coordenador dos franciscanos dentro do albergue mandou retirar centenas de camas (são beliches) do dormitório para colocá-las nos porões daquele fétido lugar. Ele dizia aos outros monitores: "Quanto menos camas, melhor. Agora vem o frio, a Prefeitura vai querer mandar mais gente para cá e, desse jeito, podemos dizer que não há lugar". Depois, espaçou as camas que restaram para dar a impressão de que não havia mais lugar.
Indústria da miséria – Do jeito que funcionam, os albergues não contribuem para nada. A maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Dificilmente conseguem se reintegrar.
No albergue São Francisco, que funcionava sob o viaduto Jaceguai, muitos dos idosos que lá dormiam não conseguiam mais fazer suas necessidades fisiológicas no banheiro. E sujavam na roupa, na cama, no chão. Não havia fralda geriátrica para eles.
Muitas vezes vi albergados mais novos ajudando os mais velhos a tomar banho. Vi vários deles caídos no chão, pedindo ajuda. O pior de tudo é que o albergue São Francisco foi desativado, mas na baixada do Glicério (seu novo endereço) a situação continua a mesma, segundo relatos dos albergados que foram removidos para lá. Outros foram encaminhados para um hotel social (a Prefeitura o chama de Centro de Recolhimento), na rua Francisca Michelina, na região central da cidade. A comida é razoável, mas costuma provocar indisposições estomacais.
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se
"Sentiam prazer em nos humilhar" (Segundo capítulo da série)
Nesta segunda reportagem, Marujo conta sua dura experiência de três meses num albergue da Prefeitura, onde a Igreja mostrou sua face mais intolerante. Durante o dia, nas ruas e praças. À noite, refúgio nos albergues municipais. Segundo ele, moradores de rua e desempregados são humilhados e usados como massa de manobra por religiosos. Segue o texto.
“Morei ali no albergue São Francisco, que ficava na esquina da rua Santo Amaro, com o viaduto Jacareí, bem em frente à Câmara Municipal de São Paulo. Ele foi desativado há 15 dias, da noite para o dia, por força de um abaixo-assinado dos moradores, pois o local se transformou em um ponto de albergados e marginais de todo o tipo, e retornou para a baixada do Glicério que estava sendo fechado. Antes o São Francisco chama-se Cireneu e era administrado por uma Ong de quinta categoria, com verba liberada pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social.
Pois bem. Em abril, os padres franciscanos assumiram o comando do albergue e o que era ruim ficou pior. Acho muito estranho que o padre Júlio Lancelotti e outros religiosos liderem uma passeata com moradores de rua, usando albergados como massa de manobra para conseguir, talvez, mais recursos da Prefeitura.
Maus tratos – Ali , no albergue São Francisco, os padres, que zelam tanto pela fraternidade, tratavam os albergados de forma desumana. Éramos mais de 400 pessoas amontoadas num imenso porão-dormitório sujo, que alagava quando chovia. Era um depósito de seres humanos, com um cheiro insuportável. Senhores com mais de 80 anos misturavam-se a jovens alcoólatras, drogados, crianças, mulheres, deficientes físicos e mentais, tuberculosos, portadores do vírus da aids, ex-presidiários e outros ainda cumprindo pena condicional, sem nenhum tipo de assistência.
Aquilo se assemelhava mais a um campo de concentração nazista. Durante cinco anos, o albergue funcionou ali, debaixo do viaduto, sob um estridente barulho, o "dum-dum" dos veículos que passam pelas emendas sobre o viaduto. Esse incômodo barulho martelava nossos ouvidos a noite toda. Nunca se tomou uma providência.
Com raríssimas exceções, os monitores, contratados pela igreja sem a mínima qualificação profissional, sentiam prazer em nos humilhar, deixando-nos na fila, debaixo de chuva e frio, à espera da hora de entrar. As regras são draconianas. Entra-se após às 17h30 e acorda-se às 5h. Até as 7h, todos têm que ir para a rua, inclusive aos domingos e feriados. As assistentes sociais explicavam que eram ordens da Prefeitura e não podiam fazer nada. Assim, todos, até mesmo as senhoras e outras pessoas com idade avançada tinham de sair, fizesse sol ou chuva.
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se
Ano todo – Ele funciona assim: um outro agenciador alicia, de uma só vez, albergados ou desempregados que têm RG limpo. Nesse caso, ele precisa formar um grupo de dez a vinte pessoas. O aliciador leva os RGs, tira cópias e os devolve aos proprietários mediante o pagamento de R$ 10. Só que esses RGs serão usados o ano inteiro para a prática dessas operações de câmbio ilegais.
Bem, eu fui para o Hotel Renaissance. O esquema, porém, conta com casas de câmbio alternativas, em shoppings como o Anália Franco, o Center Paulista, o Interlagos e o Shopping Light. Além desses locais, as operações de lavagem de dinheiro também são feitas em algumas casas de câmbio localizadas no Centro da cidade, como por exemplo nas avenidas São Luís e Paulista.
Outros Golpes – Mas não é todo dia que acontecem as operações de lavagem de dinheiro. Quando não tem negócio para fazer, o aliciador, já conhecido dos freqüentadores, diz que "a barra tá suja" e que a polícia está dando em cima. Fiquei sabendo que, às vezes, para confundir os policiais, o esquema é feito dentro da estação Sé do metrô, bem em frente às catracas. Na região da rua 25 de Março existem vários outros locais de lavagem de dinheiro. Entretanto, outros golpes são aplicados ou tramados nas adjacências. Um deles, muito conhecido dos malandros, é o do aluguel da conta bancária.
Ouvi comentários e perguntei do que se tratava:
"O senhor é albergado"?
"Sim", respondi.
"Tem conta bancária"?
"Não".
"Então, tá fora".
É claro que eu não iria participar desses golpes sujos. Mas como repórter-albergado sentia curiosidade de saber como agiam. Diante de minha insistência em saber o que era, o rapaz me contou.
"O negócio é o seguinte: a gente rouba dinheiro de uma conta bancária, ou das pessoas, e não têm onde colocá-lo. Então, 'alugamos' uma conta-corrente. Por isso perguntei se o senhor tinha uma conta. Colocamos a grana lá. Depois, sacamos o dinheiro e o senhor ficaria com 20% do valor depositado. Esse é o esquema".
Falsificação – Aí fui percebendo que as escadarias do Teatro Municipal se transformaram num grande ponto de golpes e outras contravenções, apesar da constante e ostensiva presença da polícia. Descobri também que há quem "esquente" Carteiras de Trabalho. Isso significa que quem tem carteira, mas nunca trabalhou, ganha uma série de registros falsos, como se já tivesse trabalhado há muito tempo. Outros querem levantar dinheiro para comprar um computador, a fim de falsificar dólares e outros documentos. Nesse tipo de fraude, pelas conversas que ouvi, a concorrência é grande: um se diz melhor falsificador do que o outro. E há vários outros tipos de golpes tramados e executados ali mesmo, nas escadarias do Teatro Municipal.
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se
Chá quente – No hotel, eu e o outro colega estávamos com a barba por fazer, mal vestidos e mal cheirosos. Entramos assim mesmo, sem que ninguém nos perguntasse quem éramos. A moça foi conversar com o funcionário do câmbio. Pediu que entrássemos e esperamos para ser atendidos, sentados em confortáveis poltronas. Numa delas havia uma mesinha com um bule de chá quente, que algum hóspede deixara ali. Meu amigo não hesitou em tomá-lo. Fomos chamados. Na minha vez, o funcionário da casa de câmbio solicitou o CPF e o RG. Tirou uma cópia e, antes de completar a operação, fez uma ligação telefônica.
"Alô, agora não posso mais fazer a R$ 1,77, só a R$ 1,78. Pode ser? Então vou fechar o negócio", afirmou.
Em seguida, imprimiu um papel numa máquina, tirou cópia dos documentos e me pediu endereço com CEP. Inventei um na hora, porque não fui avisado de que me faria tal pedido. Mas ele aceitou minha resposta. Negócio fechado. Devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro. O funcionário fez a mesma coisa com o outro rapaz e fomos embora. Na porta de saída do hotel, a moça que nos acompanhava nos deu os R$ 15 mais o dinheiro da condução e fomos embora.
É bom que se esclareça que esse tipo de operação é permitida. O Banco Central autoriza que cada pessoa possa comprar, vender ou remeter até US$ 5 mil por mês. Mas no caso em questão, os doleiros e seus agentes que agem no Centro da cidade aliciam dezenas de albergados para a lavagem de dinheiro sujo. Não se sabe se ele vem de contrabando, tráfico de drogas, de desvios de recursos ou do crime organizado. Muitos albergados já fizeram essa operação mais de uma dúzia de vezes. O esquema é antigo e tão bem montado que existe até uma alternativa para quem não tem CPF.
Eduardo Ribeiro(*)
da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se
Segue o texto de Marujo (1º capítulo da série)
“O esquema é sofisticado e participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Negócio fechado. Eu devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro.
Todos os dias, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo e arredores, bem no Centro da cidade, funciona um esquema muito bem planejado de lavagem de dinheiro sujo, patrocinado por grandes casas de câmbio.
Essas operações são feitas quase o dia todo, mas os horários de pico ocorrem às 11h30 e às 13h30, quando homens agenciados por doleiros aliciam pessoas, na sua maioria albergados, que ficam ali sentados. Esses aliciadores ficam à espera de uma oportunidade para comprar, vender ou fazer remessas de dólares para o Exterior, pagando a cada albergado a desprezível quantia de R$ 15. Como esses albergados não têm dinheiro nem para um cafezinho, se sujeitam a esse tipo de prática, atuando como laranjas.
O esquema é sofisticado. Eu mesmo participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Não tinha almoçado, estava com fome, então, me deram a dica. Ainda permanecia bem vivo o meu faro de jornalista.
A operação – Eram quase 14h de uma ensolarada segunda-feira. Fui para a escadaria e, minutos depois, apareceu um homem me perguntando se meu CPF era limpo. Limpo, no caso, significa não ter pendências na Receita Federal. É possível ter o nome sujo na praça, mas um CPF em dia. Além disso, ele perguntou se eu tinha RG e se estava tudo correto. Respondi que sim.
"Então, tudo ok", afirmou.
Fui aprovado para fazer a operação. Nas escadarias do Municipal opera-se, principalmente, para três casas de câmbio: Light, Turismo Dez e Brasileiro. Com esta última é mais difícil, porque ela exige comprovante de residência. Mas há quem venda esse documento no local.
Junto comigo, havia outro albergado que, como eu, estava morrendo de fome. O aliciador pediu que acompanhássemos uma moça grávida (sua irmã) até a região dos Jardins. Até então, não sabíamos exatamente o nosso destino. Nós três pegamos um ônibus (a passagem ela pagou) e descemos na rua Augusta, quase esquina com a alameda Santos. Chegando lá, ela nos contou que deveríamos ir à casa de câmbio que funciona dentro do luxuosíssimo Hotel Renaissance para efetuar a operação com dólares.
Eduardo Ribeiro
da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se
Ele perdeu tudo o que tinha na vida, inclusive a esperança de viver. Sofreu todos os tipos de humilhação, passou frio e fome, viveu da caridade organizada e nem tão filantrópica assim, perambulou por aí sem lenço e sem documento, tendo as ruas de São Paulo como moradia.
Mas viu muita coisa errada, outras um tanto suspeitas e foi testemunha de uma das ações mais calhordas que alguém minimamente comprometido com a integridade humana pode aceitar: o uso dos miseráveis para promover lavagem de dinheiro, a céu aberto, no centro de São Paulo, nas barbas da polícia.
Humilhado mas com o faro jornalístico apurado, ele também viu miseráveis serem usados como massa de manobra da igreja, que tem se valido do rebanho de desamparados para ter acesso a verbas públicas generosas e também para encorpar movimentos políticos com gente que sequer sabe o que está fazendo.
Rubens Ferreira Marujo, 57 anos, é seu nome e sua história já esteve aqui presente na coluna de 14 de maio, sob o título Sem lenço sem documento e a rua como moradia, que teve imensa repercussão.
Marujo deixou as ruas, mora hoje num pequeno apartamento no centro de São Paulo e após algumas semanas frilando para o Diário do Comércio foi contratado como repórter de Política para cobrir a temporada de eleições que vem por aí. Voltou a ser um cidadão. Ironia do destino, a história da qual foi personagem transformou-se em reportagens para o próprio DC.
As duas primeiras, publicadas respectivamente nas edições de segunda e terça-feira desta semana, estão reproduzidos na íntegra a seguir, autorizadas que foram pelo diretor de Redação do jornal, Moisés Rabinovici, e obviamente pelo autor.
Nelas Marujo conta o que viu e o que viveu, ao lado de centenas de outros moradores de rua, os quais, além do abandono da sorte, sofrem também com os ataques oportunistas de quem, por incrível que pareça, se propõe a tirar vantagem da miséria.
O título da primeira matéria é “Albergado é usado para lavar dinheiro”. A abertura destaca: “Só quem viveu um drama para saber relatá-lo com fidelidade. Durante três meses, o jornalista Rubens Marujo teve de viver em um albergue da Prefeitura.
Uma dura experiência de vida, que lhe trouxe uma visão crua, mas privilegiada da cidade e dos esquemas ilegais que perseguem albergados, desempregados e moradores de rua. Difícil imaginar que aquelas pessoas maltratadas que passam os dias sentadas nas escadarias do Teatro Municipal, no Centro de São Paulo, são usadas como laranjas num amplo esquema de lavagem de dinheiro.
Aliciadores agenciados por doleiros se aproveitam da fragilidade social, emocional e financeira de albergados para, com seus documentos, comprar dólares em casas de câmbio espalhadas por hotéis e shoppings. Por ceder seus documentos, os albergados recebem R$ 15. Tudo isso acontece à luz do dia, todos os dias.”
terça-feira, junho 17, 2008
Um pouco de nostalgia... a letra abaixo é de "Requiem", do álbum "Solid Ball of Rock" (1990), uma das melhores músicas do Saxon, banda inglesa de heavy metal, e uma das mais legais músicas de rock já escritas. Ela foi escrita em homenagem a Bon Scott (AC/DC), John Bonham (Led Zeppelin), Phil Lynott (Thin Lizzy), Keith Moon (Who), John Entwistle (Who), Brian Jones (Rolling Stones), Freddie Mercury (Queen), Jim Morrison (Doors), Janis Joplin, David Byron e Gary Thain (Uriah Heep), John Lennon e George Harrison (Beatles), Mama Cass Elliot (Mamas and the Papas), Dennis Wilson (Beach Boys), Steve Marriot e Ronnie Lane (Small Faces), John Glascock (Jethro Tull), Dee Dee e Joey Ramone...
Requiem (We Will Remember)
Written By : Byford/Oliver/Carter/Glockler
Somewhere in the night a candle burns for you/
The eternal flame the light keeps shining on/
Your music is immortal it stood the test of time/
You're gone but not forgotten, you walk with us/
We will remember/
They were born to rock 'n' roll/
We will remember/
Woah-oh/
This song's a celebration of what you gave to us/
The legacy you left still marches on/
But still they play your music all around the world/
Blasting through the airwaves to the stars/
We will remember/
They were born to rock 'n' roll/
We will remember/
Woah-oh/
From London to Chicago/
From the mountains to the sea/
The legacy you left will never die/
We will remember/
They were born to rock 'n' roll/
We will remember/
Woah-oh/
We will remember/
They were born to rock 'n' roll/
We will remember/
Woah-oh/
From London to Chicago/
From the mountains to the sea/
We will remember/
They were born to rock 'n' roll/
We will remember/
Woah-oh/
(Repeat to end)/
Comentário preciso e certeiro. Não vi nenhum órgão de imprensa levantar argumentos tão incontestáveis como os que expôs acima. Nem mesmo o editorial da Folha foi tão na "veia". A questão é a seguinte: a promotora quer aparecer, só que não tem estofo, não sabe diferenciar matéria jornalística e propaganda.
Se o candidato ou pré-candidato não puder falar de suas propostas, então qual a razão da entrevista? Para sabermos que Kassab é um bom gargo e emagreceu 8 quilos? Ou para saber que Marta adora os shows dos filhos dela? O fato é que o Ministério Público brasileiro, em todas as áreas, perdeu o vigor e a competência que tinham nos anos 90. Os novos quadros são despreparados e loucos por holofotes. Por isso acabam se metendo em áreas que desconhecem e propondo ações fora de propósito.
Carlos Chaparro
Publicado originalmente no site Comunique-se
O XIS DA QUESTÃO – À luz da Constituição, pode-se dizer que, no mínimo, a promotora Maria Amélia Nardy Pereira errou de alvo. Talvez fosse mais viável enfiar a carapuça do desrespeito à lei eleitoral nas cabeças de Marta Suplicy e Gilberto Kassab – que esta semana, com a entrevista que dá capa à Vejinha-SP, aumenta as dores de cabeça da promotora. Mas a questão vai além dessa rusga furada entre a promotoria da Justiça Eleitoral e os dois gigantes da mídia jornalística.
1. A letra viva e clara da Constituição
Em primeiro lugar, declaro sem meias palavras que considero um absurdo as representações contra a Folha de S. Paulo e a Veja, apresentadas pela Promotoria da Justiça Eleitoral, por terem aqueles veículos realizado e publicado entrevistas com Marta Suplicy – ações jornalísticas que a promotora Maria Amélia Nardy Pereira considerou “propaganda eleitoral” fora do prazo legal.
Navegando em equívocos, a promotora meteu-se numa difícil briga institucional com a imprensa, e da briga a Folha vem tirando bom proveito. Mas aos jornalistas e aos públicos leitores interessa que o debate da questão vá além das emoções do embate. De modo particular, entendo que devemos aproveitar a ocasião para propor uma reflexão mais aprofundada sobre o fantasma chamado “propaganda”, que nutre tanto a argumentação da promotora quanto o arrazoado apresentado pela Folha, no editorial de defesa publicado sexta-feira passada.
No que se refere propriamente à representação encaminhada pela promotora, até pela inconsistência da argumentação que a sustenta, arrisco a predição de que terá vida curta, sem outros efeitos além daqueles já produzidos, na discussão pública gerada. E diga-se que no já discutido pela mídia, o filme da promotora sai bastante borrado. Por boas razões, diga-se, já que ela simplesmente desconsidera a clareza e a importância ética do preceito constitucional segundo o qual “a manifestação do pensamento, a criação, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
Essa é a redação clara e vigorosa do Artigo 220 da Carta Magna. Artigo complementado por dois parágrafos igualmente de clareza e vigor inquestionáveis.
Diz o parágrafo 1º: “Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no Artigo 5º, IV, V, X, XIII e XV” – restrições que dizem respeito à proteção devida aos direitos fundamentais do cidadão.
Para que não subsistam quaisquer dúvidas, o parágrafo 2º do mesmo Artigo 220 é ainda mais peremptório: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística”.
À luz da Constituição, portanto, me parece que, no mínimo, a promotora Maria Amélia Nardy Pereira errou de alvo. Talvez fosse mais viável enfiar a carapuça do desrespeito à lei eleitoral nas cabeças de Marta Suplicy e Gilberto Kassab – que esta semana, com a entrevista que dá capa à Vejinha-SP, faz o jogo de confronto eleitoral com Marta Suplicy e aumenta as dores de cabeça da promotora.
Mas a questão conceitual da propaganda versus jornalismo precisa ser discutida.
2. Interações entre Jornalismo e Propaganda
Leio aqui no Comunique-se que a promotora Maria Amélia, provocada pela repórter Carla Soares Martin, toca no ponto que a ela parece essencial: o problema não é a entrevista, e sim a apresentação de plataformas políticas dos candidatos, veiculadas pelos meios de comunicação. E coloca, de forma mais explícita, o seu polêmico ponto de vista: “A entrevista é considerada uma propaganda na medida em que o candidato expõe sua plataforma política. Não há nada contra a liberdade de imprensa”.
Faltou-lhe dizer o que entende por liberdade de imprensa e por direito à liberdade de informação jornalística. Mas isso é o de menos, já que se trata de questão resolvida pela Constituição.
Verdadeiramente lamentável é que a promotora não nos tenha dito qual é, onde está e como pode ser usado o critério para definir fronteiras discursivas entre jornalismo e propaganda - se é que essas fronteiras existem, em especial quando se trata de entrevistar protagonistas e discutir temas de interesse público, em conflitos eleitorais.
À promotora, estudiosa das leis, talvez não interessem as subjetividades da linguagem jornalística e dos usos que dela a sociedade faz. Mas o pessoal da Folha, que é do ramo jornalístico, ao argumentar contra a promotora, cai na mesma esparrela de pressupor que jornalismo e propaganda são coisas separadas e separáveis por fronteiras objetivas. No editorial em que faz o seu arrazoado público de defesas, escreve a Folha:
“O primeiro e mais fundamental equívoco da promotora é não distinguir entre os termos ‘propaganda’, a mensagem em geral paga que tem o intuito de convencer, persuadir, e ‘material jornalístico’, que objetiva informar o leitor”.
Pois eu gostaria muito que os editorialistas da Folha nos dissessem como é possível eliminar do discurso particular de qualquer entrevistado a intenção de persuadir e convencer.
3. O direito de dizer
Ora, ao jornalismo interessam os conflitos relevantes da atualidade. Em períodos eleitorais e pré-eleitorais, os conflitos e os protagonistas prioritários são os que envolvem interesses antagônicos, em disputa de espaços de poder. Cabe ao jornalismo expor, fazer aflorar os conflitos, as divergências, os antagonismos – com honestidade, para que os públicos não sejam enganados por falsas intenções.
O jornalismo não pode, portanto, assumir o propósito de fazer propaganda. Mas também não pode evitá-la. Nem deve temê-la. Porque a propaganda é efeito inevitável de qualquer bom discurso particular socializado pelo jornalismo, quer a ação discursiva venha em forma de entrevista ou de acontecimento noticiável.
É bom lembrar aos colegas editorialistas da Folha que na política, como na ciência, na cultura ou no mundo dos negócios, o discurso particular é sempre e inevitavelmente propagandístico, e isso não pode ser rejeitado.
Em resumo: não há jornalismo sem discursos particulares conflitantes; e não há discurso particular sem propaganda.
Claro que aí está o cerne das contradições e dificuldades éticas do jornalismo. Faz bom jornalismo quem sabe lidar com as contradições do ofício sem fraudar o dever intelectual de informar e elucidar com honestidade.
E sem garrotear o direito democrático de dizer.
(*) Manuel Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor livre-docente (aposentado) do Departamento de Jornalismo e Editoração, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, onde continua a orientar teses. É também jornalista, desde 1957. Com trabalhos individuais de reportagem, foi quatro vezes distinguido no Prêmio Esso de Jornalismo. No percurso acadêmico, dedicou-se ao estudo do discurso jornalístico, em projetos de pesquisa sobre gêneros jornalísticos, teoria do acontecimento e ação das fontes. Tem quatro livros publicados, sobre jornalismo. E um livro-reportagem, lançado em 2006 pela Hucitec. Foi presidente da Intercom, entre 1989-1991. É conselheiro da ABI em São Paulo e membro do Conselho de Ética da Abracom.
quarta-feira, junho 11, 2008
por Juca Kfouri
Aconteceu ontem, em São Paulo, a pré-estréia do documentário, de 85 minutos, "1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil".
Simplesmente comovente.
O filme começa com os últimos 10 segundos da decisão diante da Suécia, culminando com o quinto gol brasileiro, de Pelé.
Muito bem editado, com uma bossa de recriar detalhes de lances decisivos com a câmara bem fechada, os depoimentos, em regra, são ricos, bem humorados ou até queixosos, como os dos jogadores franceses que acusam Vavá de ter quebrado o capitão Jonquet de maneira desleal, razão da goleada final por 5 a 2, pois a França ficou reduzida a 10 jogadores.
Mas há depoimentos impagáveis, como o de um russo que conta que o marcador de Mané Garrincha, Kusnetsov, ao chegar nocauteado no vestiário após a vitória brasileira, jogou a chuteira longe e desabafou; "Eu não quero mais jogar futebol. Os brasileiros é que sabem jogar futebol".
Para o atacante francês Piantoni, "o futebol brasileiro é como a música brasileira. Alegre, feliz e todo mundo se diverte".
Pois o filme de José Carlos Asbeg, que entra no circuito comercial no dia 13 deste mês no Rio e em São Paulo, é diversão pura, comoção do melhor nível e documento histórico de valor inestimável.
Um filme que talvez comece a convencer o país de que a Copa de 1958 está para o amor próprio do Brasil assim como a Copa de 1954 está para o reerguimento da Alemanha.
A diferença está em que os alemães não se envergonham disso, ao contrário, cultuam aquele momento, o primeiro de felicidade depois da catástofre do nazismo.
E nós, que não levamos nada a sério, ainda achamos que Nelson Rodrigues estava brincando quando disse, depois da derrota em 1950, que tínhamos complexo de vira-latas, coisa que a Copa de 1958 sepultou.
Ou não?
quarta-feira, abril 30, 2008
Mais Marcha da Maconha: falácias lógicas
A defesa da descriminação das drogas não se exerce sem algumas formidáveis falácias lógicas. Se eu fosse fazer piada, diria que parece argumento de gente sob o efeito da maconha: costuma haver um fosso entre as premissas e a conclusão, típico de quem perde a trilha da objetividade. Vamos a algumas delas:
A – O álcool faz mais mal à saúde e provoca mais mortes do que a maconha
Sempre que se tenta provar que alho é igual a bugalho, o bugalho sai beneficiado, não é? Quando não se distingue a diferença entre o joio e o trigo, o joio sai ganhando. Conhecemos os efeitos, realmente devastadores, do consumo de álcool, uma droga legal (embora ilegal para menores), entre os jovens. Mas me digam aí: já conhecemos os efeitos da massificação do uso da maconha?
B – Então por que não proibir também o consumo do álcool?
Quem faz essa pergunta quer proibir o consumo do álcool ou liberar o consumo das outras drogas? A pergunta é retórica. Já sei a resposta. Logo, é preciso considerar que:
- quem propõe essa questão admite os efeitos nocivos do álcool;
- admitindo os efeitos nocivos do álcool, pede um tratamento isonômico para a maconha;
- sendo um tratamento isonômico, então admite os efeitos nocivos da maconha também;
- se admite, em vez de defender a redução dos danos, está reivindicando a sua ampliação.
- Há falha lógica no que vai acima?
C – O álcool é vendido para menores.
É verdade. Acho que lugar de quem vende álcool para menores é a cadeia. Desde o princípio, estou defendendo a lei, não o contrário.
D – Considerar uma droga lícita ou ilícita é uma questão de convenção
Sob certo ponto de vista, tudo em sociedade é uma questão de convenção: da proibição de certas drogas à interdição do incesto e da pedofilia. Há interdições e liberdades que fazem avançar as sociedades. Há outras que as fazem mergulhar na anarquia e na decadência. Hábitos, costumes, interdições e liberações vão sendo socialmente construídos e criando uma cadeia de valores imateriais, uma verdadeira “cultura”. No caso da pressão — extremamente minoritária, é bom deixar claro — pela liberação das drogas, é essa cultura que salta para o primeiro plano.
Boa parte dos consumidores de drogas acredita firmemente que a substância faz com que tenham uma espécie de “iluminação”, abrindo a sensibilidade para percepções que, de outro modo, não se revelariam. É... Vai ver é o efeito dos neurônios sendo torrados. No Morro do Alemão ou no Jardim Ângela, essa expressão quase poética da droga inexiste. Os valores são outros.
E – Legalize-se a droga, o narcotráfico acaba, e o crime, também
É a mais tola de todas as proposições. O principal fator que alimenta o crime é a impunidade, é a incapacidade de o estado fazer cumprir a lei. Se, um dia, se vendessem cocaína e maconha no bar da esquina, quem hoje se dedica ao tráfico de drogas — porque quer, não porque seja obrigado — passaria a ser operário da construção civil? Médico? Engenheiro? Balconista? Acho que não, né?
Legalizadas as drogas, sem o enfrentamento do crime, os hoje criminosos das “substâncias ilícitas” seriam, se me permitem, “criminosos de outros crimes”. Não é a ilegalidade da droga que faz o criminoso, mas a disposição de não reconhecer o limite que foi socialmente imposto, transgredindo-o. Suponho, aliás, que a facilitação e, pois, a popularização de mais substâncias que alteram a consciência elevariam exponencialmente a prática de crimes.
Essa gente do miolo mole que sai fazendo marcha em defesa da maconha supõe que todos os consumidores de drogas estão apenas em busca de autoconhecimento e do, como vou dizer?, desregramento dos sentidos em busca do “próprio eu”. O único “povo” que esses caras conhecem é o que faz malabarismo em farol. Devem achar que é tudo culpa das “zelite”, como se eles próprios não a integrassem. E aí queimam um baseado.
Ainda a Marcha da Maconha: de individualistas e libertários
Escrevi abaixo um post sobre a tal Marcha da Marconha. E, claro, não tardaram a chegar os defensores da manifestação. Eu realmente fico muito impressionado com a fragilidade lógica dos argumentos quando o assunto é droga, mas deixo isso para o post seguinte.
A reivindicação para legalizar drogas é basicamente um assunto de classe média: o povo mesmo, como sabemos, é contra. Entre outras razões porque ele é a maior vítima do narcotráfico. Há entre os defensores, basicamente, duas vertentes:
- A minoritária: esta argumenta que é uma questão de liberdade individual e tenta jogar Milton Friedman contra mim, mais ou menos como um desafio: “Que liberal é você?”. O economista defendeu a legalização das drogas. Já contei aqui, conto de novo: a revista “República/Primeira Leitura”, que eu dirigia, deu um capa debatendo a descriminação das drogas. E já tocava no problema essencial: um país pode fazê-la sozinho? É claro que não. O mundo vai acatar a proposta? Não vai. Então esse debate é ocioso.
Isso nos devolve para o terreno da realidade, o das drogas ilegais. Consumi-las é integrar a cadeia do crime organizado. É uma questão de fato, não de gosto ou de opinião. Sem aquele que consome, não há quem possa vender: o narcotraficante.
É evidente que fumar ou não fumar maconha, cheirar ou não cheirar cocaína, comer ou não comer bacon, tudo isso é uma questão de escolha. E as pessoas devem arcar com o peso de suas escolhas. A democracia brasileira diz que o tráfico de drogas e a apologia do consumo são crimes. Quem quer fazer uma coisa e/ou outra tem de pagar o preço.
- A majoritária: para essa turma, consumir maconha — e, suponho, outras drogas também — é uma espécie de capítulo das liberdades civis. O sotaque ideológico é diferente do expresso pelo grupo anterior. Aquele considera que é uma manifestação do saudável individualismo; este outro pretende que é uma expressão de um direito coletivo. Em suma, aquele grupo teria um viés, digamos, mais à direita; este outro, mais à esquerda. Haveria uma sociedade reacionária, conservadora, que estaria reprimindo um “direito”, como se “direitos” não fossem socialmente construídos também; como se houvesse o “direito natural” de fumar maconha, o que é balela. E quem se opõe à legalização é, então, reacionário.
Ah, sim: reclamam de eu ter me referido aos consumidores de maconha como “maconheiros”. Devo chamar como?
- “Apreciadores de uma droga injustamente considerada ilícita?”
- “Consumidores de maconha”?
- “Novos libertários”?
Os fumantes também merecerão uma alcunha politicamente correta? “Consumidores de tabaco?”
Continuo no post seguinte, com considerações sobre as falácias lógicas dos supostos libertários e supostos individualistas.
Os maconheiros têm até um blog para divulgar a sua marcha. Se quiser visitar , clique aqui. Fazer a apologia da maconha é crime, como eles mesmos reconhecem lá. Mas aí recorrem a uma droga ainda mais antiga: a hipocrisia. Dizem estar apenas informando e querendo debater.
O artigo 33, § 2º da já bastante liberal Lei 11.343 deixa claríssimo:
“Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga:Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de 100 (cem) a 300 (trezentos) dias-multa.” A íntegra da lei está aqui.
Já disse: sou um chato legalista. Essa “marcha” tem de ser proibida. Se, uma vez proibida, as pessoas insistirem em promovê-la, então não vejo outra saída: cana! Esse negócio de que todo mundo tem o direito de marchar contra a lei de que discorda em nome da liberdade de expressão tem quais limites éticos? Deve haver quem defenda a pedofilia, por exemplo, porque, afinal, na civilização grega, etc e tal... Se os valentes querem patrocinar a causa, que arrumem um representante no Congresso que esteja disposto a assumi-la.
Sabem o que é curioso? Uma marcha a favor do cigarro, por exemplo, seria de pronto repudiada — inclusive por gente que defende a da maconha. “Ah, mas cigarro já é legal; não precisa de marcha”. Sim, mas os fumantes são hoje quase párias sociais, não é mesmo? Estou, de fato, chamando a atenção para uma questão: essa marcha da maconha toca num flagelo social: o fato de as drogas hoje consideradas ilícitas serem consideradas ainda um valor “de resistência”, o que faz com que se transformem numa espécie de "cultura".
Pior: os maconheiros querem fazer de conta — e só por isso o filme Tropa de Elite foi repudiado por alguns “descolados” — que o consumidor de droga não integra a cadeia do tráfico e, portanto, da violência e do crime organizado. O argumento de que a legalização da maconha diminuiria a violência é só uma tolice irresponsável. No mesmo caminho, seria preciso tornar legal a venda das outras substâncias: cocaína, crack, heroína — ou os traficantes de maconha migrariam pra elas, certo? Mais: o Brasil não fará isso sozinho. A Inglaterra, por exemplo, está na contramão: apertando o cerco também contra a maconha.
Falei que a lei brasileira já é bastante liberal. E é. Leiam parte do artigo 28:
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
§ 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica.
Como se vê, o chamado “consumidor” — se o sujeito portar a substância apenas para seu consumo — já não vai em cana. Liberal por quê? Ora, o traficante, que vai para a cadeia, não vende se não tiver quem compre. É o que se chama uma “relação”.
Assim, o corolário óbvio da tal Marcha da Maconha é um só: ela não atende, vamos dizer, às necessidades dos consumidores. Serve mesmo é aos interesses dos traficantes. Mas, na dialética perturbada desses caras, eles só estariam querendo acabar com o tráfico. Ah, sim: entre os apoiadores do blog da Marcha da Maconha está uma tal Aborda (Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos). Mais uma vez, a política de redução de danos a serviço da promoção de danos.
Argumentos consistentes contra as drogas
Os textos a seguir foram retirados do blog de Reinaldo Azevedo, jornalista que colabora com a revista Veja. O blog está no site da revista. Geralmente não me agradam os textos dele, mas estes merecem uma relexão. Afinal, raramente ele acerta...
Marcha dos maconheiros tem de ser proibida. E quem marchar tem de ser preso. É a lei!
Leia o que vai abaixo, na Folha. Volto depois:
O Ministério Público de São Paulo luta na Justiça para impedir a realização da marcha da maconha no próximo domingo, marcada para as 14h no parque Ibirapuera. A marcha ocorre também em diferentes cidades do mundo neste final de semana e em mais 11 cidades brasileiras na tarde de domingo.
Com o pedido de medida liminar, o Ministério Público espera decisão semelhante à concedida pela Justiça a seu órgão corresponde na Bahia.
"Em pelo menos três Estados houve decisões desse tipo. Difundir o uso de droga é crime previsto já na própria Lei de Entorpecentes. Esperávamos uma decisão favorável ainda hoje [ontem], o que não ocorreu até as 19h", afirmou o promotor Marcelo Luiz Barone, um dos autores do pedido juntamente com a promotora Paula Castanheira Lamenza.
(...)
Um dos participantes do Coletivo da Marcha da Maconha, o sociólogo Renato Cinco, diz que a manifestação é uma questão de liberdade de expressão e que o movimento tentará derrubar as liminares.
"Queremos mostrar a nossa opinião sobre uma lei [que caracteriza a maconha como substância ilegal]. A proibição gera conseqüências muito piores que a legalização."
Segundo Cinco, foi informado que os participantes não devem portar maconha durante a realização da marcha.
segunda-feira, abril 28, 2008
Por ROBERTO VIEIRA
Publicado no Blog de Juca Kfouri
Há 85 anos o futebol não era o rei dos esportes.
Era o plebeu dos esportes.
Mas o dia 28 de abril de 1923 mudou a história do futebol.
O primeiro jogo oficial em Wembley. Wembley ainda inacabado.
A final da FA Cup entre Bolton Wanderes e West Ham.
Um belo dia de primavera em Londres com a presença do Rei George V.
Quase uma tragédia.
Pra quem imagina as multidões no Maracanã em 1950, surpresa!
Mais de 250 mil pessoas assisitiram o jogo em Wembley.
126.047 pagantes. O restante, invadindo até o campo de jogo.
Mas, os tempos e os ingleses eram outros. A multidão no centro do gramado estava de bom humor.
E o constable George Scorey montado em Billy, seu cavalo branco, conseguiu levar os torcedores até na beira do gramado.
Onde ficaram até o fim do jogo.
Jogo que não precisou de linhas laterais, nem linhas de fundo.
As quatro linhas do gramado eram humanas. Como nas peladas de fim de semana.
Quando a bola batia em um torcedor era lateral, escanteio ou tiro de meta.
O primeiro gol foi marcado por David Jack.
Mas foi o segundo que entrou para a história.
O atacante J.R. Smith do Bolton chutou. A bola entrou no gol e voltou.
Rebatida por torcedores que estavam... dentro da barra.
O Bolton Wanders venceu por 2 x 0.
O Rei voltou plebeu para seu palácio.
E o futebol mostrou quem era o Rei. Do Império Britânico. E do mundo.
Com a ajuda inestimável de Billy.
Pra completar, um tributo recente.
Uma nova ponte para pedestres foi construída nas cercanias do Estádio de Wembley em 2006.
Foi lançada uma votação pela BBC para batizar a ponte.
Adivinhem quem venceu a votação na frente de Alf Ramsey, Bobby Charlton e Geoff Hurst?
Pois é!
Com um terço dos votos, a ponte se chama 'A Ponte do Cavalo Branco'!
Há 85 anos o futebol não era o rei dos esportes.
Era o plebeu dos esportes.
Mas o dia 28 de abril de 1923 mudou a história do futebol.
Por ROBERTO VIEIRA
Publicado no Blog de Juca Kfouri
Há 85 anos o futebol não era o rei dos esportes.
Era o plebeu dos esportes.
Mas o dia 28 de abril de 1923 mudou a história do futebol.
O primeiro jogo oficial em Wembley. Wembley ainda inacabado.
A final da FA Cup entre Bolton Wanderes e West Ham.
Um belo dia de primavera em Londres com a presença do Rei George V.
Quase uma tragédia.
Pra quem imagina as multidões no Maracanã em 1950, surpresa!
Mais de 250 mil pessoas assisitiram o jogo em Wembley.
126.047 pagantes. O restante, invadindo até o campo de jogo.
Mas, os tempos e os ingleses eram outros. A multidão no centro do gramado estava de bom humor.
E o constable George Scorey montado em Billy, seu cavalo branco, conseguiu levar os torcedores até na beira do gramado.
Onde ficaram até o fim do jogo.
Jogo que não precisou de linhas laterais, nem linhas de fundo.
As quatro linhas do gramado eram humanas. Como nas peladas de fim de semana.
Quando a bola batia em um torcedor era lateral, escanteio ou tiro de meta.
O primeiro gol foi marcado por David Jack.
Mas foi o segundo que entrou para a história.
O atacante J.R. Smith do Bolton chutou. A bola entrou no gol e voltou.
Rebatida por torcedores que estavam... dentro da barra.
O Bolton Wanders venceu por 2 x 0.
O Rei voltou plebeu para seu palácio.
E o futebol mostrou quem era o Rei. Do Império Britânico. E do mundo.
Com a ajuda inestimável de Billy.
Pra completar, um tributo recente.
Uma nova ponte para pedestres foi construída nas cercanias do Estádio de Wembley em 2006.
Foi lançada uma votação pela BBC para batizar a ponte.
Adivinhem quem venceu a votação na frente de Alf Ramsey, Bobby Charlton e Geoff Hurst?
Pois é!
Com um terço dos votos, a ponte se chama 'A Ponte do Cavalo Branco'!
Há 85 anos o futebol não era o rei dos esportes.
Era o plebeu dos esportes.
Mas o dia 28 de abril de 1923 mudou a história do futebol.
terça-feira, março 11, 2008
GABRIELA MANZINI
da Folha Online
Faz tempo que os brasileiros sofrem para entrar na Espanha, de acordo com a jornalista Dalva Aleixo Dias, que conclui uma tese de doutorado pela Universidade de La Laguna, na Espanha, sobre a imagem dos brasileiros na imprensa espanhola. "Quantas pessoas foram maltratadas antes que essas histórias mais recentes fossem publicadas? Isso só veio à tona porque, agora, há universidades por trás."
Na semana passada, dois mestrandos foram barrados ao passar por Madri (Espanha) com destino a Lisboa (Portugal). O caso detonou um mal-estar entre Brasil e Espanha no que diz respeito à imigração.
Segundo Dias, no período em que ela morou na Espanha, entre 1996 e 1999, a imprensa espanhola publicou casos de uma brasileira estuprada pelos policiais da imigração e de um brasileiro que não agüentou a pressão da investigação para entrar no país --que já durava dois ou três dias-- e se enforcou, no aeroporto.
No mesmo período, Dias afirma que teve a sua permanência no país ameaçada após um bate-boca com um funcionário do setor de imigração --ele mandou que ela voltasse "de vez" para o Brasil-- e teve a filha de 5 anos empurrada escada abaixo por um grupo de colegas de escola que, havia alguns dias, a chamavam de "porca americana".
Ela conta que os espanhóis mantêm um estereótipo de que os brasileiros ou são do mundo do espetáculo (profissionais de capoeira ou samba) ou da prostituição. "Depois de um tempo, convencidos de que eu era diferente, arrumaram uma maneira de me 'espanholar'. Eu passei a ser 'Dalba' e não 'Dalva'; 'Alexio' e não 'Aleixo'; 'Diaz' e não 'Dias'. E se você é branco e tem ascendência européia, não é considerado brasileiro. É um europeu que, por acaso, nasceu no Brasil. Daí, vale a lei do sangue."
Para Dias, o preconceito contra os brasileiros é conseqüência da péssima imagem do país no exterior. "Para eles, nós sempre fomos um destino exótico no qual nós éramos os selvagens e eles, os evoluídos. De repente, na década de 80, eles se tornaram o destino, entraram numa crise financeira e se sentiram invadidos. O imigrante, fragilizado, virou bode expiatório para justificar o que eles não conseguem resolver."
De acordo com a pesquisadora, na análise da imprensa espanhola, ela concluiu que, lá, a vida dos brasileiros "não vale nada". "Se uma brasileira é morta, ela seduziu alguém e foi um crime passional. Se um brasileiro é morto, ou ele era homossexual e seduziu alguém --e foi crime passional-- ou ele era traficante --e foi queima de arquivo."
Dias afirma que a má imagem é fruto, principalmente, de uma propaganda institucional ruim; das histórias de violência que a imprensa brasileira passa à européia; e da vantagem que os espanhóis levam no mercado turístico, quando depreciam o Brasil. "Nas ilhas Canárias, eles patentearam a marca Carnaval e contrataram brasileiros para ensinar a sambar, costurar fantasias e compor sambas-enredo. Eles, agora, dizem que têm o segundo maior Carnaval do mundo, com a vantagem da segurança."
Tratado
Nos últimos dez anos, a situação melhorou, na opinião da pesquisadora. Ela afirma que, cada vez mais, os imigrantes deixam de ser vistos como "ladrões de empregos" para serem vistos como fator de impulso para a economia. "Com a entrada do capital espanhol no Brasil, nós viramos parceiros. E o Brasil tem crescido em questões políticas, diplomáticas."
O primeiro passo para a solução do problema, para a pesquisadora, seria a criação de um tratado de tratamento de imigrantes. "No Brasil, nós fazemos um esforço absurdo para falar no idioma deles, para que eles nos entendam, para que se sintam em casa. Não somos cordiais, somos quase servis. Quando chegamos lá, se você não conhece bem o idioma ou os costumes do país, eles simplesmente nos viram as costas."
Para Dias, os brasileiros não podem continuar sem proteção. "O governo precisa estar mais atento para defender os cidadãos, onde quer que eles estejam."