quinta-feira, março 26, 2009

A ajuda vem a cavalo


Depois das águas de março, uma boa notícia para o ABCD. Um dos programas terapêuticos mais bem-sucedidos do Estado de São Paulo, a equoterapia da ONG (organização não-governamental) Voo da Liberdade se prepara para ampliar os atendimentos a pessoas portadoras de necessidades especiais a partir de abril.

O trabalho é realizado na Pousada dos Pescadores, que fica no km 36 da Estrada Velha de Santos, em São Bernardo. São 14 atendimentos realizados às terças-feiras e aos sábados, com resultados fantásticos. O trabalho é tão bem feito que os profissionais envolvidos são obrigados a recusar pacientes por conta da falta de tempo.

A Voo de Liberdade é um sonho dois profissionais dedicados, Danielle Mialich Rodrigues e Fabiano Tiezzi. Numa parceria com a Pousada dos Pescadores, que é uma das iniciativas de turismo mais importantes da região, consegue prestar um atendimento imprescindível a pacientes e aos familiares.

De acordo com o site www.equoabc.com.br, a equoterapia é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo como instrumento de trabalho, objetivando a habilitação ou reabilitação de pessoas com comprometimentos físicos, mentais ou comportamentais auxiliando em seu desenvolvimento motor, psíquico e social.

As primeiras referências que se tem do uso da Equoterapia podem ser encontradas em 458-370 a.C. no livro “Das Dietas” de Hipócrates.

A ampliação dos trabalhos da ONG depende de acertos jurídicos e de estatuto, situação que será finalizada em abril. Entretanto, como a maioria das ONGs que presta serviços de assistência superespecializada, a Voo da Liberdade tem as dificuldades normais que instituições do tipo enfrentam no Brasil.

A capacidade de atendimento está no limite, mesmo com a ampliação prevista para abril. Com patrocinadores, públicos ou privados, individuais ou empresariais, o ganho de qualidade – que já é muito alta – seria inestimável, assim como o apoio oficial da prefeitura de São Bernardo. Luiz Marinho, o prefeito que assumiu em janeiro, sempre foi atento a esse tipo de serviço.

Danielle Rodrigues, que coordena o programa ao lado de Fabiano Tiezzi, afirma que os interessados em conhecer a equoterapia na Pousada dos Pescadores podem entrar em contato por meio dos telefones 3423-8896, 7602-3862 e 9237-4406 . Esse serviço tem de ser ampliado e qualquer ajuda ou incentivo é mias do que bem-vindo.
O pacote principal ainda não veio


Pacotes habitacionais e financeiros têm efeitos limitados e demorados sobre mercados em crise. A burocracia costuma devorar tempo precioso na concessão do crédito e agentes econômicos, especialmente os bancos, são extremamente conservadores na análise do risco quando a sociedade é a avalista.

Não seria diferente agora, com o mundo do dinheiro farto virtual para a casa própria. E a tendência é de que o dinheiro seja cada vez mais virtual, em razão da falta de arrojo na fiscalização do mercado financeiro pelo governo – qualquer governo, em qualquer país.

A grande pergunta que fica após o pomposo anúncio do pacote da habitação feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva anteontem, quarta-feira, é a seguinte: como é que as pessoas vão poder comprar se o emprego está diminuindo? Sem emprego não se compra casa; não se compra quase nada.

Até agora não se ouviu nada a respeito de um pacotão de emprego. A arrecadação de impostos logo vai cair e o número de empresas quebradas vai explodir. De que adianta liberar dinheiro para comprar casa se o trabalhador estiver desempregado?

Enquanto o governo federal fica refém de discussões intermináveis a respeito da prorrogação do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) menor para a indústria automotiva, as demissões continuam, e em ritmo acelerado.

Por mais que as empresas estejam sendo pressionadas pela Justiça, como são os casos da Embraer e de muitas outras, o fato é que essas demissões vão ocorrer. E não medidas decentes sendo estudadas a curto prazo, nem mesmo paliativas.
O grande nó da questão ainda é a carga tributária asfixiante que pesa sobre os contribuintes de todas as categorias no Brasil.

Carga de impostos alta aliada a falta de crédito crônica é uma bomba permanente no colo da sociedade – um governo muito endividado tem de pagar juros altos para conseguir rolar dívidas, fazendo com que bancos e agentes financeiros tenham mais interesse em comprar os títulos desse mesmo governo do que em emprestar ao setor produtivo.

E é quase inacreditável que não consigamos observar sequer um grande economista ou mesmo um executivo público defendendo um pacote generalizado de criação de empregos, que envolva redução de impostos e a criação de contrapartidas do setor produtivo de manutenção de empregos.

Toda a gritaria promovida pelas centrais sindicais e pelos sindicatos em outubro passado surtiu pouco ou nenhum efeito. O dinheiro público que está sendo usado para tentar debelar os efeitos da crise no Brasil está irrigando setores que ainda têm fôlego. Ações pontuais e direcionadas, mas com pouco efeito prático no contexto geral da crise.

É claro que as medidas do pacote habitacional terão efeito sobre a questão do emprego, mas não agora. E o epicentro da crise do emprego é a indústria descapitalizada. Medidas para estimular o consumo de bens duráveis ainda são tímidas, enquanto o nível de emprego continua diminuindo.

É sempre bom lembrar que o emprego industrial é um emprego de mais qualidade, de mais valor agregado, com salários maiores e mais capacidade de consumo. Logo, qualquer impacto da crise sobre a grande indústria é muito mais delicado e danoso.

Os setores de comércio e serviços não têm condições de segurar a onda da desaceleração econômica. Então, volto a perguntar: com o desemprego aumentando, vamos financiar casas para quem?
A verdade sobre a internet


A revista Veja desta semana, 25 de março, traz uma interessante reportagem sobre o livro O Culto do Amador, de Andrew Keen. Ele conseguiu fazer o melhor resumo que é a internet hoje:

Terra arrasada

A internet está destruindo a cultura, diz Andrew Keen, autor de O Culto do Amador – livro que acusa a rede de pecados graves

Anonimato

É fácil assumir identidades falsas na rede. Pedófilos, fraudadores de cartão de crédito e propagandistas políticos podem esconder suas verdadeiras (e más) intenções

Ignorância
Em um meio em que todos podem escrever – e até contribuir com verbetes para enciclopédias como a Wikipedia –, o conhecimento dos especialistas tem menos valor que os equívocos da massa

Pirataria

A noção de direito autoral foi posta em xeque pelo download de músicas, filmes e livros na rede, causando prejuízos a empresas e artistas


Impunidade

Na imprensa tradicional, os jornalistas podem responder judicialmente pelo que escrevem. A internet, ao contrário, é anônima e irresponsável – um território livre para caluniadores
Roqueiro Iggy Pop canta Tom Jobim em novo álbum

da Folha Online

Uma das faixas do novo álbum de Iggy Pop, "Preliminaires" (preliminares), será "How Insensitive", versão em inglês de "Insensatez", de Antônio Carlos Jobim. O CD chegará ao Brasil no dia 18 de maio pela EMI. Nesse trabalho, Iggy se afasta do punk rock e se volta para o jazz.

"É um álbum mais tranquilo com alguns harmônicos de jazz", disse Iggy em um vídeo. "Isso é porque chegou um certo momento em que simplesmente fiquei enjoado de ouvir brutamontes idiotas com suas guitarras, tocando música ruim."

Para compor esse disco, o músico se inspirou em Louis Armstrong e jazz no estilo de Jelly Roll Morton, e no romancista francês Michel Houellebecq, autor de "A Possibilidade de uma Ilha".

"Ele [o livro] fala sobre morte, sexo, o fim da raça humana e também sobre outras coisas bastante engraçadas (...). Li o livro de forma verdadeiramente prazerosa, assim que ele foi lançado, e, na minha cabeça, estava compondo as músicas que seriam a trilha sonora da minha alma ao ler aquela história", explica.

Outro título que constará no álbum é "King of the Dogs", em que conta a história de um cachorro chamado Fox, que explica "como é mais legal ser um cachorro".

A arte do novo álbum será criada pela iraniana Marjane Satrapi, autora do quadrinho "Persépolis", que também virou uma animação para os cinemas.

Satrapi conheceu Iggy em 2007, quando ela o convidou para emprestar sua voz a um dos personagens do seu filme.

domingo, março 15, 2009

Futebol feminino não faz falta


do blog de cosme Rímoli




Enquanto a direção do Corinthians se prepara para anunciar o maior patrocínio de camisas do Brasil, o futebol feminino foi extinto.

Ou melhor, repassado para o São Caetano, que é quase a mesma coisa.

A promessa de fazer a Seleção Brasileira colocar a camisa preta e branca, inclusive, com Marta, se mostrou um factóide.

Assim como quando dirigentes espalhavam no Parque São Jorge que Michael Phelps viria disputar o Troféu Brasil de Natação pelo Corinthians.

Se na natação foi uma piada, no futebol feminino, a realidade foi dura, sofrida.

"Vou explicar tudo o que aconteceu. Nós só perdemos dinheiro com as meninas e elas fracassaram.

Demos tudo do bom e do melhor. Viajaram no ônibus do futebol profissional, jogaram no Pacaembu.

Montamos uma estrutura que consumia R$ 100 mil mensais. E não tivemos retorno algum. As meninas não mostraram garra.

O nosso time era o mais caro e acabou no vergonhoso quarto lugar do Campeonato Paulista.

Dispensamos as meninas, passamos a camisa para o São Caetano. E damos R$ 10 mil de apoio por mês. Está ótimo.

Futebol feminino no Brasil é perda de tempo, de dinheiro. As pessoas não querem ver.

Por que você acha que os times grandes não estão no futebol feminino?"

A explicação, misturada com desabafo, é do diretor de esportes amador do Corinthians, o desembargador Miguel Marques e Silva.

"Eu mesmo tinha falado com a Marta. E ela quase veio. Mas contratei a Cristiane, a Juliana Cabral. Só que o time não andou.

A Cristiane recebia R$ 10 mil, mas tinha contrato com um time dos Estados Unidos.

A Juliana Cabral, além de não jogar bem, estava falando mal da diretoria para as outras jogadoras.

Eu peguei, eu ouvi. Ninguém tinha comprometimento.

As meninas não tiveram a garra do time de juniores masculino que foi campeão da Copa São Paulo.

Elas não entenderam o que significa jogar pelo Corinthians.

Então, o melhor repassar tudo para o São Caetano.

Acabou o prejuízo, acabou a dor de cabeça.

Eu soube que formaram um time lá onde o salário é, de no máximo, R$ 500,00.

Está ótimo. Futebo feminino no Brasil não dá...", afirma, sincero, Miguel Marques.

quinta-feira, março 05, 2009

O ranking das ditaduras e o oportunismo nojento



Não pretendia entrar no assunto, até porque acho de uma irrelevância absurda, mesmo que a repercussão tenha ido além do normal. A Folha de S. Paulo publicou há duas semanas um editorial em que usou o termo "ditabranda" para comparar a "intensidade" da violência contra opositores e instituições.

Para o autor do editorial (opinião) da Folha, a ditadora militar brasileira foi mais branda, menos feroz, do que outras na América Latina e África, já que matou muito menos. O termo "ditabranda" causou furor nos meios intelectuais brasileiros, com fortes doses de razão, principalmente entre aqueles que lutaram contra a ditadura e foram torturados e entre aqueles que tiveram parentes assassinados pelos militares.

O jornal se defendeu e afirma categoricamente que jamais defendeu a ditadura, ou a volta dela, ou a violência praticada pela mesma - o que é verdade, porque o editorial em nenhum momento faz defesa alguma do regime de exceção.

Na verdade, o que aconteceu foi um erro grosseiro de quem escreveu o editorial. Tentou relativizar algo que não pode ser relativizado ou amenizado. O regime militar derrubou um governo eleito democraticamente, desrespeitou a Constituição vigente - emporcalhando a história do Brasil - e cometeu atrocidades.

Entretanto, o erro grosseiro não justifica a gritaria em torno do assunto, que está morto e encerrado há 30 anos, com a Lei da Anistia. Ficar elaborando ranking de quem matou mais ou menos ou criar uma disputa de arquibancada direita x esquerda são artifícios de indigentes intelectuais para ideologizar da pior forma possível o debate.

O temo "ditabranda" é ofensivo em sua essência, na origem do conceito. É uma tentativa canhestra de relativizar a truculência, a violência, a afronta aos direitos humanos e os crimes perpetrados pelo regime militar brasileiro.

O Estado comandado pelos militares incentivou, patrocinou e ordenou tortura e assassinatos, derrubou governo legal e dmeocraticamente eleito e surrupiou direitos básicos dos cidadãos brasileiros.

Portanto, a comparação sobre o nível de ferocidade entgre ditaduras é totalmente incabível, já que na imensa maioria das vezes elas se igualam na essência: regimes políticos que praticao o crime de Estado, assassinando, torturando e confiscando, entre outras coisas.

Embora o texto do editorial não tenha tido a intenção de defender a ditadura militar brasileira, deixou margem para esse tipo de interpretação oportunista. O erro foi grosseiro, mas foi hiperdimensionado.

E os oportunistas já apareceram como o tal do Movimento dos Sem-Mídia, um grupo de desocupador e enviezados intelectualmente que pretendeu fazer uma manifestação na frente da sede da Folha de S. Paulo no dia 7 de março. É gente que leu o editorial pela metade ou nem leu, mas que adora fazer barulho contra os chamados "donos do poder".

Os pecados da imprensa são muito mais complexos e fundamentais do que um erro grosseiro no texto de um editorial. Esse tipo de gente são os mesmos que adoram culpar a imprensa pela suposta espetacularização de casos policiais - e até mesmo pelo desfecho dos mesmos.

São os mesmos que se excitam ao ficar regurgitando que os grandes veículos de comunicação do Brasil apoiaram o golpe militar de 1964 - o que é verdade. Mas são desonestos intelectuais ao omitirem deliberadamente que os mesmos veículos foram vítimas de censura na ditadura, que seus jornalistas foram igualmente vítimas, investigados, perseguidos, presos e torturados.

Esse é um debate estéril, pois a ideologização, o oportunismo e a má-fé de boa parte dos integrantes dos dois lados desvia o foco da discussão e joga a razão na lata do lixo.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

'Ditabranda' para quem?


Só contextualizando: a Folha de S. Paulo publicou recentemente um editorial sobre as sucessivas e bem-sucedidas tentativas de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, de usar a democracia para destruí-la, ao propor plebiscitos para se perpetuar no poder, por meio de reeleições sucessivas e aprovasr medidas autoritárias que minam cada vez mais a autonomia e a liberdade no país.

No meio do texto, o infeliz editorialista errou feito, ao tentar relativizar a ditadura militar brasileira - que matou pouco - em comparação com as ditaduras militares argentina, chilena, uruguaia e tantas outras. Usou o termo "ditabranda", provocando a ira e a fúria de diversos setores da sociedade, notadamente de gente que foi vítima ou teve parentes vitimados pelo odioso regime militar brasileiro. O texto abaixo é mais uma reação ao equívoco que foi o editorial, mas é bastante expressivo porque veio de dentro da própria Folha.



Ditadura, por favor, por Fernando de Barros e Silva

Fernando de Barros e Silva (*)



Fonte:Folha de S. Paulo


Certamente não é a primeira vez que um colunista da casa diverge de uma posição expressa pelo jornal em editorial.

Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância, inclusive em nome do que aprendeu durante 20 anos nesta Folha.

O mundo mudou um bocado, mas "ditabranda" é demais.

O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou "níveis baixos de violência política e institucional" parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção, e não para compreendê-lo melhor.

O que pretende ser um avanço analítico parece, mais do que um erro, um sintoma de regressão.

Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante. Devemos agora contar cadáveres para medir níveis de afabilidade ou criar algum ranking entre regimes bárbaros?

Por essa lógica, chega-se à conclusão absurda de que o holocausto nazista não passou de um "genolight" perto do extermínio de 20 milhões promovido por Stálin.

Ora, se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno ou o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido "brandos".

Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a "ditadura escancarada", para falar como Elio Gaspari. Seria um equívoco de mau gosto associar qualquer tipo de "brandura" até mesmo ao que Gaspari chamou de "ditadura envergonhada", quando o regime, entre 64 e 68, ainda convivia com clarões de liberdade, circunscritos à cultura.

Brandos ou duros, o fato é que os regimes autoritários só mobilizam a indignação de grande parte da esquerda quando não vêm acompanhados da retórica igualitarista.

Muitos intelectuais se assanham agora com a tirania por etapas que Chávez vai impondo à Venezuela sob a gosma ideológica da revolução bolivariana. Isso para não lembrar o fascínio que o regime moribundo mas terrível de Fidel Castro ainda exerce sobre figurões e figurinhas da esquerda nativa.

É bem sintomático, aliás, que, ao protestar contra a "ditabranda" em carta à Folha, o professor Fábio Konder Comparato, guardião do "devido respeito à pessoa humana", tenha condenado os autores do neologismo a ficar "de joelhos em praça pública" para "pedir perdão ao povo brasileiro".

Que coisa. Era assim, obrigando suas vítimas a ajoelhar em praça pública, submetendo-as à autêntica "tortura chinesa", que a polícia política maoísta punia desvios ideológicos durante a Revolução Cultural. Quem sabe, como a "ditabranda", seja só um palpite infeliz.

(*) Editor de Brasil da Folha de S. Paulo. Escreveu no espaço do colunista Marcos Nobre, que está em férias. - Artigo publicado na edição de 24/02/09
Adeus melancólico, mas sereno


Em São Paulo o mercado jornalístico possui uma espécie de veículo oficial, o Jornalistas&Cia, produzido por um amigo, jornalista e empresário Eduardo Ribeiro, da Megabrasil. É um boletim semanal que mostra o que acontece nas redações e assessorias de imprensa de todo país, quem saiu em tal lugarm quem chegou, quem lançou livro, etc.

Na edição de 26 de fevereiro de 2009, há uma notícia sobre a morte de um jornaista, Claudio Faviere, de 60 anos, com passaagens por vários jornais,entre eles a folha de S. Paulo. Nunca ouvi falar dele. Entretanto, sua morte for registrada e traz um depoimento de um contemporâneo, nei Duclós, também jornalista, que descobriu o texto abaixo do amigo e o tornou público novamente.

O texto é interessante, mostra a desolação de Faviere com o jornalismo atual e a decisão de abandonar as redações para abrir uma pousada em Cunha, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro. Suas posições são compartilhadas por Duclós. Discordo toalmente da opinião de ambos sobre a avaliação do jornalismo atual.

Respeito, mas abomino essa visão apocalíptica descrita no texto e, principalmente, esse comportamento absurdo de abandonar tudo em vez de lutar para melhorar. Entretanto, o texto de Faviere é um retrato amargo da profissão, mas profundamente sincero. Considero-o um marco recente da análise do trabalho jornalístico.



NO DIA EM QUE EU VIM-ME EMBORA


Não tinha nada demais. Tinha
o vento a favor. Havia comprado
o sítio em Cunha sem que tivesse
planejado comprar sítio, construído
a casa sem que estivesse
nos planos mudar de cidade.
Tudo aconteceu sem planejamentos
e intenções. Coisas do
destino ou sabe-se lá do quê. Era
1993.

Dois anos depois, ao sair
do último emprego, sentia um
grande desencanto com o jornalismo,
do jeito que passara a ser
praticado. Morte da reportagem,
imprensa oficialesca, sem investigação
e denúncia, império do
release, matérias feitas em série
como em uma fábrica de salsichas,
visões áridas, estatísticas,
sem contemplação do ser
humano.

No período entre a compra do
sítio e a saída do emprego mesclava
o trabalho em São Paulo
com a construção da casa, nas
rápidas viagens de fim de semana
a Cunha. Nas conversas de bares
na pequena cidade ou nos humildes
armazéns da zona rural, nas
visitas às casas e nos passeios aos
pequenos vilarejos da roça, o contato
com novas realidades, novos
cenários, novas pessoas. E a descoberta
de novas histórias, de uma
nova cultura, de um novo e prazeroso
relacionamento com os moradores.

Tudo em contraste relevante
com a metrópole, onde nasci,
vivi, trabalhei. O fascínio por
tudo isto era grande. Destes contatos
e histórias surgiu a vontade
de uma nova experiência: escrever
um romance ambientado naquela
realidade, a primeira entrada no
mundo da ficção.

Fazia quase 30
anos que praticava o exercício de
escrever, mas sempre em cima de
fatos e acontecimentos.
Somando tudo: desencanto com
o jornalismo, a saída do último
emprego, um dinheirinho no bolso,
a casa semipronta (mas já em
condições de morar), as primeiras
linhas do romance se delineando
nos breves intervalos do cotidiano
de São Paulo. Pronto. Lá vou eu.
Bye-bye tudo.

E vim-me embora com o projeto
de passar um ano com dedicação
exclusiva ao romance. O dinheirinho
dos direitos trabalhistas não
era muito, mas o suficiente para
não ter outra preocupação do que
viver plenamente a experiência da
liberdade proporcionada pela literatura.

E aqui no sítio tudo era a
favor: as cachoeiras rodeando a
casa, a mata, o silêncio, o sagrado
isolamento, as montanhas, o céu
que chega a dar um porre de azul.
Só uma coisa não foi a favor: a realidade.
O dinheiro acabou, parei
o romance quase concluído, fui
atrás da sobrevivência, retomei o
romance, parei novamente, fui
atrás da sobrevivência.

Em 2000, recebi uma pequena
herança e construí uma pousada
com o claro objetivo de ela não ser
um fim, mas o meio através do
qual fosse possível atingir o objetivo
maior: ler e escrever. Passaram-
se quase cinco anos de
trabalho árduo para que a pousada
se estruturasse, ficasse conhecida,
possibilitasse a sobrevivência
e, enfim, eu alcançasse a
paz e tranqüilidade para terminar
o romance.

Penso que assim como o destino
me trouxe para cá e me privilegiou
com um pedacinho de terra
tão sagrado (sem que eu houvesse
planejado ou pretendido), o
mesmo destino designou a hora
certa para concluir este sonho de
liberdade. Era inexorável e foi agora.

O livro chama-se “Na Cacunda
do Lagarto” e só falta um pequeno
detalhe: editá-lo. Vamos
ver. Mas os percalços desta batalha
nunca me tiraram a felicidade
de estar aqui, mais perto da vivência
do que da sobrevivência.

Nota: O título deste artigo e a primeira
frase são de uma música de Caetano
Veloso.
Uma nova ordem mundial?


Está circulando na internet um interessante vídeo de futurologia sobre como a comunicação global evoluirá nos próximos 20 anos. Está no YouTube, no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=5SJup6CGiO4. A tese central de Prometeus, o nome do vídeo, é a convergência total de mídias e meios de comunicação, com o surgimento do "prosumor", uma espécie de consumidor que também é produtor de conteúdo.

Cabecismos à parte, a tese é interessante, embora sua base teórica ainda seja frágil. E é claro que tem um viés esquerdista, e dos mais retrógrados - eis o paradoxo. Apresenta os meios de comunicação atual como vilões da humanidade e fadasos ao desaparecimento, como jornais, revistas e emissoras de TV vinculadas a grandes grupos de negócios.

O pior de tudo, entretanto, é a ênfase na "liberdade total" de escolha de conteúdo, informação e expressão, como se nós hoje fôssemos completamente impedidos de acessarmos o que queremos - ao menos no Ocidente democrático.

O paradoxo é que o vídeo termina com a previsão de que existirão poucos grupos realmente globais e mundiais produtores de conteúdo total, hegemônicos - Google comprará a Microsoft, Amazon comprará o Yahoo e a BBC será a grande empresa europeia - ou seja, o mundo da informação caminha para o monopólio...

Essa "liberdade total" de expressão pregada pelo autor do vídeo e da tese coroa o trabalho com a estapafúrdia tese de que "direitos autorais" são ilegais, ou seja, prega abertamente o crime de fraude intelectual. Defende os atuais pirateadores de programas de computador, os baixadores de arquivos musicais e literários e afirma que no futuro os direitos autorais é que serão considerados um crime.

A apologia criminosa contra o copyright é um perigo, pois tgraz a gênese do suposto socialismo total nas ideias, com o equivocado conceito de que o conhecimento tem de ser livre para todos e disseminado sem restrições.

Ora, mas esse é um dos pressupostos do conceito de direito autoral no mundo democrático. Entretanto, como em qualquer sociedade civilizada e avançada, o copyright é uma regulação e uma garantia de que o conteúdo será disciplinado e distribuído de acordo com certas regras, respeitando o trabalho do autor.

A quebra total de patentes e direitos autorais éum câncer que é defendido por gente de bem e por vagabundos preguiçosos que nada mais são do que sanguessugas que se aproveitam do trabalho alheio de quem realmente trabalha e pensa.

Aliás, os sanguessugas são a maioria, é o mesmo tip0o de gente nojenta que xeroca livros na biblioteca e copia ilegalmente arquivos, programas e músicas. Alegam que não têm dinheiro para comprar "livros caros", mas sempre têm dinheiro para gastar na balada do fim de semana,para viajar à praia e eventualmente comprar drogas. Mas gastar com livros, para quê? Está fácil ali, de graça... É esse tipo de preguiçoso que compõe a maioria dos que defendem a quebra das patentes e direitos autorais.

É bom lembrar que o sistema de patentes e direitos autorais é o que a produção intelectual/cultural/empresarial do mundo. Assim como a democracia é um sistema político muito ruim, mas que ainda é o melhor que já foi inventado, o capitalismo é um péssimo sistema econômico, mas é de longe o melhor que existe.

E, ao contrário do que pregam seus detratores, possui mecanismos para coibir abusos em qualquer setor. A questão é vontade política para coibir os abusos. Não foi por outro motivo que o Brasil conseguiu quebrar as patentes dos remédios contra a Aids, numa homérica briga contra os laboratórios internacionais. Foi o típico caso de abuso dentro do capitalismo. Laboratórios infames querendo lucrar alto com os doentes de Terceiro Mundo.

Não quero eliminar o direito de os laboratórios de serem remunerados por suas inovações e criações - afinal, esse lucro precisa ser reinvestido para que novas técnicas novos remédios, novos produtos e novos inventos surjam. E o Brasil não se recusou a pagar pelas patentes, apenas queria um preço justo e honesto pelos remédios contra a Aids.

Os laboratórios internacionais pagaram para ver e perderam. A posição brasileira foi elogiada em todo o mundo e ajudou a disseminar o programa nacional de atendimento às vítimas em todo mundo.

Quebrar indiscriminadamente patentes e direitos autorais não interessam à sociedade, mas somente aos teóricos do caos e do consumo fácil e sem custo algum. Para eles, o trabalho intelectual é de segunda classe. É extremamente perigoso que esse conceito se torne hegemônico no futuro.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Seis anos e muito pouco a comemorar


Por falar em Veja, a edição desta semana traz uma entrevista bem interessante e reveladora de Jarbas Vanconcellos, ex-governador de Pernambuco e atual senador pelo PMDB daquele Estado.

Vasconcellos atira para todos os lados, contra aliados, contra o governo federal, contra o seu próprio partido. Adora falar em corrupção e que é um "dissidente dentro de seu partido". Ou seja, ficou 40 anos na vida pública praticando e apoiando os mesmos cidadãos que são alvos de suas próprias críticas, e agora posa de ético e bastião da moralidade. Não é digno de respeito.

Independente disso, foi cirúrgico em apenas um parágrafo ao definir o governo Lula:

O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.
Ataque racista e desinformação total


Atirou-se para todos os lados no caso da advogada brasileira que afirma ter sido atacada por skinheads em uma cidadezinha suíça nesta semana. A moça afirma categoricamente que eram skinheads neonazistas.

A polícia suíça, de forma irresponsável e demonstrando desprezo pelos estrangeiros, apressou-se em dizer que a advogada se auto-mutilou, mesmo antes da realização de qualquer exame decente.

Já o governo brasileiro, de forma tosca e atrapalhada - características da éssima olítica exerna brasileira - tratou de tornar o caso um braço-de-ferro diplomático, quando o caso nada mais é do que uma questão policial. O fato é que ainda é cedo para estabelcer qualquer julgamento - é tudo mentira, não houve ataque algum e a garota tem problemas psicológicos? Ou realmente houve um ataque xenófobo contra a moça brasileira?

A reação da imprensa brasileira, diante das circunstâncias e das informações que chegavam de forma picada, até que foram razoavelmente equilibradas, pelo menos em relação aos grandes jornais. Já na Suíça isso não ocorreu, com os jornais tratando a questão como ofensa nacional.

A Folha de S. Paulo teve um comportamento sereno em seu noticiário, mas os seus articulistas perderam a mão. Não gosto do estloo e do tipo de jornalismo que Reinaldo Azevedo, da revista Veja, faz. Mas ele foi feliz na análise que vez em seu blog, hospedado no portal da revista.

A quantidade de bobagem na imprensa brasileira é de assustar. Em um dos artigos que escrevi sobre o caso, afirmei que alguém ainda diria que o episódio foi útil porque serviu para denunciar a xenofobia etc... Batata! Eliane Cantanhede escreveu um texto verdadeiramente imodesto no gênero (em vermelho), destacando que estamos todos envergonhados... Bem, pessoalmente, não estou: não caí na conversa nem linchei o povo suíço. A ela.

Com Alemanha, Reino Unido, Holanda, Portugal, Espanha e Itália em recessão e registrando aumento de desemprego, a xenofobia perde o pudor e emerge. Com ou sem skinheads, a história de Paula toca numa ferida tão real que habitava e explodiu no inconsciente da moça. E no nosso.
Ninguém sabe direito o que aconteceu, mas Eliane sabe: a xenofobia explodiu “no inconsciente da moça e no nosso”... É a primeira vez na história da psicanálise que o inconsciente revela um conteúdo igual ao da consciência. UMA VERDADEIRA REVOLUÇÃO. Se Freud era o Darwin da mente, não é mais. Eliane o substituiu: descobriu a congruência entre o consciente e o inconsciente. Nada mais será como antes.

O Brasil foi do ataque à defensiva, depois de autoridades, imprensa e cidadãos suíços reclamarem retratações. O que, além de constrangedor, enfraquece futuras investidas em defesa de brasileiros agredidos e humilhados no mundo desenvolvido, mas não elimina a essência de toda a discussão: a resistência crescente e agressiva aos imigrantes de países emergentes ou periféricos.
Como se vê, “os brasileiros agredidos e humilhados no mundo desenvolvido” passaram a ser a “essência de toda a discussão”. Assim, conclui-se que o episódio tem seu lado positivo, que é chamar a atenção para a “essência"... Um povo e um país são acusados de xenófobos, de tolerantes com o neonazismo e de racistas e são insultados pelo governo brasileiro, MAS A CULPA É DELES.

Se os cortes em Paula são superficiais, lineares e femininos demais para terem sido feitos por brutais skinheads, eles não eliminam as dores dos brasileiros humilhados em aeroportos espanhóis, sem banho, sem ressarcimentos e até sem dentes, perdidos a socos policiais.
Paula pode ter sido um erro, mas o erro maior está lá. Por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads? Porque há quem não creia em xenofobia, mas que ela existe, existe. E tende a piorar.
Com o perdão da palavra, é uma das coisas mais boçais que li sobre o caso. O sentido moral do que escreve Eliane é o seguinte: "Eles podem até ser inocentes nessa, mas são essencialmente culpados". Afinal, pergunta ela, “por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads?” Ora, ao longo da história, tem sido fácil inventar e acreditar que judeus são exploradores que só pensam em lucrar com a cobrança de juros; tem sido fácil inventar e acreditar que todos os islâmicos gostam de explodir bombas: tem sido fácil inventar e acreditar que brasileiras na Europa são todas garotas de programa... Eliane demonstra, a partir da própria experiência, como nasce um preconceito. Ela está olhando para os suíços e dizendo: VOCÊS SÃO OS CULPADOS PELA ACUSAÇÃO INJUSTA. Ademais, quem é que não acredita em xenofobia? Xenofobia não é como disco voador. É matéria de fato. Existe em todos os lugares do mundo, inclusiove no Brasil. NO MUNDO CIVILIZADO, ELIANE, NÃO SE ACUSA UMA PESSOA — OU UM PAÍS — DE UM CRIME QUE ELA PODERIA TER COMETIDO. SEI QUE UM EXAGERO DO CONSERVADORISMO, MAS É ASSIM...

Clóvis Rossi também viu “embaraço nosso e deles”. A coisa já começa interessante no título. Enquanto ele aceitou — “precipitadamente”, admite — a versão de Paula, o vexame era só dos suíços. Agora que a versão da moça naufraga, ele decidiu dividir com aquele povo “os embaraços”. Entenderam a lógica? Acho que não.

E ele prossegue:
“Mesmo que tenha se automutilado, não há razões para, ao contrário do que diz certa mídia suíça, o país ficar ofendido pelas críticas à xenofobia. O Partido do Povo Suíço e seu líder, Christoph Blocher, são um embaraço para boa parte do establishment político local, exatamente pela xenofobia. Blocher é da mesmíssima família política de outros líderes da extrema-direita, como o francês Jean-Marie Le Pen e o austríaco Jörg Haider, recentemente morto, para não falar da Liga Norte italiana. O embaraço é tamanho que a União Europeia chegou a impor sanções à Áustria quando o partido de Haider entrou para a coalizão governante. Portanto, a hipótese de um atentado racista era verossímil. Nem seria o primeiro, aliás.”
É a mesma lógica de Eliane: eles não cometeram esse crime, mas o que interessa é que poderiam ter cometido. Logo, o país não tem de se ofender. É verdade, Rossi. Se alguém disser que os brasileiros não dão a menor bola à vida humana e que não passam de um bando de carniceiros — já que se cometem por aqui 50 mil homicídios por ano —, devemos acatar a crítica como justa e decente.

Agora prestem atenção a este parágrafo:
Mas, se a versão da polícia for a verdadeira, só vai reforçar a desconfiança com que os brasileiros são vistos em parte da opinião pública européia. Por mais que a maioria se mate de trabalhar, clandestinos ou não, os escândalos provocados por uma minoria de vigaristas contaminam todos, a ponto de ter ouvido, uma vez, de uma brasileira residente em Portugal, que todas as brasileiras são tratadas como prostitutas.
Rossi acha uma injustiça que imigrantes brasileiros sejam vistos com desconfiança, “embora a maioria se mate de trabalhar etc,” por causa de uma minoria de vigaristas. Mas acha compreensível (e censura os suíços por terem se ofendido) que todo um povo seja visto como xenófobo por causa de uma minoria — E É MINORIA — de racistas. Ou seja: os nossos vigaristas não podem ser tomados pela maioria, mas os racistas deles sim.

Não é por acaso que Celso Amorim fez fama de competente no Brasil.
Retornam as baboseiras do criacionismo


Ainda a questão religiosa: também é inacreditável que se discuta a validade das teorias evolucionistas de Charles Darwin - teorias só no nome, porque já foram eficientemente comprovadas. Na efeméride dos 200 anos do nascimento do cientista inglês que mudou a história da humanidade, ainda existem imbecis defendendo o criacionismo.

Pior: existem imbecis - criminosos, na verdade - que defendem a disseminação do ensino do criacionismo - que nada mais é do que a crença na existência de Deus e a crença de que ele criou tudo e todos - em todos os níveis. Esses imbecis - sempre ligados a algum tipo de "religião" ou seita - agora insistem na contaminação das aulas de ciências nas escolas com essa doutrina nefasta.

Insistir no criacionismo é estelionato, é insistir na existência de Papai Noel. É um crime conra a humanidade.
Eutanásia e o câncer que é a religião


Inacreditável como a religião continua epurando o mundo para as trevas. As reações absurdas à morte da jovem italiana mantida viva por aparelhos por 17 anos mostra a que ponto chega a estupidez humana. Impedir que familiares desliguem os aparelhos de pessoas que tiveram morte cerebral é um crime. A eutanásia é um alívio para a família e para o doente em si, é um ato de grandeza e de generosidade. E os vagabundos que arrotam religião - seja qual lixo for - colocam a sua imbecilidade acima da humanidade para defender conceitos sociais medievais. A religião é um câncer e precisa ser combatida.
PM erra e acerta ao bater em torcedores organizados


Mais uma briga envolvendo torcidas organizadas em clássicos paulistas. Anda bem que desta vez integrantes da Gaviões da Fiel se deram mal e saíram bem machucados. O fato é que a POlícia Militar de São Paulo mais uma vez demonstrou incompetência para gerenciar torcedores no clássico São Palo 1 x 1 Corinthians. Quando precisou enfrentar vândalos e bandidos da Gaviões, no entanto, fez o que tinha de fazer.

O fato é que, ao final do jogo, contrariando as orientações da PM para esperar uma hora para deixar o estádio do Morumbi, os bandidos da Gaviões começaram a depredar instalações do estádio - como sempre. Ao mesmo tempo, resolveu deixar o local onde estava sem auorização da PM. Energúmenos da torcida jogaram uma grade de 100 quilos por cima de um muro.

.A grade caiu sobre dois carros no estacionamento dos sócios do São Paulo. A PM pressentiu o tumulto e tratou de evitar a saída dos corintianos. Uma boma de efeito moral foi usada. O tumulto começou, houve corre-corre de volta para a arquibancada e muita gente se machucou.

Mas um grupo grande de torcedores da organizada Gaviões da Fiel investiu contra a PM e foi devidamente rechaçado. Um desfecho lamentável para um gerenciamento lamentável - incusive do São Pauoo, que colocou os torcedores corintianos em local inadequado no estádio.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Somos todos piratas?



Legislação atual faz a maioria das pessoas conectadas estarem à margem da lei. Mas de quem é o erro: das pessoas ou da lei?

LUCAS PRETTI E RODRIGO MARTINS - CADERNO LINK DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO (E COPIADO DO BLOG LÁGRIMAS PSICODÉLICAS -

A Campus Party, que terminou há uma semana em São Paulo, escancarou uma realidade urgente: os novos hábitos de consumo de cultura, conhecimento e diversão não cabem mais na legislação de direitos autorais e antipirataria em vigor no Brasil e no mundo.

O que 4 mil pessoas fizeram durante uma semana com uma conexão à internet de 10 gigabits por segundo? A resposta é óbvia: trocaram arquivos digitais dos mais diversos tipos – músicas, filmes, seriados e games, entre outros –, tanto “baixando” quanto “subindo” conteúdo em grande quantidade. E grande parte desse conteúdo é, segundo as leis atuais, ilegal.

Quer dizer que os participantes do evento merecem ser punidos? Nada disso: se você ler esta reportagem do Link verá que provavelmente, como quase todos nós, também é pirata.

Numa época em que, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), 95% dos downloads de música na internet são ilegais e a tecnologia permite copiar, subir, baixar e compartilhar arquivos pela rede, as leis continuam as mesmas do século 20: para ter acesso a um disco, filme ou livro você precisa comprar uma cópia. Se copiar ou tiver acesso sem pagar, é criminoso.

Segundo uma pesquisa da Comscore, 46% dos internautas brasileiros acessam o YouTube. De acordo com a legislação, ter acesso a conteúdo ilegal, mesmo que apenas para assistir, é crime. Então, apenas no YouTube, há muitos potenciais piratas brasileiros. Quem subir conteúdo protegido para o site pode pegar até quatro anos de prisão.

Você tem um MP3 player ou um celular que toca música? De onde vieram as músicas que estão lá? Se foi de programas do tipo P2P ou Torrent, com certeza são piratas. Mas sabia que digitalizar um CD que você mesmo comprou também é crime?

Segundo dados do Ibope/NetRatings, os downloads ilegais eram feitos por 38% dos internautas brasileiros há um ano. Hoje, são 46%. Uma pesquisa da Fecomércio-RJ aponta que apenas 5% da população não recorre à pirataria por medo de ser punida.

Toda essa situação está fazendo surgir um debate: no momento em que a maioria das pessoas está à margem da lei, de quem é o erro: das pessoas ou da lei? “Há um descompasso entre o que as pessoas fazem e o que a lei prevê”, disse ao Link Lawrence Lessig, criador das lincenças Creative Commons (leia entrevista na pág. L8).

Em praticamente todo o mundo a legislação está desatualizada, mas no Brasil a lei de direitos autorais, de 1998, é particularmente rígida. Prevê, por exemplo, que a cópia privada de material entre dispositivos eletrônicos é pirataria.

Também não é o caso de apontar o dedo para a Justiça e o meio jurídico ou os detentores de direitos autorais, sejam eles artistas ou a indústria de cultura e entretenimento. Afinal, eles precisam defender seus direitos e, para tanto, apelam para profissionais afinados com a lei em vigor.

“A pirataria nunca é benéfica, mesmo como uma resposta a um modelo comercial de formato e preço que está em xeque. Não podemos defender uma lei que exclua o direito de autor”, afirma o advogado Luiz Henrique Souza, especialista em direito digital. O consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), João Carlos Muller, é mais enfático: “As redes P2P são a desgraça dos direitos de autor”.

No meio do tiroteio está o Ministério da Cultura. Desde 2007, comissões debatem novas saídas para a lei de direito autoral brasileira. A ideia mais próxima de ser aprovada é o conceito de cópia privada, em vigor, por exemplo, nos EUA. Não resolve o problema por completo, mas é um avanço.

A questão por trás da discussão é: por que baixar arquivos? As respostas são óbvias: alto preço de CDs e DVDs, praticidade de consumir conteúdo quando quiser e ter acesso a produtos que não estão no mercado brasileiro. “Se fosse pagar por todos os álbuns que ouço, não conheceria 1% das músicas”, diz o DJ carioca Rodrigo, que admite baixar torrents a rodo – e que, como os outros exemplos de “baixadores” desta reportagem, terá o sobrenome preservado.

A realidade é mesmo complexa por ter diversos interesses em jogo. Mas tem saída, seja na lei ou no mercado. Nesta edição, o Link discute, sem hipocrisia e conservadorismo, uma questão ainda sem resposta: quando vamos deixar de ser piratas digitais?
Somos todos piratas?



Legislação atual faz a maioria das pessoas conectadas estarem à margem da lei. Mas de quem é o erro: das pessoas ou da lei?

LUCAS PRETTI E RODRIGO MARTINS

DO CADERNO LINK DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO (E COPIADO DO BLOG LÁGRIMA PSICODÉLICA)

A Campus Party, que terminou há uma semana em São Paulo, escancarou uma realidade urgente: os novos hábitos de consumo de cultura, conhecimento e diversão não cabem mais na legislação de direitos autorais e antipirataria em vigor no Brasil e no mundo.

O que 4 mil pessoas fizeram durante uma semana com uma conexão à internet de 10 gigabits por segundo? A resposta é óbvia: trocaram arquivos digitais dos mais diversos tipos – músicas, filmes, seriados e games, entre outros –, tanto “baixando” quanto “subindo” conteúdo em grande quantidade. E grande parte desse conteúdo é, segundo as leis atuais, ilegal.

Quer dizer que os participantes do evento merecem ser punidos? Nada disso: se você ler esta reportagem do Link verá que provavelmente, como quase todos nós, também é pirata.

Numa época em que, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), 95% dos downloads de música na internet são ilegais e a tecnologia permite copiar, subir, baixar e compartilhar arquivos pela rede, as leis continuam as mesmas do século 20: para ter acesso a um disco, filme ou livro você precisa comprar uma cópia. Se copiar ou tiver acesso sem pagar, é criminoso.

Segundo uma pesquisa da Comscore, 46% dos internautas brasileiros acessam o YouTube. De acordo com a legislação, ter acesso a conteúdo ilegal, mesmo que apenas para assistir, é crime. Então, apenas no YouTube, há muitos potenciais piratas brasileiros. Quem subir conteúdo protegido para o site pode pegar até quatro anos de prisão.

Você tem um MP3 player ou um celular que toca música? De onde vieram as músicas que estão lá? Se foi de programas do tipo P2P ou Torrent, com certeza são piratas. Mas sabia que digitalizar um CD que você mesmo comprou também é crime?

Segundo dados do Ibope/NetRatings, os downloads ilegais eram feitos por 38% dos internautas brasileiros há um ano. Hoje, são 46%. Uma pesquisa da Fecomércio-RJ aponta que apenas 5% da população não recorre à pirataria por medo de ser punida.

Toda essa situação está fazendo surgir um debate: no momento em que a maioria das pessoas está à margem da lei, de quem é o erro: das pessoas ou da lei? “Há um descompasso entre o que as pessoas fazem e o que a lei prevê”, disse ao Link Lawrence Lessig, criador das lincenças Creative Commons (leia entrevista na pág. L8).

Em praticamente todo o mundo a legislação está desatualizada, mas no Brasil a lei de direitos autorais, de 1998, é particularmente rígida. Prevê, por exemplo, que a cópia privada de material entre dispositivos eletrônicos é pirataria.

Também não é o caso de apontar o dedo para a Justiça e o meio jurídico ou os detentores de direitos autorais, sejam eles artistas ou a indústria de cultura e entretenimento. Afinal, eles precisam defender seus direitos e, para tanto, apelam para profissionais afinados com a lei em vigor.

“A pirataria nunca é benéfica, mesmo como uma resposta a um modelo comercial de formato e preço que está em xeque. Não podemos defender uma lei que exclua o direito de autor”, afirma o advogado Luiz Henrique Souza, especialista em direito digital. O consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), João Carlos Muller, é mais enfático: “As redes P2P são a desgraça dos direitos de autor”.

No meio do tiroteio está o Ministério da Cultura. Desde 2007, comissões debatem novas saídas para a lei de direito autoral brasileira. A ideia mais próxima de ser aprovada é o conceito de cópia privada, em vigor, por exemplo, nos EUA. Não resolve o problema por completo, mas é um avanço.

A questão por trás da discussão é: por que baixar arquivos? As respostas são óbvias: alto preço de CDs e DVDs, praticidade de consumir conteúdo quando quiser e ter acesso a produtos que não estão no mercado brasileiro. “Se fosse pagar por todos os álbuns que ouço, não conheceria 1% das músicas”, diz o DJ carioca Rodrigo, que admite baixar torrents a rodo – e que, como os outros exemplos de “baixadores” desta reportagem, terá o sobrenome preservado.

A realidade é mesmo complexa por ter diversos interesses em jogo. Mas tem saída, seja na lei ou no mercado. Nesta edição, o Link discute, sem hipocrisia e conservadorismo, uma questão ainda sem resposta: quando vamos deixar de ser piratas digitais?

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

A PM tem medo de manifestantes


O governo José Serra e pífio, entre outras coisas, por transformar o caos social e a miséria em política. Sua polícia militar deixou a desejar, mais uma vez, na desordem que atingiu a favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, próximo do bairro nobre do MOrumbi.

Em vez de coibir o vandalismo de bandidos que quebravam carros e depredavam imóveis, deixou tudo correr solto à espera da Tropa de Choque, que demorou uma eternbidade para chegar ao local. Enquanto isso, barricadas eram montadas com pneus e carcaças de veículos em chamas e mais veículos eram depredados.

A atuação da PM foi vergonhosa. Ficou com medo e evitou o confronto. POr quê? POrque os comandantes não confiam mais no governador, ue os largou no fogo no episódio da morte da menina Eloá PImentel, em Santo André, no ano passado. A cúpula da PM tem medo da mídia e não confiam no governador, que faz uso político da corporação e a queima quando algo dá errado.

A PM tem que entrar com tudo, quebrando tudo e passando por cima de manifestates que insistem em bloquear vias importantes. E não pode ter medo de atirar para matar vândalos.
Quem vai salvar os empregos?


Um mês de 2009 e a crise econômica promete não dar tréguas aos prefeitos que assumiram em janeiro. Se por um lado o ABCD teve a menor taxa de desemprego de sua história em dezembro, segundo a Fundação Seade, o horizonte está com nuvens pesadas para uma tempestade que promete ser longa.

Enquanto o governo federal arregaça as mangas e luta para dar incentivos ao consumo e a uma produção industrial em franca desaceleração, o governo do Estado ainda se mostra tímido. O governador José Serra (PSDB) anuncia um pacote de obras de recuperação de estradas que já estava programado - copmo se isso fosse suficiente para compensar a perda progressiva de postos de trabalho na indústria.

Uma questão que surge neste momento: o que os municípios podem fazer para amenizar os estragos da crise e segurar empregos industriais? Por mais que se tente imaginar soluções milagrosas, o fato é que os novos prefeitos terão de conviver com um período de turbulências que vai se refletir rapidamente na arrecadação de impostos.

Alguns economistas radicais neoliberais - sim, eles existem - sugerem até que os municípios retomema política de alívio fiscal, numa postura tão irresponsável quanto esdrúxula. Abrir mão de receitas fixas neste momento é alimentar uma planta carnívora, que nada dá em troca.

Os exemplos macroeconômicos são claros: o governo federal diminuiu o valor compulsório recolhido pelo Banco Central nos bancos e estes ignoraram os apelos de baixar os juros, mesmo em tempos de taxa Seelic - a taxa básisca da economia - em queda.

É o spread bancário (taxa de risco que é cobrada em cada operação de empréstimo), dizem os sabujos da Febraban, a associação dos bancos. O oportunismo nojento é claro: ao afirmar que ainda é alto o risco de calote no Brasil, os banqueiros jogam no lixo todos os avanços monetários e fiscais que o país conseguiu desde a década passada, e mais ainda a partir do governo Lula, em 2003.

Já as indústriais receberam dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e redução de alíquotas de impostos - necessárias, de qualquer forma, com ou sem crise.

Mesmo assim, não tiveram vergonha de acelerar as demissões em todos os ramos. E ainda reclamam de quem sugere condicionar a concessão de crédito e incentivos fiscais à manutenção do nível de emprego.

A lamentar apenas a falta de medidas drásticas e duras do governo federal para conter esse movimento destruidor de empregos mesmo recebendo benefícios. Já o governo estadual simplesmente ignora a questão.

Diante de um quadro desolador e cínico, como sugerir aos municípios que abram mão de receitas futuras para "ajudar" empresas em dificuldades, se estas mesmas se recusam a se comprometer em manter o nível de emprego?

Apesar da dificuldade de encontrar soluções viáveis, ainda assim está faltando debate na região. Onde estão as associações comerciais e os Ciesps (Centros da Indústria do Estado de São Paulo)? E os vereadores, será conitnuam mais preocupados com seus quintais? Será que vão se preocupar somente com as miudezas das intrigas e briguinhas por cargos em comissões ou para mostrar poderzinho em votações de regimento interno?

Mais uma vez será a imprensa a estimular e criar um debate de alto nível sobre o futuro do emprego no ABCD. E quando digo imprensa me refiro aos veículos comprometidos com a região, como o ABCD Maior, desde o primeiro dia de sua existência. Já outros, com décadas de existência, ignoram deliberadamente o assunto - comportamento histórico, diga-se de passagem.
Todos os problemas do mundo acabaram



Todos os problemas do mundo acabaram. Barack Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos e o Copom (Comitê de Política Monetária) cortou os juros em um ponto porcentual. Tudo vai ficar bem, a crise econômica deixou de existir e os empregos voltarão a surgir em profusão neste primeiro trimestre.

A sociedade brasileira tem a tendência perigosa e extremamente arrogante de simplificar ao máximo os problemas e suas pretensas soluções como forma de mascarar a realidade e fugir da responsabilidade.

O resultado imediato desse comportamento suicida é a criação de factoides e mais factoides. O mais nojento deles nesta semana foi a ameaça de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, deputado federal pelo PTB paulista e presidente da Força Sindical, de ameaçar invadir o Banco Central caso não houvesse redução da taxa básica de juros da economia, a Selic, na última quarta-feira. Além de inútil, pueril e mentirosa, a ameaça do sindicalista foi de uma irresponsabilidade imensa.

O fato é que ninguém se atreve a atacar os pontos que têm de ser atacados. Reduzir a taxa de juros é apenas um paliativo no combate à crise, que está engolindo a economia brasileira com uma voracidade impressionante. Afinal de contas, 654 mil demissões em dezembro último é muito mais do que indigesto, é perturbador.

Enquanto o governo federal se distrai com polêmicas inúteis – como a concessão de refúgio e asilo político a um terrorista italiano, por exemplo –, as supostas medidas de punição para empresas que estão demitindo mesmo após receber ajuda com dinheiro público ficam pelo caminho.

São meras palavras ao vento, assim como a suposta indignação de autoridades do Ministério da Fazenda e do Banco Central com os altos spreads bancários – espécie de comissões que os bancos cobram pelo risco de emprestar dinheiro. Afinal, como disse o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, baixar juros somente não resolve, “o problema são os spreads”. Os banqueiros ficam irritadinhos, dizem que as “coisas não são bem assim” e ignoram solenemente o Banco Central.

Os debates estéreis continuam em ritmo de marola, enquanto a realidade atropela todo mundo. E o imobilismo já contamina parte das entidades que representam os trabalhadores.
Em Jacareí, no Vale do Paraíba, em decisão extremamente preocupante que revela falta de democracia -, um sindicato filiado à central Conlutas, ligado ao radical PSTU, impede o acordo de redução de jornada de trabalho e salário numa empresa. O detalhe é que o acordo foi aprovado pelos próprios funcionários, diante do dilema monstruoso: sem a redução, a empresa fecha.

A ideologização da discussão sobre as formas de combater o desemprego teve o seu valor no início da crise. Foi importante para marcar posição e recolocar as centrais sindicais no debate.

O problema é que a realidade insistiu em passar por cima de tudo. As opções oferecidas até agora pelos trabalhadores foram rechaçadas ou ignoradas pelas empresas, tudo diante da passividade e da lentidão do governo federal e da omissão do governo estadual.

Rejeitar redução de jornada de trabalho com redução de salário é uma bandeira histórica dos sindicatos. Mas quando a base começa a entender que emprego é mais importante do que tudo e que salário de desempregado é zero, é sinal de que é preciso forçosamente perceber o que está em jogo.

Credibilidade e coerência são virtudes desejáveis, mas, dependendo do ponto de vista, podem se chocar com a realidade, emperrando a vida. E a realidade insiste em corroer conceitos históricos. Como lidar com isso?
A soliedariedade sumiu e não volta tão cedo


Em algum momento, a solidariedade desapareceu das grandes cidades brasileiras. Alguns dizem que foi no final dos anos 70 do século passado, quando as sucessivas crises econômicas brasileiras começaram a época dos índices de desemprego de dois dígitos. Outros dirão que foi no começo dos ano 80, ainda no bojo das mesmas crises, quando as favelas explodiram de vez em São Paulo e no Rio de Janeiro, inaugurando o pesadelo da violência urbana nos anos pós-ditadra militar.

Alguns esquerditas mais apressados dirão que a solidariedade desapareceu de vez nos anos 90, quando a abertura indiscriminada dos governos Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Hnrique Cardoso devastaram parques industriais e jogaram milhares de trabalhadores na informalidade e no desemprego prolongado.

O fato é que a cordialidade e a boa receptividade que os estrangeiros que nos visitam sempre elogiam nunca existiu de fato. Caso contrário, jamais permitiríamos o aumento indecoroso de mendigos na cidade de São Paulo. O endurecimento das relações pessoais nas metrópoles e nas cidades de porte médio ultrapassa qualquer sintoma de crise econômica, de pobreza ou mesmo de abjeta desigualdade de distribuição de renda.

A falta de solidariedade é sintoma de ausência de Estado, como observamos na batalha entre vândalos da comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, e a Polícia Militar. O que era uma manifestação nada legítima - já que execrava a PM por ter abordado e revidado a uma agressão de um ladrão - se transformou no grito de uma população maltratada e abandonada pela prefeitura de José Serra/Gilberto Kassab.

A baderna promovida por uma turma de vândalos ensandecidos é um sintoma de sociedade que já não está mais doente: está anestesiada. A paralisia atinge desde a PM, instrumento politiqueiro do governo estadual, que titubeou na repressão aos verdadeiros bandidos de Paraisópolis; atinge a população, que não tem para onde correr; e atinge a imprensa, onde apresentadores de TV falastrões e irresponsáveis berram por sague.

Saindo do macro e aterrissando no nosso microcosmo do ABCD, a solidariedade sumiu quando deixamos de olhar para o lado, para fora do carro. O embrutecimento atingiu níveis inimagináveis até mesmo para quem sempre participou de atividades filantrópicas. É cada vez mais comum observarmos nos semáforos de nossas sete cidades toda a sorte de pedintes e oportunistas.

Como discernir entre o que é verdade é o que é golpe? Como identificar naquela criança rota e miserável um instrumento absurdo de pais inescrupulosos? Como não desconfiar daquele rapaz forte que afirma jamais conseguir emprego e pedir dinheiro dentro dos ônibus - e que em seguida vai para o botquim tomar pinga?

No último sábado à noite, chuvoso e mal iluminado, um homem com uma criança no colo, com guarda-chuva e acompanhado por uma mulher, pedia dinheiro no semáforo do Paço Municipal de São Bernardo, em frente ao Teatro Cacilda Becker. A história o denunciava: "acabei de sair do hospital com minha filha e não tenho dinheiro para ir paracasa..."

A mesma história de sempre. Recusei o pedido de dinheiro e tive de escutar: "Tá vendo a crianã na chuva e ainda recusa ajuda. Deus tá vendo..."

Não tenho a obrigação de dar esmola - sou totalmente contra isso. Além do mais, se realmente ele estava no hospital com a filha e sem dinheiro, deveria ter procurado a assistência social da instituição - todo hospital tem uma.

Entretanto, pelo inusitado da reação, creio ter sido um sinal de alerta para que procuremos entender, de alguma forma, o temo em que vivemos em nossa cidade. A solidariedade sumiu e nada indica que nós, habitantes da metrópole, consigamos encontrá-la no médio prazo.