segunda-feira, setembro 15, 2008

Richard Wright, fundador do Pink Floyd, morre aos 65 anos


da AP e estadão.com.br

LONDRES - O fundador da banda Pink Floyd, Richard Wright, morreu nesta segunda-feira, 15, aos 65 anos, segundo informou o porta-voz do grupo. O músico lutava contra um câncer e morreu em sua casa, na Inglaterra. Segundo o porta-voz, a família não quer dar mais detalhes sobre a perda.


Wright conheceu os também membros do Pink Floyd Roger Waters e Nick Mason durante a faculdade e, juntos, eles formaram a banda Sigma 6, que se tornaria o Pink Floyd. Wright escreveu e cantou alguns dos maiores sucessos do grupo, como The Great Gig In The Sky e Us And Them, do disco The Dark Side Of The Moon, de 1973.


Pink Floyd em 1988; Wright é o da direita

Durante a gravação de The Wall (1979), Wright teve que abandonar a banda por suas diferenças irreconciliáveis com Waters. No entanto, Wright, seguiu tocando com o conjunto como músico contratado durante shows de promoção do The Wall em 1980 e 1981.



Autor de dois discos solos, Wet Dream (1978) e Broken China (1996), o músico continuou colaborando com o Pink Floyd, sobretudo após a saída de Waters da banda, em 1985.



Em 2005, o grupo formado por David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright voltou a se reunir, pela primeira vez desde 1981, para participar do show Live 8, em Londres.

sábado, setembro 13, 2008

Yes fará turnê de 40 anos de aniversários com novos vocalista e tecladista


do Whiplash


Foi divulgado no site oficial do YES o que já corria por fortes boatos. A banda (Steve Howe, Chris Squire e Alan White) fará a turnê em comemoração aos 40 anos de formação com o tecladista Oliver Wakeman (filho de Rick Wakeman) e o vocalista Benoit David, encontrado pela banda na internet.

Benoit, que atualmente está na banda de Rock Progressivo MISTERY, atuava também em uma banda cover-tributo ao YES chamada "Close To The Edge" e sua voz e timbre lembram muito Jon Anderson, o vocalista original. Jon Anderson não poderá participar da turnê devido a um severo ataque asmático que sofreu e comprometeu seu sistema respiratório.

A turnê, intitulada "In the Present", começa em 4 de novembro, em Hamilton, Ontario.
The Who, the best gets better

Vou estrear a primeira postagem de vídeo, por meio do You Tube. Vamos ver se dá certo. É simplesmente o final apoteótico do fime "The Kids All Right", uma coletânea de apresentações do Who entre 1965 e 1977. A música é a fantástica "Won't Get Fooled Again".

sexta-feira, agosto 22, 2008

Dunga é passado



Mesmo quando supostamente acrta, Dunga erra. O técnico da seleção brasileira aceitou a convocação forçada de Ronaldinho "Fantasma" Gaúcho sme condições de sequer dar voltas no campo, engoliu o desprezo pelo torneio olímpico por parte da CBF e aceitou passar vergonha em Pequim.

Seis jogos, cinco vitórias, uma derrota e medalha de bronze. Em tese o futebol masculino não fez feio, mas o que valia mesmo era o ouro. E o timinho de Dunga só enfrentou mesmo um time de verdade, e perdeu com olé. O prazo de Dunga já venceu.

Pelo fim das Olimpíadas



Brilhante a participação brasileira nos Jogos Olímpicos de Pequim. Duas medalhas de ouro faltando quatro dias para o final, com uma delegação de quase 300 atletas. A Jamaica levou dez e ganhou quatro ouros. Questão de eficiência ou puro desperdício de dinheiro público?

É inaceitável que bancos públicos financiem atletas medíocres de modalidades inexistentes. Não dá para mandar gente para o atletismo que vai ficar apenas em 50º lugar. O mesmo vale para outros esportes. Corte já de dinheiro para incompetentes e incapazes, como os vagabundos da ginástica olímpica, tão incensados pela mídia, mas que amarelam sempre. Fora com o vôlei de praia.

Na verdade, os Jogos Olímpicos não passam de um campeonato mundial de educação física. O que importa mesmo é o futebol. Masculino, bem entendido.

Lançamentos rocqueiros do segundo semestre




  • Metallica - Death Magnetic - Finlamente o Metallica começa a a sair das trevas depois do péssimo "St. Anger", de 2003. O CD sai em setembro, prometendo o peso e a qualidade que faltou no anterior. Mais informações aqui.



  • David Gilmour - Live in Gdansk 2006 - Outro subproduto da turnê "On a Island", do guitarrista do Pink Floyd. Sai em CD e DVD. Mais informações aqui.



  • Brian Wilson - That Lucky Old Sun - O ex-Beach Boys vlta mais comedido e lírico. Leia mais aqui.



  • The Law - The Law - Supergrupo de apenas um disco, lançado em 1991. Paul Rodgers (Free, bad Company, Firm, Queen) vai relançar a obra, que teve a participação de Kenney Jones (Small Faces, Faces, Who), Brian May (Queen) e David Gilmour (Pink Floyd). leia mais aqui.

  • quinta-feira, agosto 14, 2008

    Pink Floyd será tema de um cruzeiro marítimo


    do G1

    Roberto Carlos e as micaretas que se cuidem: o Pink Floyd também está nos ramos dos cruzeiros marítimos. O "Great gig in the sea" (referência a um dos clássicos da banda) levantará âncora em 2009. Durante o trajeto Miami-Bahamas, uma banda cover que diz ter sido aclamada por David Gilmour, tocará "Dark side of the moon" na íntegra.



    Ao preço mínimo de US$ 379 (cerca de R$ 615) por pessoa, o pacote de três dias inclui jogos e festas tendo a banda progressiva inglesa como tema. Marcado para maio do ano que vem, o cruzeiro foi concebido por duas empresas, uma delas a responsável pelas turnês do Pink Floyd nos EUA (e intitulada Think Floyd).



    Hits dos discos "Wish you were here", "Animals" e "The wall" também serão tocados pela banda cover.



    Mais informações sobre o cruzeiro são encontradas no site http://greatgiginthesea.com.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 9 - continuação da saga de Rubens Marujo

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se


    As bocas de rango são muito concorridas. Uma das principais é a Casa Dom Orione, que fica na rua 13 de Maio, no Bexiga. É mantida por voluntários que frequentam a igreja N.S. de Achiropita (Xeropita, para os moradores de rua).

    O roteiro é o seguinte: os albergados saem lá pelas 7h da manhã e vão tomar café lá, que é mais reforçado que o do albergue. Depois, esperam até cinco horas para almoçar, às 12h. Na Dom Orione é tudo muito bem organizado.

    Ninguém fica na rua. Todos esperam num amplo saguão, com cadeiras e televisão. Do lado de fora há tanques para lavar roupa e banheiros com chuveiros. Tudo limpinho, bastante higiênico. Para se almoçar ali é preciso pegar uma senha. Os responsáveis pela casa atendem 180 pessoas.

    Outro lugar famoso é o Refeitório Comunitário Penaforte Mendes, que fica na rua de mesmo nome, também no Bexiga. Lá é preciso se cadastrar e são atendidas cerca de 300 pessoas por dia. Ontem fui lá entrevistar alguns freqüentadores. Eles não gostam de fotografias. Têm vergonha ou medo. Apesar da insistência, não obtivemos muito sucesso para fotografá-los almoçando.

    Maloqueiro e corintiano – Denilson de Oliveira, 26 anos, havia acabado de almoçar. Mora na rua e, para sobreviver, vende pastilhas. Trabalhou durante oito anos como palhaço no circo Orlando Orfei, viajou por toda a América Latina e fala muito bem o castelhano.

    Ontem ele estava com pressa. Queria vender tudo rápido para assistir o jogo do Corinthians, à noite, no Pacaembu. Disse a ele que já havia morado num albergue e também era corintiano. Nem poderia ser diferente - disse a ele - maloqueiro é maioria na torcida do Corinthians. Ele riu.

    É verdade: jornalista, maloqueiro e corintiano. Conversamos também com Roberto Gomes, 30 anos, auxiliar de pintura. Está sobrevivendo com a venda de algodão-doce e mora no albergue Pedroso, localizado no viaduto do mesmo nome, sobre a avenida 23 de Maio.

    Mantido pela Igreja Metodista, esse albergue é bem conceituado em todos os sentidos. Por isso mesmo, conseguir uma vaga ali é difícil. "Tive sorte e me sinto bem lá", disse, enquanto aguardava a ordem para entrar na boca de rango.

    Fiz questão de passar na Casa Irmão Faria, que fica na rua Jaceguai, uma ruazinha paralela ao viaduto Jacareí. Lá, eles servem sopa, todos os dias, às 14h. Ali não é necessário pegar senha nem se cadastrar.

    Junto com o pessoal que mora na rua até o cachorro entra. E dá para repetir a sopa de legumes, doada pelo Sacolão do bairro quantas vezes for possível. Um dia, assoei o nariz com meu lenço e os meus companheiros me chamaram a atenção: "Isso não se faz à mesa", me disseram.

    O albergue mais conceituado, em todos os sentidos, é o Arsenal da Esperança. Fica no bairro da Mooca, perto da estação Bresser do metrô. Aos domingos e feriados abre as suas portas às 14h, impedindo que os moradores passem o dia inteiro na rua. O mesmo ocorre quando chove. Está equipado com duas ou três ambulâncias, tem médico e enfermeiras. Oferece vários cursos para os albergados, entre eles, de teatro. Mantém convênios com empresas que oferecem trabalhos temporários, oferece emprego para os albergados que lá residem, remunerando e fazendo registro na Carteira de Trabalho.

    O sistema de identificação digital evita a formação de enormes filas e conta ainda com quadras de futebol de salão. Todos os albergados que por lá já passaram falam muito bem dele. Eu mesmo estava pensando em me transferir para lá, caso continuasse por mais tempo tendo de morar num albergue. Era administrado por pessoas da comunidade italiana, com verbas do governo do Estado. Agora, esse albergue passou para as mãos da Prefeitura e seus moradores temem que a qualidade dos serviços oferecidos caia.

    O albergue São Camilo, administrado por religiosos que também cuidam de um hospital com o mesmo nome é menor, mas o tratamento oferecido é mais humano. O pior de todos era o São Francisco, onde fiquei. Ele foi desativado depois de 8 anos (nunca se tomou uma providência antes para tirá-lo debaixo do viaduto Jacareí). Era uma pocilga. Lembrava muito Auschwitz. Agora, funciona na Baixada do Glicério, mas continua superlotado e muito criticado por seus moradores. Encontrei com alguns deles ontem na Praça da Sé. Eles não gostam de ser identificados, com medo de serem cortados e irem de vez para a rua. Mas ainda reclamando das humilhações a que continuam sendo submetidos.

    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 8 - continuação da saga de Rubens Marujo

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se



    Bocas de Rango

    Ao contrário das pessoas que trabalham normalmente, quem mora em albergue ou na rua detesta os fins de semana, principalmente domingos e feriados. Além de ter menos gente nas ruas, a tristeza bate forte e nos obriga a refletir mais.

    Isso acontecia freqüentemente comigo. Outro grande problema é que boa parte das bocas de rango existentes pela cidade fecham. Bocas de rango são lugares que oferecem refeições gratuitas para os pobres. E é bom lembrar que, na Capital, existem dezenas delas.

    Só no Centro deve haver, aproximadamente, umas vinte. Isso incluindo pessoas que, generosamente, se dedicam à causa social, no anonimato, sem fazer alarde. Assim é, por exemplo, com a senhora japonesa que distribui café da manhã com pão e manteiga na praça da Sé, aos domingos de manhã; outro grupo de senhoras japonesas que distribui lanches no Anhangabaú; e os espíritas, que levam sopa a quem vive sob o Minhocão, além de albergues e outras casas. As que funcionam, naturalmente, são mais disputadas.

    Formam-se filas enormes. Isso acontece porque o número de moradores de rua cresce sem parar. Pouca gente sabe disso, mas da mesma forma que a polícia prende dezenas de pessoas por dia, outras saem livres. E saem em condições deploráveis.

    Jovens que cometeram pequenos delitos, mas ficaram com a ficha suja, não arrumam emprego devido aos antecedentes criminais e só lhes resta a rua para sobreviver. Vergonha – As ruas de São Paulo estão ficando cada vez mais povoadas por eles. Conheci vários e deu para perceber que, muitos, possuem boa índole.

    Trajando apenas uma bermuda e uma camiseta, exibem os pés rachados, sangrando de tanto andar à procura do que comer, do que vestir. E acabam descobrindo as bocas de rango.

    Mas há ainda famílias inteiras que são despejadas, casais com filho recém-nascido, enfim todo tipo de gente que da vida só conhece vicissitude e amargura. Confesso que muitas vezes sentia vergonha ao conversar com eles.
    Nasci em berço de ouro, tive instrução, boa educação e, acima de tudo, uma profissão. Mas estava ali disputando um lugar na fila com aquelas pessoas humildes, com pouca ou sem nenhuma instrução. Meu astral piorava diante da resignação e a força que aquelas pessoas demonstravam. Sentia-me humilhado.

    Minha mente parecia girar como um carrossel, com os seguintes dizeres: fracassado, inútil, não serve para nada. Sentia vergonha até de manchar o nome da profissão que sempre exerci. - O sr. mora em albergue? - Sim, estou morando, por quê? - Mas o sr. não tem cara de quem bebe. Por acaso o sr. é drogado? - Também não, respondia eu, sem graça. -Então o que o sr. está fazendo aqui? O sr. tem cara de doutor, fala muito bem, aqui não é lugar para o sr. - Paciência, coisas da vida. - Mas o que o sr. faz? O que aconteceu? - Sou jornalista, fui imprevidente, não fiz a lição de casa e estou aqui.

    Eu ia chorar – Esses diálogos se repetiram várias vezes nas filas das bocas de rango. Às vezes eu ia chorar. Escolhia a praça Pérola Byington, ali na avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde fica o teatro Imprensa e o Hospital da Mulher. Sentava num banco, abaixava a cabeça e chorava arrependido. - Agora, não adianta chorar, dizia para mim mesmo. Busque força para descascar o abacaxi que você mesmo plantou, falava comigo

    quarta-feira, agosto 13, 2008

    Para melhorar a discussão, uma opinião contrária a respeito do diploma para o jornalismo


    A obrigatoriedade do diploma avilta o jornalismo

    por Maurício Tuffani, do blog Laudas Críticas


    A formação superior em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para o exercício dessa profissão com base em seus preceitos técnicos e éticos. Ela não é obrigatória em países como Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e em vários outros.

    A concepção que vigora na maior parte desses países é a de que não pode haver impedimentos para qualquer cidadão não só ingressar no jornalismo, mas até mesmo criar e manter seu próprio jornal. Na contramão desse princípio estão, além do Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia, que exigem o diploma.

    É por isso que Claude-Jean Bertrand, professor da Universidade de Paris II, afirma em seu livro A Deontologia das Mídias, de 1997: “A excepcionalidade de que goza o jornalismo, dentre as instituições democráticas, consiste em que seu poder não repousa num contrato social, numa delegação do povo por eleição ou por nomeação com diploma ou por voto de uma lei impondo normas. Para manter seu prestígio, e sua independência, a mídia precisa compenetrar-se de sua responsabilidade primordial: servir bem à população.”

    Haveria um mínimo de razoabilidade para a exigência do diploma se ela, por exemplo, valorizasse a profissão. Ao invés disso, ela levou justamente ao seu aviltamento, pois estimulou a criação desenfreada de cursos superiores de jornalismo, que por sua vez gerou um efeito perverso e crônico na relação entre oferta e procura de trabalho, sem falar na baixa qualidade do ensino oferecido.

    Em junho de 2005, havia 35.322 jornalistas com carteira assinada no Brasil, segundo dados da RAIS apresentados pelo próprio Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Nesse mesmo ano, foram diplomados 28.185 alunos pelos 497 cursos superiores em jornalismo, nos quais ingressaram 47.390 alunos, de acordo com o Censo da Educação Superior. Supondo por baixo que os contratados pela CLT sejam um terço do total de profissionais em atividade, bastariam menos de quatro “fornadas” anuais para ocupar todo o mercado de trabalho. Na Itália, cuja população é um terço da brasileira, em 2005 havia 12 cursos de graduação em jornalismo.

    Os cursos superiores de jornalismo do Brasil deveriam ser o que eles são em outros países: um diferencial na formação de profissionais. Para isso, é necessário o fim dessa obrigatoriedade estabelecida pelo decreto-lei 972, de 1969, que não foi assinado por nenhum presidente, mas pela junta militar que governou o Brasil com o Congresso Nacional em recesso, e cujo texto não se ampara em nenhuma constituição ou lei, mas somente no AI-5 e no AI-16.

    De novo em defesa da obrigatoriedade do diploma para o jornalismo


    Volto ao tema porque o STF (supremo Tribunal Federal) deve julgar em breve a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. A obrigatoriedade do diploma está diretamente ligada à regulamentação da profissão. Sem regulamentação, vira terra de ninguém, com modelos virando "jornalistas" e vagabundos diversos querendo o MTB apenas para de beneficiar eventualmente de algumas "benesses" que as carteiras supostamente oferecem.


    Infelizmente, muita gente que eventualmente não tem diploma mas que poderia se tornar jornalista é prejudicada. Paciência, mas as exceções não podem prevalecer, senão não existe mais regra. A exigência do diploma disciplina e regula uma profissão que é frequentemente objeto de cobiça e vilipêndio.


    Pode até não proteger e nem garantir qualidade, mas é o mínimo que a categoria conseguiu para obter um mínimo de respeito e benefícios. Se com a profissão regulamentada os salários caíram e os calotes aumentaram, imaginemos como seria sem a regulamentação.

    A profissão tem uma regulamentação, ainda que esteja sendo atacada e precarizada. E mesmo assim as redações estão lotadas de estagiários, que trabalham de graça, assim como "profissionais" sem diploma trabalhando de graça em jornais do interior.


    Sem a regulamentação, as empresas substituirão com mais voracidade mão-de-obra qualificada por trabalhadores precários em todos os sentidos - intelectual, cultural e legalmente.


    Defendo a exigência do diploma e a importância das faculdades de nossa área, por pior que sejam. É uma forma de garantir (um pouco de) dignidade à nossa profissão e, em tese, mais qualidade na difusão da informação. Os argumentos da promotora são frágeis e genéricos e afrontam a legislação em vigor.


    Os mesmos argumentos que servem para tornar a exigência "inconstitucional" também servem para o contrário. Da mesma forma que não existe advogado sem diploma e sem OAB, defendo que não exista jornalista sem diploma e, no futuro, sem "OAJ" ou CFJ.

    quinta-feira, agosto 07, 2008

    Acredite se quiser...


    Retirado do blog de Juca Kfouri


    Processo No 2008.211.010323- 6

    TJ/RJ - 06/08/2008 15:06:31 - Primeira instância - Distribuído em 11/07/2008


    Regional da Pavuna

    Cartório do 25º Juizado Especial Cível


    AUTOS N.º 2008.211.010323- 6

    RECLAMANTE: CARLOS ALMIR DA SILVA BAPTISTA

    RECLAMADO: JORNAL MEIA HORA DE NOTÍCIAS


    SENTENÇA


    Dispensado o relatório, nos termos do artigo 38 da Lei 9.099/95.

    Primeiro registro que é absolutamente incrível que o Estado seja colocado a trabalhar e gastar dinheiro com uma demanda como a presente, mas... ossos do ofício!

    Ressalto, desde já, estarem presentes todos os pressupostos de regular desenvolvimento do processo e as condições para o legítimo exercício da ação. O autor é capaz e está bem representado, o juízo é competente e a demanda está regularmente formada. As partes são legítimas, há interesse de agir, já que a medida é útil na medida em que trará benefício ao autor, necessária, já que sem a intervenção judicial não poderia ser alcançado o que se pede, e o pedido, por sua vez, é juridicamente possível, tratando-se de compensação por dano moral e pedido de retratação. O que não existe nem de longe é direito a proteger a absurda pretensão do reclamante. A questão é de direito e de mérito e assim será resolvida evitando-se maiores delongas com esse desperdício de tempo e dinheiro do Estado.

    O reclamante, cujo time foi derrotado na final da Libertadores, sentiu-se ofendido com matérias publicadas pelo jornal reclamado, que, segundo ele, ridicularizavam os torcedores, incitavam a violência e traziam propaganda enganosa.

    As matérias, no entanto, são apenas publicações das diversas gozações perpetradas pelas demais torcidas do Estado em razão da derrota do time do reclamante. Tais gozações são normais, esperadas e certas de vir sempre que um time perde qualquer partida, quanto mais um título importante que o técnico, jogadores e torcedores afirmavam certo e não veio. Mais. As gozações são inerentes à existência do futebol, de modo que sem elas este não existiria porque muito de sua graça estaria perdida se um torcedor não pudesse debochar livremente dos outros.

    É certo que o reclamante "zoou" os torcedores de outros times da cidade em razão de derrotas vergonhosas na mesma competição em que seu time foi derrotado, em razão de um dirigente fanfarrão ou em razão de uma choradeira com renúncia, e nem por isso pode o mesmo ser processado. Ressalto que se o reclamante viu tudo isso e ficou quietinho, sem mangar de ninguém e sem se acabar de rir, – não ficou, mas utilizo-me dessa (im)possibilidade para aumentar a argumentação – deve procurar outros esportes para torcer, porque futebol sem deboche não dá!

    Ainda que a matéria fosse elaborada pelo jornal reclamado, é possível à linha editorial ter um time para o qual torcer e, em conseqüência lógica de tal fato, praticar "zoações", o que, em se tratando de futebol, é algo necessário e salutar à existência do esporte. Registro que há jornais que não só têm a linha editorial apoiando um ou outro clube, como há os que são criados pelos torcedores para, dentre outras coisas, escarnecer os rivais, o que é perfeitamente viável.

    Evidente, por todo o ângulo em que se olhe, que não há a menor condição de existir a mínima lesão que seja a qualquer bem da personalidade do reclamante. "Zoação" é algo inerente a qualquer um que escolha torcer por um time de futebol e vem junto com a escolha deste. O aborrecimento decorrente do deboche alheio é inerente à escolha de uma equipe para torcer e, portanto, não gera dano moral, ainda que uma pessoa, por excesso de sensibilidade, se sinta ofendida e ridicularizada.

    Continua o reclamante na sua petição afirmando que o reclamado incita a violência com sua conduta. É engraçado, porque o próprio reclamante afirma que teve que dar explicações à diretoria de seu local de trabalho em razão de desavenças com seus colegas. A inicial não é clara neste ponto, mas se houve briga em razão do reclamante não aceitar as gozações fica ainda mais evidente que o mesmo deve escolher outro esporte para emprestar sua torcida, porque, como já dito, futebol sem deboche, não dá! E o que é pior! O reclamante, se brigou, discutiu ou se desentendeu foi porque quis, porque é de sua vontade e de sua índole e não porque houve uma publicação em jornal. Em momento algum o jornal sugere que haja briga, o que só ocorre em razão de eventual intolerância de quem briga, discute ou se desentende.

    Por fim, o argumento mais surreal! A propaganda enganosa! Chega a ser inacreditável, mas o reclamante afirma que houve propaganda enganosa porque na capa do jornal há um chamado dizendo existir um pôster do seu time rumo ao mundial, mas no interior a página está com "uma foto com os jogadores (...) indo em direção a uma rede de supermercados". Ora, e a que outro mundial o time do reclamante poderia ir se perdeu o título da Libertadores? Qualquer um que leia a reportagem, inclusive toda a torcida de tal time e em especial o reclamante, sabe, por óbvio, que jamais poderia existir foto da equipe indo à disputa do título mundial no Japão, porque isso nunca ocorreu.

    A pretensão é tão absurda que para afastá-la a sentença precisaria apenas de uma frase: "Meu Deus, a que ponto nós chegamos??!! !", ou "Eu não acredito!!!" ou uma simples grunhido: "hum, hum", seguido do dispositivo de improcedência.

    É difícil encontrar nos livros de direito um conceito preciso do que seria uma lide temerária, mas esta, caso chegue ao conhecimento de algum doutrinador, será utilizada como exemplo clássico para ajudar na conceituação.

    O reclamante é litigante de má-fé por formular pretensão destituída de qualquer fundamento, utilizar-se do processo para conseguir objetivo ilegal, qual seja, ser compensado por dano inexistente, além de proceder de modo temerário ao ajuizar ação sabendo que não tem razão e cuja vitória jamais, em tempo algum, poderá alcançar.

    Isto posto, JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO.

    Condeno o reclamante como litigante de má-fé ao pagamento das custas, nos termos do caput do artigo 55 da Lei 9.099/95.

    Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

    Após as formalidades legais, dê-se baixa e arquivem-se.

    Rio de Janeiro-RJ, 31 de julho de 2008.

    José de Arimatéia Beserra Macedo

    Juiz de Direito
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 7 - continuação da saga de Rubens Marujo

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se

    Monopólio da Igreja – Depois disso tudo, cheguei à conclusão de que deve existir "uma indústria da miséria". Em São Paulo, o monopólio dos moradores de rua está nas mãos da Igreja. Ela usa a verba da Prefeitura, mas gasta muito pouco na melhoria dos serviços do albergue.

    Na época em que se chamava Cireneu (nome de um empresário ligado ao grupo Copagaz) a coisa era ruim, mas só aceitavam pessoas com mais de 40 anos. Depois que a Igreja assumiu o albergue, abriu as portas para todo mundo. Então, jovens, líderes de facções criminosas, assaltantes e até traficantes passaram a almoçar e morar lá. Eram comuns os princípios de tumulto.

    "Muquiranas" – Para se conseguir almoçar era preciso esperar, em média, 3 horas, debaixo de chuva ou de sol. Os padres se recusavam a abrir os portões para que pudéssemos entrar e nos abrigar. Um papel colado na parede interna do dormitório indicava que a dedetização estava vencida havia 3 meses. Os dormitórios ficavam infestados de baratas e de outros insetos, principalmente de "muquiranas", uma espécie de piolho que dá no corpo de quem não toma banho, produzindo uma coceira insuportável. É muito fácil ficar infestado. São os moradores de rua que os trazem.

    Com auto-estima muito baixa, mas com alguma dignidade, suportávamos todo tipo de humilhação que nos era imposta, com medo de sofrer represálias: ser cortado e ir para rua. Era fila para entrar, fila para pegar alguma roupa no bagageiro, fila para tomar banho (quando os chuveiros funcionavam) e fila para jantar. Não adiantava muito tomar banho, porque éramos obrigados a vestir a mesma roupa, que cheirava mal.

    Vícios – Pude constatar que a maioria dos albergados já está, de alguma forma, mentalmente comprometida com os vícios adquiridos e não existe uma política específica para tratar dessa questão social. Não há tratamento diferenciado para cada tipo de problema, curso técnico, suporte jurídico, assistência médica. Enfim, não há nada. Entra-se no final da tarde, só toma banho quem quer, dorme-se e, às 5h da manhã, todo mundo acorda.

    No café da manhã é servido um pão (de hot-dog) com manteiga e café com leite de soja (mais dor de barriga em todo mundo). Depois, dez horas passadas na rua. Essa é a rotina. Do jeito que funcionam, esses albergues não contribuem para nada. Dali, a maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Poucos trabalham ou fazem bicos. Estão todos abaixo da linha da pobreza. Dificilmente conseguem se reintegrar à sociedade.

    Chá com política – Quem mora em albergue ou pelas ruas da cidade conhece muito bem o que é uma "boca de rango". É aquele lugar que oferece comida de graça aos pobres. Em São Paulo existem várias delas e uma das mais conhecidas, e bastante freqüentada, é a do "chá do padre". De segunda a sexta-feira, as 14h, a igreja de São Francisco, com entrada pela rua Riachuelo, oferece chá com dois pãezinhos com manteiga. O salão fica lotado e é nessa hora que os religiosos aproveitam para fazer suas pregações políticas, incitando os moradores de rua e albergados a se organizarem em movimentos políticos para reivindicar seus direitos junto ao governo. Até um terceiro mandato do Lula já foi questionado lá.

    Quando não é no chá, essa doutrinação política é feita nos albergues, por meio das assistentes sociais. Mas os albergados são avessos a esses movimentos. As assistentes sociais também convocaram todo mundo para protestar no dia 1º de Maio, a pedido da Igreja. Disseram que era importante a presença dos albergados nessas manifestações. A Igreja mandou confeccionar vários cartazes e distribuíram farto material para que fossem feitas faixas e cartazes. Todos deveriam estar reunidos na praça da Sé. Mas ninguém deu a menor importância a isso.

    A Prefeitura, por sua vez, faz propaganda enganosa, espalhando pelas principais praças da cidade peruas Kombi azuladas, com os dizeres "São Paulo Protege". Existem cerca de 13 mil moradores de rua em São Paulo, mas só a metade deles mora em albergue. Essas peruas só recolhem as pessoas da rua no final da tarde. E nem sempre existem vagas nos albergues. Cheguei a ver gente entrando às 2h da manhã para sair logo depois, às 5 horas."
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 6

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se

    Sem camas – Um dia, com princípio de pneumonia, pedi para ficar lá dentro, pois chovia e fazia frio. Me sentia muito mal. Solicitei a um dos monitores que me deixasse ficar e ouvi:

    "Não enche o saco, meu. Você não sabe que os padres não querem ninguém aqui dentro? Vá embora".

    No dia seguinte, muito mal, me escondi na biblioteca e não saí. Era começo de maio, fazia um frio insuportável. Foi então que presenciei uma cena lamentável: o coordenador dos franciscanos dentro do albergue mandou retirar centenas de camas (são beliches) do dormitório para colocá-las nos porões daquele fétido lugar. Ele dizia aos outros monitores: "Quanto menos camas, melhor. Agora vem o frio, a Prefeitura vai querer mandar mais gente para cá e, desse jeito, podemos dizer que não há lugar". Depois, espaçou as camas que restaram para dar a impressão de que não havia mais lugar.

    Indústria da miséria – Do jeito que funcionam, os albergues não contribuem para nada. A maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Dificilmente conseguem se reintegrar.

    No albergue São Francisco, que funcionava sob o viaduto Jaceguai, muitos dos idosos que lá dormiam não conseguiam mais fazer suas necessidades fisiológicas no banheiro. E sujavam na roupa, na cama, no chão. Não havia fralda geriátrica para eles.

    Muitas vezes vi albergados mais novos ajudando os mais velhos a tomar banho. Vi vários deles caídos no chão, pedindo ajuda. O pior de tudo é que o albergue São Francisco foi desativado, mas na baixada do Glicério (seu novo endereço) a situação continua a mesma, segundo relatos dos albergados que foram removidos para lá. Outros foram encaminhados para um hotel social (a Prefeitura o chama de Centro de Recolhimento), na rua Francisca Michelina, na região central da cidade. A comida é razoável, mas costuma provocar indisposições estomacais.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 5

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se



    "Sentiam prazer em nos humilhar" (Segundo capítulo da série)

    Nesta segunda reportagem, Marujo conta sua dura experiência de três meses num albergue da Prefeitura, onde a Igreja mostrou sua face mais intolerante. Durante o dia, nas ruas e praças. À noite, refúgio nos albergues municipais. Segundo ele, moradores de rua e desempregados são humilhados e usados como massa de manobra por religiosos. Segue o texto.

    “Morei ali no albergue São Francisco, que ficava na esquina da rua Santo Amaro, com o viaduto Jacareí, bem em frente à Câmara Municipal de São Paulo. Ele foi desativado há 15 dias, da noite para o dia, por força de um abaixo-assinado dos moradores, pois o local se transformou em um ponto de albergados e marginais de todo o tipo, e retornou para a baixada do Glicério que estava sendo fechado. Antes o São Francisco chama-se Cireneu e era administrado por uma Ong de quinta categoria, com verba liberada pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social.

    Pois bem. Em abril, os padres franciscanos assumiram o comando do albergue e o que era ruim ficou pior. Acho muito estranho que o padre Júlio Lancelotti e outros religiosos liderem uma passeata com moradores de rua, usando albergados como massa de manobra para conseguir, talvez, mais recursos da Prefeitura.

    Maus tratos – Ali , no albergue São Francisco, os padres, que zelam tanto pela fraternidade, tratavam os albergados de forma desumana. Éramos mais de 400 pessoas amontoadas num imenso porão-dormitório sujo, que alagava quando chovia. Era um depósito de seres humanos, com um cheiro insuportável. Senhores com mais de 80 anos misturavam-se a jovens alcoólatras, drogados, crianças, mulheres, deficientes físicos e mentais, tuberculosos, portadores do vírus da aids, ex-presidiários e outros ainda cumprindo pena condicional, sem nenhum tipo de assistência.

    Aquilo se assemelhava mais a um campo de concentração nazista. Durante cinco anos, o albergue funcionou ali, debaixo do viaduto, sob um estridente barulho, o "dum-dum" dos veículos que passam pelas emendas sobre o viaduto. Esse incômodo barulho martelava nossos ouvidos a noite toda. Nunca se tomou uma providência.

    Com raríssimas exceções, os monitores, contratados pela igreja sem a mínima qualificação profissional, sentiam prazer em nos humilhar, deixando-nos na fila, debaixo de chuva e frio, à espera da hora de entrar. As regras são draconianas. Entra-se após às 17h30 e acorda-se às 5h. Até as 7h, todos têm que ir para a rua, inclusive aos domingos e feriados. As assistentes sociais explicavam que eram ordens da Prefeitura e não podiam fazer nada. Assim, todos, até mesmo as senhoras e outras pessoas com idade avançada tinham de sair, fizesse sol ou chuva.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 4

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se


    Ano todo – Ele funciona assim: um outro agenciador alicia, de uma só vez, albergados ou desempregados que têm RG limpo. Nesse caso, ele precisa formar um grupo de dez a vinte pessoas. O aliciador leva os RGs, tira cópias e os devolve aos proprietários mediante o pagamento de R$ 10. Só que esses RGs serão usados o ano inteiro para a prática dessas operações de câmbio ilegais.

    Bem, eu fui para o Hotel Renaissance. O esquema, porém, conta com casas de câmbio alternativas, em shoppings como o Anália Franco, o Center Paulista, o Interlagos e o Shopping Light. Além desses locais, as operações de lavagem de dinheiro também são feitas em algumas casas de câmbio localizadas no Centro da cidade, como por exemplo nas avenidas São Luís e Paulista.

    Outros Golpes – Mas não é todo dia que acontecem as operações de lavagem de dinheiro. Quando não tem negócio para fazer, o aliciador, já conhecido dos freqüentadores, diz que "a barra tá suja" e que a polícia está dando em cima. Fiquei sabendo que, às vezes, para confundir os policiais, o esquema é feito dentro da estação Sé do metrô, bem em frente às catracas. Na região da rua 25 de Março existem vários outros locais de lavagem de dinheiro. Entretanto, outros golpes são aplicados ou tramados nas adjacências. Um deles, muito conhecido dos malandros, é o do aluguel da conta bancária.

    Ouvi comentários e perguntei do que se tratava:

    "O senhor é albergado"?

    "Sim", respondi.

    "Tem conta bancária"?

    "Não".

    "Então, tá fora".

    É claro que eu não iria participar desses golpes sujos. Mas como repórter-albergado sentia curiosidade de saber como agiam. Diante de minha insistência em saber o que era, o rapaz me contou.

    "O negócio é o seguinte: a gente rouba dinheiro de uma conta bancária, ou das pessoas, e não têm onde colocá-lo. Então, 'alugamos' uma conta-corrente. Por isso perguntei se o senhor tinha uma conta. Colocamos a grana lá. Depois, sacamos o dinheiro e o senhor ficaria com 20% do valor depositado. Esse é o esquema".

    Falsificação – Aí fui percebendo que as escadarias do Teatro Municipal se transformaram num grande ponto de golpes e outras contravenções, apesar da constante e ostensiva presença da polícia. Descobri também que há quem "esquente" Carteiras de Trabalho. Isso significa que quem tem carteira, mas nunca trabalhou, ganha uma série de registros falsos, como se já tivesse trabalhado há muito tempo. Outros querem levantar dinheiro para comprar um computador, a fim de falsificar dólares e outros documentos. Nesse tipo de fraude, pelas conversas que ouvi, a concorrência é grande: um se diz melhor falsificador do que o outro. E há vários outros tipos de golpes tramados e executados ali mesmo, nas escadarias do Teatro Municipal.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 3

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se

    Chá quente – No hotel, eu e o outro colega estávamos com a barba por fazer, mal vestidos e mal cheirosos. Entramos assim mesmo, sem que ninguém nos perguntasse quem éramos. A moça foi conversar com o funcionário do câmbio. Pediu que entrássemos e esperamos para ser atendidos, sentados em confortáveis poltronas. Numa delas havia uma mesinha com um bule de chá quente, que algum hóspede deixara ali. Meu amigo não hesitou em tomá-lo. Fomos chamados. Na minha vez, o funcionário da casa de câmbio solicitou o CPF e o RG. Tirou uma cópia e, antes de completar a operação, fez uma ligação telefônica.

    "Alô, agora não posso mais fazer a R$ 1,77, só a R$ 1,78. Pode ser? Então vou fechar o negócio", afirmou.

    Em seguida, imprimiu um papel numa máquina, tirou cópia dos documentos e me pediu endereço com CEP. Inventei um na hora, porque não fui avisado de que me faria tal pedido. Mas ele aceitou minha resposta. Negócio fechado. Devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro. O funcionário fez a mesma coisa com o outro rapaz e fomos embora. Na porta de saída do hotel, a moça que nos acompanhava nos deu os R$ 15 mais o dinheiro da condução e fomos embora.

    É bom que se esclareça que esse tipo de operação é permitida. O Banco Central autoriza que cada pessoa possa comprar, vender ou remeter até US$ 5 mil por mês. Mas no caso em questão, os doleiros e seus agentes que agem no Centro da cidade aliciam dezenas de albergados para a lavagem de dinheiro sujo. Não se sabe se ele vem de contrabando, tráfico de drogas, de desvios de recursos ou do crime organizado. Muitos albergados já fizeram essa operação mais de uma dúzia de vezes. O esquema é antigo e tão bem montado que existe até uma alternativa para quem não tem CPF.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 2

    Eduardo Ribeiro(*)
    da coluna Jornalistas e Cia, publicada no site Comunique-se

    Segue o texto de Marujo (1º capítulo da série)

    “O esquema é sofisticado e participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Negócio fechado. Eu devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro.

    Todos os dias, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo e arredores, bem no Centro da cidade, funciona um esquema muito bem planejado de lavagem de dinheiro sujo, patrocinado por grandes casas de câmbio.

    Essas operações são feitas quase o dia todo, mas os horários de pico ocorrem às 11h30 e às 13h30, quando homens agenciados por doleiros aliciam pessoas, na sua maioria albergados, que ficam ali sentados. Esses aliciadores ficam à espera de uma oportunidade para comprar, vender ou fazer remessas de dólares para o Exterior, pagando a cada albergado a desprezível quantia de R$ 15. Como esses albergados não têm dinheiro nem para um cafezinho, se sujeitam a esse tipo de prática, atuando como laranjas.

    O esquema é sofisticado. Eu mesmo participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Não tinha almoçado, estava com fome, então, me deram a dica. Ainda permanecia bem vivo o meu faro de jornalista.

    A operação – Eram quase 14h de uma ensolarada segunda-feira. Fui para a escadaria e, minutos depois, apareceu um homem me perguntando se meu CPF era limpo. Limpo, no caso, significa não ter pendências na Receita Federal. É possível ter o nome sujo na praça, mas um CPF em dia. Além disso, ele perguntou se eu tinha RG e se estava tudo correto. Respondi que sim.

    "Então, tudo ok", afirmou.

    Fui aprovado para fazer a operação. Nas escadarias do Municipal opera-se, principalmente, para três casas de câmbio: Light, Turismo Dez e Brasileiro. Com esta última é mais difícil, porque ela exige comprovante de residência. Mas há quem venda esse documento no local.

    Junto comigo, havia outro albergado que, como eu, estava morrendo de fome. O aliciador pediu que acompanhássemos uma moça grávida (sua irmã) até a região dos Jardins. Até então, não sabíamos exatamente o nosso destino. Nós três pegamos um ônibus (a passagem ela pagou) e descemos na rua Augusta, quase esquina com a alameda Santos. Chegando lá, ela nos contou que deveríamos ir à casa de câmbio que funciona dentro do luxuosíssimo Hotel Renaissance para efetuar a operação com dólares.
    O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu - parte 1

    Eduardo Ribeiro
    da coluna Jornalistas e Cia, do site Comunique-se


    Ele perdeu tudo o que tinha na vida, inclusive a esperança de viver. Sofreu todos os tipos de humilhação, passou frio e fome, viveu da caridade organizada e nem tão filantrópica assim, perambulou por aí sem lenço e sem documento, tendo as ruas de São Paulo como moradia.

    Mas viu muita coisa errada, outras um tanto suspeitas e foi testemunha de uma das ações mais calhordas que alguém minimamente comprometido com a integridade humana pode aceitar: o uso dos miseráveis para promover lavagem de dinheiro, a céu aberto, no centro de São Paulo, nas barbas da polícia.

    Humilhado mas com o faro jornalístico apurado, ele também viu miseráveis serem usados como massa de manobra da igreja, que tem se valido do rebanho de desamparados para ter acesso a verbas públicas generosas e também para encorpar movimentos políticos com gente que sequer sabe o que está fazendo.

    Rubens Ferreira Marujo, 57 anos, é seu nome e sua história já esteve aqui presente na coluna de 14 de maio, sob o título Sem lenço sem documento e a rua como moradia, que teve imensa repercussão.

    Marujo deixou as ruas, mora hoje num pequeno apartamento no centro de São Paulo e após algumas semanas frilando para o Diário do Comércio foi contratado como repórter de Política para cobrir a temporada de eleições que vem por aí. Voltou a ser um cidadão. Ironia do destino, a história da qual foi personagem transformou-se em reportagens para o próprio DC.

    As duas primeiras, publicadas respectivamente nas edições de segunda e terça-feira desta semana, estão reproduzidos na íntegra a seguir, autorizadas que foram pelo diretor de Redação do jornal, Moisés Rabinovici, e obviamente pelo autor.

    Nelas Marujo conta o que viu e o que viveu, ao lado de centenas de outros moradores de rua, os quais, além do abandono da sorte, sofrem também com os ataques oportunistas de quem, por incrível que pareça, se propõe a tirar vantagem da miséria.

    O título da primeira matéria é “Albergado é usado para lavar dinheiro”. A abertura destaca: “Só quem viveu um drama para saber relatá-lo com fidelidade. Durante três meses, o jornalista Rubens Marujo teve de viver em um albergue da Prefeitura.

    Uma dura experiência de vida, que lhe trouxe uma visão crua, mas privilegiada da cidade e dos esquemas ilegais que perseguem albergados, desempregados e moradores de rua. Difícil imaginar que aquelas pessoas maltratadas que passam os dias sentadas nas escadarias do Teatro Municipal, no Centro de São Paulo, são usadas como laranjas num amplo esquema de lavagem de dinheiro.

    Aliciadores agenciados por doleiros se aproveitam da fragilidade social, emocional e financeira de albergados para, com seus documentos, comprar dólares em casas de câmbio espalhadas por hotéis e shoppings. Por ceder seus documentos, os albergados recebem R$ 15. Tudo isso acontece à luz do dia, todos os dias.”

    terça-feira, junho 17, 2008

    Nós sempre lembraremos



    Um pouco de nostalgia... a letra abaixo é de "Requiem", do álbum "Solid Ball of Rock" (1990), uma das melhores músicas do Saxon, banda inglesa de heavy metal, e uma das mais legais músicas de rock já escritas. Ela foi escrita em homenagem a Bon Scott (AC/DC), John Bonham (Led Zeppelin), Phil Lynott (Thin Lizzy), Keith Moon (Who), John Entwistle (Who), Brian Jones (Rolling Stones), Freddie Mercury (Queen), Jim Morrison (Doors), Janis Joplin, David Byron e Gary Thain (Uriah Heep), John Lennon e George Harrison (Beatles), Mama Cass Elliot (Mamas and the Papas), Dennis Wilson (Beach Boys), Steve Marriot e Ronnie Lane (Small Faces), John Glascock (Jethro Tull), Dee Dee e Joey Ramone...





    Requiem (We Will Remember)



    Written By : Byford/Oliver/Carter/Glockler






    Somewhere in the night a candle burns for you/
    The eternal flame the light keeps shining on/
    Your music is immortal it stood the test of time/
    You're gone but not forgotten, you walk with us/





    We will remember/
    They were born to rock 'n' roll/
    We will remember/
    Woah-oh/





    This song's a celebration of what you gave to us/
    The legacy you left still marches on/
    But still they play your music all around the world/
    Blasting through the airwaves to the stars/





    We will remember/
    They were born to rock 'n' roll/
    We will remember/
    Woah-oh/





    From London to Chicago/
    From the mountains to the sea/
    The legacy you left will never die/





    We will remember/
    They were born to rock 'n' roll/
    We will remember/
    Woah-oh/





    We will remember/
    They were born to rock 'n' roll/
    We will remember/
    Woah-oh/





    From London to Chicago/
    From the mountains to the sea/





    We will remember/
    They were born to rock 'n' roll/
    We will remember/
    Woah-oh/





    (Repeat to end)/