quinta-feira, setembro 08, 2011

Versões nacionais de lançamentos internacionais



Um grande presente para quem gosta de rock. O selo paulistano CD&DVD Factory adquiriu os direitos para lançar, em edições nacionais, CDs e DVDs recém-lançados ou que estão prestes a ser lançados na Europa e nos Estados Unidos. É hard rock e classic rock de altíssima qualidade.

A joia do pacote é “Live at Donington 1990”, do Whitesnake, a grande apresentação ao vivo da banda no festival Monsters of Rock daquele ano tendo Steve Vai e Adrian Vandenberg nas guitarras.

Um dos shows piratas mais procurados por fãs desde a época de seu lançamento, essa apresentação é histórica porque é a coroação de um momento de extremo sucesso da banda, que então divulgava o álbum “Slip of the Tongue”, do ano anterior.

É histórica também porque marcou o primeiro fim do Whitesnake meses depois, quando David Coverdale, o vocalista e dono do empreendimento, decidiu partir para uma parceria com Jimmy Page, ex-guitarrista do Led Zeppelin, no projeto Coverdale-Page, que durou apenas um álbum.

Para o lançamento, provavelmente em agosto, haverá uma edição especial, uma caixa com o CD duplo e o DVD, mas será apenas na primeira tiragem. Em seguida os produtos serão vendidos separadamente.

“Somos um selo independente e estamos apostando na qualidade musical de nossas aquisições, e é nossa meta continuarmos a trazer para o país trabalhos deste nível. É de extrema importância para o sucesso deste empreendimento e também para que uma empresa genuinamente nacional possa despontar e afirmar-se no cenário musical, que já existe um predomínio das grandes majors”, diz Márcio Silveira Reginnette, um dos diretores da CD&DVD Factory.

A segunda joia do pacote é “Fly From Here”, do Yes, gigante do rock progressivo britânico que lança um novo trabalho com músicas inéditas após dez anos – o último foi “Magnification”.

É um trabalho de boa qualidade, mas que vai causar polêmica, já que o vocalista Jon Anderson, um dos fundadores, já não está na banda desde 2008, quando adoeceu e foi substituído sem muita cerimônia pelo cantor canadense Benoit David, que integrava uma banda cover do próprio Yes.

Outra novidade na formação é a presença de Oliver Wakeman nos teclados. Ele é um dos filhos de Rick Wakeman, que fez parte do Yes em sua formação clássica, nos álbuns “Fragile” (1971) e “Close to the Edge” (1972).

Rick participou de várias turnês e álbuns desde 1991, quando o álbum “Union” reuniu oito dos integrantes que passaram pela banda. Entretanto, por questões de remuneração e de solidariedade a Anderson, não quis participar da reunião da banda para comemorar os 40 anos de fundação, em 2008. Surpreendentemente, seu filho mais velho, Oliver, foi convidado e aceitou substituir o pai.

“Mirror Ball – Live & More” é o mais novo álbum do Def Leppard, outro gigante do hard rock inglês. Duplo, traz gravações ao vivo das duas últimas turnês mundiais que a banda realizou. A edição brasileira será caprichada, com encarte muito bem feito. Também foram incluídas três músicas inéditas de estúdio, gravadas recentemente: A banda também acrescentou três novas faixas de estúdio: “Invicto”, “It’s About Believin” e “Kings of the World”.

A última pérola do pacotão da CD&DVD Factory é o mais recente trabalho de estúdio da banda norte-americana Journey, “Eclipse”, recém-lançado na Europa e nos Estados Unidos. A versão nacional também terá uma edição caprichada.

“Eu estou apaixonado por este disco”, diz o membro fundador e guitarrista Neal Schon. “É um disco de rock e sons incríveis, um grande disco que traz toda a energia do palco para dentro do estúdio”, disse o músico no material promocional distribuído pela excelente gravadora italiana Frontiers Records.

A banda, entretanto, não conta mais com Steve Perry, o vocalista que mais teve sucesso com o grupo e que cantou no Journey até meados dos anos 80. Recentemente, o vocalista Jeff Scott Soto (ex-Yngwie Malmsteen e Talisman, entre outros), foi substituído pelo filipino Arnel Piñeda.

Todos os lançamentos estão programados para chegar às lojas em agosto.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Bootleg x pirataria: a diferença nem é tão grande assim



Bootleg não é pirataria. É comum vermos essa frase ser usada em diversos fóruns na internet e até mesmo em congressos de fãs de determinada banda como justificativa para a disseminação de conteúdo artístico e/ou intelectual sem a devida autorização do autor ou detentor dos direitos.

Os melhores argmentos de quem defende o bootleg são fracos: “não trazem prejupizo a ninguém” e “ajuda a divulgar o nome do artista, seja em qual ambiente for”. Pura balela.

A divulgação de material não autorizado, em última instância, lesa o artista na medida em que. obviamente, ele não recebe nada pela divulgação/disseminação; e também causa lesão ao permitir que material de qualidade inferior, descartado seja lá qual for o motivo, chegue ao ouvinte, causando “má impressão”.

Bootleg é sim pirataria, mas desde os anos 90 deixou de ser uma preocupação para os artistas. Geralmente esse tipo de material só interessa a fanáticos ou colecionadores, daqueles que querem ter tudo de um artista, mesm que seja uma conversa de camarim ou som do artista vomitando.

Nos anos 70 e 80, o 'Black Album' foi considerado o LP (e depois CD) pirata mais caçado do mundo. Traz sobras de estúdio, ensaios e takes alternativos das gravações de 'The White Album', o LP duplo lançado em 1968. Entre outras coisas, traz versões 'bêbadas' para 'The House of the Rising Sun', dos Animals, e 'A Quick One', do Who. A lenda diz que só foram confeccionados 1,5 mil cópias em vinil.

O grande problema para o mercado cultural, para artistas e para as gravadoras, é a pura e simples clonagem de um CD/DVD/livro, sempre em qualidade inferior. Isso sim lesa o produtor de cultura.

Os bootlegs chegaram a preocupar as gravadoras no período entre 1985 e 1995, quando o CD ficou popular. Muitos bootlegs – a esmagadora maioria gravações de shows nunca lançados, sobras de estúdio, gravações alternativas de músicas de sucesso ou tediosos ensaios – foram produzidos em escala quase industrial em países como Itália e União Soviética (depois Rússia).

Nos dois países, a legislação a respeito de direitos autorais continha brechas que acabavam por estimular a criação e comercialização de tais produtos. Ficaram famosos no Brasil e na Argentina os “italianos” com um cachorro como “selo musical” contendo shows de artistas dos mais variados. As quantidades de cada um dos produtos eram sempre pequenas, nunca ultrapassando mil cópias.

Esse ficou bem popular em CD nos anos 90, e foi um dos mais procurados nas duas décadas anteriores. A capa, em prensagem de CD italiano, identifica o que seriam as gravações completas da sessão dos Beatles ao vivo feitas no telhado da gravadora Apple, em 30 de janeiro de 1969. É considerada a última e verdadeira apresentação ao vivo da banda. Surgiu no mercado em versões simples e dupla em CD.

Esse material geralmente era vendido às gravadoras piratas italianas, russas e até japonesas geralmente por intgrantes de fã-clubes ou até mesmo de equipes que faziam som nos shows, gravando muitas vezes o áudio direto da mesa.

A pirataria bootleg do tipo italiana perdeu força na segunda metade da década de 90 com o apert na legislação e fiscalização na Itália e na Rússia. A internet virou o paraíso para esse tipo de conteúdo, disseminado de graça, mas chamando a atenção somente dos fanáticos.


Contracapa de um dos CDs da série 'Unsurparred Masters', a mais famosa série de álbuns pitaras dos Rolling Stones, ao lado da série 'Ultra Rare Trax' (que também lançou gravações alternativas e não autorizadas de Beatles, Deep Purple e Led Zeppelin, entre outros).

Os artistas detestam, pois consideram que todo bootleg não passa de material ruim, sem qualidade necessária para se tornar um produto oficial. As gravadoras idem, porque bootleg em tese canibaliza um eventual lançamento de CD ao vivo.

Alguns artistas tentam tirar vantagem do fanatismo e aderem, até certo ponto, à estratégia: The Who e Pearl Jam, por exemplo, chegaram a colocar à venda mais de 130 shows, em CD e en DVD, diretamente em seus sites oficiais. Tiveram vendas satisfatórias, mas insuficientes para justificarem tal investimento. Fizeram u=isso por apenas uma turnê e depois abandonaram a ideia.

A prática mais comum no combate aos bootlegs, mas que não passa de oportunismo barato e imoral, é a reedição de CDs ou de discografias inteiras em CD com a inclusão de “bônus” – grava~ções ao vivo ou músicas gravadas mas nunca lançadas oficialmente. Quem tem todos os discos de uma banda e é fanático acaba por comprar novamente os álbuns com as “novidades”.

'Cabala' é considerado o melhor e mais cobiçado do Led Zeppelin. Traz músicas inéditas descartadas, ensaios, takes alternativos de sucessos da banda e colagens sonoras. Na versão mais conhecida, surgida no meio dos anos 80, é vendida em uma caixa com oito CDs.

Seja como for, o bootleg é pirataria sim, msmo que seja considerada por muitos do “bem”, já que normalmente não causa lesão financeira ou artística ao artista e muito menos às gravadoras.

O mercado tem é de combater a pirataria verdadeira, que é a clonagemgrosseira e barata de originais, essa sim lesiva em todos os sentidos. Em tempos de todo tipo de download na internet, os bootlegs são os menores problemas para artistas, produtores e empresários do meio.


Outra raridade nos anos 70 e 80, 'Tommy Demos' traz as primeiras gravações das composições que viriam integrar o álbum duplo 'Tommy', de 1969. A maioria das músicas tem apenas Pete Townshend tocando todos os instrumentos, em gravações realizadas em seu estúdio caseiro entre novembro de 1968 e fevereiro de 1969. Muitas das faixas ainda nem traziam as letras definitivas.

Um dos mais famosos bootlegs do Iron Maiden, 'Secret Gig', como é popularmente conhecido, traz um show de uma banda de amigos liderada por Adrian Smith e Nicko McBrain. Em 19 de dezembro de 1985, com Smith nos vocais na maior parte do tempo, a banda executou diversos clássicos do rock, como 'Tush', do ZZ Top. Bruce Dickinson, Dave Murray e Steve Harris subiram ao palco somente ao final do show, no bis. O grande destaque é a música 'Reach Out', um dueto entre Smith e Dickinson, que acabou sendo lançada como lado B pelo Iron pouco tempo depois, com Adrian Smith cantando.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Desde quando Jovem Guarda e Erasmo Carlos fizeram rock?



A música brasileira anda em festa desde o ano passado com uma tonelada de efemérides que nos atormentam a todo momento. Vai desde os 70 anos de Roberto Carlos aos 15 anos das mortes de Chico Science e Renato Russo.

A efeméride da vez são os 70 anos de idade de Erasmo Carlos, o eterno comparsa de Roberto Carlos. Negar as importância do cantor na música e na cultura brasileira é brigar com os fatos, é tentar estuprar a notícia. Não se trata disso – aliás, parabéns pela longeva carreira. Ponto.

O que mais incomoda nas comemorações dos 70 anos de Erasmo Carlos é a constante associação do nome dele ao rock. Desde quando o que ele fez nos anos 60 – e principalmente nos anos 70 – era rock? No máximo um popzinho chocho e de qualidade bastante questionável.

Nem é o caso aqui de ficar dissecando tecnicamente o trabalho do cidadão, como alguns leitores deste Combate Rock “exigem” apenas para espezinhar. A questão é simples e básica: desde quando o que Erasmo Carlos fez em toda a sua carreira era rock?


Erasmo Carlos comemora 70 anos de idade em show no rio com a presença de Roberto Carlos (Foto: MARCOS ARCOVERDE/AGENCIA ESTADO/AE)

Que a Jovem Guarda foi um movimento importante dentro da cultura brasileira não há dúvida. Mostrou que os jovens do começo dos anos 60 no Brasil tinham voz, vontade própria, talento e inteligência.

Mais do que isso, não queriam ficar presos às correntes monolíticas da MPB clássica do samba-canção e das marchinhas de carnaval nem às limitações do pseudo-intelectualismo da bossa nova – não é por acaso que a Jovem Guarda é mais relevante como movimento musical e cultural na história brasileira do que a bossa nova e o tropicalismo.

Por outro lado, a associação de Jovem Guarda com o rock soa artificial e forçada. Só porque era um movimento jovem?

Os primeiros vestígios de rock no Brasil só podem ser identificados em uma série de grupelhos de copiavam os Beatles e grupos americanos, como Renato e Seus Blue Caps, e, com grande dose de boa vontade, nas primeiras gravações de Raul Seixas nos primórdios dos anos 60 – que pouquíssima gente conhece ou sabe da existência.

Rock mesmo começou a ser feito de verdade no Brasil quando a beatlemania estava quase extinta. Foi quando apareceu por aqui Ronnie Von e os Mutantes, ao mesmo tempo em que alguns artistas da Jovem Guarda – com Roberto e Erasmo Carlos liderando – resvalavam, bem de leve, em tentativas frustradas de produzir algum tipo de “rock”.

Tal associação era benéfica à Jovem Guarda? Alguns historiadores dizem que sim, até porque Beatles, Rolling Stones e o rock em geral se tornaram moda mundial a partir de 1965.

A associação ao rock era uma forma de legitimar o movimento jovem da música brasileira que, de certa forma, era integrada por uma classe média que se consolidava e que era emergente, em contraponto ao elitismo da bossa nova e da MPB classuda e ao populismo e massificação do samba.

A tese até que faz algum sentido. No entanto, academicismos à parte, ainda que a associação Jovem Guarda-rock fosse necessária para atribuir credibilidade (ao menos mercadologicamente), soa muito forçada e quase sem nexo quando se escutam os principais hits da época – e principalmente que tipo de música os principais protagonistas produziram depois.

A analogia vale neste caso: depois do espetáculo lamentável que o time do Palmeiras proporcionou na partida contra o América-MG há alguns dias (1 a 1) e depois de uma atuação sonolenta do Corinthians na vitória de 1 a 0 contra o Atlético-GO, um jornalista do Jornal da Tarde comentou: “Palmeiras e Corinthians não praticam o mesmo esporte que o Barcelona (campeão europeu de 2011). Se os dois times jogam futebol, então o Barcelona pratica outra coisa.”

Pois bem. Se Erasmo Carlos e a Jovem Guarda algum dia fizeram rock, então Led Zepelin, Deep Purple, Black Sabbath, Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Who e outros fizeram (ou fazem) outra coisa…

segunda-feira, agosto 29, 2011

Coverdale-Page: Quem perdeu fomos nós



No auge da fama do Whitesnake, entre 1987 e 1990, David Coverdale concedeu uma entrevista a uma revista inglesa onde desdenhava de algumas músicas do Led Zeppelin e sobre supostas acusações que estava recebendo por ter plagiado ou ao menos ter copiado trechos de outras músicas em suas composições.


“Isso é bastante questionável. Se formos levar a fundo mesmo, então mudaremos a história e o Led Zeppelin terá de pagar um dinheirão para Willie Dixon (bluesman norte-americano). Ele é o ‘verdadeiro’ autor do primeiro LP do Led”, disse Coverdale.

A falta de jeito e de educação espantou quem o conhecia. Afinal, desde os tempos de Deep Purple que ele havia deixado o estilo polêmico para lá. Recentemente, um jornalista brasileiro tentou lembrá-lo sobre a declaração durante uma entrevista por telefone, mas o cantor inglês desconversou e afirmou não se lembrar daquelas palavras.

O curioso é que, para se defender à época, acabou atacando Jimmy Page, o principal compositor do Led Zeppelin. Pouco tempo depois, Coverdale pareceu não se importar em trabalhar com um “plagiador”.

O projeto que reuniu os dois era secreto em meados de 1991. Foi de ideia do estafe de Page convidar Coverdale para um projeto de hard rock mais pesado, já que Robert Plant recusara nova proposta de reativar o Led Zeppelin. Coverdale ficou entusiasmado e aceitou conversar e tomar umas cervejas com Page e seu empresário para ver se rolava algo.

Dois depois, estavam na casa do guitarrista para algumas jams no estúdio caseiro do local; um mês depois, estavam assinados os contratos para que o Coverdale-Page, nome escolhido para o projeto.

E tudo foi feito em segredo, que conseguiu ser mantido até o começo de 1993, quando ninguém conseguia entender o porquê de o vocalista ter desfeito o Whitesnake após a turnê de estrondoso sucesso de 1990.



Clássico álbum da dupla
“Coverdale-Page”, álbum homônimo lançado no meio de 1993, é uma obra-prima do hard rock, mesclando a veia mais popular de Coverdale e o peso das guitarras zeppelinianas de Page.

O vocalista foi criticado à época por exagerar nos agudos em algumas músicas, o que foi encarado como uma tentativa de emular as performances de Robert Plant nos tempos áureos do Led, na década de 70.

É fato que Coverdale forçou um pouco, mas nada que tire o brilho de músicas fantásticas como “Absolution Blues”, “Shake My Tree”, “Take Me For a Little While”, “Whisper a Prayer for the Dying”, “Pride and Joy” e “Over Now”.


O entrosamento entre os dois músicos foi total, desde as jams na casa de Page até as jams realizadas no Japão como aquecimento para a turnê. O problema é que tudo estava indo bem demais, todo mundo estava feliz demais, e isso é um perigo em se tratando de Jimmy Page.

Há quem diga que o guitarrista é notório por ser perseguido pelo azar ou por “maus fluidos”. Seja como for, o que deu muito certo nos bastidores e nos ensaios ficou esquisito nos palcos.

As primeiras performances no Japão foram ótimas, mas depois a coisa começou a complicar. Os empresários de Page começaram a se incomodar com as performances bombásticas de Coverdale, além das vendas decepcionantes, apesar de boas, do CD. Eles achavam que choveriam convites para turnês pela Europa e Estados Unidos, mas isso não ocorreu.


Após sete shows no Japão Page foi praticamente obrigado pelos empresários a “descontinuar” a dupla por medo de fracasso financeiros no resto do mundo. Isso não afeitou a amizade entre os dois, mas Coverdale não poupou críticas e acusações pesadas contra os empresários de Page. Nem mesmo um CD excelente fui suficiente para manter esse projeto em pé.

Alguns anos depois, em 2000, durante entrevistas para divulgar o álbum solo “Into the Light”, Coverdale insinuou que a parceria não foi em frente porque já havia conversas bastante adiantadas entre os empresários de Robert Plant e Jimmy Page para retomar o Led Zeppelin ou fazerem um trabalho em dupla.

Seja como for, Coverdale parecia ter razão. Page e Plant voltaram a tocar juntos em 1994, quando gravaram um especial para a MTV que aabou sendo lançado em DVD e CD com o nome de “No Quarter: Jimmy Page and Robert Plant Unledded”.

Quatro anos depois foi lançado o CD “Wlakin into Clarksdale”, totalmente com músicas inéditas, sendo que a parceria chegou ao fim no ano seguinte. Assim como o BBM – o Cream de Eric Clapton sem o mesmo, com Gary Moore em seu lugar –, o Coverdale-Page foi um grande projeto que não vingou por questões puramente comerciais. Quem perdeu fomos nós.

sexta-feira, agosto 26, 2011

A guerra contra a Lei da Entrega apenas começou



Até que demorou para que houvesse uma reação, mas ela veio, e forte. Empresas de varejo querem derrubar a Lei da Entrega na Justiça. Para isso, 12 companhias e a Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (Camara-e.net) estão com 15 ações em andamento com questionamentos sobre a legislação e a atuação da Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon-SP) como órgão fiscalizador.


A legislação entrou em vigor em outubro de 2009 e determina que as empresas fixem data e turno para a entrega de produtos e prestação de serviços. Desde então, o Procon já realizou três grandes operações de fiscalização: em novembro de 2009, em fevereiro e em outubro de 2010. Dos 312 fornecedores fiscalizados, 170 foram alvo de autuações.


As empresas têm contestado as penalidades impostas pela Justiça com alegações de dificuldade no cumprimento por conta de problemas com a logística e o trânsito. Elas também afirmam que a norma estadual é inconstitucional porque caberia à União legislar sobre o assunto.


Entre as ações em andamento, dez já tiveram decisões favoráveis ao Procon com reconhecimento da competência do órgão e determinação para as empresas cumprirem a Lei da Entrega, sendo que uma já foi extinta.


Outras seis decisões foram desfavoráveis ao órgão de defesa do consumidor e as companhias conseguiram o cancelamento das punições e da fiscalização do Procon até o julgamento final. O Procon entrou com recurso em relação às decisões desfavoráveis.


A ação das empresas é bem clara nesta questão: é mais fácil lutar contra a lei do que se respeitá-la e se adaptar ao seu teor. Nem mesmo o aumento absurdo de reclamações contra as empresas de comércio virtual, as que mais desrespeitam a norma, são suficientes para que os “gestores” do negócio fiquem envergonhados com tal procedimento.


O Procon paulista não descarta nenhuma medida contra as empresas, como a tomada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro para que a Americanas.com tenha suas vendas paralisadas em todo o Estado até que resolva os problemas das entregas atrasadas.

Aliás, já existem conversas entre as duas instituições para preparar o terreno para uma eventual punição no Estado de São Paulo a quem continuamente desrespeita a lei.

A briga vai ser boa, mas o consumidor tem de se preparar: de uma hora para outra vender e não entregar – ou atrasar a entrega sem satisfação - pode se tornar “legal” de uma hora para outra, por incrível que isso possa parecer.

terça-feira, agosto 23, 2011

Quando o heavy metal encontra Frank Sinatra



Alguns dos maiores clássicos de Frank Sinatra cantados e tocados por alguns astros do heavy metal em ritmo alucinante e com peso absurdo. Tinha tudo para não dar certo um projeto como esse, ainda mais em uma época em que os tributos estão totalmente fora de moda.


Entretanto, um projeto que reúne gente como Glenn Hughes (ex-Deep Purple e Black Sabbath), Geoff Tate (Queensrÿche), Dee Snider (Twisted Sister) e Tim Owens (ex-Judas Priest) não tem como dar errado. Por isso é que “Sin-Atra – A Metal Tribute to Frank Sinatra” é bem interessante e divertido ao extremo, já que não se leva muito a sério.


O grande responsável é Bob Kulick, guitarrista norte-americano que já produziu diversos tributos desde os anos 90 – é irmão de Bruce Kulick, ex-guitarrista do Kiss. A fórmula é a mesma: reúne medalhões do rock para tocar músicas de um determinado artista ou gênero. Já acertou em cheio no passado, como também errou feio. Tinha tudo para errar em “Sin-Atra”, mas acertou.


A base é formada por Bob Kulick, Billy Sheehan (baixo, Mr. Big), Brett Chassen (bateria) e Doug Katsaros (teclados, orquestrações) - além da participação especial do guitarrista Ritchie Kotzen no solo de “That’s Life”.


Os destaques do álbum são Glenn Hughes em “I’ve Got You Under My Skin”, Geoff Tate em “Summerwind” e “Witchcraft”, com Tim Owens. O clima em todas as faixas é bem descontraído, ou até mesmo debochado, como “It Was A Very Good Year”, com Dee Snider, e “Fly Me To The Moon”, com Robin Zander (Cheap Trick).


Todas as versões ficaram muito pesadas e sofreram variados graus de desconstrução. A versão mais esquisita é a de “Strangers In The Night”, com Joey Belladona (ex-Anthrax), com um nítido descompasso entre o vocal e o andamento lento que a música pede – tudo isso por cima de camadas e camadas de guitarras pesadas. De tão diferente, chega a incomodar.

O único ponto negativo é a adição de naipes de metais em quase todas as músicas na tentativa de manter alguma fidelidade com as versões originais. Os arranjos ficaram esquisitos demais, totalmente fora de contexto e sem a menor ligação com as versões pesadas das músicas de Sinatra. Nada que obscureça o resultado final, mas certamente vai incomodar um pouco os roqueiros mais puristas. Já existe a versão nacional do álbum, custando R$ 30 na Galeria do rock e em algumas lojas virtuais.

sábado, agosto 20, 2011

Empresa que rejeita candidato a emprego por nome sujo pode ser punida



O trabalhador perde o emprego, demora a se recolocar e, durante esse período, é natural que atrase algumas contas. Eventualmente, por deixar de cumprir compromissos financeiros, seu nome pode ser incluído em um cadastro negativo.


Ao procurar outro trabalho, consegue uma entrevista. Acredita que foi bem e vê a possibilidade de ser contratado. Então recebe a notícia: “teremos de excluí-lo do processo porque seu nome está sujo”. Mais do que a frustração, vem a preocupação em resolver a situação, mas como fazer se não consegue emprego justamente por isso?


Pode não parecer, mas isso é ilegal. Não é só ilegal, é imoral e fere a lei. São inúmeras as decisões judiciais pelo Brasil que dão ganho de causa a quem se sente discriminado ao procurar emprego por estar inadimplente. A maioria dos juízes é clara em suas sentenças: estar com o nome sujo é constrangedor e não pode servir de critério para excluir candidatos de processos seletivos. Essas decisões não obrigam as empresas a contratar quem foi à Justiça, mas concede indenização por danos morais.


Ninguém é obrigado a aceitar quem quer que seja com cliente ou empregado. Cada empresa tem seus critérios próprios para admitir um funcionário. Quem foi recusado tem o direito de saber o motivo de ter sido preterido. Caso sinta-se constrangido, ou tenha sido constrangido na hora da seleção, o candidato rejeitado por ir à Justiça.


É para acabar com esse ciclo vicioso e perverso – preciso de emprego, mas não consigo porque estou o nome sujo, já que não tenho trabalho - que parlamentares querem criar leis que punam empresas que recusem candidatos por conta da situação financeira deteriorada. A perda do emprego é a maior causa da inadimplência no Brasil atualmente, atingindo o patamar de 56% dos pesquisados em março de 2011. No mesmo período do ano passado, esse índice era de 44% dos inadimplentes, segundo a Pesquisa de Inadimplência Anual da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).


Desde 2010, tramita no Senado um Projeto de Lei (PL) 7809/10, que pretende proibir a discriminação de candidatos a postos de trabalho que tenham o nome incluído em cadastros de inadimplentes. “O preconceito já ocorre antes da entrevista. Há anúncios em jornais que informam que pessoas com nome sujo não são bem-vindas”, diz o autor do projeto, o senador Paulo Paim (PT-RS). “Não há previsão de quando a lei será votada, mas pode ser em 2011.”


Pelo PL, empresas que se negarem a contratar um candidato exclusivamente por terem o nome sujo estão sujeitas a multas e processo judicial.


Repetindo: quem se sentir discriminado em uma oportunidade de emprego ou em algum cargo que já exerce, pode procurar a Justiça. A vítima nem sempre terá a vaga garantida, mas a empresa poderá ser multada ou ainda ter de indenizar o candidato rejeitado.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Pete Townshend anuncia autobiografia para 2012



Um livro de mais de 30 anos de confecção finalmente vai chegar às livrarias. As memórias de Pete Townshend, guitarrista do The Who, parece que finalmente estão prontas. De acordo com a versão americana da revista Rolling Stone, o músico fechou um acordo com a editora inglesa Harper Collins para lançar seu livro em 2012.


Segundo a editora, a autobiografia de Pete estará nas prateleiras no segundo semestre de 2012. “Nos anos 1970, Pete Townshend questionou em uma famosa música ‘quem é você?’. Agora, em seu livro de memórias, gerações de fãs finalmente terão essa resposta que vem sido aguardada há tanto tempo”, afirmou David Hirshey, executivo da editora, em texto da Rolling Stone.


Townshead começou a trabalhar seriamente na sua autobiografia em meados dos anos 1990, tendo como base milhares de anotações escritas entre 1976 e 1980. O projeto ganhou fôlego quando ele foi acusado pela polícia britânica em 2003 por acessar sites de pornografia infantil – o músico afirmou que se tratava de material de pesquisa para o livro.


“Eu tenho escrito sobre a minha infância há sete anos. Eu creio que fui abusado sexualmente aos cinco ou seis anos quando estive sob os cuidados da minha vó materna, que tinha sérios problemas mentais”, afirmou na época. “Eu não me lembro claramente do que aconteceu, mas meu trabalho pretende desvendar essas sombras. Algumas das coisas que vi na internet me ajudaram a compor o livro.”


Townshend criou um blog e passou a postar partes da sua própria história. “A espinha dorsal está completa, e toda a pesquisa foi feita”, disse o guitarrista à revista norte-americana. “E porque minha vida criativa e profissional está tão ativa, eu sinto que nunca vou chegar aos tempos presentes, a não ser que eu me aposente apenas para escrever. Me aposentar, simplesmente para escrever, quando eu já sou um escritor, é uma contradição.”


O blog não existe mais, assim como Townshend praticamente sumiu do Twitter e do Facebook. Seus problema de audição se agravaram nos últimos cinco anos, o que compromete o futuro do Who. A última turnê da banda aconteceu em 2009. No ano passado, eles se apresentaram no intervalo do Super Bowl.



Pete Townshend no anos 70: ícone
Neste ano, Townshend e o vocalista Roger Daltrey, os dois remanescentes da formação original, tocara juntos duas vezes, em eventos beneficentes em prol da Teenage Cancer Trust, patrocinada pelo cantor. Um deles foi em janeiro, quando o Who tocou em Londres tendo como convidados Jeff Beck, Bryan Adams e Debbie Harry (Blondie).


Oficialmente, é a última apresentação da banda até o momento, após 47 anos de carreira (com sete de paralisação entre 1982 e 1989).


Em março, Daltrey fez um show com sua banda solo também em Londres, e Townshend subiu ao palco como convidado especial para tocar em duas músicas. Após essa apresentação, boatos deram conta de uma desavença entre os dois a respeito dos músicos que participariam de uma eventual turnê no final deste ano, coisa que foi desmentida sem muito vigor pelos dois.

segunda-feira, agosto 15, 2011

A sua saúde pode piorar ainda mais...




Você que depende de planos de saúde para tentar cuidar da saúde, prepare-se: médicos paulistas de 53 especialidades decidiram no final de junho, em assembleia, suspender temporariamente o atendimento a usuários de dez operadoras de planos de saúde que se recusaram a negociar o reajuste dos valores pagos por consulta. O cronograma da paralisação deve ser divulgado dentro de 20 ou 30 dias.


Segundo os “líderes” do protesto, cada especialidade vai parar por 72 horas de forma alternada. A ideia é manter a pressão sobre as empresas sem prejudicar os usuários. Como se isso fosse possível. O mentor da estratégia é Florisval Meinão, da Associação Médica Brasileira.


Serão atingidos usuários da Gama Saúde, Porto Seguro, Intermédica, Greenline, Notredame, Abet (funcionários das empresas de telecomunicações) e também os funcionários da Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e Embratel.


Pesquisa divulgada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) revela a insatisfação dos médicos paulistas. Dos 58 mil que atendem planos, 74% consideram ruim ou péssima a relação com as operadoras. Em 2007, o índice era de 43%.


Ao avaliar sua relação com o Sistema Único de Saúde (SUS), 59% se disseram insatisfeitos. Foram ouvidos 649 médicos pelo Instituto Datafolha.


O presidente do Cremesp, Renato Azevedo Júnior, disse ao Jornal da Tarde que o relacionamento com as operadoras piorou muito nos últimos dez anos, principalmente pela falta de reajuste nos honorários.


A FenaSaúde, entidade que congrega as 15 maiores operadoras, limitou-se apenas a informar, por meio de nota distribuída à imprensa, que está “participando dos debates sobre honorários liderados pela ANS”.


Que os convênios pagam muito pouco aos médicos é um fato que está mais do que comprovado. A remuneração é baixa e acaba provocando um efeito colateral: médicos que precisam fazer um volume grande de consultas mensais para que sua remuneração atinja um patamar razoável – pelo menos na visão dos profissionais. O resultado disso: consultas que raramente ultrapassam 10 ou 15 minutos, comprometendo o diagnóstico.


Por outro lado, é inaceitável que médicos se recusem a atender pacientes, seja qual for o motivo – especialmente em um país onde parcela expressiva da população é obrigada a recorrer à saúde privada porque o Estado é incapaz de atender minimamente a população.


Assim como determinadas categorias profissionais, os médicos estão impedidos de fazer qualquer manifestação ou protesto que implique a piora no atendimento aos pacientes/clientes/consumidores.


O mais estarrecedor é que, até o momento, a repercussão sobre essa questão é quase nula. Nem ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), nem o Ministério Público e muito menos os órgãos de defesa do consumidor se manifestaram sobre a questão.

sábado, agosto 13, 2011

A desintegração do Deep Purple ganha ótimo documentário




Uma banda esfarelando, com músicos entupidos de drogas e fazendo apresentações lamentáveis. Esse é o retrato que normalmente é pintado do Deep Purple em sua fase Mark IV, ou seja, em sua terceira formação, que durou do começo de 1975 ao final de 1976. É a fase que marca a saída do guitarrista Ritchie Blackmore e a entrada do norte-americano Tommy Bolin.


O retrato é tem lá as suas verdades, como bem já declararam o vocalista David Coverdale e o baixista e vocalista Glenn Hughes, integrantes da banda à época – completada pelos membros fundadores Jon Lord (teclados) e Ian Paice (bateria). Só que nem tudo era fim de feira e esbórnia total. É isso o que tenta provar o documentário “Deep Purple – Phoenix Rising”, que deve ser lançado em 28 de junho a Eagle Rock Entertainment nos Estados Unidos e na Inglaterra.


Serão mais de duas horas de um documentário muito bem feito sobre a formação da banda naquele período, contando todos os podres, mas também as muitas coisas boas produzidas pela banda naquele períoso. A obrará trará, por exemplo, 30 minutos de imagens inéditas direto do palco captadas em uma raríssima apresentação no Japão. “Phoenix Rising” será lançado em DVD, Blu-ray e em um pacote especial de dois discos em DVD/CD.


Boas e longas entrevistas com o tecladista Jon Lord e o baixista Glenn Hughes contam a história de uma banda de uma banda que tentava se equilibrar depois de sofrer seguidas baixas - o vocalista Ian Gillan e o baixista Roger Glover haviam partido no final de 1973 e Blackmore, em meados de 1975.


Mais do que tudo, a saída de Blackmore foi um trauma difícil de superado, já que ele era o mentor intlecetual da banda, a identidade sonora e a própria personificação do Deep Purple.


A chegada de Tommy Bolin, que havia tocado na banda progressiva Zephyr e na James Gang, mudou o som da banda e e a direcionou para outro patamar, ao mesmo tempo em que mergulhou o quinteto em um turbilhão sonoro e comportamental que terminou com a dissolução do grupo após um terrível show em Liverpool, em 1976.


O álbum”Come Taste The Band” (1975) documenta a breve era Bolin, uma era que acabou em escombros quando a banda anunciou em julho de 1976 que estava se separando. Em dezembro, Bolin morreria em decorrência de uma overdose de heroína.


Os inéditos 30 minutos do bootleg então conhecido como “Rises Over Japan”, tem a formação conhecida como Mark IV se apresentando em 1976 com oito músicas – “Burn”, “Getting Tighter”, “Love Child”, “Smoke On The Water”, “Lazy”, “Homeward Strut”, “You Keep On Moving” e “Stormbringer” (o pacote de disco duplo contém essas oito músicas em CD). Esse segmento é uma das poucas imagens em vídeo que mostram Tommy Bolin em performance no Deep Purple.

Outros tempos: uma história de sucesso e respeito


O documentário tem o mérito de acabar com algumas lendas acerca dos supostos excessos etílicos e de drogas dos integrantes, mas, ao mesmo tempo, pasa ao largo de certas polêmicas, como o fato de que as brigas entre Coverdale, Hughes e Bolin era constantes.


Além disso, também passa batido em relação ao clima ruim que dominou o período final daquela formação, quando guitarrista praticamente tinha deixado a banda de lado, dando prioridade para a sua carreira solo – uma das condições para sua entrada na banda era que continuasse gravando seus próprios trabalhos e que tivesse liberdade de tocar e gravar com quem quisesse, fato que irritava profundamente Lord e Paice. Ainda assim, é um documento imperdível para colecionadores e amantes do bom rock pesado. O pacote não tem previsão de lançamento no Brasil.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Cada vez mais dificuldades para conseguir ‘limpar’ o nome



Quem assina acordo para parcelar um débito deve ter o nome retirado dos órgãos de proteção ao crédito desde a assinatura do acordo ou, ao menos, desde o pagamento da primeira parcela da dívida.

Pena que na prática isso não aconteça. Após o pagamento, é obrigação do credor solicitar o fim da negativação do devedor, evitando que este tenha de ir para a fila da Serasa ou SPC, a fim de “limpar” o nome – a empresa que recebe o crédito deixa o consumidor continuar “negativado” deve indenizá-lo por dano moral.


São cada vez mais comuns as reclamações nos serviços de defesa do consumidor de gente querendo desesperadamente tira o nome dos cadastros de inadimplentes, mas não conseguem porque os credores não estão nem aí para isso.


Quando o consumidor paga o débito de uma só vez ou de forma parcelada, em quanto tempo o seu nome deve ser retirado do cadastro de devedores? Por incrível que pareça, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) “esqueceu” de estabelecer explicitamente o prazo para a empresa retirar o nome da pessoa que pagou a dívida do órgão de proteção ao crédito.


Diante da omissão do CDC e da preguiça crônica dos legisladores (que não aprovaram até o momento lei sobre o mencionado prazo), os juízes não perderam tempo e “fizeram a lei” sobre o assunto, só que legislaram contra o consumidor. Definiram o prazo máximo de 30 dias para o banco ou a empresa que recebeu a dívida providenciar a retirada do nome de devedor da Serasa ou SPC.


Ou seja, enquanto a alta tecnologia da informação permite às empresas e bancos negativarem o consumidor instantaneamente ao débito, a mesma tecnologia não é aplicada para libertar, de imediato, o consumidor que quitou a dívida do julgo dos órgãos de proteção ao crédito.


Diante disso, só nos resta a indignação e a resignação...


Mas é bom lembrar: no caso de protesto, o cancelamento deste é obrigação do próprio devedor – lembrando que este deve comprovar a quitação e pagar taxa exigida pelo cartório de protesto para realizar o cancelamento do título protestado. Em resumo, além da negativação, quem tem o nome protestado enfrenta mais um trabalho e sofre no bolso para ter o nome “limpo”.

terça-feira, agosto 09, 2011

A voz inconfundível de Eric Burdon ao vivo




Eric Burdon sempre foi um moleque enfezado naquela Newcastle dos anos 50. Achava que era o mais forte, e não era, mas gritava bastante para seu tamanho médio e nada musculoso.

Sempre gostou de mostrar seus dotes na arquibancada imunda do estádio St. James Park, a casa dos Toons, o Newcastle, tradicional clube de futebol do norte da Inglaterra, mas que tinha ganho seu último campeonato nacional em 1927 – e até hoje está na fila 84 anos depois.

Apaixonado por blues e por soul music fez fama nos botecos e pubs esquecidos de cidades pequenas do norte da Inglaterra e da Escócia, até conhecer o tecladista Alan Price e o guitarrista e baixista Chas Chandler (futuro empresário de Jimi Hendrix). Abismados com a voz rouca e negra daquele branquelo nortista, os dois logo o convidaram para tocar no grupo estavam tentando formar e manter.

Surgia The Animals, uma espécie de Rolling Stones do norte, com fama de encrenqueiros e de blueseiros até a alma – assim como o Them, de Van Morrison, era os Stones de Belfast, Irlanda do Norte. No início era apenas mais uma boa banda de blues do interior. Foram dois anos ralando em troca de cachês irrisórios e cerveja até que decidem partir para Londres, onde tudo acontecia.

E foi lá que o sucesso veio logo após a chegada, em 1964. Muita gente ficou impressionada com aqueles seguidores dos Stones, só que mais puristas, e não demorou para que surgisse um contrato de gravação com uma gravadora média. “House of the Rising Sun”, canção tradicional da Louisiana, ganhou novos arranjos de Price e uma interpretação arrebatadora de Burdon, transformando-se em hit mundial.

A banda, no entanto, era pouco profissional e ninguém tolerava o jeito mandão e cuca fresca de Burdon. Em 1966 os Animals não existiam mais. O vocalista ainda tentou recriar o grupo entre 1967 e 1970, mais como sua banda de apoio do que uma banda em si.

Eric Burdon and The Animals, o novo nome, conseguiu hits importantes, como “Don’t Let Me be Misunderstood” e “San Francisco Nights”, mas não foi suficiente para tirar a sensação de “coisa velha” das costas de Burdon.

A carreira a partir de então foi errática, misturando trabahos solo medianos, bons trabalhos com a banda War e colaborações interessantes com o tecladista Brian Auger e o cantor brasileiro Marcelo Nova, ex-Camisa de Vênus.

Um dos bons momentos da carreira solo acaba de chegar às prateleiras brasileiras. O álbum “In Concert 1974″ (ST2 Records, R$ 25 em média) é uma gravação ao vivo feita na Inglaterra e traz canções como “Stop”, “When I Was Young” e “It’s My Life”, entre outros.

Um dos destaques fica por conta de sua versão viajante e repleta de improvisos para o clássico “The House Of The Rising Sun”. O vozeirão está lá, assim como a performance bombástica. Para quem gota de blues energético, é obrigatório.

domingo, agosto 07, 2011

Consumidor refém da programação de TV



Um comerciante bem-sucedido paulistano que mora em Recife estava ansioso pela divulgação da tabela do Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A. Todo é ano é assim.

Dono de três pizzarias ao estilo paulista na capital pernambucana, é obrigado a programar com muita antecedência cada programa ou compromisso que tem, o que dizer então de uma viagem – tudo fruto do sucesso de seu negócio.

Com a tabela em mãos divulgada pela internet, finalmente conseguiu marcar uma visita, ainda que rápida, à cidade natal. Iria rever parentes e amigos, mas o motivo da viagem era outro: depois de dois anos, assistiria ao seu Palmeiras enfrentar o Flamengo no Pacaembu, às 16h do dia 17 de julho. Chegaria na quinta pela manhã e partiria na segunda bem cedinho.

O problema é que ele não contava com a coincidência da Copa América, disputada pela Seleção Brasileira na Argentina. E com a falta de respeito e de decência da TV Globo, detentora dos direitos de transmissão de ambos os campeonatos.

Como o Brasil se classificou em primeiro lugar em seu grupo, jogaria exatamente no mesmo horário em que Palmeiras e Flamengo se enfrentariam no Pacaembu – assim como Botafogo e Corinthians no Engenhão, no Rio de Janeiro. A partida do Pacaembu seria transmitida ao vivo para o Rio e a do Engenhão, para São Paulo.

A TV Globo, que manda, desmanda e desrespeita flagrantemente o consumidor, com o apoio e a conivência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), decidiu alterar na quinta-feira, dia 14 de julho, a tabela do Brasileiro para evitar a “superposição de eventos”. Adiou os jogos de Palmeiras e Corinthians para quarta-feira, 20 de julho, às 19h30, em princípio...

Sim, em princípio, porque o horário dependeria da classificação ou não do Brasil na Copa América. Como a seleção foi desclassificada de modo ridículo, os jogos serão novamente remarcados, para as 21h50, já que a TV Globo ficaria sem ter o que mostrar no horário por causa do fiasco da seleção. Um desrespeito atrás do outro.

E o comerciante paulistano de Recife, com passagens e ingressos em mãos para o jogo – comprados com antecedência – assistiu incrédulo a essa lambança absurda cometida por dirigentes e executivos da TV Globo. E o pior: nenhum dirigente dos times envolvidos abriu a boca para ao menos reclamar ou lamentar tal coisa.

O comerciante “perdeu” a viagem. Acabou a contragosto viajando a São Paulo, pois não teria outra data para retornar tão cedo, viu os amigos, parentes e conseguiu vender os ingressos que comprara pela internet. Vai assistir à partida pela TV e não sabe quando verá novamente seu time no estádio, já que os times pernambucanos estão nas séries B e D do Brasileiro.

O que cabe neste caso ao consumidor que foi lesado? A CBF e os clubes mandantes das partidas infringiram o Estatuto do Torcedor e o Código de Defesa do Consumidor – a TV Globo não entra nesta história, pois não é a organizadora do evento, embora seja a razão das mudanças.


É possível pleitear via Procon ou Juizado Especial Cível ressarcimento de gastos e indenização por danos morais por conta da alteração sem motivo justificável.


Afinal, os adiamentos não ocorreram em razão de catástrofes naturais e ou “motivos de força maior” envolvendo os quatro clubes – morte de jogadores ou surto de doenças no elenco, por exemplo.


Já são inúmeros os casos de torcedores que ganharam na Justiça indenização contra a CBF, federações estaduais e clubes por descumprimento do Estatuto do Torcedor e do Código de Defesa do Consumidor: atraso no início de partidas, venda de ingressos falsos, violência de torcidas organizadas, impossibilidade de entrar no estádio devido à superlotação mesmo com ingresso verdadeiro na mão, entre outras coisas absurdas. É o caminho a ser seguido por todo torcedor enganado pelos dirigentes brasileiros.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Cheques clonados: bancos também são responsáveis - III




Não bastassem as violações aos cartões de banco, outro inferno na vida do consumidor são os cheques clonados. Estima-se que 20% dos cheques devolvidos estão relacionados à clonagem. E, como sempre, o cidadão sofre os transtornos do golpe e tem de corre atrás do prejuízo.

A pergunta é: como alguém pode clonar folha de um talão de cheque que não saiu das mãos do consumidor? E o mais curioso é que existe até a clonagem de cheque pertencente a talonário que não foi entregue ao correntista, assim como também constata-se a adulteração (e o pagamento pelo banco) de cheques referentes a contas que já foram encerradas.

No entanto, a forma mais comum do golpe ocorre quando o correntista emite um ou diversos cheques e a bandidagem especializada reproduz cópias destes para fazer a festa no mercado. Nos casos em que o cheque clonado é apresentado ao banco e este percebe a falsificação e recusa o pagamento, não há dores de cabeça para o correntista.

A lesão ao consumidor ocorre quando o banco, por negligência, faz o pagamento do cheque clonado. Também ocorre quando o banco não paga o cheque, mas faz a sua devolução por insuficiência de fundos. É que, havendo o pagamento do cheque, a conta do consumidor poderá ficar sem saldo e motivar a devolução de outros cheques emitidos pelo correntista.

Assim como o pagamento do cheque clonado poderá levar o correntista a ter de usar o limite do cheque especial, tendo de arcar com juros altos do banco.

Quando o banco não paga o cheque clonado, e o devolve por insuficiência de fundos, causa outro problema sério ao consumidor: o seu nome costuma ser protestado e vai parar nos órgãos de proteção ao crédito, além de registro no cadastro de emitentes de cheques sem fundo do Banco Central.

Só que a Justiça, unanimemente, tem condenado os bancos a reparar os danos sofridos pelas vítimas dos cheques clonados. Primeiro, as condenações ocorrem em relação aos prejuízos econômicos citados (gastos com tarifas bancárias, juros do cheque especial e devolução ao correntista do valor dos cheques falsos sacados de sua conta corrente).

Além da reparação dos prejuízos econômicos, a Justiça também tem condenado os bancos a pagar dano moral às vítimas do golpe, em razão dos transtornos gerados pelos saques dos cheques clonados, ou pela devolução destes como cheques sem fundos (o valor do dano moral tem variado entre R$ 3 mil e R$ 10 mil).

A reparação de prejuízos por cheques clonados que são apresentados em outras cidades, pode ser reivindicado na Justiça (inclusive no Juizado Especial Cível) do local onde o consumidor reside.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Cartão clonado: Justiça a favor do consumidor - II



Retomo o tema da coluna passada a respeito da clonagem de cartões e sobre a responsabilidade dos bancos no ressarcimento de prejuízos. A última instância do Judiciário, para este assunto, que é o Superior Tribunal de Justiça (STJ), já consolidou o entendimento de que os bancos devem ressarcir os saques indevidos, e deixou claro que a instituição financeira somente está isenta de pagar o prejuízo da "clonagem", se conseguir comprovar que o saque foi realizado pelo próprio correntista.

Ou seja, a Justiça, unanimemente, enterrou a tese dos bancos de que o fato de o consumidor ter a posse exclusiva do cartão e da senha excluiria a responsabilidade das instituições financeiras pelo pagamento do prejuízo sofrido. E não poderia ser outro o veredicto do Judiciário, após ter se tornado pública e notória a "indústria da clonagem", implementada pela bandidagem.

Portanto, nos casos em que os bancos não tiverem provas concretas de que o saque foi realizado diretamente pelo consumidor, terão de obedecer a orientação da Justiça: deve repor ao seu devido lugar o patrimônio do consumidor que se comprometeu a guardar.

Caso contrário, o consumidor deve recorrer à Justiça para obter a reparação do dano econômico e moral (este também tem sido concedido na maioria dos casos).

A vítima da clonagem também pode pedir à Justiça que determine que o banco antecipe no início do processo, em caráter liminar (de imediato) a devolução do valor "surrupiado" de sua conta, condicionada à devolução de tal valor se no final do processo o banco provar a culpa do consumidor pelo saque. Afinal, não é justo deixar a vítima do erro do forte (o banco) no desespero até final do processo

Abaixo seguem dicas do Procon e da Delegacia do Consumidor de São Paulo para evitar a clonagem, se possível:

Na hora de receber o envelope com o cartão, via correios ou empresa de transporte, não aceite se o documento estiver violado. Sempre assine no espaço reservado atrás do cartão.

Verifique, rotineiramente, os lançamentos das compras efetuadas em sua fatura. A maioria das administradoras oferece este serviço pela internet.

No ato da compra não perca de vista o seu cartão. Cuidado com esbarrões ou encontros acidentais. Se isso ocorrer, verifique se o que está em suas mãos é o seu.

No caixa eletrônico, em caso de retenção do cartão na máquina, não digite a senha novamente. Aperte as teclas "anula" e "cancela" e comunique o banco. Não abandone o caixa antes de seguir as instruções da instituição financeira.

Nunca digite sua senha em telefones públicos ou que "salvem" os números. Se receber alguma ligação telefônica de alguém dizendo que é funcionário do banco pedindo sua senha, não digite e contate a instituição ou a operadora do cartão.

Usaram meu cartão. E agora? - ao perceber que foi vítima de alguma fraude comunique à administradora, anotando o horário, o nome do atendente e o número do protocolo de atendimento

Depois, vá à polícia e registre Boletim de Ocorrência.

Caso a empresa não entre em acordo, abra processo no Procon ou na Justiça, solicitando a reversão do ônus da prova. A partir daí, a empresa é que vai ter de provar que o consumidor é quem fez as compras.

domingo, julho 31, 2011

Cartão de banco clonado: consumidor tem de ser ressarcido – I



A situação é clássica e cada vez mais comum. Você vai ao banco e percebe que, um dia depois de receber o salário, sua conta está negativa. Ou então do nada você recebe uma comunicação de algum órgão responsável por cadastro de inadimplentes - SPC ou Serasa - informando sobre um débito gigante com origem em sua conta bancária.

Em qualquer uma das circunstâncias, você não se lembra de ter feito aquelas despesas. E não se lembra porque não as fez. Você então percebe que acaba de ser uma vítima de cartão bancário clonado, seja de débito ou de crédito.

Quando o cartão de crédito é roubado, furtado ou clonado e compras são feitas sem autorização do cliente, este deve ser ressarcido pelo banco. Não há outra alternativa e não deve haver contestação.

Nesses casos, cabe à administradora comprovar que as compras foram feitas pelo cliente, que é considerado pelos órgãos de defesa do consumidor como a parte vulnerável da relação de consumo e, por isso, não deve ser prejudicado. Além disso, o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) diz que o fornecedor de serviço deve garantir segurança e tranquilidade quanto a sua fruição. Até a Justiça tem entendido que as compras não reconhecidas pelo consumidor só devem ser pagas quando a administradora demonstra que a assinatura no comprovante da compra é realmente a do titular.

E quem fica com o prejuízo? Qualquer um, menos o cliente. O comerciante toma diversas providências para evitar ser lesado, enganado, fraudado ou roubado. Praticamente ninguém mais aceita cheques.

Se os comerciantes têm esse direito, então também tem seus deveres. Quem aceita cheque e cartão de crédito tem o dever de conferir na hora a assinatura e os dados cadastrais dos clientes. Tem de conferir a assinatura e o número do RG ou do CPF na hora da venda, mesmo que isso atrase o movimento, provoque filas e ranger de dentes de gente menos paciente. Se não fizer isso, o comerciante correrá o risco de ser responsabilizado pelo banco e pela operadora de crédito.

Uma coisa é certa: o tem de ser ressarcido. É lei e a Justiça cansou de publicar sentenças neste sentido. Os bancos é que são responsáveis pela segurança do sistema. Se alguém clona cartão ou consegue algum meio de obter a senha de alguém, é porque o seu sistema de segurança é falho.

Kássia Correa, advogada da Associação Nacional dos Usuários de Cartão de Crédito (Anucc), reafirma que o consumidor não deve pagar. "Segundo o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, os bancos e as administradoras estão obrigados a ressarcir o prejuízo no caso de fraude. E o consumidor pode recorrer ao Judiciário. "O procedimento leva uns dois meses. “Mas é preciso cuidado, pois, se comprovado que os gastos são do cliente, a cobrança é feita com juros.”

Se o dono do cartão roubado tiver problemas para ser indenizado pelo banco, deve recorrer a um órgão de defesa do consumidor e, em último caso, a um Juizado Especial Cível (Unidade Central - 3207 5857) mais próximo de sua residência.

sexta-feira, julho 29, 2011

Los Hermanos: entre o pedantismo e a quase irrelevência


Assim como a Legião Urbana, a banda carioca Los Hermanos sempre mereceu um tratamento diferenciado e laudatório por grande parte da imprensa especializada. Algum desavisado ou mesmo desinformado cometeu o disparate de dizer que a banda dos barbudinhos tinha o mesmo peso da Legião para os fãs dos anos 2000. E muita gente acreditou nisso.

Los Hermanos acabou, mas vive ameaçando voltar e nos aterrorizar com "Anna Júlia". De vez em vez a banda se reúne para shows esporádicos. Mas seus integrantes nçao nos deixam em paz. Rodrigo Amarante decidiu formar o Little Joy com o baterista do intragável Strokes e uma cantora americana ruim.

Marcelo Camelo se travestiu de bardo e já lançou dois CDs solo misturando a melancolia chatíssima de seu pop insosso com o pior da MPB cafona. Parece que é impossível para os ex-integrantes da banda se livrarem da síndrome de Renato Russo.

Não bastasse o pop rock ruim,as letras pseudoromânticas de gosto duvidoso e os "cabecismos" quase indecifráveis de algumas músicas, ainda temos de aguentar a pose de intelectuais de tais músicos, como se pode perceber na inacreditável entrevista de Camelo à Rolling Stone Brasil de abril (com Ronaldinho Gaúcho na capa).

O cantor desfila uma série de citações cabeçudas para mostrar sapiência e intelectualidade, e posa de intelectual incompreendido e sensível, "em busca da arte perfeita e do som puro", seja lá o que isso for.

Apesar da qualidade sofrível do pop rock do Los Hermanos, tanto Camelo e Amarante eram músicos diferenciados quando davam entrevistas. Nem um pouco deslumbrados quando estouraram com a indefectível "Anna Júlia", falavam com segurança e desprendimento aos jornalistas, mostrando que tinham referências, que tinham algum conteúdo, fugindo da terra arrasada que era a seara intelctual do rock brasileiro no final dos anos 90 e começo dos anos 2000.

Enfim, mostravam-se artistas diferentes, com ideias e coisas interessantes para falar, mes mo que o primeiro CD não fosse lá essas coisas, para ser generoso. O sucesso fez mal aos garotos que queriam ser emos antes mesmo do surgimento destes.

As misturebas de pop rock com MPB e samba confundiram os fãs e não levaram a banda a lugar algum. Apesar disso, o tom das entrevistas mudou, com a complacência de parte expressiva da imprensa embasbacada. O pseudointelectualismo começou a dominar as conversas, e os integrantes da banda realmente acharam que estavam fazendo um trabalho musical revolucionário, quando na verdade era o contrário.

A implosão do grupo não foi suficiente para amenizar os discursos fora de contexto e de ordem, em um momento em que se valoriza cada vez mais a simplicidade.

Não escutei o último trabalho de Marcelo Camelo, "Toque Dela", e não pretendo escutar, pois não tenho interesse no gênero muscial praticado por ele. O que já escutei de Los Hermanos na vida foi o suficiente para me afastar de qualquer trabalho de seus integrantes.

Mas é chato constatar hoje que as entrevistas de artistas que ao menos tinham alguma coisa a dizer no passado hoje nada mais são do que reflexos diretos do pedantismo que dominou parte expressiva dos trabalhos dos Los Hermanos.

terça-feira, julho 26, 2011

Mutantes, a banda mais superestimada da história


Um é pouco, mas sempre será mais do que zero. Muita gente usa essa máxima como argumento para justificar a existência ou gosto por alguma coisa. Se não tem coisa melhor, vai esse mesmo, segundo dizem por aí.
Não consigo deixar de pensar nisso toda vez em que ouço qualquer música dos Mutantes – 100% das vezes contra a vontade, seja em bares ou na casa de amigos.

A banda faz parte do grupo dos artistas mais superestimados do planeta e da história. Só não supera o “mito” João Gilberto, o suposto criador da bossa da nova e de um suposto “novo jeito” de tocar violão, mas que na verdade não passa de um violeiro egocêntrico que toca e grava as mesas cinco músicas há 55 anos.

Os Mutantes surgiram em um momento importante ao mesmo tempo complicado da história da música brasileira – e da história social e política do país.

Foi um sopro de criatividade em um tempo de terra arrasada, onde um bando de coitados fazia passeata contra a guitarra elétrica e os festivais de MPB não passavam de concursinhos de cartas marcadas, com as vacas sagradas de sempre dando as cartas – seria muito interessante ver Elis Regina nos anos 80 ou hoje em dia fazendo passeada contra o computador...

Portanto, em época de terra arrasada e de pseudocontestação – no caso da intragável Tropicália –, os Mutantes e até mesmo Ronnie Von vieram para chacoalhar o ambiente e mostrar que era possível fazer crítica social e ter bom humor no rock’n roll, mesmo que fosse por meio de músicas ruins e letras pseudointelectuais.

A maior prova de que os Mutantes eram e são bem menos do que a “história oficial” dos baba-ovos dizem que são é que a melhor coisa do grupo, a cantora Rita Lee, foi defenestrada no auge da banda. Como vingança, engatou uma carreira solo de extremo sucesso e de boa qualidade, transitando com competência entre o pop e o rock.

Seus “companheiros” de banda não tiveram a mesma sorte. A saída de Rita Lee coincidiu com o declínio, em 1974 – se é que era possível cair mais, já que nunca foram tão longe, seja criativamente ou em termos de sucesso.

Os álbuns que vieram era mais fracos ainda do que os considerados “grandes trabalhos”. Com idas e vindas de integrantes, embarcaram na moda do rock progressivo, mas sem ter a competência de gente como Patrulha do Espaço, O Terço e Bacamarte, entre outros. Foi a senha para que o grupo morresse de inanição.

Muito esperta, Rita Lee fugiu da reunião dos Mutantes nestes anos 2000. Abençoou para não ficar com a pecha de mal humorada, e elogiou a escolha inicial de Zélia Duncan para substituí-la, mas teve a sabedoria para fugir do mico.

O fato é que os Mutantes versão século XXI só existem graças a meia dúzia de músicos metidos a intelectuais e com fama de cult, que começaram a dizer ainda nos anos 90 que “tinham sido muito influenciados por Mutantes, ícone da psicodelia mundial”, teria dito certa vez o músico norte-americano Beck à revista Bizz.

Assim como ele, outros fingidores e pseudointelectuais adoravam se mostrar cults citando a banda e até mesmo Tom Zé. Entre esses estavam músicos inexpressivos como Sean Lennon, filho do ex-beatle John Lennon, e gente respeitada e com trabalhos consistentes, como David Byrne (ex-Talking Heads), um entusiasta da chamada world music.

Essa babação de ovo até que animou os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista a se reunirem quase 30 anos depois para alguns shows com lotação esgotada em Londres e Nova York, que renderam um álbum ao vivo.

Nada disso, no entanto, foi suficiente para resgatar os Mutantes do limbo, já que faltou estofo para que continuassem, caso realmente houvesse um genuíno interesse pela volta da banda. Tanto não houve que Arnaldo Baptista pulou do barco.

Os Mutantes conseguiram inscrever seu nome na história e tiveram importância na história da música brasileira em um momento de total terra arrasada – um é sempre mais do que zero. No entanto, nunca passaram de uma banda de rock medíocre, com músicos e compositores no máximo medianos.

Nunca foram referência nem mesmo para a geração do rock brasileiro dos ano 80 – alguns músicos deste movimento só passaram a elogiá-los quando isso virou moda. Nunca foram um desastre, mas com certeza são uma das bandas de rock mais superestimadas da história.

sábado, julho 23, 2011

Pirataria é crime, mas quer virar partido político


O tema pirataria e downloads ilegais parece que está na moda, mas, infelizmente, cada vez mais atrai gente desqualificada e desclassificada para o debate.

Na verdade, as discussões sobre o assunto são completamente estéreis, já que debate-se sobre o nada: pirataria e os downloads ilegais avançam minuto a minuto e ninguém faz nada.

O governo federal e as polícias estaduais, a quem caberia fiscalizar e punir os infratores e criminosos, não o fazem. Na prática, pela omissão, o governo brasileiro já legalizou a pirataria.

Isso ocorre de forma deliberada, pelo menos desde 2002, quando o PT subiu ao poder com Luiz Inácio Lula da Silva, herdando uma estrutura viciada e caduca que caía aos pedaços já no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso. Mas uma coisa está mais do que clara: o governo do PT, deste que assumiu a Presidência, é, no mínimo, leniente em relação a todas as formas de pirataria.

E o pior é que já existe gente defendendo abertamente o crime e pensa em se beneficiar ainda mais disso. Interessante texto publicado na edição de 25 de abril do suplemento Folhateen, da Folha de S. Paulo, mostram que avança na Europa o Partido Pirata, já presente em 26 países. Uma sueca de 23 anos foi eleita como suplente deputada pelo partido ao Parlamento Europeu.

Aqui no Brasil existe um embrião do tal Partido Pirata, criado em 2007, mas ainda ínfimo e desconhecido. A plataforma política é totalmente estapafúrdia: legalizar os downloads de qualquer coisa na internet, lesando artistas de todas as espécies e cuspindo nos direitos autorais, entre outras bobagens.

Na França, por exemplo, pretendem derrubar no Parlamento a chamada lei Hadopi, que dá poderes ao governo desconectar, multar e até prender quem baixar arquivos ilegais na rede. Por enquanto estão muito longe do objetivo, e tomara que fiquem cada vez mais longe.

O que esses energúmenos que fazem parte do tal partido pregam é crime e incitação ao crime. Precisam ser processados e, de preferência, condenados.

Está claro que todos os que lidam com cultura e obras artísticas vão precisar encontrar meios de evitar a apropriação descontrolada de conteúdo digital ilegal. Afinal, está mais do que claro que hoje é impossível deter o avanço tecnológico que possibilita a disseminação da pirataria de forma indiscriminada, mas nem por isso devemos aceitar que a internet vire terra de ninguém.

quarta-feira, julho 20, 2011

No lugar errado, na hora errada. Será que vale a pena?


Bar novo e frequentado por roqueiros e apreciadores do blues. Nas telas de plasma, só o pior do soft rock nacional. Mas eis que surge Nando Reis, ex-Titãs, em algum programa da MTV nacional, na praia, para incomodar os presentes.

Acústico, anódino, insípido e incolor, sua música soa como ruído chato, até que alguém resolve prestar a atenção, na mesa ao lado, e consegue ver Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, fazendo uma “participação especial”, assim como viria depois outro chato do politicamente correto, Samuel Rosa, do Skank.

Os comentários radicais foram instantâneos: “Vendido”, “traíra”, “traidor”, “oportunista” foram os mais leves impropérios. Merecidos? Depende do nível de radicalismo. Seja como for, o fato de Kisser brincar de tocar violão em um “especial” de TV de Nando Reis incomodou, e ainda incomoda.

A conversa está fora de moda, em tempos nojentos e asquerosos do politicamente correto. De certa forma, o radicalismo é coisa do passado – e é bom que seja mesmo, principalmente na política brasileira, onde ainda existem remotas ameaças de grupelhos atrasados e medievais de extrema-esquerda de conseguirem passar suas “plataformas” estapafúrdias no governo Dilma Roussef.

No rock, o radicalismo, ao contrário, sempre foi saudável, pois é fundamental para manter certas coisas em seus devidos lugares e para chutar as cabeças de gente mimada que não tolera críticas aos seus artistas amados e insuportáveis – para não dizer péssimos. Talvez esse tenha sido o maior legado do movimento punk, especialmente o da vertente 1977.

Que Andreas Kisser é um arroz de festa em São Paulo não resta dúvida. Além de Nando Reis, já teve algum contato musical com seres tão díspares como Arnaldo Antunes e Júnior, o irmão da Sandy. Para os mais radicais, houve ainda a participação no CD solo de Hudson Cadorini, da dupla sertaneja horrenda Edson e Hudson – neste caso, críticas injustas, pois o CD solo do cidadão é totalmente hard e heavy.

Chamar o guitarrista do Sepultura de oportunista, no entanto, não é correto, já que ele nunca escondeu suas influências e jamais negou que gostaria de tocar com outros artistas. Seu primeiro álbum solo, “Hubris I and II”, é um exemplo claro de sua versatilidade, fazendo experimentações e passeando por estilos completamente opostos ao thrash metal de qualidade que sempre fez no Sepultura.

A questão que fica para fãs e críticos é a seguinte: o que acrescenta à carreira de Kisser tocar violão na praia com Nando Reis? Ou eventualmente tocar em algum show ou participar de álbum de algum artista de MPB?

Kisser integra um time de ponta do heavy metal internacional, ainda que não esteja mais no auge. Assim sendo, se a deia é ampliar horizontes, então que seja com gente do mesmo patamar técnico e criativo, que realmente possa acrescentar algo, como os amigos do Metallica e do Megadeth, como Lemmy, do Motorhead, ou o pessoal do cast da gravadora Roadrunner, que já se reuniu para várias jams e covers e eventos da empresa.

Kisser se rebaixa ao fazer concessões e participações inusitadas? Não usaria esse termo, até em respeito a ele e aos artistas que o convidam. Mas não dá para deixar o estranhamento de lado quando vejo alguém do porte de Andreas Kisser fazendo música pop insossa em um DVD de um músico que já foi roqueiro dos bons e que hoje prefere a MPB.

O guitarrista perde tempo com essas participações? Talvez sim, talvez não. Mas não consigo evitar a sensação de que há algo sendo despediçado. Não acho que chega ao ponto de macular a carreira de um dos instrumentistas mais respeitados do heavy metal internacional, ou de abalroar sua credibilidade.

Quando se fala de um artista deste porte, de qualidade inquestionável, é preciso se levar em conta suas ambições artísticas, por mais esquisitas que sejam – quem não se lembra de Kirk Hammett, guitarrista do Metallica, tocando e produzindo álbuns para artistas pop estapafúrdios nos anos 90?

Quem sabe se todo mundo não lucrasse mais com um “Hubris III” ou “Hubris IV”? Se a ideia é buscar horizontes e experiências diferentes, então seu trabalho solo está no caminho correto. Seria um “tropeço” ou um “deslize” quando Kisser resolve aceitar um convite como o de Nando Reis?

O radicalismo no rock continua sendo saudável, especialmente no metal. É um subgênero que faz questão de preservar a memória e as tradições. Certas intolerâncias são necessárias para que artistas consagrados jamais esqueçam seu legado.

Andreas Kisser jamais esquecerá o seu legado e a sua origem. O duro é er de ouvir os tais impropérios na mesa ao lado e, mesmo se eu quisesse, não ter argumentos para rebater depois de ver o guitarrista do Sepultura fazendo base no violão para as canções esquecíveis de Nando Reis…

domingo, julho 17, 2011

POr que o Rio continua sendo o túmulo do rock?


O Iron Maiden tinha acabado fazer um show debaixo de muita chuva no estacionamento do Anhembi, em São Paulo, para mais de 30 mil pessoas, em dezembro de 1998. Poucas pessoas sabiam, mas aqueles shows pela América do Sul eram a despedida do vocalista Blaze Bayley – nem ele mesmo sabia disso.

A banda voou para o Rio no dia seguinte, onde tocaria na enorme casa noturna que muda de nome a cada patrocinador (Claro Hall? ATL Hall? Imperator?). Foram colocados 10 mil ingressos à venda, mas nem 8 mil foram vendidos. O evento quase deu prejuízo aos produtores, que definiram ali mesmo: Iron no Rio novamente, só em festival, e olhe lá.

Um outro produtor de shows conhecido no mercado decretou algo que o músico Lobão sempre disse em relação à cidade do Rio de Janeiro: é o túmulo do rock. Nos últimos 15 anos, foram incontáveis as turnês internacionais que passaram pelo Brasil, com bandas de grande, médio e pequeno portes, e ignoraram o Rio. Quem insistiu, teve shows cancelados, como a excelente banda de thrash Death Angel, em outubro passado.

Até mesmo o Anvil, banda canadense que voltou à cena e a ter manchetes por conta de um maravilhoso documentário sobre a sua carreira, tocou em São Paulo e em Catanduva, mas ignorou o Rio. Os shows internacionais são cada vez mais esporádicos, e isso acontece há muito tempo.

E olha que 2010 nem foi tão ruim assim, com shows de gente como Manowar, Epica, Marduk e Blaze Bayley. O chato é que o público em todos os shows foi pequeno, muito aquém do esperado para atrações desse nível – parabéns para os heróis que promoveram esses eventos.

Para a grande sorte do roqueiro carioca, parece que o cenário rocker, que começou a ser ressuscitado no ano passado, promete retirar o gênero da tumba na terra do carnaval. Neste primeiro semestre tocam na cidade Ozzy Osbourne, Avenged Sevenfold, Doro Pesch, Tarja Turunen e D.R.I., entre outros. Será que serão suficientes para resgatar o interesse do público da cidade pelo rock? Acho difícil, mas a torcida será grande.

O chato é que bandas brasileiras de rock de nível internacional, como Angra, Korzus, Shaman, Krisiun e Hangar, tocam bem menos do que deveriam na cidade. Renato Tribuzy, vocalista e responsável pelo projeto Tribuzy, que gravaou CD e trouxe a São Paulo uma constelação de craques para um show – Ralf Scheepers, Bruce Dickinson, Kai Hansen e vários outros – é carioca, mas pouco se ouve falar de seus projetos na cidade.

Prejuízos

Por que o cidade natal do Rock in Rio despreza tanto o gênero quando ele resolve se manifestar fora do festival? Sobram teorias e explicações das mais diversas e contraditórias, mas o consenso está cada vez mais distante. Uma coisa é certa: produtores de shows de grande e médio portes, se puderem, fogem da cidade.

“O prejuízo é certo. Se não for um megaevento histórico, como Rush, Paul McCartney, U2, AC/DC, Rolling Stones, que vêm ao Brasil a cada cinco ou dez anos, esqueça o Rio. É mais garantido investir em Curitiba ou Porto Alegre, com um público cativo de rock. Até mesmo Belo Horizonte é mais interessante. Para shows de médio porte, o Rio perde até mesmo para Brasília, Goiânia e várias cidades do interior paulista”, diz um experiente produtor de nível internacional que atua no Brasil e na Argentina, mas que pediu para não ser identificado.

Ele evita perder tempo em procurar explicações. “Não faz diferença. Existe um fato: o carioca gosta menos de rock do que o paulista e o gaúcho, que são povos mais aficionados, e mais ligados na música internacional, mais curiosos com o que vem do exterior. Enquanto quase todos os shows de grande porte acabam tendo show extra em São Paulo, o memso evento raramente vende 70% 08 80% dos ingressos no Rio em local bem menor – isso quando o evento também é marcado para a cidade. A diferença é abissal.”

Rock sepultado

Lobão, carioca que se mudou para São Paulo em 2007, filosofa na hora de falar sobre o assunto, mesmo que em tom gerenalista. “O principal fator para eu sair do Rio foi ter sentido que a cidade perdeu o ’tom’ do rock’n roll. O cenário do rock e tudo que se refere ao gênero estão em São Paulo. Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio é o túmulo do rock”, afirmou à revista Quem em 2009 e ao Jornal da Tarde em 2010.

Eric Mattos tem quase 30 anos e já pasou por Curitiba antes de se estabelecer em São Paulo há sete anos. Deixou Niterói, onde nasceu e tocou em quase 20 bandas de metal e punk, para trabalhar com música e computação em outro lugar.

“Há roqueiro de monte no Rio e em Niterói, mas não há cena. Há é muita preguiça e falta de interesse. Cansei de tocar para 20 pessoas em boteco e praça na minha cidade, sabendo que todos os meus amigos preferiam estar na praia ou vendo jogo de futebol de várzea. Nem meus primos, que são todos roqueiros e tocam instrumentos, iam me ver tocar como eu ia vê-los. Chega uma hora que não dá”, diz o músico fluminense.

Em Curitiba não tocou profissionalmente, mas não perdia um show de rock aos finais de semana. “Dependendo da banda, tinha de implorar por um ingresso, de tão lotado que ficava. Tudo bem, nem eram tantos lugares assim com shows de rock, mas havia público para todos, até mesmo para os batidos covers de rock nacional. Em vários shows de bandas locais não consegui entrar no bar. Jamais vi isso em Niterói ou no Rio, onde existem bandas espetaculares, mas que não tocam mais”, afirma Mattos.

Em São Paulo, ele tenta conciliar o trabalho de programador com o de integrante da produção de vários shows internacionais. “Nem dá tempo para pensar. Há show de tudo quanto é tipo em São Paulo, as opções são tantas que fica difícil acompanhar. Claro que nem todos são um sucesso, há aqueles com pouco público, mas assim mesmo é vantajoso para quem trabalha nesta área, para quem investe. Não tem público hoje, mas tem amanhã. E as bandas locais conseguem ao menos levar uma galera para seus shows. As melhores bandas de Niterói nem sonham com uma cena dessas.”

Longe da perfeição, mas sem comparação

Claro nem tudo é a maravilha que se pensa em São Paulo, ao menos em relação aos shows menores. Não é por outro motivo que o vocalista Thiago Bianchi, do Shaman, divulgou dois manifestos recentes a respeito da dificuldade que bandas brasileiras de metal em geral encontram para tocar com regularidade, seja em São Paulo, seja no resto do país.

Os paulistanos do Kavla suaram bastante quando reformaram a banda, em 2005, para divulgar EP “Impersonal World”. Os santistas do Shadowside também tiveram de batalhar muito para conseguir tocar com regularidade em São Paulo entre 2006 e 2008. E assim caminha o esforço de quem faz rock de qualidade.

Os gaúchos do Holiness e do Hangar colhem agora o resultado de muito trabalho nos últimos três anos e têm conseguido um público considerado muito bom em shows em São Paulo, tanto na capital como interior, e no Paraná.

O Hangar até conseguiu um onibus de turnê de um patrocinador para levar seus “workshows” a vários lugares do Brasil. Lamentavelmente, as aparições das duas bandas no Rio são cada vez mais raras. “No Rio, só workshop mesmo do Aquiles Priester (bateria), e para poucas pessoas. Show ou workshow não dá para programar”, disse um produtor paulista de bandas nacionais, que também prefere o anonimato.

Resignação

O tema é tão incômodo que os músicos carioca de rock e metal evitam falar no assunto. Pelo menos quatro artistas – de quatro bandas diferentes - foram procurados pelo Combate Rock para falar sobre o assunto, mas, educadamente, se esquivaram. Um deles apenas comentou resignado: “Se para ir a show legal tenho de ir a São Paulo, imagina então esperar por público para a minha banda…”

Das muitas conversas que tive nos últimos tempos com amigos jornalistas cariocas, com produtores e músicos ainda em busca de um espaço no mercado, deu para fazer um pequeno apanhado de explicações esparsas sobre o pouco público roqueiro no Rio – e só para registrar, foram pouquíssimos os que discordaram da minha tese:

- O Rio historicamente é uma cidade com diversidade cultural muito grande, assim como Salvador e Recife. Há atrações culturais regionais e locais em grande quantidade. Haveria, então de certa forma, uma autossuficiência neste quesito;

- Assim como Salvador e Recife, o Rio é uma cidade que tem praia, o que por si só já é uma atração e tanto. Muita gente fica muito tempo na praia, que um local de diversão gratuito e com estrutura, seja ela qual for, barata, ou até mesmo gratuita. As pessoas procuram ali mesmo por diversões culturais com baixo custo. Isso explicaria, de certa forma, o “ecletismo” do carioca, que teria menos preconceito em relação a ir a um show de rock e também a um de pagode. A questão é de cunho financeiro;

- O cosmopolitismo do Rio de Janeiro, tão acentuado como o de São Paulo, não foi suficiente para abrir espaço grande para o rock, que encontrou uma sólida cultura arraigada de samba e pagode – e o funk carioca dos morros surgiu para acentuar eesa característica. Para complicar ainda mais, são todos segmentos culturais que, se não são de baixo custo, apresentam custos bem menores do que o rock.

- Um show internacional, por mais barato que custe, não sai por menos de R$ 50 no Rio. Por esse valor, o carioca médio assiste a pele menos cinco apresentações de artistas representativos de outros estilos – quando não esses eventos são gratuitos. Shows de metal de bandas brasileiras de qualidade não custam menos de R$ 30 o ingresso. As apresentações de bandas locais, por sua vez, têm dificuldade de concorrer com outras atrações de baixo custo, como ensaios de escola de samba ou rodas de samba em bairros importantes como Vila Isabel e Tijuca.

- Assim sendo, o ecletismo e a tolerância com várias manifestações culturais acabam prejudicando o rock. A cultura urbana do Rio, assim, teria sido direcionada culturalmente para valorizar as atrações locais e de baixo custo, enquanto que a cultura urbana paulistana, sem tantas opções “naturais”, abriu-se mais para o cosmopolitismo e para manifestações culturais estrangeiras com mais assiduidade.

Pode ser tudo isso ou nada isso, por mais que algumas explicações façam sentido. Ainda sigo em busca de uma explicação para o pouco caso com o rock na Cidade Maravilhosa. Alguém quer acrescentar algo?????????

sexta-feira, julho 15, 2011

White metal, black metal e o preconceito nosso de cada música



Com surpresa vi recentemente o lançamento da banda norte-americana Stryper, um dos maiores expoentes do white metal, ou rock cristão – se não for a principal banda do gênero do mundo, ao lado do Petra e do Mortification. “The Covering” nada traz de novo.

Chegou ao mercado norte-americano em dezembro passado e no europeu em fevereiro. Não traz nada de novo, e aproveitou para embarcar, bem atrasada, na onda do álbum de covers.

Há coisas interessantes ali, como “Heaven and Hell”, do Black Sabbath/Heaven and Hell, “Lights Out”, do UFO, “Highway Star”, do Deep Purple, “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, e “Breaking the Law”, do Judas Priest. É apenas um bom disco, nada mais.

Entretanto, o que me chama a atenção ao ler e procurar mais informações pela internet sobre o álbum é o tom raivoso com que muitos radicais abominam a banda e sua linha filosófica, digamos assim. É a velha batalha entre os próprios roqueiros, que brigam em si defendendo gêneros, subgêneros e correntes ultra alternativas.

O Stryper é uma banda de respeito. Está prestes a completar 30 anos de carreira e já transitou pelo hard rock, pelo hard pop e pelo heavy metal. Já lançou álbuns bem ruins e outros excelentes, sempre tendo a temática religiosa de cunho cristão como carro-chefe das músicas.

Por conta disso, desde os anos 80 o Stryper é execrado pelos radicais e pelos puristas, que consideram incompatível o rock e os temas religiosos. E o pior, muita gente inteligente embarcou e embarca neste caminho equivocado, caindo invariavelmente no “não ouvi e não gostei”.

O rock sempre foi visto como “coisa do diabo” pelas várias correntes cristãs desde os anos 50 até meados dos anos 80, repetindo o que tentaram fazer com o blues e, de certa forma, com a country music voltada para temas mundanos.

Essa situação mudou bastante no Ocidente, principalmente depois que muitos jovens antenados, mas de fé, resolveram se aproveitar do rock e do metal para professar sua fé, primeiro dentro da própria comunidade, e depois para o mercado chamado secular. Venceram pelo cansaço e pela insistência e hoje tempos excelentes bandas dedicadas à louvação e à pregação.

Ainda existem bolsões de resistência total ao rock no meio religioso, especialmente nos rincões mais atrasados dos Estados Unidos e nas seitas evangélicas igualmente atrasadas no Brasil – quase todas em atividade atualmente. Boa parte do mundo islâmico também não tolera essa música “decadente”.

É óbvio, entretanto que o preconceito dos puristas apareceriam até mesmo como argumento de defesa para desqualificar a linha religiosa que o rock adotou em algumas circunstâncias. Afinal, como pode existir alguém que faça rock religioso quando a religião sempre execrou o gênero musical?

Esse pensamento enviesado e equivocado acaba por privar muita gente de muita música boa. Gente que abomina a religião acaba misturando as coisas e deixa de aproveitar o que interessa, que é a música, independente da mensagem.

Assim como existe white rock e white metal, existe o black metal, que prima pelos temas satânicos e demoníacos, geralmente. E não vejo o mesmo preconceito dos roqueiros em geral contra as bandas de black metal.

Ou seja, falar de satanismo e diabo pode, são termas tolerados pelos roqueiros médios, mas falar de temas cristãos e até mesmo pregar não pode. E o curioso é que existem bandas de metal extremo no Brasil e no mundo que fazem músicas louvando a Deus e Jesus Cristo, remetendo, obviamente, a um Slayer cristão, por mais que isso soe sacrilégio – e soa mesmo.

Seja como for, é uma insanidade ignorar bandas importantes e de boa qualidade apenas por causa da temática de suas letras. Assim como o Stryper é uma boa banda, o Mortification, da Austrália, também é.

Por outro lado, os gregos do Rotting Christ são excelentes, assim como os poloneses do Behemoth e do Vader, e de muitas outras bandas que passeiam por temas satânicos ou antirreligiosos. Esse preconceito não tem sentido. Muita gente leva a sério demais as letras alegóricas, tanto de um lado como de outro.

No campo brasileiro, é bobagem ignorar bandas ótimas como Destra e Eterna, por exemplo, que fazem white metal em inglês, ou o excelente Oficina G3, que já fez hard rock em português com letras não diretamente ligadas à religião, mas com temática filosófica que ia por esse caminho.

Assim como temos, do outro lado, coisas muito bem feitas, como Unearthly, Occultan, que fazem o mais brutal metal extremo com temas diabólicos.

É evidente que, em casos ultra-extremos, como grupos de rock ou de qualquer gênero musical, que promova e incentive mensagens racistas, nazistas e ou violentas contra grupos de seres humanos, não podem ser apoiados, mas creio ser desnecessário prolongar essa questão.

Por não professar qualquer religião ou filosofia religiosa – na verdade, por abominar qualquer tipo de religião e, por isso considerar qualquer pregação uma bobagem, assim como qualquer coisa relativa ao satanismo (suprema estupidez, na minha opinião) – talvez eu consiga lidar melhor com essa questão de white metal x black metal.

Já execrei o Stryper por ser cristão nos anos 80, até que escutei a banda pela primeira vez. Mudei de ideia quanto ao som, mas não quanto à mensagem – que continuo abominando. Mas a música era bem feita.

Existem inúmeros artistas e músicos de rock cujas mensagens em letras são obrigatórias e maravilhosas – desnecessário citar alguém. Do mesmo modo, existem milhões de outros artistas e músicos que precisam ter suas letras ignoradas, seja por má qualidade, seja por imbecilidade.

Independente de sua fé (ou falta de), talvez seja uma atitude de tolerância, ou até mesmo de mera questão informativa, ouvir white metal ou black metal sem prestar muita atenção nas mensagens, que geralmente não passam de pura bobagem na esmagadora maioria dos casos.

A música tem de prevalecer. Garanto que haverá muitas surpresas para quem se dispuser a colocar temporariamente os preconceitos de lado e procurar ouvir coisas interessantes com Stryper, Mortification, Eterna, Destra e Oficina G3, entre outros.

quarta-feira, julho 13, 2011

‘Seventh Star’, outro álbum cult e de qualidade do Black Sabbath


Glenn Hughes estava nervoso nos camarins do antigo Tom Brasil, no bairro do Itaim-Bibi, na zona sul de São Paulo. A casa era sofisticada, moderna e com ótimos recursos acústicos. Era raro que roqueiros se apresentassem ali, e o ex-baixista e vocalista do Deep Purple era o maior nome internacional a tocar ali até então – 1999.

Era a terceira visita ao Brasil, mas somente o segundo show em terras brasileiras. Ele havia prometido uma grande surpresa ao público brasileiro, uma música que nunca havia tocado em sua carreira solo.

Os mais fanáticos especulavam qual seria a surpresa e a maioria não pensou duas vezes: cravou “No Stranger to Love”, ótima balada gravada por ele na rápida e conturbada passagem pelo Black Sabbath em 1986. A aposta foi certeira e a música trouxe abaixo o Tom Brasil, com o público de 2 mil pessoas cantando alto a bela música do álbum “Seventh Star”.

Pois esse álbum do Black Sabbath, assim como “Born Again”, virou cult na América do Sul. A produção e a mixagem não foram toscas e malfeitas como no álbum de três anos antes, em que Ian Gillan foi o vocalista. Entretanto, as gravações e a própria construção do trabalho foram extremamente conturbadas.

“Seventh Star” era para ser um álbum solo de Tony Iommi após a saída de Ian Gillan do Black Sabbath em 1984. O futuro incerto e a dificuldade de encontrar um vocalista no ano seguinte fizeram com que o baixista Geezer Butler também saísse bem no meio dos testes realizados com os cantores Dave Donato e Jeff Fenholt.

Decidido a fazer um álbum solo e congelar temporariamente o Sabbath, Iommi convidou vários amigos para cantar no álbum, entre eles Gillan, Glenn Hughes, Robert Plant, Rob Halford e Geoff Tate, então emergente no Queensryche. Os dois primeiros aceitaram na hora.

Durante as gravações, no final de 1985, a gravadora mudou os planos de forma asquerosa e colocou o guitarrista na parede: ou o álbum saía com o nome do Black Sabbath ou seria cancelado. Ao mesmo tempo, apenas Hughes já tinha feito a sua parte – os outros voclaistas estavam sem tempo para participar.

O jeito foi convencer Hughes a cantar o álbum todo – o vocalista revelou mais tarde, em São Paulo, em 1994, sua mágoa por ter descoberto que seria um CD do Black Sabath somente após as mixagens.

Seja como for, “Seventh Star” é um álbum irregular, desconexo, sem um elo que conseguisse ligar faixas tão distintas e heterogêneas – exatamente como em “Born Again”, só que de forma mais acentuada. Entretanto, a produção se esmerou em tentar dar uma “cara” para o trabalho e, de certa forma, foi bem-sucedida.

Mesmo em seu inferno astral particular, afundado no álcool e nas drogas, Glenn Hughes fez um trabalho digno e bastante aceitável. Cantou muito na pesada e rápida ”In For the Kill”, mostrou que tem o blues no sangue na excelente “Heart Like a Wheel” e muito feeling hard em “Seventh Star” e “Danger Zone”.

Naquela que seria o ponto baixo do álbum, a brega “No Stranger to Love”, o vocalista mostrou todo o seu talento e a transformou no destaque do álbum, colocando um acento bluesy em uma interpretação soberba, apesar da camada exagerada de teclados – o clipe da música teve a atriz Denise Crosby contracenando com Iommi; a moça teve papel de destaque na série “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração, como a tenente Natasha Yar.

“Seventh Star” teve uma trajetória errática nas paradas, assim como “Born Again”. Se este inicialmente vendeu bem nos Estados Unidos para depois cair no esquecimento no resto do mundo no biênio 1983-1984, o álbum com Hughes passou despercebido desde o começo, apesar do sucesso inicial de “No Stranger to Love” nas rádios e na MTV.

A turnê de 1986 do álbum foi um fracasso, com desavenças entre os músicos e a substituição de Hughes por Ray Gillan no quinto show norte-americano. Muitos shows foram cancelados e Iommi rezou para que os shows acabassem.

O trabalho “Seventh Star” foi redescoberto graças a reedição de todo o catálogo do Black Sabbath em LP na Argentina e na estreia em CD do álbum no Brasil, em 1989. Nostalgia ou não, o fato é que foram necessárias seis prensagens portenhas de “Seventh Star”, “Eternal Idol”, “Headless Cross” e “Tyr” em LP para saciar a sede dos argentinos.

Por conta das importações dos vinis da Argentina, que viraram objetos de desejos dos fãs brasileiros, a Universal rapidamente providenciou uma reedição dos quatro álbuns tanto em LP como e em CD. E o sucesso foi ainda maior do que na Argentina. Pouco tempo depois “Born Again” voltou ao mercado, com sucesso igual.

Por que “Seventh Star” também é cultuado no Brasil como “Born Again”? O disco com Gillan, ao menos, é uma obra-prima, com ótimas músicas (“Trashed”, “Hot Line” e “Disturbing the Priest” se tornaram clássicos, mesmo que tardiamente).

“Seventh Star” está longe de ter a mesma qualidade que “Born Again”. Foi um álbum feito às pressas e teve uma quantidade imensa de problemas na definição dos músicos e nas gravações. Mesmo assim, tecnicamente apresenta um resultado superior ao de “Born Again” – graças à mixagem de Jeff Glixman, Ray Staff e Greg Fulginiti.

Quem tem a chave para entender a questão é o próprio Glenn Hughes. “Brasileiros, argentinos e japoneses costumam valorizar alguns aspectos da produção musical que vão além da questão mercadológica. Meu trabalho com Pat Thrall(“Hughes and Thrall”, de 1982) teve um desempenho inacreditável no Japão e até hoje vende bem, sendo que no resto do mundo ele não teve tanta repercussão ao longo dos anos. ‘Seventh Star’ é cultuado na América do Sul porque ele é diferente, não se parece com nada na minha discografia e nem com a do Black Sabbath – nunca eu e Tony (Iommi) fizemos algo parecido com aquilo e nem voltaríamos a fazer, com quem quer que fosse. É de certa forma acessível, nem tão pesado, um contraponto ao hard rock norte-americano que dominava as paradas. Não sei se é bom ou ruim, o público é deve dizer, mas considero que nele há músicas interessantes e fortes”, disse o músico em entrevista a três jornalistas em um hotel pauoistano após o show do Tom Brasil.

sábado, julho 09, 2011

Rock ruim incentiva crianças a ouvir rock bom?


A sala do conservatório estava cheia. O calor era forte, mesmo para o interior do Estado de São Paulo neste começo de outono. Muita gente boa que fez parte do rock da cidade estava lá para ver a exibição de formatura dos filhos.

Um garoto magro, de cabelos longos presos em um rabo de cavalo, incomodado com o blazer elegante que vestia, nem olhou para a plateia quando subiu ao palco. Com um violão Ovation tinindo de novo e maravilhosamente afinado, executou três peças para demonstrar o que aprendera no violão clássico aos 13 anos de idade.

Não parecia estar nervoso. Quando começou a tocar, ficaram nervosos todos os roqueiros que apreciam boa música. Naquele conservatório de Jundiaí, o menino executou quatro partes de “Concerto Suite for Electric Guitar and Orchestra in Eb menor, Opus 1”, clássico do mago da guitarra sueco Yngwie Malmsteen.

A execução foi perfeita, assim como algumas partes de “Concert for Group and Orchestra”, do Deep Purple, para encerrar com uma peça de Bach. Ao agradecer os efusivos aplausos e sair do palco, o garoto tirou o blazer. Vestia uma camisa preta do Dream Theater. Isso ocorreu em 2008. Hoje o mesmo garoto toca em três bandas de rock pesado e está prestes a se tornar um músico erudito _ e conhece muito de rock.

Ontem, durante uma festa de pré-adolescentes, uma garota de dez anos, bem vestida para festa, me perguntou o que eu achava da banda Paramore. Respondi que não gostava, que era bem fraquinha e que faltava na qualidade nas músicas. Ela ficou me olhando intrigada, e depois me mostrou um CD da boa banda feminina The Runaways.

“Quem lhe deu isso?”, eu perguntei. “Meu pai. Vimos o filme delas em DVD e fiquei emocionada. Mas agora eu não sei mais o que fazer: gosto do Restart e do Paramore, mas agora amo essa banda…”

Com a minha característica falta de sensibilidade de metaleiro radical, nem pensei duas vezes: “Esqueça Paramore e a bandinha colorida. Runaways é a melhor porta de entrada para o rock.” Ela fez cara feia e entrou para o saguão do prédio. Para minha surpresa, ela era a guitarrista da bandinha de rock da escola que tocou três músicas na festa, duas da tal Paramore e uma do Restart.

Para quem teve a paciência de ler as duas historietas, a questão que fica e que dominou a conversa entre os demais pais, roqueiros das antigas e com graus variados de informação sobre o que rola atualmente, foi a seguinte: até que ponto é válido incentivar as crianças a ouvir rock, mesmo que seja porcaria, como forma de iniciação?

Um ex-baterista de pouco talento, mas muita paixão por Neil Peart, do Rush, tentou definir a questão. “Tá, Restart é bem ruinzinho, é o ‘Menudo’ dessa geração, mas pelo menos é rock, não é pagode, axé ou sertanejo. Que meu filho escute CPM 22, Fresno e outras coisas emo, mesmo que sejam ruins. é mais instrutivo do que o resto.”

Os cinco roqueiros se dividiram neste papo de arquibancada, em que nem mesmo quem fala mais alto tem razão e a discussão acaba com pouca ou nenhuma conclusão.

Há cinco anos eu achava que ouvir CPM 22 era melhor do que nada – axé, pagode, sertanejo e MPB cabeçuda são nada. “Pelo menos é rock”, dizia eu, na esperança que o emocore dos garotos servisse ao menos para despertar o interesse das crianças para o que realmente importava no rock.

Mudei de opinião. Na verdade não faz diferença, a julgar pelas conversas que frequentemente tenho com amigos e pelo que leio nos jornais. São poucas as crianças que mantém algum interesse genuíno pela música quando a febre passa. Essas bandas adolescentes somem assim que as crianças e pré-adolescentes de dois anos atrás crescem. Alguém aí sabe por onde anda CPM 22 e NX Zero?

A grande maioria da molecada, pelos relatos de pais, professores e irmãos de crianças e pré-adolescentes, adere a algum ritmo musical por modismo, e geralmente não faz diferença: começa com Restart, depois pula para Paramore e desemboca em Luan Santana. A relação com a música fica superficial.

Isso explica, em parte, porque os roqueiros são mais fanáticos e interessados em música, na média, do que os apreciadores de outros gêneros. Talvez explique porque a maioria de nossos amigos é tolerante com a música, sendo capazes de se divertir, à maneira deles, no show do Iron Maiden e do sertanejo Leonardo, por exemplo.

Descontando o saudosismo, e sem o menor rigor científico de amostragem, percebo – e não apenas eu – que mudou bastante a relação dos jovens com a música.

Os roqueiros sempre foram minoria nas escolas e nos grupos de jovens em geral, mas a impressão que tenho é que o número de garotos roqueiros que têm grande interesse pela música – que vão atrás de CDs, MP3 e qualquer tipo de informação – diminuiu em relação aos anos 80.

Por todos os ambientes em que circulo, seja em São Paulo ou em outras cidades de São Paulo e outras capitais, a intensidade da relação da maioria da juventude hoje não é mais a mesma – ou está bastante diferente.

É muito legal ver garotos e garotas acompanhados dos pais ou de responsáveis curtindo adoidado o show do AC/DC ou do Iron Maiden. Como será que esses meninos e meninas foram introduzidos no rock e no rock pesado?

Hoje tenho certeza de que não foi por meio das bandas adolescentes carentes de talento e credibilidade que infestam o mercado atualmente, lamentavelmente – gostaria que fosse, pelo menos esses artistas teriam servido ao menos para alguma coisa.

E cada vez mais circunstâncias como essas reforçam o estereótipo do pai que luta para que os filhos torçam para o mesmo time que o dele: é necessária uma marcação cada vez mais cerrada dos responsáveis para que as crianças e pré-adolescentes sejam cada vez menos suscetíveis à música ruim, já que é impossível ao menos amenizar a exposição ao lixo sonoro.

Informação é tudo em qualquer área de atuação, mas é muito mais fundamental da formação musical de um ser humano. Expor crianças ao pagode, ao axé, ao sertanejo e às MPB da pior qualidade deveria ser crime hediondo, inafiançável e passível da perda da guarda dos filhos.