segunda-feira, janeiro 30, 2012

Ziquito, dos Jordans, um dos pioneiros do rock no Brasil

Houve um tempo em São Paulo que se fazia rock sem saber que aquilo que era rock. E isso muito, mas muito antes de surgirem Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia, Jorge Ben, Raul Seixas e toda a Jovem Guarda. Há historiadores brasileiros que não hesitam em cravar mês, ano e local do nascimento do rock no Brasil: janeiro de 1956, bairro da Moóca, zona leste de São Paulo. Um baterista, um baixista e dois guitarristas formavam uma banda que se tornaria The Jordans em 1959 e embarcaram na onda da música instrumental que começava a ganhar corpo nos Estados Unidos e na Inglaterra, com lendas como The Shadows, Dick Dale, Link Wray e The Ventures, entre outros. O nome foi inspirado na banda The Jordanaries, que acompanhou Elvis Presley na época por algum tempo. Um dos integrantes da época de ouro do início do rock no Brasil (e no mundo) foi guitarrista João Salvador Galatti, o Ziquito, que morreu no mês de outubro em Taquaritinga, no interior de São Paulo, aos 69 anos, em consequência de um infarto sofrido no início da semana. De estilo elegante e econômico, Ziquito tinha prazer em soltar fraseados melódicos enquanto a banda se divertia com as bases bem elaboradas e bem arranjadas, geralmente de sucessos de bandas do exterior, como os próprios Shadows e Ventures. Aliás, Hank Marvin, líder dos Shadows, era uma de suas referências no rock. Nos cerca de dez anos em que ficou com o grupo, tocou com quase todos os nomes importantes da música brasileira da época – Roberto e Erasmo Carlos, Incríveis, Renato e Seus Bluecaps e outros astros da Jovem Guarda. Antenado e bem informado, Galatti ouvia bastante Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e alguma coisa do rock italiano dos anos 60, e tentou sem sucesso convencer os companheiros a mudar o direcionamento dos Jordans, insistindo para que incluíssem um cantor e se adequar à vertente mais pop que crescia no Brasil a partir de 1966. Ziquito se orgulhava do prestígio que os Jordans obtiveram no exterior e afirmou que parte da banda chegou a se encontrar com os Beatles nos Estados Unidos em meados dos anos 60 (ele não participou desta turnê). Decepcionado com a manutenção do estilo puramente instrumental deixou a banda em 1970 e começou a se apresentar em bailes no interior de São Paulo com diversos outros grupos musicais de vários estilos, até que se estabeleceu em Taquaritinga. Para o jornalista Gustavo Girotto, que conheceu o guitarrista em Taquaritinga, Ziquito era uma “pessoa calma e profundo conhecedor da história da música, pois foi parte viva da construção do rock nacional. Mais do que isso, fez parte de uma geração histórica, cujo amor pela música era sua partitura de vida.” Sobre os Jordans, a banda realizou um grande feito para o incipiente cenário roqueiro brasileiro: em 1961 conseguem uma série de apresentações no programa Ritmos da Juventude na Rádio Nacional de São Paulo, grande celeiro de novos talentos, o que levou aos estúdios. Ainda naquele ano gravam seu primeiro disco um compacto de 78 rpm chamado “Boudha”, e no final de 1961 lançam um LP completo, “A Vida Sorri Assim”. A formação básica no período de ouro teve Aladim (Romeu Mantovani Sobrinho), Sinval (Olímpio Sinval Drago), Tony (José de Andrade), Foguinho (Waldemar Botelho Júnior), Ziquito (João Salvador Galatti) e lrupê (lrupê Teixeira Rodrigues). No cinema, participam de alguns filmes, um deles com Mazzaropi, “O puritano da Rua Augusta” (1965), inclusive compondo e executando uma música para a trilha sonora. O grupo se separou em 1975, com uma tentativa frustrada de retorno em 1993, mas que levou a banda a participar de uma série de eventos dois anos depois em comemoração aos 30 anos da Jovem Guarda.

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Bert Jansch, um dos gurus do Led Zeppelin

O guitarrista escocês Bert Jansch e o violonista inglês Roy Harper, dois dos grandes expoentes da música folk britânica, bem que poderiam ter sido creditados como coautores do álbum “Led Zeppelin III”. A influência deles na composição das músicas e na elaboração dos arranjos foi tão grande que o próprio Jimmy Page, guitarrista do gigante do rock inglês admite que não sabia onde terminavam as “ideias” dos dois e onde começavam as suas… O escocês Jansch era uma figura citada constantemente como mestre por artistas como Page, Ian Anderson (Jethro Tull), Fish (ex-Marillion), Peter Gabriel (ex-Genesis) , Neil Young, Bob Dylan e Roger Waters (ex-Pink Floyd). Sua mort, em setembro, vitimado por um câncer no pulmão aos 67 anos, provocou, ao menos na Inglaterra, uma saraivada de homenagens. Até que foi pouco, dada a qualidade extrema de seu trabalho solo e na ótima banda folk Pentagle. Seu trabalho mais recente foi o elogiado álbum “The Black Swan” , de 2006 , e no ano seguinte fez a sua última gravação, um aparticipação no álbum ”Shotter’s Nation” , da banda pop Babyshambles, e chegou a tocar ao vivo com Pete Doherty e Carl Barat, dos Libertines. Em alguns círculos musicais britânicos, Jansch gozava de um prestígio parecido com o que João Gilberto desfruta no Brasil e nos Estados Unidos basicamente por conta de sua síntese única e até hoje inigualável de folk, blues e jazz, além de uma técnica diferente e desconhecida de ataque ao violão acústico, até hoje nunca reproduzida com fidelidade por discípulos e admiradores. Tudo isso chamou a atenção sde empresários e músicos na primeira metade dos anos 60. O seu primeiro álbum, ”Bert Jansch”, foi totalmente gravado com um violão emprestado no começo de 1965, em Londres onde chegou após uma semana viajando de carona com caminhoneiros. Com fama crescente nos meios alternativos da Grã-Bretanha, conseguiu se estabelecer artística e financeiramente em Londres e se tornou um dos mentores da desconstrução da balada folk tradicional – algo que ele acentuou com a criação em 1968 do Pentangle, o supergrupo acústico integrado também por com John Renbourn, Jacqui McShee, Terry Cox e Danny Thompson. O Pentangle fez seis álbuns e obteve um grau sem precedentes de êxito alcançado por uma banda acústica. A banda acabou em 1972, sendo que Jansch tentou ressuscitá-la algumas vezes a partir dos anos 80. Aqui no Brasil é muito raro encontrar um álbum do guitarrista ou do Pentagle. O jeito é recorrer ao YouTube e às emissoras de rádio segmentadas na internet. Quem se dispuser a procurar seus trabalhos vai notar claramente de onde veio boa parte da inspiração de Led Zeppelin, Jethro Tull, Uriah Heep e muitas outras grande bandas do rock.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Nova versão de ‘Aqualung’ fica ainda melhor

Em uma de suas muitas passagens por São Paulo, o cantor e flautista Ian Anderson, do Jethro Tull, garantiu que o baú da banda está cheio de raridades e músicas inéditas nunca lançadas, mas que jamais veriam a luz do dia. “Se não foi publicada à época não há porque ser editado 10, 15, 30 anos depois. Além de demandar um caro e lento trabalho ‘arqueológico’, é considero algo mórbido por parte de alguns ficar caçando velharias e raridades quase inaudíveis e sem muita qualidade”, disse o músico pouco antes de um show no Via Funchal em 2001. Parece que ele mudou de ideia, pelo menos parcialmente. Lançado originalmente em 1971, o álbum “Aqualung”, a maior obra-prima da banda e o seu maior sucesso, ganhou uma “edição de luxo” e ampliada para marcar os 40 anos de seu lançamento. “Aqualung: 40th Anniversary Collector’s Edition” tem lançamento programado para dia 31 de outubro trazendo cinco CDs/DVDs, além de uma reedição do álbum em vinil de 180 gramas, com reprodução exata da capa dupla original. Na parte principal, são dois CDs com o trabalho na íntegra em uma nova mixagem, além de vários bônus com gravações raras, takes alternativos músicas inéditas. A caixa contém ainda DVD e Blu-Ray com “Aqualung” em três mixagens diferentes (Surround, 5.1 New Mix e Quadrifônico), além das raridades. Completando o pacote, um grande livreto de 48 páginas repleto de entrevistas inéditas e fotos raras. Para os mortais que não terão condições de gastar a fábula que a caixa vai custar, já está nas lojas brasileiras uma edição dupla em CD, um com o álbum original e alguns bônus e o outro com raridades. O CD 2 é indicado para colecionadores, mas o principal, que é a nova mixagem do álbum original, vale cada centavo, já que realça a sonoridade inovadora e complexa de uma das obras mais importantes do rock progressivo

sexta-feira, janeiro 20, 2012

O Black Sabbath voltou mesmo

Todo mundo já sabia. Por mais que tentassem, os integrantes do Black Sabbath e os empresários envolvidos não conseguiram ocultar o motivo do anúncio oficial feito em Los Angeles, nos Estados Unidos. O site oficial do Black Sabbath anunciou a reunião da formação original, um álbum com inéditas produzido por Rick Rubin (o primeiro em 33 anos), uma data no Download Festival (10 de junho de 2012) e uma tour mundial em seguida. Uma coletiva era aguardada na casa de shows Whisky A Go-Go (onde a banda fez seu primeiro show nos Estados Unidos na década de 70. Com apresentação de Henry Rollins, os integrantes – Tony Iommi (guitarra), Ozzy Osbourne (vocal), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) responderam a uma série de perguntas. “Era agora ou nunca, de verdade. Temos ótima música para tocar,”, disse Iommi, com emenda de Ozzy: “Estava na hora.” Os boatos de reunião começaram a ficar mais intensos no primeiro semestre com o surgimento de informações de reuniões entre empresários dos integrantes do Black Sabbath na Inglaterra. O assunto cresceu em julho, quando um repórter do jornal Birmingham Post, inadvertidamente, divulgou parte do conteúdo de uma conversa que tebe com Tony Iommi, onde o guitarrista teria confirmado que as conversas para a reunião estavam adiantadas e que a banda já teria se reunido pelo menos uma vez em Birmingham, a cidade natal dos quatro músicos. Iommi protestou contra a divulgação não autorizada do conteúdo e disse que tinha sido traído. Tentou negar que haveria a volta do Black Sabbath, meio sem convicção, assim como disse que as informações do Birmingham Post não eram verdadeiras, embora não tinha dito claramente que nada existia em torno da suposta reunião da banda. O jornalista, por sua vez, preferiu o silêncio em vez de publicar com detalhes e e forma completa o que sabia – afinal, foi desqualificado por Iommi e chamado de mentiroso por leitores e agentes do próprio Black Sabbath. Diante da falta de confirmação, a suposta volta do quarteto foi tratada como um boato por quatro meses – o que realmente era até o anúncio oficial de hoje. Uma das maiores bandas da história A volta do Black Sabbath é uma boa ideia? Talvez, embora não seja possível dissociar essa volta como a de tantas outras no mercado musical. Há a desconfiança de que se trata de mais um negócio caça-níqueis, exatamente como ocorreu em 1997, quando a “volta” da formação original ocorreu pela primeira vez – haveria uma segunda, em 2004. O fato é que Iommi e Geezer sofreram um duro golpe com a doença e a morte de Ronnie James Dio no ano passado, vítima de câncer. O Heaven and Hell, banda intergada pelos três e que recuperava a força do Black Sabbath da época de 1980 a 1983, era um grande sucesso e mostrou que tinha muito a dar com o lançamento de “The Devil You Know” em 2008, o excelente álbum de inéditas e que fez muito sucesso. O fim do Heaven and Hell obrigou Iommi a reativar a ideia de retorno do Black Sabbath original, embora não fosse entusiasta da ideia pelo menos até o final do ano passado. O caráter caça-níquel só vai arrefecer quando for lançado o álbum de músicas inéditas – e ainda assim se for um trabalho de qualidade.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Contra fraudes, cheque terá data de impressão nas folhas

Boa notícia para quem tem medo de usar cheques por conta das constantes fraudes. Todas as folhas de cheque deverão trazer a data de impressão, de acordo com norma do Conselho Monetário Nacional (CMN). Estudo do Banco Central (BC) aponta maior frequência de fraudes acontecem em folhas com mais de um ano. A medida vem em boa hora, mesmo com os comerciantes ainda aceitando cheques sem a data ou com data antiga. Existem empresários que estão reclamando que a nova regra pode restringir mais esta forma de pagamento. No entanto, especialistas acreditam que isso não deverá ocorrer. Com base na data impressa, lojista vai analisar caso a caso – se ele tem um cliente conhecido, mesmo que apareça com cheque antigo, poderá continuar aceitando. O problema é que o Procon tem um entendimento confuso e contraditório sobre o assunto. Diz que as lojas não podem recusar um cheque pelo fato de ser antigo, embora tenham o direito de não aceitar essa forma de pagamento no estabelecimento. Muita gente pensa que o cheque desapareceu, mas é apenas uma impressão. O uso do cheque ainda é representativo, tanto que de 2005 a 2010, o valor médio das transações aumentou 79,74% de R$ 558 para R$ 1.003, segundo o Banco Central. A norma que começa a valer hoje faz parte de uma regulamentação dividida em três fases. Uma começou a valer no início do ano, que obriga o portador fazer um boletim de ocorrência do talão em caso de perda e dá a ele o direito de rastrear a folha em contato com o banco, se o beneficiário permitir. Em abril do ano que vem, entra no ar o site Cheque Legal, no qual, qualquer pessoa poderá ter acesso a informações como bloqueio judicial, roubo ou encerramento de conta.

sábado, janeiro 14, 2012

Deep Purple lança obras com orquestra em Montreux

Na recente passagem pelo Brasil, neste mês de outubro, o vocalista do Deep Purple, Ian Gillan, disse mais de uma vez que não havia nada programado nos próximos anos em relação a um novo álbum da banda, mas que o próximo projeto seria o lançamento de (mais) um CD ao vivo, acompanhado por um DVD. Pois a banda acaba de colocar no mercado dois grandes lançamentos. O primeiro é “Deep Purple and Orchestra – Live in Montreux 2011”, em CD duplo e DVD, com o registro deste ano no famoso festival suíço – que ainda preserva o jazz no nome, mas aceita de tudo faz muito tempo. Será o quarto álbum ao vivo gravado em Montreux pelo Deep Purple. Segundo o próprio Gillan declarou ao jornal o Estado de S. Paulo, este concerto de 2011 difere daquele de 2000, quando a banda reeditou o clássico álbum “Concert for Group and Orchestra”. “Rodamos pela América do Norte e alguns países da Europa com uma orquestra mais enxuta, com outro conceito de arranjos e outra dinâmica. Acho que o resultado foi bem interessante.” Para Gillan, o ponto alto da turnê foi justamente a apresentação em Montreux, onde Deep Purple e a orquestra mostraram-se mais entrosados e afiados, “em um palco que é praticamente nosso, é a nossa casa”. O resultado é soberbo. Os arranjos elaborados de forma primorosa e a atuação irrepreensível da banda mostram que o Deep Purple ainda está longe de pendurar as chuteiras. Se Ian Gillan não tem mais a grande voz que o tornou um ídolo do rock – e infelizmente isso fica claro que clássicos como “Strange Kind of Woman” e “Perfect Strangers” ­-, se tornou um bom crooner e mestre de cerimônias, sem que isso soe pejorativo. Afinal, o mestre tem 66 anos e usou sua voz das melhor forma que podia em 47 anos de carreira. O pacote ainda traz no DVD entrevistas com integrantes e os organizadores do festival, bastidores de shows e um pequeno documentário sobre as participações do Deep Purple em Montreux. O segundo lançamento é “BBC Sessions – 1968-1970”, trazendo gravações de shows e de apresentações nos estúdios da famosa emissora de rádio e TV da Inglaterra. As gravações são interessantes porque mostram finalmente a primeira formação do grupo ao vivo. Fundado em 1967 por Ritchie Blackmore (guitarra), Jon Lord (teclados) e Ian Paice (bateria), o Deep Purple ficou completo no final daquele ano com Rod Evans (vocal) e Nick Simper (baixo). Esta formação registrou três bons álbuns entre 1968 e 1969 ­- que tomam todo o CD 1 ­- mas as gravações ao vivo que sobraram desta época eram muito ruins, apesar de terem virado alguns disputados discos piratas na década de 1970. Outras acabaram sendo editadas em edições limitadas pela própria banda, em produtos direcionados a fanáticos e colecionadores. As gravações da BBC finalmente trazem ao mercado registros ao vivo de boa qualidade daquela época. Simper e Evans foram demitidos no segundo semestre de 1969 e deram lugar a Ian Gillan (vocal) e Roger Glover (baixo), em um momento no qual o Deep Purple abraça o som pesado e abandona as influências psicodélicas e progressivas dos três primeiros álbuns, que tinham o nítido comando de Lord. Essa fase domina o segundo CD, já trazendo o embrião dos sucessos que estariam nos aclamados álbuns “Fireball” e “In Rock”. São duas obras essenciais para quem gosta de classic rock da mais alta qualidade – e de música muito, mas muito bem feita.

terça-feira, janeiro 10, 2012

George Harrison, o gênio injustiçado dos anos 60

George Harrison foi um artista discreto, mas jamais ingênuo, como às vezes alguns biógrafos dos Beatles tentam passar. Tímido sim, mas silencioso não. Nunca reclamou por ser o músico injustiçado enquanto os Beatles existiram, mas sempre se posicionou firmemente quando questionado sobre sua contribuição para a banda e sobre a qualidade de suas músicas. Se o marketing não era o seu forte, por outro lado tinha a convicção forte de que sua obra falava por si. Desde o primeiro álbum solo, o triplo “All Things Must Pass”, de 1971, até as músicas mais pop, como “When We Was Fab”, “All Those Years Ago” e “Got My Mind Set On You”, o guitarrista sempre deixou que o som ressaltasse a sua genialidade e a sua técnica incomum de execução do instrumento. Ao mesmo tempo, desde o início se mostrou bem mais atento à cena musical do que os colegas de Beatles. Enquanto Paul McCartney se deslumbrava com a cena multicultural de Londres nos anos 60 e John Lennon flertava com o cinema, pelas mãos do diretor Richard Lester (que dirigiu “A Hard Day’s Night” e “Help”), George preferia ficar à espreita do que tocava no rádio. Não teve dúvidas em indicar os Rolling Stones para a Decca Records no comecinho de 1963 – a mesma gravadora que recusara os Beatles no ano anterior; foi o primeiro a falar publicamente das qualidades das canções dos Kinks e da fúria dos Who, ainda em 1965; ficou muito amigo de Eric Clapton, amizade que durou até o fim de sua vida; seguia todos os passos de Jimi Hendrix, ajudado pelos relatos do amigo Clapton; se não se entusiasmou com o que viu e ouviu, pelo menos teve o interesse de conferir os trabalhos de Steve Winwood na época de Spencer Davis Group e o Pink Floyd; e já na década de 80 não se importou em ser apenas mais um nos Travelling Wilburys, supergrupo que formou ao lado de Roy Orbison, Jeff Lynne (Electric Light Orcgestra), Tom Petty e Bob Dylan. Era evidente a sua desvantagem na competição interna para impor suas músicas e suas ideias dentro dos Beatles. Mesmo quando as evidências apontavam para que tivesse mais espaço, pouco fez ou poucas oportunidades teve para mostrar que era tão prolífico e competente na composição quanto Lennon e McCartney. “All Things Must Pass” é a maior prova disso. Perderas os Beatles, perdemos nós. Harrison morreu há exatos dez anos em Los Angeles, vítima de câncer. Seu legado é estupendo em qualquer aspecto que for analisado.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

O fantasma dos reajustes de mensalidades escolares

Os pais devem preparar o bolso para o ano que vem. O reajuste das mensalidades escolares pode chegar a quase 20% em 2012, bem acima da inflação medida pelo IPCA, calculado pelo IBGE, que no acumulado dos últimos 12 meses ficou em 6,97%. O problema é antigo, vem desde os anos 70, mas nem governo nem o setor conseguiram encontrar um mecanismo justo e transparente para justificar as discrepâncias na hora de definir o valor mensal. Os argumentos são bastante variados. Passam pelo “aumento da carga horária e a implementação de algumas disciplinas” – inglês na educação infantil até o 5.º ano e redação e geometria de 6.º ao 9.º ano explicam o reajuste em uma importante instituição da zona sul de São Paulo. Há, entre as escolas, aumentos diferentes em cada etapa de ensino. A justificativa mais comum entre elas são os gastos com salários. Há até explicações financeiras para justificar o aumento. Uma escola da zona oeste paulistana informou ao jornal O Estado de S. Paulo que “cerca de 85% da receita vai para a folha de pagamento”. A mesma escola também inclui na conta “investimentos em tecnologia, que pesam no orçamento”. Há colégios que já usam tablets em suas aulas, mas assim mesmo o equipamento entra no cálculo para as mensalidades de 2012. Para o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), os reajustes das escolas consultadas está acima da média. “Índices de 12% a 15% são bem acima do que prevemos”, diz José Augusto Lourenço, vice-presidente da entidade, aos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Ele havia previsto aumentos de 8% a 10%. Lourenço acredita que as escolas que não subirem as mensalidades em pelo menos 10% podem ter prejuízos em 2012. A questão é que esta é uma batalha inglória para o consumidor. Um grupo de pais que têm filhos em uma escolha de Alphaville, em Barueri, decidiu entrar na Justiça contra um reajuste de 20%. A iniciativa, divulgada pela TV, pode se repetir em outras escolas, mas a insegurança em relação a isso continua. O Procon-SP costuma atuar na mediação de conflitos parecidos e até mesmo orienta os pais em casos flagrantes de reajustes abusivos. O órgão até sugere que os clientes têm direito a checar as planilhas de custos das ecolas para que possam comprovar a veracidade os argumentos das empresas para reajustar. Na prática, é um milagre convencer os proprietários e mantenedores a abrirem seus caixas. Sendo assim, resta apenas torcer para que a conta não fique muito salgada.

terça-feira, janeiro 03, 2012

“Tommy”, a maior obra de Ken Russell

A morte do cineasta inglês Ken Russell, no final de novembro, aos 84 anos, foi registrada protocolarmente pela imprensa internacional e mais ainda pela brasileira. Mas, por incrível que pareça, o único grande veículo que tratou a notícia com o devido respeito e que mencionou o seu principal trabalho, a versão cinematográfica da ópera-rock “Tommy”, do Who, foi a TV Globo, no Jornal Nacional e no Jornal da Globo. Sites, jornais e revistas citaram várias obras importantes de Russell, mas ignoraram a principal. “Tommy”, filmado a partir do final de 1974 e lançado em 1975, lançou as bases de como fazer um filme musical baseado em rock sem ficar preso a conceitos engessados do estilo norte-americano – ou cair no extremo oposto, o da chatice de “Hair”, que segue, em grande parte, um modelo calcado na Broadway, mais teatral e menos visual. A obra-prima do Who, com o conceito elaborado pelo guitarrista Pete Townshend, que também compôs 90% do álbum duplo, foi totalmente absorvido pelo visionário Russell, que não hesitou em colocar astros de rock para estrelar o filme. Roger Daltrey, cantor do Who, fez o papel principal, o do garoto cego, surdo e mudo traumatizado pelo assassinato do amante da mãe pelo pai supostamente morto e que, após um milagre, vira um astro do fliperama (pinball) e líder religioso. Eric Clapton aparece cantando a faixa “Eyesight to the Blind” no papel de um pregador, tendo os outros três integrantes do Who como “banda de apoio” e assistentes. Keith Moon, o baterista da banda, aparece como o tio Ernie, cruel e mau. Tina Turner deu um show como a prostituta Acid Queen na faixa homônima, e Elton John se destacou mais ainda como o desafiante de Tommy no campeonato de fliperama em “Pinball Wizard”. Para dar segurança nos papéis mais dramáticos, como os pais de Tommy, dois atores consagrados, o inglês Oliver Reed e a sueca radicada nos Estados Unidos Ann-Margret, que não fizeram feio cantando. Jack Nicholson fez uma ponta como um médico. Capa da obra do grupo inglês “Tommy” foi um sucesso estrondoso no cinema e influenciou diretamente na estética de “The Wall”, de Alan Parker, lançado em 1982, e “Quadrophenia”, de 1979, também baseada em um álbum duplo do Who. Ken Russell ainda quebrou outros tabus no cinema europeu, como abusar da linguagem conhecia como pop-art, exagerar deliberadamente na violência e utilizar o nu frontal masculino em um filme. Foi indicado ao Oscar de melhor direção, em 1969, por “Mulheres Apaixonadas”, seu filme mais aclamado até então. “Vamos com Calma”, de 1962, foi citado por outro gênio, Stanley Kubrick (“2001″, “Larana Mecânica”), como uma das suas maiores influências

sábado, dezembro 31, 2011

Cerveja pode ser banida de qualquer tipo de propaganda

Se você é contra o excesso de intervenção do Estado na vida privada, determinando até mesmo onde você pode fumar ou não, então prepare-se para mais um “atentado”: qualquer tipo de publicidade, propaganda ou menção envolvendo marcas de cerveja – incluindo patrocínio de eventos diversos – poderá ser proibido em todo o País. Isso pode acontecer se o relatório do deputado federal Givaldo Carimbão (PSB-AL) for aprovado pela Comissão Especial de Políticas Públicas de Combate às Drogas da Câmara dos Deputados, no próximo dia 7 de dezembro. Com o aval da Comissão, a proposta será encaminha à presidente Dilma Rousseff, que poderá transformá-la em medida provisória. Carimbão afirma que fez o relatório a partir de um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): adolescentes estão começando a beber cada vez mais cedo, o que influencia a dependência química e o uso de drogas ilegais. “A Unifesp lançou um livro informando que há anos 20 anos se começava a beber aos 15 anos de idade. Hoje a iniciação começa aos 11. Quem começa a beber antes dos 18 tem cinco vezes mais chance de se tornar um dependente. Como a propaganda incentiva este consumo, concluímos que o fim dela é uma forma de prevenção”, declarou o deputado ao Jornal da Tarde. O problema é que este assunto não é novo: vetar este tipo de publicidade tem respaldo em todo o País, já que entidades civis, parlamentares locais e órgãos públicos de todos os Estados brasileiros enviaram à comissão pedidos de proibição às propagandas de cervejas, destilados e demais bebidas, baseados nos resultados de audiências públicas realizadas em vários municípios. O tema divide juristas, mas surpreendentemente há um apoio grande a este tipo de ação. É censura? Para alguns sim, pois interfere no direito do anunciante de oferecer informação, ainda que por meio de publicidade, ao cliente – informação de um produto legalmente autorizado e que pode ser legalmente vendido no Brasil. Também interfere no direito do consumidor de ter acesso a esse tipo de informação sem que tenha de esperar a tutela do Estado para determinar o que ele pode ou não pode ver, o que ele pode ou não saber sobre qualquer produto. Os defensores da restrição a esse tipo de propaganda – na verdade, veto total – dizem que se trata de uma questão de saúde pública e de prevenção a um vício considerado tão terrível quando o das drogas ilícitas. Debates longos e acalorados não faltarão em 2012. Além da proibição da publicidade em meios de comunicação e eventos, o relatório propõe outras medidas para reprimir o uso do álcool, como proibir a venda de bebidas alcoólicas em lojas de conveniência em postos de gasolina e colocar alertas dos riscos do consumo exagerado nos rótulos das embalagens, como já acontece com o cigarro. O documento sugere ainda o aumento de impostos sobre a venda de bebidas. A Companhia de Bebidas das Américas (Ambev), maior cervejaria do Brasil, e a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) não se manifestaram sobre o assunto.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Tocar CD e operar toca-discos não transforma ninguém em artista ou torna alguém músico

Um interessante personagem da vida musical brasileira atual é o músico e produtor cultural Clemente Nascimento, líder da banda Os Inocentes e profissional de múltiplas atividades: toca na sua banda e na atual formação da Plebe Rude, apresenta um programa de TV na internet e arruma tempo para “discotecar” (acho a palavra mais adequada) em algumas casas noturnas – coisa que ele acha bastante divertida. Essa sua última atividade pode eventualmente lhe rende alguma remuneração, mas é essencialmente uma curtição para quem gosta e vive de música. Mas ele não tem ilusão: é um DJ (disc-jóquei) ocasional. Essencialmente é um músico, mas nas casas noturnas ele não “toca”, ele “discoteca”. São coisas bastante distintas, mas tem gente que insiste em misturar as coisas. Lembrei de Clemente quando recebi um convite fazer uma atividade semelhante em uma festa em um bar moderninho de São Paulo neste mês de dezembro. Era um convite que necessitava de confirmação posterior, como é comum neste casos. Prevendo o tipo de mico que isso poderia se tornar, não resisti à provocação. “Você vai ‘tocar’ e fazer a seleção de uma série de músicas legais dos anos 60, essencialmente rock inglês, algumas coisas óbvias e a maioria nem tanto”, disse a simpática amiga de um amigo que agitava a festa. Em seguida ela diz: “Acho que você não vai estranhar ao operar as pick-ups (toca-discos) e toca-CDs múltiplos, vai fazer uma performance legal.” “Na boa, dá menos trabalho se eu fizer a seleção na minha casa, gravar em um CD ou mídia de DVD para deixar rolar. Ou quem sabe até mesmo um pen drive. Aí todo mundo se diverte. Afinal, DJ não passa de um tocador de disco e de CDs”, emendei sem que ela tivesse tempo de pensar. É claro que o convite não foi confirmado – e se tivesse sido, teria sido retirado, de tão feia que foi a cara de decepção e até de nojo quando expus o que achava da atividade de DJ. Respeito quem faz isso, quem gosta de discotecar e até quem ganha dinheiro com isso. Entretanto, DJ pode ser qualquer coisa, menos músico. Faz qualquer coisa, menos tocar. Aparentemente não há muito o que discutir sobre isso, mas há gente que insiste em brigar com os fatos, em espancar e torcer a realidade. Não bastasse essa ridícula confusão de conceitos, a coisa ainda piora: esse mesmo pessoal que acha que DJ “toca” acredita que música eletrônica é música. Não é. É apenas barulho, e dos mais irritantes. Esse tipo de tosqueira voltou a se proliferar neste século. A quantidade de bares e casas noturnas aumentou muito em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, por exemplo. O mercado ficou bom para os tocadores de CDs (ou MP3, ou vinis, ou qualquer outra coisa). O lado ruim é que a música eletrônica disseminada pelos tocadores de qualquer coisa voltou com tudo, até porque a tecnologia facilitou demais a produção dos barulhinhos computadorizados. E quem faz essa coisa acha que é artista de verdade. Os recursos eletrônicos sempre foram levados em consideração a partir do momento em que se inventou o abominável sintetizador, no finalzinho dos anos 60, trambolho barulhento que encantou gente decente como George Harrison (Beatles) e Pete Townshend (The Who). Quando usado de forma inteligente e criativa, sem abuso, o sintetizador até que foi útil, como nas trilhas sonoras compostas por Harrison e nas obras-primas “Who’s Next” e “Quadrophenia”, do Who. Infelizmente, por outro lado, foi responsável por algumas das maiores porcarias já feitas dentro do rock. Boa parte dos músicos consagrados e mesmo os de apoio costumam ser diplomáticos ao falar do uso de elementos eletrônicos em seus trabalhos, mas simplesmente ignoram o que conhecemos por música eletrônica, aquele barulho artificial e insuportável das pistas de dança. Alguns aceitam que produtores criem arranjos com base em barulhos de computador, outros até brincam com os mesmos barulhinhos que os DJs e os incluem de forma discreta em seus trabalhos. Mas são poucos os artistas sérios que realmente fazem uso desses recursos de forma explícita e escancarada. Dois gigantes do rock cometeram trabalhos péssimos nos últimos 20 anos, seduzidos pela suposta “modernidade”. Eric Clapton escorregou feio com “Pilgrim”, de 1998, CD no qual suas guitarras foram soterradas por arranjos eletrônicos e barulhos artificiais. Jeff Beck, outro gênio da guitarra, caiu na armadilha e gravou os insuportáveis “Jeff”, de 2001, e “You Had It Coming”, de 2003, sendo que já flertava com o estilo em 1999 no álbum “Who Else!” Beck gostou do resultado de sua ousadia, mas muitos fãs não. O jeito foi voltar ao rock, ao blues e ao jazz para gravar “Emotion & Commotion”, seu último trabalho. É possível ficar dias e dias colhendo exemplos para torpedear o barulho eletrônico. Quem gosta deste tipo de música se contenta com muito pouco. Isso não é música, e DJ não é músico, é um tocador de CD. No máximo, animador de festa. DJs que acham que são artistas não merecem respeito. São o que são, o que já é demais.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Rock pesado em português, uma nova e bem-vinda tendência

Enquanto artistas nacionais que fazem heavy metal em inglês estrebucham contra a suposta falta de público em seus shows – o que rendeu uma patética e rasteira entrevista de Edu Falaschi, cantor do Angra, recheada de palavrões –, começa a ganhar corpo um movimento de bandas que fazem rock pesado em português, apesar do preconceito dos puristas. Entre esses abnegados, as reclamações são poucas, e o público está crescendo ano a ano. A banda paulistana Carro Bomba desponta, por enquanto, na liderança dos metaleiros que cantam em português. O recém-lançado álbum “Carcaça”, pela Laser Company, traz tudo o que não existe mais quase desaparecido no pop rock nacional: qualidade, espontaneidade e garra. “Carcaça” é uma pedrada na cabeça do headbanger nacional. Nunca uma banda brasileira que canta em português tinha atingido um peso tão grande nas músicas e tinha alcançado uma timbragem tão forte e limpa nas guitarras, que estão na cara. E tudo isso sem recorrer tanto aos manjados temas de sempre no hard rock brasileiro – mulheres, bebidas, zoeira, bebidas, carros, bebidas, mulheres… “O som pesado sempre foi a nossa característica, sempre buscamos aprimoramento e pesquisamos novos timbres. ‘Carcaça’ é resultado de muito trabalho em estúdio, mas principalmente também de muita pesquisa para achar exatamente o que queríamos”, diz o baixista Fabrizio Micheloni, um dos fundadores. Estão ainda na formação o vocalista Rogério Fernandes, o guitarrista Marcello Schevano e o bateria Heitor Shewchenko. Os mineiros do Uganga preferem um som mais moderno e mais calcado no hardcore dos anos 90, apesar dos ecos de clássicos como AC/DC e Motorhead, as principais influências do Carro Bomba. O som pesado era o caminho natural para a banda, que tem em sua formação Manu “Joker” Henriques, ex-baterista da lendária Sarcófago, que teve bastante prestígio no metal dos anos 80. “São mais de 2o anos tocando rock pesado e passando por várias situações. Não dá para ficar reclamando de falta de público. Temos de ralar e trabalhar”, diz o músico. O Uganga lançou no primeiro semestre o álbum “Vol.3: Caos, Carma e Conceito”, também lançado na Europa, e prepara para 2012 um álbum ao vivo gravado no Razorblade Festival em 2010, na Alemanha. “Nossa primeira turnê internacional, com 18 shows em dez países, mostrou que o rock pesado em português é uma alternativa mais do que válida”, afirma Henriques. Merecem menção ainda no “movimento” o Baranga (hard rock) e o Muqueta Na Oreia (punk/harcore).

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Pink Floyd: obra-prima inspirada em ‘fantasma’

As semanas que antecederam o começo das gravações de Wish You Were Here começaram tensas em meados de 1974. A pressão sobre o baixista e vocalista Roger Waters era enorme por conta do sucesso estrondoso de The Dark Side of the Moon, o álbum anterior, e a gravadora queria uma obra-prima do mesmo calibre. Em uma tarde, Waters chegou irritadíssimo ao estúdio: as ideias não saíam e o seu Arsenal havia perdido mais uma no Campeonato Inglês no dia anterior. Ele nem percebeu um cara gordinho e careca na recepção, empunhando uma guitarra. Um pouco mais tarde soube que era Syd Barrett, ex-companheiro de Pink Floyd que ficou pelo caminho por distúrbios mentais. Estava ali para “gravar as suas partes”. Waters chorou ao vê-lo novamente e finalmente conseguiu a inspiração para continuar os trabalhos – a faixa-título de Wish You Were Here e a longa suíte “Shine on You Crazy Diamond” foram inspiradas em Barett. A nova versão do álbum lançando em 1975, assim como a de The Dark Side of the Moon, melhorou o que já era excelente. As opções Immersion e Experience recolocam a obra em um patamar merecido: um álbum poderoso e versátil, que indicava os novos caminhos do Pink Floyd, que jamais fora um apêndice do multiplatinado antecessor. Além de todo um tratamento de mixagem e remasterização primoroso, a versão nacional Experience traz um CD extra com raridades e versões ao vivo dos temas presentes em Wish You Were Here. O destaque é uma versão de Shine On You Crazy Diamond com a participação especial de do violonista de jazz belha Stéphane Grapelli, um dos gênios europeus do gênero. “Não foi barato contratá-lo. Mas, por mais que eu tente, não sei o porquê de não termos usado essa versão”, disse recentemente o baterista da banda. Nick Mason.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

As verdadeiras divas da atualidade: Beth Hart e Imelda May

O mundo pop só fala de Adele, Beyoncé, Ke$ha, Shakira, Lana del Rey e outras cantoras de voz boa e repertório péssimo. Sobra pouco espaço para coisa de qualidade com Joss Stone, que ainda consegue resgatar o bom e velho rhythm and blues original. Então é hora de diversificar e tentar ir mais a fundo no purismo. É hora de ouvir a irlandesa Imelda May e a norte-americana Beth Hart, ilhas de qualidade na escolha do repertório jazzístico e blueseiro sem apelar para clichês e modinhas, muito menos se render a armações modernosas revestidas por elementos eletrônicos. Imelda May, de 37 anos, hoje é a mais nova queridinha do gênio da guitarra Jeff Beck. Ela empresta a sua voz para o grande pacote DVD/CD “Rock’n Roll Party”, gravado ao vivo em 2010 nos Estados Unidos durante homenagem ao músico/luthier/empresário Les Paul. Transitando entre o rock básico, o rockabilly, o country e o blues, a moça acaba de lançar o estupendo “More Mayhem”, uma coleção fantástica de standards e canções delicadas e acessíveis, transitando entre o tradicional e o festeiro. “Pulling the Rug”, que abre o disco, dá a tônica de todo o álbum. Já Beth Hart, dois anos mais velha, tem uma carreira mais antiga no pop rock e no folk americanos, mas começou a ganhar reconhecimento somente na década passada. Seu grande sucesso até o momento é “LA Song (Out of This Town)”, que foi trilha sonora de um episódio da 10ª temporada do seriado “Beverly Hills 90210”. Entretanto, foi o blues que catapultou o nome da cantora em 2011, junto com a guitarra excelente do compatriota Joe Bonamassa. “Don’t Explain” é o álbum que a dupla lançou no meio deste ano e que surpreendentemente teve um aceitação bem acima do esperado nas paradas tradicionais de sucessos. A parceria começou no álbum “Dust Bowl”, do guitarrista, lançado no primeiro semestre, na ótima faixa “”No Love On The Street”. Bonamassa, que é artista solo e guitarrista do supergrupo Black Country Communion (ao lado do baixista e vocalista Glenn Hughes, ex-Black Sabbath e Deep Purple), selecionou ao lado de Hart um punhado de clássicos e pancadas do blues e lhes conferiu um tratamento respeitoso e reverenciado, mas sem despencar nos clichês do gênero. “Sinner’s Prayer” e o clássico “I’d Rather Go Blind” já valem o CD. E o mais curioso é que a excelente cantora esteve no Brasil duas vezes no primeiro semestre e passou quase anônima. Se não fosse uma aparição bem descontraída na TV Gazeta de São Paulo, no programa “Eu e Você”, de Ronnie Von, ninguém saberia de sua rápida passagem por aqui. Que não demore muito para voltar.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Compras virtuais: cuidado para não estragar o seu Natal

Você ainda pretende fazer comprar virtuais? Então é bom ficar alerta com a campanha que os órgão de defesa do consumidor estão iniciando ao comércio pela internet neste Natal. As empresas de comércio virtual então entre as que mais têm registros de reclamações nos Procons do Brasil – e geralmente os problemas nas entregas pioram a partir de dezembro devido o alto volume de vendas. Somente a B2W, que administra os sites Americanas.com, Shoptime e Submarino, teve quase 20 mil queixas registradas entre 1º de outubro de 2010 e 30 de setembro de 2011, número corresponde a 4,72% do total de demandas recebidas no período pelo Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec), que integra Procons de 23 estados e do Distrito Federal. A Ricardo Eletro (que também atua no comércio eletrônico) aparece logo atrás (com 3,64% dos atendimentos), seguida pelo Ponto Frio (3,63%). Os problemas com entrega representam 23,32% das reclamações sobre produtos nos Procons do país (com 102.788 queixas). E, mesmo quando o produto é entregue, às vezes já chega com vícios e defeitos – causa de 99.428 reclamações nos Procons (22,56%do total). Esse cenário revela uma realidade aterradora: a grande quantidade de reclamações sobre entrega no comércio eletrônico é sintoma de um problema crônico de quebra de confiança. Não basta vender com comodidade, tem de entregar os produtos, montar, dar segurança no pós-venda, dizem os especialistas em defesa do consumidor. Repórteres do Grupo Estado procuraram as empresas mais reclamadas para entender os motivos de tantas queixas – e o que está sendo feito para amenizar os problemas. As empresas B2W e Ricardo Eletro não responderam. O Pontofrio.com informa que “promove melhorias constantes em sua operação para garantir o pleno atendimento e a satisfação dos seus clientes e reduzir o índice de queixas no Sindec, a exemplo de que vem verificando em suas auditorias internas”. A empresa ainda informa em nota que “continuará firme em seu propósito de proporcionar a melhor experiência de compra ao seu cliente e reafirma seu compromisso com os consumidores e órgãos de Defesa do Consumidor”. O comércio virtual no Brasil ainda não é confiável e muito menos profissional. Falta fiscalização e falta rigos na punição às empresas que lidam com esse tipo negócio. Você ainda quer comprar pela internet?

Fundamentos do ateísmo

Hélio Schwartsman Já que dois amigos meus, Ives Gandra Martins e Daniel Sottomaior, se engalfinharam em polêmica acerca de um suposto fundamentalismo ateu, aproveito para meter o bedelho nessa intrigante questão. Como não poderia deixar de ser, minha posição é bem mais próxima da de Daniel que da de Ives. Não se pode chamar de fundamentalista quem exige provas antes de crer. Aqui, o alcance do ceticismo é dado de antemão: a dúvida vai até o surgimento de evidências fortes, as quais, em 2.000 anos de cristianismo, ainda não apareceram. Ao contrário, dogmas vão contra tudo o que sabemos sobre o mundo. Virgens não costumam dar à luz e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar vinho em sangue seria internado. Quando se trata de religião, porém, aceitamos violações à física e à lógica. Por quê? Ou Deus existe e espera de nós atitudes exóticas -e inconsistentes de uma fé para outra-, ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas esquisitas no modo religioso. Fico com a segunda hipótese. Corrobora-a um número crescente de cientistas que descrevem a religiosidade ou sua ausência como estilos cognitivos diversos. Ateus privilegiam a ciência e a lógica, ao passo que crentes dão mais ênfase a suas intuições, que estão sempre a buscar padrões e a criar agentes. Posta nesses termos, fé e ceticismo se tornam um amálgama de influências genéticas e culturais difícil de destrinchar -e de modificar. Como bom ateu liberal, aplaudo avanços no secularismo, já que contrabalançam o lado exclusivista das religiões, que não raro degenera em violência e obscurantismo. Mas, ao contrário de colegas mais veementes, acho que a religião, a exemplo do que se dá com filatelia, literatura e sexo, pode, se bem usada, ser fonte legítima de bem-estar e prazer. **Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo, na edição de 10 de dezembro de 2011

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Gostar de rock começa a pesar na avaliação profissional

Por mais preconceituoso que seja, não dá para fugir: a forma como a pessoa fala, se veste, age, trabalha, dirige e muitas coisas mais dizem muito sobre o indivíduo. Dá para julgar cada um por esse tipo de coisa? Cada um avalie da forma como achar melhor. Da mesma forma, os hábitos culturais – os livros que lê, a música que ouve, os eventos frequenta – também dizem bastante sobre as pessoas. Existe a chance de se errar por completo, mas faz parte do jogo. Dois fatos importantes, apesar de corriqueiros, mostram que os apreciadores de rock podem ter esperança de dias melhores, apesar dos casos recorrentes de preconceito explícito e perseguição por conta do gosto pessoal em pleno século XXI – algumas dessas excrescências têm sido narradas aqui em textos no Combate Rock. No começo de agosto um gerente de uma grande multinacional instalada no ABC (Grande São Paulo) penava para contratar um estagiário para a área de contabilidade e administração. Analisou diversos currículos e entrevistou 24 jovens ainda na faculdade ou egressos de cursos técnicos. Conversou com todo o tipo de gente, do mais certinho ao mais despojado, do mais conservador à mais desinibida e modernosa. Preconceitos à parte, procurou focar apenas a questão técnica e os conhecimentos exigidos. Alguns candidatos até possuíam a maioria dos requisitos exigidos, mas acabaram desclassificados em um quesito fundamental para o gerente: informação geral, que inclui hábitos culturais. O escolhido foi um rapaz de 20 anos, o penúltimo a ser escolhido. Bem vestido, mas de forma casual, usando rabo de cavalo, mostrou segurança e certa descontração, além de bom vocabulário e de se expressar de forma razoável, bem acima da média. Durante as perguntas, o gestor observou que o garoto segurava um livro e carregava um iPod. O livro era a biografia de Eric Clapton. Após a quinta pergunta, direcionou a conversa para conhecimentos gerais e percebeu que o rapaz lia jornais e se interessava pelo noticiário. “Você gosta de rock?”, perguntou o gerente. “Sim, e de jazz também”, respondeu o garoto. O entrevistador não se conteve e indagou se o rapaz se importava de mostrar o que o iPod continha. E viu um gosto eclético dentro do próprio rock: havia muita coisa de Black Sabbath, Deep Purple, AC/DC, mas também de Miles Davis e big bands. “Não aprecio rock, não suporto o que minhas filhas ouvem, mesmo seja Rolling Stones, meu negócio é Mozart, Bach e música erudita. Mas uma coisa eu aprendi nas empresas em que passei e nos processos seletivos que coordenei: quem gosta de rock geralmente é um profissional mais antenado, que costuma ler mais do que a média porque se interessa pelos artistas do estilo. Geralmente são mais bem informados sobre o que acontece no mundo e respondem bem no trabalho quando são contratados. Nunca me arrependi ao levar em consideração também esse critério”, diz o gerente. O resultado é que o garoto foi contratado após 15 minutos de conversa, enquanto cada entrevista com os outros candidatos durava 40 minutos. “Não tive dúvida alguma ao contratá-lo. E o mais interessante disso: percebo que essa é uma tendência em parte do mercado há pelo menos três anos, pois converso muito com amigos de outras empresas e esse tipo de critério está bastante disseminado. Quem gosta de rock é ao menos diferenciado”, finalizou o gestor. Já em uma escola particular da zona oeste de São Paulo, do tipo mais alternativo e liberal, o trabalho de conclusão do ensino médio era uma espécie de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) das faculdades. A diferença é que, para não ter essa carga de responsabilidade, foi criado uma espécie de concurso para premiar algumas categorias de trabalhos – profundidade do tema, ousadia, importância social e mais alguns critérios. O vencedor geral foi o de uma menina esperta de 17 anos, filha de um jornalista pouco chegado ao rock, mas com bom gosto para ouvir jazz e blues. O trabalho tentava traduzir para a garotada a importância dos Beatles para a música popular do século XX. Para isso realizou uma ampla pesquisa sobre as origens do blues, do jazz, da country music norte-americana e traçou um panorama completo da evolução do rock desde os primórdios até os megashows de Rush, AC/DC, U2 e Metallica. Seu trabalho contou ainda com a defesa de uma tese em frente a uma banca de professores. O resultado é que, além do prêmio principal – placa de prata e uma quantia em dinheiro em forma de vale para ser gasto em uma livraria –, acabou sendo agraciada com a proposta de transformar seu trabalho em um pequeno livro, bancado pela escola. Detalhe: a reivindicação partiu dos colegas da menina, que ficaram fascinados com a história do rock – poucos deles eram íntimos do gênero, pelo que o pai da menina me contou. Os Beatles foram o ponto de partida para uma aluna de um colégio paulistano para traçar um panorama extenso e completo sobre a história do rock; o trabalho ganhou prêmio e vai se transformar em livro Seria um flagrante exagero afirmar que gostar de rock facilita a obtenção de emprego ou estágio – ou que quem gosta de rock é muito melhor aluno do que os outros nas escolas. Mas o simples fato de haver reconhecimento de que apreciar rock frequentemente leva a uma situação diferenciada já é um alento diante dos seguidos casos de intolerância e preconceito. Gostar de rock não torna ninguém melhor ou pior, mais ou menos competente, mais ou menos inteligente. Mas os casos acima mostram que o roqueiro pode se beneficiar de situações em que é possível se mostrar diferenciado, mostrando uma cultura geral acima da média e mais versatilidade no campo profissional. E o que é melhor, isso começa a ser reconhecido por um parte do mercado. Bom gosto não se discute: adquire-se.

terça-feira, novembro 29, 2011

O blues rock energético e virtuoso de Big Gilson and Blues Dynamite

Gilson Szrajbman é um carioca pacato e tranquilo de 52 anos que se transforma em um insano e furioso guitarrista de blues rock. Na pele de Big Gilson, é o principal representante do subestilo no Brasil. E, para variar, assim como Nuno Mindelis, tem mais prestígio no exterior do que em sua terra. O que pouca gente sabe é que ele é, provavelmente, o músico brasileiro de blues que mais lançou álbuns, ao lado de outro carioca blueseiro da maior qualidade, o gaitista Flávio Guimarães, do Blues Etílicos. Big Gilson é devoto fervoroso do estilo que abraçou. Seu pacote de lançamentos recém-chegados às lojas, “Big Gilson & Blues Dynamite Live”, que envolve DVD e CD gravados em 2010 em um pequeno bar na periferia de Buenos Aires, na Argentina, retrata um músico intenso, mas completamente senhor de seu trabalho e de seu espaço. “São mais de 30 anos tocando, acho que já consegui ultrapassar diversas fases e o novo trabalho é um resumo do que venho fazendo ultimamente. É mais blues rock do que nunca”, diz o guitarrista. A experiência na estrada permitiu a Gilson montar um repertório eclético e variado, sem medo de apostar em clássicos do blues e em músicas de lendas da guitarra que infelizmente andam um pouco esquecidas hoje em dia. É o caso de Rory Gallagher, irlandês venerado e elogiado por gente como Eric Clapton e Mick Jagger e que morreu em 1995. “I Wonder Who” está presente apenas no CD, mas é um excelente cartão de visitas para quem gosta de energia e guitarra bem tocada. “Acho que consegui personalizar uma canção fantástica, que é um hino na carreira de Gallagher.” Presentes nos dois lançamentos, “Tell Mama” é um grande tributo a outra lenda britânica do blues rock, o Savoy Brown. Apegada forte e característica de Gilson dão o tom em um tema complexo, que requer muito feeling do instrumentista. O bom gosto nos “tributos” segue com a divina “Messiah Wil come Again”, do mestre Roy Buchanan, e em um bem sacado e muito bem executado medley de mais de 12 minutos com temas de Jimi Hendrix (“Hendrix Tribute”). Ao final do DVD, como bônus, uma ótima surpresa: uma versão bluesy e “original” de “Changes”, do Black Sabbath. Da carreira solo Big Gilson pinçou a ótima “Sentenced to Living”, faixa-título daquele que talvez seja o seu melhor álbum, e a bela “Tropical Feeling Blues”, além da energética “Ride the Rocket”. Os novos lançamentos, encampados pela novata gravadora Coqueiro Verde, traz uma boa novidade: a entrada da baixista Flávia Couri, que também toca na banda de pop-rock Autoramas. “O estilo dela é bem diversificado e eclético. Era o que eu precisava em razão de sua experiência. Tem conseguido dar o peso que a minha música exige, ao mesmo tempo em que faz bem o som cadenciado do blues.” O que não muda é a parceria de longa data com o produtor e amigo Pedro Garcia, baterista e percussionista do Planet Hemp. “Ele consegue captar como ninguém a minha espontaneidade. Seu ouvido é capaz de manter nos mínimos detalhes os meus timbres e minha sonoridade. Hoje não consigo me ver trabalhando com outro produtor.” Prestes a encarar uma turnê norte-americana no final de agosto e em setembro, Big Gilson é um caso raro de reverência ao próprio passado, mesmo que para isso seja necessário mantê-lo à distância. Fundador e motor do grupo carioca de blues Big Allanbik, de certo sucesso nos anos 90, Gilson consolidou o seu estilo de pegada forte e de timbres mais cristalinos típicos do blues rock, dando o contraponto ao tradicionalismo de Blues Etílicos e André Christóvam. “Tenho orgulho do Big Allanbik e dos três álbuns que fizemos, foi um período muito importante de minha carreira. E justamente por reverenciar bastante os trabalhos daquele período é que guardo distância para que possa seguir em frente”, diz o guitarrista.

sábado, novembro 26, 2011

O ‘mito’ Raul Seixas, ainda tomando pancadas – e com toda a razão

Depois de cinco anos revi um bom amigo da época de faculdade no último final de semana. Ricardo Macedo é um administrador de empresas que trabalha em uma empresa distribuidora de bebidas em Capinas e é um fã de rock pesado. A primeira coisa que lhe pergunto antes mesmo de indagar sobre família, mãe, pai, etc.: “Está tudo bem com seu irmão?” Ele abre um sorriso grande e não hesita: “Ele bateu no Raul mais uma vez”. É um alívio saber disso. O irmão, apenas por parte de mãe e que não terá o nome revelado pois o processo judicial em questão ainda está correndo), vocalista de uma boa banda de hard rock e de covers nos anos 90 no interior paulista, ficou por muitos anos senso assombrado pelo fantasma de Raul Seixas. Fazendo um show intimista e acústico em um bar de bom nível em uma cidade da região de Campinas nos anos 90, o irmão de Ricardo Macedo e sua banda (extinta, mas que também terá o nome preservado pelos mesmos motivos), foram incomodados por mais de 4o minutos por um grupo de bêbados com o indefectível “toca Raul”. O cartaz que anunciava o show no bar e no jornal local não deixava dúvidas: banda de hard rock faz acústico e covers de artistas do estilo. O que a princípio parecia uma brincadeira inocente e depois leve provocação se tornou um inconveniente, pois, de alguma forma, alguém da plateia tratou de fazer chegar á banda que o grupo de bêbados estava falando sério: queriam mesmo ouvir alguma coisa de Raul Seixas – e não somente uma música. A banda tentou ignorar, mas os cidadãos começaram a incomodar a tal ponto que o barulho que faziam obrigou a uma interrupção do show, com direito a uma intervenção de dois seguranças. O mais exaltado do grupo de quatro imbecis, aos berros, gritou: “Quero ouvir Raul! Toca Raul, porra! Quero ouvir e vocês vão tocar!” Não acreditando na baixaria que ocorria, o irmão vocalista de Macedo, muito irritado, fez algum gracejo sobre Raul Seixas e sobre a encheção tradicional a que muitos músicos são submetidos. O bêbado infeliz ficou furioso e se desvencilhou da segurança e avançou no palco para agredir alguém da banda. Acabou tomando uma pancada de pedestal de microfone no rosto e caiu cambaleando no chão. Tentou se levantar e fez menção de tentar novo ataque, conseguindo se soltar novamente dos seguranças. Mal teve tempo de olhar para o palco e tomou novo golpe com o pedestal e desabou. O resultado é que o cidadão, machucado, se achou no direito de processar criminalmente a banda, o vocalista e o bar por ter sido “agredido covardemente enquanto se divertia”. Filho de um rico comerciante da cidade que um dia fora vereador e figura conhecida na área por frequentes confusões (nada muito grave, apenas arruaças e brigas sem consequência), moveu dois processos, e perdeu os dois em todas as instâncias. Tanto o bar como o vocalista arrumaram testemunhas de sobra sobre o que rolou. Quando encontrei Ricardo Macedo, o irmão tinha acabado de “bater” pela terceira vez em Raul Seixas – a primeira nas pancadas contra o bêbado, e depois as duas vitórias na Justiça. O advogado do agredido prometeu recorrer das decisões no Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde certamente sofrerá novas derrotas. A pequena história me motivou a fazer alguns breves comentários sobre Raul Seixas, morto há 22 anos e que estaria fazendo 66 se estivesse vivo. Involuntariamente (ou não?) se tornou alvo de ira ou ao menos de irritação de muita gente que não suporta mais o asqueroso “Toca Raul!”. Músico razoável e cantor nem tanto, teve o grande mérito de cair de cabeça no rock and roll primeiro do que todo mundo neste país tropical e de avançar até onde nenhum artista brasileiro na época ousou. Seixas era radical e culto, tinha estofo para se mostrar contestador sem ser revolucionário. Tinha jeito e coragem (ou inconsequência) para ser provocador como Chico Buarque foi em algumas de suas letras. Se os Secos & Molhados chocavam e posavam de transgressores por conta das maquiagens e posturas de palco, Seixas e seu jeitão de hippie deslocado mostrava que ia muito mais além na transgressão com o mergulho fundo no rock e nos aditivos ilícitos – em vários momentos ao lado do amigo doidão e letrista ocasional Paulo Coelho. O problema é que Raul Seixas foi o único a fazer isso, a fazer rock realmente em uma era dominada por uma música popular supostamente de protesto mas que pouco ou nada serviu de alento, ao menos culturalmente. Era a mesma MPB engessada de sempre, calcada na canção e no samba, com ecos da bossa nova encardida e plagiada do jazz norte-americano e na farsa do Tropicalismo, envolto em pseudo-intelectualismo barato. Raul foi muito mais além do que qualquer um em sua época, e tem méritos por isso. Se é que existiu alguma forma de transgressão nos anos 70, época de chumbo do regime militar, essa transgressão era Raul Seixas. E o músico baiano teve a sorte grande de ter sido o único a fazer isso de forma tão intensa, e usou o rock, o melhor instrumento para esse tipo de transgressão (ou suposta transgressão). E grande parte de sua fama decorre justamente disso, da falta de concorrentes à altura. Por conta disso, o mito Raul Seixas – artista radical, maldito, marginal – se sobrepõe à real qualidade de sua obra musical, que nunca passou de mediada. Sua melhor música é no máximo razoável. É milhões de vezes superior ao de qualquer artista que achava que fazia rock na época, como Secos & Molhados e os intragáveis Mutantes, mas ainda assim não passava de razoável. Raul Seixas e Marcelo Nova nos anos 80: vocalista do Camisa de Venus não curtia Raul quando garoto, mas se aproximou dele e engatou uma interessante parceria, que acabou com a morte de Raul em 1989 Suas músicas se tornaram trilha sonora da contracultura e de certa pseudo-intelectualidade de esquerda por ser palatável e adaptável aos lugares comuns dos discursinhos chatos e vazios de estudantes equivocados. Era a trilha sonora perfeita para ambientes pseudo-políticos infectos, como centros acadêmicos de faculdades – a maioria de quinta de categoria – e botecos de pinga nas proximidades das mesmas faculdades. E, com certeza, 85% dessa gente que se apropriou da obra de Raulzito ignorava por completo o significado das letras – e, dependendo da música, acho que até o próprio autor desconhecia. Resumindo: Raul Seixas é mais um artista superestimado e cujo mito é muito maior do que a qualidade de sua obra. E o mito ainda tem mais força do que se imagina, pois ainda é capaz de impregnar duas gerações após a sua morte com “sua mensagem”. Não creio que era esse o destino que o músico baiano imaginava para o seu legado: virar trilha sonora de gente equivocada e com pouca bagagem intelectual de um lado; de outro, de se tornar sinônimo de chatice e inconveniência com o bordão “Toca Raul!”. Ele merecia isso? Talvez sim, a julgar pela chatice de muitas de suas músicas.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Hudson Cadorini abandona o rock e retorna de vez à música sertaneja

Quando a música “Deep Van Riff” vazou na internet, tempos atrás, chamou bastante a atenção de muita gente no rock. Composição instrumental bem construída, estrutura melódica bem definida e de bom gosto e solos muito bons. O problema é que o meio roqueiro ficou em choque quando descobriu o autor da música: Hudson Cadorini, guitarrista paulista com larga experiência musical e bom cartaz na cena roqueira de Limeira e da região e Campinas. Só que, ao mesmo tempo, ele militava na dupla sertaneja Edson & Hudson, que provoca náuseas em grande parte dos roqueiros. “Deep Van Riff” é a melhor música do álbum “Turbination”, de 2007, álbum solo de Hudson Cadorini, que passou a assinar assim em seu projeto roqueiro. Misturando heavy metal e hard rock, o álbum teve boa aceitação, apesar dos preconceitos evidentes e até certo ponto compreensíveis. Pois não é que, após dois anos separado do irmão Edson para tentar uma carreira roqueira ao lado de sua banda de apoio, a Rollermax, Hudson Cadorini anunciou nesta semana que está de volta à música sertaneja ao lado do mesmo Edson? Para surpresa de muitos, inclusive a minha, muita gente boa que entende de rock e heavy metal já tinha elogiado bastante as performances vigorosas de Hudson em sua porção sertaneja, ao lado do irmão Hudson. Em meio às abomináveis músicas da dupla sertaneja, o guitarrista fazia questão de enfiar fraseados em alta velocidade e solos de clara inspiração metaleira. Na única vez em que tive o desprazer de ver um DVD e ouvir um CD da dupla, em uma festa na cidade de Jundiaí pouco tempo depois do lançamento de “Turbination”, percebi que realmente Hudson Tinha uma performance roqueira e que de vez em quando conseguia se livrar das amarras do gênero abominável para encaixar alguns solos mais roqueiros – claro, em quantidades insuficientes para fazer qualquer apreciador de rock de bom senso a encarar uma sessão de tortura ao assistir um DVD dupla apenas por causa de meia dúzia de lampejos metaleiros. Entretanto, o fato é que a encarnação de Hudson no rock tinha boa qualidade. “Turbination” é um álbum agradável, onde o guitarrista mostra bastante qualidade como instrumentista – apesar da escorregada feita nas três musicas com vocais, remetendo ao pior dó rock nacional dos anos 80. Houve um trabalho interessante também lançado em DVD em 2009, um registro ao vivo chamado “O Massacre da Guitarra Elétrica”, ao lado da Rollermax, onde ele destila competência na execução de várias versões do hard rock. Ele e sua banda abriram o excelente show do ZZ Top em São Paulo, no ano passado, com boa receptividade, e seu segundo álbum solo estava parcialmente gravado, inclusive com as participações especiais acertadas de Mike Inez (baixista, Alice in Chains) e Matt Sorum (ex-Guns ‘N Roses). Por isso tudo é que é uma notícia péssima para quem gosta de boa música o retorno de Hudson ao meio sertanejo. Significa que ele fracassou na sua vertente roqueira – e que não legou nem mesmo um álbum de inéditas durante a separação da dupla sertaneja, já que seu segundo solo ainda não tem data para ser lançado. Que a ida de Cadorini para o rock era arriscada, não se discute. Ele decidiu conscientemente abandonar uma parceria de enorme sucesso de anos com o irmão na música sertaneja para cair de cabeça no mundo pantanoso e instável do rock pesado nacional. Por mais que tivesse nome e certo apoio de promotores de shows, acabou abandonado aos leões pelo público e pelo mercado fonográfico. O preconceito por causa de seu passado sertanejo pesou? De certa forma sim. Não foram poucos os críticos de rock que o rotularam de oportunista, a despeito das resenhas positivas que “Turbination” recebeu no Brasil e no exterior. Foi determinante para o seu fracasso? Talvez não, mas ajudou um bocado. As entrevistas que Hudson concedeu a revistas especializadas em rock à época do lançamento de “Turbination” indicavam que ele não renegava o passado, mas que a sua praia era realmente o rock, mesmo afirmando que tinha crescido ouvindo música caipira e sertaneja e gostava do estilo. Uma ruptura com o irmão era questão de tempo. É de se lamentar a decisão do guitarrista, mas é bastante compreensível e, de certa forma, justificável. Ainda é cedo para falar em erros na condução da transição para o rock, mas fica evidente que Hudson Cadorini encontrou um ambiente inóspito e hostil. Se sua iniciativa solo com o primeiro álbum foi vista como apenas uma excentricidade de um astro do sertanejo, a despeito da boa qualidade do material, a partir do momento em que decidiu mudar de ares deixou de ser levado a sério por boa parte do mercado. Fez bem menos shows do que deveria e merecia e acabou tendo problemas por conta da demora na gravação e produção do segundo álbum – e não ajudou muito o fato de que se dedicou à música instrumental, algo ainda pouco digerível pelo público brasileiro, em especial o de rock pesado. O rock nacional perde um bom artista e alguém que poderia acrescentar algo a um segmento que anda estagnado e que carece de caras novas com potencial para surpreender. Não que isso necessariamente fosse acontecer em relação ao trabalho de Cadorini, mas era uma esperança de que, com a transição do guitarrista e uma eventual carreira com algum sucesso, pudesse abrir as portas para outros nomes ainda alternativos para arejar o segmento. Infelizmente isso não vai acontecer tão cedo.