quarta-feira, julho 15, 2020

Notas roqueiras: Fernando Quesada, Armored Dawn, Vodu, Silver Mammoth...



- Fernando Quesada (foto) fé o novo baixista do Armored Dawn. O músico substitui Heros Trench, que é produtor e guitarrista do Korzus. Com passagem pelas bandas Shaman, Noturnall e diversos projetos internacionais, Quesada assume as cordas graves da banda a partir desse mês. “Tive o prazer de participar da composição da música Ragnarok e a partir daí os nossos caminhos começaram a ficar mais próximos. Depois disso, cada vez mais começamos a entender que a gente estava num caminho muito próximo e que faria todo sentido eu assumir o baixo no momento atual da banda. Me sinto muito honrado”, explica o baixista. Ele leva consigo diversas influências após tocar em festivais e shows internacionais com músicos como Aquiles Priester, Ricardo Confessori, Michael Kiske, Russel Allen, James Labrie, Mike Orlando, dentre tantos outros.

- Após o videoclipe "Say My Name", primeiro single de "Walking With Fire", o Vodu, um dos pioneiros do heavy metal brasileiro, apresenta a pré-venda, limitada e exclusiva, do novo álbum, que será lançado pela Classic Metal Records. A pré-venda traz o novo álbum autografado e numerado, em formato digipack, além de uma camiseta de alta qualidade, com a arte de Marcelo Vasco (The Troops of Doom, Slayer, Machine Head, Kreator, Soulfly, Testament e outros). O valor, com frente incluso para todo o território brasileiro, é de R$ 100. Para adquirir "Walking With Fire" de forma antecipada na pré-venda, visite a loja no Mercado Pago em https://produto.mercadolivre.com.br/MLB-1584606186-pre-venda-novo-cd-vodu-walking-with-fire-camiseta-frete-_JM. André Góis (vocal), J. Luis "Xinho" Gemignani e Paulo Lanfranchi (guitarras), André "Pomba" Cagni (baixo) e Sergio Facci (bateria) retomaram as atividades trinta anos após a estreia com "The Final Conflict" (1986), relançado em CD pela Classic Metal em 2017.

- A faixa "Let's Find The Sun Together", presente no mais recente álbum do Silver Mammoth, "Western Mirror", acaba de ganhar um lyric video produzido pela Plural Brother Filmes, com direção de Rodrigo Rímoli. "Western Mirror", sucessor de "Mindlomania" (2015) e do compacto "Singles" (2017), está disponível em versão física e nas plataformas de streaming. "Renato Haboryni e eu produzimos o disco e ele veio naturalmente mais pesado, mas nem por isso deixamos de lado as características dos trabalhos anteriores. Inclusive, a intenção foi entregar um trabalho com várias vertentes. Ele tem heavy/rock, toques psicodélicos, passagens acústicas e até um hard blues em homenagem aos saudosos Muddy Waters, Robert Johnson, Chuck Berry e tantos outros", explicou o vocalista Marcelo Izzo. "A ideia para 'Let's Find The Sun Together' era compor uma canção não só para o público rocker, mas àqueles que gostam de algo mais acústico, com um refrão que fica na mente. A letra é voltada a um romance, um reencontro ou uma simples flertada, com voz e violão e percussão no início, seguindo a melodia vocal e dando um toque clássico. Penso que deu certo, pois as pessoas estão curtindo e isso é o mais bacana", acrescentou. Confira o lyric video de "Let's Find The Sun Together" em https://youtu.be/UdkgsQYyL9A

Notas roqueiras: Füria Forja Füria, Darkship, Playmoboys, Skunk Oil...

- A banda paulistana Füria Forja Füria acaba de lançar o seu primeiro single/clipe. "São Paulo Vinga!" é um rock pesadop cantado em português e com letra que exalta a cidade uitarras sujas e o baixo pulsante são os destaques da ,úsicade São Paulo sem cair no regionalismo que pode ensejar interpretações xenofóbicas ou mesmo racistas.guitarras sujas e o baixo pulsante são os destaques da música, que transita entre o stoner rock e o grunge.A formação tem Fabio Zaganin (baixo e vocais), Fabio Ribeiro (teclados), Armando Cardoso (bateria) e Gustavo Barros (guitarras). Veja o clipe de "São Pauçlo Vinga!" em https://youtu.be/DAQDWitenig

- Está no ar mais um vídeo ao vivo da banda gaúcha Darkship, gravado durante a turnê “Redemption Tour” ¸ levada a cabo ao lado da banda Noturnall e dos conceituados músicos Edu Falaschi e Mike Portnoy pelo Rio Grande do Sul e São Paulo, no segundo semestre de 2019. Joel Pagliarini (bateria e sintetizadores), Sílvia Cristina Schneider Knob (vocal), Rodrigo Schäfer (baixo), Ander Santos (violino e piano) e Julio Cesar de Azeredo (guitarra) tem disponibilizado, todos os meses, vídeos profissionais gravados durante a turnê, que posteriormente serão lançados em formato DVD. Assista ao vídeo de “I Know I'm in Danger”: https://www.youtube.com/watch?v=kGRqmZrd7bo

- Novo videoclipe da banda carioca Playmoboys acaba de ser lançado no canal do YouTube da Warner Music Brasil. O vídeo “Na Praia” traz a nova música da Playmoboys em cenas feitas em casa pelo vocalista da banda, Conrado Muylaert, e sua namorada, Amanda. Assim como a canção, o vídeo foi feito durante o período de isolamento. Veja em https://www.youtube.com/watch?v=1Hy9i_MgKlc&feature=youtu.be

- O Skunk Oil apresenta seu novo single e videoclipe, "Godlike", trazendo uma letra intrigante, que fala sobre um personagem fictício. "Trata-se de um típico 'anti-herói', obcecado pelo poder, influência e controle sobre os outros. É uma música dinâmica e intensa, com ótimos riffs de guitarra", explicou o guitarrista Dennis D'Angelo, que também dirigiu o clipe, filmado pela Chacon Media. Veja o clipe de "Godlike", editado por Rodolpho Ponzio – AMC e com pós-produção de Felipe Delgado em https://youtu.be/vuW9iL6_Dwo. Para registrar "Godlike", gravada nos estúdios The Record Company e Dimension Sound Studios, em Boston (EUA), estiveram ao lado de Dennis D'Angelo o tecladista Lucas Tadini, o vocalista Jaska Isola, o baterista Caio Moskalkoff e o baixista Fede Delfino.

Notas roqueiras: The Damnnation, Sumerian Project, João Rock...

The Damnnation, acaba de lançar o segundo single da carreira, "Apocalypse". A faixa faz parte do EP intitulado Parasite, que está passando pelo processo final de gravação e mixagem, com lançamento previsto para o começo de 2021. A banda também estreou recentemente o videoclipe "World's Curse", que pode ser conferido abaixo. The Damnnation é um power trio que começou depois que a guitarrista Renata Petrelli (Marie Dolls, ex- Sinaya) e a baterista Cynthia Tsai (Little Room, ex-Sinaya) decidiram fundar uma nova banda no início de 2019. Procurando por uma baixista, Renata convidou Camis Brandão, (Charlotte matou um cara), para unir forças e fazer um tipo de metal flexível e mais orgânico, sem se agarrar a estereótipos, colocando todas as boas influências do grupo e fazendo novas músicas, com um som único e muita personalidade. Após conquistar novos projetos, Cynthia e Camis deixam a banda, que agora conta com Aline Dutchi (baixista) e Leonora Mölka (baterista). Veja o clipe em https://www.youtube.com/watch?v=0xaXGe1K7k0 -

A 19ª edição do João Rock, festival que acontece em Ribeirão Preto (SP), foi adiada para 19 de junho de 2021 devido ao atual cenário da pandemia do novo coronavírus. O evento, considerado um dos maiores do segmento, estava marcado para setembro deste ano. "Optamos pelo adiamento por conta dos atuais desdobramentos e situação do País no enfrentamento da pandemia. Até a data que inicialmente previmos, não será possível realizar o evento sem colocar pessoas em risco de contágio e principalmente no clima de paz, união e alegria como são nossas premissas. Assim já estamos planejando fortemente o Festival de 2021 que deve ser uma grande celebração dos 20 anos de João Rock junto ao público", comenta Luit Marques, um dos organizadores do evento. Todos os ingressos vendidos para o Festival serão válidos para a nova data. No entanto, para quem preferir o reembolso, os pedidos devem ser feitos através do site joaorock.com.br até o dia 14 de outubro de 2020 e o ressarcimento dos valores (dos pedidos enviados dentro d prazo) serão efetivados no próximo ano, antes da edição 2021 do João Rock, atendendo a medida provisória Nº 948 publicada em 08/04/2020. Quem efetuou a compra nos pontos de venda físicos terá a obrigatoriedade de fazer a devolução da pulseira nos locais que serão divulgados após o fim do prazo para a solicitação do reembolso (14/10/2020). Detalhes sobre o line-up da edição de 2021 serão anunciados em breve nos canais oficiais do evento. Mais informações: www.joaorock.com.br.

- O primeiro registro do novo EP de estúdio do Sumerian Project, acaba de ser lançado em vídeo no canal oficial da banda no YouTube. Utilizando do atual momento vivido no mundo pela pandemia de covid-19, o Sumerian project criou a música "Aniquilação", que retrata um mundo pós-pandemia destruído pelo neoliberalismo, onde nossos criadores, os alienígenas, vêm do espaço profundo nos impedir de destruir por completo o planeta. Assista ao lyric vídeo de "Aniquilação": https://www.youtube.com/watch?v=_sWrDqEuGO8.

Notas roqueiras: Primavera nos Dentes, Murais, Tagore...

- Com o intuito de mergulhar no repertório da banda Secos & Molhados, Charles Gavin montou em 2017 o projeto Primavera nos Dentes, que além dele na bateria contava com Paulo Rafael (guitarra), Duda Brack (vocal), Pedro Coelho (baixo) e Felipe Ventura (violino e guitarra). A ideia era estudar, recriar arranjos, enfim, se aprofundar no universo do Secos & Molhados experimentando outros olhares. Não haviam pensado em gravar um álbum, até que receberam um convite do produtor Rafael Ramos e aí gravaram algumas canções e lançaram, pela Deck, o álbum homônimo com 11 faixas. Hoje a banda lança, nos aplicativos de música, a versão deluxe do projeto com duas faixas bônus; "Amor" (do primeiro álbum do Secos & Molhados) e "Flores Astrais" (do álbum de 1974). "A sonoridade e os arranjos se distanciaram bastante dos originais, diria que cada versão que fizemos tem a assinatura de cada um de nós. Também foi surpreendente constatar o fato de que a poesia das letras permanece extremamente atual e assertiva após décadas, deliciosamente doce e ácida, ingênua e politizada ao mesmo tempo, conectando-se com pessoas de qualquer geração e qualquer lugar" – comentou Gavin. "Primavera nos Dentes" traz uma seleção de músicas escolhidas a dedo dentre as 26 canções que integram o repertório dos discos de 1973 e 1974 do grupo Secos & Molhados.

- Hélio Morais é figura conhecida na música portuguesa. Baterista das bandas Paus e Linda Martini, ele movimenta a cena do país há mais de 15 anos, também agenciando artistas como o quinteto Capitão Fausto, que esteve ao lado do O Terno no Rock in Rio 2019. E em 2020, Hélio se propôs um novo desafio: se lançar solo. Para tanto, convidou o guitarrista e produtor dos Boogarins, Benke Ferraz, para assinar a produção do álbum, que leva o nome do projeto, Murais, e será lançado em setembro. Nesta sexta-feira, 17 de julho, o novo single de MURAIS, a faixa Catatua, estará disponível em todas as plataformas streaming, distribuída em Portugal pela Sony Music e no resto do mundo pelo Primavera Labels, selo do Primavera Sound. Catatua será lançada com videoclipe dirigido por Ana Viotti. Assista ao teaser aqui.

- Destaque do atual rock brasileiro, Tagore aos poucos vai revelando músicas da nova safra de seu repertório. O artista pernambucano gravou um álbum inédito, com produção de Pupillo (que já produziu Edgar, Céu, Otto e diversos outros artistas) e pelo single que lançou recentemente dá para ter uma ideia do que virá em "Maya". "Drama", composta por Tagore em parceria com Fernando "Dinho" Almeida, do Boogarins, acaba de ganhar um remix feito pelo outro 'boogarin', Benke Ferraz, e um videoclipe dirigido por Gabriel Rolim. "A estética do clipe foi idealizada dentro de um contexto lo-fi, com filmagens feitas com celular durante a quarentena e editadas pelo Gabriel, mestre em criar texturas vívidas e que nesse caso dialogam perfeitamente com o vídeo" - contou Tagore. A data de lançamento do álbum "Maya" será divulgada em breve. Veja o clipe em https://www.youtube.com/watch?v=JKuQoPVpeCM

terça-feira, julho 14, 2020

Notas roqueiras: Pitty, Fernanda Takai, Ladama...

Pitty

- no mês passado, a cantora e compositora Pitty pediu, em seu canal na Twitch, que os fãs mandassem vídeos feitos em casa para uma nova versão do clipe de "Submersa". Muitos fãs enviaram e Otavio Sousa editou o vídeo, que ficou incrível. "Me emocionei real! Quantas vidas, realidades, sonhos e perspectivas no mesmo clipe. Estamos todos conectados" - comentou Pitty. Além dessa versão, batizada de "Collab Submersa", há o clipe oficial de "Submersa", criado e gravado pela própria Pitty e editado pelo diretor Otavio Sousa. A ideia surgiu a partir do mesmo conceito e material que norteou as VideoTrackz de "MATRIZ". Nesse projeto, Pitty produziu 13 vídeos divididos entre abertura, tracklist visual das faixas do álbum e encerramento com créditos. Os roteiros desses pequenos vídeos foram pensados para serem executados de forma simples e criativa, em casa, com objetos cotidianos e recursos de edição simples e populares. Pitty tem uma programação semanal na Twitch de terça a sexta com as sessões fixas "Na Minha Estante", "Di Versa" e "Sexta Sem Lei". Veja os clipes de "Collab Submersa" (https://www.youtube.com/watch?v=lo1FmxNuBp8) e "Submersa" (https://www.youtube.com/watch?v=s3a01G-xurI).

- Assim que começou a pandemia, a cantora e compositora Fernanda Takai, em parceria com o músico e produtor, também seu marido, John Ulhoa, criou e gravou um álbum no estúdio que eles têm em casa. John produziu, mixou e tocou todos os instrumentos. Direta ou indiretamente o disco acaba remetendo aos dias de hoje, a começar por seu título "Será que você vai acreditar?". A faixa de abertura, "Terra Plana", tão doce quanto triste, traz autoria de John. "Escrevi a música pensando em nossa filha, imaginando se estamos dando a ela as ferramentas que precisa para ter a coragem que a vida pede, e a sabedoria para se esquivar do obscurantismo que anda nos assolando. É sobre pais envelhecendo e desejando ter acertado na educação dos filhos, para um dia poderem se despedir em paz", contou John. Outra música inspirada pela paternidade é "Não Esqueça", de Nico Nicolaiewsky (1957/2014). Fernanda e John eram amigos do artista — que fez parte do conhecido espetáculo "Tangos & Tragédias" — e ainda hoje têm se envolvido em eventos que buscam manter viva a obra deste gaúcho que partiu cedo demais. A canção é um recado amoroso muito atual, apesar de escrita há muitos anos, nunca foi oficialmente registrada por Nico. Alguns versos parecem ter sido escritos exatamente durante os tempos de pandemia: "Não esqueça que é tudo ilusão, não esqueça de lavar as mãos". "Não Creio em Mais Nada" (Totó), sucesso na voz de Paulo Sérgio gravado em 1970, ganha uma versão criativa com uso de texturas vocais e sintetizadores. Takai traz, com competência única, frescor à balada, que aborda o desânimo e descrença pelos motivos dos mais diversos. Em "O Amor em Tempos de Cólera" (Fernanda Takai/ Virginie Boutaud) ela divide os vocais com Virginie, que foi vocalista da banda Metrô, que fez muito sucesso nos anos 80. Veja o vídeo de "terra Plana" (https://www.youtube.com/watch?v=ejfsEGAyI-w&feature=youtu.be) e "Não Esqueça" (https://www.youtube.com/watch?v=bhb9_1OzBBI&feature=youtu.be).

- O coletivo Ladama, sediado na América do Sul e nos Estados Unidos, lança um chamado urgente para mulheres em todo o mundo com seu eletrizante segundo álbum de estúdio, OYE MUJER (Six Degrees Records). Neste novo trabalho, o grupo canaliza a força da mulher diante de crises globais, destruição ambiental sem precedentes e políticas de imigração injustas. Ouça aqui. Ladama é um grupo inovador de quatro mulheres de várias partes das Américas, incluindo Mafer Bandola (voz/bandola llanera - Venezuela), Lara Klaus (voz/bateria e percussão - Brasil), Daniela Serna (voz/tambor alegre - Colômbia), e Sara Lucas (voz/guitarra - EUA). Juntas, elas usam a música como ferramenta de transformação social e empoderamento de mulheres e jovens e atuam socialmente em comunidades por meio de apresentações ao vivo, residências e oficinas para todas as idades.

Notas roqueiras: Heretic, Seventh Sign Fron Heaven, Revengin, Marenna-Meister

Heretic (FOTO: DIVULGAÇÃO)

- O Heretic apresenta oficialmente a capa e tracklist de “(Dis) Covering”, registro que irá representar um singelo tributo dos músicos brasileiros à grandes artistas da música Pop internacional. Contando com 10 faixas, o registro apresenta duas participações especiais, na qual Isadora Magalhães empresta sua voz nas faixas Come Undone (Duran Duran) e 7 Seconds (Neneh Cherry & Youssou N’Dour), e a outra participação é do grande guitarrista goiano Luis Maldonalle, no solo de Everybody Wants To Rule The World (Tears For Fears). O disco está completamente produzido e finalizado, e seu lançamento oficial será feito nesta sexta-feira, 17 de julho, em todas as plataformas digitais e canal de YouTube. As músicas foram gravadas em Goiânia pelo músico Guilherme Aguiar (guitarras/instrumentações/percussões, baixos) e Erich Martins (vozes), que gravou suas partes de Lisboa (Portugal).

Confira a lista de músicas:

01 - Another Day In Paradise (Phil Collins)

02 - Never Tear Us Apart (INXS)

03 - Come Undone (Duran Duran)

04 - Cose Della Vita (Eros Ramazzotti)

05 - Holding Back The Years (Simply Red)

06 - Everybody Wants To Rule The World (Tears For Fears)

07 - 7 Seconds (Neneh Cherry & Youssou N'Dour)

08 - By My Side (INXS)

09 - No Ordinary Love (Sade)

10 - In The Air Tonight (Phil Collins)

-"The Woman and the Dragon", CD do Seventh Sign From Heaven, foi lançado oficialmente. O disco apresenta 10 faixas e pode ser conferido no Spotify, Deezer, ITunes, Google Play, Npaster, Tidal, Amazon Music, Akazoo e várias outras plataformas de streaming. Em breve, a Seventh Sign From Heaven, estará disponibilizando todas as faixas do disco para audição completa também em seu canal oficial de YouTube. Escute em https://open.spotify.com/album/6fQREwC5FiwIKReLUSJq46?si=UlveObyyRva2Riex0WL7bA

- Mesmo focando no processo de composição do sucessor de seu álbum de estreia, “Cymatics”, o Revengin disponibilizou hoje o vídeo oficial da faixa “Nine Chains of Sorrow” em seu canal oficial no YouTube. Ele pode ser conferido no seguinte link: https://youtu.be/UujxSMhyXpQ

- Marenna-Meister está prestes a lançar o álbum de estreia, "Out Of Reach", que será lançado em 28 de setembro pelo selo dinamarquês Lions Pride Music e traz 10 faixas de Hard Rock e Hair Metal dos anos 80. A banda acaba de divulgar a capa, tracklist e um sampler com 30 segundos de cada faixa para o público conferir um pouco o novo trabalho desta parceria.

- Faixas: 01 Out of Touch 02 The Price of Love 03 Gimme All You've Got 04 I Don't Wanna Lose You 05 (There's So) Many Things 06 Sleeping With The Enemy 07 It Ain't So Easy (Loving You) 08 Ride, Ride, Ride 09 Dangerous Minds 10 Feel The Hunger 11 Follow Me Up (bonus track)

Os 40 anos de 'Back in Black', que catapultou o AC/DC aos estrelato

Marcelo Moreira*

Os irmãos Malcolm e Angus Young não sabiam bem como reagir à notícia. Era uma manhã fria de 19 de fevereiro de 1980 e o vocalista da banda deles, o AC/DC, fora encontrado morto dentro de um carro em um bairro meio mórbido de Londres. Logo agora que a banda preparava o seu salto definitivo opara a conquista do mundo? Quatro anos ralando na Inglaterra para ver o sonho se esfarelar?

Angus ria de nervoso quando se preparava para ir ao departamento de polícia, enquanto o taciturno Malcolm estava mais taciturno ainda. Só que sua face de pedra escondia o seus pensamentos e já projetava o futuro: o próximo álbum prometia ser a explosão do quinteto australiano, com muitas músicas quase prontas. A próxima voz tinha de ter carisma e a pegada de Bon Scott, o cantor morto na noite fria londrina.

E assim, em pleno luto, o AC/DC se preparou para continuar e finalmente se tornar uma banda gigantesca. E teve de ser sem o carismático Scott, substituído por outro operário batalhador da música, alguém que tinha aberto seu caminho a machadadas e que quase desistiu no meio da trilha.

No dia 25 de julho de 1980 o AC/DC lançava seu sétimo álbum de estúdio, "Back in Black", o primeiro com Brian Johnson nos vocais, o primeiro após a morte de Bon Scott.

Muito se especulou sobre cantores australianos amigos da banda, mas os irmãos chefões nunca se esqueceram das próprias palavras de Scott a respeito de Johnson, então cantor do Geordie, banda inglesa subestimada dos anos 70. "Esse cara canta bem e tem uma força inabalável."

A tragédia moldou a trajetória do AC/DC a partir de então, com a feliz escolha de um operário sedento de sangue e de estrada. A escolha não foi óbvia e nem fácil, demorou um pouco, mas alguma coisa inexplicável fez com que os irmãos Young adquirissem a convicção de Brian Johnson era o cara certo, apesar de pouco impressionados com o primeiro teste.

Quarenta anos atrás, "Back in Black" (título em homenagem a Scott) estapeava os incrédulos e espantava as nuvens pesadas que ameaçavam o futuro do quinteto australiano. É um dos dez álbuns de música pop mais vendidos de todos os tempos.

A capa do disco é uma homenagem a Bon Scott, porém a gravadora resistiu a ideia, queriam uma capa diferente, mas no fim concordaram com a banda. O disco foi lançado e de imediato alcançou o 1° lugar nas paradas australianas, inglesas e francesas e em 4° lugar nos Estados Unidos, o posto mais alto que a banda tinha alcançado nas paradas americanas até então.

O primeiro single, “You Shook Me All Night Long” chegou ao número 31 da Billboard, enquanto a faixa título chegou ao número 37, no entanto o álbum permaneceu por 131 semanas no Top 100 da Billboard.

Quando Brian Johnson foi convidado a fazer um teste no AC/DC, de cara pensou em recusar “Eu estava numa banda que tinha três músicas entre as Top 10, após três anos aquele era o nosso momento, estávamos numa gravadora cujo o lema era ‘Você faz música e nós o dinheiro!’, estava a muito na estrada, tinha perdido o crescimento de meus filhos. Mas aí fiquei curioso e pensei ‘que mal tem?’ em fazer uma experiência, aí fui cantar com os caras e Boing! estava feito.” comentou o vocalista numa entrevista em 2011.

O disco foi composto e gravado no Compass Point Studio em Nassau, Bahamas, enquanto os irmãos Young compunham as músicas, Johnson se encarregava das letras. Banda e vocalista pareciam predestinados ao sucesso.

Três das músicas se tornaram hinos eternos - a faixa-título, "Hells Bells" e "You Shook Me All Night Long", reforçando a marca registrada do novo cantor - voz potente, alta e resgada, com alguma semelhança com o modo de cantar de Bon Scott.

A vida foi generosa com Johnson e o AC/DC por 35 anos, mas a maré virou com os problemas de saúde de Malcolm Young a partir de 2012. O comandante foi acometido por uma série de flagelos, incluindo uma doença cerebral degenerativa. Gradualmente foi se afastando do grupo, que perdeu o rumo. Sua saída definitiva ocorreu em 2014 - morreu três anos depois, em consequência de vários problemas.

Johnson, o mais velho dos integrantes da banda, também sentiu o peso da idade e apresentou saúde debilitada durante a gravação de "Rock or Bust", o disco de 2015. Com problemas auditivos, ficou impossibilitado de sair em turnê. Acabou demitido por Angus Young, por telefone, sendo substituído temporariamente por Axl rose, dos Guns N'Roses.

O futuro misterioso da banda começou a ser desvendado a partir de 2018, quando o AC/DC deu pistas de que ressuscitaria para gravar outro disco, contando com os retornos de Johnson, do baixista Cliff Willimans (que tinha se aposentado em 2016) e do baterista Phil Rudd (outro que foi demitido em 2015 porque não podia sair da Nova Zelândia, onde morava, por conta de uma acusação de participação em um homicídio).

Comentários de bastidores dão conta de que Johnson voltou por conta de preparativos para comemorações de 45 anos do lançamento do primeiro álbum do grupo e de 40 anos de "Back in Black", que marcou a estreia de Johnson.

Se for isso, então Young acertou em cheio e reparou uma grande injustiça. Um dos vocalistas mais viscerais do rock, ainda em forma aos 73 anos, é parte vital do que tenha restado de credibilidade do AC/DC sem Malcolm Young. Uma rápida ouvida em "Back in Black" é suficiente para corroborar essa visão.

Bon Scott sedimentou a caminhada do quinteto, mas é difícil refutar a ideia de que Brian Johnson é a voz definitiva do AC/DC.

* Com informações do site RockNight

segunda-feira, julho 13, 2020

Rolling Stones e Deep Purple: longe do brilhantismo, mas bem perto da eficiência

Marcelo Moreira

Rolling StOnes (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O Dia Internacional do Rock não vai salvar o mundo de hoje, atolado em uma pandemia assustadora, mas certamente vai tornar muito melhor o dia de muita gente. E os Rolling Stones e o Deep Purple se encarregaram de fazer disso uma verdade.

O segundo single dos Stones deste ano, "Criss Cross", poderia vem estar estar no primeiro disco de inéditas da banda em 15 anos, ainda sem nome definido. No entanto, com bom acabamento e parecendo coisa nova, é uma música antiga, sobra de sessões de estúdio de 1973 e 1974. Será um dos três bônus inédito da versão "deluxe" do álbum "Goat's Head Soup", de 1973. O primeiro do novo álbum, "Living in the Ghost Town", é um mergulho no passado, relembrando a estética da segunda metade dos anos 70.

Apesar do tema e dos arranjos, "Criss Cross" não é uma música tão datada. As guitarras ferozes e grooveadas comandam tudo, em uma levada que poderia encaixá-la em "Some Girls", por exemplo, o interessante álbum de 1978. A faixa traz um Mick Jagger mais entusiasmado, abusando de falsetes e firulas vocais para narrar a história de uma mulher avassaladora, avançada e assustadora, além de maluquinha, como fica bem explícito no clipe que a acompanha.

Já o Deep Purple prepara para este mês o lançamento de "Whoosh", o álbum sucessor do bom "Infinite". A terceira música divulgada, "Nothing At All", segue o padrão de "Man Alive" e "Throw the Bones": guitarras menos pesadas e mais técnicas e um predomínio cada vez maior dos teclado de Don Airey."

Não deixa de ser um pouco decepcionante, já que "Now What?" e "Infinite" pareciam direcionar a banda para um caminho que recuperasse, em parte, o espírito hard dos anos 70.

"Nothing At All" é interessante, quase um boogie rock na linha de Status Quo e Foghat, mas os arranjos de guitarra de Steve Morse fazem toda a diferença, conduzindo a melodia em dedilhados de tirar o fôlego. Mas cadê o peso? E o baixo marcado e instigante?

Deep Purple (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Se não são brilhantes na comparação com alguns dos melhores momentos das duas bandas, ao menos mostram um sopro de criatividade e bom gosto em um mercado roqueiro diluído e pouco ambicioso cde artistas surgidos neste século.

Não é à toa que alguns dos destaques do século XXI no rock estão recorrendo ao rock nostálgico, como a banda sueca Blues Pills, o o blueseiro Joe Bonamasssa, que encharca seu trabalho com doses maciças de referências do rock britânico setentista e do hard rock.

Rolling Stones e Deep Purple são duas bandas cinquentenárias e, de certa forma, exalam todo esse arcabouço em suas novas canções. Sem aquela necessidade de ficar provando tudo a cada canção, podem abusar de certos experimentos e enveredar por outros caminhos.

Poderia ser melhor? Sempre pode, mas essa não é a questão. As novas músicas das duas bandas são a prova de que ainda é possível escutar coisa boa vinda do classic rock.

Com seus integrantes com mais de 75 anos de idade e outros beirando os 80, saudemos esses surtos de criatividade que resultam em músicas interessantes. Sem mau agouro, mas apenas constatando a realidade, talvez sejam os últimos trabalhos autorais das duas bandas.

Oswaldo Vecchione, do Made in Brazil, sofre AVC no interior de São Paulo

Marcelo Moreira

Made in Brazil: Oswaldo é o terceiro da esq. para a dir. (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Um erro muito comum quando se analisa a história do rock paulista é simbolizar os Mutantes como a cara do gênero na cidade - e pior, a cara do ritmo no Estado, especialmente citando como os nomes principais do berço roqueiro paulistano, o bairro da Pompéia, na zona oeste da cidade.

Quando escuta tal heresia, Oswaldo Vecchione prefere soltar uma gostosa gargalhada e passar para o tópico seguinte. Enquanto os Mutantes ainda engatinhavam e tentavam convencer Rita Lee a abraçar o rock, o Made in Brazil, dos vizinhos irmãos Oswaldo e Celso Vecchione, já quebrava tudo no bairro.

A estrondosa gargalhada de Oswaldo por enquanto dar lugar a um silêncio que significa a luta pela vida. O baixista e vocalista da fantástica banda de rock paulistana sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) na tarde deste domingo, 12 de julho, no interior de São Paulo. Está internado em um hospital da capital e seu estado é considerado delicado, segundo mensagens de seu filho, Rick, nas redes sociais.

Um dos pioneiros do rock moderno, Oswaldo é septuagenário, mas mostrava disposição de jovem nos últimos tempos. As comemorações dos 50 anos de criação da banda se estenderam e o músico fazia questão de mostrar o imenso sorriso em cada ocasião de comemoração, seja em shows, seja em exposições de fotos do grupo ou em meros encontros fortuitos em bares e padarias.

Não era dessa forma que queríamos mostrar o Dia Internacional do Rock em 2020, justamente em meio à pandemia mais letal dos últimos 100 anos. A persistência de Oswaldo e do Made in Brazil, na estrada há 53 anos, nos lembrar que, mas do que paixão e vida, rock é necessidade. Precisamos de Oswaldo para nos chacoalhar todas as vezes em que incautos e tontos vomitam que o rock morreu.

Rock nas veias

Os irmãos Vecchione eram bambinos, filhos de italianos, e renegaram os ascendentes e a tradição do bairro ao preferirem o Corinthians ao Palmeiras, e isso contribuiu para a rebeldia e a fúria dos moleques para contestarem sempre que podiam e chutar todas as canelas que viam pela frente. E parece que a banda não cansa de chutar canelas, portas, baldes e cabeças, pois está na ativa há 53 anos, um feito inimaginável em um Brasil que despreza a cultura e o entretenimento de qualidade. Cinquenta e três anos de carreira... quem consegue se ombrear a tamanha longevidade, em temos de grupo? Demônios da Garoa, Azymuth, Status Quo, Kinks, Rolling Stones, Scorpions... Made in Brazil não é a principal banda de rock do país - embora muitos a considerem dessa forma, não sem razão. Também não é a mais importante, e tampouco a melhor. Entretanto, é praticamente a única banda brasileira que pode ser considerada uma instituição cultural. Isso é muita coisa. O grupo passou por tantas formações diferentes que conquistou dois recordes no Guinness World Records – banda de rock mundial com o maior número de formações oficiais (atualmente na 203ª formação) e banda de rock mundial com o maior número de participantes (126 músicos ao longo de sua trajetória). Hoje é formada por Oswaldo “Rock” Vecchione (voz, baixo e gaita), Celso “Kim” Vecchione (guitarra e baixo), Rick “Monstrinho” Vecchione (bateria), Guilherme “Ziggy” Mendonça (guitarra e violão), Octavio “Bangla” Lopes (sax), Wanderley Issa (teclado), Ivani “Janes” Venâncio (voz) e Rubens “Rubão” Nardo (voz). "Já passamos por tanta coisa e tivemos tantas experiências que fica complicado descrever o que nos faz seguir em frente. Na verdade, explicar até que é fácil, é amor à música e ao rock. Por que duramos 50 anos? Um livro é pouco para compreender a nossa trajetória e nossa motivação", diz Oswaldo Vecchione, o líder e mentor da banda. Aos 72 anos de idade, o baixista e vocalista se diverte com a enxurrada de adjetivos e elogios que a banda recebe e com a longevidade que a banda atingiu. "Instituição? O Made in Brazil é importante, mas é uma banda de rock, e é assim que queremos ser reconhecidos. A nossa importância? Vocês é que a estabeleçam e a determinem."

Foco e longevidade Em uma entrevista à revista Roadie Crew (edição 227, de dezembro de 2017), Vecchione afirmou que não imaginava que a banda durasse 50 anos. "Até conseguir o primeiro contrato com uma gravadora e estrear em disco, em 1974, só havia dúvidas. Tive meus dois primeiros filhos, rolava uma pressão da família para cortar o cabelo, comprar terno e gravata, arrumar emprego e para com essa frescura de tocar rock. Quando passei por cima disso, o resto até que foi até fácil." O líder tem uma receita que não é complicada para descrever o que faz o Made in Brazil estar na ativa até hoje. "Não podemos perder o foco, a ideologia. Mesmo com tantas mudanças de formação, eu e meu irmão Celso mantivemos o pulso firme para deixar os caras focados no que a gente queria, que era tocar rock'n'roll e blues. Isso foi fundamental para não nos perdermos pelo caminho." Oswaldo Vecchione erra feio quando despreza as declarações de que o Made é uma instituição musical, algo que ninguém ousa questionar em relação aos septuagenário Demônios da Garoa e ao cinquentenário Zimbo Trio. Em um gênero musical alienígena neste país e que desde os anos 90 vem perdendo cada vez mais espaço, é uma alegria imensa e um orgulho saber que uma banda de rock brasileira chega aos 50 anos na ativa e fazendo boa música. Que ten ham os próximos 50 anos.

Dia Internacional do Rock: sempre há o que comemorar

Marcelo Moreira

De um lado, o veterano astro, já milionário (ou nem tanto), brada contra o "roubo" de sua arte e se nega a fazer novo trabalho autoral, preferindo a comodidade dos royalties de hits antigos, rotos e desgastados - mas ainda lucrativos.

Do outro, o moleque sonhador que junta os trocados suados ganhos em botecos aqui e ali, louco para entrar em um estúdio "meia boca", mas barato, para gravar três músicas próprias para um EP, que será divulgado gratuitamente nas rede sociais, ou distribuídos em pen drives de bar em bar ou na rua, quem sabe no metrô.

No meio dos dois mundos a anos-luz de distância um do outro está um vácuo que a modernidade e a tecnologia ainda não conseguem preencher em um tempo em que a arte e a cultura perderam o status de "bens intangíveis". Arte e cultura ficaram muito baratas e, por consequência, descartáveis e menosprezadas. Existe futuro nessas atividades? Essa é a pergunta que muitos artistas vêm fazendo há alguns anos, especialmente os músicos: se a arte ficou de graça, existe algum sentido artístico em produzi-la de forma diletante? Por incrível que pareça, os roqueiros brasileiros recorrem a um chavão invertido de John Lennon para responder e ir em frente: "O sonho não acabou e vamos em frente". Boa parte dos que ainda empunham guitarras, baixos e baterias questionam se há alguma coisa a comemorar neste 13 de julho, Dia Internacional do Rock. À crise do mercado musical se juntou uma crise brava no Brasil e uma monstruosa pandemia. Vale a pena investir dinheiro em estúdio, produção, ensaios, mídia física e distribuição para ver seu trabalho consumido de graça e sem a devida valorização? "Eu sou músico, vivo disso e tudo o que consegui veio por meio da música", disse certa vez o baterista Ivan Busic, do Dr. Sin. "As coisas estão difíceis? Na verdade, nunca foram fáceis no rock, e não sei se serão algum dia. Mas eu aposto em mim, na minha banda e na minha música. Ainda tem gente que valoriza bastante o que faço e a arte em geral. Só tenho que agradecer e seguir em frente. Adoro tudo isso." Vale a pena compor música para um público que se relaciona de modo diferente com o rock hoje em dia, tratando os trabalhos de forma descartável e sem apreço? "Fui criado ouvindo música e sonhando com os palcos, vendo meus ídolos transformarem música em paixão, em algo quase indescritível", afirma outro baterista, Amílcar Christófaro, da banda de metal Torture Squad. Para ele, o ato de criar é indissociável do artista e do ser humano. "Minha banda gravou oito CDs, quase todos lançados no exterior também. As coisas já foram melhores, mas também já foram piores. Compor músicas é a motivação maior de um músico de ver o seu trabalho apreciado de alguma maneira. Não se trata só de legado, mas de necessidade interna de produzir e de admirar o próprio trabalho." Os dois fazem parte de um time recheado de idealistas e abnegados que acreditam que a arte ainda faz diferença na vida das pessoas e que ajuda a melhorar o dia de cada um de nós - e o rock é a ponta de lança dessa atividade. Também penso dessa forma, mas admiro quem mergulha de cabeça neste sonho e ainda consegue viver dele. Fazer rock hoje é um ato de rebeldia, assim como fazer arte. De volta ao gueto e com uma áurea cada vez mais reforçada de atividade marginal, o rock chega à meia-idade em busca de novos horizontes e outras perspectivas. Em 1967 surgiu o psicodelismo como tábua de salvação; dez anos depois, veio o punk para quebrar tudo, chacoalhar e dar início a uma nova dinâmica; em 1987 foi a vez do thrash metal e da música extrema levarem o rock a romper limites e outras barreiras e disseminar o lado obscuro e sombrio da música; dez anos depois e o chamado new metal criou uma nova estética para atrair novos ouvintes e resgatar o espírito rebelde e jovem do gênero; já em 2007 o rock parecia esgotado, exaurido, clamando por um novo movimento que pudesse revitalizar e rejuvenescer o combalido sessentão. O ciclo vem se repetindo com frequência, e o rock continua aí, menos vigoroso, mas com muito fôlego, apesar de muitos continuarem a decretar a morte do gênero. Sendo assim, cabe a pergunta de sempre: quem é que vai "salvar" o rock dessa vez, se é que ele realmente precisa ser salvo?

Notas roqueiras: Armored Dawn Convida, Rádio Rock Freeday...

- O projeto “Armored Dawn Convida” precisou ser remarcado para Março de 2021 devido à pandemia da Covid-19. A turnê passará por diversas cidades brasileiras levando música de qualidade com preços acessíveis para os fãs brasileiros de rock e heavy metal. As atrações seguem as mesmas: além da banda anfitriã Armored Dawn, o encontro de peso inclui as bandas Korzus, Dr Sin, Jimmy & Rats e Medjay. Ingressos antecipados já adquiridos seguem valendo para a nova data sem necessidade de troca.

- Com o intuito de promover a divulgação de bandas brasileiras para mais pessoas que gostam do Rock e Heavy Metal, a Rádio Rock Freeday anuncia o lançamento da nova coletânea física “Rock Freeday Collection IV”. A arte do projeto foi assinada pelo designer João Duarte, responsável por capas, sites e cartazes de bandas como Angra, Dream Theater, Rhapsody, Nervosa e outras. A arte representa o atual momento que vivemos, alinhado força, impacto e representatividade das bandas que compõem a quarta edição do projeto, que sempre visa estimular, e amplificar toda divulgação dos estilos que tocam diariamente na programação da web rádio. “Em plena pandemia de corona vírus e de toda problemática do isolamento social, decidimos que a melhor forma de manter as bandas em evidência, e sobretudo, vivas no mercado da música, seria justamente divulgando seus recentes trabalhos para o público alvo”, justifica o editor da Rock Freeday, Alexandre Afonso. A coletânea Rock Freeday Collection é uma produção coletiva, aberta para vários segmentos do Rock e Metal Brasileiro. O quarto volume tem por objetivo abrir mais vias de divulgação para o trabalho das bandas, músicos, cantores e compositores que compõem de forma autoral o seu trabalho. Entre as 19 faixas do disco, estão composições de novos e veteranos artistas do cenário metal, com músicas inéditas e versões exclusivas sugeridas pelas bandas participantes do projeto. O lançamento nacional da coletânea está programado para as primeiras semanas de agosto de 2020, onde começam as distribuições para lojistas, jornalistas, produtores e influenciadores do cenário alternativo brasileiro.

Tracklist – “Rock Freeday Collection IV”:

1. Torture Squad – The Awakener

2. Sevencrows – Deep Thoughts

3. Black Swell – Fire

4. About2Crash – God

5. Killery – Exuding Hate

6. Sepulchral Voice – Evil Never Rests

7. Basttardz – Agrotrash

8. Rage in my eyes – Hole in the shell

9. Sanny Mazza – Não Vou Me Calar

10. Armored Dawn – Men Of Odin (Acústico)

11. Avaken – The Herald

12. Bella Utopia – Surreal

13. Leo Mascarenhas – Lockdown

14. Quantika – Horizon of Madness

15. Inner Call – Empty eyes

16. Black Legacy – Powerless

17. Consciência Coletiva – Consciência Coletiva

18. Ebóris – Viela

19. Caoscracia – Voltas e Revoltas

quarta-feira, julho 08, 2020

'Back in Black', do AC/DC, ainda é o álbum de rock mais vendido de todos os tempos

Ricardo Gozzi - do site Roque Reverso



O AC/DC iniciou a década de 1980 em uma encruzilhada entre o céu e o inferno. Um passo na direção certa levaria a banda australiana a concluir com êxito o longo e custoso caminho ao estrelato.

Um eventual passo em falso não colocaria em descrédito o sólido trabalho desenvolvido até aquele momento. Longe disso. Mas certamente teria privado o mundo de um dos mais brilhantes, persuasivos e surpreendentes álbuns da história do rock.

Afinal, é impossível passar incólume a uma audição de “Back In Black”, o sétimo álbum de estúdio do AC/DC, que completa 40 anos neste sábado, 25 de julho de 2020.

Acima de tudo, “Back In Black” é um divisor de águas. Se há um antes e um depois na história do AC/DC, a referência é aquele discaço de capa preta, sóbria e sombria ao mesmo tempo, com o
logotipo da banda e o título do álbum em destaque.

Até a morte precoce de Bon Scott, em fevereiro de 1980, o AC/DC era uma banda em ascensão. “Back In Black”, lançado apenas alguns meses depois do falecimento do vocalista, foi o passo que faltava rumo ao estrelato.

Os australianos vinham do espetacular “Highway to Hell”. Era o auge da banda até então. Lançado em julho 1979, o último álbum com Bon Scott nos vocais foi aclamado por público e crítica. Seria possível superá-lo?

O falecimento inesperado do vocalista por pouco não acabou com a banda, que já compunha para o disco seguinte.

Alguém precisava segurar a peteca para que ela não caísse. E logo depois dos funerais de Bon Scott, o produtor Robert Lange colocou a banda em estúdio para realizar audições e escolher rapidamente um novo vocalista. Por sugestão do próprio produtor, o AC/DC fechou com Brian Johnson, então vocalista da banda Geordie.

Pouca gente alheia aos círculos da banda sabia, mas Johnson havia servido como uma luva nas pretensões artísticas do AC/DC. Em abril, o quinteto fechou-se no estúdio Compass Point, em Nassau, nas Bahamas. “Back In Black” estaria pronto em maio.

Em 25 de julho de 1980, quando a maioria apostava na derrocada, o AC/DC oficialmente ressurgiu das cinzas da própria tragédia para lançar aquele que é ao mesmo tempo o maior sucesso comercial e o melhor disco da carreira da banda.

Com vendas estimadas em mais de 50 milhões de LPs, fitas K-7 e CDs desde seu lançamento em julho de 1980, “Back In Black” é o álbum de rock mais vendido da história e o segundo disco mais vendido de todos os tempos, perdendo apenas para “Thriller”, de Michael Jackson.

O preto na capa simboliza ao mesmo tempo o luto pela perda do vocalista Bon Scott e o “lucro” da banda com a entrada da Brian Johnson para substituí-lo.

A voz esganiçada e potente de Johnson somada aos riffs precisos, inspirados e explosivos de Angus e Malcolm Young e a permanência do produtor Robert Lange traziam um AC/DC novo, revigorado e pronto para tomar o mundo.

Musicalmente, a banda estava mais pesada. Nas letras, a irreverência dos tempos de Bon Scott mantinha-se na maior parte das faixas.

O disco começa com o badalar dos sinos do inferno. Seria o anúncio da chegada de Bon Scott a seu lugar de descanso? “Hell’s Bells” abre o disco de um modo tão devastador que, mais uma vez, levanta o questionamento: será possível melhorar?

E é. A banda acelera o ritmo e dispara uma artilharia sonora arrebatadora: “Shoot to Thrill”, “What Do You Do for Money Honey”, “Givin’ the Dog a Bone” e “Let Me Put My Love Into You”.

Pausa para respirar e começar o Lado B. Antigamente era assim. Um início simples, na contagem do tempo pelo baterista Phil Rudd, convida Angus Young a mostrar ao mundo um dos riffs mais icônicos da história do rock’n’roll. “Back In Black”, a faixa que dá nome ao disco, é apenas um indicador de que o que está sensacional vai ficar melhor. E assim é.

A faixa-título é seguida de “You Shook Me All Night Long”, não à toa usada como o primeiro single de divulgação do álbum.

A seguir, “Have a Drink on Me” e “Shake a Leg” fazem a cama para “Rock’nRoll Ain’t Noise Pollution”, um encerramento magistral em forma de manifesto em defesa do rock.

De “Back In Black” em diante, todo o resto é história.

Se Bon Scott conduziu o AC/DC até as portas do estrelato, Brian Johnson fez história à frente dos momentos de maior sucesso da banda australiana.

quarta-feira, outubro 05, 2016

Os escombros do PT

Aldo Fornazieri As eleições municipais reduziram o PT a pouco mais que escombros. Não faltaram advertências, principalmente a partir de 2013, de que o partido se encaminhava para um desastre. As críticas foram colhidas pelos petistas de duas formas: o menosprezo arrogante por parte de quem detinha poder e direção e acusações por boa parte da militância que, também arrogante, classificava as críticas como PIG, moralistas, esquerdistas etc. O poder fez muito mal ao PT: a estrutura partidária e dirigentes se corromperam, a militância se domesticou e os movimentos sociais que orbitavam em torno do PT começaram a orbitar em torno do Estado, sendo cooptados e perdendo a energia combativa na luta por direitos e justiça. O PT se transformou no partido dos palácios, dos gabinetes, do luxo e da arrogância. Ninguém promove tal movimento sem que desabe sobre ele, mais dia menos dia, o merecido castigo do povo. O PT alimentou a mesma crença que as elites históricas conservadoras alimentaram desde os tempos coloniais no Brasil: a de que a sociedade pode ser moldada e transformada desde o alto, desde o Estado. Esta prática sempre engendrou dominação e não liberdade e cidadania. Enquanto esta crença permanecer vigente, o Brasil permanecerá eternamente deficiente em seu conteúdo nacional e popular e a sociedade carecerá de vínculos societários republicanos, orientados para o bem comum e para o interesse público. Aqueles que chegam ao poder sempre se tornarão representantes de grupos e interesses particularistas, a se apossar do erário público em detrimento dos interesses de caráter universalizante. Será sempre o velho patrimonialismo vestido com roupas novas. O PT se deixou abater pelo erro mais comezinho que as esquerdas vêm cometendo desde o século XX: a corrupção. A corrupção vem sendo, ao longo das décadas, a espada nas mãos da direita e da mídia para fazer rolar as cabeças da esquerda. Os eleitores mostram-se intolerantes à corrupção das esquerdas, pois, querem ver nelas uma reserva moral da sociedade, um exemplo da administração correta da coisa pública, um cimento de ética na sociedade. Quando as esquerdas se corrompem, os eleitores se sentem traídos. Pouco a pouco, o PT foi caminhando para aquela condição mais indesejável da política: ser odiado. Isto já era visível nas eleições de 2014. De lá para cá, a imagem do partido foi se deteriorando, seja porque as denúncias se revelaram medonhas, seja porque os ataques dos seus inimigos foram devastadores sem que houvesse uma linha de resistência e de contraofensiva. Ao mesmo tempo em que se destruía, o partido se deixava destruir. A cada ataque, a direção partidária reagia com notas burocráticas e protocolares, foi perdendo credibilidade e deixou de ostentar virtudes e força moral capazes de mobilizar a militância. Como já se disse, a direção do PT tornou-se um comitê de generais de gabinete sem exército e a militância se tornou um exército sem generais. “Ser odiado” é a condição absoluta que precisa ser evitada em política, ensina Maquiavel. Como partido antimaquiaveliano que é, o PT, ao passar da praça para os palácios deixou de olhar a realidade com os olhos da praça, deixou de se situar na planície e passou a olhar o povo com o ângulo de mirada dos palácios. Mas não sabia jogar o jogo dos palácios e passou a acreditar em aliados que eram e são gananciosos, simuladores e ambiciosos. Emprestaram prestígio aos petistas enquanto estes lhes eram úteis e os traíram sem cerimônia na consumação do golpe. Golpe que o próprio PT ajudou a construir seja pela sucessão de erros políticos, de incompetências, e seja pela própria falta de apoio à presidente Dilma em momentos delicados em que o governo caminhava para a deriva. Pela condução desastrosa que o PT vem tendo nos últimos anos, a direção partidária deveria renunciar nos primeiros dias desta semana. Uma comissão provisória deveria ser constituída com a tarefa de convocar e conduzir um Congresso partidário antes do final do ano. Se nenhum aceno for feito neste sentido, a tendência maior é a de que o PT caminhe para uma divisão irreversível. Não é admissível que os condutores do desastre continuem comandar um partido que foi esperança do povo brasileiro e se afogou nos seus próprios erros. Não há, em torno da atual direção, capacidades políticas, morais e intelectuais que sejam capazes de tirar o partido da crise. Que fazer? Esta velha pergunta, que precisa ser recolocada, suscita hoje muito mais dúvidas do que certezas às esquerdas. Antes de tudo, as esquerdas precisam se unir em torno do que sobrou dessa devastadora eleição: Freixo no Rio de Janeiro, João Paulo em Recife, Edmilson Rodrigues em Belém, Edvaldo Nogueira em Aracaju etc. Com muitas divisões, com baixa propensão à unidade, com um ideário desconectado ao mundo contemporâneo, com organizações autoritárias e burocráticas, com uma retórica que não dialoga com a sociedade, com uma enorme crise em suas visões de mundo, as esquerdas vivem uma defensiva mundial, ao mesmo tempo em que cresce o rancor e o ódio neofascistas. A crise das esquerdas se alinha com a própria crise civilizacional que tende a se agravar em várias dimensões: ambiental, social, econômica, humana. O mundo do futuro próximo, dizem os economistas e analistas mais atentos, será um mundo sem empregos, com populações que viverão cada vez mais. Em contrapartida, a concentração de renda e riqueza é crescente. As democracias são cada vez menos legítimas e cada vez mais incompetentes em fornecer respostas aos problemas das sociedades. As esquerdas brasileiras pararam no tempo. Discutem os problemas com retóricas e paradigmas do século XX, quiçá, do século XIX. Nos últimos anos houve um abandono das incipientes experiências de governança democrática que vinham sendo desenvolvidas. Nos municípios, nos estados e no governo federal, os governantes, secretários e ministros ditaram as suas “verdades” às sociedades. Ao mesmo tempo em que direitos deixaram de ser garantidos, não se investiu na inovação e na qualidade dos serviços e direitos. Os governos continuaram analógicos em sociedades digitais. Reformas cruciais, seja no plano macro ou no plano micro, sequer foram cogitadas. A ideia de aglutinar as esquerdas numa frente, que garanta a unidade na pluralidade, ganha força em face das fragilidades e derrotas recentes. A construção dessa frente, se vier a se concretizar, contudo, necessita de um processo amplo de definição de conteúdos programáticos e de métodos de condução dos processos internos. A perspectiva é a de que essa frente aglutine partidos, movimentos políticos e sociais, indivíduos e grupos cívicos, num novo tipo de organização e de relação política, sem as práticas hegemonistas e de controle burocrático, tão comuns às esquerdas. A derrota eleitoral, somada ao golpe e às perspectivas de retrocessos em direitos, foi avassaladora. Subestimá-la, persistir nos erros e não fazer autocrítica significa contribuir para a consolidação de um projeto conservador que vem se delineando. Neste momento, o desafio das esquerdas é paradoxal: precisa construir sua unidade ao mesmo tempo em que promove um ajuste de contas. Aldo Fornazieri – Professor de Filosofia Política.

quarta-feira, junho 18, 2014

O PT e a regulação da mídia

Editorial do jornal O ESTADO DE S.PAULO

18 Junho 2014 | 02h 06

Por que, afinal, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem verdadeira obsessão pela regulamentação da mídia? Por várias razões. Duas delas, justiça se faça, atendem a imperativos da modernização e aperfeiçoamento do arcabouço legal que regula os meios de comunicação. A primeira: o Capítulo V, artigos 220 a 224, da Constituição de 1988, que trata "Da comunicação social", permanece até hoje desregulamentado. A segunda: o Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1962, que normatiza também o rádio e a televisão, é completamente obsoleto. Quando foi promulgado, há mais de meio século, nem a internet existia.

Esgotam-se aí as boas intenções do PT. O que de fato leva o partido a defender o que eufemisticamente chama de "democratização da mídia" é a intenção de controlar os meios de comunicação para viabilizar seu projeto de manutenção no poder a qualquer custo. E essa é a motivação tanto da minoria "ideológica", que entende que a sociedade precisa ser tutelada, como da maioria fisiológica, apegada às benesses do poder.

Quando políticos reverentes ao totalitarismo cubano e simpatizantes das aventuras bolivarianas e do fundamentalismo islâmico falam em "controle social da mídia", só é possível concluir que sejam, também, adeptos da mordaça, do cerceamento da liberdade de expressão e de imprensa. E essa suspeita se agrava quando se observa a maneira oblíqua, ardilosa, como o PT coloca a questão da "democratização" dos meios de comunicação.

Obedecendo à nova estratégia, os porta-vozes petistas da tal "democratização" passaram a distinguir claramente em suas manifestações a mídia impressa (jornais e revistas) da eletrônica (rádio e televisão) com a ressalva de que a primeira não carece de "regulação" como a segunda, que é concessão pública. "Regulação de mídia pode ser feita para rádio e televisão, porque são concessões. Mas não se aplica à imprensa escrita e internet", declarou no último dia 4 o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Faz sentido.

Não fosse por idiossincrasia pessoal, como notoriamente é o caso de Lula, os petistas não teriam razões para se incomodar com a "má vontade" dos jornais e das revistas de maior circulação, a chamada Grande Mídia. Afinal, o hábito de leitura desses periódicos - acreditam os próprios petistas - é praticamente limitado à "elite" que o PT encarniçadamente combate e não impediu que Lula & Cia. vencessem três eleições presidenciais consecutivas. Já o rádio e a televisão falam às massas. São, portanto, potencialmente perigosos, especialmente nas mãos da "direita". Mas até mesmo na mídia eletrônica o conteúdo não pode ser regulado, segundo a Constituição, como admitiu ainda Paulo Bernardo.

De que maneira, então, neutralizar a "influência negativa" da mídia eletrônica sobre a opinião pública? O próprio Lula já deu a receita, em recente entrevista a um semanário: se o rádio e a televisão se recusam a mostrar tudo de bom que o governo faz todos os dias, "vai de rede nacional" sempre que for preciso. Dinheiro para isso não falta. A solução ideal, no entanto, é definir normas, "algumas obrigações", nas palavras do ex-ministro Franklin Martins, para que "o espectro eletromagnético" informe a população com "equilíbrio e isenção".

Martins não deixou claro a quem caberia decidir se uma emissora de rádio ou de televisão está se comportando com equilíbrio e isenção, mas ele próprio esteve à frente de uma iniciativa que fornece pistas importantes: a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em Brasília ao apagar das luzes do governo Lula. Na preparação da Confecom, o governo tomou a precaução de definir previamente, por meio de portarias do Ministério das Comunicações, as instâncias que teriam direito à representação na comissão organizadora, os eixos temáticos a serem discutidos e a sistemática de funcionamento dos grupos de trabalho. Tudo muito bem "regulado".

As conclusões da Confecom revelaram-se, para surpresa de ninguém, perfeitamente afinadas com o pensamento do então ministro Franklin Martins. Talvez por isso o documento que as consubstancia permaneça até hoje na gaveta em que a então recém-empossada presidente Dilma Rousseff o guardou.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

O brasileiro não gosta de futebol, mas admira os 'organizados'

Os brasileiros deixaram de gostar de futebol a partir do momento em que começaram levar o esporte a sério demais e começaram a se "organizar" para ver um jogo, "defender" o seu time e de "defender" dos "inimigos". Hoje o torcedor brasileiro não gosta de futebol, no máximo gosta de seu clube. E deixou que o futebol/seu clube influencie o seu comportamento no dia a dia e no relacionamento com a sociedade. Essa é apenas parte da explicação do como é possível cidadãos comuns, a maioria moleques, ameaçarem de agressão e todo tipo de violência jogadores de futebol do Corinthians pelas redes sociais - aconteceu nos últimos anos com jogadores do Palmeiras, do São Paulo, do Flamengo, do Fluminense, do Atlético-MG... Quando é necessário se "organizar" para torcer para um time ou ir a um estádio de futebol é porque o esporte é o menos importa neste caso. Acabou a diversão, acabou o lazer e acabou a segurança. Hoje os clubes se tornaram a razão da existência (e sobrevivência) de certas pessoas, ou certos grupos de pessoas, geralmente desequilibradas e carentes. E no vale-tudo das disputas em campo e nas discussões fora dele, o grito e o tapa passou a ser o comportamento "normal", transformando o futebol numa arena onde preconceitos, violência e desrespeitos de todo os tipos não só são tolerados como aceitos e incentivados. Não bastam mais xingamentos, zoeiras e cantorias contra os rivais/inimigos. Hoje é necessário solapá-los nas arquibancadas e nas ruas do entorno, como se a aniquilação do divergente fosse a única coisa que importasse, tornando o jogo e seu resultado secundário e desimportante. A "organização" dos torcedores se tornou uma forma de sistematizar as frustrações e derrota do dia a dia, das dificuldades de melhorar a vida - sua e dos outros - e da incapacidade de muitos de lidar com a contrariedade e com a "oposição", seja ela qual for. Com o tempo, a "organização" ficou cada vez mais "organizada", com cara de fraternidade, de gueto, de máfia, de "grupo de elite". Os "organizados" começaram a sentir mais "organizados" dos que os outros, mais "iguais" dos que os outros e começaram a ser invejados e admirados por quem não tolera o fracasso mas era incapaz de tomar atitudes. Na falta de objetivos, de inteligência e de educação, apostaram em um "elitismo" e em um "exclusivismo" baseados na intimidação e na força para garantir alguma "dose de sucesso" ao um grupo de personagens obtusos e solitários em busca de aceitação, qualquer aceitação. Os "organizados" acolheram os desgarrados oferecendo irmandade, solidariedade e apoio, mas exigindo obediência fanática e fascista, ao mesmo tempo em que a atividade "organizada" da torcida começava a ser lucrativa (para poucos) em termos financeiros, políticos e até sociais. E não é que esse comportamento de grupo começou a despertar simpatia dos torcedores comuns, aqueles que se sentiam orgulhosos porque a "Mancha", a "Gaviões", a "Jovem" e da "Independente" foram lá "arrepiaram" os caras, defendendo as nossas cores, queimando faixas, espancando inimigos e ocupando espaços nas arquibancadas? O apelo é forte para a molecada, que vê poder e invencibilidade nas "ações" das torcidas organizadas, que desde muito cedo começou a adotar táticas de guerrilha para enfrentar "inimigos" e até mesmo para organizar uma simples ida a uma partida no interior. E ao sentimento de poder junta-se ao de aventura, algo tão caro a uma juventude cada vez mais desassistida pelo Estado e que encontra cada vez menos estímulo nas escolas ou mesmo na família ou clubes de bairro. E aventura para essa molecada inconsequente é bater nos "caras", "colocar eles para correr" e "apedrejar os ônibus deles". E tudo fica cada vez mais insuportável quando essa gente se torna alvo de gozações por conta dos "mercenários e bandidos" que não tiveram raça e que perderam feio para o maior rival. quando isso acontece, não basta mais aniquilar o inimigo de arquibancada, espancando-o e dizimando-o. É necessário punir os "covardes" e "incompetentes" que perderam em campo; é preciso castigar os responsáveis por "todos os males" da face da Terra, a origem de todas as chacotas e do martírio que é acordar no dia seguinte com o 5 a 1 na cabeça. Como encarar o trabalho e a escola e o padeiro e o motorista de ônibus sem ter a mínima oportunidade de incinerá-los vivos somente por causa do sorriso irônico ou pelo simples fato de torcer pelo verde, pelo preto e branco ou pelo azul ou pelo tricolor? Se não dá para matar todo mundo pela frente, então que pelo menos possamos quebrar as pernas de patos e "sheiks" da vida, que pelo menos espanquemos zagueiros mais preocupados com bom senso do que em dividir a bola e quebrar o atacante adversário. E quem imaginou que tais comportamentos geraria repulsa nos torcedores comuns se enganou. As redes sociais, com sua covardia intrínseca, se tornaram um palco apropriado para ameaças de todos os tipos contra jogadores e adversários, com estudantes, trabalhadores, profissionais liberais e gente comum apoiando a "pressão" exercida contra os futebolistas - e que exaltam os "organizados" nos dias seguintes aos confrontos violentos entre torcidas que resultam em mortes. É possível que essa gente, que é parte expressiva dos supostos apreciadores de futebol no Brasil, goste realmente do esporte? Brasileiro não gosta de futebol; no máximo, gosta do seu time, e olhe lá. Não precisamos, nunca precisamos e jamais precisaremos de torcidas organizadas. Ou elas se tornam coisas de "gente civilizada", ou que sejam tratadas como quadrilhas de crime organizado até que desapareçam. Alguns fatos que jamais veremos novamente, infelizmente: - 6 de março de 1958, o maior jogo de futebol de todos os tempos: Santos 7 x 6 Palmeiras, no Pacaembu, pelo torneio Rio-São Paulo. Primeiro tempo, Santos 5 x 2. aos 35 min do segundo tempo, Palmeiras 6 x 5 Santos, com virada santista nos últimos dez minutos. Sem divisão de torcedores, palmeirenses e santistas vibram e comentam com o adversário sentado ao lado como o futebol é legal. Palmeirenses aplaudem muito ao final do jogo os dois times, mas principalmente os jogadores santistas, pela forma com que atuaram. Nas ruas, parecia que os dois times tinham vencido. Um jovem de 17 anos chegou em casa, na Vila Mariana, sorrindo e feliz, para encontrar o pai emburrado. "Perdemos um jogo que estava ganho. Como você pode estar feliz?" "Pai, vá dormir e tenha certeza de que ninguém perdeu no Pacaembu. Gostaria que tivesse visto o que vi, e o senhor entenderia." - Maracanã, finais dos mundiais de clubes de 1962 e 1963, com o Santos vencendo as duas: cariocas, mineiros e paulistas lotam o estádio do Rio para torcer pelo Peixe. Em São Paulo, onde houvesse um rádio transmitindo o jogo havia aglomeração, com torcedores de todos os times apoiando o Santos. - 25 de abril de 1971, Corinthians 4 x 3 Palmeiras, Morumbi: Palmeiras abre 2 a 0 e sofre a virada. O Corinthians renasce após período péssimo. TUP e Gaviões já existiam, mas como grupo de torcedores. As gozações existiram, mas o que mais se ouviu ao final de jogo foram elogios ao espetáculo. Se havia dúvidas de que o Corinthians estava vivo, elas tinham acabado - para alívio dos palmeirenses que gostam de futebol. - 12 de outubro de 1974, São Paulo 2 x 1 Independiente, primeiro jogo da final da Libertadores daquele ano: torcedores de Santos, Palmeiras, Corinthians e Portuguesa foram ao estádio, inclusive com bandeiras de seus times, para apoiar o tricolor, que acabaria perdendo o título. Por outro lado... - Meados de 1979: primeiros registros de confrontos mais sérios entre membros da Gaviões e a TUP nas imediações do Morumbi após clássicos. Era o auge da divisão das torcidas no anel superior do Morumbi, instituída em 1977 diante do aumento de brigas nas numeradas e nas arquibancadas durante os clássicos. - Setembro de 1981: torcedores do Corinthians que iam ao Morumbi encontram três grupos de palmeirenses a caminho de Campinas no Vale do Anhangabaú. Na briga campal que ocorre, cinco ônibus da CMTC são apedrejados e quatro policiais militares, pelo menos, ficam feridos. - Meados de 1983: a Mancha Verde surge como dissidência da TUP. Um dos motivos é a aparente letargia diante de supostas agressões cometidas repetidamente por membros da Gaviões e da Camisa 12. Um dos lemas era "vamos proteger os palmeirenses e escorraçar os 'cachorros'". Entre 1985 e 1990 a torcida se orgulhava de ser a mais temida e violenta do país. Logo a Independente, do São Paulo, seguiria pelo mesmo caminho e se orgulharia do "título" nos anos 90. - Estádios pós-1985: brigas são frequentes e esperadas em grandes clássicos, na capital e até mesmo no interior, onde os ônibus das torcidas se cruzavam indo/voltando. Ir a um clássico se tornou arriscado, e a regra básica era jamais vestir a camisa do seu time, sob risco de apanhar dentro e fora do estádio. As mortes passam ser frequentes nas imediações e nas periferias. Na era da internet, as batalhas são combinadas e marcadas por meio de redes sociais. Efetivos policiais aumentam cada vez mais e as rivalidades ultrapassam as fronteiras estaduais; palmeirenses querem matar flamenguistas, vascaínos querem assassinar corintianos, que são odiados por gremistas, que querem pegar palmeirenses, que têm rixa mortal com cruzeirenses e torcedores do Sport, enquanto pontepretanos querem massacrar torcedores do Guarani e do Paulista, que também se odeiam... Não creio que o brasileiro goste de futebol...

sexta-feira, janeiro 03, 2014

Pesquisa investiga mudanças no jornalismo e no perfil do jornalista

Jussara Mangini Agência FAPESP – As transformações ocorridas nos meios de comunicação, por meio das novas tecnologias e da cultura de convergência midiática, impactaram profundamente os processos de produção do jornalismo e, consequentemente, o perfil do jornalista. A conclusão é de uma pesquisa que avaliou o perfil do jornalista e as mudanças em trabalho. “Os produtos jornalísticos impressos, televisivos ou radiofônicos são feitos de maneira completamente diferente do que há cerca de 20 anos”, disse Roseli Fígaro, coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Responsável pela pesquisa “O perfil do jornalista e os discursos sobre o jornalismo: um estudo das mudanças no mundo do trabalho do jornalista profissional em São Paulo”, que teve apoio da FAPESP, Fígaro destaca que uma série de funções desapareceu da rotina do métier do jornalista. “O tempo e o espaço, comprimidos pelas possibilidades das tecnologias de comunicação e de informação, foram assimilados nos processos de produção de modo a reduzir o tempo para a reflexão, a apuração e a pesquisa no trabalho jornalístico. O espaço de trabalho encolheu e ao mesmo tempo diversificou-se, transformando as grandes redações em células de produção que podem ser instaladas em qualquer lugar com internet e computador. O jornalismo on-line, em tempo real, os blogs e as ferramentas das redes sociais são inovações nas rotinas profissionais”, disse à Agência FAPESP. No estudo, concluído em 2013, um grupo de pesquisadores do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, orientado por Fígaro, buscou saber o que essas transformações representam em termos de mudanças no perfil do profissional e o que o jornalista pensa sobre o próprio trabalho e sobre o jornalismo. O trabalho é resultado da análise das respostas de 538 jornalistas. Os dados também estão no e-book As mudanças no mundo do trabalho do jornalista (Editora Salta), lançado no segundo semestre de 2013. Os 538 jornalistas pesquisados são de São Paulo – estado que abriga mais de 30% dos profissionais brasileiros da categoria – e foram consultados em duas fases metodológicas: a quantitativa, com o uso de um questionário fechado de múltipla escolha, e a qualitativa, com entrevista face a face com roteiro de perguntas abertas, e grupo de discussão, com roteiro dos temas mais polêmicos encontrados pelos instrumentos anteriores. Quatro grupos amostrais responderam os questionários em diferentes períodos: dois grupos em 2009 – um formado com 30 jornalistas de diferentes mídias e vínculos empregatícios, selecionados de maneira aleatória via rede social, e outro constituído por 340 associados do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, também de diferentes mídias, vínculos e funções. Um grupo de 90 jornalistas freelancers (sem vínculo empregatício), trabalhando em diferentes mídias, foi consultado em 2010. E um outro grupo de 82 jornalistas de uma grande empresa editorial da capital paulista também compôs a amostra, como fruto de uma pesquisa anterior, realizada em 2007. Para a fase qualitativa – com entrevista individual de 20 jornalistas e discussão em focus groups, em duas sessões, com 16 jornalistas no total – foram selecionados 36 dos 538 jornalistas que responderam os questionários na fase quantitativa. De forma geral, a maioria dos jornalistas tem um perfil socioeconômico de classe média, é jovem (até 30 anos), branca, do sexo feminino, não tem filho, atua em multiplataformas e tem curso superior completo e especialização em nível de pós-graduação. Outras características comuns são a carga horária de trabalho – de oito a dez horas por dia – e a faixa salarial de R$ 2 mil a R$ 6 mil. O predomínio feminino coincide com os dados divulgados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) que, no fim de 2012, registrou que os jornalistas brasileiros eram majoritariamente mulheres brancas, solteiras, com até 30 anos. Apenas no grupo dos sindicalizados, que reúne os profissionais com a faixa etária mais elevada e maior tempo de profissão, observou-se predomínio masculino. Precarização dos vínculos empregatícios A reestruturação produtiva ocorrida no mundo do trabalho, principalmente a partir dos anos 1990, transformou as relações de trabalho, afirma a pesquisadora na introdução de seu livro. Foi a partir dessa década que aumentou o número de jornalistas contratados sem registro em carteira profissional, abrindo caminho para novas formas de contratação, como a terceirização, contratos de trabalho por tempo determinado, contrato de pessoa jurídica (PJ), cooperados e freelancers, entre outros. A chamada “flexibilidade” acaba por transferir aos trabalhadores o peso das incertezas do mercado. “Como mão de obra maleável seja em termos de horário, de jornada de trabalho ou de um vínculo empregatício, esses profissionais não podem planejar suas vidas em termos econômicos nem em termos afetivos”, disse Fígaro. Os freelancers trabalham em período integral, para vários lugares, sozinhos em casa. Começam a pensar como empreendedores, aplicam os conhecimentos do jornalismo em outras atividades, como na revisão de trabalho acadêmico ou até na venda de pacotes de assessoria de comunicação para políticos. Os mais jovens e os freelancers são os que menos conseguem planejar sua vida pessoal em relação à profissional fora do curto prazo, de acordo com a pesquisadora. “Trabalham hoje, para consumir hoje e não sabem como será seu trabalho no ano seguinte. Imagino que isso cause grande parte do estresse na vida do indivíduo”, afirmou Fígaro. A pesquisa também verificou que as novas gerações se sindicalizam menos. Uma possível explicação para isso, segundo Fígaro, é que os profissionais que vivem instabilidade financeira e têm dificuldade em se relacionar com o mundo do trabalho não vislumbram soluções coletivas – como sindicalizar-se ou organizar-se para pleitear melhores condições de trabalho –, mas sempre em saídas individuais como, por exemplo, arrumar mais um emprego. “Possuem um perfil profissional deslocado de valores coletivos, são individualistas e muito preocupados com o negócio. Vão em busca do cliente e consideram a informação um produto.” Ela ressalta, no entanto, que isso não quer dizer que o jornalista não esteja preocupado com causas da coletividade ou da sociedade, mas que há uma busca individual de soluções. Os profissionais da área sabem que uma característica comum é a alta rotatividade de emprego: muda-se muito de uma empresa ou veículo de comunicação para outro. Na avaliação de Fígaro, “se por um lado, a experiência pode enriquecer o profissional, por outro é sempre um começar de novo, um novo que não é tão novo, porque se fica no mesmo nível hierárquico”. De acordo com ela, é exigida hoje do jornalista atualização constante no uso de ferramentas digitais de prospecção, apuração e edição de informações. É fundamental ter habilidades e competências que permitam a atuação em diversas plataformas – impressa, tevê, rádio, internet – e em diferentes linguagens – verbal, escrita, sonora, fotográfica, audiovisual, hipertextual. “Exigem-se ainda noções de marketing e de administração, visto que se prioriza a visão de negócio/mercadoria já inserida no produto cultural, por meio do tratamento dado às pautas e à segmentação de públicos”, disse Fígaro. Diferenças entre gerações Enquanto os mais jovens estão fora das redações, em trabalhos precarizados, os mais velhos migram para a coordenação das assessorias de comunicação. A coordenadora do estudo comentou que há casos muito conflituosos de desrespeito e intolerância tanto em relação ao profissional mais velho, quanto em relação ao jovem muito tecnológico, sem experiência. “As empresas, no afã de mudar sua cultura e dinamizar os interesses de seu negócio, quebram uma regra muito importante no mundo do trabalho: a transferência de saberes profissionais de uma geração para outra. Isso traz danos não só para a empresa, mas para toda a sociedade. Há um custo social a pagar por isso”, avaliou Fígaro. Há diferença entre o que significa ser um bom jornalista hoje em relação a 20 anos atrás? “Jornalistas trabalham com os discursos da sociedade. Devem, portanto, compreender as implicações disso: discurso é produção de sentido; e produção de sentido é tomar posição, é editar o mundo e disponibilizar essa edição para quem estiver interessado nela.” De acordo com a pesquisadora, hoje é preciso maior destreza com tecnologias que não existiam. Os jornalistas tinham menor destreza anteriormente? Não, na opinião de Fígaro. “Ser multitarefa e multiplataforma são exigências que colocam em ação habilidades humanas diferentes; e trazem implicações profissionais diferentes.” Sob esse aspecto, os profissionais apresentam no discurso preocupação com a ética jornalística, com a apuração, com o texto, com a qualidade e a idoneidade das fontes. “Mas eles também têm claro que o tempo da racionalidade produtiva da mídia é o algoz do bom jornalismo. Destaco que esse tempo não é o tempo da vida cotidiana. É o tempo da produção comercial do produto notícia”, ressaltou Fígaro. Formação profissional Da amostra total, cerca de 5% não têm ou não concluíram o ensino superior. A absoluta maioria possui nível superior e, em média, 65% deles têm curso de especialização em nível de pós-graduação. A mudança operacional é tão evidente que os cursos de jornalismo ganharam na última década teor ainda mais técnico-prático e operacional; fato que, na opinião da pesquisadora, não deveria se contrapor à preocupação com a ampla formação cultural e humanística do futuro profissional. “No entanto, é isso que vem acontecendo, inclusive com o aval do cliente/aluno, visto que a maioria dos jornalistas da pesquisa se formou em faculdades privadas.” Outra característica marcante é que o jornalista começa a trabalhar muito cedo. Antes mesmo de concluir a faculdade, é incentivado a conquistar logo um posto de trabalho na área. Fígaro percebeu que há até um certo desprezo pela faculdade, como se o necessário fosse somente a formação técnica conquistada no âmbito do trabalho. “Essa discussão é complexa. O trabalho nunca é só técnica, norma, prescrição de uma empresa para a produção de determinado produto. Para o trabalho mobiliza-se um conjunto de saberes amplos que vão da gestão de si próprio e suas habilidades, à gestão das normas, dos relacionamentos, das linguagens etc.” Na avaliação dos pesquisadores, parte dos profissionais da amostra teve uma formação “débil” no que diz respeito à capacidade de inter-relacionar fatos, dados e acontecimentos de maneira contextualizada política, social e historicamente. “Na verdade, é essa capacidade que considero como conhecimento fundamental para o desempenho da profissão”, disse Fígaro. Produção de conteúdo Os autores da pesquisa destacam o quanto o processo de seleção, análise e interpretação das informações, que são de fácil acesso hoje, ficou mais complexo e exige maturidade intelectual, profundo compromisso com a ética jornalística e com os fundamentos da produção do discurso jornalístico. Porém, lamentam que “o limite e a separação entre as orientações da redação de um veículo de comunicação e a área comercial da empresa, antes tão fundamentais para a credibilidade do exercício profissional, hoje sequer fazem parte do repertório das novas gerações”. Os jornalistas da empresa editorial pesquisada consideram os meios de comunicação o negócio mais promissor do mundo globalizado e um negócio como outro qualquer. O grupo de jornalistas selecionado nas redes sociais se divide sobre o papel dos meios de comunicação – para uns, é um instrumento de fazer política, cultura e educação e, para outros, trata-se de um negócio como outro qualquer. Os sindicalizados e os freelancers consideram os meios de comunicação um instrumento de informação, cultura e educação. No que diz respeito à opinião dos jornalistas sobre o “valor” da informação, apenas os profissionais do grupo dos sindicalizados a veem como um direito do cidadão. Os demais a consideram um produto fundamental da sociedade. Dessas questões derivam outras em relação ao tipo de jornalismo que o cidadão deseja e daí qual o engajamento profissional necessário. “Está em jogo que tipo de democracia se quer construir, pois o direito à informação é o alicerce de uma sociedade democrática”, disse Fígaro. Para a pesquisadora, falta a compreensão de que o jornalista é o profissional que trabalha com os discursos das diferentes instituições e agentes sociais para devolvê-los aos cidadãos, de maneira compreensível. “A informação é um direito humano, consagrado pela nossa Constituição e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Hoje, grande parte dos jornalistas encara a informação como uma mercadoria como outra qualquer e, em minha opinião, aí está o problema.” Consumo cultural A maioria dos jornalistas pesquisados lê jornais todos os dias; quem menos lê, no entanto, são os freelancers. Todos os grupos afirmam assistir à televisão todos os dias. Parte da mostra também ouve rádio todos os dias. A internet, mais do que outros meios de comunicação ou de comunicação interpessoal, é o meio pelo qual todos ficam sabendo das notícias mais importantes, fazem compras, estudam, trabalham e pesquisam. Ainda assim, o que o jornalista mais segue nas mídias sociais é a mídia tradicional e grandes veículos de comunicação e a busca, geralmente, está mais ligada ao trabalho do que à obtenção de informação em si. Todos os grupos gostam de ler, ir ao cinema, boa parte vai ao teatro. Nas horas vagas, alguns vão à academia de ginástica e outros não vão a lugar algum. Para os autores da pesquisa, o maior crédito que atribuem ao estudo e ao e-book, além dos dados levantados, é provocar nos jornalistas um debate sobre a profissão.

A DOENÇA INFANTIL DO ESQUERDISMO ANTIMÍDIA

Ethevaldo Siqueira Li Eugênio Bucci no Estadão de hoje e Gabriel Priolli em seu blog. Considero-me amigo de ambos e não tenho por que fazer nenhum ataque pessoal – como é regra geral deste Facebook. Confesso-lhes que me irrita profundamente os ataques sistemáticos que a esquerda brasileira – em especial o PT e seus aliados – faz à chamada “grande mídia”, acusada de ser um partido de oposição ou, pior, de um partido “golpista”. Bucci diz com grande dose de acerto que, no Brasil, nossa imprensa, “é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político”. Eu acrescentaria: “como em qualquer outro país do mundo”. E perguntaria: “Que esperar da maioria da mídia de um país de economia capitalista? Que fosse de esquerda?” A rigor, a grande mídia não é “de direita”, do ponto de vista ideológico, mas, sim, “conservadora” – como nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, no Japão e na maioria esmagadora dos países. Nos Estados Unidos, a mídia mais conservadora se alinha aos governos republicanos. A menos conservadora, lá chamada de “liberal” (designação que, nos Estados Unidos, define as posições reformistas e mais à esquerda) apoia majoritariamente os governos democratas, ou seja, do Partido Democrático. E vale notar que, historicamente, aqueles que sempre se opuseram aos conservadores são chamados de liberais – exatamente no sentido que esses partidos e seus seguidores têm nos EUA ou na Inglaterra. Outra coisa completamente diferente é o liberalismo econômico. Há no Brasil uma esquerda hidrófoba que realmente destila ódio contra a mídia brasileira e ameaça com frequência submetê-la ao “controle social”. Não considera ainda que as redes sociais da internet – num país com mais de 100 milhões de internautas – começam a ter um peso significativo, embora ainda aos trancos e barrancos, grupos de esquerda e tropas de choque sabidamente pagas para difamar, caluniar e demonizar todos os que denunciam a corrupção nos governos petistas. É claro que há honrosas exceções, entre portais e blogs de qualidade. Um argumento de Gabriel Priolli é significativo ao dizer que “somente o caso do Cartel do Metrô, falcatrua que envolve valores dez vezes maiores que o Mensalão, (...) está longe de ser tratada como “o maior escândalo de corrupção do pais” – assim como “está longe de ser minimamente noticiada”. Uma coisa não justifica a outra, Gabriel. E um escândalo não se mede pelo valor do dinheiro público desviado. Seja de R$ 150 milhões como o mensalão ou de supostos R$ 900 milhões como o da Siemens-Alstom-PSDB. O ex-secretário nacional de Justiça do governo Lula, Romeu Tuma Júnior, tem posição mais equilibrada do que a maioria dos petistas e tucanos que eu conheço. Leiam seu livro – Assassinato de Reputações – e reflitam nas acusações que ele faz à politização da Polícia Federal e ao próprio Ministério Público. Essas duas entidades – diz Tuma Jr. – têm alas petistas e tucanas que acabam engavetando denúncias contra medalhões seus líderes, como exatamente, ocorreu no caso do escândalo dos trens paulistas. Estou terminando de ler o livro de Tuma Jr. Assim que finalizar a leitura, prometo fazer uma resenha sobre seu conteúdo. Antecipo apenas uma opinião de caráter geral a todos aqui: acho que petistas e tucanos devem lê-lo e levar em conta as denúncias, os fatos e as situações vividas pelo policial. E não estou discutindo as mais desmoralizantes referências que ele faz contra o Barba – apelido de Lula nos tempos do Dops, em que, segundo Tuma, o líder sindical de São Bernardo foi o grande informante da polícia política, nos tempos da ditadura. Acho que a palavra está agora com Lula para defender-se. Não estou discutindo a execução do prefeito Celso Daniel, de Santo André, em 2002 – que Tuminha atribui como estudioso do processo policial ao PT. Aliás é estranho que os petistas honestos – que os há, creio – não busquem a verdade a fundo nesses crimes políticos, da eliminação de Celso Daniel e de Toninho de PT, prefeito de Campinas. Como se compõe a mídia? A esquerda não percebe a diversidade da mídia brasileira – que não se compõe apenas de jornais, revistas, rádios e TVs – aí incluídos os maiores veículos, como Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Veja e Época, redes de TV, como Globo, Band, Record, SBT, RBS e outras – mas também revistas como posições muito diferentes, como Carta Capital, e revistas mais governistas como Carta Capital, ou independentes IstoÉ, como Piauí, Brasileiros, e veículos nanicos chapas-brancas, sustentados por partidos de esquerda ou publicidade estatal, como Vermelho, dois blogs famosos de coleguinhas nossos 22 emissoras públicas de TV, estatais, educativas e mais de 3.000 emissoras de rádio com as opiniões mais diversificadas, controladas majoritariamente, por políticos governistas, espalhadas pelo País. Que “pensamento único” poderá unir essa fauna tão diversa? E notem que as 3.000 emissoras de rádio brasileiro (AM e FM) entram em rede nacional obrigatória toda noite, de segunda a sexta-feira, das 19 às 20 horas (horário de Brasília), no melhor estilo fascista do do Estado Novo, com um programa obrigatório de noticiário puramente chapa branca, governamental, criado em 1935. Discordo de forma total mas com o maior respeito dos dois últimos parágrafos do artigo de Gabriel Priolli (http://gabrielpriolli.com.br/a-imprensa-de-lado/). Ele diz que “são reais, completamente reais, as bases da cobrança ao “partidarismo” da imprensa.” E nega que se trate “da doença infantil do esquerdismo manifestando-se contra uma valorosa ferramenta da democracia, senão da ressurgência e agravamento da doença crônica do sectarismo na mídia, comprometendo a própria saúde da democracia”. Quem tem sido mais sectário do que os críticos da mídia, inconformados com a denúncia de corrupção dominante nos governos petistas? Isso é, sim, a doença infantil do esquerdismo, que fecha os olhos a tudo que a mídia diz contra o governo. Prefiro dar mais crédito ao que dizem a ex-petistas, como Hélio Bicudo – o advogado que enfrentou o Esquadrão da Morte. Ou o próprio Eugênio Bucci, que conheceu por dentro os critérios políticos e éticos do governo Lula, na área da comunicação. Priolli diz que “o Brasil não vai às mil maravilhas, certamente, embora haja muito do que ufanar-se, nas conquistas de anos recentes”. Essa é toda a avaliação do Brasil depois de 12 anos de governos petistas? Eu gostaria que meu colega e jornalista dissesse que temos os muita corrupção, uma política tributária escorchante que nos leva quase 40% do PIB (equivalente às da Escandinávia) e nos devolve serviços públicos de padrão africano. Uma educação das piores do mundo. Saúde pública que desespera milhões. Transportes públicos que degradam e rebaixam o ser humano ao nível de animais. Segurança pública que apavora o cidadão honesto e trabalhador. Uma burocracia que destrói a competitividade nacional. Precisa mais? Por que não estudar, não ler, não analisar os dois lados da história, não dizer toda a verdade? Dessa forma, não ficaremos nas mãos da imprensa que “relativiza ou esconde os malfeitos dos opositores dos petistas” – como diz Priolli. Um de meus desafios a petistas e tucanos é simplesmente este: Vamos apurar a fortuna pessoal de todos os ex-presidentes e ex-governadores? A começar de Collor, Sarney, FHC e Lula. Mas é preciso ir a fundo nessa apuração, inclusive em parentes até terceiro grau e “laranjas” conhecidos? Vamos exigir a apuração rigorosa de todos os escândalos dos trens paulistas, da fortuna do Lulinha, dos donos do Friboi, do mensalão tucano. Tudo isso para que ninguém contraponha sentenças do STF decididas por maioria, numa corte com 9 ministros escolhidos por governos petistas. Que tal, amigos. Vamos acabar com essa eterna desculpa de dizer que a culpa é da imprensa, aliás, como todos os governos corruptos fazem? Ou que “eles também fazem o mesmo”. Ou “não roubamos para nosso bolso, mas fizemos apenas caixa-2 para nosso partido, nosso projeto de poder”.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Dos que tanto amam odiar a imprensa

EUGÊNIO BUCCI - O Estado de S.Paulo Primeiro, eles acusavam a imprensa de ser um "partido de oposição" e pouca gente se incomodou. A acusação era tão absurda que não poderia colar. Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa. Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada. Enfrentar e tentar desmontar a retórica do poder, irritando as autoridades, é um mérito jornalístico. Sendo assim, quando eles, que se julgavam aguerridos defensores do governo Lula, brandiam a tese de que a imprensa era um "partido de oposição", parecia simplesmente que os jornalistas estavam cumprindo o seu dever - e que os apoiadores do poder estavam simplesmente passando recibo. Não havia com o que se preocupar. Depois, as autoridades subiram o tom. Falavam com agressividade, com rancor. A expressão "partido de oposição" virou um xingamento. Outra vez, quase ninguém de fora da base de apoio ao governo levou a sério. Afinal, os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão não se articulavam nos moldes de um partido: não seguiam um comando centralizado, não se submetiam a uma disciplina tipicamente partidária, não tinham renunciado à função de informar para abraçar o proselitismo panfletário. Portanto, acreditava-se, o xingamento podia ser renitente, mas continuava sendo absurdo. Se os meios de comunicação tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002. Ali, houve um conluio escandalosamente golpista dos meios de comunicação que, por meio de informações falsificadas, tentou derrubar o presidente Hugo Chávez, eleito democraticamente havia pouco tempo. Por fortuna, a quartelada mediática malogrou ridiculamente. Por escassez de virtú, Chávez passaria todo(s) o(s) seu(s) governo(s) se vingando das emissoras que atentaram contra ele. No Brasil, não tivemos nada parecido. Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político. Por todos os motivos, a acusação continuava sem pé nem cabeça. Mas o fato é que começou a colar e o cenário começou a ficar esquisito. Agora, as inspirações até então submersas daquela campanha anti-imprensa afloram com mais nitidez. Era um recurso para dar tônus à disposição dos cabos eleitorais (de muitos níveis), para inflar o ânimo dos militantes de baixo e para inflar o ego dos militantes de cima. Agora, chegamos ao ponto de dizerem que os repórteres deram de ombros para a cocaína encontrada no helicóptero da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG) porque ele, embora esteja filiado a um partido da base governista, teria lá suas inclinações consideradas pouco fiéis. Difícil saber. As mesmas vozes acusam os mesmos repórteres de terem exagerado na cobertura do julgamento do mensalão. Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a "herança maldita" de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa. A tese pode ser doidona, mas está funcionando. Alguns quase festejam: "Viva! Achamos um inimigo para combater! Vamos derrotar os editores de política deste país!". Deu-se, então, um fenômeno estranhíssimo: as forças instaladas no governo, como que enfadadas do ofício de governar, começaram a fazer oposição à imprensa. Dilma Rousseff jamais embarcou na cantilena, o que deve ser reconhecido e elogiado, mas está cercada de profetas que veem em cada redator, em cada fotojornalista, uma ameaça ao equilíbrio institucional. A oratória petista depende de ter um antagonista imaginário. Sem isso, parece que não para mais de pé. Sim, temos aí um traço de discurso autoritário. Em todo regime autoritário ou totalitário, a figura mais essencial é a do inimigo. Para os nazistas, esse inimigo estruturante foram os judeus. Para o chavismo, foi o imperialismo, encarnado por Bush, que teria cheiro de enxofre. E mesmo Bush só conseguiu salvar seu mandato do fiasco porque lhe caiu no colo o inimigo chamado terrorismo. É claro que não se pode dizer que o PT atualmente se reduza a um discurso tropegamente autoritário, mas as feições autoritárias e fanatizantes desse discurso vão ganhando densidade a cada dia. Não obstante, está assentado em bases fictícias, completamente fictícias. Vale frisar este ponto: sem um inimigo para chamar de seu, esse tipo de ossatura ideológica se liquefaz. O que seria dos punhos cerrados dando soquinhos no ar sem o auxílio luxuoso do inimigo imaginário? O que seria dos sonhos de martírio em nome da causa? O que seria das fantasias heroicas e do projeto ambicioso de virar estátua de bronze em praça pública? Foi aí que a imprensa entrou no credo. Na falta de outra instituição disposta a não se dobrar ao poder, disposta a desconstruir os cenários grandiloquentes armados pelas autoridades, eles encontraram na imprensa a sua razão de viver e de guerrear. Só assim, só com seu inimigo imaginário bem definido, esse discurso encontra seu ponto de equilíbrio: ficar no poder e ao mesmo tempo acreditar - e fazer acreditar - que está na oposição, que combate um mal maior. Seus adeptos, que imaginam odiar a imprensa sem se dar conta de que a temem, agarram-se à luta com sofreguidão. Estão em ponto de bala para o ano eleitoral de 2014. Mesmo assim, feliz ano-novo. JORNALISTA, PROFESSOR DA USP E DA ESPM