Espaço coordenado pelo jornalista paulistano Marcelo Moreira para trocas de idéias, de preferência estapafúrdias, e preferencialmente sobre música, esportes, política e economia, com muita pretensão e indignação.
quinta-feira, junho 28, 2012
O blues demolidor de Joe Bonamassa em São Paulo
Um nome pouco conhecido do blues no Brasil reuniu um público dos mais ecléticos o HSBC Brasil no último sábado. Em sua primeira passagem pelo país, o norte-americano Joe Bonamassa fez tudo aquilo que se esperava do nome mais importante e famoso do blues e do blues rock da atualidade: técnica, virtuosismo e muito entusiasmo.
Aos 35 anos, o guitar hero que também toca no supergrupo Black Country Communion ao lado de Glenn Hughes (ex-Deep Purple e Black Sabbath) provavelmente era mais novo do que metade da plateia que lotou o local.
Outra parte do era formado por músicos ávidos por escutar uma pegada forte e riffs bem construído, além de jovens em geral curiosos para ouvir esse discípulo direto de Stevie Ray Vaughan, Jimmy Page, Jeff Beck e Gary Moore.
Com um público majoritariamente masculino e ganho, Bonamassa não economizou nos riffs e no peso, para certa irritação de uma parcela significativa de mulheres.
Acompanhar esse tipo de show em mesas, como é de costume (infelizmente) em algumas casas em São Paulo, é o fim da picada, mas não impediu que o guitarrista e ótimo cantor fosse ovacionado durante quase todo o show, escorado por uma banda afiadíssima e extremamente competente.
Bonamassa está mais sóbrio e mais maduro, apesar do ritmo alucinante de shows e gravações que empreende desde 2006. A voz está bem melhor do que, por exemplo, no CD ao vivo “A New Day Yesterday Live”, gravado em 2001 e recém-lançado no Brasil pela Som Livre.
Enquanto tocava no Brasil, seu mais novo álbum, “Driving Towards the Daylight”, era lançado nos Estados Unidos e na Europa. E foi a maravilhsoa e emocionante faixa-título que abriu o bis dele, no fim da apresentação.
No mais, foi um desfile de hits de sua carreira solo, com ênfase nos álbuns “A New Day Yesterday”, “Black Rock”, “Sloe Gin” e “Dust Bowl” – este responsável pelos momentos de maior frenesi da plateia, com as músicas “Dust Bowl” e “Slow Train”, mais conhecidas porque o álbum foi lançado aqui no final de 2011.
Os momentos de maior peso ficaram por contra de uma excelente versão de “Blues Deluxe”, clássico imortalizado por Jeff Beck em 1967, com a ajuda de Rod Stewart nos vocais, e em um hard rock beirando o heavy metal, “Young Man Blues”, clássico do bluesman Moses Alison, mas que se tornou parte indissociável do rock por conta das poderosas versões de estúdio e ao vivo de The Who – versões que inspiraram a execução de Bonamassa.
Como workaholic assumido, ele não perdeu tempo com papinhos estéreis com a plateia ou brincadeirinhas. Foram duas horas de pauladas e do melhor blues que passou pela cidade de São Paulo nos últimos tempos.
Aparentemente o guitarrista gostou da recepção calorosa que teve por aqui e também no Rio de Janeiro, onde tocou em 31 de maio, dois dias antes. Em meio aos agradecimentos, disse que adorou a primeira vez no Brasil e que voltará em breve. Tomara.
segunda-feira, junho 25, 2012
John Entwistle, do Who, é o melhor baixista para a Rolling Stone
John Entwistle foi o primeiro baixista a fazer um solo em uma canção rock. ele nunca teve essa intenção, mas foi convencido pelo guitarrista Pete Townshend e pelo produtor Shel Talmy de que seria uma boa ideia brincar com isso naquele que se tornou o maior sucesso da carreira do Who, “My Generation”.
Em uma entrevista à rádio BBC, de Londres, duas décadas depois do lançamento do single – na Inglaterra, no fim de 1965 –, Talmy disse que o Who era uma banda instintiva, orgânica e furiosa, e que só percebeu o tamanho do som do baixo de Entwistle no estúdio.
“Eles tinham gravado ‘I Can’t Explain’ antes, além de ‘Zoot Suit’ como High Numbers, mas foi em ‘My Generation’ que o som alto e pesado de John preencheu a sala. Ele era um verdadeiro guitarra-base, com sua técnica apurada, precisão e velocidade. Era óbvio que seria natural aparecer um solo de baixo com o volume lá em cima. Townshend teve a mesma impressão na hora em que percebi isso”, disse o produtor.
Entwistle, apelidado de “Thunderfingers” (dedos de trovão), foi eleito neste mês pelos leitores da revista norte-americana Rolling Stone como o melhor baixista de todos os tempos no rock.
Talvez fosse desnecessária tal pesquisa, já que há muito tempo é consenso de que o baixista do Who ocupa tal posto. Se as listas de melhores vocalistas e bateristas de rock sempre são polêmicas, devido ao número elevado de candidatos, as de guitarristas e de baixistas sempre foram consideradas “barbadas”. Jimi Hendrix quase sempre liderou as de guitarristas, assim como Entwistle a de baixistas.
Formação original do Who: da esq. para a dir., Roger Daltrey, Keith Moon, John Entwistle e Pete Townshend
O instrumentista do Who sempre desdenhou de tal “título”. Com seu jeito quieto e discreto, sempre foi modesto ao analisar sua carreira. Fã de jazz e de rockabilly, costumava dizer que não conseguia encontrar algo de novo em seu trabalho. Nem sequer conseguia identificar um estilo, quanto mais afirmar ter criado um.
Quem desmitifica a questão é Glenn Tipton, guitarrista fundador do Judas Priest, amigo de Entwistle desde os anos 70 e que o teve como companheiro de banda em dois de seus trabalhos solo, “Baptizm of Fire”, de 1997, e “Edge of the World”, de 2003, creditado a Tipton, Entwistle and Powell (Cozy Powell, baterista fantástico morto em acidente de carro em 1998).
“Se é consenso que o heavy metal pode ter nascido a partir dos riffs de guitarra pesados de ‘You Really Got Me’, dos Kinks, o baixo pesado surgiu com Entwistle na mesma época. O som vibrante, gordo e intenso de seu baixo representava uma mudança de postura e de modo de encarar o instrumento. Em uma banda sem guitarra-base, o peso e a melodia que Entwistle imprimia ao som do Who era muito mais do que ritmo, era uma verdadeira base”, afirmou Tipton à revista Guitar World nos anos 2000.
Entwistle com sua pequena coleção em sua mansão na Inglaterra, em 1975
A versatilidade e a genialidade de Entwistle às vezes incomodava Roger Daltrey, o cantor do Who, no palco. Não foram poucas as vezes que o vocalista brincava, mas dando o recado, quando o baixista fazia algum riff em músicas que requeriam tal procedimento: “Para que tantas notas ao mesmo tempo, John?”, perguntava Daltrey, geralmente no começo ou no final de músicas como “Boris The Spider”, “My Wife” ou “The Quiet One”.
John Entwistle morreu em junho de 2002, em Las Vegas, às vésperas do início de mais uma turnê do Who pelos Estados Unidos. Tinha 57 anos e sofreu um ataque cardíaco após uma noite bebendo brandy (uma espécie de conhaque) e usando cocaína no hotel.
Os demais nomes da lista dos dez melhores baixistas da Rolling Stone mostram algumas surpresas, como Flea (Red HOt Chili Peppers) em segundo lugar, Les Claypool, do Primus, em quinto lugar, e o jazzista Jaco Pastorius, em sétimo lugar. Clique aqui e leia a reportagem original da revista norte-americana.
O baixista em show do Who nos Estados Unidos no ano de 2000
Ranking
1 – John Entwistle (The Who)
2 – Flea (Red Hot Chili Peppers)
3 – Paul McCartney (Beatles)
4 – Geddy Lee (Rush)
5 – Les Claypool (Primus)
6 – John Paul Jones (Led Zeppelin)
7 – Jaco Pastorius
8 – Jack Bruce (Cream)
9 – Cliff Burton (Metallica)
10 – Victor Wooten
sexta-feira, junho 22, 2012
Liverpool celebrará 50 anos de ‘Love Me Do’ com grande homenagem aos Beatles
EFE
Reprodução
The Beatles
LONDRES – A cidade britânica de Liverpool se prepara para as comemorações do 50º aniversário de Love Me Do, o primeiro single dos Beatles, gravado no dia 6 de junho de 1962, e uma das músicas responsáveis por impulsionar o quarteto ao estrelato mundial.
Apesar do lendário quarteto, formado por Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon e George Harrison, ter se reunido em 1960, a data oficial de sua formação é celebrada dois anos depois, justamente quando o grupo se reuniu para a primeira sessão de gravação no emblemático estúdio Abbey Road.
Foi no ano de 1962 que um de seus principais integrantes entrou na banda, o baterista Ringo Starr – que segue vivo ao lado de Paul McCartney. Neste mesmo ano, o quarteto de Liverpool também lançou o pegajoso hit Love Me Do, o primeiro single do grupo, que, por sua vez, começou a fazer um enorme sucesso nas rádios do país pouco tempo depois.
Essa alegre canção, que gira em torno de dois simples acordes, transformou o Beatles em um grupo internacional. Isso porque, com Love Me Do, o grupo deixou de ser “uma banda local” para levar suas melodias para além do condado de Merseyside.
“Esse faixa (extraído do álbum de estreia Please, Please Me) foi o que tornou o grupo famoso no mundo todo”, assegurou à Agência Efe Jerry Goldman, diretor-geral da The Beatles Story, um centro que há 22 anos se dedica em narrar a evolução do quarteto de forma gráfica.
“Antes dessa canção, os Beatles eram apenas um grupo bastante popular na região (de Liverpool). No entanto, ninguém conhecia a banda fora desta cidade”, acrescentou Goldman.
Já George Martin, o lendário produtor que era apelidado de “quinto Beatle”, lembrou em alguma ocasião o curioso processo de formação de Love Me Do, que chegou a ser gravado em três vezes com bateristas diferentes.
Em princípio, o baterista era Pete Best. Ele que estava no comando das baquetas na gravação de 6 de junho de 1962, que fez parte de uma audição para EMI nos estúdios londrinos de Abbey Road, um lugar que passou a ser cultuado por qualquer fã que se preze.
No dia 4 de setembro deste mesmo ano, quando Ringo Starr já tinha substituído Best, a música foi gravada para retornar aos estúdios. Sete dias depois, o grupo voltou aos estúdios para uma nova gravação, agora com Andy White na bateria e Starr restrito a uma meia-lua.
The Beatles Antology, um documentário de oito episódios, três álbuns e um livro monográfico, explica que esse singles foi um dos primeiros escritos pela célebre dupla Lennon e McCartney, embora este último assuma a autoria de mais estrofes.
Dada a relevância da banda, 2012 será um ano especial para Liverpool, que homenageia seus quatro filhos ilustres com uma série de atividades comemorativas.
Os atos previstos destacam a participação da Royal Philarmonic Orquestra, que interpretará temas de Lennon e McCartney, e do mítico clube The Cavern, que deverá ser oficialmente tombado. A casa de show onde o quarteto “nasceu” ainda apresentará uma série de show em tributo.
Outro clássico de Liverpool, o festival anual de Matthew Street, realizado no final de agosto, deverá exaltar e rememorar algumas das principais músicas dos Beatles.
Mas, apesar de todos os mitérios e indefinições, a principal comemoração será realizada no dia 5 de outubro, a mesma data em que Love Me Do chegou ao mercado.
Essa canção chegou ao posto de 17º nas listas de sucessos do Reino Unido após seu lançamento e, em 1964, já aparecia no topo das paradas americanas.
Com 13 álbuns de estúdio, uma recopilação, 13 EP’s (um deles duplo) e 22 singles em apenas oito anos de carreira (1962-1970), a “poção” mágica que transformou os Beatles em verdadeiros ícones da música internacional foi “a mistura entre música e personalidade”, aponta Goldman.
A trajetória do grupo mais famoso do mundo começava a chegar ao fim meses depois da conclusão da gravação de seu décimo segundo álbum de estúdio, Abbey Road (16 de setembro de 1969), quando os quatro músicos já estavam envolvidos em projetos solos.
O encarregado de anunciar a separação da banda foi McCartney, que emitiu um comunicado há 42 anos, no dia 10 de abril de 1970, para explicar que os quatro meninos de Liverpool já não voltariam a tocar juntos.
terça-feira, junho 19, 2012
Ziggy Stardust completa 40 anos, enquanto Bowie vive aposentadoria dourada
EFE
Reprodução
‘The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars’
Há quarenta anos, um extraterrestre chamado Ziggy Stardust revolucionou a cena musical com sua imagem ambígua e andrógena, uma dúzia de memoráveis canções e um grupo que atendia pelo nome de Aranhas de Marte.
Foi assim que David Bowie criou um dos personagens mais imprescindíveis da cultura musical do século XX, um herói destinado a morrer em palco e que se apresentou ao mundo no dia 6 de junho de 1972 com um álbum conceitual e de título quilométrico: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.
O disco, que devia ser reproduzido “no volume máximo”, permitiu que Bowie, no auge de seus bem-vividos 25 anos, reunisse todas suas influências acumuladas até então, desde o teatro mímico de seu mestre Lindsay Kemp até a poesia de Baudelaire.
Além disso, o “camaleão do rock” deu grande liberdade a suas fantasias futuristas com um personagem que interpretou em uma viagem inesquecível, cuja modernidade transgressora serviu de influência para milhares de jovens de todo o mundo.
Essa época foi marcada por emblemáticas imagens, como aquela na qual Bowie – que havia se declarado gay publicamente -, fingia praticar sexo oral no guitarrista Mick Ronson.
Ziggy era um extraterrestre transformado em estrela de rock para confortar a humanidade em fase de extinção com uma mensagem de esperança, que Bowie levava aos palcos vestido com modelos impossíveis e uma imagem andrógina. Foi a apoteose do glam rock.
É certo que toda aquela história futurista que combinava moda e som se amparava em um repertório de primeira, que, segundo as instruções impressas na capa do disco, deveria ser escutado em “máximo volume”.
O álbum começava com a apocalíptica Five Years e propunha uma verdadeira viagem através de suas 11 canções, sendo dez originais e uma versão de It Ain’t Easy, de Ron Davies. Envolvido em um som poderoso, que combinava guitarras ferozes e violinos espaciais, Bowie deu forma a produção do álbum ao lado de Ken Scott.
Entre os temas, aparecem Starman, um dos singles mais celebrados da carreira de Bowie. Por conta de sua temática – uma mensagem de redenção vinda das estrelas -, a faixa se encaixava perfeitamente no álbum.
Após o lançamento do disco, Ziggy Stardust e As Aranhas de Marte embarcaram em uma longa turnê pelo Reino Unido, Estados Unidos e Japão.
No dia 3 de julho de 1973, Ziggy se despedia da humanidade no emblemático Hammersmith Odeon de Londres com uma interpretação de Rock n’ Roll Suicide, cujos primeiros versos traziam a frase “A vida é um cigarro…”.
Ziggy não voltou a aparecer sobre o palco, mas várias de suas canções acompanharam Bowie em suas turnês posteriores.
O emblemático álbum, que agora completa 40 anos, se transformou em um ícone da libertação gay e foi um dos marcos musicais da década. Desde então, sua influência não deixou de inspirar músicos de várias gerações.
Aos 65 anos, David Robert Jones goza de uma aposentadoria dourada, a qual não parece que será alterada por conta do aniversário de Ziggy Stardust.
A obstinada inatividade de Bowie, que já dura seis anos, deu margem a muitas especulações. E se, na verdade, Bowie fosse um personagem criado por Ziggy Stardust?
domingo, junho 17, 2012
Política argentina ‘exportar para importar’ atinge até show de Madonna
Marcia Carmo – De Buenos Aires para a BBC Brasil
Restrições ao dólar faz produtora de Madonna ter problemas para pagar outros estrangeiros
Além de barrar produtos na fronteira, a política “exportar para importar” do governo Kirchner fez mais um alvo nos últimos dias: Madonna. Para garantir a apresentação da cantora no país, a produtora da turnê deve promover a artistas argentinos no exterior, segundo declarações à imprensa local.
A política do governo da Argentina visa impulsionar a produção local, ao controlar a entrada de importados, e conter a saída de dólares do país. Nas últimas semanas, o governo anunciou uma série de medidas para controlar a compra e venda da moeda americana.
Madonna deve se apresentar em Buenos Aires e Córdoba em dezembro deste ano. Para poder expatriar os dólares do cachê da artista, a produtora Time For Fan (T4F) teve de prometer à Casa Rosada um plano para exportar espetáculos de artistas argentinos para os países da América Latina, segundo a imprensa local.
“(O governo) nos pediu um esforço para aumentar a presença de artistas argentinos no exterior, para aumentar a exportação de artistas nacionais para se ter uma balança comercial mais equilibrada”, disse Fernando Moya, diretor da T4F, ao jornal La Nación.
Segundo a reportagem, a produtora pediu audiência com o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, porque estariam tendo dificuldades para pagar em dólares os cachês de artistas internacionais que se apresentam no país, dada à rigidez para a compra da moeda.
A medida foi ironizada por jornais locais como La Voz del Interior, cuja reportagem foi intitulada “Madonna por Andrés Calamaro”, em referência a um cantor argentino.
Procurada pela BBC Brasil, a produtora não respondeu às ligações e aos emails.
‘Distorções’
Com a determinação de importar para exportar, o governo espera evitar a maior saída de dólares do país e equilibrar a balança comercial.
A ordem de exportar para importar provocou outros casos inusitados como o do campeão de ciclismo e medalha de ouro olímpico Juan Curuchet, que não conseguia importar seus equipamentos necessários para treinar para os Jogos Olímpicos de Londres.
Segundo a imprensa local, Curuchet contou que teria ouvido das autoridades locais a regra “para importar é preciso exportar”. Ele então reagiu: “Somos um grupo de esportistas olímpicos. O que podemos exportar além do nosso esforço físico?”.
Economistas ouvidos pela BBC Brasil disseram que a medida da Secretaria de Comércio Interior gera “distorções” ao setor comercial argentino.
Governo argentino vem agindo para controlar a venda de dólares
“O caso da Madonna é emblemático e o primeiro que vai gerar de fato mais exportação. A produtora vai exportar shows de artistas locais para a América Latina, num plano que inclui 2012 e 2013″, disse o economista Abel Viglione, da consultoria Fiel.
Segundo ele, o mesmo fluxo não é observado nos outros setores da economia que tiveram que se adaptar para atender a exigência do governo.
Recentemente, chegou-se a especular que shows de artistas como Roger Waters e Eric Clapton corriam risco de não acontecerem porque não se sabia como atender à medida do governo.
Carros por vinhos
Segundo Viglione, os demais importadores precisam fazer uma engenharia sofisticada para atender as exigências do governo. Ele diz que há importadores de automóveis de luxo que passaram a exportar vinhos. Outros importam tecnologia e exportam, afirmou, alimentos balanceados para cachorros.
O economista Mauricio Claveri, da consultoria Abeceb, disse que o governo começou a aplicar a exigência em 2010 e que no ano passado as empresas passaram a buscar alternativas para manter o fluxo de seus negócios com o exterior.
“Mas as barreiras de importação e essa medida geraram distorções. Uma empresa que importa vidros deve comprar no mercado local. O governo diz que o país produz vidro e deve ser dada prioridade à empresa nacional. O problema é que às vezes o produto específico ainda não é fabricado no país ou a quantidade é limitada”, afirmou Claveri.
Ele lembrou que o governo quer manter o superávit comercial de dez bilhões de dólares, como registrado no ano passado, e os números indicam que a meta será alcançada, mas com menos comércio com outros países, como o Brasil, por exemplo.
Em maio deste ano, a União Europeia (UE) denunciou a Argentina na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as travas do país ao comércio exterior. Nesta semana, o Ministério das Relações Exteriores disse que atenderá pedido de consultas da UE.
quinta-feira, junho 14, 2012
Uma nova opção de boleto para o consumidor
De vez em quando o consumidor recebe uma boa notícia de órgãos como o Banco Central (BC) e a Receita Federal. O BC criou o boleto de oferta, um novo tipo de título exclusivo para o pagamento opcional de serviços oferecidos ao cidadão, como assinaturas de revistas e contratações de seguros. A novidade pretende acabar com a confusão feita com os boletos de pagamento obrigatório (contas de luz e telefone, por exemplo), que, se não forem debitados, podem levar o nome do consumidor aos órgãos de restrição ao crédito, como SPC e Serasa.
Agora todos os boletos de oferta terão a informação de que o seu pagamento é dispensável. Também terá de estar claro nos documentos que, caso não sejam pagos, não ocorrerão protestos, cobranças judiciais ou extrajudiciais, nem a inclusão do consumidor em cadastros de restrição ao crédito. Assim, o cliente vai saber decidir com mais facilidade se paga ou não pelo serviço oferecido pelas empresas.
De acordo com o BC, a emissão dos boletos de oferta terá de, necessariamente, ser feita por meio de convênio com instituições financeiras autorizadas pela própria instituição.
Com o pacote de mudanças, vêm novas regras para o velho boleto de cobrança, o que deve necessariamente ser pago. Outras instituições, como corretoras e financeiras, passam a ter permissão para emitir diretamente os boletos de cobrança correspondentes aos serviços executados por elas.
Além disso, a partir de abril de 2013, boletos de valor superior a R$ 250 mil, quando pagos, vão remeter a quantia prevista diretamente ao recebedor, sem intermediação do sistema financeiro, segundo as novas normas fixadas pelo Banco Central. O consumidor que sofrer qualquer tipo de cobrança incorreta deve reclamar e exigir da empresa a devolução dos valores.
A companhia deve entregar o dobro do dinheiro debitado do cliente, com juros e correção monetária. Caso a pendência não se resolva na negociação com a empresa, pode-se reclamar no Procon e solicitar indenização por danos morais, em especial se o consumidor não tiver pago o valor indevido. Na Justiça, o caminho é o Juizado Especial Cível para causas de até 40 salários mínimos (R$ 22,5 mil).
terça-feira, junho 12, 2012
Não há mais vestígios do finado pop rock nacional
O pop rock nacional continua solidamente enterrado e dá sinais de que jaz na sepultura para sempre. Totalmente ausente das paradas radiofônicas do Brasil, tem algum espasmo quando algum medalhão anuncia turnê comemorativa de alguma coisa, caso dos Titãs (que comemoram 30 anos de atividade) e de uns poucos que ainda conseguem algum espaço com trabalhos autorais inéditos, como Jota Quest e Capital Inicial.
A edição nacional da revista Billboard, gigante norte-americano da área de mídia de entretenimento, traz mensalmente as “paradas de sucesso” pelo Brasil, em pesquisa comprovada, com dados confiáveis da empresa Crowley/Music Media, que criou uma metodologia abrangente para aferir a execução de músicas em emissoras de rádio (Mais informações em www.crowlwy.com.br). Hoje, no Brasil, não vejo levantamento com mais credibilidade do que esse.
No último levantamento, publicado na edição de maio de 2012 da revista, o cenário é mais desolador do que a análise que o Combate Rock fez em outubro passado. O principal ranking da Billboard Brasil é o Brasil Hot 100 Airplay, que elenca as 100 músicas com maior execução entre 19 de março e 18 de abril, reunindo tanto músicas nacionais como internacionais.
Apenas quatro artistas brasileiros de pop rock aparecem na lista – vamos desconsiderar Dinho Ouro Preto, que aparece em 80º lugar, porque seu mais novo recente trabalho só traz versões para hits internacionais, como “Nothing Compares 2 U”, de Sinead O’Connor, responsável por colocá-lo em tal posição. Em outubro passado, também eram quatro os brasileiros listados.
O melhor grupo rankeado é Charlie Brown Jr, em 42º lugar, com a música “Céu Azul”; o Restart, com a música “Menina Estranha”, ficou em 58º lugar – o que já dá uma amostra do abismo profundo em que se encontra o pop brasileiro. Em 69º aparece a música “Não É Normal”, de NX Zero; em 70º, “Mais Perto de Mim”, de Jota Quest. Ou seja, as bandas de rock mais bem colocadas são duas bandas emos de qualidade altamente questionável.
O cenário piorou também em relação ao posicionamento. O melhor brasileiro roqueiro em outubro passado estava em 50º – e era a mesma “Não É Normal”, do NX Zero. Ou seja, a música resiste nas paradas, e demonstra, por outro lado, que os artistas do gênero não conseguem entrar no ranking. O número de artistas diminui, e as músicas despencam na lista.
A banda NX Zero continua resistindo na parada principal da Billboard Brasil – o que não quer dizer que isso seja bom
Nas listas regionais das 10 mais, não existe rock de tipo nehhum, muito menos o nacional. Parece que o gênero nunca existiu ou foi extinto. A Billboard faz a pesquisa em 14 cidades – 11 capitais de Estados mais Campinas, Vale do Paraíba e Ribeirão Preto. Nas 14 listas o rock aparece somente com “Paradise”, do Coldplay, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O cenário tétrico do pop rock nacional nas paradas brasileiras só não é definitivo porque, como consolo, o rock internacional também está ausente do Top 100 da Billboard Brasil. São apenas dois representantes: o chato e insosso Coldplay com a mesma “Paradise”, em 16º lugar, e o inexpressivo Maroon 5, com a música “Moves Like Jagger”.
Sete meses atrás o rock estava na mesma, com dois artistas na lista – Coldplay aparece em 44º lugar com “Every Teardrop is a Waterfall”; Red Hot Chili Peppers é o 96º, com “The Adventures of Rain Dance Maggie.”
E o que existe no topo da lista da Billboard? O pior cenário possível, com as piores coisas que se pode imaginar. A predominância absoluta é daquela coisa que se convencionou chamar de “sertanejo”, seja lá o que isso for. Michel Teló e Luan Santana são os líderes, seguidos Bruno & Marrone, Adele e Zezé di Camargo e Luciano. Ou seja, trevas totais, jogando por terra qualquer possibilidade de salvação do cenário musical brasileiro – e da cultura nacional, por tabela.
O que sobra no cenário do pop rock nacional? Quando muito, o underground e o indie, e olhe lá. Vanguart, Cachorro Grande, Macaco Bong e mais uns poucos que ainda se aventuram nesta área.
Há um abismo a partir de 2005, com a falta de artistas promissores no rock e o predomínio cada vez mais avassalador do lixo pop que tanta alegria anda dando a um mercado de entretenimento/fonográfico agonizante e quase moribundo. E não nos iludamos: a tendência é piorar muito até o final de 2012.
segunda-feira, junho 11, 2012
U2 completa 35 anos em cima dos placos, mas sem perspectivas
Um baterista enfezado e com cara de mau queria porque queria ser punk aos 16 anos de idade e decidiu montar uma banda na cozinha da sua casa. E decidiu que ele seria o líder e que mandaria em tudo, escreveria as músicas, letras e escolheria o figurino. Colocou cartazes na escola procurando guitarristas, baixista e cantor.
Só três atenderam ao chamado. Para seu azar, aquele moleque feio e com cara de mais enfezado ainda decidiu naquela cozinha minúscula que ele seria o líder e que definiria o conceito da banda. Os outros dois concordaram. “Fui líder da minha banda por aproximadamente cinco minutos”, costuma dizer com uma ponta de sarcasmo Larry Mullen Jr, o baterista do U2.
Foi na cozinha da casa dele, em Dublin, em 1976, que Paul Hewson assumiu as rédeas do pretenso grupo punk irlandês qiue se tornaria um gigante do mercado musical dez anos depois e a única banda a rivalizar em venda de ingressos e megalomania com os Rolling Stones 20 anos depois. Hewson logo em seguida o nome artístico de Bono Vox. Em 1977, o quarteto finalmente estrearia nos palcos e começaria a se tornar profissional.
O quarteto completa 35 anos de atividade ininterrupta nos palcos e sem mudança de formação de forma discreta. Não há nada programado para lembrar a data – pelo menos nada anunciado até agora.
O baú de preciosidades aos poucos vem sendo esvaziado desde 2000 com o lançamento de coletâneas com material inédito e reedições de álbuns dos anos 80 com CDs bônus. O que esperar então da banda para este ano.
Jornais irlandeses especulam sobre a possibilidade de lançamento de shows raros da banda nos anos 80 e 81 em áudio e DVD. Sabe-se que esse matrial existe e que é praticamente inexplorado, justamente a fase mais “punk” e raivosa do U2.
Ainda que as apresentações daquela época retratem o quarteto com muita energia, mas ainda sem aquela identidade que faria do U2 um monstro do rock após “War” e “Unforgettable Fire”, são registros históricos valiosos.
Ali os garotos tentavam superar a decadência do movimento punk elevando o volume dos amplificadores e buscando uma alternativa às letras de contestação sem perspectivas de algumas das bandas da época. Estava claro para eles que o Clash era o caminho, em termos líricos, e foi nas extensas turnês daquele biênio que o U2 moldou o som e os temas que viriam a predominar nos três álbuns após “October”.
Os colecionadores e fãs mais ardorosos já sabem que pelo menos duas apresentações de 1981 – em Amsterdã, na Holanda, e em Toronto, no Canadá – têm qualidade ótima de áudio, mas a dúvida é se há imagens decentes destes shows.
Outra alternativa seria lançar, de forma oficial, em CD, com qualidade digital, o LP pirata “2 Sides Live”, gravado ao vivo no Paradise Theatre, em Boston, nos Estados Unidos, em 6 de março de 1981. Dessa época, é o melhor bootleg, com qualidade boa de áudio. Mas a dúvida persiste: foi registrado em vídeo? Se foi, esse vídeo, tem qualidade?
Alheia a isso, a banda está oficialmente de férias neste momento, embora Bono tenha afirmado à revista Rolling Stone norte-americana em dezembro passado que logo os trabalhos de composição para um eventual novo álbum começariam, mas que também haveria a possibilidade de a banda chegar ao fim por “falta de perspectivas”.
sexta-feira, abril 27, 2012
STF mostra abismo entre elite e o país
PAULO MOREIRA LEITE
REVISTA ÉPOCA
A decisão do Supremo sobre cotas marca um momento histórico. A mais alta corte de Justiça do país admitiu não só que existem brasileiros tratados como cidadãos de segunda classe, mas que eles têm direito a um tratamento especial para vencer a desigualdade.
A votação unânime mostrou, do ponto de vista jurídico, que as cotas são um projeto compatível com a Constituição.
Do ponto de vista histórico, é a decisão mais relevante sobre o assunto desde a Lei Áurea. Pela primeira vez o Estado brasileiro não se limita a punir o racismo, como se faz desde os anos 50, mas pretende tomar medidas efetivas para beneficiar a população negra e ajudá-la a vencer uma perversidade histórica. Sai de uma perspectiva formal para assumir as funções concretas de combater a desigualdade na vida cotidiana.
A decisão mostrou, do ponto de vista político, um abismo entre nossa elite econômica e política e o conjunto do país.
O STF uniu-se para defender as cotas. Ministros chamados conservadores e progressivas responderam, cada um à sua maneira, às alegações dos adversários das cotas.
Embora tenha usufruído de um espaço imenso nos meios de comunicação, no placar do Supremo o combate às cotas ficou ainda menor do que o partido que a patrocinou, o DEM, cada vez mais insignificante na definição dos rumos do país. Mas um partido político pode ser desfeito, incorporado a outro, reformado e assim por diante.
Mas o que faz uma elite que não consegue compreender para onde vai o país onde ocupa o topo da sociedade, dirige a economia e tem uma influencia importância na ação do Estado, mesmo que o governo não esteja nas mãos de seus representantes prediletos?
Essa é a pergunta.
Ficou claro que, do ponto de vista dos ministros, nos últimos anos o Brasil foi inundado por argumentos retóricos, falsas questões, ginásticas verbais e até teses desqualificadas demais para serem levadas a sério.
Vários ministros ensinaram aos interessados que a principal tese contra as cotas – de que elas ameaçam a igualdade entre os cidadãos – é puro improviso jurídico.
Para começar, vários grupos sociais diferenciados – mulheres, crianças, deficientes físicos – têm direito a preferências negadas aos demais. Ninguém, nunca, achou ruim.
Vários ministros lembraram Ruy Barbosa, que ensinou que é preciso tratar os iguais com igualdade e os desiguais com desigualdade.
Cezar Peluso explicou que só é possível falar em disputa pelo “mérito individual” para ingresso nas universidades públicas entre pessoas que competem em situação de igualdade ou pelo menos “assemelhada.”
Marco Aurélio Mello disse que o combate às cotas se alimenta de uma visão preconceituosa da própria Constituição. Lembrou que dez anos de experiência com o sistema em nada contribuíram para transformar o Rio de Janeiro num estado “racialista”, um dos fantasmas originalíssimos dos adversários, que querem nos fazer acreditar que o racismo brasileiro iria início com as políticas de ação afirmativa – e não seria fruto de um passado perverso, onde a escravidão foi abolida sem que se tomassem medidas coerentes para integrar os negros ao conjunto da sociedade.
Celso Mello lembrou que o país se libertava, naquela votação, do pensamento que havia criado a “ideia, ou mito, da democracia racial” de Gilberto Freyre, para aderir a visão do professor Florestan Fernandes, autor do clássico A Integração do Negro na Sociedade de Classes, e seu aluno, Fernando Henrique Cardoso.
Celso Mello ainda homenageou uma militante aguerrida do movimento negro, Edna Roland, uma das principais ativistas no combate ao racismo.
Mencionando ironicamente um fato ocorrido durante a ditadura militar, Celso Mello lembrou que, ao ser questionado em organismos internacionais sobre medidas que havia tomado para enfrentar a discriminação racial, o governo dos generais escreveu a seguinte resposta: “não há medidas a relatar porque não há discriminação racial no Brasil.”
Essa feia realidade começou a se transformar em entulho após a decisão do Supremo.
O Brasil está mudando e tem gente que não percebe. Vários ministros falaram sobre a necessidade de modificar e ajustar a política de cotas, em particular na forma que ela assumiu na Universidade de Brasília, que foi o foco do julgamento. Este é o debate para o futuro.
A lição de ontem foi vencer o passado, mostrando que não é possível manter eternamente um sistema de opressão e preconceito que prejudica e humilha 51% dos brasileiros.
Quem queria, de verdade, que a desigualdade fosse vencida por idéias clássicas que nunca foram implementadas – como escolas melhores nos bairros pobres — deve reconhecer que o tempo histórico para iniciativas convencionais já passou. Foram décadas e décadas de promessas jamais cumpridas.
Também cabe perguntar: se as escolas públicas ficaram piores até mesmo em bairros de classe média, por que se deveria levar a sério a promessa de ocasião de que irão melhorar na periferia?
Vamos combinar: seria até falta de respeito pedir aos cidadãos negros que aguardassem o tempo histórico de várias gerações em nome da promessa de que, um dia, seus bisnetos e tataretos quem sabe poderiam disputar um lugar ao sol como os demais brasileiros.
Seria lhes pedir — olha o tamanho da indignidade — que aceitassem a posição subalterna por muitos e muitos anos ainda, concordassem com a cidadania de segunda classe em nome do conforto alheio. Em resumo: o que se queria é seguissem concordando com a própria discriminação.
Isso é até possível sob uma ditadura. Mas é difícil sob uma democracia, onde os homens e mulheres não são iguais mas, a cada quatro anos, cada um vale um voto. Essa é, no fundo, a grande mensagem da votação. Quem não entendeu, não entendeu o país.
sábado, abril 21, 2012
Intolerância religiosa
POR DRAUZIO VARELLA*
O fervor religioso é uma arma assustadora, disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso
SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.
A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.
*Publicado hoje na “Folha de S.Pauo” e excepcionalmente aqui reproduzido.
terça-feira, abril 03, 2012
A volta por cima do Van Halen
Uma tentativa desesperada de buscar ecos do passado, mas feita com competência e de forma descontraída e espontânea. O Van Halen parece ter reencontrado o prazer de existir, mesmo que tenha perdido parte expressiva de sua relevância dentro do rock. Ficar 14 anos sem lançar nada novo e ter feito apenas duas turnês neste período cobra um preço alto, mas é possível suplantar isso com qualidade musical.
A Different Kind of Truth, que será lançado na próxima semana, tinha tudo para jogar o Van Halen de novo para baixo, como ocorreu com “Van Halen III”, de 1998, com Gary Cherone (Extreme) nos vocais.
O primeiro single do novo álbum, “Tattoo”, era enganoso e de longe é a música mais fraca do grupo. Não só trazia ecos do passado muito distante: era uma releitura de uma música dos anos 70 nunca lançada, mas tocada em shows na época. Os temores aumentaram com as reclamações iradas de fãs norte-americanos com o que consideraram “reciclagem” e falta de inspiração.
Felizmente o restante do álbum passou por cima da má imagem que “Tattoo” deixou. É um CD alegre, vibrante e cheio de groove e suingue. É certo que está a milhões de anos-luz dos melhores trabalhos da banda, gravados na primeira metade dos anos 80, mas é muito melhor do que se podia esperar.
De certa maneira, em uma analogia tosca, “A Different Kind of Truth” está para a carreira do Van Halen assim como “Death Magnetic” para o Metalilca – muita gente não esperava muita coisa boa após o decepcionante “St. Anger”.
O climão dos anos 70 e 80 estão lá, assim como o talento de Eddie Van Halen. O baixo está bem mais discreto, já que Wolfgang Van Halen, filho de Eddie, é mais técnico em alguns momentos do que o Michael Anthony, o baixista original, mas é bem mais contido.
“She’s a Woman” e “Blood Fire” são pérolas saídas diretamente do fantástico “Women and Children First”, de 1980, com o groove característico da banda, com leve acento pop e grudento. “China Town” e “Bullethead” são um pouco mais pesadas e aceleradas, típicos rocks de arena e perfeitas para fazer um show engrenar. “The Trouble With Never” e “Outta Space” formam uma dobradinha ótima, acrescentando um peso peculiar ao hard rock mais festeiro.
A surpreendente qualidade do álbum anda entusiasmando críticos norte-americanos e brasileiros, alguns considerando “A Different Kind of Truth” como obra-prima ou fantástico. Flagrante exagero. Quando nada se esperava dessa reunião sem muito futuro, eis que surge um álbum muito interessante e agradável.
De certa forma, pode-se dizer que começou a ser gestado ainda em 1996, quando David Lee Roth aceitou o convite de Eddie Van Halen para gravar duas músicas inéditas para a coletânea “The Best of Vol. 1”. “Me Wise Magic” e “Can’t Get This Stuff No More” foram duas tentativas de resgatar um passado que já era distante naquela época, mas que remetia a um período onde os músicos tinham prazer em compor.
As duas músicas eram boas, mas não o suficiente para que Roth decidisse permanecer na banda – e também não eram boas o suficiente para que Eddie deixasse de lado seu projeto de gravar músicas mais soturnas e melancólicas, que apareceram em “Van Halen III”, com Cherone cantando.
O novo trabalho do Van Halen é uma grande notícia (e enorme alívio) para quem gosta de rock nestes tempos difíceis para quem curte coisa boa. O quarteto cometeu um trabalho muito bom – bom o suficiente para resgatar grande parte do prestígio que a banda já teve.
sábado, março 31, 2012
Cursos livres entram na mira do Procon
Os cursos livres figuraram pela primeira vez no ranking de atendimentos do Procon-SP, aparecendo na lista do segundo semestre de 2011. Reclamações e esclarecimentos de dúvidas envolvendo cursos de informática, inglês, pré-vestibulares e profissionalizantes ocuparam a 10ª colocação na lista – com 5.223 atendimentos. Em todo o ano passado foram 9.881 registros, 9,8% mais que os 8.996 questionamentos realizados em 2010.
Os cursos livres ficaram atrás de bancos, cartões de crédito, telefonia celular e fixa, aparelhos telefônicos, móveis, plano de saúde, produtos de informática e produtos da linha branca. “A posição dos cursos livres chama a atenção por ser um segmento relativamente menor em relação aos outros listados em nosso ranking. Estar equiparado com grandes setores da economia mostra o quanto às práticas das empresas são abusivas”, diz a diretora de atendimento do Procon, Selma do Amaral.
O principal problema constatado pelo órgão de defesa do consumidor está relacionado a rescisão/alteração de contrato. Além de ter atenção ao ler o contrato, o Procon-SP recomenda muito cuidado com ofertas enganosas. Segundo É comum empresas abordarem o consumidor com a promessa de vaga de estágio ou de emprego. Mas é preciso desconfiar. São ofertas que atingem um público mais vulnerável, que não tem informação. São pais que não têm como pagar uma faculdade para o filho, mas querem dar uma formação e se iludem de que o curso garantirá um emprego. Para evitar problemas, é preciso conferir se a proposta é séria e a escola idônea, e pesquisar se a empresa tem queixa no Procon.
segunda-feira, março 26, 2012
Bancos e operadoras de telefonia lideram o ranking do Procon
As empresas do setor financeiro e as operadoras de telecomunicações foram as mais reclamadas nos Procons do Brasil no ano passado, respondendo por mais de 605 mil queixas registradas (39,33% do total).
Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec), que reúne informações dos Procons de 23 Estados (inclusive São Paulo) e do Distrito Federal (DF). Em 2011, foram realizados 1.696.833 (um milhão seiscentos e noventa e seis mil, oitocentos e trinta e três) atendimentos – uma média mensal de 141.402 reclamações.
Só o setor de assuntos financeiros responde por 336. 428 reclamações (21,87% do total). Nessa área em especial, se destacam 141.672 queixas contra cartões de crédito (9,21%), 111.648 contra bancos comerciais (7,26%), 58.445 contra financeiras (3,80%) e 24.663 contra cartões de lojas (1,60%).
Na sequência dos serviços financeiros, o destaque é para as 268.660 reclamações contra os serviços de telecomunicações (17,46% do total). Neste caso, são 122.952 queixas contra a telefonia móvel (7,99% do total), 85.606 contra a telefonia fixa (5,56%), 32.276 contra tevê por assinatura (2,10%) e 27.826 contra operadoras de internet (1,81%). Com relação a produtos, os aparelhos de celular aparecem em evidência, com 83.649 reclamações (5,44%).
“Fica claro que, com o crescimento econômico, mais pessoas têm acesso ao crédito e ao serviço de telefonia celular. Só que não há contrapartida das empresas para atender esses clientes. Elas apenas vendem o serviço e não melhoram a qualidade. Daí o grande número de problemas”, disse Maria Elisa Novaes, gerente jurídica do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em depoimento ao Jornal da Tarde.
sábado, março 24, 2012
Pirataria pode ‘matar a cultura’, diz MinC
Por Tatiana de Mello Dias
Em audiência pública na Câmara, Ana de Hollanda apresentou os planos do MinC para 2012 e mostrou ter ouvido queixas da indústria cultural
FOTO: Fabio Motta/AE
SÃO PAULO – A ministra da Cultura Ana de Hollanda está preocupada com a internet – para ela, a pirataria online pode “matar a cultura brasileira”.
A afirmação foi feita na manhã desta quarta-feira, 21, em audiência pública na Câmara dos Deputados. Ana de Hollanda se reuniu com os parlamentares da Comissão de Educação e Cultura para apresentar os projetos do MinC para 2012. A ministra falou por quase uma hora – mas a cultura digital e a reforma da lei de direitos autorais ficaram de fora dos principais tópicos do ministério.
O MinC destacou projetos como a reforma do Teatro Brasileiro de Comédia, PAC das cidades históricas, escritórios de economia criativa para as sedes da Copa e a restauração de prédios históricos do centro histórico de Salvador. Deixou claro, portanto, que adota uma linha diametralmente oposta à gestão anterior do MinC, cujas políticas para a internet e a atualização das leis para o ambiente digital eram a prioridade.
O assunto só apareceu após questionamento dos parlamentares. Sobre pirataria, Ana de Hollanda disse que essa não é uma atribuição do MinC, mas do Ministério da Justiça, embora essa seja uma preocupação de sua gestão. “Afeta demais a área cultural”, queixou-se.
“Hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. Daí a preocupação do MinC com essas questões, que estão facilitando a pirataria”, disse Ana. “O MinC tem que ter uma preocupação com a preservação e com a condição de se produzir culturalmente sem que isso seja copiado como se não tivesse trabalho investido. Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado”, declarou.
Ana disse que foi procurada no ano passado pela produtora de um filme, que se queixou de ter perdido R$ 4 milhões em seu último filme que “estava sendo copiado e vendido pela internet”. “Essa é uma queixa muito grande”, disse a ministra.
Ana de Hollanda disse que ouviu a indústria cultural para lançar a última versão do texto da Reforma da Lei de Direitos Autorais. “Consideramos a consulta pública, mas abrimos para contribuição”, explicou. “Havia uma demanda enorme dos meios culturais de que diziam que não tinham sido ouvidos ou contemplados no processo anterior”. Segundo ela, o MinC “mexeu muito pouco”. “O que foi mexido era uma demanda forte dos setores de todas as áreas, audiovisual, música, livros, que não se sentiam contemplados.”
A lei está agora na Casa Civil e será discutida pelos ministérios envolvidos e depois irá para o Congresso. O texto final, ao qual o ‘Link’ teve acesso, tem mecanismos como o de notificação e retirada, que permite que se elimine conteúdos da internet por infração de direitos autorais sem a necessidade de ordem judicial.
O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) questionou a ministra sobre o Ecad e suas recentes cobranças indevidas. Ana disse que “essa área não compete ao MinC”, embora esteja nas mãos do próprio MinC (com a reforma na lei de direitos autorais) a decisão sobre fiscalizar ou não a arrecadação de direitos autorais no País. “O Ecad e os sites é uma discussão de entes privados. O ministério não tem essa função de mediar por enquanto. Pretendemos ter a supervisão, isso está sendo resolvido na justiça”, disse Ana.
Em relação às queixas sobre falta de diálogo, a ministra afirmou várias vezes que o “diálogo é aberto”. “É uma questão de procurarem ‘os caminhos certos’”, disse a ministra.
quarta-feira, março 21, 2012
Lei que permite assassinatos causa revolta nos EUA
Por João Ozorio de Melo
Uma campanha no Facebook convoca os americanos para a "marcha de um milhão de encapuzados" ("Million Hoodies March"), que pretende ocupar praças e ruas de Nova York, nesta quarta-feira (21/3). A marcha é uma homenagem a Trayvon Martin, de 17 anos, um estudante negro que foi morto por um patrulheiro voluntário de um condomínio, por parecer um "suspeito". O estudante caminhava à noite pela calçada, "observando as casas", com a cabeça coberta pelo capuz de seu agasalho de moletom. George Zimmerman, de 28 anos e branco, matou Trayvon, que estava desarmado, mas não foi preso. Ele está protegido por uma lei estadual da Flórida.
O Departamento de Justiça e o FBI anunciaram, na terça-feira (21/3), que estudam uma maneira de interferir no caso, que se iniciou na noite de 26 de fevereiro. Zimmerman, que patrulhava as ruas de um condomínio de Sanford, Flórida, telefonou para a Polícia para denunciar a presença de um "suspeito" na área. Ele descreveu o "encapuzado" e comentou (conforme gravação liberada pela Polícia): "Esses filhos da puta sempre se safam". Ele ignorou a ordem do operador policial de não segui-lo, porque uma viatura policial já estava a caminho. Confrontou o garoto e lhe deu um tiro no peito. A Polícia sequer tentou prender Zimmerman. Declarou à imprensa que, se o prendesse, poderia ser processada, por infringir a lei estadual Stand Your Ground Law (Lei não ceda terreno).
Essa lei estadual, aprovada em 2005 pelo então governador Jeb Bush (irmão do ex-presidente George Bush) e subsequentemente copiada por mais 15 estados americanos, mudou o conceito de legítima defesa, seguindo os preceitos de uma outra lei, conhecida como Castle Doctrine (Doutrina do Castelo), e Defense of Habitation Law (Lei da Defesa da Habitação). A doutrina da legítima defesa previa que a pessoa tinha a obrigação de recuar antes de usar "força fatal", e só usá-la como último recurso. A Castle Doctrine estabeleceu que o cidadão, quando é ameaçado dentro de sua casa, não tem de recuar coisa alguma. Pode matar, com garantia da imunidade prevista no princípio da legítima defesa. A doutrina, com raízes na Common Law, prescreve que a casa é "o castelo do cidadão".
A Stand Your Ground Law absorveu esse conceito e o estendeu para virtualmente qualquer lugar no estado — a rua, a quadra de basquete, o bar, o restaurante, a calçada pela qual o estudante Trayvon caminhava com um lanche e um refrigerante, que comprara na loja, enquanto falava com a namorada pelo celular e usava o capuz da jaqueta sobre a cabeça, porque estava chovendo. Nos termos da lei, basta que a pessoa se sinta ameaçada ou que entenda que sua vida está em perigo para ter o direito de matar. Na conversa com a namorada, pelo celular, o estudante lhe contou que estava sendo seguido. Ela pediu para ele correr. Ele respondeu que só ia andar mais rápido. Zimmerman foi a seu encalço. Sua última informação ao operador da Polícia foi a de que o "suspeito" tinha alguma coisa na mão. Mais tarde, ao lado do corpo, a polícia encontrou o celular, o lanche e o refrigerante.
Depois de aprovada, a lei ganhou rapidamente um apelido: Make my Day Law (em tradução livre, "Lei Me Ajude a Ganhar Meu Dia"). O apelido foi emprestado do roteiro do filme Sudden Impact, em que o violento investigador policial Harry Callahan, representado pelo ator Clint Eastwood, diz a um suspeito que o ameaça em uma lanchonete: "Vá em frente, me ajude a ganhar meu dia". Ele sabia que se o suspeito tentasse agredi-lo, ele podia atirar nele e matá-lo (o que aconteceu), sem ter de se defender mais tarde. Bastava alegar legítima defesa. Pela lei da Flórida, basta que o autor do crime forneça à polícia uma argumentação plausível para sustentar a legítima defesa. A acusação não pode, obviamente, contestar com a versão da vítima.
O paradeiro de Zimmerman é desconhecido e ele sequer é procurado pela Polícia, segundo os jornais americanos. Mas sua impunidade está causando furor em todo o país. Manifestações foram feitas, por muitas centenas de pessoas, em igrejas e ruas de Sanford, Miami, Orlando e New York, noticia a CNN. Uma petição no site Change.org, exigindo a prisão de Zimmerman, já conta com mais de 700 mil assinaturas, entre as quais de várias celebridades, como o cineasta Spike Lee e o músico Wyclef Jean. As manifestações, a campanha no Facebook e a ampla cobertura da imprensa — e suas críticas — levaram as autoridades a anunciar que um júri de instrução será instalado, para avaliar o caso, em abril.
Para um grande número de americanos, essa lei da Flórida passou dos limites. E, recentemente, ganhou mais um apelido de seus oponentes, segundo o site da MSNBC: Shoot First Law (Lei Atire Primeiro) — apelido derivado da expressão "aitre primeiro, pergunte depois", que muitas vezes foi atribuída, nos filmes de "bangue-bangue", aos bandoleiros mexicanos. Para um colunista do jornal Orlando Sentinel, os habitantes da Flórida estão revivendo o Velho Oeste.
Ameaça presumida
Há outro caso que está incomodando a população. Em setembro de 2010, Trevor Dooley matou David James, que estava jogando basquetebol com sua filha de 8 anos, por causa de uma discussão. Dooley teria iniciado a briga, ao tentar proibir um garoto de usar sua prancha de skate na quadra. No mês passado, ele alegou em um tribunal que tinha o direito de matar James, de acordo com a Stand Your Ground Law, porque sentiu que sua vida estava ameaçada.
De acordo com o New York Times, um levantamento de 65 casos semelhantes ocorridos na Flórida que resultaram em mortes revelou que, em 57 deles, sequer houve indiciamento criminal. Em sete outros, a denúncia foi apresentada à Justiça, mas os réus foram absolvidos. A Suprema Corte da Flórida já decidiu que, com base nessa lei, os juízes podem rejeitar as denúncias, antes mesmo de iniciar o julgamento. Isso porque, segundo a Corte, a lei dá ao réu o que se chama de imunidade verdadeira.
A venda de armas cresceu substancialmente na Flórida, e nos outros estados que copiaram a lei, depois da aprovação da Stand Your Ground Law. A lei foi aprovada graças, em boa medida, ao forte lobby da National Rifle Association (NFA), a associação americana que reúne os fabricantes de armas dos EUA e entusiastas de todos os calibres: a NFA foi presidida, por vários anos, pelo ator e ativista Charlton Heston(Os Dez Mandamentos, Ben-Hur ). A organização, considerada o grupo mais influente de lobby por parlamentares e assessores do Congresso dos EUA, segundo uma pesquisa da revista Fortune, se declara defensora dos direitos de porte de arma, garantidos pela Segunda Emenda da Constituição do país, explica a Wikipédia.
O procurador geral do estado da Flórida, Willie Meggs, que lutou contra a aprovação dessa lei quando ela foi proposta, disse ao New York Times que as consequências da Stand Your Ground Law têm sido "devastadoras" em todo o estado. "O que estamos passando é quase uma loucura", afirmou. Ele contou que a lei tem sido usada por membros de gangues em guerra com outras gangues, traficantes em guerra com outros traficantes, bem como por namorados ciumentos em bares, que usam revólveres, facas e até mesmo um quebrador de gelo, como já aconteceu, para matar seus desafetos. E relatou que o estado perdeu um caso contra um homem que já estava em seu carro para ir para casa, mas, com muita raiva por causa de uma discussão com outro homem que havia sentado em seu veículo, pegou uma arma no porta-luvas, abriu a porta, desceu, caminhou até perto dele e o matou com um tiro.
Zimmerman tinha direito a porte de arma, porque não tem antecedentes criminais, embora a Polícia saiba que, há algum tempo, ele bateu em um policial. Mas o fato não rendeu denúncia criminal. As previsões são de que ela vai se safar mais uma vez. O Departamento de Justiça dos EUA e o FBI já disseram a jornalistas que um possível caso federal contra Zimmerman será muito fraco. Eles poderiam, por exemplo, fazer uma denúncia contra Zimmerman por crime de ódio, uma vez que ele é branco e a vítima era negra. No entanto, ele tem descendência hispânica, o que o colocaria na mesma situação de minoria racial. O pai de Zimmerman já enviou um comunicado ao jornal Orlando Sentinel, declarando que a família tem membros de descendência negra e que, portanto, esse não é um caso de discriminação racial.
O anúncio da programação de um Grand Jury, segundo algumas autoridades explicaram anonimamente a jornalistas, tem o objetivo principal de "acalmar as multidões". Para isso, uma equipe de profissionais de Relações Públicas foi despachada para a Flórida. E as autoridades estão pedindo calma à população, porque alguma coisa vai ser feita.
João Ozorio de Melo é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.
segunda-feira, janeiro 30, 2012
Ziquito, dos Jordans, um dos pioneiros do rock no Brasil
Houve um tempo em São Paulo que se fazia rock sem saber que aquilo que era rock. E isso muito, mas muito antes de surgirem Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia, Jorge Ben, Raul Seixas e toda a Jovem Guarda.
Há historiadores brasileiros que não hesitam em cravar mês, ano e local do nascimento do rock no Brasil: janeiro de 1956, bairro da Moóca, zona leste de São Paulo.
Um baterista, um baixista e dois guitarristas formavam uma banda que se tornaria The Jordans em 1959 e embarcaram na onda da música instrumental que começava a ganhar corpo nos Estados Unidos e na Inglaterra, com lendas como The Shadows, Dick Dale, Link Wray e The Ventures, entre outros. O nome foi inspirado na banda The Jordanaries, que acompanhou Elvis Presley na época por algum tempo.
Um dos integrantes da época de ouro do início do rock no Brasil (e no mundo) foi guitarrista João Salvador Galatti, o Ziquito, que morreu no mês de outubro em Taquaritinga, no interior de São Paulo, aos 69 anos, em consequência de um infarto sofrido no início da semana.
De estilo elegante e econômico, Ziquito tinha prazer em soltar fraseados melódicos enquanto a banda se divertia com as bases bem elaboradas e bem arranjadas, geralmente de sucessos de bandas do exterior, como os próprios Shadows e Ventures. Aliás, Hank Marvin, líder dos Shadows, era uma de suas referências no rock.
Nos cerca de dez anos em que ficou com o grupo, tocou com quase todos os nomes importantes da música brasileira da época – Roberto e Erasmo Carlos, Incríveis, Renato e Seus Bluecaps e outros astros da Jovem Guarda.
Antenado e bem informado, Galatti ouvia bastante Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e alguma coisa do rock italiano dos anos 60, e tentou sem sucesso convencer os companheiros a mudar o direcionamento dos Jordans, insistindo para que incluíssem um cantor e se adequar à vertente mais pop que crescia no Brasil a partir de 1966.
Ziquito se orgulhava do prestígio que os Jordans obtiveram no exterior e afirmou que parte da banda chegou a se encontrar com os Beatles nos Estados Unidos em meados dos anos 60 (ele não participou desta turnê).
Decepcionado com a manutenção do estilo puramente instrumental deixou a banda em 1970 e começou a se apresentar em bailes no interior de São Paulo com diversos outros grupos musicais de vários estilos, até que se estabeleceu em Taquaritinga.
Para o jornalista Gustavo Girotto, que conheceu o guitarrista em Taquaritinga, Ziquito era uma “pessoa calma e profundo conhecedor da história da música, pois foi parte viva da construção do rock nacional. Mais do que isso, fez parte de uma geração histórica, cujo amor pela música era sua partitura de vida.”
Sobre os Jordans, a banda realizou um grande feito para o incipiente cenário roqueiro brasileiro: em 1961 conseguem uma série de apresentações no programa Ritmos da Juventude na Rádio Nacional de São Paulo, grande celeiro de novos talentos, o que levou aos estúdios. Ainda naquele ano gravam seu primeiro disco um compacto de 78 rpm chamado “Boudha”, e no final de 1961 lançam um LP completo, “A Vida Sorri Assim”.
A formação básica no período de ouro teve Aladim (Romeu Mantovani Sobrinho), Sinval (Olímpio Sinval Drago), Tony (José de Andrade), Foguinho (Waldemar Botelho Júnior), Ziquito (João Salvador Galatti) e lrupê (lrupê Teixeira Rodrigues).
No cinema, participam de alguns filmes, um deles com Mazzaropi, “O puritano da Rua Augusta” (1965), inclusive compondo e executando uma música para a trilha sonora. O grupo se separou em 1975, com uma tentativa frustrada de retorno em 1993, mas que levou a banda a participar de uma série de eventos dois anos depois em comemoração aos 30 anos da Jovem Guarda.
sexta-feira, janeiro 27, 2012
Bert Jansch, um dos gurus do Led Zeppelin
O guitarrista escocês Bert Jansch e o violonista inglês Roy Harper, dois dos grandes expoentes da música folk britânica, bem que poderiam ter sido creditados como coautores do álbum “Led Zeppelin III”. A influência deles na composição das músicas e na elaboração dos arranjos foi tão grande que o próprio Jimmy Page, guitarrista do gigante do rock inglês admite que não sabia onde terminavam as “ideias” dos dois e onde começavam as suas…
O escocês Jansch era uma figura citada constantemente como mestre por artistas como Page, Ian Anderson (Jethro Tull), Fish (ex-Marillion), Peter Gabriel (ex-Genesis) , Neil Young, Bob Dylan e Roger Waters (ex-Pink Floyd). Sua mort, em setembro, vitimado por um câncer no pulmão aos 67 anos, provocou, ao menos na Inglaterra, uma saraivada de homenagens. Até que foi pouco, dada a qualidade extrema de seu trabalho solo e na ótima banda folk Pentagle.
Seu trabalho mais recente foi o elogiado álbum “The Black Swan” , de 2006 , e no ano seguinte fez a sua última gravação, um aparticipação no álbum ”Shotter’s Nation” , da banda pop Babyshambles, e chegou a tocar ao vivo com Pete Doherty e Carl Barat, dos Libertines.
Em alguns círculos musicais britânicos, Jansch gozava de um prestígio parecido com o que João Gilberto desfruta no Brasil e nos Estados Unidos basicamente por conta de sua síntese única e até hoje inigualável de folk, blues e jazz, além de uma técnica diferente e desconhecida de ataque ao violão acústico, até hoje nunca reproduzida com fidelidade por discípulos e admiradores. Tudo isso chamou a atenção sde empresários e músicos na primeira metade dos anos 60.
O seu primeiro álbum, ”Bert Jansch”, foi totalmente gravado com um violão emprestado no começo de 1965, em Londres onde chegou após uma semana viajando de carona com caminhoneiros. Com fama crescente nos meios alternativos da Grã-Bretanha, conseguiu se estabelecer artística e financeiramente em Londres e se tornou um dos mentores da desconstrução da balada folk tradicional – algo que ele acentuou com a criação em 1968 do Pentangle, o supergrupo acústico integrado também por com John Renbourn, Jacqui McShee, Terry Cox e Danny Thompson.
O Pentangle fez seis álbuns e obteve um grau sem precedentes de êxito alcançado por uma banda acústica. A banda acabou em 1972, sendo que Jansch tentou ressuscitá-la algumas vezes a partir dos anos 80.
Aqui no Brasil é muito raro encontrar um álbum do guitarrista ou do Pentagle. O jeito é recorrer ao YouTube e às emissoras de rádio segmentadas na internet. Quem se dispuser a procurar seus trabalhos vai notar claramente de onde veio boa parte da inspiração de Led Zeppelin, Jethro Tull, Uriah Heep e muitas outras grande bandas do rock.
terça-feira, janeiro 24, 2012
Nova versão de ‘Aqualung’ fica ainda melhor
Em uma de suas muitas passagens por São Paulo, o cantor e flautista Ian Anderson, do Jethro Tull, garantiu que o baú da banda está cheio de raridades e músicas inéditas nunca lançadas, mas que jamais veriam a luz do dia. “Se não foi publicada à época não há porque ser editado 10, 15, 30 anos depois. Além de demandar um caro e lento trabalho ‘arqueológico’, é considero algo mórbido por parte de alguns ficar caçando velharias e raridades quase inaudíveis e sem muita qualidade”, disse o músico pouco antes de um show no Via Funchal em 2001.
Parece que ele mudou de ideia, pelo menos parcialmente. Lançado originalmente em 1971, o álbum “Aqualung”, a maior obra-prima da banda e o seu maior sucesso, ganhou uma “edição de luxo” e ampliada para marcar os 40 anos de seu lançamento.
“Aqualung: 40th Anniversary Collector’s Edition” tem lançamento programado para dia 31 de outubro trazendo cinco CDs/DVDs, além de uma reedição do álbum em vinil de 180 gramas, com reprodução exata da capa dupla original.
Na parte principal, são dois CDs com o trabalho na íntegra em uma nova mixagem, além de vários bônus com gravações raras, takes alternativos músicas inéditas. A caixa contém ainda DVD e Blu-Ray com “Aqualung” em três mixagens diferentes (Surround, 5.1 New Mix e Quadrifônico), além das raridades. Completando o pacote, um grande livreto de 48 páginas repleto de entrevistas inéditas e fotos raras.
Para os mortais que não terão condições de gastar a fábula que a caixa vai custar, já está nas lojas brasileiras uma edição dupla em CD, um com o álbum original e alguns bônus e o outro com raridades. O CD 2 é indicado para colecionadores, mas o principal, que é a nova mixagem do álbum original, vale cada centavo, já que realça a sonoridade inovadora e complexa de uma das obras mais importantes do rock progressivo
sexta-feira, janeiro 20, 2012
O Black Sabbath voltou mesmo
Todo mundo já sabia. Por mais que tentassem, os integrantes do Black Sabbath e os empresários envolvidos não conseguiram ocultar o motivo do anúncio oficial feito em Los Angeles, nos Estados Unidos. O site oficial do Black Sabbath anunciou a reunião da formação original, um álbum com inéditas produzido por Rick Rubin (o primeiro em 33 anos), uma data no Download Festival (10 de junho de 2012) e uma tour mundial em seguida.
Uma coletiva era aguardada na casa de shows Whisky A Go-Go (onde a banda fez seu primeiro show nos Estados Unidos na década de 70. Com apresentação de Henry Rollins, os integrantes – Tony Iommi (guitarra), Ozzy Osbourne (vocal), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) responderam a uma série de perguntas. “Era agora ou nunca, de verdade. Temos ótima música para tocar,”, disse Iommi, com emenda de Ozzy: “Estava na hora.”
Os boatos de reunião começaram a ficar mais intensos no primeiro semestre com o surgimento de informações de reuniões entre empresários dos integrantes do Black Sabbath na Inglaterra.
O assunto cresceu em julho, quando um repórter do jornal Birmingham Post, inadvertidamente, divulgou parte do conteúdo de uma conversa que tebe com Tony Iommi, onde o guitarrista teria confirmado que as conversas para a reunião estavam adiantadas e que a banda já teria se reunido pelo menos uma vez em Birmingham, a cidade natal dos quatro músicos.
Iommi protestou contra a divulgação não autorizada do conteúdo e disse que tinha sido traído. Tentou negar que haveria a volta do Black Sabbath, meio sem convicção, assim como disse que as informações do Birmingham Post não eram verdadeiras, embora não tinha dito claramente que nada existia em torno da suposta reunião da banda.
O jornalista, por sua vez, preferiu o silêncio em vez de publicar com detalhes e e forma completa o que sabia – afinal, foi desqualificado por Iommi e chamado de mentiroso por leitores e agentes do próprio Black Sabbath. Diante da falta de confirmação, a suposta volta do quarteto foi tratada como um boato por quatro meses – o que realmente era até o anúncio oficial de hoje.
Uma das maiores bandas da história
A volta do Black Sabbath é uma boa ideia? Talvez, embora não seja possível dissociar essa volta como a de tantas outras no mercado musical. Há a desconfiança de que se trata de mais um negócio caça-níqueis, exatamente como ocorreu em 1997, quando a “volta” da formação original ocorreu pela primeira vez – haveria uma segunda, em 2004.
O fato é que Iommi e Geezer sofreram um duro golpe com a doença e a morte de Ronnie James Dio no ano passado, vítima de câncer. O Heaven and Hell, banda intergada pelos três e que recuperava a força do Black Sabbath da época de 1980 a 1983, era um grande sucesso e mostrou que tinha muito a dar com o lançamento de “The Devil You Know” em 2008, o excelente álbum de inéditas e que fez muito sucesso.
O fim do Heaven and Hell obrigou Iommi a reativar a ideia de retorno do Black Sabbath original, embora não fosse entusiasta da ideia pelo menos até o final do ano passado. O caráter caça-níquel só vai arrefecer quando for lançado o álbum de músicas inéditas – e ainda assim se for um trabalho de qualidade.
terça-feira, janeiro 17, 2012
Contra fraudes, cheque terá data de impressão nas folhas
Boa notícia para quem tem medo de usar cheques por conta das constantes fraudes. Todas as folhas de cheque deverão trazer a data de impressão, de acordo com norma do Conselho Monetário Nacional (CMN). Estudo do Banco Central (BC) aponta maior frequência de fraudes acontecem em folhas com mais de um ano.
A medida vem em boa hora, mesmo com os comerciantes ainda aceitando cheques sem a data ou com data antiga. Existem empresários que estão reclamando que a nova regra pode restringir mais esta forma de pagamento. No entanto, especialistas acreditam que isso não deverá ocorrer. Com base na data impressa, lojista vai analisar caso a caso – se ele tem um cliente conhecido, mesmo que apareça com cheque antigo, poderá continuar aceitando.
O problema é que o Procon tem um entendimento confuso e contraditório sobre o assunto. Diz que as lojas não podem recusar um cheque pelo fato de ser antigo, embora tenham o direito de não aceitar essa forma de pagamento no estabelecimento.
Muita gente pensa que o cheque desapareceu, mas é apenas uma impressão. O uso do cheque ainda é representativo, tanto que de 2005 a 2010, o valor médio das transações aumentou 79,74% de R$ 558 para R$ 1.003, segundo o Banco Central.
A norma que começa a valer hoje faz parte de uma regulamentação dividida em três fases. Uma começou a valer no início do ano, que obriga o portador fazer um boletim de ocorrência do talão em caso de perda e dá a ele o direito de rastrear a folha em contato com o banco, se o beneficiário permitir. Em abril do ano que vem, entra no ar o site Cheque Legal, no qual, qualquer pessoa poderá ter acesso a informações como bloqueio judicial, roubo ou encerramento de conta.
sábado, janeiro 14, 2012
Deep Purple lança obras com orquestra em Montreux
Na recente passagem pelo Brasil, neste mês de outubro, o vocalista do Deep Purple, Ian Gillan, disse mais de uma vez que não havia nada programado nos próximos anos em relação a um novo álbum da banda, mas que o próximo projeto seria o lançamento de (mais) um CD ao vivo, acompanhado por um DVD.
Pois a banda acaba de colocar no mercado dois grandes lançamentos. O primeiro é “Deep Purple and Orchestra – Live in Montreux 2011”, em CD duplo e DVD, com o registro deste ano no famoso festival suíço – que ainda preserva o jazz no nome, mas aceita de tudo faz muito tempo.
Será o quarto álbum ao vivo gravado em Montreux pelo Deep Purple. Segundo o próprio Gillan declarou ao jornal o Estado de S. Paulo, este concerto de 2011 difere daquele de 2000, quando a banda reeditou o clássico álbum “Concert for Group and Orchestra”. “Rodamos pela América do Norte e alguns países da Europa com uma orquestra mais enxuta, com outro conceito de arranjos e outra dinâmica. Acho que o resultado foi bem interessante.”
Para Gillan, o ponto alto da turnê foi justamente a apresentação em Montreux, onde Deep Purple e a orquestra mostraram-se mais entrosados e afiados, “em um palco que é praticamente nosso, é a nossa casa”.
O resultado é soberbo. Os arranjos elaborados de forma primorosa e a atuação irrepreensível da banda mostram que o Deep Purple ainda está longe de pendurar as chuteiras. Se Ian Gillan não tem mais a grande voz que o tornou um ídolo do rock – e infelizmente isso fica claro que clássicos como “Strange Kind of Woman” e “Perfect Strangers” -, se tornou um bom crooner e mestre de cerimônias, sem que isso soe pejorativo. Afinal, o mestre tem 66 anos e usou sua voz das melhor forma que podia em 47 anos de carreira.
O pacote ainda traz no DVD entrevistas com integrantes e os organizadores do festival, bastidores de shows e um pequeno documentário sobre as participações do Deep Purple em Montreux.
O segundo lançamento é “BBC Sessions – 1968-1970”, trazendo gravações de shows e de apresentações nos estúdios da famosa emissora de rádio e TV da Inglaterra. As gravações são interessantes porque mostram finalmente a primeira formação do grupo ao vivo. Fundado em 1967 por Ritchie Blackmore (guitarra), Jon Lord (teclados) e Ian Paice (bateria), o Deep Purple ficou completo no final daquele ano com Rod Evans (vocal) e Nick Simper (baixo).
Esta formação registrou três bons álbuns entre 1968 e 1969 - que tomam todo o CD 1 - mas as gravações ao vivo que sobraram desta época eram muito ruins, apesar de terem virado alguns disputados discos piratas na década de 1970. Outras acabaram sendo editadas em edições limitadas pela própria banda, em produtos direcionados a fanáticos e colecionadores. As gravações da BBC finalmente trazem ao mercado registros ao vivo de boa qualidade daquela época.
Simper e Evans foram demitidos no segundo semestre de 1969 e deram lugar a Ian Gillan (vocal) e Roger Glover (baixo), em um momento no qual o Deep Purple abraça o som pesado e abandona as influências psicodélicas e progressivas dos três primeiros álbuns, que tinham o nítido comando de Lord. Essa fase domina o segundo CD, já trazendo o embrião dos sucessos que estariam nos aclamados álbuns “Fireball” e “In Rock”.
São duas obras essenciais para quem gosta de classic rock da mais alta qualidade – e de música muito, mas muito bem feita.
terça-feira, janeiro 10, 2012
George Harrison, o gênio injustiçado dos anos 60
George Harrison foi um artista discreto, mas jamais ingênuo, como às vezes alguns biógrafos dos Beatles tentam passar. Tímido sim, mas silencioso não. Nunca reclamou por ser o músico injustiçado enquanto os Beatles existiram, mas sempre se posicionou firmemente quando questionado sobre sua contribuição para a banda e sobre a qualidade de suas músicas.
Se o marketing não era o seu forte, por outro lado tinha a convicção forte de que sua obra falava por si. Desde o primeiro álbum solo, o triplo “All Things Must Pass”, de 1971, até as músicas mais pop, como “When We Was Fab”, “All Those Years Ago” e “Got My Mind Set On You”, o guitarrista sempre deixou que o som ressaltasse a sua genialidade e a sua técnica incomum de execução do instrumento.
Ao mesmo tempo, desde o início se mostrou bem mais atento à cena musical do que os colegas de Beatles. Enquanto Paul McCartney se deslumbrava com a cena multicultural de Londres nos anos 60 e John Lennon flertava com o cinema, pelas mãos do diretor Richard Lester (que dirigiu “A Hard Day’s Night” e “Help”), George preferia ficar à espreita do que tocava no rádio.
Não teve dúvidas em indicar os Rolling Stones para a Decca Records no comecinho de 1963 – a mesma gravadora que recusara os Beatles no ano anterior; foi o primeiro a falar publicamente das qualidades das canções dos Kinks e da fúria dos Who, ainda em 1965; ficou muito amigo de Eric Clapton, amizade que durou até o fim de sua vida; seguia todos os passos de Jimi Hendrix, ajudado pelos relatos do amigo Clapton; se não se entusiasmou com o que viu e ouviu, pelo menos teve o interesse de conferir os trabalhos de Steve Winwood na época de Spencer Davis Group e o Pink Floyd; e já na década de 80 não se importou em ser apenas mais um nos Travelling Wilburys, supergrupo que formou ao lado de Roy Orbison, Jeff Lynne (Electric Light Orcgestra), Tom Petty e Bob Dylan.
Era evidente a sua desvantagem na competição interna para impor suas músicas e suas ideias dentro dos Beatles. Mesmo quando as evidências apontavam para que tivesse mais espaço, pouco fez ou poucas oportunidades teve para mostrar que era tão prolífico e competente na composição quanto Lennon e McCartney. “All Things Must Pass” é a maior prova disso. Perderas os Beatles, perdemos nós.
Harrison morreu há exatos dez anos em Los Angeles, vítima de câncer. Seu legado é estupendo em qualquer aspecto que for analisado.
sexta-feira, janeiro 06, 2012
O fantasma dos reajustes de mensalidades escolares
Os pais devem preparar o bolso para o ano que vem. O reajuste das mensalidades escolares pode chegar a quase 20% em 2012, bem acima da inflação medida pelo IPCA, calculado pelo IBGE, que no acumulado dos últimos 12 meses ficou em 6,97%. O problema é antigo, vem desde os anos 70, mas nem governo nem o setor conseguiram encontrar um mecanismo justo e transparente para justificar as discrepâncias na hora de definir o valor mensal.
Os argumentos são bastante variados. Passam pelo “aumento da carga horária e a implementação de algumas disciplinas” – inglês na educação infantil até o 5.º ano e redação e geometria de 6.º ao 9.º ano explicam o reajuste em uma importante instituição da zona sul de São Paulo. Há, entre as escolas, aumentos diferentes em cada etapa de ensino. A justificativa mais comum entre elas são os gastos com salários.
Há até explicações financeiras para justificar o aumento. Uma escola da zona oeste paulistana informou ao jornal O Estado de S. Paulo que “cerca de 85% da receita vai para a folha de pagamento”. A mesma escola também inclui na conta “investimentos em tecnologia, que pesam no orçamento”. Há colégios que já usam tablets em suas aulas, mas assim mesmo o equipamento entra no cálculo para as mensalidades de 2012.
Para o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), os reajustes das escolas consultadas está acima da média. “Índices de 12% a 15% são bem acima do que prevemos”, diz José Augusto Lourenço, vice-presidente da entidade, aos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Ele havia previsto aumentos de 8% a 10%. Lourenço acredita que as escolas que não subirem as mensalidades em pelo menos 10% podem ter prejuízos em 2012.
A questão é que esta é uma batalha inglória para o consumidor. Um grupo de pais que têm filhos em uma escolha de Alphaville, em Barueri, decidiu entrar na Justiça contra um reajuste de 20%. A iniciativa, divulgada pela TV, pode se repetir em outras escolas, mas a insegurança em relação a isso continua.
O Procon-SP costuma atuar na mediação de conflitos parecidos e até mesmo orienta os pais em casos flagrantes de reajustes abusivos. O órgão até sugere que os clientes têm direito a checar as planilhas de custos das ecolas para que possam comprovar a veracidade os argumentos das empresas para reajustar. Na prática, é um milagre convencer os proprietários e mantenedores a abrirem seus caixas. Sendo assim, resta apenas torcer para que a conta não fique muito salgada.
terça-feira, janeiro 03, 2012
“Tommy”, a maior obra de Ken Russell
A morte do cineasta inglês Ken Russell, no final de novembro, aos 84 anos, foi registrada protocolarmente pela imprensa internacional e mais ainda pela brasileira. Mas, por incrível que pareça, o único grande veículo que tratou a notícia com o devido respeito e que mencionou o seu principal trabalho, a versão cinematográfica da ópera-rock “Tommy”, do Who, foi a TV Globo, no Jornal Nacional e no Jornal da Globo.
Sites, jornais e revistas citaram várias obras importantes de Russell, mas ignoraram a principal.
“Tommy”, filmado a partir do final de 1974 e lançado em 1975, lançou as bases de como fazer um filme musical baseado em rock sem ficar preso a conceitos engessados do estilo norte-americano – ou cair no extremo oposto, o da chatice de “Hair”, que segue, em grande parte, um modelo calcado na Broadway, mais teatral e menos visual.
A obra-prima do Who, com o conceito elaborado pelo guitarrista Pete Townshend, que também compôs 90% do álbum duplo, foi totalmente absorvido pelo visionário Russell, que não hesitou em colocar astros de rock para estrelar o filme. Roger Daltrey, cantor do Who, fez o papel principal, o do garoto cego, surdo e mudo traumatizado pelo assassinato do amante da mãe pelo pai supostamente morto e que, após um milagre, vira um astro do fliperama (pinball) e líder religioso.
Eric Clapton aparece cantando a faixa “Eyesight to the Blind” no papel de um pregador, tendo os outros três integrantes do Who como “banda de apoio” e assistentes. Keith Moon, o baterista da banda, aparece como o tio Ernie, cruel e mau. Tina Turner deu um show como a prostituta Acid Queen na faixa homônima, e Elton John se destacou mais ainda como o desafiante de Tommy no campeonato de fliperama em “Pinball Wizard”. Para dar segurança nos papéis mais dramáticos, como os pais de Tommy, dois atores consagrados, o inglês Oliver Reed e a sueca radicada nos Estados Unidos Ann-Margret, que não fizeram feio cantando. Jack Nicholson fez uma ponta como um médico.
Capa da obra do grupo inglês
“Tommy” foi um sucesso estrondoso no cinema e influenciou diretamente na estética de “The Wall”, de Alan Parker, lançado em 1982, e “Quadrophenia”, de 1979, também baseada em um álbum duplo do Who.
Ken Russell ainda quebrou outros tabus no cinema europeu, como abusar da linguagem conhecia como pop-art, exagerar deliberadamente na violência e utilizar o nu frontal masculino em um filme. Foi indicado ao Oscar de melhor direção, em 1969, por “Mulheres Apaixonadas”, seu filme mais aclamado até então. “Vamos com Calma”, de 1962, foi citado por outro gênio, Stanley Kubrick (“2001″, “Larana Mecânica”), como uma das suas maiores influências
sábado, dezembro 31, 2011
Cerveja pode ser banida de qualquer tipo de propaganda
Se você é contra o excesso de intervenção do Estado na vida privada, determinando até mesmo onde você pode fumar ou não, então prepare-se para mais um “atentado”: qualquer tipo de publicidade, propaganda ou menção envolvendo marcas de cerveja – incluindo patrocínio de eventos diversos – poderá ser proibido em todo o País.
Isso pode acontecer se o relatório do deputado federal Givaldo Carimbão (PSB-AL) for aprovado pela Comissão Especial de Políticas Públicas de Combate às Drogas da Câmara dos Deputados, no próximo dia 7 de dezembro. Com o aval da Comissão, a proposta será encaminha à presidente Dilma Rousseff, que poderá transformá-la em medida provisória.
Carimbão afirma que fez o relatório a partir de um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): adolescentes estão começando a beber cada vez mais cedo, o que influencia a dependência química e o uso de drogas ilegais. “A Unifesp lançou um livro informando que há anos 20 anos se começava a beber aos 15 anos de idade. Hoje a iniciação começa aos 11. Quem começa a beber antes dos 18 tem cinco vezes mais chance de se tornar um dependente. Como a propaganda incentiva este consumo, concluímos que o fim dela é uma forma de prevenção”, declarou o deputado ao Jornal da Tarde.
O problema é que este assunto não é novo: vetar este tipo de publicidade tem respaldo em todo o País, já que entidades civis, parlamentares locais e órgãos públicos de todos os Estados brasileiros enviaram à comissão pedidos de proibição às propagandas de cervejas, destilados e demais bebidas, baseados nos resultados de audiências públicas realizadas em vários municípios.
O tema divide juristas, mas surpreendentemente há um apoio grande a este tipo de ação. É censura? Para alguns sim, pois interfere no direito do anunciante de oferecer informação, ainda que por meio de publicidade, ao cliente – informação de um produto legalmente autorizado e que pode ser legalmente vendido no Brasil. Também interfere no direito do consumidor de ter acesso a esse tipo de informação sem que tenha de esperar a tutela do Estado para determinar o que ele pode ou não pode ver, o que ele pode ou não saber sobre qualquer produto.
Os defensores da restrição a esse tipo de propaganda – na verdade, veto total – dizem que se trata de uma questão de saúde pública e de prevenção a um vício considerado tão terrível quando o das drogas ilícitas. Debates longos e acalorados não faltarão em 2012.
Além da proibição da publicidade em meios de comunicação e eventos, o relatório propõe outras medidas para reprimir o uso do álcool, como proibir a venda de bebidas alcoólicas em lojas de conveniência em postos de gasolina e colocar alertas dos riscos do consumo exagerado nos rótulos das embalagens, como já acontece com o cigarro. O documento sugere ainda o aumento de impostos sobre a venda de bebidas.
A Companhia de Bebidas das Américas (Ambev), maior cervejaria do Brasil, e a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) não se manifestaram sobre o assunto.
quarta-feira, dezembro 28, 2011
Tocar CD e operar toca-discos não transforma ninguém em artista ou torna alguém músico
Um interessante personagem da vida musical brasileira atual é o músico e produtor cultural Clemente Nascimento, líder da banda Os Inocentes e profissional de múltiplas atividades: toca na sua banda e na atual formação da Plebe Rude, apresenta um programa de TV na internet e arruma tempo para “discotecar” (acho a palavra mais adequada) em algumas casas noturnas – coisa que ele acha bastante divertida.
Essa sua última atividade pode eventualmente lhe rende alguma remuneração, mas é essencialmente uma curtição para quem gosta e vive de música. Mas ele não tem ilusão: é um DJ (disc-jóquei) ocasional. Essencialmente é um músico, mas nas casas noturnas ele não “toca”, ele “discoteca”. São coisas bastante distintas, mas tem gente que insiste em misturar as coisas.
Lembrei de Clemente quando recebi um convite fazer uma atividade semelhante em uma festa em um bar moderninho de São Paulo neste mês de dezembro. Era um convite que necessitava de confirmação posterior, como é comum neste casos. Prevendo o tipo de mico que isso poderia se tornar, não resisti à provocação.
“Você vai ‘tocar’ e fazer a seleção de uma série de músicas legais dos anos 60, essencialmente rock inglês, algumas coisas óbvias e a maioria nem tanto”, disse a simpática amiga de um amigo que agitava a festa. Em seguida ela diz: “Acho que você não vai estranhar ao operar as pick-ups (toca-discos) e toca-CDs múltiplos, vai fazer uma performance legal.”
“Na boa, dá menos trabalho se eu fizer a seleção na minha casa, gravar em um CD ou mídia de DVD para deixar rolar. Ou quem sabe até mesmo um pen drive. Aí todo mundo se diverte. Afinal, DJ não passa de um tocador de disco e de CDs”, emendei sem que ela tivesse tempo de pensar.
É claro que o convite não foi confirmado – e se tivesse sido, teria sido retirado, de tão feia que foi a cara de decepção e até de nojo quando expus o que achava da atividade de DJ. Respeito quem faz isso, quem gosta de discotecar e até quem ganha dinheiro com isso. Entretanto, DJ pode ser qualquer coisa, menos músico. Faz qualquer coisa, menos tocar.
Aparentemente não há muito o que discutir sobre isso, mas há gente que insiste em brigar com os fatos, em espancar e torcer a realidade. Não bastasse essa ridícula confusão de conceitos, a coisa ainda piora: esse mesmo pessoal que acha que DJ “toca” acredita que música eletrônica é música. Não é. É apenas barulho, e dos mais irritantes.
Esse tipo de tosqueira voltou a se proliferar neste século. A quantidade de bares e casas noturnas aumentou muito em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, por exemplo. O mercado ficou bom para os tocadores de CDs (ou MP3, ou vinis, ou qualquer outra coisa).
O lado ruim é que a música eletrônica disseminada pelos tocadores de qualquer coisa voltou com tudo, até porque a tecnologia facilitou demais a produção dos barulhinhos computadorizados. E quem faz essa coisa acha que é artista de verdade.
Os recursos eletrônicos sempre foram levados em consideração a partir do momento em que se inventou o abominável sintetizador, no finalzinho dos anos 60, trambolho barulhento que encantou gente decente como George Harrison (Beatles) e Pete Townshend (The Who).
Quando usado de forma inteligente e criativa, sem abuso, o sintetizador até que foi útil, como nas trilhas sonoras compostas por Harrison e nas obras-primas “Who’s Next” e “Quadrophenia”, do Who. Infelizmente, por outro lado, foi responsável por algumas das maiores porcarias já feitas dentro do rock.
Boa parte dos músicos consagrados e mesmo os de apoio costumam ser diplomáticos ao falar do uso de elementos eletrônicos em seus trabalhos, mas simplesmente ignoram o que conhecemos por música eletrônica, aquele barulho artificial e insuportável das pistas de dança.
Alguns aceitam que produtores criem arranjos com base em barulhos de computador, outros até brincam com os mesmos barulhinhos que os DJs e os incluem de forma discreta em seus trabalhos. Mas são poucos os artistas sérios que realmente fazem uso desses recursos de forma explícita e escancarada.
Dois gigantes do rock cometeram trabalhos péssimos nos últimos 20 anos, seduzidos pela suposta “modernidade”. Eric Clapton escorregou feio com “Pilgrim”, de 1998, CD no qual suas guitarras foram soterradas por arranjos eletrônicos e barulhos artificiais.
Jeff Beck, outro gênio da guitarra, caiu na armadilha e gravou os insuportáveis “Jeff”, de 2001, e “You Had It Coming”, de 2003, sendo que já flertava com o estilo em 1999 no álbum “Who Else!” Beck gostou do resultado de sua ousadia, mas muitos fãs não. O jeito foi voltar ao rock, ao blues e ao jazz para gravar “Emotion & Commotion”, seu último trabalho.
É possível ficar dias e dias colhendo exemplos para torpedear o barulho eletrônico. Quem gosta deste tipo de música se contenta com muito pouco. Isso não é música, e DJ não é músico, é um tocador de CD. No máximo, animador de festa. DJs que acham que são artistas não merecem respeito. São o que são, o que já é demais.
terça-feira, dezembro 20, 2011
Rock pesado em português, uma nova e bem-vinda tendência
Enquanto artistas nacionais que fazem heavy metal em inglês estrebucham contra a suposta falta de público em seus shows – o que rendeu uma patética e rasteira entrevista de Edu Falaschi, cantor do Angra, recheada de palavrões –, começa a ganhar corpo um movimento de bandas que fazem rock pesado em português, apesar do preconceito dos puristas. Entre esses abnegados, as reclamações são poucas, e o público está crescendo ano a ano.
A banda paulistana Carro Bomba desponta, por enquanto, na liderança dos metaleiros que cantam em português. O recém-lançado álbum “Carcaça”, pela Laser Company, traz tudo o que não existe mais quase desaparecido no pop rock nacional: qualidade, espontaneidade e garra.
“Carcaça” é uma pedrada na cabeça do headbanger nacional. Nunca uma banda brasileira que canta em português tinha atingido um peso tão grande nas músicas e tinha alcançado uma timbragem tão forte e limpa nas guitarras, que estão na cara. E tudo isso sem recorrer tanto aos manjados temas de sempre no hard rock brasileiro – mulheres, bebidas, zoeira, bebidas, carros, bebidas, mulheres…
“O som pesado sempre foi a nossa característica, sempre buscamos aprimoramento e pesquisamos novos timbres. ‘Carcaça’ é resultado de muito trabalho em estúdio, mas principalmente também de muita pesquisa para achar exatamente o que queríamos”, diz o baixista Fabrizio Micheloni, um dos fundadores. Estão ainda na formação o vocalista Rogério Fernandes, o guitarrista Marcello Schevano e o bateria Heitor Shewchenko.
Os mineiros do Uganga preferem um som mais moderno e mais calcado no hardcore dos anos 90, apesar dos ecos de clássicos como AC/DC e Motorhead, as principais influências do Carro Bomba. O som pesado era o caminho natural para a banda, que tem em sua formação Manu “Joker” Henriques, ex-baterista da lendária Sarcófago, que teve bastante prestígio no metal dos anos 80. “São mais de 2o anos tocando rock pesado e passando por várias situações. Não dá para ficar reclamando de falta de público. Temos de ralar e trabalhar”, diz o músico.
O Uganga lançou no primeiro semestre o álbum “Vol.3: Caos, Carma e Conceito”, também lançado na Europa, e prepara para 2012 um álbum ao vivo gravado no Razorblade Festival em 2010, na Alemanha. “Nossa primeira turnê internacional, com 18 shows em dez países, mostrou que o rock pesado em português é uma alternativa mais do que válida”, afirma Henriques.
Merecem menção ainda no “movimento” o Baranga (hard rock) e o Muqueta Na Oreia (punk/harcore).
segunda-feira, dezembro 19, 2011
Pink Floyd: obra-prima inspirada em ‘fantasma’
As semanas que antecederam o começo das gravações de Wish You Were Here começaram tensas em meados de 1974. A pressão sobre o baixista e vocalista Roger Waters era enorme por conta do sucesso estrondoso de The Dark Side of the Moon, o álbum anterior, e a gravadora queria uma obra-prima do mesmo calibre.
Em uma tarde, Waters chegou irritadíssimo ao estúdio: as ideias não saíam e o seu Arsenal havia perdido mais uma no Campeonato Inglês no dia anterior. Ele nem percebeu um cara gordinho e careca na recepção, empunhando uma guitarra. Um pouco mais tarde soube que era Syd Barrett, ex-companheiro de Pink Floyd que ficou pelo caminho por distúrbios mentais.
Estava ali para “gravar as suas partes”. Waters chorou ao vê-lo novamente e finalmente conseguiu a inspiração para continuar os trabalhos – a faixa-título de Wish You Were Here e a longa suíte “Shine on You Crazy Diamond” foram inspiradas em Barett.
A nova versão do álbum lançando em 1975, assim como a de The Dark Side of the Moon, melhorou o que já era excelente. As opções Immersion e Experience recolocam a obra em um patamar merecido: um álbum poderoso e versátil, que indicava os novos caminhos do Pink Floyd, que jamais fora um apêndice do multiplatinado antecessor.
Além de todo um tratamento de mixagem e remasterização primoroso, a versão nacional Experience traz um CD extra com raridades e versões ao vivo dos temas presentes em Wish You Were Here.
O destaque é uma versão de Shine On You Crazy Diamond com a participação especial de do violonista de jazz belha Stéphane Grapelli, um dos gênios europeus do gênero. “Não foi barato contratá-lo. Mas, por mais que eu tente, não sei o porquê de não termos usado essa versão”, disse recentemente o baterista da banda. Nick Mason.
sexta-feira, dezembro 16, 2011
As verdadeiras divas da atualidade: Beth Hart e Imelda May
O mundo pop só fala de Adele, Beyoncé, Ke$ha, Shakira, Lana del Rey e outras cantoras de voz boa e repertório péssimo. Sobra pouco espaço para coisa de qualidade com Joss Stone, que ainda consegue resgatar o bom e velho rhythm and blues original.
Então é hora de diversificar e tentar ir mais a fundo no purismo. É hora de ouvir a irlandesa Imelda May e a norte-americana Beth Hart, ilhas de qualidade na escolha do repertório jazzístico e blueseiro sem apelar para clichês e modinhas, muito menos se render a armações modernosas revestidas por elementos eletrônicos.
Imelda May, de 37 anos, hoje é a mais nova queridinha do gênio da guitarra Jeff Beck. Ela empresta a sua voz para o grande pacote DVD/CD “Rock’n Roll Party”, gravado ao vivo em 2010 nos Estados Unidos durante homenagem ao músico/luthier/empresário Les Paul.
Transitando entre o rock básico, o rockabilly, o country e o blues, a moça acaba de lançar o estupendo “More Mayhem”, uma coleção fantástica de standards e canções delicadas e acessíveis, transitando entre o tradicional e o festeiro. “Pulling the Rug”, que abre o disco, dá a tônica de todo o álbum.
Já Beth Hart, dois anos mais velha, tem uma carreira mais antiga no pop rock e no folk americanos, mas começou a ganhar reconhecimento somente na década passada. Seu grande sucesso até o momento é “LA Song (Out of This Town)”, que foi trilha sonora de um episódio da 10ª temporada do seriado “Beverly Hills 90210”.
Entretanto, foi o blues que catapultou o nome da cantora em 2011, junto com a guitarra excelente do compatriota Joe Bonamassa. “Don’t Explain” é o álbum que a dupla lançou no meio deste ano e que surpreendentemente teve um aceitação bem acima do esperado nas paradas tradicionais de sucessos. A parceria começou no álbum “Dust Bowl”, do guitarrista, lançado no primeiro semestre, na ótima faixa “”No Love On The Street”.
Bonamassa, que é artista solo e guitarrista do supergrupo Black Country Communion (ao lado do baixista e vocalista Glenn Hughes, ex-Black Sabbath e Deep Purple), selecionou ao lado de Hart um punhado de clássicos e pancadas do blues e lhes conferiu um tratamento respeitoso e reverenciado, mas sem despencar nos clichês do gênero. “Sinner’s Prayer” e o clássico “I’d Rather Go Blind” já valem o CD.
E o mais curioso é que a excelente cantora esteve no Brasil duas vezes no primeiro semestre e passou quase anônima. Se não fosse uma aparição bem descontraída na TV Gazeta de São Paulo, no programa “Eu e Você”, de Ronnie Von, ninguém saberia de sua rápida passagem por aqui. Que não demore muito para voltar.
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Compras virtuais: cuidado para não estragar o seu Natal
Você ainda pretende fazer comprar virtuais? Então é bom ficar alerta com a campanha que os órgão de defesa do consumidor estão iniciando ao comércio pela internet neste Natal. As empresas de comércio virtual então entre as que mais têm registros de reclamações nos Procons do Brasil – e geralmente os problemas nas entregas pioram a partir de dezembro devido o alto volume de vendas.
Somente a B2W, que administra os sites Americanas.com, Shoptime e Submarino, teve quase 20 mil queixas registradas entre 1º de outubro de 2010 e 30 de setembro de 2011, número corresponde a 4,72% do total de demandas recebidas no período pelo Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec), que integra Procons de 23 estados e do Distrito Federal. A Ricardo Eletro (que também atua no comércio eletrônico) aparece logo atrás (com 3,64% dos atendimentos), seguida pelo Ponto Frio (3,63%).
Os problemas com entrega representam 23,32% das reclamações sobre produtos nos Procons do país (com 102.788 queixas). E, mesmo quando o produto é entregue, às vezes já chega com vícios e defeitos – causa de 99.428 reclamações nos Procons (22,56%do total).
Esse cenário revela uma realidade aterradora: a grande quantidade de reclamações sobre entrega no comércio eletrônico é sintoma de um problema crônico de quebra de confiança. Não basta vender com comodidade, tem de entregar os produtos, montar, dar segurança no pós-venda, dizem os especialistas em defesa do consumidor.
Repórteres do Grupo Estado procuraram as empresas mais reclamadas para entender os motivos de tantas queixas – e o que está sendo feito para amenizar os problemas. As empresas B2W e Ricardo Eletro não responderam.
O Pontofrio.com informa que “promove melhorias constantes em sua operação para garantir o pleno atendimento e a satisfação dos seus clientes e reduzir o índice de queixas no Sindec, a exemplo de que vem verificando em suas auditorias internas”. A empresa ainda informa em nota que “continuará firme em seu propósito de proporcionar a melhor experiência de compra ao seu cliente e reafirma seu compromisso com os consumidores e órgãos de Defesa do Consumidor”.
O comércio virtual no Brasil ainda não é confiável e muito menos profissional. Falta fiscalização e falta rigos na punição às empresas que lidam com esse tipo negócio. Você ainda quer comprar pela internet?
Fundamentos do ateísmo
Hélio Schwartsman
Já que dois amigos meus, Ives Gandra Martins e Daniel Sottomaior, se engalfinharam em polêmica acerca de um suposto fundamentalismo ateu, aproveito para meter o bedelho nessa intrigante questão. Como não poderia deixar de ser, minha posição é bem mais próxima da de Daniel que da de Ives.
Não se pode chamar de fundamentalista quem exige provas antes de crer. Aqui, o alcance do ceticismo é dado de antemão: a dúvida vai até o surgimento de evidências fortes, as quais, em 2.000 anos de cristianismo, ainda não apareceram.
Ao contrário, dogmas vão contra tudo o que sabemos sobre o mundo. Virgens não costumam dar à luz e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar vinho em sangue seria internado. Quando se trata de religião, porém, aceitamos violações à física e à lógica. Por quê?
Ou Deus existe e espera de nós atitudes exóticas -e inconsistentes de uma fé para outra-, ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas esquisitas no modo religioso.
Fico com a segunda hipótese. Corrobora-a um número crescente de cientistas que descrevem a religiosidade ou sua ausência como estilos cognitivos diversos. Ateus privilegiam a ciência e a lógica, ao passo que crentes dão mais ênfase a suas intuições, que estão sempre a buscar padrões e a criar agentes.
Posta nesses termos, fé e ceticismo se tornam um amálgama de influências genéticas e culturais difícil de destrinchar -e de modificar.
Como bom ateu liberal, aplaudo avanços no secularismo, já que contrabalançam o lado exclusivista das religiões, que não raro degenera em violência e obscurantismo. Mas, ao contrário de colegas mais veementes, acho que a religião, a exemplo do que se dá com filatelia, literatura e sexo, pode, se bem usada, ser fonte legítima de bem-estar e prazer.
**Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo, na edição de 10 de dezembro de 2011