Espaço coordenado pelo jornalista paulistano Marcelo Moreira para trocas de idéias, de preferência estapafúrdias, e preferencialmente sobre música, esportes, política e economia, com muita pretensão e indignação.
terça-feira, fevereiro 04, 2014
O brasileiro não gosta de futebol, mas admira os 'organizados'
Os brasileiros deixaram de gostar de futebol a partir do momento em que começaram levar o esporte a sério demais e começaram a se "organizar" para ver um jogo, "defender" o seu time e de "defender" dos "inimigos". Hoje o torcedor brasileiro não gosta de futebol, no máximo gosta de seu clube. E deixou que o futebol/seu clube influencie o seu comportamento no dia a dia e no relacionamento com a sociedade. Essa é apenas parte da explicação do como é possível cidadãos comuns, a maioria moleques, ameaçarem de agressão e todo tipo de violência jogadores de futebol do Corinthians pelas redes sociais - aconteceu nos últimos anos com jogadores do Palmeiras, do São Paulo, do Flamengo, do Fluminense, do Atlético-MG...
Quando é necessário se "organizar" para torcer para um time ou ir a um estádio de futebol é porque o esporte é o menos importa neste caso. Acabou a diversão, acabou o lazer e acabou a segurança. Hoje os clubes se tornaram a razão da existência (e sobrevivência) de certas pessoas, ou certos grupos de pessoas, geralmente desequilibradas e carentes. E no vale-tudo das disputas em campo e nas discussões fora dele, o grito e o tapa passou a ser o comportamento "normal", transformando o futebol numa arena onde preconceitos, violência e desrespeitos de todo os tipos não só são tolerados como aceitos e incentivados. Não bastam mais xingamentos, zoeiras e cantorias contra os rivais/inimigos. Hoje é necessário solapá-los nas arquibancadas e nas ruas do entorno, como se a aniquilação do divergente fosse a única coisa que importasse, tornando o jogo e seu resultado secundário e desimportante.
A "organização" dos torcedores se tornou uma forma de sistematizar as frustrações e derrota do dia a dia, das dificuldades de melhorar a vida - sua e dos outros - e da incapacidade de muitos de lidar com a contrariedade e com a "oposição", seja ela qual for. Com o tempo, a "organização" ficou cada vez mais "organizada", com cara de fraternidade, de gueto, de máfia, de "grupo de elite".
Os "organizados" começaram a sentir mais "organizados" dos que os outros, mais "iguais" dos que os outros e começaram a ser invejados e admirados por quem não tolera o fracasso mas era incapaz de tomar atitudes. Na falta de objetivos, de inteligência e de educação, apostaram em um "elitismo" e em um "exclusivismo" baseados na intimidação e na força para garantir alguma "dose de sucesso" ao um grupo de personagens obtusos e solitários em busca de aceitação, qualquer aceitação. Os "organizados" acolheram os desgarrados oferecendo irmandade, solidariedade e apoio, mas exigindo obediência fanática e fascista, ao mesmo tempo em que a atividade "organizada" da torcida começava a ser lucrativa (para poucos) em termos financeiros, políticos e até sociais.
E não é que esse comportamento de grupo começou a despertar simpatia dos torcedores comuns, aqueles que se sentiam orgulhosos porque a "Mancha", a "Gaviões", a "Jovem" e da "Independente" foram lá "arrepiaram" os caras, defendendo as nossas cores, queimando faixas, espancando inimigos e ocupando espaços nas arquibancadas?
O apelo é forte para a molecada, que vê poder e invencibilidade nas "ações" das torcidas organizadas, que desde muito cedo começou a adotar táticas de guerrilha para enfrentar "inimigos" e até mesmo para organizar uma simples ida a uma partida no interior. E ao sentimento de poder junta-se ao de aventura, algo tão caro a uma juventude cada vez mais desassistida pelo Estado e que encontra cada vez menos estímulo nas escolas ou mesmo na família ou clubes de bairro. E aventura para essa molecada inconsequente é bater nos "caras", "colocar eles para correr" e "apedrejar os ônibus deles".
E tudo fica cada vez mais insuportável quando essa gente se torna alvo de gozações por conta dos "mercenários e bandidos" que não tiveram raça e que perderam feio para o maior rival. quando isso acontece, não basta mais aniquilar o inimigo de arquibancada, espancando-o e dizimando-o. É necessário punir os "covardes" e "incompetentes" que perderam em campo; é preciso castigar os responsáveis por "todos os males" da face da Terra, a origem de todas as chacotas e do martírio que é acordar no dia seguinte com o 5 a 1 na cabeça.
Como encarar o trabalho e a escola e o padeiro e o motorista de ônibus sem ter a mínima oportunidade de incinerá-los vivos somente por causa do sorriso irônico ou pelo simples fato de torcer pelo verde, pelo preto e branco ou pelo azul ou pelo tricolor? Se não dá para matar todo mundo pela frente, então que pelo menos possamos quebrar as pernas de patos e "sheiks" da vida, que pelo menos espanquemos zagueiros mais preocupados com bom senso do que em dividir a bola e quebrar o atacante adversário.
E quem imaginou que tais comportamentos geraria repulsa nos torcedores comuns se enganou. As redes sociais, com sua covardia intrínseca, se tornaram um palco apropriado para ameaças de todos os tipos contra jogadores e adversários, com estudantes, trabalhadores, profissionais liberais e gente comum apoiando a "pressão" exercida contra os futebolistas - e que exaltam os "organizados" nos dias seguintes aos confrontos violentos entre torcidas que resultam em mortes. É possível que essa gente, que é parte expressiva dos supostos apreciadores de futebol no Brasil, goste realmente do esporte? Brasileiro não gosta de futebol; no máximo, gosta do seu time, e olhe lá. Não precisamos, nunca precisamos e jamais precisaremos de torcidas organizadas. Ou elas se tornam coisas de "gente civilizada", ou que sejam tratadas como quadrilhas de crime organizado até que desapareçam.
Alguns fatos que jamais veremos novamente, infelizmente:
- 6 de março de 1958, o maior jogo de futebol de todos os tempos: Santos 7 x 6 Palmeiras, no Pacaembu, pelo torneio Rio-São Paulo. Primeiro tempo, Santos 5 x 2. aos 35 min do segundo tempo, Palmeiras 6 x 5 Santos, com virada santista nos últimos dez minutos. Sem divisão de torcedores, palmeirenses e santistas vibram e comentam com o adversário sentado ao lado como o futebol é legal. Palmeirenses aplaudem muito ao final do jogo os dois times, mas principalmente os jogadores santistas, pela forma com que atuaram. Nas ruas, parecia que os dois times tinham vencido. Um jovem de 17 anos chegou em casa, na Vila Mariana, sorrindo e feliz, para encontrar o pai emburrado. "Perdemos um jogo que estava ganho. Como você pode estar feliz?" "Pai, vá dormir e tenha certeza de que ninguém perdeu no Pacaembu. Gostaria que tivesse visto o que vi, e o senhor entenderia."
- Maracanã, finais dos mundiais de clubes de 1962 e 1963, com o Santos vencendo as duas: cariocas, mineiros e paulistas lotam o estádio do Rio para torcer pelo Peixe. Em São Paulo, onde houvesse um rádio transmitindo o jogo havia aglomeração, com torcedores de todos os times apoiando o Santos.
- 25 de abril de 1971, Corinthians 4 x 3 Palmeiras, Morumbi: Palmeiras abre 2 a 0 e sofre a virada. O Corinthians renasce após período péssimo. TUP e Gaviões já existiam, mas como grupo de torcedores. As gozações existiram, mas o que mais se ouviu ao final de jogo foram elogios ao espetáculo. Se havia dúvidas de que o Corinthians estava vivo, elas tinham acabado - para alívio dos palmeirenses que gostam de futebol.
- 12 de outubro de 1974, São Paulo 2 x 1 Independiente, primeiro jogo da final da Libertadores daquele ano: torcedores de Santos, Palmeiras, Corinthians e Portuguesa foram ao estádio, inclusive com bandeiras de seus times, para apoiar o tricolor, que acabaria perdendo o título.
Por outro lado...
- Meados de 1979: primeiros registros de confrontos mais sérios entre membros da Gaviões e a TUP nas imediações do Morumbi após clássicos. Era o auge da divisão das torcidas no anel superior do Morumbi, instituída em 1977 diante do aumento de brigas nas numeradas e nas arquibancadas durante os clássicos.
- Setembro de 1981: torcedores do Corinthians que iam ao Morumbi encontram três grupos de palmeirenses a caminho de Campinas no Vale do Anhangabaú. Na briga campal que ocorre, cinco ônibus da CMTC são apedrejados e quatro policiais militares, pelo menos, ficam feridos.
- Meados de 1983: a Mancha Verde surge como dissidência da TUP. Um dos motivos é a aparente letargia diante de supostas agressões cometidas repetidamente por membros da Gaviões e da Camisa 12. Um dos lemas era "vamos proteger os palmeirenses e escorraçar os 'cachorros'". Entre 1985 e 1990 a torcida se orgulhava de ser a mais temida e violenta do país. Logo a Independente, do São Paulo, seguiria pelo mesmo caminho e se orgulharia do "título" nos anos 90.
- Estádios pós-1985: brigas são frequentes e esperadas em grandes clássicos, na capital e até mesmo no interior, onde os ônibus das torcidas se cruzavam indo/voltando. Ir a um clássico se tornou arriscado, e a regra básica era jamais vestir a camisa do seu time, sob risco de apanhar dentro e fora do estádio. As mortes passam ser frequentes nas imediações e nas periferias. Na era da internet, as batalhas são combinadas e marcadas por meio de redes sociais. Efetivos policiais aumentam cada vez mais e as rivalidades ultrapassam as fronteiras estaduais; palmeirenses querem matar flamenguistas, vascaínos querem assassinar corintianos, que são odiados por gremistas, que querem pegar palmeirenses, que têm rixa mortal com cruzeirenses e torcedores do Sport, enquanto pontepretanos querem massacrar torcedores do Guarani e do Paulista, que também se odeiam...
Não creio que o brasileiro goste de futebol...
sexta-feira, janeiro 03, 2014
Pesquisa investiga mudanças no jornalismo e no perfil do jornalista
Jussara Mangini
Agência FAPESP – As transformações ocorridas nos meios de comunicação, por meio das novas tecnologias e da cultura de convergência midiática, impactaram profundamente os processos de produção do jornalismo e, consequentemente, o perfil do jornalista. A conclusão é de uma pesquisa que avaliou o perfil do jornalista e as mudanças em trabalho.
“Os produtos jornalísticos impressos, televisivos ou radiofônicos são feitos de maneira completamente diferente do que há cerca de 20 anos”, disse Roseli Fígaro, coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).
Responsável pela pesquisa “O perfil do jornalista e os discursos sobre o jornalismo: um estudo das mudanças no mundo do trabalho do jornalista profissional em São Paulo”, que teve apoio da FAPESP, Fígaro destaca que uma série de funções desapareceu da rotina do métier do jornalista.
“O tempo e o espaço, comprimidos pelas possibilidades das tecnologias de comunicação e de informação, foram assimilados nos processos de produção de modo a reduzir o tempo para a reflexão, a apuração e a pesquisa no trabalho jornalístico. O espaço de trabalho encolheu e ao mesmo tempo diversificou-se, transformando as grandes redações em células de produção que podem ser instaladas em qualquer lugar com internet e computador. O jornalismo on-line, em tempo real, os blogs e as ferramentas das redes sociais são inovações nas rotinas profissionais”, disse à Agência FAPESP.
No estudo, concluído em 2013, um grupo de pesquisadores do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, orientado por Fígaro, buscou saber o que essas transformações representam em termos de mudanças no perfil do profissional e o que o jornalista pensa sobre o próprio trabalho e sobre o jornalismo. O trabalho é resultado da análise das respostas de 538 jornalistas. Os dados também estão no e-book As mudanças no mundo do trabalho do jornalista (Editora Salta), lançado no segundo semestre de 2013.
Os 538 jornalistas pesquisados são de São Paulo – estado que abriga mais de 30% dos profissionais brasileiros da categoria – e foram consultados em duas fases metodológicas: a quantitativa, com o uso de um questionário fechado de múltipla escolha, e a qualitativa, com entrevista face a face com roteiro de perguntas abertas, e grupo de discussão, com roteiro dos temas mais polêmicos encontrados pelos instrumentos anteriores.
Quatro grupos amostrais responderam os questionários em diferentes períodos: dois grupos em 2009 – um formado com 30 jornalistas de diferentes mídias e vínculos empregatícios, selecionados de maneira aleatória via rede social, e outro constituído por 340 associados do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, também de diferentes mídias, vínculos e funções.
Um grupo de 90 jornalistas freelancers (sem vínculo empregatício), trabalhando em diferentes mídias, foi consultado em 2010. E um outro grupo de 82 jornalistas de uma grande empresa editorial da capital paulista também compôs a amostra, como fruto de uma pesquisa anterior, realizada em 2007.
Para a fase qualitativa – com entrevista individual de 20 jornalistas e discussão em focus groups, em duas sessões, com 16 jornalistas no total – foram selecionados 36 dos 538 jornalistas que responderam os questionários na fase quantitativa.
De forma geral, a maioria dos jornalistas tem um perfil socioeconômico de classe média, é jovem (até 30 anos), branca, do sexo feminino, não tem filho, atua em multiplataformas e tem curso superior completo e especialização em nível de pós-graduação. Outras características comuns são a carga horária de trabalho – de oito a dez horas por dia – e a faixa salarial de R$ 2 mil a R$ 6 mil.
O predomínio feminino coincide com os dados divulgados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) que, no fim de 2012, registrou que os jornalistas brasileiros eram majoritariamente mulheres brancas, solteiras, com até 30 anos. Apenas no grupo dos sindicalizados, que reúne os profissionais com a faixa etária mais elevada e maior tempo de profissão, observou-se predomínio masculino.
Precarização dos vínculos empregatícios
A reestruturação produtiva ocorrida no mundo do trabalho, principalmente a partir dos anos 1990, transformou as relações de trabalho, afirma a pesquisadora na introdução de seu livro. Foi a partir dessa década que aumentou o número de jornalistas contratados sem registro em carteira profissional, abrindo caminho para novas formas de contratação, como a terceirização, contratos de trabalho por tempo determinado, contrato de pessoa jurídica (PJ), cooperados e freelancers, entre outros.
A chamada “flexibilidade” acaba por transferir aos trabalhadores o peso das incertezas do mercado. “Como mão de obra maleável seja em termos de horário, de jornada de trabalho ou de um vínculo empregatício, esses profissionais não podem planejar suas vidas em termos econômicos nem em termos afetivos”, disse Fígaro.
Os freelancers trabalham em período integral, para vários lugares, sozinhos em casa. Começam a pensar como empreendedores, aplicam os conhecimentos do jornalismo em outras atividades, como na revisão de trabalho acadêmico ou até na venda de pacotes de assessoria de comunicação para políticos.
Os mais jovens e os freelancers são os que menos conseguem planejar sua vida pessoal em relação à profissional fora do curto prazo, de acordo com a pesquisadora. “Trabalham hoje, para consumir hoje e não sabem como será seu trabalho no ano seguinte. Imagino que isso cause grande parte do estresse na vida do indivíduo”, afirmou Fígaro.
A pesquisa também verificou que as novas gerações se sindicalizam menos. Uma possível explicação para isso, segundo Fígaro, é que os profissionais que vivem instabilidade financeira e têm dificuldade em se relacionar com o mundo do trabalho não vislumbram soluções coletivas – como sindicalizar-se ou organizar-se para pleitear melhores condições de trabalho –, mas sempre em saídas individuais como, por exemplo, arrumar mais um emprego.
“Possuem um perfil profissional deslocado de valores coletivos, são individualistas e muito preocupados com o negócio. Vão em busca do cliente e consideram a informação um produto.” Ela ressalta, no entanto, que isso não quer dizer que o jornalista não esteja preocupado com causas da coletividade ou da sociedade, mas que há uma busca individual de soluções.
Os profissionais da área sabem que uma característica comum é a alta rotatividade de emprego: muda-se muito de uma empresa ou veículo de comunicação para outro. Na avaliação de Fígaro, “se por um lado, a experiência pode enriquecer o profissional, por outro é sempre um começar de novo, um novo que não é tão novo, porque se fica no mesmo nível hierárquico”.
De acordo com ela, é exigida hoje do jornalista atualização constante no uso de ferramentas digitais de prospecção, apuração e edição de informações. É fundamental ter habilidades e competências que permitam a atuação em diversas plataformas – impressa, tevê, rádio, internet – e em diferentes linguagens – verbal, escrita, sonora, fotográfica, audiovisual, hipertextual. “Exigem-se ainda noções de marketing e de administração, visto que se prioriza a visão de negócio/mercadoria já inserida no produto cultural, por meio do tratamento dado às pautas e à segmentação de públicos”, disse Fígaro.
Diferenças entre gerações
Enquanto os mais jovens estão fora das redações, em trabalhos precarizados, os mais velhos migram para a coordenação das assessorias de comunicação.
A coordenadora do estudo comentou que há casos muito conflituosos de desrespeito e intolerância tanto em relação ao profissional mais velho, quanto em relação ao jovem muito tecnológico, sem experiência. “As empresas, no afã de mudar sua cultura e dinamizar os interesses de seu negócio, quebram uma regra muito importante no mundo do trabalho: a transferência de saberes profissionais de uma geração para outra. Isso traz danos não só para a empresa, mas para toda a sociedade. Há um custo social a pagar por isso”, avaliou Fígaro.
Há diferença entre o que significa ser um bom jornalista hoje em relação a 20 anos atrás? “Jornalistas trabalham com os discursos da sociedade. Devem, portanto, compreender as implicações disso: discurso é produção de sentido; e produção de sentido é tomar posição, é editar o mundo e disponibilizar essa edição para quem estiver interessado nela.”
De acordo com a pesquisadora, hoje é preciso maior destreza com tecnologias que não existiam. Os jornalistas tinham menor destreza anteriormente? Não, na opinião de Fígaro. “Ser multitarefa e multiplataforma são exigências que colocam em ação habilidades humanas diferentes; e trazem implicações profissionais diferentes.”
Sob esse aspecto, os profissionais apresentam no discurso preocupação com a ética jornalística, com a apuração, com o texto, com a qualidade e a idoneidade das fontes. “Mas eles também têm claro que o tempo da racionalidade produtiva da mídia é o algoz do bom jornalismo. Destaco que esse tempo não é o tempo da vida cotidiana. É o tempo da produção comercial do produto notícia”, ressaltou Fígaro.
Formação profissional
Da amostra total, cerca de 5% não têm ou não concluíram o ensino superior. A absoluta maioria possui nível superior e, em média, 65% deles têm curso de especialização em nível de pós-graduação.
A mudança operacional é tão evidente que os cursos de jornalismo ganharam na última década teor ainda mais técnico-prático e operacional; fato que, na opinião da pesquisadora, não deveria se contrapor à preocupação com a ampla formação cultural e humanística do futuro profissional. “No entanto, é isso que vem acontecendo, inclusive com o aval do cliente/aluno, visto que a maioria dos jornalistas da pesquisa se formou em faculdades privadas.”
Outra característica marcante é que o jornalista começa a trabalhar muito cedo. Antes mesmo de concluir a faculdade, é incentivado a conquistar logo um posto de trabalho na área. Fígaro percebeu que há até um certo desprezo pela faculdade, como se o necessário fosse somente a formação técnica conquistada no âmbito do trabalho. “Essa discussão é complexa. O trabalho nunca é só técnica, norma, prescrição de uma empresa para a produção de determinado produto. Para o trabalho mobiliza-se um conjunto de saberes amplos que vão da gestão de si próprio e suas habilidades, à gestão das normas, dos relacionamentos, das linguagens etc.”
Na avaliação dos pesquisadores, parte dos profissionais da amostra teve uma formação “débil” no que diz respeito à capacidade de inter-relacionar fatos, dados e acontecimentos de maneira contextualizada política, social e historicamente. “Na verdade, é essa capacidade que considero como conhecimento fundamental para o desempenho da profissão”, disse Fígaro.
Produção de conteúdo
Os autores da pesquisa destacam o quanto o processo de seleção, análise e interpretação das informações, que são de fácil acesso hoje, ficou mais complexo e exige maturidade intelectual, profundo compromisso com a ética jornalística e com os fundamentos da produção do discurso jornalístico. Porém, lamentam que “o limite e a separação entre as orientações da redação de um veículo de comunicação e a área comercial da empresa, antes tão fundamentais para a credibilidade do exercício profissional, hoje sequer fazem parte do repertório das novas gerações”.
Os jornalistas da empresa editorial pesquisada consideram os meios de comunicação o negócio mais promissor do mundo globalizado e um negócio como outro qualquer. O grupo de jornalistas selecionado nas redes sociais se divide sobre o papel dos meios de comunicação – para uns, é um instrumento de fazer política, cultura e educação e, para outros, trata-se de um negócio como outro qualquer. Os sindicalizados e os freelancers consideram os meios de comunicação um instrumento de informação, cultura e educação.
No que diz respeito à opinião dos jornalistas sobre o “valor” da informação, apenas os profissionais do grupo dos sindicalizados a veem como um direito do cidadão. Os demais a consideram um produto fundamental da sociedade.
Dessas questões derivam outras em relação ao tipo de jornalismo que o cidadão deseja e daí qual o engajamento profissional necessário. “Está em jogo que tipo de democracia se quer construir, pois o direito à informação é o alicerce de uma sociedade democrática”, disse Fígaro.
Para a pesquisadora, falta a compreensão de que o jornalista é o profissional que trabalha com os discursos das diferentes instituições e agentes sociais para devolvê-los aos cidadãos, de maneira compreensível. “A informação é um direito humano, consagrado pela nossa Constituição e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Hoje, grande parte dos jornalistas encara a informação como uma mercadoria como outra qualquer e, em minha opinião, aí está o problema.”
Consumo cultural
A maioria dos jornalistas pesquisados lê jornais todos os dias; quem menos lê, no entanto, são os freelancers. Todos os grupos afirmam assistir à televisão todos os dias. Parte da mostra também ouve rádio todos os dias. A internet, mais do que outros meios de comunicação ou de comunicação interpessoal, é o meio pelo qual todos ficam sabendo das notícias mais importantes, fazem compras, estudam, trabalham e pesquisam.
Ainda assim, o que o jornalista mais segue nas mídias sociais é a mídia tradicional e grandes veículos de comunicação e a busca, geralmente, está mais ligada ao trabalho do que à obtenção de informação em si.
Todos os grupos gostam de ler, ir ao cinema, boa parte vai ao teatro. Nas horas vagas, alguns vão à academia de ginástica e outros não vão a lugar algum.
Para os autores da pesquisa, o maior crédito que atribuem ao estudo e ao e-book, além dos dados levantados, é provocar nos jornalistas um debate sobre a profissão.
A DOENÇA INFANTIL DO ESQUERDISMO ANTIMÍDIA
Ethevaldo Siqueira
Li Eugênio Bucci no Estadão de hoje e Gabriel Priolli em seu blog. Considero-me amigo de ambos e não tenho por que fazer nenhum ataque pessoal – como é regra geral deste Facebook. Confesso-lhes que me irrita profundamente os ataques sistemáticos que a esquerda brasileira – em especial o PT e seus aliados – faz à chamada “grande mídia”, acusada de ser um partido de oposição ou, pior, de um partido “golpista”.
Bucci diz com grande dose de acerto que, no Brasil, nossa imprensa, “é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político”. Eu acrescentaria: “como em qualquer outro país do mundo”. E perguntaria: “Que esperar da maioria da mídia de um país de economia capitalista? Que fosse de esquerda?”
A rigor, a grande mídia não é “de direita”, do ponto de vista ideológico, mas, sim, “conservadora” – como nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, no Japão e na maioria esmagadora dos países. Nos Estados Unidos, a mídia mais conservadora se alinha aos governos republicanos. A menos conservadora, lá chamada de “liberal” (designação que, nos Estados Unidos, define as posições reformistas e mais à esquerda) apoia majoritariamente os governos democratas, ou seja, do Partido Democrático.
E vale notar que, historicamente, aqueles que sempre se opuseram aos conservadores são chamados de liberais – exatamente no sentido que esses partidos e seus seguidores têm nos EUA ou na Inglaterra. Outra coisa completamente diferente é o liberalismo econômico.
Há no Brasil uma esquerda hidrófoba que realmente destila ódio contra a mídia brasileira e ameaça com frequência submetê-la ao “controle social”. Não considera ainda que as redes sociais da internet – num país com mais de 100 milhões de internautas – começam a ter um peso significativo, embora ainda aos trancos e barrancos, grupos de esquerda e tropas de choque sabidamente pagas para difamar, caluniar e demonizar todos os que denunciam a corrupção nos governos petistas. É claro que há honrosas exceções, entre portais e blogs de qualidade.
Um argumento de Gabriel Priolli é significativo ao dizer que “somente o caso do Cartel do Metrô, falcatrua que envolve valores dez vezes maiores que o Mensalão, (...) está longe de ser tratada como “o maior escândalo de corrupção do pais” – assim como “está longe de ser minimamente noticiada”. Uma coisa não justifica a outra, Gabriel. E um escândalo não se mede pelo valor do dinheiro público desviado. Seja de R$ 150 milhões como o mensalão ou de supostos R$ 900 milhões como o da Siemens-Alstom-PSDB.
O ex-secretário nacional de Justiça do governo Lula, Romeu Tuma Júnior, tem posição mais equilibrada do que a maioria dos petistas e tucanos que eu conheço. Leiam seu livro – Assassinato de Reputações – e reflitam nas acusações que ele faz à politização da Polícia Federal e ao próprio Ministério Público. Essas duas entidades – diz Tuma Jr. – têm alas petistas e tucanas que acabam engavetando denúncias contra medalhões seus líderes, como exatamente, ocorreu no caso do escândalo dos trens paulistas.
Estou terminando de ler o livro de Tuma Jr. Assim que finalizar a leitura, prometo fazer uma resenha sobre seu conteúdo. Antecipo apenas uma opinião de caráter geral a todos aqui: acho que petistas e tucanos devem lê-lo e levar em conta as denúncias, os fatos e as situações vividas pelo policial.
E não estou discutindo as mais desmoralizantes referências que ele faz contra o Barba – apelido de Lula nos tempos do Dops, em que, segundo Tuma, o líder sindical de São Bernardo foi o grande informante da polícia política, nos tempos da ditadura. Acho que a palavra está agora com Lula para defender-se. Não estou discutindo a execução do prefeito Celso Daniel, de Santo André, em 2002 – que Tuminha atribui como estudioso do processo policial ao PT. Aliás é estranho que os petistas honestos – que os há, creio – não busquem a verdade a fundo nesses crimes políticos, da eliminação de Celso Daniel e de Toninho de PT, prefeito de Campinas.
Como se compõe a mídia?
A esquerda não percebe a diversidade da mídia brasileira – que não se compõe apenas de jornais, revistas, rádios e TVs – aí incluídos os maiores veículos, como Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Veja e Época, redes de TV, como Globo, Band, Record, SBT, RBS e outras – mas também revistas como posições muito diferentes, como Carta Capital, e revistas mais governistas como Carta Capital, ou independentes IstoÉ, como Piauí, Brasileiros, e veículos nanicos chapas-brancas, sustentados por partidos de esquerda ou publicidade estatal, como Vermelho, dois blogs famosos de coleguinhas nossos 22 emissoras públicas de TV, estatais, educativas e mais de 3.000 emissoras de rádio com as opiniões mais diversificadas, controladas majoritariamente, por políticos governistas, espalhadas pelo País. Que “pensamento único” poderá unir essa fauna tão diversa?
E notem que as 3.000 emissoras de rádio brasileiro (AM e FM) entram em rede nacional obrigatória toda noite, de segunda a sexta-feira, das 19 às 20 horas (horário de Brasília), no melhor estilo fascista do do Estado Novo, com um programa obrigatório de noticiário puramente chapa branca, governamental, criado em 1935.
Discordo de forma total mas com o maior respeito dos dois últimos parágrafos do artigo de Gabriel Priolli (http://gabrielpriolli.com.br/a-imprensa-de-lado/). Ele diz que “são reais, completamente reais, as bases da cobrança ao “partidarismo” da imprensa.” E nega que se trate “da doença infantil do esquerdismo manifestando-se contra uma valorosa ferramenta da democracia, senão da ressurgência e agravamento da doença crônica do sectarismo na mídia, comprometendo a própria saúde da democracia”.
Quem tem sido mais sectário do que os críticos da mídia, inconformados com a denúncia de corrupção dominante nos governos petistas? Isso é, sim, a doença infantil do esquerdismo, que fecha os olhos a tudo que a mídia diz contra o governo. Prefiro dar mais crédito ao que dizem a ex-petistas, como Hélio Bicudo – o advogado que enfrentou o Esquadrão da Morte. Ou o próprio Eugênio Bucci, que conheceu por dentro os critérios políticos e éticos do governo Lula, na área da comunicação.
Priolli diz que “o Brasil não vai às mil maravilhas, certamente, embora haja muito do que ufanar-se, nas conquistas de anos recentes”. Essa é toda a avaliação do Brasil depois de 12 anos de governos petistas?
Eu gostaria que meu colega e jornalista dissesse que temos os muita corrupção, uma política tributária escorchante que nos leva quase 40% do PIB (equivalente às da Escandinávia) e nos devolve serviços públicos de padrão africano. Uma educação das piores do mundo. Saúde pública que desespera milhões. Transportes públicos que degradam e rebaixam o ser humano ao nível de animais. Segurança pública que apavora o cidadão honesto e trabalhador. Uma burocracia que destrói a competitividade nacional. Precisa mais?
Por que não estudar, não ler, não analisar os dois lados da história, não dizer toda a verdade? Dessa forma, não ficaremos nas mãos da imprensa que “relativiza ou esconde os malfeitos dos opositores dos petistas” – como diz Priolli.
Um de meus desafios a petistas e tucanos é simplesmente este: Vamos apurar a fortuna pessoal de todos os ex-presidentes e ex-governadores? A começar de Collor, Sarney, FHC e Lula. Mas é preciso ir a fundo nessa apuração, inclusive em parentes até terceiro grau e “laranjas” conhecidos?
Vamos exigir a apuração rigorosa de todos os escândalos dos trens paulistas, da fortuna do Lulinha, dos donos do Friboi, do mensalão tucano. Tudo isso para que ninguém contraponha sentenças do STF decididas por maioria, numa corte com 9 ministros escolhidos por governos petistas.
Que tal, amigos. Vamos acabar com essa eterna desculpa de dizer que a culpa é da imprensa, aliás, como todos os governos corruptos fazem? Ou que “eles também fazem o mesmo”. Ou “não roubamos para nosso bolso, mas fizemos apenas caixa-2 para nosso partido, nosso projeto de poder”.
segunda-feira, dezembro 30, 2013
Dos que tanto amam odiar a imprensa
EUGÊNIO BUCCI - O Estado de S.Paulo
Primeiro, eles acusavam a imprensa de ser um "partido de oposição" e pouca gente se incomodou. A acusação era tão absurda que não poderia colar. Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa. Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada. Enfrentar e tentar desmontar a retórica do poder, irritando as autoridades, é um mérito jornalístico. Sendo assim, quando eles, que se julgavam aguerridos defensores do governo Lula, brandiam a tese de que a imprensa era um "partido de oposição", parecia simplesmente que os jornalistas estavam cumprindo o seu dever - e que os apoiadores do poder estavam simplesmente passando recibo. Não havia com o que se preocupar.
Depois, as autoridades subiram o tom. Falavam com agressividade, com rancor. A expressão "partido de oposição" virou um xingamento. Outra vez, quase ninguém de fora da base de apoio ao governo levou a sério. Afinal, os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão não se articulavam nos moldes de um partido: não seguiam um comando centralizado, não se submetiam a uma disciplina tipicamente partidária, não tinham renunciado à função de informar para abraçar o proselitismo panfletário. Portanto, acreditava-se, o xingamento podia ser renitente, mas continuava sendo absurdo.
Se os meios de comunicação tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002. Ali, houve um conluio escandalosamente golpista dos meios de comunicação que, por meio de informações falsificadas, tentou derrubar o presidente Hugo Chávez, eleito democraticamente havia pouco tempo. Por fortuna, a quartelada mediática malogrou ridiculamente. Por escassez de virtú, Chávez passaria todo(s) o(s) seu(s) governo(s) se vingando das emissoras que atentaram contra ele.
No Brasil, não tivemos nada parecido. Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político. Por todos os motivos, a acusação continuava sem pé nem cabeça.
Mas o fato é que começou a colar e o cenário começou a ficar esquisito. Agora, as inspirações até então submersas daquela campanha anti-imprensa afloram com mais nitidez. Era um recurso para dar tônus à disposição dos cabos eleitorais (de muitos níveis), para inflar o ânimo dos militantes de baixo e para inflar o ego dos militantes de cima. Agora, chegamos ao ponto de dizerem que os repórteres deram de ombros para a cocaína encontrada no helicóptero da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG) porque ele, embora esteja filiado a um partido da base governista, teria lá suas inclinações consideradas pouco fiéis. Difícil saber. As mesmas vozes acusam os mesmos repórteres de terem exagerado na cobertura do julgamento do mensalão. Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a "herança maldita" de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa. A tese pode ser doidona, mas está funcionando. Alguns quase festejam: "Viva! Achamos um inimigo para combater! Vamos derrotar os editores de política deste país!".
Deu-se, então, um fenômeno estranhíssimo: as forças instaladas no governo, como que enfadadas do ofício de governar, começaram a fazer oposição à imprensa. Dilma Rousseff jamais embarcou na cantilena, o que deve ser reconhecido e elogiado, mas está cercada de profetas que veem em cada redator, em cada fotojornalista, uma ameaça ao equilíbrio institucional.
A oratória petista depende de ter um antagonista imaginário. Sem isso, parece que não para mais de pé. Sim, temos aí um traço de discurso autoritário. Em todo regime autoritário ou totalitário, a figura mais essencial é a do inimigo. Para os nazistas, esse inimigo estruturante foram os judeus. Para o chavismo, foi o imperialismo, encarnado por Bush, que teria cheiro de enxofre. E mesmo Bush só conseguiu salvar seu mandato do fiasco porque lhe caiu no colo o inimigo chamado terrorismo. É claro que não se pode dizer que o PT atualmente se reduza a um discurso tropegamente autoritário, mas as feições autoritárias e fanatizantes desse discurso vão ganhando densidade a cada dia. Não obstante, está assentado em bases fictícias, completamente fictícias.
Vale frisar este ponto: sem um inimigo para chamar de seu, esse tipo de ossatura ideológica se liquefaz. O que seria dos punhos cerrados dando soquinhos no ar sem o auxílio luxuoso do inimigo imaginário? O que seria dos sonhos de martírio em nome da causa? O que seria das fantasias heroicas e do projeto ambicioso de virar estátua de bronze em praça pública?
Foi aí que a imprensa entrou no credo. Na falta de outra instituição disposta a não se dobrar ao poder, disposta a desconstruir os cenários grandiloquentes armados pelas autoridades, eles encontraram na imprensa a sua razão de viver e de guerrear. Só assim, só com seu inimigo imaginário bem definido, esse discurso encontra seu ponto de equilíbrio: ficar no poder e ao mesmo tempo acreditar - e fazer acreditar - que está na oposição, que combate um mal maior. Seus adeptos, que imaginam odiar a imprensa sem se dar conta de que a temem, agarram-se à luta com sofreguidão. Estão em ponto de bala para o ano eleitoral de 2014.
Mesmo assim, feliz ano-novo.
JORNALISTA, PROFESSOR DA USP
E DA ESPM
sexta-feira, março 29, 2013
Falta clareza e inteligência aos partidários da regulação da mídia
Transcrevo artigo do Sandro Vaia, que está no blog do Noblat:
Quanto riso, quanta alegria no partido de reguladores da mídia: exultam ao citar como exemplo as medidas que a Inglaterra tomou para domar seus tablóides amalucados. E, com o cinismo que os caracteriza, querem usar isso como exemplo de que países democráticos, sim, regulam a mídia e que quem resiste a medidas semelhantes no Brasil é um renitente reacionário.
Esquecem de algumas pequenas diferenças: na Inglaterra, os tablóides (notadamente os de Rupert Murdoch, como o News of The World, que acabou sendo fechado ) usaram métodos criminosos para adulterar ou forjar informações.
O que provocou as reações da sociedade e as medidas anunciadas não foram informações desabonadoras ao governo mas o uso de práticas criminosas.
Noticiar o mensalão, denunciar casos de corrupção e criticar medidas do governo não tem nada a ver com uso de chantagem, espionagem através de grampos ilegais ou extorsão que os tablóides, e mais especificamente o News of The World , foram acusados de praticar.
Delitos são delitos e não consta que a imprensa brasileira esteja sendo acusada de praticar ações criminosas que motivem medidas voluntárias de “regulação” como as que estão sendo adotadas na Grã Bretanha.
O órgão regulador criado na Grã Bretanha é independente, de adesão voluntária, prevê a criação de um código de normas, pedidos de desculpas por eventuais erros publicados e direito de resposta às pessoas que eventualmente sejam envolvidas de forma equivocada no noticiário. Uma solução britanicamente civilizada que não tem nada a ver com vingança rancorosa por diferenças políticas.
Agora leia e compare as medidas britânicas com esse item da proposta encaminhada pela CUT e pela FNDC (Forum Nacional de Democratização da Comunicação) e endossada pelo diretório nacional do PT:
“O FNDC reivindica que este Marco Regulatório leve efetivamente à regulação da mídia, e contenha, também, mecanismos de controle, pela sociedade, do seu conteúdo e da extrapolação de audiência que facilita a existência dos oligopólios da comunicação que desrespeitam a pluralidade e diversidade cultural.
Há alguma dúvida a respeito do que possa significar o pedido de “mecanismos de controle, pela sociedade, do seu conteúdo (...) ? É isso mesmo que está escrito: mecanismos de controle de conteúdo. Por quem ? Por que motivo? Que espécie de controle? Quem decide ou define o que é a sociedade, o que é e como ela pretende controlar conteúdos ? E quais são os conteúdos bons e os maus para ela?
É aí que mora a diferença entre o caso britânico e o caso brasileiro, que os petistas, com ar de inocência, preferem fingir que ignoram.
Como se nós - e Paulo Bernardo,o ministro deles,que sabe muito bem quais são as intenções - fossemos idiotas.
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
Para Cuba, com carinho
Eugenio Bucci *
A visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil, esta semana, mobilizou opiniões de todo tipo. Em Brasília, parlamentares reagiram de modos antagônicos à presença dela no Congresso Nacional. Uns, como o senador petista Eduardo Suplicy, puseram-se de pé para aplaudi-la. Outros torceram o nariz. Representantes de autodenominados "movimentos sociais" esgoelavam-se para xingá-la de "agente da CIA", etc., como já tinham feito no Recife.
Eram reações esperadas, assim como era esperado que Yoani roubasse a cena em todos os noticiários. Simpatizantes do governo cubano, mesmo os de boa-fé, dizem que tudo não passa de propaganda da imprensa burguesa contra o socialismo dos irmãos Castro. Não é bem assim.
Colunista deste jornal, autora do livro De Cuba, com Carinho (Editora Contexto), uma antologia de crônicas em que descreve com acidez e delicadeza o seu cotidiano em Havana, Yoani é uma dessas pessoas que se tornam símbolo de uma causa. Está para a ditadura cubana, hoje, mais ou menos como Nelson Mandela, guardadas as proporções, esteve para o apartheid na África do Sul, tempos atrás. Conquistou notoriedade internacional e foi apontada como uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time.
Os militantes que aqui a hostilizam com ares de fúria deveriam parar para refletir e considerar, ao menos considerar a hipótese de que o interesse público em torno da figura frágil dessa mulher não venha de nenhuma estratégia de propaganda engendrada pelo imperialismo ianque. Não somos todos nós, aqui, cordeiros obedientes do Tio Sam, por mais que tenhamos um dedo de simpatia por Barack Obama (por sinal, é bem pouco provável que o Tio Sam, esteja ele onde estiver, fique preocupado com uma blogueira de Havana).
Yoani Sánchez é notícia não por obra de uma conspiração internacional. Em primeiro lugar, ela é notícia, em boa parte, graças à barulheira de seus detratores, que fazem com que sua passagem por aqui vire um incidente de parar o trânsito. Em segundo lugar, e no que mais importa, ela é notícia porque, em sua saga pessoal, se escancara a grande contradição da qual Cuba nunca soube se libertar. Em Yoani vemos o significado final de mais de meio século da tirania da opinião que tomou conta da ilha. Na história dessa blogueira podemos vislumbrar o que foi feito (e desfeito) das utopias coletivistas que ainda enrijecem a fisionomia da América Latina. Sob qualquer perspectiva, Yoani é notícia. Os seus movimentos interessam a qualquer cidadão que preze a liberdade.
É certo que autocracias existem em toda parte do globo terrestre, enclausurando dissidentes (como em Cuba) e perseguindo homossexuais (os de Cuba chegaram a ser confinados). Por que, então, falar tanto de Cuba e tanto de Yoani Sánchez? Porque essa mulher é a prova viva da promessa libertária não cumprida pelos Castros, uma promessa que seduziu e envolveu, em seu início, algumas das maiores inteligências do nosso continente. Falar de Cuba - e de Yoani - é entender a nossa História.
Aí vêm as acusações conhecidas. Ela recebe fortunas do exterior. Colabora com o imperialismo. Mente. Ora, e daí? Mesmo que isso seja absolutamente verdadeiro, não muda nada. Mesmo que ela não passe de uma embusteira, isso por acaso retira dela o direito de viajar para onde bem entender?
Agora Yoani conseguiu o seu passaporte, mas não foi simples. Foram 20 tentativas frustradas. Ela era uma prisioneira, como muitos de seus conterrâneos são até hoje. O regime castrista, acuado, teve de ceder, teve de outorgar-lhe o documento como se fosse um indulto. Mas até aqui vinha prevalecendo o argumento de que, sob suspeita de ser uma agente provocadora, uma cubana não poderia sair do país. Os militantes que a hostilizam deveriam refletir um pouco: desde quando isso é democracia? Mesmo que Yoani defendesse abertamente os Estados Unidos - o que ela não faz, pois, entre outras coisas, critica o bloqueio imposto por Washington contra Cuba -, por que isso deveria retirar dela o direito de ir e vir? Com base em que princípio dos direitos humanos?
O fato é que a simples existência de Yoani Sánchez desmascara o arbítrio que se fantasia de democracia participativa. A democracia não se resume ao respeito à vontade da maioria (se é que, em Cuba, a maioria apoia mesmo o regime); a democracia exige igual respeito aos direitos da minoria, mesmo que essa minoria não passe de uma só pessoa. O socialismo que cobra seu preço em liberdade não pode ser chamado de igualitário. O socialismo que faz a História girar para trás, que volta no tempo, que adota uma ordem mais repressiva e mais primitiva que a do liberalismo político, não constitui um avanço, como se diz, mas um retrocesso (quase sempre com traços de selvageria). Quando as massas, embriagadas pela crença de que exercem o poder das multidões, marcham para silenciar os desviantes, a serviço de um governo, o que se tem é o germe do totalitarismo, nunca a libertação.
Que agora, no Brasil, alguns jovens tenham tentado, aos berros, impedir Yoani de falar é compreensível. Talvez seja até aceitável. Apesar de deselegante, esse tipo de protesto faz parte do código gestual do embate político (este modesto escrevinhador, quando estudante, já participou de manifestações assim, tentando cassar a palavra das autoridades do governo em solenidades públicas). Mas agora a ilusão que move os manifestantes contra Yoani é mais problemática. Eles tentam suprimir a expressão de uma pessoa comum, para que nela ninguém veja o vazio insuportável do regime político que adotaram como religião.
No Jornal Nacional de terça-feira, o senador Suplicy, ao lado da visitante cubana, apareceu com o rosto transtornado, gritando, tentando acalmar os que a insultavam: "Tenham coragem de ouvir!".
Não adiantou. Eles estavam surdos. Inabaláveis em sua fé.
*Eugênio Bucci - JORNALISTA, PROFESSOR DA ECA-USP e DA ESPM. EX-PRESIDENTE DA RADIOBRAS NO PRIMEIRO GOVERNO LULA (2003-2007)
terça-feira, fevereiro 26, 2013
Jornal da Tarde: uma luta histórica
Em conjunto com o Sindicato, jornalistas enfrentam demissão em massa, resistem e preservam mais da metade dos empregos ameaçados
Guto Camargo e Paulo Zocchi
Os jornalistas de São Paulo receberam uma péssima notícia em outubro passado: o fechamento do Jornal da Tarde, diário que, desde o seu surgimento, nos anos 60, renovou a imprensa nacional, com uma linguagem moderna e criativa. A reação coletiva da redação, porém, deixou um saldo imensamente positivo: conjuntamente com o Sindicato dos Jornalistas, iniciou-se de pronto uma luta decidida em defesa do emprego e dos direitos de todos.
Foram semanas de mobilização, que impediram a empresa de demitir os jornalistas após o fechamento da redação, em 31 de outubro, e, ao final, garantiram a permanência da maioria em novas funções na empresa e um pacote de benefícios considerável para os que saíram. Tudo somado, a luta constituiu-se num marco histórico: é a primeira vez em anos que os jornalistas paulistas conseguem enfrentar coletivamente uma demissão em massa, estabelecendo uma barragem à decisão da empresa. Nesta matéria, contamos um pouco desse episódio. Certamente, suas lições são valiosas para nossa atual vida sindical, marcada por vagas de demissões em muitas empresas.
Um leitor reclama
O telefone tocou na redação do Jornal da Tarde, em 10 de outubro passado. Um leitor ligava para protestar contra o fechamento iminente da publicação. Ao contatar o setor de assinaturas para fazer sua renovação, havia sido informado pela atendente que o jornal deixaria de circular no início de novembro. A redação entrou em tumulto. Vários jornalistas telefonavam para confirmar a informação com o setor de assinaturas. Aparentemente, apenas a redação não sabia do que já era corrente em outros setores da empresa.
Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado, tentou acalmar os ânimos, afirmando que eram apenas boatos e uma confusão do pessoal das assinaturas. Ainda antes do final do dia, o Sindicato dos Jornalistas tentou em vão um contato com a direção da empresa. Enviou então um comunicado ao Grupo Estado, estabelecendo sua posição: “A hipótese de demissão em massa dos profissionais é inconcebível e poderá ser alvo de ação de dissídio coletivo junto ao Tribunal Regional do Trabalho, pois fere os princípios da OIT da função social do trabalho”.
Para os jornalistas, a possibilidade de fechamento do JT, naturalmente, causava tristeza e preocupação quanto ao futuro. Nossa categoria vive uma realidade tão difícil que se pode dizer que o direito mais fundamental, atualmente, é o direito ao trabalho. O comportamento da empresa, porém, de querer tapar o sol com a peneira, tratando com total falta de respeito jornalistas que, por vezes, dedicaram vários anos de sua vida à publicação, causou uma indignação crescente, que explodiu em 16 de outubro, quando vazou um e-mail entre diretores da corporação confirmando o que se tentava esconder.
Na véspera, a diretoria do Sindicato havia solicitado autorização para conversar com os jornalistas na redação, recusada pela empresa. Em nota, a entidade propunha uma linha de ação: “O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo opõe-se a qualquer demissão e luta para que todos os profissionais hoje vinculados ao JT mantenham seus empregos”.
Após uma redução significativa de pessoal nos últimos anos, o jornal chegava ao final de 2012 com menos de 50 profissionais: eram 47 ligados à sua folha de pagamento, mas seis já estavam alocados no Estadão. No total, então, somavam 44 jornalistas, sendo 41 contratados e três PJs. Havia mais três estagiárias.
Desde o início das conversas, os diretores do Sindicato propuseram um foco claro: deveríamos lutar para que, mesmo que o JT fechasse, o Grupo Estado mantivesse o conjunto em seus quadros, no Estadão, na Agência Estado ou na internet. A ideia tornou-se também a de toda a redação.
Negociações
Após combinar com jornalistas do JT, diretores do Sindicato foram à porta do Grupo Estado, em 17 de outubro, para conversar com a categoria. Também protocolaram na portaria um ofício, reivindicando a formalização de Termo de Compromisso Formal de Intenções da empresa, com as seguintes medidas:
- garantia de manutenção da circulação do Jornal da Tarde até 31 de dezembro;
- compromisso da direção do Grupo Estado de comunicar o Sindicato com prazo mínimo de 30 dias de antecedência caso houvesse intenção de fechar qualquer de seus veículos de comunicação;
- abertura imediata de negociações com o Sindicato para “buscar alternativas que minimizem o impacto de qualquer mudança na empresa”.
No ofício, o Sindicato insistia em conversar com a empresa, “visando defender os legítimos interesses dos jornalistas”, e protestava contra a falta de transparência: “As empresas jornalísticas são boas para defender a ‘liberdade de expressão’ para seu público externo, mas, quando se trata de relações de trabalho, o que vemos são medidas secretas, entabuladas às escondidas, e a negativa em debater e negociar abertamente”.
No meio da tarde, a redação do JT desceu em peso para a calçada. Realizou-se então a primeira assembleia, que debateu a difícil situação em curso. Aprovou-se o ofício e a luta por nenhuma demissão. Decidiu-se dar um prazo de 72 horas para a resposta da empresa e marcar uma nova assembleia.
A pressão surtiu efeito. No final da tarde, a direção da empresa aceitou conversar com o Sindicato pela primeira vez – representado então pelo presidente, Guto Camargo; Paulo Zocchi, diretor Jurídico; e o advogado Raphael Maia. Pelo Grupo Estado, dois executivos reuniram-se com o Sindicato, receberam em mãos o ofício e desmentiram categoricamente que o fechamento do JT já estivesse demitido. Comprometeram-se a dar uma resposta às reivindicações no prazo proposto.
Nos dias que se seguiram, surgiam novas informações a cada momento confirmando a realidade da decisão tomada. Os jornalistas sentiam crescer o sentimento de indignação e a decisão de comprar a briga. Decidiram que a assembleia marcada para a terça-feira, 23 de outubro, aconteceria às 18h, em frente à própria empresa. Para sua realização, o trabalho seria interrompido já relativamente próximo ao horário do fechamento, de modo a mostrar a firmeza e determinação dos funcionários.
Estado de greve
Inutilmente, o Sindicato dos Jornalistas buscou uma resposta do Grupo Estado ao ofício entregue. Nada na segunda-feira, nada na terça, a apenas uma semana da data prevista para o último dia de trabalho.
Nesta situação, instalou-se a assembleia. A redação ficou deserta. Apesar da garoa, praticamente todos os jornalistas do JT estiveram presentes. Foram informados da situação. Em seguida, a direção do Sindicato propôs que se decretasse estado de greve. A empresa seria notificada no dia seguinte de que, em 48 horas, a redação poderia cruzar os braços. O movimento, porém, insistiria em negociar enquanto fosse possível. Houve perguntas, questões e debate. Ao final, a aprovação da proposta foi unânime. Os jornalistas voltaram sem pressa a suas mesas de trabalho, como para deixar clara sua postura inconformada diante das imposturas da empresa.
A entrega da notificação de greve, no dia seguinte, não foi tão fácil. A portaria não quis receber o comunicado, fazendo um gerente da empresa vir buscá-la pessoalmente depois de um certo tempo. Com a notificação entregue formalmente e protocolada pela empresa, os advogados do Sindicato partiram para o Tribunal Regional do Trabalho tentando a marcação de uma audiência de emergência para tratar do conflito. Foram bem-sucedidos.
Enquanto isso, espontaneamente, jornalistas do Estadão passavam um texto em solidariedade aos colegas do JT, obtendo 104 assinaturas: “Nós, abaixo-assinados, estamos solidários aos profissionais do Jornal da Tarde, hoje em estado de greve. Como funcionários do Grupo Estado, declaramos apoio à postura de nossos colegas, que sempre fizeram do JT um dos veículos de maior respeito e credibilidade do país. Unidos, também desejamos uma maior transparência neste momento. É difícil e doloroso trabalharmos com normalidade enquanto, do outro lado da redação, nossos colegas do JT estão nesta situação.”
Passaram as folhas aos diretores do Sindicato e pediram, de forma decidida, que fossem entregues como um protesto à direção da empresa, num grande momento de toda esta batalha! Assim, tomou forma concreta um dos pilares dessa luta exemplar: a questão dizia respeito a todos os funcionários do Grupo Estado, e não apenas à redação do Jornal da Tarde.
Pega de surpresa pelo desenrolar dos acontecimentos, e sob pressão de seu corpo de jornalistas, a direção do Grupo Estado tratou de convocar o Sindicato rapidamente para uma reunião, em 25 de outubro. Desta vez, a equipe da empresa estava reforçada por um advogado de fora, notório especialista em crises trabalhistas.
O encontro foi marcado, da parte da empresa, pelo excesso de expressões diplomáticas – “décadas de tratamento respeitoso”, “grande cuidado com os funcionários”, “transparência na gestão” – e pelo vazio de informações concretas. Novamente, o fechamento do JT não foi confirmado. Transferiu-se a continuidade da conversa para a audiência, marcada para a segunda-feira 29 de outubro.
Conquista da estabilidade
Presidida pela desembargadora Rilma Hemetério, e acompanhada pelos jornalistas do JT, a audiência de conciliação no TRT tornou-se memorável. De início, os representantes da empresa anunciaram pela primeira vez que o JT encerraria sua circulação em 31 de outubro. Em outras palavras, a redação fecharia seus trabalhos no dia seguinte. Dos 41 contratados, 25 seriam demitidos. O Sindicato protestou e defendeu o reaproveitamento integral dos jornalistas pelo grupo. Após uma interpelação da magistrada, os prepostos empresariais propuseram quatro dias de prazo para a negociação. A juíza reagiu: “Absurdo!” Ao final, por proposta da desembargadora, chegou-se ao seguinte acordo:
- estabilidade para todos os jornalistas pelo prazo de um mês, período aberto para negociar;
- constituição de uma comissão de negociação com três representantes eleitos pela redação e participação do Sindicato dos Jornalistas;
- realização de assembleia no final daquela tarde dentro da empresa.
O Sindicato levantou ainda a questão dos três PJs, que não estavam integrados pelo acordo, e destacou a importância da mobilização realizada pelos jornalistas do JT, condição essencial para tudo o que se havia conseguido. Sem ela, o Grupo Estado teria realizado as demissões sumariamente. Naquela tarde, a assembleia discutiu a estratégia de negociação e elegeu os três representantes: Alessandro Osmar Gil, Marcelo Moreira e Roberto Fonseca.
Nas semanas seguintes, realizaram-se quatro reuniões da Comissão. Na primeira, a empresa se comprometeu a estender aos três PJs as mesmas condições negociadas para os demais jornalistas. Propôs dar ao conjunto dos profissionais licença ou férias no mês de novembro.
Os jornalistas, porém, propunham-se a trabalhar no site durante este período. Na semana seguinte, acordou-se que todos continuariam vindo à redação, e que poderiam ser pautados. A empresa anunciou ainda que estaria absorvendo 18 jornalistas imediatamente (dos 47 registrados), deixando a situação dos demais 29 (e três PJs) em discussão. Os três estagiários foram remanejados e mantidos no grupo.
Nas negociações, a linha dos jornalistas – Sindicato e representantes – foi a de tentar acertar um vantajoso plano de demissões voluntárias, com 12 salários de gratificação e um ano de plano de saúde, buscando garantir os empregos de todos que desejassem permanecer no grupo. A empresa, por sua vez, quis enveredar pela discussão de “critérios” para demissão, iniciativa rejeitada liminarmente.
A distância entre as duas posturas levou as negociações a um impasse, que se estendeu até 4 de dezembro, quando, em nova audiência, a desembargadora enviou a questão para julgamento.
Enquanto isso, os jornalistas – agora do ex-JT – mantinham-se agrupados, vindo à empresa diariamente e realizando assembleias periódicas, nas quais se discutiam o andamento das negociações e as medidas a tomar. Mais de um mês após o fechamento do jornal, nenhuma demissão havia ocorrido. Em 7 de dezembro, nova vitória: o relator do processo, desembargador Davi Meirelles garante, por liminar, a estabilidade para os jornalistas do JT até o julgamento da questão.
Acordo
Para tentar solucionar a questão ainda antes do final do ano, Meirelles acabou convocando uma reunião entre as partes em 19 de dezembro, no TRT. Na audiência, a direção da empresa acabou chegando à seguinte proposta: incorporar mais 12 trabalhadores, demitindo 17 em 21 de dezembro. Estes teriam três salários de indenização e mais seis meses de convênio médico. Assembleia realizada na redação, na mesma tarde, aprovou a proposta.
Ao final, dos 44 jornalistas do JT, 24 foram mantidos na empresa. Os demitidos acabaram recebendo quase cinco meses de salários a mais, considerando os três de indenização e os 51 dias obtidos de estabilidade (além dos demais direitos, como 13º, férias e FGTS, associados ao período estável). Os três PJs tiveram as mesmas condições.
Na assembleia final, além da óbvia tristeza pela partida de vários colegas, havia um sentimento generalizado de orgulho e de vitória. Afinal, por sua luta coletiva, os jornalistas conseguiram reduzir o número de demissões, forçar a negociação com a empresa, manter-se presente no local de trabalho por semanas e arrancar compensações importantes para os demitidos. Todo o processo mostrou a força de nossa categoria quando consegue agir coletivamente, em conjunto com o Sindicato. E a entidade conseguiu dar respostas adequadas e em tempo de ajudar a mobilização.
Como disse Guto Camargo na assembleia final: “Travamos o bom combate. Foi uma conquista histórica, não só para os jornalistas do JT, mas para toda a categoria dos jornalistas de São Paulo”. No atual contexto, em que diversas empresas anunciam demissões, as lições do JT são fundamentais, pois apontam o caminho da resistência. A possibilidade de uma luta vitoriosa depende, sobretudo, da ação unida e organizada dos próprios jornalistas.
domingo, fevereiro 24, 2013
Jornal da Tarde: uma luta histórica
Uma professora e dona de casa nem um pouco sofisticada, e simplória até, que se diz blogueira, conseguiu demolir sem esforço as precárias fundações do "pensamento" de uma parte expressiva e inútil da esquerda nacional. Yoani Sanchez demonstrou a fragilidade intelectual e institucional dessa esquerda: arbitrária, fascista, retrógrada, sem conteúdo e tutelada.
O que era para ser uma simples turnê sem glamour e com interesse zero para a maioria das pessoas se tornou em um fenômeno midiático. Essa blogueira não merecia um vigésimo da atenção que teve por aqui. Mesmo em países onde existe uma real admiração, ela nunca passou de uma figura meramente exótica.
No entanto, a esquerda brasileira, em sua falta de inteligência crônica desde os anos 90, conseguiu a façanha de transformá-la em uma intelectual respeitável, em uma celebridade política internacional. Nenhuma ação política de desinformação no Brasil foi tão desastrosa quanto essa "campanha" contra a blogueira cubana.
Meia dúzia de pessoas sabia quem ela era antes da palhaçada promovida por grupelhos esquerdistas. Três dias depois do desembarque, ela já era uma celebridade internacional, com cobertura diária até do Jornal Nacional, que pretendia ignorá-la por completo. É difícil encontrar tamanha incompetência nos anos recentes da política brasileira.
O único mérito que a blogueira tem é a sua origem dissociada da tradicional "dissidência" cubana: não é uma intelectual, não é uma artista, não é professora universitária, não tinha aspirações políticas e não era egressa da nomenklatura cubana, além de ter a intenção de se suicidar por meio de uma greve de fome.
Aí reside o fascínio que despertou em certos círculos intelectuais europeus e latino-americanos: é uma pessoa comum que decidiu se manifestar. E é isso o que mais enfureceu a esquerda retrógrada da América Latina: é um a dissidente que não cita pensadores e filósofos, que faz poeminhas libertacionistas. É uma pessoa que tenta trabalhar todo dia e que é perseguida por discordar e pensar. Yoani Sanchez narra em seus textos o seu cotidiano e o de seus vizinhos, e mostra que mais gente do "povo" sabe, quer e consegue pensar, e que quer mudanças.
Ainda que suas ideias sejam toscas - e muitas delas são -, primárias (quase todas) e que supostamente esteja tendo as despesas pagas por entidades e organizações não-esquerdistas ou de "direita" (é óbvio que a esquerda babenta de raiva jamais a financiaria), Yoani está longe de representar um perigo para a paranoica ditadura cubana.
Gente mais bem preparada e mais representativa não conseguiu essa honra. Não será essa blogueira que conseguirá. Mas ela precisa agradecer até o fim de sua vida o empurrão que recebeu da esquerda brasileira, que a transformou em aquilo que ela nunca foi e que provalmente jamais voltará a ser: uma celebridade política internacional. A esquerda brasileira é muito ingênua e inocente, e parte expressiva de sua composição é completamente burra e ignorante, muito mais do que a direita asquerosa, corrupta e igualmente retrógrada.
sexta-feira, novembro 09, 2012
Como destruir um grande jornal
Ethevaldo Siqueira
Temo pelo futuro dos maiores jornais brasileiros. A começar do Estadão. Eles estão ameaçados de desaparecer porque ainda não encontraram o modelo de negócios que lhes permita sobreviver nesse mundo caótico do jornalismo eletrônico.
O mais grave não é fim dos jornais impressos, cujos dias estão, realmente, contados. Mas a falência das empresas ou instituições por eles responsáveis. É claro que o jornalismo não morrerá. Entretanto, a inviabilidade econômica das empresas jornalísticas significa, acima de tudo, a dispersão das melhores equipes profissionais, a perda da maioria de seus talentos e a desestruturação de um setor.
Por conhecer o jornal de perto há mais de 45 anos, meu maior temor é com o futuro do Estadão. Publicação centenária e, sem dúvida, um patrimônio da cultura do País, o Estadão precisa cruzar o abismo da mudança tecnológica e superar o desafio econômico que essa mudança significa. E pode fazê-lo.
Creio que ainda há tempo para salvar as empresas ou instituições que fazem os grandes jornais brasileiros. As duas grandes ameaças que podem liquidar essas publicações, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, são duas: o novo cenário tecnológico e a desvalorização das redações.
Diferentemente da degradação progressiva das redações, que pode ser revertida, a quebra dos paradigmas tecnológicos não tem alternativa. Afirmo, por outro lado, que, se a direção e os acionistas assim o decidirem, os grandes jornais poderiam ganhar longa sobrevida com a elevação da qualidade das redações. Afirmo, também, com todas as letras, que a desvalorização da redação não afeta apenas o Estadão, mas muitos outros jornais brasileiros.
Nunca me esqueço de uma observação sábia que ouvi certa vez, há quase 30 anos, de Júlio de Mesquita Neto: “A redação é a alma e o coração de um jornal. Máquinas, prédios e móveis são apenas meios físicos”.
No entanto, no afã de cortar despesas, os novos executivos das redações estão empobrecendo os jornais, com a perda de seus melhores repórteres, redatores, editores e colunistas – dos mais jovens aos mais velhos e experientes, especialistas e generalistas. Sob pressão de acionistas, os salários se aviltam continuamente, por decisão ou conivência de diretores de redação que parecem agir muito mais como capatazes.
O que me move, neste depoimento, é tão somente despertar a atenção de todos para o risco cada dia maior de fechamento dos grandes jornais e revistas brasileiros, a começar pelo Estadão. Faço-o, também, como forma de repúdio à campanha primária e irracional de um grupelho que insiste em acusar a grande mídia de ser um partido político, o PIG (Partido da Imprensa Golpista). Nunca vi cretinice maior.
Acredito, sinceramente, que o Brasil precisa de uma imprensa realmente livre, republicana, pluralista, com todos os matizes, desde que comprometida com o bem e o desenvolvimento da sociedade brasileira.
É a grande mídia, tanto a impressa quanto a eletrônica, que garante a sobrevivência da democracia, noticiando e debatendo tudo com liberdade plena, sem nenhum controle totalitário ou qualquer forma de censura. Não desejo nem aceito para o Brasil os percalços da imprensa argentina nem da mídia venezuelana.
Reconheço, acima de tudo, que o Brasil precisa de um portfólio de jornais e revistas diversificado, capaz de abrigar publicações como o Estadão, a Folha, O Globo, Veja, Istoé, Época, Piauí, Brasileiros, Carta Capital ou Correio Braziliense, para citar apenas alguns exemplos.
E relembro as palavras da presidente Dilma Rousseff, no começo de seu governo, ao dizer, mesmo sem o respaldo de seu partido, que “o único controle que o governo admite para a mídia é o controle remoto”. Espero que mantenha, na prática, esse conceito.
Por que saí do Estadão
Centenas de amigos e colegas me pedem que explique melhor minha saída do Estadão. Esclareço, de início, que não deixei o Estadão por questões salariais, ainda que me desagradasse a perspectiva incontornável de redução de minha remuneração.
Muitos leitores talvez tenham lido minha coluna de despedida, no domingo, 21 de outubro de 2012, na qual fiz um balanço dos 45 anos que vivi no jornal. Aos que não o fizeram sugiro que o façam pelo link de meu blog pessoal: http://ethevaldo.com.br/coluna/despedida-apos-45-anos/.
Além de agradecer a todos que me escreveram, devo explicar-lhes com toda sinceridade e equilíbrio as razões que me levaram a antecipar a saída do jornal, já que pretendia permanecer ainda por alguns anos, com minha coluna semanal e fazendo matérias especiais na área tecnológica e, em particular, em coberturas internacionais.
Mesmo enfrentando problemas de relacionamento pessoal com o diretor de conteúdo do Estadão, Ricardo Gandour, eu ainda estava disposto a continuar no jornal, até porque aprendi a conviver com chefias problemáticas. Sempre tratei Gandour com educação e cortesia. Ele, igualmente, nunca foi rude ou grosseiro comigo. Sempre me disse “não” com um sorriso superior nos lábios.
Só não pude tolerar nos últimos meses suas sucessivas interferências e restrições à minha liberdade, na coluna. Conto apenas dois ou três episódios, entre dezenas de situações inaceitáveis que vivi.
O caso mais antigo ocorreu em 2006. Uma noite, Ricardo Gandour chegou a ligar para o meu celular, sabendo que eu estava em Londres, às 3 horas da madrugada (meia-noite no Brasil), para censurar uma coluna inteira que eu havia escrito sobre um programa de atendimento ao usuário da antiga Brasil Telecom. Por sorte, eu tinha outra coluna pronta, de reserva, para publicar.
Depois, em sucessivas oportunidades, pediu que eu amenizasse minhas críticas à política de telecomunicações dos ministros das Comunicações, tanto de Hélio Costa quanto de Paulo Bernardo.
A situação mais grave e inaceitável foi impedir que eu me defendesse diante de uma mensagem do ministro Paulo Bernardo. No texto, publicado no Fórum dos Leitores, por determinação de Gandour, o ministro desmentia categoricamente minhas críticas à sua tolerância e conivência diante de uma licitação da Telebrás, com valores superfaturados em mais de R$ 100 milhões, segundo o Tribunal de Contas de União (TCU). Em lugar de anular a concorrência, o ministro autorizou a Telebrás a “renegociar” os preços inflados. E, creiam, com apoio do TCU. Por isso, minha coluna tinha o título: O TCU não assusta ninguém.
Na coluna, eu contava aos leitores que, na entrevista exclusiva com Paulo Bernardo, eu lhe havia perguntado se não lhe preocupavam os aspectos éticos daquela solução heterodoxa. A resposta irrefletida do ministro foi a seguinte: “Quero que a ética vá para o inferno. Eu quero é trabalhar…” Diante da resposta insensata, ainda lhe perguntei se ele não temia que eu publicasse literalmente aquela declaração. “Publique, se quiser”, desafiou. Só por isso, registrei-a em minha coluna, em 25-09-2011.
Dias depois, Paulo Bernardo pediu ao diretor de conteúdo do Estadão o direito de resposta, o que foi concedido – coisa perfeitamente justa e cabível –, mas Gandour não me deu conhecimento prévio do desmentido nem me permitiu reiterar a verdade dos fatos, em Nota da Redação. Com o silêncio do jornal, eu passava a ser considerado mentiroso, por decisão e censura do diretor de conteúdo do próprio jornal.
Imaginem, amigos, o que significa enfrentar esse tipo de cerceamento, em plena democracia, em 2011, dentro do Estadão, jornal em que vivi a censura imposta pela ditadura, que testemunhei de 1968 a 1975.
Com desencanto e desestímulo crescentes, o que me restou nos últimos 12 meses de jornal foi remoer a tristeza das muitas decepções e perceber o clima de desânimo que marca hoje a redação do grande jornal.
No organograma empresarial do Estadão falta um conselho editorial que supervisione as diretrizes e as decisões do diretor de conteúdo, o que o transforma em figura absoluta, detentor da última palavra sobre tudo no âmbito da redação. E, infelizmente, nenhum outro diretor, nem o CEO, parece disposto a interferir em seu território, para não ferir “as regras de governança”.
Por tudo isso, ao longo dos últimos seis anos da gestão desse diretor de conteúdo, o Estadão tem perdido excelentes profissionais, como César Giobbi, Pedro Dória, Carlos Alberto Sardenberg e Renato Cruz. Chegou a demitir Roberto Godoy, um dos raros jornalistas especializados em tecnologia de defesa do País, com mais de 30 anos no jornal, para readmiti-lo, mas com menor remuneração, depois da repercussão profundamente negativa. E pode perder muitos outros.
São diretores como esse, mesmo com currículos brilhantes, mas sem passado nem raízes na história do Estadão, que aceleram o fim do grande jornal.
sexta-feira, outubro 19, 2012
O lamento de um dinossauro
MARIO CHIMANOVITCH - publicado originalmente na seção Tendências & Debates, da Folha de S. Paulo
Como velho jornalista da velha escola, aquela que nos ensinava na unha e nos cascudos de chefias que acatávamos sem chiar, gratos por podermos conviver com nomes cujo simples som nos intimidava, observo que em algum momento algo muito importante se rompeu --e ninguém lhe deu a menor importância.
Hoje, por todo lado, apregoa-se que só o novo é bom e todos disputam a honra de serem mais novos do que os demais.
Ser velho, nestes tempos estranhos, é ser um estorvo, ser inútil, um dinossauro improvável, movimentando-se num universo de frágeis louças. Eu sou um dinossauro e vivo trombando o grande rabo da minha longa história contra as prateleiras deste mundo asséptico. Acho que estou sobrando.
Muito se fala, nos discursos eleitoreiros, das bondades que cada campanha sugere a seu candidato, para agradar a nós, os mais velhos. Cada vez que vejo um almofadinha desses abraçando a senhorinha sofrida e prometendo-lhe mundos e fundos, a ira me sobe à cabeça e por pouco não arremesso a bengala que me ampara de encontro ao televisor.
Porque, no fundo, no fundo mesmo, o que todo mundo quer é tirar a nós, os velhos, do caminho e dos cofres da previdência. Somos aquelas criaturas que parecem servir, apenas, para confrontar cada jovem pimpão com sua própria finitude e com o fato de que a única alternativa disponível à morte, por enquanto, é mesmo sobreviver, como der. E é aqui que a coisa complica.
Provavelmente nunca na história se desprezou tanto a experiência e a memória dos mais velhos como nas últimas décadas. Se você, como eu, é um jornalista "das antigas", vale menos que um PC 386, daqueles que um dia pareceram uma enorme inovação e hoje não passam de lixo eletrônico descartável e, como tal, ambientalmente incorreto.
Eu me sinto ambientalmente incorreto quando tento mostrar o muito que a memória de duas guerras cobertas, alguns prêmios de imprensa e reportagens memoráveis, inutilmente, me ensinou.
Desempregado desde 2007, sobrevivendo de cada vez mais raros bicos, sinto que cheguei aos meus limites. A autoestima se esfacela e posso entender porque tantos não resistiram e acabaram sucumbindo ao álcool, às drogas ou, tanto pior, à ideia da própria morte.
Tolo e romântico que sempre fui, imaginava que essa vivência toda, mais tarde, me permitiria ajudar os mais novos a melhorarem o mundo imperfeito que é o campo de colheita dos bons jornalistas. Ledo engano, porém.
Tudo o que a história pode ensinar a um jovem, ao que parece, pode ser encontrado nos meandros da nebulosa da internet. Com a vantagem de que lá não haverá nenhum velho chato para dizer que noutros tempos, no meu tempo, algo era assim ou assado por causa disto ou daquilo.
A informação brotará do tablet, cristalina, fria e desinfetada pelo distanciamento tecnológico. O dedicado repórter, com o ímpeto de seus jovens anos, vai poder navegar pelos escaninhos da memória que me resta, sem precisar me aturar e a minha própria história.
Acho que vou ter de procurar emprego de empacotador de caixa de supermercado. E se um dia algum candidato se aproximar de mim, entre um pé de alface e uma caixa de ovos, agradecerei cada migalha que os governos me oferecerem como dádiva. Ao menos assim, talvez, eu tenha alguma utilidade.
quarta-feira, outubro 17, 2012
A volta da censura, por Hélio Schwartsman*
Publicado originalmente no Folha.com, de 4 de outubro de 2012
Em tempos de YouTube e celulares com câmera, nos quais praticamente qualquer cena presenciada por um ser humano pode ser registrada e disponibilizada para todo o planeta, não é surpreendente que assistamos a um número cada vez maior de pedidos de censura judicial, isto é, de pessoas exigindo, via Judiciário, que as imagens e comentários sejam retirados da rede de computadores.
O fenômeno chega ao paroxismo agora que o Brasil vive um período eleitoral em que milhares de postulantes a prefeito e vereador tentam evitar tudo o que possa prejudicar-lhes a candidatura e, para isso, contam com a mão amiga de uma Justiça Eleitoral excessivamente intervencionista e pouco afeita aos cânones do liberalismo político.
A fórmula é complementada ainda pelos místicos e moralistas de sempre, que buscam na Justiça e fora dela calar as manifestações com as quais não concordam.
A conjunção desses fatores levou a uma onda de proibições que ficou evidente na semana passada, com a detenção de um diretor da Google que se recusara a cumprir ordem judicial e várias notícias de censura a sites. Até o trailer do polêmico filme "Inocência dos Muçulmanos" foi proscrito no Brasil. Meu momento favorito, porém, é a campanha do deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) para proibir ou pelo menos tornar impróprio para menores de 18 anos um longa-metragem juvenil que traz
cenas de um ursinho de pelúcia fumando maconha.
Ninguém com um pouco de amor à lógica pode defender direitos de forma absoluta. Afirmar qualquer um deles em grau superlativo implica relativizar e eventualmente até negar todos os demais. A menos que acreditamos que só existe um direito digno deste nome, temos de aprender a conviver com o conflito entre normas constitucionais.
Mesmo reconhecendo isso, advogo por uma liberdade de expressão robusta, como sabem os que acompanham minha coluna. Acho que o direito de manifestar a opinião deve abarcar até mesmo nazistas que defendam teses racistas e pedófilos que descrevendo suas preferências sexuais. Enquanto estamos no campo das ideias, vale tudo. É só quando algum desses malucos tenta pôr seus delírios em prática que o Estado, particularmente a polícia, deve intervir.
Não faço isso por nutrir um fetiche secreto pela liberdade de expressão. A questão também é lógica. Ninguém precisa de licença para dizer o que todos querem ouvir. Se as salvaguardas à manifestação livre de ideias fazem algum sentido (e eu tentarei mais abaixo mostrar que fazem), é preciso que abarquem justamente aquilo que a maioria considera infame, desprezível e, portanto, digno de ser censurado.
Depois de uma defesa tão entusiasmada da livre opinião, acho que preciso dar exemplos de limitações que considero razoáveis, sob pena de a estar absolutizando sub-repticiamente. Pois bem, creio que em diversas situações em que a liberdade de expressão entra em choque com o direito do cidadão à própria imagem é a segunda que deve prevalecer. Não é aceitável, por exemplo, que alguém publique uma calúnia ou mesmo uma informação demonstravelmente falsa sobre outrem. Nestes casos, cabe não apenas uma reparação como também a retificação dos dados.
Não tenho a mesma convicção no que diz respeito a injúrias e difamações. Como elas dão muito mais margem à subjetividade, fica fácil colocar obstáculos à publicação de uma obra legítima com base em considerações metafisicamente pessoais. Não é por outra razão que biografias se tornaram um gênero literário ameaçado de extinção no Brasil. O artigo 20 do novo Código Civil, ao postular com força a tese da defesa da "honra, boa fama ou respeitabilidade" permite que até descendentes remotos censurem esse tipo de trabalho. Pior, podem fazê-lo "a priori".
Outro ponto em que insisto é que o direito à autoimagem só deve valer para pessoas físicas, não para grupos. Caso contrário, sempre que um autor imprecar contra a natureza humana, estará se sujeitando a ser processado e censurado por qualquer um dos 7 bilhões de terráqueos. Em suma, se você pertence a uma categoria que se sentiu ofendida pela declaração de alguém, ofenda o bando de seu agressor e todos ficam felizes.
Resta agora apenas tentar mostrar por que a liberdade de expressão merece tanta consideração. Uma possibilidade é que, numa manifestação da religiosidade iluminista, nós, liberais, a tivéssemos convertido numa espécie de ícone sagrado da laicidade, que defenderíamos de todos os ataques como fazem os muçulmanos com Maomé. É uma hipótese divertida, mas não creio que resista a uma análise mais detida.
A diferença fundamental é que, enquanto a preservação da imagem de Maomé interessa apenas aos fiéis do islamismo, a liberdade de expressão regula um elemento essencial para o funcionamento da sociedade, que é a circulação de informações. Como escrevi na semana passada numa coluna da edição impressa, sem a troca de ideias entre múltiplas partes, a própria democracia cessa de funcionar. Um de seus pressupostos é o de que um eleitor razoavelmente informado escolhe seus dirigentes. Uma imprensa livre também é necessária para controlar as ações dos dirigentes. Não é uma coincidência que ditadores invariavelmente comecem sua escalada autoritária calando as vozes dissonantes.
E o papel virtuoso das informações não está restrito à política. O trânsito de ideias também é fundamental para a ciência. Um dos antecedentes necessários à revolução científica que se esboçou a partir do século 16 na Europa foi a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg. É claro que havia livros antes disso, mas, produzidos artesanalmente por copistas, eles eram obscenamente caros. Um volume de cerca de 500 páginas saía pelo equivalente a US$ 20 mil de hoje. Apenas gente podre de rica podia dar-se ao luxo de possuir essas obras. Foi só depois da imprensa que as ideias que estão na base da ciência puderam atingir o ponto crítico a partir do qual provocaram grande impacto. Não é um acaso que esse período também marque o início do movimento de secularização da sociedade.
E a ciência, nunca é demais lembrar, é a principal responsável pela era de bem-estar material e sanitário que vivemos. Até a revolução industrial, que pode ser descrita como a domesticação do vapor pela ciência, o crescimento econômico anual médio da humanidade era da ordem de 0,1%. De lá para cá, o padrão de expansão explodiu, com vários países sustentando taxas de dois dígitos ao longo de décadas. Pela primeira vez, o crescimento ocorreu mais rapidamente do que o aumento da população, gerando uma prosperidade nunca antes imaginada. É por isso que há uma corrente de economistas encabeçada por Julian Simon que sustenta que a riqueza, em última análise, são ideias, a capacidade das pessoas de inovar. A imaginação humana, dizem, é o recurso final.
Se essa tese é correta, limitar a liberdade de expressão equivale a um suicídio social, algo que nem candidatos nem fiéis de nenhum credo parecem muito dispostos a fazer.
*Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha.com.e na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos
sábado, outubro 13, 2012
Guerra suja e o risco à liberdade de expressão
Carlos Brickmann
Há várias maneiras de colocar em risco a liberdade de expressão: a policial, a econômica, a judicial, a violenta. Todas estão sendo aplicadas no Brasil: algumas, que de tão escancaradas beiram a desfaçatez, são defendidas mas não aplicadas (coisas como o tal “controle social da informação”, ou o sistema chavista da Ley de Medios – tão colonizada que até o nome está em castelhano); outras, por serem mais utilizadas longe dos grandes centros, merecem acompanhamento esparso – assassínio de jornalistas, empastelamento de jornais adversários, pressão direta sobre anunciantes; há as condenações de jornalistas incômodos, que acabam ganhando a causa mas depois de muitos aborrecimentos e amplos gastos; e a que hoje é a mais usada de todas, combinando ações legais e pressões econômicas para calar quem diz o que, na opinião dos inimigos da liberdade de imprensa, deveria continuar secreto (e eles conhecem as vantagens do sigilo).
Há coisas incríveis acontecendo: uma delas, a ordem de prisão do diretor-geral do Google no Brasil, Fábio Coelho, por desobedecer à ordem de tirar do YouTube vídeos contra um candidato a prefeito de Campo Grande. Como diz Marcelo Tas, “prender diretor do Google por causa de vídeo político no YouTube é como punir vendedor de asfalto por acidente em rodovia”.
O caráter intimidatório da medida ficou claro quando o mesmo juiz que determinou a prisão revogou a medida, no dia seguinte, por considerar a atitude do diretor do Google de pequeno potencial ofensivo. Se o potencial ofensivo era pequeno, por que houve a prisão? Se a prisão era necessária, por que houve a rápida libertação? O Google, evidentemente, não pode estar acima da lei; mas a aplicação da lei deve levar em conta a função exercida pela empresa. Uma biblioteca que tenha livros proibidos pela Justiça não gerou o conteúdo, nada tem a ver com ele: apenas o coleciona. Se obteve os livros legalmente, que é que fez de errado?
Outro caso interessantíssimo é o do jornalista Cristiano Silva. Há alguns dias, um juiz comandou a apreensão de seu livro Operação Ouro Negro – História do milionário assalto aos cofres da Prefeitura de Catalão durante debate na Universidade Federal de Goiás. Em outras palavras, ao discutir temas de interesse da comunidade, a universidade foi invadida para a apreensão do livro que vinha sendo discutido. Pior: o jornalista foi detido por desacato à autoridade e levado à delegacia. A obra trata de problemas ocorridos na gestão do ex-prefeito Nagib Elias, e o juiz que determinou a apreensão foi quem extinguiu o processo montado com base na Operação Ouro Negro da Polícia Federal.
Detalhes: nem o jornalista nem seu advogado tinham sido informados da proibição do livro. Mas as ameaças já vinham de antes. Certo dia, Cristiano foi abordado na rua por várias pessoas, na cidade de Catalão, em Goiás. Um homem disse aos companheiros, em tom irônico: “Ah, mete bala na cara desse vagabundo. Vamos fazer picadinho dele, igual fizemos com o livro”. Outro completou: “Tem de acertar no olho para não estragar a pele”.
Há casos mais antigos: a pressão constante sobre o jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará, que desafia as famílias que comandam o estado; a censura que já perdura há dois anos contra O Estado de S.Paulo, para impedi-lo de publicar informações sobre o império da família Sarney, conforme investigações da Polícia Federal na Operação Boi Barrica; o processo que este colunista sofre de um ex-secretário tucano, que deixou o governo de São Paulo para defender uma empresa que se opunha a interesses do governo de São Paulo.
Mas o caso mais emblemático, agora, é o do Blog do Pannunzio.
Guerra suja
O jornalista Fábio Pannunzio, da Rede Bandeirantes, é sério e competente. Abriu um blog em 2009 e, de lá para cá, jamais aceitou ofertas de patrocínio. Paga as despesas com dinheiro do próprio bolso, tirado do salário de repórter.
Que é que fizeram contra ele? Aquilo que a Igreja Universal do Reino de Deus tentou fazer contra a repórter Elvira Lobato: sufocá-la com imenso volume de processos (no caso, espalhados por todo o Brasil, para obrigar a repórter a gastar fortunas com viagens e advogados, e ao mesmo tempo reduzir sua produção jornalística, por falta de tempo). Só que Elvira Lobato trabalhava como repórter da Folha de S.Paulo, que bancou as despesas, denunciou as manobras da Universal e transformou o caso num foco permanente de suas reportagens.
Pannunzio foi processado inúmeras vezes, sem êxito. Mas, em todas elas, teve de perder tempo, contratar advogado, gastar com documentação, viajar até o local dos processos. O objetivo, claro, era este; pessoas que se julgam atingidas em sua honra não entram com processos cíveis, já que honra não se mede em dinheiro (a não ser algumas pessoas, que já têm até a etiqueta de preço afixada). Quem tem a honra atingida entra com processo-crime, exatamente por considerar que sua reputação não tem preço.
Pannunzio foi processado por gente das mais diversas ideologias, partidos, interesses. A gota d’água foi o processo que lhe é movido pelo atual secretário da Segurança de São Paulo, coronel Ferreira Pinto, herança de Serra para Alckmin: o secretário do governo tucano quer uma indenização monumental de Pannunzio. E o repórter decidiu desistir do blog. “Escrevo depois de semanas de reflexão e com a alma arrasada”, disse Pannunzio, “especialmente por que isso representa uma vitória dos que se insurgem contra a liberdade de opinião e informação.
quarta-feira, outubro 10, 2012
Politicamente correto e mediocridade elegem novo alvo: a crítica
O politicamente correto está em cruzada firme para matar a liberdade de expressão e de opinião. Tem fracassado na maioria das vezes, principalmente quando “respaldado” por argumentos ideológicos retrógrados ou de origem religiosa igualmente estapafúrdios.
De mãos dadas com a ignorância e com a falta de respeito, o politicamente correto agora está atacando, ainda que de forma atabalhoada, a crítica nas áreas de cultura, artes e espetáculos, tanto em jornais como na internet.
Parece existir uma regra não escrita de que é proibido falar mal de qualquer coisa e de alguém, e que tudo precisa ser sempre relativizado, e que a tal “contextualização” serve como muleta para toda e qualquer justificativa para que se não se fale mal de uma obra de arte.
Os exemplos vão do mais simples e rasteiro – legiões de fãs inconformado com críticas negativas a seus ídolos – ao mais pedante e arrogante pseudointelectualismo de boteco movido a tintas malcheirosas de ideologia burra e ultrapassada – a situação absurda mais recente é o patrulhamento em cima do suposto conteúdo racista de algumas obras de Monteiro Lobato.
Se a internet revolucionou a forma de como o ser humano lida e obtém informação, também mudou para pior a forma de como as pessoas discutem e debatem. A internet jogou o debate na lata do lixo em grande parte dos assuntos relevantes em qualquer parte do mundo.
Transformou-se em uma enorme cracolândia (parafraseando o sábio jornalista Décio Trujillo Júnior), onde a desqualificação virou o principal argumento de discussão – e ferramenta obrigatória de indigentes intelectuais e culturais para mascarar a própria ignorância.
Ter opinião é pecado no século XXI dominado pela tecnologia, pela web e pelas redes sociais. A crítica negativa de um disco ou um livro é apedrejada de forma inacreditável apenas por ser negativa – com a interatividade, leitores/internautas travam um debate de baixíssimo nível, como se o ídolo fosse unanimidade e inatacável.
Não se respeita mais na internet e nos jornais o direito de jornalistas, críticos e especialistas respeitados, com pelo menos duas ou três décadas de ofício, de opinar. Ninguém diverge, contesta ou discorda com educação ou argumentos. Diverge-se, contesta-se e se discorda com ameaças e agressões verbais de todos os tempos. É um movimento inaceitável de cassação do direito de criticar e opinar.
Tal quadro desalentador é observado de forma mais acentuada na área de cultura popular, particularmente na música. O anonimato e a distância tornaram a covardia e a agressão gratuita ferramentas essenciais para a imposição de ideias ou para protestar de forma a intimidar articulistas ou especialistas de todos os matizes.
Os ataques veementes e constantes contra a opinião e a crítica, quase sempre de forma tola, vazia e inconsequente, instauraram um clima de inquisição na internet. Mais do que a arquibancada violenta de um Fla-Flu ou um Corinthians e Palmeiras, qualquer crítica ao trabalho de certos artistas vira motivo para um autêntico linchamento moral e ético contra o autor.
Vários textos do Combate Rock foram alvo de leitores enfurecidos e atormentados por conta de críticas aos trabalhos de gente como Mutantes, Nirvana, Raul Seixas, Legião Urbana, Restart, Charlie Brown Jr e Los Hermanos, entre outros.
Parte expressiva dos “comentários”, em língua com algum parentesco com o português, abusou de xingamentos, desqualificações rasteiras e protestos estéreis contra os autores. Em nenhum momento chegaram perto de argumentar com algum nível de decência o objeto da questão – as críticas em si.
O poeta e escritor Luiz Carlos “Barata” Cichetto, conhecido no meio underground do rock e dos cenários literários alternativos de São Paulo e Rio de Janeiro, sofreu uma ação massiva de xingamentos e desqualificações quando publicou no site Whiplash, o melhor e mais diversificado sobre rock em português.
Ele escreveu um texto onde apontava as coincidências e quase plágios na obra de Raul Seixas – texto já reproduzido no Combate Rock. Detalhado e bem fundamentado, o artigo foi desqualificado por todos, mas em nenhum momento foi contestado de forma séria.
Acreditar que toda essa várzea é o retrato da internet é um equívoco tremendo e uma injustiça para com a imensa maioria de pessoas sérias e que usam a web com prudência e inteligência. No entanto, não há como ignorar a sensação de que é justamente a cracolândia é que domina o ambiente virtual, tanto em português como em qualquer língua. A precarização e o baixo nível não são privilégio dos brasileiros.
Ainda assim, é assustadora a indigência intelectual que dominam fóruns e páginas de opinião de blogs, portais e sites brasileiros. Nem é o caso de mencionar os ambientes esportivos dedicados ao futebol, onde o clima de arquibancada é compatível com a ausência de educação e inteligência na maioria das vezes – na verdade, parece que isso é requisito básico para tais ambientes.
O desconhecimento total da função de jornalistas e críticos revela de forma inequívoca o elevado grau de desinformação do público em geral, evidenciando, por outro lado, um viés extremamente perigoso: a intolerância para com a divergência, a diversidade e a diferença.
Não são poucos os iletrados que “questionam” o papel do jornalismo, da mídia e da imprensa, chegando à petulância de dizer (ou seria “determinar”) o que um jornalista deve ou não escrever, e como tem de escrever. “Jornalista não pode dar opinião” é apenas a mais frequente dos lixos publicados em páginas de comentários em grandes portais de internet.
O baixo nível predominante na internet e a incapacidade – ou recusa – de compreensão de qualquer texto opinativo é um indicativo preocupante de uma tendência autoritária que predomina no grande público – algo bastante comum em ambientes de discussão política, seja de direita ou esquerda, igualmente de níveis baixos de inteligência, cultura e tolerância.
A tentativa de imposição de uma “homogeneização” de pensamento artístico-cultural – onde o politicamente correto, a ausência de senso crítico e a esterilidade de ideias predominam – é inócua, mas não menos desalentadora.
Qual o sentido de opinar, criticar, debater e pensar em um ambiente que repele a vida inteligente, onde o que interessa é a futilidade e o entretenimento mais rasteiro e pueril que existe?
Levar luz às trevas? Por mais que intelectualmente seja tentador, essa motivação é pedante demais. Satisfação pessoal? Egoísta demais.
O fato é que críticos, colunistas e jornalistas especializados são cada vez mais lidos na internet, seja em blogs pessoais ou em espaços próprios em grandes portais ou portais de grandes jornais.
Os acessos e o número de comentários só aumentam no Estadão.com e na maioria dos blogs e espaços de colunistas no UOL, só para citar alguns exemplos. Portanto, eis a maior vitória da vida inteligente na internet: criticados, desqualificados, xingados e até ameaçados, mas cada vez mais lidos em um verdadeiro mar de mediocridade.
É maior prova de vida inteligente na web – prova incontestável de que críticos, colunistas e jornalistas especializados serão sempre cada vez mais necessários.
sábado, outubro 06, 2012
“Mensalão”, hipocrisia e corrupção preservada
STF e mídia fingem resgatar ética, mas mantêm intactos mecanismos que subordinam candidatos ao dinheiro e interesse de grandes empresas
Por Ladislau Dowbor, em Carta Maior
“The idea that in a democracy you should be able to trade your wealth
into more influence over what the government does is just wrong.”
Lawrence Lessig [1]
“Les vices n’appartiennent pas tant à l’homme qu’à l’homme mal gouverné”
Rousseau [2]
Transformar o exercício da justiça em espetáculo midiático não é correto nem ético. Fazê-lo em nome da ética, menos ainda. Para muita gente, parece tratar-se de uma catarse política, canalização de ódios acumulados. Não se resolve grande coisa desta maneira. e gera-se sim dinâmicas perigosas. E sobretudo, canaliza-se toda a energia contra pessoas, obscurecendo os vícios do sistema. O sistema agradece, e permanece. A realidade, é que há um imenso desconhecimento, por parte de não-economistas, de como se dão os grandes vazamentos de recursos públicos.
Bem, vamos por partes. Primeiro, a grande corrupção, a grande mesmo, aquela que é tão grande que se torna legal. Trata-se do financiamento de campanhas. A empresa que financia um candidato – um assento de deputado federal tipicamente custa 2,5 milhões de reais – tem interesses.
Estes interesses manifestam-se do lado das políticas que serão aprovadas, por exemplo contratos de construção de viadutos e de pistas para mais carros, ainda que se saiba que as cidades estão ficando paralisadas. As empreiteiras e as montadoras agradecem. Do lado do candidato, apenas assentado, já lhe aparece a preocupação com a dívida de campanha que ficou pendurada, e a necessidade de pensar na reeleição. Quatro anos passam rápido. Entre representar interesses legítimos do povo – por exemplo, mais transporte coletivo, mais saúde preventiva – e assegurar a próxima eleição, ele que estudou economia ou direito, e por tanto sabe fazer as contas e sabe quem manda, está preso numa sinuca.
O próprio custo das campanhas, quando estas viram uma indústria de marketing político, é cada vez mais descontrolado. Segundo The Economist, no caso dos EUA, os gastos com a eleição de 2004 foram de 2,5 bilhões de dólares, em 2010 foram de 4,5 bilhões, e a estimativa para 2012 é de 5,2 bilhões. Isto está “baseado na decisão da Corte Suprema em 2010, que permite que empresas e sindicatos gastem somas ilimitadas em marketing eleitoral”. Quanto mais cara a campanha, mais o processo é dominado por grandes contribuintes, e mais a política se vê colonizada. O resultado é a erosão da democracia. E resultam também custos muito mais elevados para todos, já que são repassados para o público através dos preços. [3]
Comentando os dados dos gastos corporativos na campanha eleitoral de 2010, Robert Chesney e John Nichols, da universidade de Illinois, escrevem que os financiamentos corporativos “traduziram-se numa virada espetacular para a direita: a captura da vida política por uma casta financeira e midiática mais poderosa do que qualquer partido ou candidato.
Não se trata apenas de um novo capítulo no interminável romance entre o dinheiro e o poder, mas de uma redefinição da própria política pela conjunção de dois fatores: o fim dos limites de doações eleitorais por parte das empresas e a renúncia por parte da imprensa ao exame dos conteúdos das campanhas. Resulta um sistema no qual um pequeno círculo de conselheiros mobiliza montantes surrealistas para orientar o voto para os seus clientes. Este “complexo eleitoral dinheiro-mídia” constitui presentemente uma força temível, subtraída a qualquer forma de regulação, liberada de qualquer obrigação de prudência por uma imprensa que capitulou. Esta máquina é permanentemente mediada por cadeias comerciais de televisão que faturaram, em 2010, 3 bilhões de dólares graças à publicidade política”. [4]
No Brasil este sistema foi legalizado em governos anteriores. A lei que libera o financiamento das campanhas por interesses privados é de 1997 [5]. Podem contribuir com até 2% do patrimônio, o que representa muito dinheiro. Os professores Wagner Pralon Mancuso e Bruno Speck, respectivamente da USP e da Unicamp, estudaram os impactos. “Os recursos empresariais ocupam o primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral)”. [6]
E a deformação é sistêmica: além de amarrar os futuros eleitos, quando uma empresa “contribui” e portanto prepara o seu acesso privilegiado aos contratos públicos, as outras se vêm obrigadas a seguir o mesmo caminho, para não se verem alijadas. E o candidato que não tiver acesso aos recursos, simplesmente não será eleito. Todos ficam amarrados. Começa a girar a grande quantidade de dinheiro no sistema eleitoral. Criminalizar as empresas, ou as pessoas, não vai resolver, ainda mais se os criminalizados são apenas de um lado do espectro político. É preciso corrigir o sistema.
Mas custos econômicos incomparavelmente maiores resultam do impacto indireto, pela deformação do processo decisório na máquina pública, apropriada por corporações. O resultado, no caso de São Paulo, por exemplo, de eleições municipais apropriadas por empreiteiras e montadoras, são duas horas e quarenta minutos que o cidadão médio perde no trânsito por dia. Só o tempo perdido, multiplicando as horas pelo PIB do cidadão paulistano e pelos 6,5 milhões que vão trabalhar diariamente, são 50 milhões de reais perdidos por dia. Se reduzirmos em uma hora o tempo perdido pelo trabalhador a cada dia, instalando por exemplo corredores de ônibus e mais linhas de metrô. serão 20 milhões economizados por dia, 6 bilhões por ano se contarmos os dias úteis. Sem falar da gasolina, do seguro do carro, das multas, das doenças respiratórias e cardíacas e assim por diante. E estamos falando de São Paulo, mas temos Porto Alegre, Rio de Janeiro e tantos outros centros. É muito dinheiro. Significa perda de produtividade sistêmica, aumento do custo-Brasil.
Este tipo de corrupção leva a que se deformem radicalmente as prioridades do país, que se construam elefantes brancos. A deformação das prioridades mediante desvio dos recursos públicos daquilo que é útil em termos de qualidade de vida para o que é mais interessante em termos de contratos empresariais, gera um círculo vicioso, pois financia a sua reprodução.
Uma dimensão importante deste círculo vicioso, e que resulta diretamente do processo, é o sobrefaturamento. Quanto mais se eleva o custo financeiro das campanhas, conforme vimos acima com os exemplos americano e brasileiro, mais a pressão empresarial sobre os políticos se concentra em grandes empresas. Quando são poucas, e poderosas, e com muitos laços políticos, a tendência é a distribuição organizada dos contratos, o que por sua vez reduz a concorrência pública a um simulacro, e permite elevar radicalmente o custo dos grandes contratos. Os lucros assim adquiridos permitirão financiar a campanha seguinte.
Se juntarmos o crescimento do custo das campanhas, os custos do sobre-faturamento das obras, e sobre tudo o custo da deformação das grandes opções de uso dos recursos públicos, estamos falando em muitas dezenas de bilhões de reais. Pior: corrói o processo democrático, ao gerar uma perda de confiança popular nos processos democráticos em geral.
Não que não devam ser veiculados os interesses de diversos agentes econômicos. Mas para a isto existem as associações de classe e diversas formas de articulação. A FIESP, por exemplo, articula os interesses da classe industrial do Estado de São Paulo, e é poderosa. É a forma correta de exercer a sua função, de canalizar interesses privados. O voto deve representar cidadãos. Quando se deforma o processo eleitoral através de grandes somas de dinheiro, é o processo democrático que é deformado.
A moral da história é simples. Comprar votos é ilegal. Vincular o candidato com dinheiro não é ilegal. Já comprar o voto do candidato eleito é de novo ilegal. A conclusão é óbvia: vincula-se os interesses do candidato à empresa, o que é legal, e tem-se por atacado quatro anos de votação do candidato já eleito, sem precisar seduzi-lo a cada mês [7]. O absurdo não é inevitável. Na França, a totalidade dos gastos pelo conjunto dos 10 candidatos à presidência em 2012 foi de 74,2 milhões de euros. [8]
A grande corrupção gera a sua própria legalidade. Já escrevia Rousseau, no seu Contrato Social, em 1762, texto que hoje cumpre 250 anos: “O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o dono, se não transformar a sua força em direito e a obediência em dever” [9]. Em 1997, transformou-se o poder financeiro em direito. O direito de influenciar as leis, às quais seremos todos submetidos. Ético mesmo, é reformular o sistema, e acompanhar os países que evoluíram para regras do jogo mais inteligentes, e limitaram drasticamente o financiamento corporativo das campanhas.
(*) Ladislau Dowbor, economista, é professor da PUC de São Paulo, e consultor de várias agências das NNUU. http://dowbor.org
NOTAS
[1] “A ideia que numa democracia você deveria poder trocar a sua riqueza por maior influência sobre o que faz o governo é simplesmente errada” – Lawrence Lessig – Republic Lost: how money corrupts congress – and a plan to stop it – Twelve, New York, 2011, p. 313
[2] “Os vícios não pertencem tanto ao homem, quanto ao homem mal governado” – J.J. Rousseau, Narcisse
[3] Ver dados completos em The Economist, Of Mud and Money, September 8th 2012, p. 61; Sobre esta decisão da corte suprema americana, Hazel Henderson produziu uma excelente análise intitulada “Temos o melhor congresso que o dinheiro pode comprar” (We have the best congress money can buy).
[4] Robert W.McChesney e John Nichols – Et les spots politiques ont envahi les écrans – Le Monde Diplomatique, Manière de Voir, n. 125, Où va l’Amérique, Octobre-Novembre 2012, p. 62 – A liberação do financiamento corporativo das campanhas eleitorais foi conseguida pelo lobby conservador Citizens United, junto à Corte Suprema dos Estados Unidos, em 21 de janeiro de 2010, em nome da “liberdade de expressão”.
[5] O financiamento está baseado na Lei 9504, de 1997 “As doações podem ser provenientes de recursos próprios (do candidato); de pessoas físicas, com limite de 10% do valor que declarou de patrimônio no ano anterior no Imposto de Renda; e de pessoas jurídicas, com limite de 2%, correspondente [à declaração] ao ano anterior”, explicou o juiz Marco Antonio Martin Vargas, assessor da Presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo.” – Revista Exame, 08/06/2010, Elaine Patricia da Cruz, Entenda o financiamento de campanha no Brasil.
[6] “Pouquíssimos candidatos conseguem se eleger com pouco ou nenhum dinheiro”, comenta Mancuso, que coordena o projeto de pesquisa Poder econômico na política: a influência de financiadores eleitorais sobre a atuação parlamentar. Ver em Bruna Romão, Agência USP.
[7] No plano propositivo, há um excelente trabalho de Lawrence Lessig, professor de direito da Universidade de Harvard, Republic Lost: how money corrupts Congress and a plan to stop it, Twelve, New York 2011, em particular p. 266 e seguintes.
[8] Le Monde Diplomatique, Manière de Voir, Où va l’Amérique, Octobre-Novembre 2012, p.11
[9] “Le plus fort n’est jamais assez fort pour être toujours le maître, s’il ne transforme sa force en droit et l’obéissance en devoir”. Du Contrat Social, 1762. “Maître” em francês é muito mais forte do que “mestre” em português, implica força, controle.