Pirataria é crime, mas quer virar partido político
O tema pirataria e downloads ilegais parece que está na moda, mas, infelizmente, cada vez mais atrai gente desqualificada e desclassificada para o debate.
Na verdade, as discussões sobre o assunto são completamente estéreis, já que debate-se sobre o nada: pirataria e os downloads ilegais avançam minuto a minuto e ninguém faz nada.
O governo federal e as polícias estaduais, a quem caberia fiscalizar e punir os infratores e criminosos, não o fazem. Na prática, pela omissão, o governo brasileiro já legalizou a pirataria.
Isso ocorre de forma deliberada, pelo menos desde 2002, quando o PT subiu ao poder com Luiz Inácio Lula da Silva, herdando uma estrutura viciada e caduca que caía aos pedaços já no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso. Mas uma coisa está mais do que clara: o governo do PT, deste que assumiu a Presidência, é, no mínimo, leniente em relação a todas as formas de pirataria.
E o pior é que já existe gente defendendo abertamente o crime e pensa em se beneficiar ainda mais disso. Interessante texto publicado na edição de 25 de abril do suplemento Folhateen, da Folha de S. Paulo, mostram que avança na Europa o Partido Pirata, já presente em 26 países. Uma sueca de 23 anos foi eleita como suplente deputada pelo partido ao Parlamento Europeu.
Aqui no Brasil existe um embrião do tal Partido Pirata, criado em 2007, mas ainda ínfimo e desconhecido. A plataforma política é totalmente estapafúrdia: legalizar os downloads de qualquer coisa na internet, lesando artistas de todas as espécies e cuspindo nos direitos autorais, entre outras bobagens.
Na França, por exemplo, pretendem derrubar no Parlamento a chamada lei Hadopi, que dá poderes ao governo desconectar, multar e até prender quem baixar arquivos ilegais na rede. Por enquanto estão muito longe do objetivo, e tomara que fiquem cada vez mais longe.
O que esses energúmenos que fazem parte do tal partido pregam é crime e incitação ao crime. Precisam ser processados e, de preferência, condenados.
Está claro que todos os que lidam com cultura e obras artísticas vão precisar encontrar meios de evitar a apropriação descontrolada de conteúdo digital ilegal. Afinal, está mais do que claro que hoje é impossível deter o avanço tecnológico que possibilita a disseminação da pirataria de forma indiscriminada, mas nem por isso devemos aceitar que a internet vire terra de ninguém.
Espaço coordenado pelo jornalista paulistano Marcelo Moreira para trocas de idéias, de preferência estapafúrdias, e preferencialmente sobre música, esportes, política e economia, com muita pretensão e indignação.
sábado, julho 23, 2011
quarta-feira, julho 20, 2011
No lugar errado, na hora errada. Será que vale a pena?
Bar novo e frequentado por roqueiros e apreciadores do blues. Nas telas de plasma, só o pior do soft rock nacional. Mas eis que surge Nando Reis, ex-Titãs, em algum programa da MTV nacional, na praia, para incomodar os presentes.
Acústico, anódino, insípido e incolor, sua música soa como ruído chato, até que alguém resolve prestar a atenção, na mesa ao lado, e consegue ver Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, fazendo uma “participação especial”, assim como viria depois outro chato do politicamente correto, Samuel Rosa, do Skank.
Os comentários radicais foram instantâneos: “Vendido”, “traíra”, “traidor”, “oportunista” foram os mais leves impropérios. Merecidos? Depende do nível de radicalismo. Seja como for, o fato de Kisser brincar de tocar violão em um “especial” de TV de Nando Reis incomodou, e ainda incomoda.
A conversa está fora de moda, em tempos nojentos e asquerosos do politicamente correto. De certa forma, o radicalismo é coisa do passado – e é bom que seja mesmo, principalmente na política brasileira, onde ainda existem remotas ameaças de grupelhos atrasados e medievais de extrema-esquerda de conseguirem passar suas “plataformas” estapafúrdias no governo Dilma Roussef.
No rock, o radicalismo, ao contrário, sempre foi saudável, pois é fundamental para manter certas coisas em seus devidos lugares e para chutar as cabeças de gente mimada que não tolera críticas aos seus artistas amados e insuportáveis – para não dizer péssimos. Talvez esse tenha sido o maior legado do movimento punk, especialmente o da vertente 1977.
Que Andreas Kisser é um arroz de festa em São Paulo não resta dúvida. Além de Nando Reis, já teve algum contato musical com seres tão díspares como Arnaldo Antunes e Júnior, o irmão da Sandy. Para os mais radicais, houve ainda a participação no CD solo de Hudson Cadorini, da dupla sertaneja horrenda Edson e Hudson – neste caso, críticas injustas, pois o CD solo do cidadão é totalmente hard e heavy.
Chamar o guitarrista do Sepultura de oportunista, no entanto, não é correto, já que ele nunca escondeu suas influências e jamais negou que gostaria de tocar com outros artistas. Seu primeiro álbum solo, “Hubris I and II”, é um exemplo claro de sua versatilidade, fazendo experimentações e passeando por estilos completamente opostos ao thrash metal de qualidade que sempre fez no Sepultura.
A questão que fica para fãs e críticos é a seguinte: o que acrescenta à carreira de Kisser tocar violão na praia com Nando Reis? Ou eventualmente tocar em algum show ou participar de álbum de algum artista de MPB?
Kisser integra um time de ponta do heavy metal internacional, ainda que não esteja mais no auge. Assim sendo, se a deia é ampliar horizontes, então que seja com gente do mesmo patamar técnico e criativo, que realmente possa acrescentar algo, como os amigos do Metallica e do Megadeth, como Lemmy, do Motorhead, ou o pessoal do cast da gravadora Roadrunner, que já se reuniu para várias jams e covers e eventos da empresa.
Kisser se rebaixa ao fazer concessões e participações inusitadas? Não usaria esse termo, até em respeito a ele e aos artistas que o convidam. Mas não dá para deixar o estranhamento de lado quando vejo alguém do porte de Andreas Kisser fazendo música pop insossa em um DVD de um músico que já foi roqueiro dos bons e que hoje prefere a MPB.
O guitarrista perde tempo com essas participações? Talvez sim, talvez não. Mas não consigo evitar a sensação de que há algo sendo despediçado. Não acho que chega ao ponto de macular a carreira de um dos instrumentistas mais respeitados do heavy metal internacional, ou de abalroar sua credibilidade.
Quando se fala de um artista deste porte, de qualidade inquestionável, é preciso se levar em conta suas ambições artísticas, por mais esquisitas que sejam – quem não se lembra de Kirk Hammett, guitarrista do Metallica, tocando e produzindo álbuns para artistas pop estapafúrdios nos anos 90?
Quem sabe se todo mundo não lucrasse mais com um “Hubris III” ou “Hubris IV”? Se a ideia é buscar horizontes e experiências diferentes, então seu trabalho solo está no caminho correto. Seria um “tropeço” ou um “deslize” quando Kisser resolve aceitar um convite como o de Nando Reis?
O radicalismo no rock continua sendo saudável, especialmente no metal. É um subgênero que faz questão de preservar a memória e as tradições. Certas intolerâncias são necessárias para que artistas consagrados jamais esqueçam seu legado.
Andreas Kisser jamais esquecerá o seu legado e a sua origem. O duro é er de ouvir os tais impropérios na mesa ao lado e, mesmo se eu quisesse, não ter argumentos para rebater depois de ver o guitarrista do Sepultura fazendo base no violão para as canções esquecíveis de Nando Reis…
Bar novo e frequentado por roqueiros e apreciadores do blues. Nas telas de plasma, só o pior do soft rock nacional. Mas eis que surge Nando Reis, ex-Titãs, em algum programa da MTV nacional, na praia, para incomodar os presentes.
Acústico, anódino, insípido e incolor, sua música soa como ruído chato, até que alguém resolve prestar a atenção, na mesa ao lado, e consegue ver Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, fazendo uma “participação especial”, assim como viria depois outro chato do politicamente correto, Samuel Rosa, do Skank.
Os comentários radicais foram instantâneos: “Vendido”, “traíra”, “traidor”, “oportunista” foram os mais leves impropérios. Merecidos? Depende do nível de radicalismo. Seja como for, o fato de Kisser brincar de tocar violão em um “especial” de TV de Nando Reis incomodou, e ainda incomoda.
A conversa está fora de moda, em tempos nojentos e asquerosos do politicamente correto. De certa forma, o radicalismo é coisa do passado – e é bom que seja mesmo, principalmente na política brasileira, onde ainda existem remotas ameaças de grupelhos atrasados e medievais de extrema-esquerda de conseguirem passar suas “plataformas” estapafúrdias no governo Dilma Roussef.
No rock, o radicalismo, ao contrário, sempre foi saudável, pois é fundamental para manter certas coisas em seus devidos lugares e para chutar as cabeças de gente mimada que não tolera críticas aos seus artistas amados e insuportáveis – para não dizer péssimos. Talvez esse tenha sido o maior legado do movimento punk, especialmente o da vertente 1977.
Que Andreas Kisser é um arroz de festa em São Paulo não resta dúvida. Além de Nando Reis, já teve algum contato musical com seres tão díspares como Arnaldo Antunes e Júnior, o irmão da Sandy. Para os mais radicais, houve ainda a participação no CD solo de Hudson Cadorini, da dupla sertaneja horrenda Edson e Hudson – neste caso, críticas injustas, pois o CD solo do cidadão é totalmente hard e heavy.
Chamar o guitarrista do Sepultura de oportunista, no entanto, não é correto, já que ele nunca escondeu suas influências e jamais negou que gostaria de tocar com outros artistas. Seu primeiro álbum solo, “Hubris I and II”, é um exemplo claro de sua versatilidade, fazendo experimentações e passeando por estilos completamente opostos ao thrash metal de qualidade que sempre fez no Sepultura.
A questão que fica para fãs e críticos é a seguinte: o que acrescenta à carreira de Kisser tocar violão na praia com Nando Reis? Ou eventualmente tocar em algum show ou participar de álbum de algum artista de MPB?
Kisser integra um time de ponta do heavy metal internacional, ainda que não esteja mais no auge. Assim sendo, se a deia é ampliar horizontes, então que seja com gente do mesmo patamar técnico e criativo, que realmente possa acrescentar algo, como os amigos do Metallica e do Megadeth, como Lemmy, do Motorhead, ou o pessoal do cast da gravadora Roadrunner, que já se reuniu para várias jams e covers e eventos da empresa.
Kisser se rebaixa ao fazer concessões e participações inusitadas? Não usaria esse termo, até em respeito a ele e aos artistas que o convidam. Mas não dá para deixar o estranhamento de lado quando vejo alguém do porte de Andreas Kisser fazendo música pop insossa em um DVD de um músico que já foi roqueiro dos bons e que hoje prefere a MPB.
O guitarrista perde tempo com essas participações? Talvez sim, talvez não. Mas não consigo evitar a sensação de que há algo sendo despediçado. Não acho que chega ao ponto de macular a carreira de um dos instrumentistas mais respeitados do heavy metal internacional, ou de abalroar sua credibilidade.
Quando se fala de um artista deste porte, de qualidade inquestionável, é preciso se levar em conta suas ambições artísticas, por mais esquisitas que sejam – quem não se lembra de Kirk Hammett, guitarrista do Metallica, tocando e produzindo álbuns para artistas pop estapafúrdios nos anos 90?
Quem sabe se todo mundo não lucrasse mais com um “Hubris III” ou “Hubris IV”? Se a ideia é buscar horizontes e experiências diferentes, então seu trabalho solo está no caminho correto. Seria um “tropeço” ou um “deslize” quando Kisser resolve aceitar um convite como o de Nando Reis?
O radicalismo no rock continua sendo saudável, especialmente no metal. É um subgênero que faz questão de preservar a memória e as tradições. Certas intolerâncias são necessárias para que artistas consagrados jamais esqueçam seu legado.
Andreas Kisser jamais esquecerá o seu legado e a sua origem. O duro é er de ouvir os tais impropérios na mesa ao lado e, mesmo se eu quisesse, não ter argumentos para rebater depois de ver o guitarrista do Sepultura fazendo base no violão para as canções esquecíveis de Nando Reis…
domingo, julho 17, 2011
POr que o Rio continua sendo o túmulo do rock?
O Iron Maiden tinha acabado fazer um show debaixo de muita chuva no estacionamento do Anhembi, em São Paulo, para mais de 30 mil pessoas, em dezembro de 1998. Poucas pessoas sabiam, mas aqueles shows pela América do Sul eram a despedida do vocalista Blaze Bayley – nem ele mesmo sabia disso.
A banda voou para o Rio no dia seguinte, onde tocaria na enorme casa noturna que muda de nome a cada patrocinador (Claro Hall? ATL Hall? Imperator?). Foram colocados 10 mil ingressos à venda, mas nem 8 mil foram vendidos. O evento quase deu prejuízo aos produtores, que definiram ali mesmo: Iron no Rio novamente, só em festival, e olhe lá.
Um outro produtor de shows conhecido no mercado decretou algo que o músico Lobão sempre disse em relação à cidade do Rio de Janeiro: é o túmulo do rock. Nos últimos 15 anos, foram incontáveis as turnês internacionais que passaram pelo Brasil, com bandas de grande, médio e pequeno portes, e ignoraram o Rio. Quem insistiu, teve shows cancelados, como a excelente banda de thrash Death Angel, em outubro passado.
Até mesmo o Anvil, banda canadense que voltou à cena e a ter manchetes por conta de um maravilhoso documentário sobre a sua carreira, tocou em São Paulo e em Catanduva, mas ignorou o Rio. Os shows internacionais são cada vez mais esporádicos, e isso acontece há muito tempo.
E olha que 2010 nem foi tão ruim assim, com shows de gente como Manowar, Epica, Marduk e Blaze Bayley. O chato é que o público em todos os shows foi pequeno, muito aquém do esperado para atrações desse nível – parabéns para os heróis que promoveram esses eventos.
Para a grande sorte do roqueiro carioca, parece que o cenário rocker, que começou a ser ressuscitado no ano passado, promete retirar o gênero da tumba na terra do carnaval. Neste primeiro semestre tocam na cidade Ozzy Osbourne, Avenged Sevenfold, Doro Pesch, Tarja Turunen e D.R.I., entre outros. Será que serão suficientes para resgatar o interesse do público da cidade pelo rock? Acho difícil, mas a torcida será grande.
O chato é que bandas brasileiras de rock de nível internacional, como Angra, Korzus, Shaman, Krisiun e Hangar, tocam bem menos do que deveriam na cidade. Renato Tribuzy, vocalista e responsável pelo projeto Tribuzy, que gravaou CD e trouxe a São Paulo uma constelação de craques para um show – Ralf Scheepers, Bruce Dickinson, Kai Hansen e vários outros – é carioca, mas pouco se ouve falar de seus projetos na cidade.
Prejuízos
Por que o cidade natal do Rock in Rio despreza tanto o gênero quando ele resolve se manifestar fora do festival? Sobram teorias e explicações das mais diversas e contraditórias, mas o consenso está cada vez mais distante. Uma coisa é certa: produtores de shows de grande e médio portes, se puderem, fogem da cidade.
“O prejuízo é certo. Se não for um megaevento histórico, como Rush, Paul McCartney, U2, AC/DC, Rolling Stones, que vêm ao Brasil a cada cinco ou dez anos, esqueça o Rio. É mais garantido investir em Curitiba ou Porto Alegre, com um público cativo de rock. Até mesmo Belo Horizonte é mais interessante. Para shows de médio porte, o Rio perde até mesmo para Brasília, Goiânia e várias cidades do interior paulista”, diz um experiente produtor de nível internacional que atua no Brasil e na Argentina, mas que pediu para não ser identificado.
Ele evita perder tempo em procurar explicações. “Não faz diferença. Existe um fato: o carioca gosta menos de rock do que o paulista e o gaúcho, que são povos mais aficionados, e mais ligados na música internacional, mais curiosos com o que vem do exterior. Enquanto quase todos os shows de grande porte acabam tendo show extra em São Paulo, o memso evento raramente vende 70% 08 80% dos ingressos no Rio em local bem menor – isso quando o evento também é marcado para a cidade. A diferença é abissal.”
Rock sepultado
Lobão, carioca que se mudou para São Paulo em 2007, filosofa na hora de falar sobre o assunto, mesmo que em tom gerenalista. “O principal fator para eu sair do Rio foi ter sentido que a cidade perdeu o ’tom’ do rock’n roll. O cenário do rock e tudo que se refere ao gênero estão em São Paulo. Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio é o túmulo do rock”, afirmou à revista Quem em 2009 e ao Jornal da Tarde em 2010.
Eric Mattos tem quase 30 anos e já pasou por Curitiba antes de se estabelecer em São Paulo há sete anos. Deixou Niterói, onde nasceu e tocou em quase 20 bandas de metal e punk, para trabalhar com música e computação em outro lugar.
“Há roqueiro de monte no Rio e em Niterói, mas não há cena. Há é muita preguiça e falta de interesse. Cansei de tocar para 20 pessoas em boteco e praça na minha cidade, sabendo que todos os meus amigos preferiam estar na praia ou vendo jogo de futebol de várzea. Nem meus primos, que são todos roqueiros e tocam instrumentos, iam me ver tocar como eu ia vê-los. Chega uma hora que não dá”, diz o músico fluminense.
Em Curitiba não tocou profissionalmente, mas não perdia um show de rock aos finais de semana. “Dependendo da banda, tinha de implorar por um ingresso, de tão lotado que ficava. Tudo bem, nem eram tantos lugares assim com shows de rock, mas havia público para todos, até mesmo para os batidos covers de rock nacional. Em vários shows de bandas locais não consegui entrar no bar. Jamais vi isso em Niterói ou no Rio, onde existem bandas espetaculares, mas que não tocam mais”, afirma Mattos.
Em São Paulo, ele tenta conciliar o trabalho de programador com o de integrante da produção de vários shows internacionais. “Nem dá tempo para pensar. Há show de tudo quanto é tipo em São Paulo, as opções são tantas que fica difícil acompanhar. Claro que nem todos são um sucesso, há aqueles com pouco público, mas assim mesmo é vantajoso para quem trabalha nesta área, para quem investe. Não tem público hoje, mas tem amanhã. E as bandas locais conseguem ao menos levar uma galera para seus shows. As melhores bandas de Niterói nem sonham com uma cena dessas.”
Longe da perfeição, mas sem comparação
Claro nem tudo é a maravilha que se pensa em São Paulo, ao menos em relação aos shows menores. Não é por outro motivo que o vocalista Thiago Bianchi, do Shaman, divulgou dois manifestos recentes a respeito da dificuldade que bandas brasileiras de metal em geral encontram para tocar com regularidade, seja em São Paulo, seja no resto do país.
Os paulistanos do Kavla suaram bastante quando reformaram a banda, em 2005, para divulgar EP “Impersonal World”. Os santistas do Shadowside também tiveram de batalhar muito para conseguir tocar com regularidade em São Paulo entre 2006 e 2008. E assim caminha o esforço de quem faz rock de qualidade.
Os gaúchos do Holiness e do Hangar colhem agora o resultado de muito trabalho nos últimos três anos e têm conseguido um público considerado muito bom em shows em São Paulo, tanto na capital como interior, e no Paraná.
O Hangar até conseguiu um onibus de turnê de um patrocinador para levar seus “workshows” a vários lugares do Brasil. Lamentavelmente, as aparições das duas bandas no Rio são cada vez mais raras. “No Rio, só workshop mesmo do Aquiles Priester (bateria), e para poucas pessoas. Show ou workshow não dá para programar”, disse um produtor paulista de bandas nacionais, que também prefere o anonimato.
Resignação
O tema é tão incômodo que os músicos carioca de rock e metal evitam falar no assunto. Pelo menos quatro artistas – de quatro bandas diferentes - foram procurados pelo Combate Rock para falar sobre o assunto, mas, educadamente, se esquivaram. Um deles apenas comentou resignado: “Se para ir a show legal tenho de ir a São Paulo, imagina então esperar por público para a minha banda…”
Das muitas conversas que tive nos últimos tempos com amigos jornalistas cariocas, com produtores e músicos ainda em busca de um espaço no mercado, deu para fazer um pequeno apanhado de explicações esparsas sobre o pouco público roqueiro no Rio – e só para registrar, foram pouquíssimos os que discordaram da minha tese:
- O Rio historicamente é uma cidade com diversidade cultural muito grande, assim como Salvador e Recife. Há atrações culturais regionais e locais em grande quantidade. Haveria, então de certa forma, uma autossuficiência neste quesito;
- Assim como Salvador e Recife, o Rio é uma cidade que tem praia, o que por si só já é uma atração e tanto. Muita gente fica muito tempo na praia, que um local de diversão gratuito e com estrutura, seja ela qual for, barata, ou até mesmo gratuita. As pessoas procuram ali mesmo por diversões culturais com baixo custo. Isso explicaria, de certa forma, o “ecletismo” do carioca, que teria menos preconceito em relação a ir a um show de rock e também a um de pagode. A questão é de cunho financeiro;
- O cosmopolitismo do Rio de Janeiro, tão acentuado como o de São Paulo, não foi suficiente para abrir espaço grande para o rock, que encontrou uma sólida cultura arraigada de samba e pagode – e o funk carioca dos morros surgiu para acentuar eesa característica. Para complicar ainda mais, são todos segmentos culturais que, se não são de baixo custo, apresentam custos bem menores do que o rock.
- Um show internacional, por mais barato que custe, não sai por menos de R$ 50 no Rio. Por esse valor, o carioca médio assiste a pele menos cinco apresentações de artistas representativos de outros estilos – quando não esses eventos são gratuitos. Shows de metal de bandas brasileiras de qualidade não custam menos de R$ 30 o ingresso. As apresentações de bandas locais, por sua vez, têm dificuldade de concorrer com outras atrações de baixo custo, como ensaios de escola de samba ou rodas de samba em bairros importantes como Vila Isabel e Tijuca.
- Assim sendo, o ecletismo e a tolerância com várias manifestações culturais acabam prejudicando o rock. A cultura urbana do Rio, assim, teria sido direcionada culturalmente para valorizar as atrações locais e de baixo custo, enquanto que a cultura urbana paulistana, sem tantas opções “naturais”, abriu-se mais para o cosmopolitismo e para manifestações culturais estrangeiras com mais assiduidade.
Pode ser tudo isso ou nada isso, por mais que algumas explicações façam sentido. Ainda sigo em busca de uma explicação para o pouco caso com o rock na Cidade Maravilhosa. Alguém quer acrescentar algo?????????
O Iron Maiden tinha acabado fazer um show debaixo de muita chuva no estacionamento do Anhembi, em São Paulo, para mais de 30 mil pessoas, em dezembro de 1998. Poucas pessoas sabiam, mas aqueles shows pela América do Sul eram a despedida do vocalista Blaze Bayley – nem ele mesmo sabia disso.
A banda voou para o Rio no dia seguinte, onde tocaria na enorme casa noturna que muda de nome a cada patrocinador (Claro Hall? ATL Hall? Imperator?). Foram colocados 10 mil ingressos à venda, mas nem 8 mil foram vendidos. O evento quase deu prejuízo aos produtores, que definiram ali mesmo: Iron no Rio novamente, só em festival, e olhe lá.
Um outro produtor de shows conhecido no mercado decretou algo que o músico Lobão sempre disse em relação à cidade do Rio de Janeiro: é o túmulo do rock. Nos últimos 15 anos, foram incontáveis as turnês internacionais que passaram pelo Brasil, com bandas de grande, médio e pequeno portes, e ignoraram o Rio. Quem insistiu, teve shows cancelados, como a excelente banda de thrash Death Angel, em outubro passado.
Até mesmo o Anvil, banda canadense que voltou à cena e a ter manchetes por conta de um maravilhoso documentário sobre a sua carreira, tocou em São Paulo e em Catanduva, mas ignorou o Rio. Os shows internacionais são cada vez mais esporádicos, e isso acontece há muito tempo.
E olha que 2010 nem foi tão ruim assim, com shows de gente como Manowar, Epica, Marduk e Blaze Bayley. O chato é que o público em todos os shows foi pequeno, muito aquém do esperado para atrações desse nível – parabéns para os heróis que promoveram esses eventos.
Para a grande sorte do roqueiro carioca, parece que o cenário rocker, que começou a ser ressuscitado no ano passado, promete retirar o gênero da tumba na terra do carnaval. Neste primeiro semestre tocam na cidade Ozzy Osbourne, Avenged Sevenfold, Doro Pesch, Tarja Turunen e D.R.I., entre outros. Será que serão suficientes para resgatar o interesse do público da cidade pelo rock? Acho difícil, mas a torcida será grande.
O chato é que bandas brasileiras de rock de nível internacional, como Angra, Korzus, Shaman, Krisiun e Hangar, tocam bem menos do que deveriam na cidade. Renato Tribuzy, vocalista e responsável pelo projeto Tribuzy, que gravaou CD e trouxe a São Paulo uma constelação de craques para um show – Ralf Scheepers, Bruce Dickinson, Kai Hansen e vários outros – é carioca, mas pouco se ouve falar de seus projetos na cidade.
Prejuízos
Por que o cidade natal do Rock in Rio despreza tanto o gênero quando ele resolve se manifestar fora do festival? Sobram teorias e explicações das mais diversas e contraditórias, mas o consenso está cada vez mais distante. Uma coisa é certa: produtores de shows de grande e médio portes, se puderem, fogem da cidade.
“O prejuízo é certo. Se não for um megaevento histórico, como Rush, Paul McCartney, U2, AC/DC, Rolling Stones, que vêm ao Brasil a cada cinco ou dez anos, esqueça o Rio. É mais garantido investir em Curitiba ou Porto Alegre, com um público cativo de rock. Até mesmo Belo Horizonte é mais interessante. Para shows de médio porte, o Rio perde até mesmo para Brasília, Goiânia e várias cidades do interior paulista”, diz um experiente produtor de nível internacional que atua no Brasil e na Argentina, mas que pediu para não ser identificado.
Ele evita perder tempo em procurar explicações. “Não faz diferença. Existe um fato: o carioca gosta menos de rock do que o paulista e o gaúcho, que são povos mais aficionados, e mais ligados na música internacional, mais curiosos com o que vem do exterior. Enquanto quase todos os shows de grande porte acabam tendo show extra em São Paulo, o memso evento raramente vende 70% 08 80% dos ingressos no Rio em local bem menor – isso quando o evento também é marcado para a cidade. A diferença é abissal.”
Rock sepultado
Lobão, carioca que se mudou para São Paulo em 2007, filosofa na hora de falar sobre o assunto, mesmo que em tom gerenalista. “O principal fator para eu sair do Rio foi ter sentido que a cidade perdeu o ’tom’ do rock’n roll. O cenário do rock e tudo que se refere ao gênero estão em São Paulo. Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio é o túmulo do rock”, afirmou à revista Quem em 2009 e ao Jornal da Tarde em 2010.
Eric Mattos tem quase 30 anos e já pasou por Curitiba antes de se estabelecer em São Paulo há sete anos. Deixou Niterói, onde nasceu e tocou em quase 20 bandas de metal e punk, para trabalhar com música e computação em outro lugar.
“Há roqueiro de monte no Rio e em Niterói, mas não há cena. Há é muita preguiça e falta de interesse. Cansei de tocar para 20 pessoas em boteco e praça na minha cidade, sabendo que todos os meus amigos preferiam estar na praia ou vendo jogo de futebol de várzea. Nem meus primos, que são todos roqueiros e tocam instrumentos, iam me ver tocar como eu ia vê-los. Chega uma hora que não dá”, diz o músico fluminense.
Em Curitiba não tocou profissionalmente, mas não perdia um show de rock aos finais de semana. “Dependendo da banda, tinha de implorar por um ingresso, de tão lotado que ficava. Tudo bem, nem eram tantos lugares assim com shows de rock, mas havia público para todos, até mesmo para os batidos covers de rock nacional. Em vários shows de bandas locais não consegui entrar no bar. Jamais vi isso em Niterói ou no Rio, onde existem bandas espetaculares, mas que não tocam mais”, afirma Mattos.
Em São Paulo, ele tenta conciliar o trabalho de programador com o de integrante da produção de vários shows internacionais. “Nem dá tempo para pensar. Há show de tudo quanto é tipo em São Paulo, as opções são tantas que fica difícil acompanhar. Claro que nem todos são um sucesso, há aqueles com pouco público, mas assim mesmo é vantajoso para quem trabalha nesta área, para quem investe. Não tem público hoje, mas tem amanhã. E as bandas locais conseguem ao menos levar uma galera para seus shows. As melhores bandas de Niterói nem sonham com uma cena dessas.”
Longe da perfeição, mas sem comparação
Claro nem tudo é a maravilha que se pensa em São Paulo, ao menos em relação aos shows menores. Não é por outro motivo que o vocalista Thiago Bianchi, do Shaman, divulgou dois manifestos recentes a respeito da dificuldade que bandas brasileiras de metal em geral encontram para tocar com regularidade, seja em São Paulo, seja no resto do país.
Os paulistanos do Kavla suaram bastante quando reformaram a banda, em 2005, para divulgar EP “Impersonal World”. Os santistas do Shadowside também tiveram de batalhar muito para conseguir tocar com regularidade em São Paulo entre 2006 e 2008. E assim caminha o esforço de quem faz rock de qualidade.
Os gaúchos do Holiness e do Hangar colhem agora o resultado de muito trabalho nos últimos três anos e têm conseguido um público considerado muito bom em shows em São Paulo, tanto na capital como interior, e no Paraná.
O Hangar até conseguiu um onibus de turnê de um patrocinador para levar seus “workshows” a vários lugares do Brasil. Lamentavelmente, as aparições das duas bandas no Rio são cada vez mais raras. “No Rio, só workshop mesmo do Aquiles Priester (bateria), e para poucas pessoas. Show ou workshow não dá para programar”, disse um produtor paulista de bandas nacionais, que também prefere o anonimato.
Resignação
O tema é tão incômodo que os músicos carioca de rock e metal evitam falar no assunto. Pelo menos quatro artistas – de quatro bandas diferentes - foram procurados pelo Combate Rock para falar sobre o assunto, mas, educadamente, se esquivaram. Um deles apenas comentou resignado: “Se para ir a show legal tenho de ir a São Paulo, imagina então esperar por público para a minha banda…”
Das muitas conversas que tive nos últimos tempos com amigos jornalistas cariocas, com produtores e músicos ainda em busca de um espaço no mercado, deu para fazer um pequeno apanhado de explicações esparsas sobre o pouco público roqueiro no Rio – e só para registrar, foram pouquíssimos os que discordaram da minha tese:
- O Rio historicamente é uma cidade com diversidade cultural muito grande, assim como Salvador e Recife. Há atrações culturais regionais e locais em grande quantidade. Haveria, então de certa forma, uma autossuficiência neste quesito;
- Assim como Salvador e Recife, o Rio é uma cidade que tem praia, o que por si só já é uma atração e tanto. Muita gente fica muito tempo na praia, que um local de diversão gratuito e com estrutura, seja ela qual for, barata, ou até mesmo gratuita. As pessoas procuram ali mesmo por diversões culturais com baixo custo. Isso explicaria, de certa forma, o “ecletismo” do carioca, que teria menos preconceito em relação a ir a um show de rock e também a um de pagode. A questão é de cunho financeiro;
- O cosmopolitismo do Rio de Janeiro, tão acentuado como o de São Paulo, não foi suficiente para abrir espaço grande para o rock, que encontrou uma sólida cultura arraigada de samba e pagode – e o funk carioca dos morros surgiu para acentuar eesa característica. Para complicar ainda mais, são todos segmentos culturais que, se não são de baixo custo, apresentam custos bem menores do que o rock.
- Um show internacional, por mais barato que custe, não sai por menos de R$ 50 no Rio. Por esse valor, o carioca médio assiste a pele menos cinco apresentações de artistas representativos de outros estilos – quando não esses eventos são gratuitos. Shows de metal de bandas brasileiras de qualidade não custam menos de R$ 30 o ingresso. As apresentações de bandas locais, por sua vez, têm dificuldade de concorrer com outras atrações de baixo custo, como ensaios de escola de samba ou rodas de samba em bairros importantes como Vila Isabel e Tijuca.
- Assim sendo, o ecletismo e a tolerância com várias manifestações culturais acabam prejudicando o rock. A cultura urbana do Rio, assim, teria sido direcionada culturalmente para valorizar as atrações locais e de baixo custo, enquanto que a cultura urbana paulistana, sem tantas opções “naturais”, abriu-se mais para o cosmopolitismo e para manifestações culturais estrangeiras com mais assiduidade.
Pode ser tudo isso ou nada isso, por mais que algumas explicações façam sentido. Ainda sigo em busca de uma explicação para o pouco caso com o rock na Cidade Maravilhosa. Alguém quer acrescentar algo?????????
sexta-feira, julho 15, 2011
White metal, black metal e o preconceito nosso de cada música
Com surpresa vi recentemente o lançamento da banda norte-americana Stryper, um dos maiores expoentes do white metal, ou rock cristão – se não for a principal banda do gênero do mundo, ao lado do Petra e do Mortification. “The Covering” nada traz de novo.
Chegou ao mercado norte-americano em dezembro passado e no europeu em fevereiro. Não traz nada de novo, e aproveitou para embarcar, bem atrasada, na onda do álbum de covers.
Há coisas interessantes ali, como “Heaven and Hell”, do Black Sabbath/Heaven and Hell, “Lights Out”, do UFO, “Highway Star”, do Deep Purple, “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, e “Breaking the Law”, do Judas Priest. É apenas um bom disco, nada mais.
Entretanto, o que me chama a atenção ao ler e procurar mais informações pela internet sobre o álbum é o tom raivoso com que muitos radicais abominam a banda e sua linha filosófica, digamos assim. É a velha batalha entre os próprios roqueiros, que brigam em si defendendo gêneros, subgêneros e correntes ultra alternativas.
O Stryper é uma banda de respeito. Está prestes a completar 30 anos de carreira e já transitou pelo hard rock, pelo hard pop e pelo heavy metal. Já lançou álbuns bem ruins e outros excelentes, sempre tendo a temática religiosa de cunho cristão como carro-chefe das músicas.
Por conta disso, desde os anos 80 o Stryper é execrado pelos radicais e pelos puristas, que consideram incompatível o rock e os temas religiosos. E o pior, muita gente inteligente embarcou e embarca neste caminho equivocado, caindo invariavelmente no “não ouvi e não gostei”.
O rock sempre foi visto como “coisa do diabo” pelas várias correntes cristãs desde os anos 50 até meados dos anos 80, repetindo o que tentaram fazer com o blues e, de certa forma, com a country music voltada para temas mundanos.
Essa situação mudou bastante no Ocidente, principalmente depois que muitos jovens antenados, mas de fé, resolveram se aproveitar do rock e do metal para professar sua fé, primeiro dentro da própria comunidade, e depois para o mercado chamado secular. Venceram pelo cansaço e pela insistência e hoje tempos excelentes bandas dedicadas à louvação e à pregação.
Ainda existem bolsões de resistência total ao rock no meio religioso, especialmente nos rincões mais atrasados dos Estados Unidos e nas seitas evangélicas igualmente atrasadas no Brasil – quase todas em atividade atualmente. Boa parte do mundo islâmico também não tolera essa música “decadente”.
É óbvio, entretanto que o preconceito dos puristas apareceriam até mesmo como argumento de defesa para desqualificar a linha religiosa que o rock adotou em algumas circunstâncias. Afinal, como pode existir alguém que faça rock religioso quando a religião sempre execrou o gênero musical?
Esse pensamento enviesado e equivocado acaba por privar muita gente de muita música boa. Gente que abomina a religião acaba misturando as coisas e deixa de aproveitar o que interessa, que é a música, independente da mensagem.
Assim como existe white rock e white metal, existe o black metal, que prima pelos temas satânicos e demoníacos, geralmente. E não vejo o mesmo preconceito dos roqueiros em geral contra as bandas de black metal.
Ou seja, falar de satanismo e diabo pode, são termas tolerados pelos roqueiros médios, mas falar de temas cristãos e até mesmo pregar não pode. E o curioso é que existem bandas de metal extremo no Brasil e no mundo que fazem músicas louvando a Deus e Jesus Cristo, remetendo, obviamente, a um Slayer cristão, por mais que isso soe sacrilégio – e soa mesmo.
Seja como for, é uma insanidade ignorar bandas importantes e de boa qualidade apenas por causa da temática de suas letras. Assim como o Stryper é uma boa banda, o Mortification, da Austrália, também é.
Por outro lado, os gregos do Rotting Christ são excelentes, assim como os poloneses do Behemoth e do Vader, e de muitas outras bandas que passeiam por temas satânicos ou antirreligiosos. Esse preconceito não tem sentido. Muita gente leva a sério demais as letras alegóricas, tanto de um lado como de outro.
No campo brasileiro, é bobagem ignorar bandas ótimas como Destra e Eterna, por exemplo, que fazem white metal em inglês, ou o excelente Oficina G3, que já fez hard rock em português com letras não diretamente ligadas à religião, mas com temática filosófica que ia por esse caminho.
Assim como temos, do outro lado, coisas muito bem feitas, como Unearthly, Occultan, que fazem o mais brutal metal extremo com temas diabólicos.
É evidente que, em casos ultra-extremos, como grupos de rock ou de qualquer gênero musical, que promova e incentive mensagens racistas, nazistas e ou violentas contra grupos de seres humanos, não podem ser apoiados, mas creio ser desnecessário prolongar essa questão.
Por não professar qualquer religião ou filosofia religiosa – na verdade, por abominar qualquer tipo de religião e, por isso considerar qualquer pregação uma bobagem, assim como qualquer coisa relativa ao satanismo (suprema estupidez, na minha opinião) – talvez eu consiga lidar melhor com essa questão de white metal x black metal.
Já execrei o Stryper por ser cristão nos anos 80, até que escutei a banda pela primeira vez. Mudei de ideia quanto ao som, mas não quanto à mensagem – que continuo abominando. Mas a música era bem feita.
Existem inúmeros artistas e músicos de rock cujas mensagens em letras são obrigatórias e maravilhosas – desnecessário citar alguém. Do mesmo modo, existem milhões de outros artistas e músicos que precisam ter suas letras ignoradas, seja por má qualidade, seja por imbecilidade.
Independente de sua fé (ou falta de), talvez seja uma atitude de tolerância, ou até mesmo de mera questão informativa, ouvir white metal ou black metal sem prestar muita atenção nas mensagens, que geralmente não passam de pura bobagem na esmagadora maioria dos casos.
A música tem de prevalecer. Garanto que haverá muitas surpresas para quem se dispuser a colocar temporariamente os preconceitos de lado e procurar ouvir coisas interessantes com Stryper, Mortification, Eterna, Destra e Oficina G3, entre outros.
Com surpresa vi recentemente o lançamento da banda norte-americana Stryper, um dos maiores expoentes do white metal, ou rock cristão – se não for a principal banda do gênero do mundo, ao lado do Petra e do Mortification. “The Covering” nada traz de novo.
Chegou ao mercado norte-americano em dezembro passado e no europeu em fevereiro. Não traz nada de novo, e aproveitou para embarcar, bem atrasada, na onda do álbum de covers.
Há coisas interessantes ali, como “Heaven and Hell”, do Black Sabbath/Heaven and Hell, “Lights Out”, do UFO, “Highway Star”, do Deep Purple, “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, e “Breaking the Law”, do Judas Priest. É apenas um bom disco, nada mais.
Entretanto, o que me chama a atenção ao ler e procurar mais informações pela internet sobre o álbum é o tom raivoso com que muitos radicais abominam a banda e sua linha filosófica, digamos assim. É a velha batalha entre os próprios roqueiros, que brigam em si defendendo gêneros, subgêneros e correntes ultra alternativas.
O Stryper é uma banda de respeito. Está prestes a completar 30 anos de carreira e já transitou pelo hard rock, pelo hard pop e pelo heavy metal. Já lançou álbuns bem ruins e outros excelentes, sempre tendo a temática religiosa de cunho cristão como carro-chefe das músicas.
Por conta disso, desde os anos 80 o Stryper é execrado pelos radicais e pelos puristas, que consideram incompatível o rock e os temas religiosos. E o pior, muita gente inteligente embarcou e embarca neste caminho equivocado, caindo invariavelmente no “não ouvi e não gostei”.
O rock sempre foi visto como “coisa do diabo” pelas várias correntes cristãs desde os anos 50 até meados dos anos 80, repetindo o que tentaram fazer com o blues e, de certa forma, com a country music voltada para temas mundanos.
Essa situação mudou bastante no Ocidente, principalmente depois que muitos jovens antenados, mas de fé, resolveram se aproveitar do rock e do metal para professar sua fé, primeiro dentro da própria comunidade, e depois para o mercado chamado secular. Venceram pelo cansaço e pela insistência e hoje tempos excelentes bandas dedicadas à louvação e à pregação.
Ainda existem bolsões de resistência total ao rock no meio religioso, especialmente nos rincões mais atrasados dos Estados Unidos e nas seitas evangélicas igualmente atrasadas no Brasil – quase todas em atividade atualmente. Boa parte do mundo islâmico também não tolera essa música “decadente”.
É óbvio, entretanto que o preconceito dos puristas apareceriam até mesmo como argumento de defesa para desqualificar a linha religiosa que o rock adotou em algumas circunstâncias. Afinal, como pode existir alguém que faça rock religioso quando a religião sempre execrou o gênero musical?
Esse pensamento enviesado e equivocado acaba por privar muita gente de muita música boa. Gente que abomina a religião acaba misturando as coisas e deixa de aproveitar o que interessa, que é a música, independente da mensagem.
Assim como existe white rock e white metal, existe o black metal, que prima pelos temas satânicos e demoníacos, geralmente. E não vejo o mesmo preconceito dos roqueiros em geral contra as bandas de black metal.
Ou seja, falar de satanismo e diabo pode, são termas tolerados pelos roqueiros médios, mas falar de temas cristãos e até mesmo pregar não pode. E o curioso é que existem bandas de metal extremo no Brasil e no mundo que fazem músicas louvando a Deus e Jesus Cristo, remetendo, obviamente, a um Slayer cristão, por mais que isso soe sacrilégio – e soa mesmo.
Seja como for, é uma insanidade ignorar bandas importantes e de boa qualidade apenas por causa da temática de suas letras. Assim como o Stryper é uma boa banda, o Mortification, da Austrália, também é.
Por outro lado, os gregos do Rotting Christ são excelentes, assim como os poloneses do Behemoth e do Vader, e de muitas outras bandas que passeiam por temas satânicos ou antirreligiosos. Esse preconceito não tem sentido. Muita gente leva a sério demais as letras alegóricas, tanto de um lado como de outro.
No campo brasileiro, é bobagem ignorar bandas ótimas como Destra e Eterna, por exemplo, que fazem white metal em inglês, ou o excelente Oficina G3, que já fez hard rock em português com letras não diretamente ligadas à religião, mas com temática filosófica que ia por esse caminho.
Assim como temos, do outro lado, coisas muito bem feitas, como Unearthly, Occultan, que fazem o mais brutal metal extremo com temas diabólicos.
É evidente que, em casos ultra-extremos, como grupos de rock ou de qualquer gênero musical, que promova e incentive mensagens racistas, nazistas e ou violentas contra grupos de seres humanos, não podem ser apoiados, mas creio ser desnecessário prolongar essa questão.
Por não professar qualquer religião ou filosofia religiosa – na verdade, por abominar qualquer tipo de religião e, por isso considerar qualquer pregação uma bobagem, assim como qualquer coisa relativa ao satanismo (suprema estupidez, na minha opinião) – talvez eu consiga lidar melhor com essa questão de white metal x black metal.
Já execrei o Stryper por ser cristão nos anos 80, até que escutei a banda pela primeira vez. Mudei de ideia quanto ao som, mas não quanto à mensagem – que continuo abominando. Mas a música era bem feita.
Existem inúmeros artistas e músicos de rock cujas mensagens em letras são obrigatórias e maravilhosas – desnecessário citar alguém. Do mesmo modo, existem milhões de outros artistas e músicos que precisam ter suas letras ignoradas, seja por má qualidade, seja por imbecilidade.
Independente de sua fé (ou falta de), talvez seja uma atitude de tolerância, ou até mesmo de mera questão informativa, ouvir white metal ou black metal sem prestar muita atenção nas mensagens, que geralmente não passam de pura bobagem na esmagadora maioria dos casos.
A música tem de prevalecer. Garanto que haverá muitas surpresas para quem se dispuser a colocar temporariamente os preconceitos de lado e procurar ouvir coisas interessantes com Stryper, Mortification, Eterna, Destra e Oficina G3, entre outros.
quarta-feira, julho 13, 2011
‘Seventh Star’, outro álbum cult e de qualidade do Black Sabbath
Glenn Hughes estava nervoso nos camarins do antigo Tom Brasil, no bairro do Itaim-Bibi, na zona sul de São Paulo. A casa era sofisticada, moderna e com ótimos recursos acústicos. Era raro que roqueiros se apresentassem ali, e o ex-baixista e vocalista do Deep Purple era o maior nome internacional a tocar ali até então – 1999.
Era a terceira visita ao Brasil, mas somente o segundo show em terras brasileiras. Ele havia prometido uma grande surpresa ao público brasileiro, uma música que nunca havia tocado em sua carreira solo.
Os mais fanáticos especulavam qual seria a surpresa e a maioria não pensou duas vezes: cravou “No Stranger to Love”, ótima balada gravada por ele na rápida e conturbada passagem pelo Black Sabbath em 1986. A aposta foi certeira e a música trouxe abaixo o Tom Brasil, com o público de 2 mil pessoas cantando alto a bela música do álbum “Seventh Star”.
Pois esse álbum do Black Sabbath, assim como “Born Again”, virou cult na América do Sul. A produção e a mixagem não foram toscas e malfeitas como no álbum de três anos antes, em que Ian Gillan foi o vocalista. Entretanto, as gravações e a própria construção do trabalho foram extremamente conturbadas.
“Seventh Star” era para ser um álbum solo de Tony Iommi após a saída de Ian Gillan do Black Sabbath em 1984. O futuro incerto e a dificuldade de encontrar um vocalista no ano seguinte fizeram com que o baixista Geezer Butler também saísse bem no meio dos testes realizados com os cantores Dave Donato e Jeff Fenholt.
Decidido a fazer um álbum solo e congelar temporariamente o Sabbath, Iommi convidou vários amigos para cantar no álbum, entre eles Gillan, Glenn Hughes, Robert Plant, Rob Halford e Geoff Tate, então emergente no Queensryche. Os dois primeiros aceitaram na hora.
Durante as gravações, no final de 1985, a gravadora mudou os planos de forma asquerosa e colocou o guitarrista na parede: ou o álbum saía com o nome do Black Sabbath ou seria cancelado. Ao mesmo tempo, apenas Hughes já tinha feito a sua parte – os outros voclaistas estavam sem tempo para participar.
O jeito foi convencer Hughes a cantar o álbum todo – o vocalista revelou mais tarde, em São Paulo, em 1994, sua mágoa por ter descoberto que seria um CD do Black Sabath somente após as mixagens.
Seja como for, “Seventh Star” é um álbum irregular, desconexo, sem um elo que conseguisse ligar faixas tão distintas e heterogêneas – exatamente como em “Born Again”, só que de forma mais acentuada. Entretanto, a produção se esmerou em tentar dar uma “cara” para o trabalho e, de certa forma, foi bem-sucedida.
Mesmo em seu inferno astral particular, afundado no álcool e nas drogas, Glenn Hughes fez um trabalho digno e bastante aceitável. Cantou muito na pesada e rápida ”In For the Kill”, mostrou que tem o blues no sangue na excelente “Heart Like a Wheel” e muito feeling hard em “Seventh Star” e “Danger Zone”.
Naquela que seria o ponto baixo do álbum, a brega “No Stranger to Love”, o vocalista mostrou todo o seu talento e a transformou no destaque do álbum, colocando um acento bluesy em uma interpretação soberba, apesar da camada exagerada de teclados – o clipe da música teve a atriz Denise Crosby contracenando com Iommi; a moça teve papel de destaque na série “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração, como a tenente Natasha Yar.
“Seventh Star” teve uma trajetória errática nas paradas, assim como “Born Again”. Se este inicialmente vendeu bem nos Estados Unidos para depois cair no esquecimento no resto do mundo no biênio 1983-1984, o álbum com Hughes passou despercebido desde o começo, apesar do sucesso inicial de “No Stranger to Love” nas rádios e na MTV.
A turnê de 1986 do álbum foi um fracasso, com desavenças entre os músicos e a substituição de Hughes por Ray Gillan no quinto show norte-americano. Muitos shows foram cancelados e Iommi rezou para que os shows acabassem.
O trabalho “Seventh Star” foi redescoberto graças a reedição de todo o catálogo do Black Sabbath em LP na Argentina e na estreia em CD do álbum no Brasil, em 1989. Nostalgia ou não, o fato é que foram necessárias seis prensagens portenhas de “Seventh Star”, “Eternal Idol”, “Headless Cross” e “Tyr” em LP para saciar a sede dos argentinos.
Por conta das importações dos vinis da Argentina, que viraram objetos de desejos dos fãs brasileiros, a Universal rapidamente providenciou uma reedição dos quatro álbuns tanto em LP como e em CD. E o sucesso foi ainda maior do que na Argentina. Pouco tempo depois “Born Again” voltou ao mercado, com sucesso igual.
Por que “Seventh Star” também é cultuado no Brasil como “Born Again”? O disco com Gillan, ao menos, é uma obra-prima, com ótimas músicas (“Trashed”, “Hot Line” e “Disturbing the Priest” se tornaram clássicos, mesmo que tardiamente).
“Seventh Star” está longe de ter a mesma qualidade que “Born Again”. Foi um álbum feito às pressas e teve uma quantidade imensa de problemas na definição dos músicos e nas gravações. Mesmo assim, tecnicamente apresenta um resultado superior ao de “Born Again” – graças à mixagem de Jeff Glixman, Ray Staff e Greg Fulginiti.
Quem tem a chave para entender a questão é o próprio Glenn Hughes. “Brasileiros, argentinos e japoneses costumam valorizar alguns aspectos da produção musical que vão além da questão mercadológica. Meu trabalho com Pat Thrall(“Hughes and Thrall”, de 1982) teve um desempenho inacreditável no Japão e até hoje vende bem, sendo que no resto do mundo ele não teve tanta repercussão ao longo dos anos. ‘Seventh Star’ é cultuado na América do Sul porque ele é diferente, não se parece com nada na minha discografia e nem com a do Black Sabbath – nunca eu e Tony (Iommi) fizemos algo parecido com aquilo e nem voltaríamos a fazer, com quem quer que fosse. É de certa forma acessível, nem tão pesado, um contraponto ao hard rock norte-americano que dominava as paradas. Não sei se é bom ou ruim, o público é deve dizer, mas considero que nele há músicas interessantes e fortes”, disse o músico em entrevista a três jornalistas em um hotel pauoistano após o show do Tom Brasil.
Glenn Hughes estava nervoso nos camarins do antigo Tom Brasil, no bairro do Itaim-Bibi, na zona sul de São Paulo. A casa era sofisticada, moderna e com ótimos recursos acústicos. Era raro que roqueiros se apresentassem ali, e o ex-baixista e vocalista do Deep Purple era o maior nome internacional a tocar ali até então – 1999.
Era a terceira visita ao Brasil, mas somente o segundo show em terras brasileiras. Ele havia prometido uma grande surpresa ao público brasileiro, uma música que nunca havia tocado em sua carreira solo.
Os mais fanáticos especulavam qual seria a surpresa e a maioria não pensou duas vezes: cravou “No Stranger to Love”, ótima balada gravada por ele na rápida e conturbada passagem pelo Black Sabbath em 1986. A aposta foi certeira e a música trouxe abaixo o Tom Brasil, com o público de 2 mil pessoas cantando alto a bela música do álbum “Seventh Star”.
Pois esse álbum do Black Sabbath, assim como “Born Again”, virou cult na América do Sul. A produção e a mixagem não foram toscas e malfeitas como no álbum de três anos antes, em que Ian Gillan foi o vocalista. Entretanto, as gravações e a própria construção do trabalho foram extremamente conturbadas.
“Seventh Star” era para ser um álbum solo de Tony Iommi após a saída de Ian Gillan do Black Sabbath em 1984. O futuro incerto e a dificuldade de encontrar um vocalista no ano seguinte fizeram com que o baixista Geezer Butler também saísse bem no meio dos testes realizados com os cantores Dave Donato e Jeff Fenholt.
Decidido a fazer um álbum solo e congelar temporariamente o Sabbath, Iommi convidou vários amigos para cantar no álbum, entre eles Gillan, Glenn Hughes, Robert Plant, Rob Halford e Geoff Tate, então emergente no Queensryche. Os dois primeiros aceitaram na hora.
Durante as gravações, no final de 1985, a gravadora mudou os planos de forma asquerosa e colocou o guitarrista na parede: ou o álbum saía com o nome do Black Sabbath ou seria cancelado. Ao mesmo tempo, apenas Hughes já tinha feito a sua parte – os outros voclaistas estavam sem tempo para participar.
O jeito foi convencer Hughes a cantar o álbum todo – o vocalista revelou mais tarde, em São Paulo, em 1994, sua mágoa por ter descoberto que seria um CD do Black Sabath somente após as mixagens.
Seja como for, “Seventh Star” é um álbum irregular, desconexo, sem um elo que conseguisse ligar faixas tão distintas e heterogêneas – exatamente como em “Born Again”, só que de forma mais acentuada. Entretanto, a produção se esmerou em tentar dar uma “cara” para o trabalho e, de certa forma, foi bem-sucedida.
Mesmo em seu inferno astral particular, afundado no álcool e nas drogas, Glenn Hughes fez um trabalho digno e bastante aceitável. Cantou muito na pesada e rápida ”In For the Kill”, mostrou que tem o blues no sangue na excelente “Heart Like a Wheel” e muito feeling hard em “Seventh Star” e “Danger Zone”.
Naquela que seria o ponto baixo do álbum, a brega “No Stranger to Love”, o vocalista mostrou todo o seu talento e a transformou no destaque do álbum, colocando um acento bluesy em uma interpretação soberba, apesar da camada exagerada de teclados – o clipe da música teve a atriz Denise Crosby contracenando com Iommi; a moça teve papel de destaque na série “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração, como a tenente Natasha Yar.
“Seventh Star” teve uma trajetória errática nas paradas, assim como “Born Again”. Se este inicialmente vendeu bem nos Estados Unidos para depois cair no esquecimento no resto do mundo no biênio 1983-1984, o álbum com Hughes passou despercebido desde o começo, apesar do sucesso inicial de “No Stranger to Love” nas rádios e na MTV.
A turnê de 1986 do álbum foi um fracasso, com desavenças entre os músicos e a substituição de Hughes por Ray Gillan no quinto show norte-americano. Muitos shows foram cancelados e Iommi rezou para que os shows acabassem.
O trabalho “Seventh Star” foi redescoberto graças a reedição de todo o catálogo do Black Sabbath em LP na Argentina e na estreia em CD do álbum no Brasil, em 1989. Nostalgia ou não, o fato é que foram necessárias seis prensagens portenhas de “Seventh Star”, “Eternal Idol”, “Headless Cross” e “Tyr” em LP para saciar a sede dos argentinos.
Por conta das importações dos vinis da Argentina, que viraram objetos de desejos dos fãs brasileiros, a Universal rapidamente providenciou uma reedição dos quatro álbuns tanto em LP como e em CD. E o sucesso foi ainda maior do que na Argentina. Pouco tempo depois “Born Again” voltou ao mercado, com sucesso igual.
Por que “Seventh Star” também é cultuado no Brasil como “Born Again”? O disco com Gillan, ao menos, é uma obra-prima, com ótimas músicas (“Trashed”, “Hot Line” e “Disturbing the Priest” se tornaram clássicos, mesmo que tardiamente).
“Seventh Star” está longe de ter a mesma qualidade que “Born Again”. Foi um álbum feito às pressas e teve uma quantidade imensa de problemas na definição dos músicos e nas gravações. Mesmo assim, tecnicamente apresenta um resultado superior ao de “Born Again” – graças à mixagem de Jeff Glixman, Ray Staff e Greg Fulginiti.
Quem tem a chave para entender a questão é o próprio Glenn Hughes. “Brasileiros, argentinos e japoneses costumam valorizar alguns aspectos da produção musical que vão além da questão mercadológica. Meu trabalho com Pat Thrall(“Hughes and Thrall”, de 1982) teve um desempenho inacreditável no Japão e até hoje vende bem, sendo que no resto do mundo ele não teve tanta repercussão ao longo dos anos. ‘Seventh Star’ é cultuado na América do Sul porque ele é diferente, não se parece com nada na minha discografia e nem com a do Black Sabbath – nunca eu e Tony (Iommi) fizemos algo parecido com aquilo e nem voltaríamos a fazer, com quem quer que fosse. É de certa forma acessível, nem tão pesado, um contraponto ao hard rock norte-americano que dominava as paradas. Não sei se é bom ou ruim, o público é deve dizer, mas considero que nele há músicas interessantes e fortes”, disse o músico em entrevista a três jornalistas em um hotel pauoistano após o show do Tom Brasil.
sábado, julho 09, 2011
Rock ruim incentiva crianças a ouvir rock bom?
A sala do conservatório estava cheia. O calor era forte, mesmo para o interior do Estado de São Paulo neste começo de outono. Muita gente boa que fez parte do rock da cidade estava lá para ver a exibição de formatura dos filhos.
Um garoto magro, de cabelos longos presos em um rabo de cavalo, incomodado com o blazer elegante que vestia, nem olhou para a plateia quando subiu ao palco. Com um violão Ovation tinindo de novo e maravilhosamente afinado, executou três peças para demonstrar o que aprendera no violão clássico aos 13 anos de idade.
Não parecia estar nervoso. Quando começou a tocar, ficaram nervosos todos os roqueiros que apreciam boa música. Naquele conservatório de Jundiaí, o menino executou quatro partes de “Concerto Suite for Electric Guitar and Orchestra in Eb menor, Opus 1”, clássico do mago da guitarra sueco Yngwie Malmsteen.
A execução foi perfeita, assim como algumas partes de “Concert for Group and Orchestra”, do Deep Purple, para encerrar com uma peça de Bach. Ao agradecer os efusivos aplausos e sair do palco, o garoto tirou o blazer. Vestia uma camisa preta do Dream Theater. Isso ocorreu em 2008. Hoje o mesmo garoto toca em três bandas de rock pesado e está prestes a se tornar um músico erudito _ e conhece muito de rock.
Ontem, durante uma festa de pré-adolescentes, uma garota de dez anos, bem vestida para festa, me perguntou o que eu achava da banda Paramore. Respondi que não gostava, que era bem fraquinha e que faltava na qualidade nas músicas. Ela ficou me olhando intrigada, e depois me mostrou um CD da boa banda feminina The Runaways.
“Quem lhe deu isso?”, eu perguntei. “Meu pai. Vimos o filme delas em DVD e fiquei emocionada. Mas agora eu não sei mais o que fazer: gosto do Restart e do Paramore, mas agora amo essa banda…”
Com a minha característica falta de sensibilidade de metaleiro radical, nem pensei duas vezes: “Esqueça Paramore e a bandinha colorida. Runaways é a melhor porta de entrada para o rock.” Ela fez cara feia e entrou para o saguão do prédio. Para minha surpresa, ela era a guitarrista da bandinha de rock da escola que tocou três músicas na festa, duas da tal Paramore e uma do Restart.
Para quem teve a paciência de ler as duas historietas, a questão que fica e que dominou a conversa entre os demais pais, roqueiros das antigas e com graus variados de informação sobre o que rola atualmente, foi a seguinte: até que ponto é válido incentivar as crianças a ouvir rock, mesmo que seja porcaria, como forma de iniciação?
Um ex-baterista de pouco talento, mas muita paixão por Neil Peart, do Rush, tentou definir a questão. “Tá, Restart é bem ruinzinho, é o ‘Menudo’ dessa geração, mas pelo menos é rock, não é pagode, axé ou sertanejo. Que meu filho escute CPM 22, Fresno e outras coisas emo, mesmo que sejam ruins. é mais instrutivo do que o resto.”
Os cinco roqueiros se dividiram neste papo de arquibancada, em que nem mesmo quem fala mais alto tem razão e a discussão acaba com pouca ou nenhuma conclusão.
Há cinco anos eu achava que ouvir CPM 22 era melhor do que nada – axé, pagode, sertanejo e MPB cabeçuda são nada. “Pelo menos é rock”, dizia eu, na esperança que o emocore dos garotos servisse ao menos para despertar o interesse das crianças para o que realmente importava no rock.
Mudei de opinião. Na verdade não faz diferença, a julgar pelas conversas que frequentemente tenho com amigos e pelo que leio nos jornais. São poucas as crianças que mantém algum interesse genuíno pela música quando a febre passa. Essas bandas adolescentes somem assim que as crianças e pré-adolescentes de dois anos atrás crescem. Alguém aí sabe por onde anda CPM 22 e NX Zero?
A grande maioria da molecada, pelos relatos de pais, professores e irmãos de crianças e pré-adolescentes, adere a algum ritmo musical por modismo, e geralmente não faz diferença: começa com Restart, depois pula para Paramore e desemboca em Luan Santana. A relação com a música fica superficial.
Isso explica, em parte, porque os roqueiros são mais fanáticos e interessados em música, na média, do que os apreciadores de outros gêneros. Talvez explique porque a maioria de nossos amigos é tolerante com a música, sendo capazes de se divertir, à maneira deles, no show do Iron Maiden e do sertanejo Leonardo, por exemplo.
Descontando o saudosismo, e sem o menor rigor científico de amostragem, percebo – e não apenas eu – que mudou bastante a relação dos jovens com a música.
Os roqueiros sempre foram minoria nas escolas e nos grupos de jovens em geral, mas a impressão que tenho é que o número de garotos roqueiros que têm grande interesse pela música – que vão atrás de CDs, MP3 e qualquer tipo de informação – diminuiu em relação aos anos 80.
Por todos os ambientes em que circulo, seja em São Paulo ou em outras cidades de São Paulo e outras capitais, a intensidade da relação da maioria da juventude hoje não é mais a mesma – ou está bastante diferente.
É muito legal ver garotos e garotas acompanhados dos pais ou de responsáveis curtindo adoidado o show do AC/DC ou do Iron Maiden. Como será que esses meninos e meninas foram introduzidos no rock e no rock pesado?
Hoje tenho certeza de que não foi por meio das bandas adolescentes carentes de talento e credibilidade que infestam o mercado atualmente, lamentavelmente – gostaria que fosse, pelo menos esses artistas teriam servido ao menos para alguma coisa.
E cada vez mais circunstâncias como essas reforçam o estereótipo do pai que luta para que os filhos torçam para o mesmo time que o dele: é necessária uma marcação cada vez mais cerrada dos responsáveis para que as crianças e pré-adolescentes sejam cada vez menos suscetíveis à música ruim, já que é impossível ao menos amenizar a exposição ao lixo sonoro.
Informação é tudo em qualquer área de atuação, mas é muito mais fundamental da formação musical de um ser humano. Expor crianças ao pagode, ao axé, ao sertanejo e às MPB da pior qualidade deveria ser crime hediondo, inafiançável e passível da perda da guarda dos filhos.
A sala do conservatório estava cheia. O calor era forte, mesmo para o interior do Estado de São Paulo neste começo de outono. Muita gente boa que fez parte do rock da cidade estava lá para ver a exibição de formatura dos filhos.
Um garoto magro, de cabelos longos presos em um rabo de cavalo, incomodado com o blazer elegante que vestia, nem olhou para a plateia quando subiu ao palco. Com um violão Ovation tinindo de novo e maravilhosamente afinado, executou três peças para demonstrar o que aprendera no violão clássico aos 13 anos de idade.
Não parecia estar nervoso. Quando começou a tocar, ficaram nervosos todos os roqueiros que apreciam boa música. Naquele conservatório de Jundiaí, o menino executou quatro partes de “Concerto Suite for Electric Guitar and Orchestra in Eb menor, Opus 1”, clássico do mago da guitarra sueco Yngwie Malmsteen.
A execução foi perfeita, assim como algumas partes de “Concert for Group and Orchestra”, do Deep Purple, para encerrar com uma peça de Bach. Ao agradecer os efusivos aplausos e sair do palco, o garoto tirou o blazer. Vestia uma camisa preta do Dream Theater. Isso ocorreu em 2008. Hoje o mesmo garoto toca em três bandas de rock pesado e está prestes a se tornar um músico erudito _ e conhece muito de rock.
Ontem, durante uma festa de pré-adolescentes, uma garota de dez anos, bem vestida para festa, me perguntou o que eu achava da banda Paramore. Respondi que não gostava, que era bem fraquinha e que faltava na qualidade nas músicas. Ela ficou me olhando intrigada, e depois me mostrou um CD da boa banda feminina The Runaways.
“Quem lhe deu isso?”, eu perguntei. “Meu pai. Vimos o filme delas em DVD e fiquei emocionada. Mas agora eu não sei mais o que fazer: gosto do Restart e do Paramore, mas agora amo essa banda…”
Com a minha característica falta de sensibilidade de metaleiro radical, nem pensei duas vezes: “Esqueça Paramore e a bandinha colorida. Runaways é a melhor porta de entrada para o rock.” Ela fez cara feia e entrou para o saguão do prédio. Para minha surpresa, ela era a guitarrista da bandinha de rock da escola que tocou três músicas na festa, duas da tal Paramore e uma do Restart.
Para quem teve a paciência de ler as duas historietas, a questão que fica e que dominou a conversa entre os demais pais, roqueiros das antigas e com graus variados de informação sobre o que rola atualmente, foi a seguinte: até que ponto é válido incentivar as crianças a ouvir rock, mesmo que seja porcaria, como forma de iniciação?
Um ex-baterista de pouco talento, mas muita paixão por Neil Peart, do Rush, tentou definir a questão. “Tá, Restart é bem ruinzinho, é o ‘Menudo’ dessa geração, mas pelo menos é rock, não é pagode, axé ou sertanejo. Que meu filho escute CPM 22, Fresno e outras coisas emo, mesmo que sejam ruins. é mais instrutivo do que o resto.”
Os cinco roqueiros se dividiram neste papo de arquibancada, em que nem mesmo quem fala mais alto tem razão e a discussão acaba com pouca ou nenhuma conclusão.
Há cinco anos eu achava que ouvir CPM 22 era melhor do que nada – axé, pagode, sertanejo e MPB cabeçuda são nada. “Pelo menos é rock”, dizia eu, na esperança que o emocore dos garotos servisse ao menos para despertar o interesse das crianças para o que realmente importava no rock.
Mudei de opinião. Na verdade não faz diferença, a julgar pelas conversas que frequentemente tenho com amigos e pelo que leio nos jornais. São poucas as crianças que mantém algum interesse genuíno pela música quando a febre passa. Essas bandas adolescentes somem assim que as crianças e pré-adolescentes de dois anos atrás crescem. Alguém aí sabe por onde anda CPM 22 e NX Zero?
A grande maioria da molecada, pelos relatos de pais, professores e irmãos de crianças e pré-adolescentes, adere a algum ritmo musical por modismo, e geralmente não faz diferença: começa com Restart, depois pula para Paramore e desemboca em Luan Santana. A relação com a música fica superficial.
Isso explica, em parte, porque os roqueiros são mais fanáticos e interessados em música, na média, do que os apreciadores de outros gêneros. Talvez explique porque a maioria de nossos amigos é tolerante com a música, sendo capazes de se divertir, à maneira deles, no show do Iron Maiden e do sertanejo Leonardo, por exemplo.
Descontando o saudosismo, e sem o menor rigor científico de amostragem, percebo – e não apenas eu – que mudou bastante a relação dos jovens com a música.
Os roqueiros sempre foram minoria nas escolas e nos grupos de jovens em geral, mas a impressão que tenho é que o número de garotos roqueiros que têm grande interesse pela música – que vão atrás de CDs, MP3 e qualquer tipo de informação – diminuiu em relação aos anos 80.
Por todos os ambientes em que circulo, seja em São Paulo ou em outras cidades de São Paulo e outras capitais, a intensidade da relação da maioria da juventude hoje não é mais a mesma – ou está bastante diferente.
É muito legal ver garotos e garotas acompanhados dos pais ou de responsáveis curtindo adoidado o show do AC/DC ou do Iron Maiden. Como será que esses meninos e meninas foram introduzidos no rock e no rock pesado?
Hoje tenho certeza de que não foi por meio das bandas adolescentes carentes de talento e credibilidade que infestam o mercado atualmente, lamentavelmente – gostaria que fosse, pelo menos esses artistas teriam servido ao menos para alguma coisa.
E cada vez mais circunstâncias como essas reforçam o estereótipo do pai que luta para que os filhos torçam para o mesmo time que o dele: é necessária uma marcação cada vez mais cerrada dos responsáveis para que as crianças e pré-adolescentes sejam cada vez menos suscetíveis à música ruim, já que é impossível ao menos amenizar a exposição ao lixo sonoro.
Informação é tudo em qualquer área de atuação, mas é muito mais fundamental da formação musical de um ser humano. Expor crianças ao pagode, ao axé, ao sertanejo e às MPB da pior qualidade deveria ser crime hediondo, inafiançável e passível da perda da guarda dos filhos.
quinta-feira, julho 07, 2011
‘Born Again’: por que o álbum do Black Sabbath é venerado no Brasil?
“O pior disco da minha vida é o mais cultuado no Brasil. Não consigo entender isso.” A declaração é de um surpreendentemente bem humorado Ian Gillan em 1997, na entrevista coletiva em um hotel de São Paulo, às vésperas de mais um show do Deep Purple na cidade. Ele não se estendeu muito, pois a pergunta foi feita por um fã quando ele ia para o seu quarto.
Dois dias mais tarde, após a apresentação no antigo Olympia, em um bar rock que já não existe mais, ainda mais bem humorado, que era quase inacreditável, Gillan resolveu soltar os cachorros contra “Born Again”, seu único trabalho com o Black Sabbath, em 1983.
”Tudo estava meio confuso, estava bagunçado, e sei que Tony (Iommi) não trabalhava daquela forma. Mas as coisas estavam esquistas, Bill (Ward) estava com seus problemas crônicos de saúde, Geezer (Butler) estava muito preocupado com coisas fora da banda. Algumas músicas eram realmente boas, mas a produção é muito ruim, há sons que não faço ideia do que são. Não sei se é o piode de minha carreira, mas não gosto dele. O tempo que passei no Sabbath foi maravilhoso, amo Tony e Geezer, mas o resultado não foi bom. Não consigo porque brasileiros, argentinos, mexicanos e gregos amam esse trabalho”, disse o vocalista.
Ian Gillan resumiu com sua perplexidade um fato que ninuém explica. “Born Again”, o disco que ganhou quase todas as eleições de capa mais feia e horrenda do rock, vendeu pouco, teve uma turnê complicada pela América do Norte e Europa e não pôde contar com Bill Ward nos shows, mais uma vez doente, substituído pelo apenas correto Bev Bevan (ex-Electric Light Orchestra).
A produção realmente ficou aquém do que se poderia esperar de um álbum com a grife Black Sabbath. Abafada, a mixagem ressaltou demais o baixo, tornou a voz de Gillan estridente e soterrou, em algumas faixas, a guitarra de Iommi. Mas assim mesmo é considerado uma obra-prima do heavy metal.
Nem a banda sabe ao certo o que produtor Robin Black, amigo de Iommi, conseguiu fazer. Embora no primeiro mês de lançamento o álbum tenha chegado à posição nº 4 das paradas inglesas, teve desempenho muito discreto nos Estados Unidos no mesmo período, e depois acabou decepcionando os empresários do grupo.
Seja como for, o álbum causou um choque assim que chegu às lojas, em 1983. A expectativa era enorme. Dois gigantes se unindo em uma nova superbanda, uma espécie de Deep Sabbath. O estranhamento foi imediato na primeira audição, mas depois os fãs foram se acostumando com o peso absurdo e a sonoridade bem sombria.
O resultado é que no Brasil o álbum ficou por um breve período fora de catálogo em LP entre os anos de 1983 e 1993. Em CD sempre esteve nas lojas, até mesmo nas grandes lojas. Virou objeto de culto, e foram poucas as vozes que criticaram ou detestaram o álbum.
Mas o culto e a veneração fazem algum sentido? Totalmente. Apesar do processo caótico da gravação e da aparente informalidade e bagunça que dominavam o Black Sabbath, o grupo cometeu uma obra-prima. Por muitos anos foi sinônimo de heavy metal no Brasil. Se alguém qeria saber o que era som pesado, era só mostrar álbum e afirmar: “Isso é heavy metal.”
“Trashed” é uma paulada na abertura, um heavy poderoso e acelerado, com Ian Gillan cantandom muito. “Born Again” tem mesmo astral de “Black Sabbath”, com seu andamento lento e sombrio, riffs pesados e cortantes e uma dramaticidade assustadora. “Disturbing the Priest” é outra faixa assustadora, que não faria feio na trilha sonora do inferno, de tão pesada. “Keep It Warm” traz um excelente trabalho de guit antigas darras. “Zero the Hero” e “Digital Bitch” foram os hits, faixas pesadas e curtas.
A turnê que se seguiu teve bons momentos, mas não foi aquilo que todos esperavam. Gillan não cantou tudo o parecia poder cantar no Black Sabbath, as canções antigas da banda evidenciaram o desconforto do vocalista em interpretá-las – fato que ele confirmounaquele boteco em 1997: “São clássicos, é lógico, mas não eram minhas músicas, não gostava dos temas, era algo totalmente fora da minha realidade. Mesmo as músicas da época de Ronnie (Dio) me causavam desconforto.”
Uma curiosidade, e que acabou virando raridade para colecionadores, foi a inclusão de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, no repertório da turnê. Iommi desconversa sempre e diz que foi uma gentileza da banda para Gillan, que gostaria de cantar a música. Butler disse uma vez que não gostou muito, mas que acabou sendo divertido. Nos bastidores, entretanto, a historinha era outra: teria sido uma exigência do vocalista.
Seja como for, nas gravações mais audíveis da turnê, escutar “Smoke on the Water” com o Black Sabbathé maravilhoso, com o timbre gordo e pesado da guitarra de Iommi e o baixo extremamente pesado de Butler. Não poderia haver coroamento para um período curto, mas vibrante do heavy mtal, onde foi produzidauma verdadeira obra-prima.
Apesar de ter adorado aquele período, Gillan não via muito futuro no Black Sabbath. O convite apareceu em um momento crucial, quando ele convalescia de uma cirurgia feita na garganta no final de 1982.
“Mas o fato é que eu não tinha certeza se queria continuar e se a banda comigo nos vocais teria condições de melhorar. Enquanto eu pensava, surgiram as negociações para a volta da formação clássica do Deep Purple, algo que eu não botava muita fé. Mas depois que vi que a reunião do Purple era para valer, no começo de 1984, ao final de nossa turnê pela Europa, nem pensei duas vezes. Agradeci a Geezer e Tony e voltei para minha banda de verdade”, disse Gillan em 1997.
O que pouca gente sabe é que Butler também estava louco para sair, mas não tinha coragem de decepcionar o amigo Iommi. A saída de Gillan foi o que Butler precisava para deixar a banda – embora ainda tenha permanecido, segundo uma entrevista de Iommi em 2003, nas audições para um novo vocalista em 1985 – primeiro Dave Donato, depois Jeff Fenholt.
A história após isso todo mundo sabe: o Black Sabbath praticamente acabou, Iommi tirou férias e decidiu gravar um álbum solo tendo o amigo Glenn Hughes (ex-Deep Purple) ns vocais e eventualmente no baixo. As músicas tinham como base as demos de “Star of India”, aquele seria um disco do Sabbath de 1985.
“Seventh Star” chegou às lojas em 1986, mas sob o nome Black Sabbath. A mudança de última hora, segundo Iommi, foi uma exigência da gravadora: ou vira um álbum do Sabbath, ou não sai – fato que irritou muito Glenn Hughes.
Para encerrar, nas palavras de Gillan, como ocorreu a sua “contratação”, indicando que a coisa não poderia dar muito certo: “Ainda estava me recuperando da cirurgia em 1983 e não tinha mais banda solo. Sempre fui amigo de Tony e Geezer, nos falávamos sempre desde 1972. Um dia estava cansado de ficar em casa e fui tomar umas cervejas e jogar bilhar com Tony e o empresário do Sabbath na época em um pub – acho que Geoff (Nicholls, tecladista de apoio do Black Sabbath) estava também. Ficamos a noite inteira bebendo, rindo e jogando, e alguém falou que eu poderia substituir Ronnie Dio no Sabbath. Todo mundo riu da ‘piada’, menos Tony, que parou de falar por uns dez minutos. Ninguém entendeu. Aí, do nada, ele mandou, ‘Por que não?’. Todo mundo ficou cara de interrogação e ele insistiu, ‘Por que não Ian no Black Sabbath?’ Ninguém levou a sério. Só sei que, de manhã, com todos muito bêbados, eu já tinha aceitado, não sei como, ser o vocalista do Black Sabbath.Tinha até assinado uma espécie de ‘contrato’ no bar. E foi assim.”
“O pior disco da minha vida é o mais cultuado no Brasil. Não consigo entender isso.” A declaração é de um surpreendentemente bem humorado Ian Gillan em 1997, na entrevista coletiva em um hotel de São Paulo, às vésperas de mais um show do Deep Purple na cidade. Ele não se estendeu muito, pois a pergunta foi feita por um fã quando ele ia para o seu quarto.
Dois dias mais tarde, após a apresentação no antigo Olympia, em um bar rock que já não existe mais, ainda mais bem humorado, que era quase inacreditável, Gillan resolveu soltar os cachorros contra “Born Again”, seu único trabalho com o Black Sabbath, em 1983.
”Tudo estava meio confuso, estava bagunçado, e sei que Tony (Iommi) não trabalhava daquela forma. Mas as coisas estavam esquistas, Bill (Ward) estava com seus problemas crônicos de saúde, Geezer (Butler) estava muito preocupado com coisas fora da banda. Algumas músicas eram realmente boas, mas a produção é muito ruim, há sons que não faço ideia do que são. Não sei se é o piode de minha carreira, mas não gosto dele. O tempo que passei no Sabbath foi maravilhoso, amo Tony e Geezer, mas o resultado não foi bom. Não consigo porque brasileiros, argentinos, mexicanos e gregos amam esse trabalho”, disse o vocalista.
Ian Gillan resumiu com sua perplexidade um fato que ninuém explica. “Born Again”, o disco que ganhou quase todas as eleições de capa mais feia e horrenda do rock, vendeu pouco, teve uma turnê complicada pela América do Norte e Europa e não pôde contar com Bill Ward nos shows, mais uma vez doente, substituído pelo apenas correto Bev Bevan (ex-Electric Light Orchestra).
A produção realmente ficou aquém do que se poderia esperar de um álbum com a grife Black Sabbath. Abafada, a mixagem ressaltou demais o baixo, tornou a voz de Gillan estridente e soterrou, em algumas faixas, a guitarra de Iommi. Mas assim mesmo é considerado uma obra-prima do heavy metal.
Nem a banda sabe ao certo o que produtor Robin Black, amigo de Iommi, conseguiu fazer. Embora no primeiro mês de lançamento o álbum tenha chegado à posição nº 4 das paradas inglesas, teve desempenho muito discreto nos Estados Unidos no mesmo período, e depois acabou decepcionando os empresários do grupo.
Seja como for, o álbum causou um choque assim que chegu às lojas, em 1983. A expectativa era enorme. Dois gigantes se unindo em uma nova superbanda, uma espécie de Deep Sabbath. O estranhamento foi imediato na primeira audição, mas depois os fãs foram se acostumando com o peso absurdo e a sonoridade bem sombria.
O resultado é que no Brasil o álbum ficou por um breve período fora de catálogo em LP entre os anos de 1983 e 1993. Em CD sempre esteve nas lojas, até mesmo nas grandes lojas. Virou objeto de culto, e foram poucas as vozes que criticaram ou detestaram o álbum.
Mas o culto e a veneração fazem algum sentido? Totalmente. Apesar do processo caótico da gravação e da aparente informalidade e bagunça que dominavam o Black Sabbath, o grupo cometeu uma obra-prima. Por muitos anos foi sinônimo de heavy metal no Brasil. Se alguém qeria saber o que era som pesado, era só mostrar álbum e afirmar: “Isso é heavy metal.”
“Trashed” é uma paulada na abertura, um heavy poderoso e acelerado, com Ian Gillan cantandom muito. “Born Again” tem mesmo astral de “Black Sabbath”, com seu andamento lento e sombrio, riffs pesados e cortantes e uma dramaticidade assustadora. “Disturbing the Priest” é outra faixa assustadora, que não faria feio na trilha sonora do inferno, de tão pesada. “Keep It Warm” traz um excelente trabalho de guit antigas darras. “Zero the Hero” e “Digital Bitch” foram os hits, faixas pesadas e curtas.
A turnê que se seguiu teve bons momentos, mas não foi aquilo que todos esperavam. Gillan não cantou tudo o parecia poder cantar no Black Sabbath, as canções antigas da banda evidenciaram o desconforto do vocalista em interpretá-las – fato que ele confirmounaquele boteco em 1997: “São clássicos, é lógico, mas não eram minhas músicas, não gostava dos temas, era algo totalmente fora da minha realidade. Mesmo as músicas da época de Ronnie (Dio) me causavam desconforto.”
Uma curiosidade, e que acabou virando raridade para colecionadores, foi a inclusão de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, no repertório da turnê. Iommi desconversa sempre e diz que foi uma gentileza da banda para Gillan, que gostaria de cantar a música. Butler disse uma vez que não gostou muito, mas que acabou sendo divertido. Nos bastidores, entretanto, a historinha era outra: teria sido uma exigência do vocalista.
Seja como for, nas gravações mais audíveis da turnê, escutar “Smoke on the Water” com o Black Sabbathé maravilhoso, com o timbre gordo e pesado da guitarra de Iommi e o baixo extremamente pesado de Butler. Não poderia haver coroamento para um período curto, mas vibrante do heavy mtal, onde foi produzidauma verdadeira obra-prima.
Apesar de ter adorado aquele período, Gillan não via muito futuro no Black Sabbath. O convite apareceu em um momento crucial, quando ele convalescia de uma cirurgia feita na garganta no final de 1982.
“Mas o fato é que eu não tinha certeza se queria continuar e se a banda comigo nos vocais teria condições de melhorar. Enquanto eu pensava, surgiram as negociações para a volta da formação clássica do Deep Purple, algo que eu não botava muita fé. Mas depois que vi que a reunião do Purple era para valer, no começo de 1984, ao final de nossa turnê pela Europa, nem pensei duas vezes. Agradeci a Geezer e Tony e voltei para minha banda de verdade”, disse Gillan em 1997.
O que pouca gente sabe é que Butler também estava louco para sair, mas não tinha coragem de decepcionar o amigo Iommi. A saída de Gillan foi o que Butler precisava para deixar a banda – embora ainda tenha permanecido, segundo uma entrevista de Iommi em 2003, nas audições para um novo vocalista em 1985 – primeiro Dave Donato, depois Jeff Fenholt.
A história após isso todo mundo sabe: o Black Sabbath praticamente acabou, Iommi tirou férias e decidiu gravar um álbum solo tendo o amigo Glenn Hughes (ex-Deep Purple) ns vocais e eventualmente no baixo. As músicas tinham como base as demos de “Star of India”, aquele seria um disco do Sabbath de 1985.
“Seventh Star” chegou às lojas em 1986, mas sob o nome Black Sabbath. A mudança de última hora, segundo Iommi, foi uma exigência da gravadora: ou vira um álbum do Sabbath, ou não sai – fato que irritou muito Glenn Hughes.
Para encerrar, nas palavras de Gillan, como ocorreu a sua “contratação”, indicando que a coisa não poderia dar muito certo: “Ainda estava me recuperando da cirurgia em 1983 e não tinha mais banda solo. Sempre fui amigo de Tony e Geezer, nos falávamos sempre desde 1972. Um dia estava cansado de ficar em casa e fui tomar umas cervejas e jogar bilhar com Tony e o empresário do Sabbath na época em um pub – acho que Geoff (Nicholls, tecladista de apoio do Black Sabbath) estava também. Ficamos a noite inteira bebendo, rindo e jogando, e alguém falou que eu poderia substituir Ronnie Dio no Sabbath. Todo mundo riu da ‘piada’, menos Tony, que parou de falar por uns dez minutos. Ninguém entendeu. Aí, do nada, ele mandou, ‘Por que não?’. Todo mundo ficou cara de interrogação e ele insistiu, ‘Por que não Ian no Black Sabbath?’ Ninguém levou a sério. Só sei que, de manhã, com todos muito bêbados, eu já tinha aceitado, não sei como, ser o vocalista do Black Sabbath.Tinha até assinado uma espécie de ‘contrato’ no bar. E foi assim.”
terça-feira, julho 05, 2011
Discriminação e perseguição a roqueiros em pleno século XXI
As revistas especializadas em heavy metal e classic rock brasileiras de vez em quando trazem cartas de leitores narrando situações de discriminação por gostarem de rock pesado, usarem cabelos compridos ou camisas pretas.
Na maioria esmagadora dos casos, são moradores de cidades do interior de Estados, rincões do país longe das capitais – locais onde predomina a baixa escolaridade, a mentalidade tacanha, o coronelismo político e aperniciosa e odiosa influência da Igreja Católica.
E não é que tal situação ocorre em pleno 2011 em São Paulo, a maior cidade do Brasil e sua capital cultural, ao menos em relação ao volume de eventos e opções oferecidas? E pior, em uma escola particular da zona oeste, região de alto poder aquisitivo e, presume-se, com maior incidência de pessoas com boa formação educacional – ou pelo menos acima da média?
Erick é um garoto de 18 anos que cursa o ensino médio em uma pequena cidade do interior do Paraná. Amante do rock, toca violão e está aprendendo guitarra, mas é visto como um extraterrestre em sua própria casa – imagine então no resto da cidade (evitarei citar o nome inteiro do garoto e o nome da cidade para que não haja mais ataques).
Seu cabelo nem é tão comprido assim e usa de vez em quando camisetas pretas com estampas do Iron Maiden e do Metallica. Em carta a uma revista especializada enviada no ano passado, contou que quando tinha 15 anos era xingado pelos colegas de escola e que era impedido de jogar futebol nos times de várzea da cidade.
Nunca foi agredido, mas era vítima constante de gozações e brincadeiras de péssimo gosto. Também era menosprezado pelos professores e ignorado por atendentes de lojas e botecos quando queria comprar alguma coisa.
Na zona oeste de São Paulo, Pedro (nome fictício) estuda em um colégio caro no bairro de Pinheiros. Tem 13 anos e é filho de um publicitário que toca baixo em uma banda que faz versões para clássicos do rock.
Capa de "Born Again", do Black Sabbath, lançado em 1983. Esse LP foi banido de discotecas e bibliotecas de escolas particulares e faculdades de Guarulhos e da zona norte de São Paulo na época por causa de sua casa. Vinte e oito anos depois, o preconceito contra o metal continua
Autodidata, com alguma ajuda do pai, aprendeu quase sozinho tocar guitarra, baixo e teclado. É fissurado em Dream Theater, Deep Purple, Black Sabbath, Metallica e Grand Funk Railroad.
Incentivado pelo pai, tem cabelo preto liso comprido, usa capa de caderno com a estampa do boneco Eddie, do Iron Maiden, e abusa das calças jeans e das camisetas brancas e pretas lisas, bem simples – a escola permite.
Para completar, mesmo com o jeito desencanado e despojado, é um dos melhores da classe e sua menor nota é 8, em matemática.
Ou seja, é demais para a mediocridade que reina naquele mundinho: é roqueiro, toca bem vários instrumentos, tem personalidade, é inteligente (ou CDF, como queiram) e não liga para o bullying que sofre. Sempre isolado no recreio, conta apenas com a amizade de uma menina dois anos mais velha e igualmente roqueira.
Vítima preferida da burrice dominante naquele ambiente, era zoado, sofria gozações e sempre foi preterido das brincadeiras e dos esportes, tudo isso com a deliberada omissão de “professores” igualmente medíocres, que nunca engoliram a “independência” do garoto.
Até então Pedro sempre tirou de letra toda essa situação chata, mas na semana retrasada a coisa mudou. Um grupinho de moleques que sempre zoou o garoto desta vez se sentiu ofendido com uma resposta engraçadinha que Pedro deu, provocando gargalhadas generalizadas na cantina.
Enfurecidos, três do grupo cercaram o menino, que era menor do que os agressores, e foi espancado por cerca de um minuto. Chutes, socos e xingamentos de “bicha”, “roqueiro de merda”, “delinquente” e “aberração”, fora os palavrões.
O que os três não esperavam é que Pedro, apesar de um pouco machucado, se desvencilhou dos agressores e, encostado ao balcão da cantina, pegou uma bandeja de aço inox e se defendeu: acerto com a quina a cabeça de um dos agressores. Este caiu, atordoado, e tomou mais duas pancadas, caindo desacordado.
Capa de "Black Metal", do Venom, de 1982, banda precursora do subgênero black metal, com temas satanistas; importado, o LP começou a chegar com mais regularidade a São Paulo no início da década de 1990, mas foi igualmente banido de algumas escolas paulistanas, mesmo que tenham sido levados por alunos. Uma escola da zona norte da cidade chegou a expulsar um aluno por "portar tal coisa satânica". A expulsão foi revertida na Justiça e ainda rendeu indenização por dano moral à família do aluno
Os outros dois avançaram, mas um deles foi atingido de forma certeira na boca. Caiu de costas, com a boca sangrando e sem três dentes da frente. O terceiro agressor mudou de ideia e fugiu.
Calmamente Pedro devolveu a bandeja ao atendente e foi à enfermaria em busca de curativos para as escoriações que sofreu, ignorando os dois agressores caídos – a primeira “vítima” de Pedro teve de ser hospitalizada. Chegou desacordado e passou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Apesar do número imenso de testemunhas, todas favoráveis a Pedro, a escola deve expulsá-lo e nem ao menos vai advertir os agressores.
Uma coordenadora pedagógica, indigna do cargo que ocupa, disse aos pais de Pedro “que já era esperado que ele cometesse algo do tipo, já que era um desajustado”, insinuando que ele era delinquente, apesar de nada constar em seu histórico na escola que pudesse ao menos dar algum indício disso.
A escola, apesar de demonstrar um perfil liberal na propaganda, nunca escondeu que as regras impostas eram conservadoras. Mas teve de recuar na intenção de expulsar Pedro diante de um protesto de cerca de 200 alunos na entrada do prédio principal, reunindo até mesmo gente que não gosta e despreza o garoto agredido.
Várias versões de Eddie, o mascote monstruoso do Iron Maiden; a banda inglesa começou a se tornar febre no Brasil em 1983, com o lançamento do magistral "Piece of Mind", e a cena se repetiu: colégios particulares da Grande São Paulo mais conservadores baniam os LPs de suas bibliotecas por causa da "figura diabólica", entretanto, escolas e os chamados "clubes sociais de famílias" não conseguiram impedir a proliferação de camisetas pretas com a estampa do mascote e não tiveram como conter a onda na época. Mas tentaram
Muitos foram espontaneamente à delegacia de polícia responsável pelo bairro para depor a favor de Pedro, no boletim de ocorrência aberto pelo pai do garoto. O tio de Pedro é advogado em um importante escritório de advocacia de São Paulo e entrou com ação contra a escola dois dias depois da agressão. Pretende pedir um valor alto como indenização por danos morais.
Estamos no século XXI, mas são cada vez mais frequentes as manifestações racistas em estádios de futebol na Europa e no Brasil, assim como manifestações homofóbicas em jogos de vôlei, agressões a homossexuais na região da avenida Paulista e perseguição a roqueiros em colégios de classe média alta na capital paulista.
Ser diferente e ter personalidade são coisas perigosas no mundo de hoje, principalmente quando a pessoa se destaca de forma gritante da mediocridade geral da sociedade e protesta contra a praga nojenta do senso comum e do politicamente correto.
Ninguém precisa gostar do que ou de quem quer que seja – ou mesmo a aderir. Basta apenas respeitar. Para uma parcela enorme da sociedade brasileira, gostar de rock e ser ateu, por exemplo, são crimes que precisam combatidos. Quem pensa deste jeito será igualmente combatido e repelido, com Slayer e Motorhead como trilha sonora de fundo.
Uma das capas de "Creatures of the Night", do Kiss: curiosamente, as capas dos LPs das bandas não eram consideradas ameaçadoras, mas foi só a banda aportar em São Paulo para seus primeiros shows no Brasil, em 1983, para que professores e alguns outros "educadores" se lembrassem de que o quarteto tinha fama de "esmagar pintinhos no palco" com suas botas e eram "enviados do demônio". Quem não se lembra da idiotice do "Kings in Satan Service"? A idiotice humana não tem limites – e ninguém nunca deixou de ganhar dinheiro apostando na idiotice humana
As revistas especializadas em heavy metal e classic rock brasileiras de vez em quando trazem cartas de leitores narrando situações de discriminação por gostarem de rock pesado, usarem cabelos compridos ou camisas pretas.
Na maioria esmagadora dos casos, são moradores de cidades do interior de Estados, rincões do país longe das capitais – locais onde predomina a baixa escolaridade, a mentalidade tacanha, o coronelismo político e aperniciosa e odiosa influência da Igreja Católica.
E não é que tal situação ocorre em pleno 2011 em São Paulo, a maior cidade do Brasil e sua capital cultural, ao menos em relação ao volume de eventos e opções oferecidas? E pior, em uma escola particular da zona oeste, região de alto poder aquisitivo e, presume-se, com maior incidência de pessoas com boa formação educacional – ou pelo menos acima da média?
Erick é um garoto de 18 anos que cursa o ensino médio em uma pequena cidade do interior do Paraná. Amante do rock, toca violão e está aprendendo guitarra, mas é visto como um extraterrestre em sua própria casa – imagine então no resto da cidade (evitarei citar o nome inteiro do garoto e o nome da cidade para que não haja mais ataques).
Seu cabelo nem é tão comprido assim e usa de vez em quando camisetas pretas com estampas do Iron Maiden e do Metallica. Em carta a uma revista especializada enviada no ano passado, contou que quando tinha 15 anos era xingado pelos colegas de escola e que era impedido de jogar futebol nos times de várzea da cidade.
Nunca foi agredido, mas era vítima constante de gozações e brincadeiras de péssimo gosto. Também era menosprezado pelos professores e ignorado por atendentes de lojas e botecos quando queria comprar alguma coisa.
Na zona oeste de São Paulo, Pedro (nome fictício) estuda em um colégio caro no bairro de Pinheiros. Tem 13 anos e é filho de um publicitário que toca baixo em uma banda que faz versões para clássicos do rock.
Capa de "Born Again", do Black Sabbath, lançado em 1983. Esse LP foi banido de discotecas e bibliotecas de escolas particulares e faculdades de Guarulhos e da zona norte de São Paulo na época por causa de sua casa. Vinte e oito anos depois, o preconceito contra o metal continua
Autodidata, com alguma ajuda do pai, aprendeu quase sozinho tocar guitarra, baixo e teclado. É fissurado em Dream Theater, Deep Purple, Black Sabbath, Metallica e Grand Funk Railroad.
Incentivado pelo pai, tem cabelo preto liso comprido, usa capa de caderno com a estampa do boneco Eddie, do Iron Maiden, e abusa das calças jeans e das camisetas brancas e pretas lisas, bem simples – a escola permite.
Para completar, mesmo com o jeito desencanado e despojado, é um dos melhores da classe e sua menor nota é 8, em matemática.
Ou seja, é demais para a mediocridade que reina naquele mundinho: é roqueiro, toca bem vários instrumentos, tem personalidade, é inteligente (ou CDF, como queiram) e não liga para o bullying que sofre. Sempre isolado no recreio, conta apenas com a amizade de uma menina dois anos mais velha e igualmente roqueira.
Vítima preferida da burrice dominante naquele ambiente, era zoado, sofria gozações e sempre foi preterido das brincadeiras e dos esportes, tudo isso com a deliberada omissão de “professores” igualmente medíocres, que nunca engoliram a “independência” do garoto.
Até então Pedro sempre tirou de letra toda essa situação chata, mas na semana retrasada a coisa mudou. Um grupinho de moleques que sempre zoou o garoto desta vez se sentiu ofendido com uma resposta engraçadinha que Pedro deu, provocando gargalhadas generalizadas na cantina.
Enfurecidos, três do grupo cercaram o menino, que era menor do que os agressores, e foi espancado por cerca de um minuto. Chutes, socos e xingamentos de “bicha”, “roqueiro de merda”, “delinquente” e “aberração”, fora os palavrões.
O que os três não esperavam é que Pedro, apesar de um pouco machucado, se desvencilhou dos agressores e, encostado ao balcão da cantina, pegou uma bandeja de aço inox e se defendeu: acerto com a quina a cabeça de um dos agressores. Este caiu, atordoado, e tomou mais duas pancadas, caindo desacordado.
Capa de "Black Metal", do Venom, de 1982, banda precursora do subgênero black metal, com temas satanistas; importado, o LP começou a chegar com mais regularidade a São Paulo no início da década de 1990, mas foi igualmente banido de algumas escolas paulistanas, mesmo que tenham sido levados por alunos. Uma escola da zona norte da cidade chegou a expulsar um aluno por "portar tal coisa satânica". A expulsão foi revertida na Justiça e ainda rendeu indenização por dano moral à família do aluno
Os outros dois avançaram, mas um deles foi atingido de forma certeira na boca. Caiu de costas, com a boca sangrando e sem três dentes da frente. O terceiro agressor mudou de ideia e fugiu.
Calmamente Pedro devolveu a bandeja ao atendente e foi à enfermaria em busca de curativos para as escoriações que sofreu, ignorando os dois agressores caídos – a primeira “vítima” de Pedro teve de ser hospitalizada. Chegou desacordado e passou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Apesar do número imenso de testemunhas, todas favoráveis a Pedro, a escola deve expulsá-lo e nem ao menos vai advertir os agressores.
Uma coordenadora pedagógica, indigna do cargo que ocupa, disse aos pais de Pedro “que já era esperado que ele cometesse algo do tipo, já que era um desajustado”, insinuando que ele era delinquente, apesar de nada constar em seu histórico na escola que pudesse ao menos dar algum indício disso.
A escola, apesar de demonstrar um perfil liberal na propaganda, nunca escondeu que as regras impostas eram conservadoras. Mas teve de recuar na intenção de expulsar Pedro diante de um protesto de cerca de 200 alunos na entrada do prédio principal, reunindo até mesmo gente que não gosta e despreza o garoto agredido.
Várias versões de Eddie, o mascote monstruoso do Iron Maiden; a banda inglesa começou a se tornar febre no Brasil em 1983, com o lançamento do magistral "Piece of Mind", e a cena se repetiu: colégios particulares da Grande São Paulo mais conservadores baniam os LPs de suas bibliotecas por causa da "figura diabólica", entretanto, escolas e os chamados "clubes sociais de famílias" não conseguiram impedir a proliferação de camisetas pretas com a estampa do mascote e não tiveram como conter a onda na época. Mas tentaram
Muitos foram espontaneamente à delegacia de polícia responsável pelo bairro para depor a favor de Pedro, no boletim de ocorrência aberto pelo pai do garoto. O tio de Pedro é advogado em um importante escritório de advocacia de São Paulo e entrou com ação contra a escola dois dias depois da agressão. Pretende pedir um valor alto como indenização por danos morais.
Estamos no século XXI, mas são cada vez mais frequentes as manifestações racistas em estádios de futebol na Europa e no Brasil, assim como manifestações homofóbicas em jogos de vôlei, agressões a homossexuais na região da avenida Paulista e perseguição a roqueiros em colégios de classe média alta na capital paulista.
Ser diferente e ter personalidade são coisas perigosas no mundo de hoje, principalmente quando a pessoa se destaca de forma gritante da mediocridade geral da sociedade e protesta contra a praga nojenta do senso comum e do politicamente correto.
Ninguém precisa gostar do que ou de quem quer que seja – ou mesmo a aderir. Basta apenas respeitar. Para uma parcela enorme da sociedade brasileira, gostar de rock e ser ateu, por exemplo, são crimes que precisam combatidos. Quem pensa deste jeito será igualmente combatido e repelido, com Slayer e Motorhead como trilha sonora de fundo.
Uma das capas de "Creatures of the Night", do Kiss: curiosamente, as capas dos LPs das bandas não eram consideradas ameaçadoras, mas foi só a banda aportar em São Paulo para seus primeiros shows no Brasil, em 1983, para que professores e alguns outros "educadores" se lembrassem de que o quarteto tinha fama de "esmagar pintinhos no palco" com suas botas e eram "enviados do demônio". Quem não se lembra da idiotice do "Kings in Satan Service"? A idiotice humana não tem limites – e ninguém nunca deixou de ganhar dinheiro apostando na idiotice humana
domingo, julho 03, 2011
Saiu da plateia e substituiu Keith Moon na bateria
Imagine um show de uma banda gigante, do Metallica, por exemplo. O show começa e Lars Ulrich, o baterista, demonstra que está esquisito, não está bem. Erra bastante e em passagens fáceis. Atravessa com frequência a música e mostra apatia, coisa que nunca acontecia.
Em determinado momento do show, desmaia sobre a bateria. Há uma paralisação de 15 minutos. Ulrich volta, meio cambaleante, e tenta continuar o show. duas músicas depois, desaba novamente sobre os bumbos, desacordado. Não volta mais para apresentação.
Muito irritado, James Hetfield, o guitarrista e vocalista, em vez de encerrar ali o evento e pedir desculpas, surpreende todo mundo e pergunta à plateia se tem algum baterista por lá. Mais surpreendente ainda, um maluco se apresenta e o show continua, de forma trágica, por mais três músicas.
A situação é absurda demais para ser imaginada, mesmo por roteiristas de cinema. Mas isso realmente aconteceu, e com uma banda gigante. O protagonista foi Keith Moon, que apagou durante um show do Who em San Francisco, na Califórnia, em 1973.
Uma das maiores presepadas do rock, se não a maior, ocorreu no dia 20 de novembro de 1973, no Cow Palace, em San Francisco. Durante a apresentação do Who, que abria a temporada norte-americana de shows do álbum “Quadrophenia”, no meio da música “Won´t Get Fooled Again”, Moon desmaia em cima da bateria.
O guitarrista Pete Townshend avisa à platéia que eles terão que esperar enquanto tentam “ressuscitar” o baterista. Foram 15 minutos de espera até o retorno do maluco Moon, que começou o show esquisito e meio grogue. No retorno, não deu certo: o baterista continuava aéreo e errando e desaba de vez durante a música “Magic Bus”. A banda surpreende e continua sem ele na música “See Me, Feel Me”, sem bateria.
Quando termina esta música, Pete Townshend apela para a platéia e faz a surpreendente pergunta: “Alguém aí pode tocar a bateria? Quero dizer, alguém bom!”
Ante a perplexidade geral, e depois de um silêncio que durou alguns segundos, o empresário de turnê Bill Graham percebe um garoto de 19 anos, morador local, chamado Scott Halpin, sendo empurrado por um amigo do lado direito do palco. Quando deu por si, Halpin já estava no backstage com Graham e com o roadie de Keith Moon, recebendo uma rápida aula sobre a bateria de Moon.
Achando que era um sonho e tremendo de nervoso, recebeu apoio imediato do cantor Roger Daltrey, apesar da indiferença aparente de Townshend e de John Entwistle. O garoto tentou tocar três músicas, seguindo de perto as orientações de Townshend, que berrava ao lado da bateria.
Halpin bem que tentou, mas o desempenho, para ser bonzinho, foi sofríve ao exremo, nas palavras de Entwistle anos depois. foram executadas “Smokestack Lightning/Spoonfull”, “Naked Eye” e a clássica “My Generaration”, no bis antecipado, já que as dificuldades do “novo” baterista eram imensas.
Após o show, Halpin e um amigo que o acompanhava foram convidados para a tradicional festa e bebedeira os final dos shows da banda no camarim e recebeu a “gratidão eterna” de Daltrey, segundo contou a um jornal de San Francisco, além da promessa de receber “em breve” um cheque de mil libras de presente. Nunca recebeu o dinheiro.
Os excessos de Moon com bebidas e estimulantes sempre foram notórios desde o início da carreira do Who. Nunca foi chegado a cocaína e heroína, embora fontes dizem que as tenha usado de vez em quanto, mas adorava beber e misturar com remédios.
Há duas versões para Moon ter apagado naquele dia: antes do início da apresentação, ele bebia com duas garotas no camarim sem saber que alguém havia colocado tranqüilizantes de macacos na bebida. Uma dessas duas garotas teria sido internada em um hospital em estado grave.
Outra versão dá conta que ele ouviu de alguém que tranquilizantes para cavalos “davam o maior barato”. Maluco e louco por “novidades”, teria ido atrás da coisa e a misturado com bebida. Seja como for, nenhuma das versões foi confirmada e o baterista sempre se recusou a falar sobre o assunto em público até a sua morte, em setembro de 1978.
Já Scott Halpin permaneceu em sua vidinha medíocre em San Francisco e nunca tocou bateria profissionalmente. Estdu e trabalhou com artes gráficas e design, além de ter administrado um clube punk e new wave na cidade nos anos 70.
Em 1995 mudou-se para o Estado de Indiana para trabalhar com artes visuais na cidade de Bloomington. Morreu em fevereiro de 2008, aos 54 anos anos, vítima de câncer no cérebro. Nunca recebeu nem mesmo um telefonema ou cartão de Natal dos membros do Who.
Imagine um show de uma banda gigante, do Metallica, por exemplo. O show começa e Lars Ulrich, o baterista, demonstra que está esquisito, não está bem. Erra bastante e em passagens fáceis. Atravessa com frequência a música e mostra apatia, coisa que nunca acontecia.
Em determinado momento do show, desmaia sobre a bateria. Há uma paralisação de 15 minutos. Ulrich volta, meio cambaleante, e tenta continuar o show. duas músicas depois, desaba novamente sobre os bumbos, desacordado. Não volta mais para apresentação.
Muito irritado, James Hetfield, o guitarrista e vocalista, em vez de encerrar ali o evento e pedir desculpas, surpreende todo mundo e pergunta à plateia se tem algum baterista por lá. Mais surpreendente ainda, um maluco se apresenta e o show continua, de forma trágica, por mais três músicas.
A situação é absurda demais para ser imaginada, mesmo por roteiristas de cinema. Mas isso realmente aconteceu, e com uma banda gigante. O protagonista foi Keith Moon, que apagou durante um show do Who em San Francisco, na Califórnia, em 1973.
Uma das maiores presepadas do rock, se não a maior, ocorreu no dia 20 de novembro de 1973, no Cow Palace, em San Francisco. Durante a apresentação do Who, que abria a temporada norte-americana de shows do álbum “Quadrophenia”, no meio da música “Won´t Get Fooled Again”, Moon desmaia em cima da bateria.
O guitarrista Pete Townshend avisa à platéia que eles terão que esperar enquanto tentam “ressuscitar” o baterista. Foram 15 minutos de espera até o retorno do maluco Moon, que começou o show esquisito e meio grogue. No retorno, não deu certo: o baterista continuava aéreo e errando e desaba de vez durante a música “Magic Bus”. A banda surpreende e continua sem ele na música “See Me, Feel Me”, sem bateria.
Quando termina esta música, Pete Townshend apela para a platéia e faz a surpreendente pergunta: “Alguém aí pode tocar a bateria? Quero dizer, alguém bom!”
Ante a perplexidade geral, e depois de um silêncio que durou alguns segundos, o empresário de turnê Bill Graham percebe um garoto de 19 anos, morador local, chamado Scott Halpin, sendo empurrado por um amigo do lado direito do palco. Quando deu por si, Halpin já estava no backstage com Graham e com o roadie de Keith Moon, recebendo uma rápida aula sobre a bateria de Moon.
Achando que era um sonho e tremendo de nervoso, recebeu apoio imediato do cantor Roger Daltrey, apesar da indiferença aparente de Townshend e de John Entwistle. O garoto tentou tocar três músicas, seguindo de perto as orientações de Townshend, que berrava ao lado da bateria.
Halpin bem que tentou, mas o desempenho, para ser bonzinho, foi sofríve ao exremo, nas palavras de Entwistle anos depois. foram executadas “Smokestack Lightning/Spoonfull”, “Naked Eye” e a clássica “My Generaration”, no bis antecipado, já que as dificuldades do “novo” baterista eram imensas.
Após o show, Halpin e um amigo que o acompanhava foram convidados para a tradicional festa e bebedeira os final dos shows da banda no camarim e recebeu a “gratidão eterna” de Daltrey, segundo contou a um jornal de San Francisco, além da promessa de receber “em breve” um cheque de mil libras de presente. Nunca recebeu o dinheiro.
Os excessos de Moon com bebidas e estimulantes sempre foram notórios desde o início da carreira do Who. Nunca foi chegado a cocaína e heroína, embora fontes dizem que as tenha usado de vez em quanto, mas adorava beber e misturar com remédios.
Há duas versões para Moon ter apagado naquele dia: antes do início da apresentação, ele bebia com duas garotas no camarim sem saber que alguém havia colocado tranqüilizantes de macacos na bebida. Uma dessas duas garotas teria sido internada em um hospital em estado grave.
Outra versão dá conta que ele ouviu de alguém que tranquilizantes para cavalos “davam o maior barato”. Maluco e louco por “novidades”, teria ido atrás da coisa e a misturado com bebida. Seja como for, nenhuma das versões foi confirmada e o baterista sempre se recusou a falar sobre o assunto em público até a sua morte, em setembro de 1978.
Já Scott Halpin permaneceu em sua vidinha medíocre em San Francisco e nunca tocou bateria profissionalmente. Estdu e trabalhou com artes gráficas e design, além de ter administrado um clube punk e new wave na cidade nos anos 70.
Em 1995 mudou-se para o Estado de Indiana para trabalhar com artes visuais na cidade de Bloomington. Morreu em fevereiro de 2008, aos 54 anos anos, vítima de câncer no cérebro. Nunca recebeu nem mesmo um telefonema ou cartão de Natal dos membros do Who.
sexta-feira, julho 01, 2011
Fim do Guitar Hero fecha uma porta de novos fãs para o rock
Texto de Décio Trujillo
O game Guitar Hero vai acabar. É uma pena, porque nos últimos anos ele tem sido uma porta de entrada de muita criança e adolescente para o mundo do rock, do blues e da boa guitarra. Antes de mais nada, vamos esclarecer que o game não ensina a tocar nem ajuda muito quem está aprendendo ou já sabe alguma coisa. É só um jogo mesmo.
Mas quando alguém fica horas brincando tendo ao fundo uma trilha sonora que inclui Deep Purple, Black Sabbath, The Who, Kiss, Judas Priest e por aí vai, vamos concordar que é uma forma muito especial de mergulhar no rock.
É verdade que a lista de músicas do jogo tem muita coisa duvidosa e bastante porcaria, mas testemunhei vários casos de garotos e garotas que viraram fãs de grandes bandas de tanto curtir o som enquanto jogavam. Também sei de gente que saiu do teclado do computador direto para uma escola de guitarra, inspirado no jogo. Na adrenalina do game, o jogador muitas vezes se sente no meio do concerto e em pouco tempo já mistura jogar com a curtição de tocar e cantar.
Além disso, na tensão de passar de fase, dá para perceber como o autor compôs a música e fez o arranjo, as dificuldades de cada solo, a sofisticação da criação.
Tocar nota por nota junto com Stevie Ray Vaughan, Eric Clapton ou Jimi Hendrix não é pouco e dá uma dimensão da complexidade de um solo de guitarra que a maioria das pessoas não compreende apenas ouvindo. Aliás, o game conseguiu a façanha de colocar nas paradas de sucesso dos jogadores um dos top ten de SRV, Texas Flood, para muita gente que não conhecia nem a música nem o cara.
O fim de Guitar Hero tem a ver com a estratégia de negócios da Activision, que quer investir em outras áreas. O sucessor do jogo, Rock Band, desenvolvido pela mesma Harmonix, que lançou Guitar Hero em 2005, não tem a mesma pegada, é mais uma brincadeira de grupo e não permite tão bem essa ligação entre quem está jogando e a música. E ele também tem futuro incerto. A versão 4, já prometida, não tem data para sair. Talvez nem saia.
Isso tudo é uma pena. Afinal, se você tem que conviver com bandos de adolescentes vidrados no monitor, é melhor que seja ouvindo Metallica ou Iron Maiden do que barulhinhos de tiros de laser e efeitos especiais de fantasmas desaparecendo na tela.
Texto de Décio Trujillo
O game Guitar Hero vai acabar. É uma pena, porque nos últimos anos ele tem sido uma porta de entrada de muita criança e adolescente para o mundo do rock, do blues e da boa guitarra. Antes de mais nada, vamos esclarecer que o game não ensina a tocar nem ajuda muito quem está aprendendo ou já sabe alguma coisa. É só um jogo mesmo.
Mas quando alguém fica horas brincando tendo ao fundo uma trilha sonora que inclui Deep Purple, Black Sabbath, The Who, Kiss, Judas Priest e por aí vai, vamos concordar que é uma forma muito especial de mergulhar no rock.
É verdade que a lista de músicas do jogo tem muita coisa duvidosa e bastante porcaria, mas testemunhei vários casos de garotos e garotas que viraram fãs de grandes bandas de tanto curtir o som enquanto jogavam. Também sei de gente que saiu do teclado do computador direto para uma escola de guitarra, inspirado no jogo. Na adrenalina do game, o jogador muitas vezes se sente no meio do concerto e em pouco tempo já mistura jogar com a curtição de tocar e cantar.
Além disso, na tensão de passar de fase, dá para perceber como o autor compôs a música e fez o arranjo, as dificuldades de cada solo, a sofisticação da criação.
Tocar nota por nota junto com Stevie Ray Vaughan, Eric Clapton ou Jimi Hendrix não é pouco e dá uma dimensão da complexidade de um solo de guitarra que a maioria das pessoas não compreende apenas ouvindo. Aliás, o game conseguiu a façanha de colocar nas paradas de sucesso dos jogadores um dos top ten de SRV, Texas Flood, para muita gente que não conhecia nem a música nem o cara.
O fim de Guitar Hero tem a ver com a estratégia de negócios da Activision, que quer investir em outras áreas. O sucessor do jogo, Rock Band, desenvolvido pela mesma Harmonix, que lançou Guitar Hero em 2005, não tem a mesma pegada, é mais uma brincadeira de grupo e não permite tão bem essa ligação entre quem está jogando e a música. E ele também tem futuro incerto. A versão 4, já prometida, não tem data para sair. Talvez nem saia.
Isso tudo é uma pena. Afinal, se você tem que conviver com bandos de adolescentes vidrados no monitor, é melhor que seja ouvindo Metallica ou Iron Maiden do que barulhinhos de tiros de laser e efeitos especiais de fantasmas desaparecendo na tela.
quarta-feira, junho 29, 2011
Decadência dos games musicais é mais um golpe contra o conteúdo musical
A porta de entrada para as coisas boas do rock, ou seja, para a música boa e de qualidade, também foi uma sobrevida para bandas e músicos na questão da remuneração por seu trabalho intelectual, situação que praticamente não existe mais em tempos de downloads.
Guitar Hero e Rock Band,os games de maior sucesso do mercado relacionados à música, mostraram que era possível ganhar dinheiro com o licenciamento de músicas por parte de artistas e gravadoras. Era só mais uma faceta da nova realidade de mercado da música digital. Na verdade, soa mais como consequência da venda de músicas para celulares e os chamados ringtones.
O declínio de vendas dos games musicais é ruim para o mercado como um todo. Tudo bem que ainda eram poucos os artistas que tiveram suas músicas executadas nos jogos para computador – alguns, como o Metallica (sempre eles) se recusaram no começo a permitir e licenciar seu trabalho para este segmento -, mas as possibilidades de remuneração pelo trabalho intelectual usado neste modelo era imensas e esperançosas. Mais gente tinha convição de seu trabalho poderia migrar para os games
Resta agora incentivar a disseminação de conteúdo pago – e de qualidade – digital para que o mercado se restabeleça e incentive a possibilidade de novos modelos de negócio que privilegiem (ou valorizem) o conteúdo musical, e não o destrua ou o entregue de graças a abutres.
Uma possibilidade bem concreta é a de desenvolvimento de programas e aplicativos que permitam a venda e execução de conteúdo legal musical para celulares, tablets e smartphones sem tantas restrições, como é o caso do iTunes.
O especialista da nossa equipe em convergência de novas mídias, Maurício Gaia, em breve vai discorrer sobre as novas possibilidades reais de artistas e gravadoras ganharem dinheiro com a venda e licenciamento de conteúdo músical legal e vai mostrar aos mais céticos, como eu, que existe sim futuro para o mercado musical no formato digital, desde que, é claro haja criatividade e investimento em tecnologia.
E apenas arrematando o interessante ponto de vista de Décio Trujillo a respeito do “fechamento” da porta de entrada para as crianças à música decente e de qualidade, como era o caso do Guitar Hero e do Rock Band, resgato aqui trechos de um texto do Jornal da Tarde de janeiro de 2010, de autoria do repórter Marco Bezzi. O personagem retratado é a maior evidência e o maior exemplo do que Trujullo narrou:
“ Com canções de clássicos do rock como Queen, Deep Purple, Motörhead e Cream, o jogo fez com que uma nova geração abrisse os ouvidos para velhas canções. Uma delas foi Spanish Castle Magic, de Jimi Hendrix.
“Conheci o jogo no shopping e pedi pro meu pai comprar. Depois de jogar por um ano e pirar no Jimi Hendrix, Joe Satriani e Slash meu pai me deu uma guitarra de presente há dois anos”, conta Bruno Ramos, de 9 anos.
Para conhecer mais o “novo” ídolo, Bruno foi atrás de suas composições e de vídeos no You Tube. “Baixei muitas músicas dele e sei tocar Spanish Castle Magic.”
Outro aficionado pela franquia Guitar Hero é o carioca Thomas Sampaio, de 11 anos. “Meu pai me comprou o jogo e eu viciei logo de cara”, fala Thomas. “Logo no primeiro dia ele me mostrou o Jimi Hendrix e eu achei muito legal. Comecei a assistir a DVDs, baixar música na internet, ler sobre sua vida.”
Thomas também trocou o instrumento de brincadeira pelo real. “Comecei a tocar violão e depois passei para a guitarra.” Hoje, tanto Thomas como Bruno sabem quem é Jimi Hendrix e sua importância para a música mundial. E pensar que a “culpada” de tudo isso foi uma simples guitarrinha de plástico.
A porta de entrada para as coisas boas do rock, ou seja, para a música boa e de qualidade, também foi uma sobrevida para bandas e músicos na questão da remuneração por seu trabalho intelectual, situação que praticamente não existe mais em tempos de downloads.
Guitar Hero e Rock Band,os games de maior sucesso do mercado relacionados à música, mostraram que era possível ganhar dinheiro com o licenciamento de músicas por parte de artistas e gravadoras. Era só mais uma faceta da nova realidade de mercado da música digital. Na verdade, soa mais como consequência da venda de músicas para celulares e os chamados ringtones.
O declínio de vendas dos games musicais é ruim para o mercado como um todo. Tudo bem que ainda eram poucos os artistas que tiveram suas músicas executadas nos jogos para computador – alguns, como o Metallica (sempre eles) se recusaram no começo a permitir e licenciar seu trabalho para este segmento -, mas as possibilidades de remuneração pelo trabalho intelectual usado neste modelo era imensas e esperançosas. Mais gente tinha convição de seu trabalho poderia migrar para os games
Resta agora incentivar a disseminação de conteúdo pago – e de qualidade – digital para que o mercado se restabeleça e incentive a possibilidade de novos modelos de negócio que privilegiem (ou valorizem) o conteúdo musical, e não o destrua ou o entregue de graças a abutres.
Uma possibilidade bem concreta é a de desenvolvimento de programas e aplicativos que permitam a venda e execução de conteúdo legal musical para celulares, tablets e smartphones sem tantas restrições, como é o caso do iTunes.
O especialista da nossa equipe em convergência de novas mídias, Maurício Gaia, em breve vai discorrer sobre as novas possibilidades reais de artistas e gravadoras ganharem dinheiro com a venda e licenciamento de conteúdo músical legal e vai mostrar aos mais céticos, como eu, que existe sim futuro para o mercado musical no formato digital, desde que, é claro haja criatividade e investimento em tecnologia.
E apenas arrematando o interessante ponto de vista de Décio Trujillo a respeito do “fechamento” da porta de entrada para as crianças à música decente e de qualidade, como era o caso do Guitar Hero e do Rock Band, resgato aqui trechos de um texto do Jornal da Tarde de janeiro de 2010, de autoria do repórter Marco Bezzi. O personagem retratado é a maior evidência e o maior exemplo do que Trujullo narrou:
“ Com canções de clássicos do rock como Queen, Deep Purple, Motörhead e Cream, o jogo fez com que uma nova geração abrisse os ouvidos para velhas canções. Uma delas foi Spanish Castle Magic, de Jimi Hendrix.
“Conheci o jogo no shopping e pedi pro meu pai comprar. Depois de jogar por um ano e pirar no Jimi Hendrix, Joe Satriani e Slash meu pai me deu uma guitarra de presente há dois anos”, conta Bruno Ramos, de 9 anos.
Para conhecer mais o “novo” ídolo, Bruno foi atrás de suas composições e de vídeos no You Tube. “Baixei muitas músicas dele e sei tocar Spanish Castle Magic.”
Outro aficionado pela franquia Guitar Hero é o carioca Thomas Sampaio, de 11 anos. “Meu pai me comprou o jogo e eu viciei logo de cara”, fala Thomas. “Logo no primeiro dia ele me mostrou o Jimi Hendrix e eu achei muito legal. Comecei a assistir a DVDs, baixar música na internet, ler sobre sua vida.”
Thomas também trocou o instrumento de brincadeira pelo real. “Comecei a tocar violão e depois passei para a guitarra.” Hoje, tanto Thomas como Bruno sabem quem é Jimi Hendrix e sua importância para a música mundial. E pensar que a “culpada” de tudo isso foi uma simples guitarrinha de plástico.
domingo, junho 26, 2011
Seremos soterrados pela Legião Urbana em 2011
Quem gosta de boa música deve se preparar para um intenso bombardeio de poluição sonora a partir de maio. Várias organizações e fãs-clubes já preparam a partir do mês que vem uma série de homenagens a Renato Russo e à banda Legião Urbana, o combo mais superestimado da música brasileira – recuso-me a considerar o som deles como rock.
Em outubro fará 15 anos que o cantor morreu. Parte expressiva da crítica babenta e pouco crítica despejará sobre nós toneladas de porcaria sonora e impressa a respeito do “legado” deixado por Russo e suas letras pseudointelectuais. À medida que o ano avançará, ficará insuportável conviver na sociedade brasileira, que estará empesteada com a insuportável música da Legião Urbana.
De tudo aquilo que alguns resolveram chamar de rock brasileiro, de longe essa banda é a mais superestimada, e de longe é a mais fraca. Rivaliza em fragilidade artística e baixa qualidade musical com coisas como Inimigos do Rei, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, Absyntho e outros menos votados.
Na comparação com grupos contemporâneos, o resultado é constrangedor em relação a Ira!, Golpe de Estado, Plebe Rude, Barão Vermelho, Titãs e Paralamas do Sucesso. Se forem mencionadas então bandas mais agressivas e extremas, como Garotos Podres, Ratos de Porão, Inocentes e Cólera, o constrangimento é ainda maior.
É evidente que não se pode ignorar que a Legião Urbana foi popular e conquistou um público cativo – que se contenta com muito pouco, é verdade, mas é um público fiel. É admirável a devoção ds apreciadores do grupo, de longe a banda (ou artista ) brasileiro mais cultuado.
A bem da verdade, muita coisa ruim já foi extremamente popular, como as mais “expressivas” bandas de axé e pagode, que venderam milhões de CDs e desapareceram com a mesma velocidade que surgiram. Portanto, esse é o pior dos critérios a serem considerados.
Só que o endeusamento de Russo e a elevação da Legião a “ícone” de uma geração é um dos maiores absurdos da música brasileira. Músicos fracos e pouco criativos, canções óbvias e letras pretensiosas e de conteúdo no mínimo questionável – nada que se pareça com on trabalho lírico de Cazuza, o melhor letrista do rock brasileiro da época.
E dá-lhe reedições de CDs, livros e quilômetros de reportagens vazias e repetitivas sobre a suposta genialidade de Renato Russo e a pretensa qualidade musical do trio.
E pensar que o Ira! teve de penas por 25 anos para obter algum reconhecimento, e que os ótimos Golpe de Estado, Garotos Podres e Inocentes se tornaram underground, quando não relegados ao ostracismo…
Quem gosta de boa música deve se preparar para um intenso bombardeio de poluição sonora a partir de maio. Várias organizações e fãs-clubes já preparam a partir do mês que vem uma série de homenagens a Renato Russo e à banda Legião Urbana, o combo mais superestimado da música brasileira – recuso-me a considerar o som deles como rock.
Em outubro fará 15 anos que o cantor morreu. Parte expressiva da crítica babenta e pouco crítica despejará sobre nós toneladas de porcaria sonora e impressa a respeito do “legado” deixado por Russo e suas letras pseudointelectuais. À medida que o ano avançará, ficará insuportável conviver na sociedade brasileira, que estará empesteada com a insuportável música da Legião Urbana.
De tudo aquilo que alguns resolveram chamar de rock brasileiro, de longe essa banda é a mais superestimada, e de longe é a mais fraca. Rivaliza em fragilidade artística e baixa qualidade musical com coisas como Inimigos do Rei, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, Absyntho e outros menos votados.
Na comparação com grupos contemporâneos, o resultado é constrangedor em relação a Ira!, Golpe de Estado, Plebe Rude, Barão Vermelho, Titãs e Paralamas do Sucesso. Se forem mencionadas então bandas mais agressivas e extremas, como Garotos Podres, Ratos de Porão, Inocentes e Cólera, o constrangimento é ainda maior.
É evidente que não se pode ignorar que a Legião Urbana foi popular e conquistou um público cativo – que se contenta com muito pouco, é verdade, mas é um público fiel. É admirável a devoção ds apreciadores do grupo, de longe a banda (ou artista ) brasileiro mais cultuado.
A bem da verdade, muita coisa ruim já foi extremamente popular, como as mais “expressivas” bandas de axé e pagode, que venderam milhões de CDs e desapareceram com a mesma velocidade que surgiram. Portanto, esse é o pior dos critérios a serem considerados.
Só que o endeusamento de Russo e a elevação da Legião a “ícone” de uma geração é um dos maiores absurdos da música brasileira. Músicos fracos e pouco criativos, canções óbvias e letras pretensiosas e de conteúdo no mínimo questionável – nada que se pareça com on trabalho lírico de Cazuza, o melhor letrista do rock brasileiro da época.
E dá-lhe reedições de CDs, livros e quilômetros de reportagens vazias e repetitivas sobre a suposta genialidade de Renato Russo e a pretensa qualidade musical do trio.
E pensar que o Ira! teve de penas por 25 anos para obter algum reconhecimento, e que os ótimos Golpe de Estado, Garotos Podres e Inocentes se tornaram underground, quando não relegados ao ostracismo…
quinta-feira, junho 23, 2011
A nova safra do experimentalismo sueco: Introitus, Beardfish e Diablo Swing
Pai, mãe e dois filhos resolvem transformar o hobby em um projeto musical, que se transforma em um dos mais respeitados da Europa. De forma bem resumida, essa é a história da banda sueca de música progressiva Introitus, que acaba de lançar seu mais novo trabalho, “Elements”.
Não dá para chamar de rock progressivo, é música progressiva. Não há uma predominância de um gênero musical, tamanha é a salada musical que promovem, mas não dá para negar que o destaque são as guitarras pesadas, que levam frequentemente a banda para o metal progressivo.
Criado por Mats Bender, multiinstrumentista que está focado nos teclados, o Introitus ainda agrega sua mulher, Anne, a excelente vocalista, os filhos Mattias (bateria) e Johanna (percussão e backing vocals) e passeia de forma comptente pelo jazz, pelo blues, por ritmos folclóricos escandinavos e alemães, além de muito rock. Completam a formação Per Danielsson (guitarra), Peter Wetterberg (baixo) e Henrik Björlind (guitarra, sintetizadores e acordeón).
O Diablo Swing Orchestra é um combo que segue na linha do Introitus, mas avança bem mais no experimentalismo. Mistura metal progressivo com música erudita, ópera, música de cabaré, ritmos flamencos e tango, entre outras loucuras.
Os próprios integrantes se definem como avant garde metal, seja lá o que isso seja. O grupo foi criado na Suécia em 2003 e tem como figuras centrais Pontus Mantefors (guitarra, sintetizador e teclados) e a excelente cantora AnnLouice Lögdlund. Lançou por enquanto apenas dois CDs, sendo o último “Sing Along Songs for the Damned & Delirious”.
Já o Beardfish é o mais “normal” desta nova safra do rock sueco de vanguarda. Tendo como base o metal progressivo, faz um som ao mesmo tempo moderno e pesado, com trechos claramente inspirados em ícones do progressivo britânico, como Yes, Genesis e Gentle Giant. Acaba de lançar “Mammoth”, seu novo trabalho, já candidato a um dos melhores trabalhos de 2011.
Apesar de ser um dos destaques dessa nova safra, o quarteto está na estrada desde 2001 e já lançou cinco CDs antes de “Mammoth”, mas só começou a chamar a atenção da imprensa europeia com o penúltimo álbum, “Destined Solitaire”, onde o Beardfish avançou muito em direção ao experimentalismo e ao metal progressivo.
Infelizmente nenhum trabalho das três bandas foi lançado no Brasil, mas é possível encontrá-los na Galeria do Rock, em São Paulo, ou nas lojas virtuais mais importantes do mesmo local.
Pai, mãe e dois filhos resolvem transformar o hobby em um projeto musical, que se transforma em um dos mais respeitados da Europa. De forma bem resumida, essa é a história da banda sueca de música progressiva Introitus, que acaba de lançar seu mais novo trabalho, “Elements”.
Não dá para chamar de rock progressivo, é música progressiva. Não há uma predominância de um gênero musical, tamanha é a salada musical que promovem, mas não dá para negar que o destaque são as guitarras pesadas, que levam frequentemente a banda para o metal progressivo.
Criado por Mats Bender, multiinstrumentista que está focado nos teclados, o Introitus ainda agrega sua mulher, Anne, a excelente vocalista, os filhos Mattias (bateria) e Johanna (percussão e backing vocals) e passeia de forma comptente pelo jazz, pelo blues, por ritmos folclóricos escandinavos e alemães, além de muito rock. Completam a formação Per Danielsson (guitarra), Peter Wetterberg (baixo) e Henrik Björlind (guitarra, sintetizadores e acordeón).
O Diablo Swing Orchestra é um combo que segue na linha do Introitus, mas avança bem mais no experimentalismo. Mistura metal progressivo com música erudita, ópera, música de cabaré, ritmos flamencos e tango, entre outras loucuras.
Os próprios integrantes se definem como avant garde metal, seja lá o que isso seja. O grupo foi criado na Suécia em 2003 e tem como figuras centrais Pontus Mantefors (guitarra, sintetizador e teclados) e a excelente cantora AnnLouice Lögdlund. Lançou por enquanto apenas dois CDs, sendo o último “Sing Along Songs for the Damned & Delirious”.
Já o Beardfish é o mais “normal” desta nova safra do rock sueco de vanguarda. Tendo como base o metal progressivo, faz um som ao mesmo tempo moderno e pesado, com trechos claramente inspirados em ícones do progressivo britânico, como Yes, Genesis e Gentle Giant. Acaba de lançar “Mammoth”, seu novo trabalho, já candidato a um dos melhores trabalhos de 2011.
Apesar de ser um dos destaques dessa nova safra, o quarteto está na estrada desde 2001 e já lançou cinco CDs antes de “Mammoth”, mas só começou a chamar a atenção da imprensa europeia com o penúltimo álbum, “Destined Solitaire”, onde o Beardfish avançou muito em direção ao experimentalismo e ao metal progressivo.
Infelizmente nenhum trabalho das três bandas foi lançado no Brasil, mas é possível encontrá-los na Galeria do Rock, em São Paulo, ou nas lojas virtuais mais importantes do mesmo local.
segunda-feira, junho 20, 2011
O jazz e o erudito na genialidade de uma nova estrela
A garota até fala um pouco de português, graças ao marido percussionista brasileiro. Adora música brasileira e sempre grava ao menos dois temas nacionais em seus discos de jazz. Para completar, ela toca contrabaixo acústico, que é maior do que ela, e canta ao mesmo tempo. Só poderia ser mesmo uma geniozinha da raça, que dá aulas de músicas nas melhores escolas dos Estados Unidos desde os 22 anos de idade – tem hoje 26.
Alçada ao posto de “principal sensação do jazz atual”, a norte-americana Esperanza Spalding acumulou tamanha fama que até foi tocar na entrega do Nobel ao presidente Barack Obama. Mostrou suas principais qualidades ao presidente: uma exímia baixista, que sabe improvisar e canta com personalidade.
É uma ilustre representante do jazz moderno, já que também se aventura com segurança pelo universo da composição. Diferente de “Esperanza” (2008), seu novo trabalho “Chamber Music Society”, lançado em dezembro passado, traz formação erudita para estruturar arranjos intricados e muitos malabarismos vocais.
Além de utilizar do tradicional quarteto de câmara, com violino, viola, cello e contrabaixo, Spalding está acompanhada do pianista Leo Genovese, da baterista Terri Lyne Carrington e do percussionista Quintino Cinalli para executar temas densos e de qualidade quase inatingível.
A voz figura como instrumento de solo em quase todas as composições. Não há espaço para o “groove” mais funkeado. É um disco contemplativo e muito agradável.
O repertório é quase todo autoral. As únicas exceções são a versão de “Inútil Paisagem”, de Tom Jobim, “Chacacera”, de Genovese, uma versão mais pop de “Wild Is the Wind”, de Dimitri Tiomkin e Ned Washington, e um tema feito com base no poema “Little Fly”, do poeta inglês William Blake.
Entre as participações, destaque para um dos ídolos de Esperanza: o cantor brasileiro Milton Nascimento. Juntos, eles fazem a doce “Apple Blosson”. Além de Milton, a cantora Gretchen Parlato participa em "Knowledge Of Good And Evil".
“Chamber Music Society” é talvez o álbum mais importante do jazz norte-americano dos últimos cinco anos, por mais que o nível de sofisticação chegue a assustar. É um trabalho de fôlego, de uma musicista que surgiu desde o início como uma das estrelas do gênero no século XXI. Pelo que se ouve em seu novo trabalho, sua criatividade parece não ter limites.
A garota até fala um pouco de português, graças ao marido percussionista brasileiro. Adora música brasileira e sempre grava ao menos dois temas nacionais em seus discos de jazz. Para completar, ela toca contrabaixo acústico, que é maior do que ela, e canta ao mesmo tempo. Só poderia ser mesmo uma geniozinha da raça, que dá aulas de músicas nas melhores escolas dos Estados Unidos desde os 22 anos de idade – tem hoje 26.
Alçada ao posto de “principal sensação do jazz atual”, a norte-americana Esperanza Spalding acumulou tamanha fama que até foi tocar na entrega do Nobel ao presidente Barack Obama. Mostrou suas principais qualidades ao presidente: uma exímia baixista, que sabe improvisar e canta com personalidade.
É uma ilustre representante do jazz moderno, já que também se aventura com segurança pelo universo da composição. Diferente de “Esperanza” (2008), seu novo trabalho “Chamber Music Society”, lançado em dezembro passado, traz formação erudita para estruturar arranjos intricados e muitos malabarismos vocais.
Além de utilizar do tradicional quarteto de câmara, com violino, viola, cello e contrabaixo, Spalding está acompanhada do pianista Leo Genovese, da baterista Terri Lyne Carrington e do percussionista Quintino Cinalli para executar temas densos e de qualidade quase inatingível.
A voz figura como instrumento de solo em quase todas as composições. Não há espaço para o “groove” mais funkeado. É um disco contemplativo e muito agradável.
O repertório é quase todo autoral. As únicas exceções são a versão de “Inútil Paisagem”, de Tom Jobim, “Chacacera”, de Genovese, uma versão mais pop de “Wild Is the Wind”, de Dimitri Tiomkin e Ned Washington, e um tema feito com base no poema “Little Fly”, do poeta inglês William Blake.
Entre as participações, destaque para um dos ídolos de Esperanza: o cantor brasileiro Milton Nascimento. Juntos, eles fazem a doce “Apple Blosson”. Além de Milton, a cantora Gretchen Parlato participa em "Knowledge Of Good And Evil".
“Chamber Music Society” é talvez o álbum mais importante do jazz norte-americano dos últimos cinco anos, por mais que o nível de sofisticação chegue a assustar. É um trabalho de fôlego, de uma musicista que surgiu desde o início como uma das estrelas do gênero no século XXI. Pelo que se ouve em seu novo trabalho, sua criatividade parece não ter limites.
sexta-feira, junho 17, 2011
Cheque clonado: bancos também são responsáveis
Não bastassem as violações aos cartões de banco, outro inferno na vida do consumidor são os cheques clonados. Estima-se que 20% dos cheques devolvidos estão relacionados à clonagem. E, como sempre, o cidadão sofre os transtornos do golpe e tem de corre atrás do prejuízo.
A pergunta é: como alguém pode clonar folha de um talão de cheque que não saiu das mãos do consumidor? E o mais curioso é que existe até a clonagem de cheque pertencente a talonário que não foi entregue ao correntista, assim como também constata-se a adulteração (e o pagamento pelo banco) de cheques referentes a contas que já foram encerradas.
No entanto, a forma mais comum do golpe ocorre quando o correntista emite um ou diversos cheques e a bandidagem especializada reproduz cópias destes para fazer a festa no mercado. Nos casos em que o cheque clonado é apresentado ao banco e este percebe a falsificação e recusa o pagamento, não há dores de cabeça para o correntista.
A lesão ao consumidor ocorre quando o banco, por negligência, faz o pagamento do cheque clonado. Também ocorre quando o banco não paga o cheque, mas faz a sua devolução por insuficiência de fundos. É que, havendo o pagamento do cheque, a conta do consumidor poderá ficar sem saldo e motivar a devolução de outros cheques emitidos pelo correntista.
Assim como o pagamento do cheque clonado poderá levar o correntista a ter de usar o limite do cheque especial, tendo de arcar com juros altos do banco.
Quando o banco não paga o cheque clonado, e o devolve por insuficiência de fundos, causa outro problema sério ao consumidor: o seu nome costuma ser protestado e vai parar nos órgãos de proteção ao crédito, além de registro no cadastro de emitentes de cheques sem fundo do Banco Central.
Só que a Justiça, unanimemente, tem condenado os bancos a reparar os danos sofridos pelas vítimas dos cheques clonados. Primeiro, as condenações ocorrem em relação aos prejuízos econômicos citados (gastos com tarifas bancárias, juros do cheque especial e devolução ao correntista do valor dos cheques falsos sacados de sua conta corrente).
Além da reparação dos prejuízos econômicos, a Justiça também tem condenado os bancos a pagar dano moral às vítimas do golpe, em razão dos transtornos gerados pelos saques dos cheques clonados, ou pela devolução destes como cheques sem fundos (o valor do dano moral tem variado entre R$ 3 mil e R$ 10 mil).
A reparação de prejuízos por cheques clonados que são apresentados em outras cidades, pode ser reivindicado na Justiça (inclusive no Juizado Especial Cível) do local onde o consumidor reside.
Não bastassem as violações aos cartões de banco, outro inferno na vida do consumidor são os cheques clonados. Estima-se que 20% dos cheques devolvidos estão relacionados à clonagem. E, como sempre, o cidadão sofre os transtornos do golpe e tem de corre atrás do prejuízo.
A pergunta é: como alguém pode clonar folha de um talão de cheque que não saiu das mãos do consumidor? E o mais curioso é que existe até a clonagem de cheque pertencente a talonário que não foi entregue ao correntista, assim como também constata-se a adulteração (e o pagamento pelo banco) de cheques referentes a contas que já foram encerradas.
No entanto, a forma mais comum do golpe ocorre quando o correntista emite um ou diversos cheques e a bandidagem especializada reproduz cópias destes para fazer a festa no mercado. Nos casos em que o cheque clonado é apresentado ao banco e este percebe a falsificação e recusa o pagamento, não há dores de cabeça para o correntista.
A lesão ao consumidor ocorre quando o banco, por negligência, faz o pagamento do cheque clonado. Também ocorre quando o banco não paga o cheque, mas faz a sua devolução por insuficiência de fundos. É que, havendo o pagamento do cheque, a conta do consumidor poderá ficar sem saldo e motivar a devolução de outros cheques emitidos pelo correntista.
Assim como o pagamento do cheque clonado poderá levar o correntista a ter de usar o limite do cheque especial, tendo de arcar com juros altos do banco.
Quando o banco não paga o cheque clonado, e o devolve por insuficiência de fundos, causa outro problema sério ao consumidor: o seu nome costuma ser protestado e vai parar nos órgãos de proteção ao crédito, além de registro no cadastro de emitentes de cheques sem fundo do Banco Central.
Só que a Justiça, unanimemente, tem condenado os bancos a reparar os danos sofridos pelas vítimas dos cheques clonados. Primeiro, as condenações ocorrem em relação aos prejuízos econômicos citados (gastos com tarifas bancárias, juros do cheque especial e devolução ao correntista do valor dos cheques falsos sacados de sua conta corrente).
Além da reparação dos prejuízos econômicos, a Justiça também tem condenado os bancos a pagar dano moral às vítimas do golpe, em razão dos transtornos gerados pelos saques dos cheques clonados, ou pela devolução destes como cheques sem fundos (o valor do dano moral tem variado entre R$ 3 mil e R$ 10 mil).
A reparação de prejuízos por cheques clonados que são apresentados em outras cidades, pode ser reivindicado na Justiça (inclusive no Juizado Especial Cível) do local onde o consumidor reside.
terça-feira, junho 14, 2011
Cartão clonado: Justiça a favor do consumidor
Retomo o tema da coluna passada a respeito da clonagem de cartões e sobre a responsabilidade dos bancos no ressarcimento de prejuízos. A última instância do Judiciário, para este assunto, que é o Superior Tribunal de Justiça (STJ), já consolidou o entendimento de que os bancos devem ressarcir os saques indevidos, e deixou claro que a instituição financeira somente está isenta de pagar o prejuízo da “clonagem”, se conseguir comprovar que o saque foi realizado pelo próprio correntista.
Ou seja, a Justiça, unanimemente, enterrou a tese dos bancos de que o fato de o consumidor ter a posse exclusiva do cartão e da senha excluiria a responsabilidade das instituições financeiras pelo pagamento do prejuízo sofrido. E não poderia ser outro o veredicto do Judiciário, após ter se tornado pública e notória a “indústria da clonagem”, implementada pela bandidagem.
Portanto, nos casos em que os bancos não tiverem provas concretas de que o saque foi realizado diretamente consumidor, terão de obedecer a orientação da Justiça: deve repor ao seu devido lugar o patrimônio do consumidor que se comprometeu a guardar.
Caso contrário, o consumidor deve recorrer à Justiça para obter a reparação do dano econômico e moral (este também tem sido concedido na maioria dos casos).
A vítima da clonagem também pode pedir à Justiça que determine que o banco antecipe no início do processo, em caráter liminar (de imediato) a devolução do valor “surrupiado” de sua conta, condicionada à devolução de tal valor se no final do processo o banco provar a culpa do consumidor pelo saque. Afinal, não é justo deixar a vítima do erro do forte (o banco) no desespero até final do processo
Abaixo seguem dicas do Procon e da Delegacia do Consumidor de São Paulo para evitar a clonagem, se possível:
- Na hora de receber o envelope com o cartão, via correios ou empresa de transporte, não aceite se o documento estiver violado. Sempre assine no espaço reservado atrás do cartão.
- Verifique, rotineiramente, os lançamentos das compras efetuadas em sua fatura. A maioria das administradores oferece este serviço pela internet.
- No ato da compra não perca de vista o seu cartão. Cuidado com esbarrões ou encontros acidentais. Se isso ocorrer, verifique se o que está em suas mãos é o seu.
- No caixa eletrônico, em caso de retenção do cartão na máquina, não digite a senha novamente. Aperte as teclas "anula" e "cancela" e comunique o banco. Não abandone o caixa antes de seguir as instruções da instituição financeira.
- Nunca digite sua senha em telefones públicos ou que "salvem" os números. Se receber alguma ligação telefônica de alguém dizendo que é funcionário do banco pedindo sua senha, não digite e contate a instituição ou a operadora do cartão.
- Usaram meu cartão. E agora? - ao perceber que foi vítima de alguma fraude comunique à administradora, anotando o horário, o nome do atendente e o número do protocolo de atendimento
- Depois, vá à polícia e registre Boletim de Ocorrência.
Caso a empresa não entre em acordo, abra processo no Procon ou na Justiça, solicitando a reversão do ônus da prova. A partir daí, a empresa é que vai ter de provar que o consumidor é quem fez as compras.
Retomo o tema da coluna passada a respeito da clonagem de cartões e sobre a responsabilidade dos bancos no ressarcimento de prejuízos. A última instância do Judiciário, para este assunto, que é o Superior Tribunal de Justiça (STJ), já consolidou o entendimento de que os bancos devem ressarcir os saques indevidos, e deixou claro que a instituição financeira somente está isenta de pagar o prejuízo da “clonagem”, se conseguir comprovar que o saque foi realizado pelo próprio correntista.
Ou seja, a Justiça, unanimemente, enterrou a tese dos bancos de que o fato de o consumidor ter a posse exclusiva do cartão e da senha excluiria a responsabilidade das instituições financeiras pelo pagamento do prejuízo sofrido. E não poderia ser outro o veredicto do Judiciário, após ter se tornado pública e notória a “indústria da clonagem”, implementada pela bandidagem.
Portanto, nos casos em que os bancos não tiverem provas concretas de que o saque foi realizado diretamente consumidor, terão de obedecer a orientação da Justiça: deve repor ao seu devido lugar o patrimônio do consumidor que se comprometeu a guardar.
Caso contrário, o consumidor deve recorrer à Justiça para obter a reparação do dano econômico e moral (este também tem sido concedido na maioria dos casos).
A vítima da clonagem também pode pedir à Justiça que determine que o banco antecipe no início do processo, em caráter liminar (de imediato) a devolução do valor “surrupiado” de sua conta, condicionada à devolução de tal valor se no final do processo o banco provar a culpa do consumidor pelo saque. Afinal, não é justo deixar a vítima do erro do forte (o banco) no desespero até final do processo
Abaixo seguem dicas do Procon e da Delegacia do Consumidor de São Paulo para evitar a clonagem, se possível:
- Na hora de receber o envelope com o cartão, via correios ou empresa de transporte, não aceite se o documento estiver violado. Sempre assine no espaço reservado atrás do cartão.
- Verifique, rotineiramente, os lançamentos das compras efetuadas em sua fatura. A maioria das administradores oferece este serviço pela internet.
- No ato da compra não perca de vista o seu cartão. Cuidado com esbarrões ou encontros acidentais. Se isso ocorrer, verifique se o que está em suas mãos é o seu.
- No caixa eletrônico, em caso de retenção do cartão na máquina, não digite a senha novamente. Aperte as teclas "anula" e "cancela" e comunique o banco. Não abandone o caixa antes de seguir as instruções da instituição financeira.
- Nunca digite sua senha em telefones públicos ou que "salvem" os números. Se receber alguma ligação telefônica de alguém dizendo que é funcionário do banco pedindo sua senha, não digite e contate a instituição ou a operadora do cartão.
- Usaram meu cartão. E agora? - ao perceber que foi vítima de alguma fraude comunique à administradora, anotando o horário, o nome do atendente e o número do protocolo de atendimento
- Depois, vá à polícia e registre Boletim de Ocorrência.
Caso a empresa não entre em acordo, abra processo no Procon ou na Justiça, solicitando a reversão do ônus da prova. A partir daí, a empresa é que vai ter de provar que o consumidor é quem fez as compras.
sábado, junho 11, 2011
Cartão de banco clonado: consumidor tem de ser ressarcido
A situação é clássica e cada vez mais comum. Você vai ao banco e percebe que, um dia depois de receber o salário, sua conta está negativa. Ou então do nada você recebe uma comunicação de algum órgão responsável por cadastro de inadimplentes – SPC ou Serasa – informando sobre um débito gigante com origem em sua conta bancária.
Em qualquer uma das circunstâncias, você não se lembra de ter feito aquelas despesas. E não se lembra porque não as fez. Você então percebe que acaba de ser uma vítima de cartão bancário clonado, seja de débito ou de crédito.
Quando o cartão de crédito é roubado, furtado ou clonado e compras são feitas sem autorização do cliente, este deve ser ressarcido pelo banco. Nâo há outra alternativa e não deve haver contestação.
Nesses casos, cabe à administradora comprovar que as compras foram feitas pelo cliente, que é considerado pelos órgãos de defesa do consumidor como a parte vulnerável da relação de consumo e, por isso, não deve ser prejudicado.
Além disso, o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) diz que o fornecedor de serviço deve garantir segurança e tranquilidade quanto a sua fruição.
Até a Justiça tem entendido que as compras não reconhecidas pelo consumidor só devem ser pagas quando a administradora demonstra que a assinatura no comprovante da compra é realmente a do titular.
E quem fica com o prejuízo? Qualquer um, menos o cliente. O comerciante toma diversas providências para evitar ser lesado, enganado, fraudado ou roubado. Praticamente ninguém mais aceita cheques.
Se os comerciantes têm esse direito, então também tem seus deveres. Quem aceita cheque e cartão de crédito tem o dever de conferir na hora a assinatura e os dados cadastrais dos clientes.
Tem de conferir a assinatura e o número do RG ou do CPF na hora da venda, mesmo que isso atrase o movimento, provoque filas e ranger de dentes de gente menos paciente. Se não fizer isso, o comerciante correrá o risco de ser responsabilizado pelo banco e pela operadora de crédito.
Uma coisa é certa: o tem de ser ressarcido. É lei e a Justiça cansou de publicar sentenças neste sentido. Os bancos é que são responsáveis pela segurança do sistema. Se alguém clona cartão ou consegue algum meio de obter a senha de alguém, é porque o seu sistema de segurança é falho.
Kássia Correa, advogada da Associação Nacional dos Usuários de Cartão de Crédito (Anucc), reafirma que o consumidor não deve pagar. “Segundo o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, os bancos e as administradoras estão obrigados a ressarcir o prejuízo no caso de fraude. E o consumidor pode recorrer ao Judiciário. "O procedimento leva uns dois meses. Mas é preciso cuidado, pois, se comprovado que os gastos são do cliente, a cobrança é feita com juros.”
Se o dono do cartão roubado tiver problemas para ser indenizado pelo banco, deve recorrer a um órgão de defesa do consumidor e, em último caso, a um Juizado Especial Cível (Unidade Central - 3207 5857) mais próximo de sua residência.
A situação é clássica e cada vez mais comum. Você vai ao banco e percebe que, um dia depois de receber o salário, sua conta está negativa. Ou então do nada você recebe uma comunicação de algum órgão responsável por cadastro de inadimplentes – SPC ou Serasa – informando sobre um débito gigante com origem em sua conta bancária.
Em qualquer uma das circunstâncias, você não se lembra de ter feito aquelas despesas. E não se lembra porque não as fez. Você então percebe que acaba de ser uma vítima de cartão bancário clonado, seja de débito ou de crédito.
Quando o cartão de crédito é roubado, furtado ou clonado e compras são feitas sem autorização do cliente, este deve ser ressarcido pelo banco. Nâo há outra alternativa e não deve haver contestação.
Nesses casos, cabe à administradora comprovar que as compras foram feitas pelo cliente, que é considerado pelos órgãos de defesa do consumidor como a parte vulnerável da relação de consumo e, por isso, não deve ser prejudicado.
Além disso, o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) diz que o fornecedor de serviço deve garantir segurança e tranquilidade quanto a sua fruição.
Até a Justiça tem entendido que as compras não reconhecidas pelo consumidor só devem ser pagas quando a administradora demonstra que a assinatura no comprovante da compra é realmente a do titular.
E quem fica com o prejuízo? Qualquer um, menos o cliente. O comerciante toma diversas providências para evitar ser lesado, enganado, fraudado ou roubado. Praticamente ninguém mais aceita cheques.
Se os comerciantes têm esse direito, então também tem seus deveres. Quem aceita cheque e cartão de crédito tem o dever de conferir na hora a assinatura e os dados cadastrais dos clientes.
Tem de conferir a assinatura e o número do RG ou do CPF na hora da venda, mesmo que isso atrase o movimento, provoque filas e ranger de dentes de gente menos paciente. Se não fizer isso, o comerciante correrá o risco de ser responsabilizado pelo banco e pela operadora de crédito.
Uma coisa é certa: o tem de ser ressarcido. É lei e a Justiça cansou de publicar sentenças neste sentido. Os bancos é que são responsáveis pela segurança do sistema. Se alguém clona cartão ou consegue algum meio de obter a senha de alguém, é porque o seu sistema de segurança é falho.
Kássia Correa, advogada da Associação Nacional dos Usuários de Cartão de Crédito (Anucc), reafirma que o consumidor não deve pagar. “Segundo o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, os bancos e as administradoras estão obrigados a ressarcir o prejuízo no caso de fraude. E o consumidor pode recorrer ao Judiciário. "O procedimento leva uns dois meses. Mas é preciso cuidado, pois, se comprovado que os gastos são do cliente, a cobrança é feita com juros.”
Se o dono do cartão roubado tiver problemas para ser indenizado pelo banco, deve recorrer a um órgão de defesa do consumidor e, em último caso, a um Juizado Especial Cível (Unidade Central - 3207 5857) mais próximo de sua residência.
quarta-feira, junho 08, 2011
As distorções provocadas pela meia entrada
Uma fonte constante de reclamações, de todos os lados, é a venda de ingressos para espetáculos artísticos e esportivos, seja pelos preços altos, seja pela existência da nefasta figura do cambista, que lucra de forma nojenta com o excesso de procura.
Entretanto, já faz pelo menos dez anos que a meia entrada para estudante também causa uma série de constrangimentos por conta da indiscriminada emissão pelas entidades responsáveis isso, entre elas a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), entre outros.
Na minha opinião, existem poucas circunstâncias hoje tão asquerosas para o consumidor como as consequências da meia entrada indiscriminada e fraudulenta.
O consumidor comum que, como eu, adora shows e eventos culturais, é duplamente desrespeitado, seja pela explícita fraude na concessão das tais carteirinhas, seja pelos preços absurdamente inflacionados tendo como explicação a farra das meias entradas.
E o pior é que não como tirar a razão dos empresários do setor. A tal farra na distribuição de carteiras e as incontáveis fraudes cometidas são responsáveis diretas pela explosão dos preços dos espetáculos no Brasil.
Um empreendedor de porte médio provou na contabilidade, no lápis, o quanto fica inviável para qualquer artista ou empresário do ramo investir em uma produção se houver risco de ter toda a plateia pagando meia entrada, respaldada pela lei.
A distorção da aplicação da lei da meia estrada também provoca situações esdrúxulas, como a do leitor Claudio Ribeiro, de Curitiba. Leiam o seu relato, em situação ocorrida em 2009:
“Uma pessoa foi comprar um ingresso para um show, que estava sendo vendido por um valor X, mas que se a pessoa trouxesse 1 kg de alimento não perecível, pagaria meia-entrada.
Acontece que esse rapaz é um estudante e pleiteou pagar meia entrada, sobre o valor (de meia-entrada) calculado sobre o desconto dado. A funcionaria se negou a conceder o desconto, já que o rapaz pagaria 25% apenas do valor original da entrada para o show.
Ofendido, o rapaz chamou a policia e foram todos para a delegacia, onde após um acordo, os organizadores aceitaram que o rapaz pagasse os 25%.
Quem estaria correto nessa situação, o rapaz, que sendo estudante teria direito a desconto de 50% sobre o valor da entrada que era de 50% por ter levado o quilo de alimento, ou a empresa/funcionária, que achou que aquilo seria abuso?”
São excessos como esse que fazem aumentar diariamente os protestos contra a lei da meia entrada. E aumenta cada vez mais o número de pessoas que pedem a revisão de lei, justamente para não inviabilizar a produção de espetáculos e para não penalizar quem não é estudante.
No caso descrito por Ribeiro, em meu entendimento, a empresa estava correta ao não permitir um desconto sobre o desconto. O espírito da lei da meia entrada é válido, mas foi corrompido. A medida foi elaborada com a melhor das intenções, como uma forma de facilitar o acesso à cultura aos estudantes carentes e estimulá-los a procurar os espetáculos e ir a museus, por exemplo.
Só que faltou cuidado na elaboração da lei, em todas as suas versões pelo país afora. Em nome de uma oportunista “igualdade”, o mesmo estudante carente que sempre esteve excluído do acesso à cultura é equiparado ao aluno abonado de colégios e faculdades particulares, que pagam mensalidades superiores a R$ 1 mil – e parte deles provavelmente gasta R$ 500 em qualquer balada por aí.
Sou favorável a, no mínimo, uma revisão urgente das leis da meia entrada em todo país, com a consequente redução da emissão de carteiras e do estabelecimento de critérios muito mais rígidos sobre quem tem direito e quem não tem, levando-se em conta a situação financeira do estudante.
Do jeito que é aplicada hoje, de forma equivocada, torna-se inaceitável. Na verdade, acho que a meia entrada deve ser banida em razão das distorções observadas em qualquer espetáculo cultural no Brasil.
Uma fonte constante de reclamações, de todos os lados, é a venda de ingressos para espetáculos artísticos e esportivos, seja pelos preços altos, seja pela existência da nefasta figura do cambista, que lucra de forma nojenta com o excesso de procura.
Entretanto, já faz pelo menos dez anos que a meia entrada para estudante também causa uma série de constrangimentos por conta da indiscriminada emissão pelas entidades responsáveis isso, entre elas a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), entre outros.
Na minha opinião, existem poucas circunstâncias hoje tão asquerosas para o consumidor como as consequências da meia entrada indiscriminada e fraudulenta.
O consumidor comum que, como eu, adora shows e eventos culturais, é duplamente desrespeitado, seja pela explícita fraude na concessão das tais carteirinhas, seja pelos preços absurdamente inflacionados tendo como explicação a farra das meias entradas.
E o pior é que não como tirar a razão dos empresários do setor. A tal farra na distribuição de carteiras e as incontáveis fraudes cometidas são responsáveis diretas pela explosão dos preços dos espetáculos no Brasil.
Um empreendedor de porte médio provou na contabilidade, no lápis, o quanto fica inviável para qualquer artista ou empresário do ramo investir em uma produção se houver risco de ter toda a plateia pagando meia entrada, respaldada pela lei.
A distorção da aplicação da lei da meia estrada também provoca situações esdrúxulas, como a do leitor Claudio Ribeiro, de Curitiba. Leiam o seu relato, em situação ocorrida em 2009:
“Uma pessoa foi comprar um ingresso para um show, que estava sendo vendido por um valor X, mas que se a pessoa trouxesse 1 kg de alimento não perecível, pagaria meia-entrada.
Acontece que esse rapaz é um estudante e pleiteou pagar meia entrada, sobre o valor (de meia-entrada) calculado sobre o desconto dado. A funcionaria se negou a conceder o desconto, já que o rapaz pagaria 25% apenas do valor original da entrada para o show.
Ofendido, o rapaz chamou a policia e foram todos para a delegacia, onde após um acordo, os organizadores aceitaram que o rapaz pagasse os 25%.
Quem estaria correto nessa situação, o rapaz, que sendo estudante teria direito a desconto de 50% sobre o valor da entrada que era de 50% por ter levado o quilo de alimento, ou a empresa/funcionária, que achou que aquilo seria abuso?”
São excessos como esse que fazem aumentar diariamente os protestos contra a lei da meia entrada. E aumenta cada vez mais o número de pessoas que pedem a revisão de lei, justamente para não inviabilizar a produção de espetáculos e para não penalizar quem não é estudante.
No caso descrito por Ribeiro, em meu entendimento, a empresa estava correta ao não permitir um desconto sobre o desconto. O espírito da lei da meia entrada é válido, mas foi corrompido. A medida foi elaborada com a melhor das intenções, como uma forma de facilitar o acesso à cultura aos estudantes carentes e estimulá-los a procurar os espetáculos e ir a museus, por exemplo.
Só que faltou cuidado na elaboração da lei, em todas as suas versões pelo país afora. Em nome de uma oportunista “igualdade”, o mesmo estudante carente que sempre esteve excluído do acesso à cultura é equiparado ao aluno abonado de colégios e faculdades particulares, que pagam mensalidades superiores a R$ 1 mil – e parte deles provavelmente gasta R$ 500 em qualquer balada por aí.
Sou favorável a, no mínimo, uma revisão urgente das leis da meia entrada em todo país, com a consequente redução da emissão de carteiras e do estabelecimento de critérios muito mais rígidos sobre quem tem direito e quem não tem, levando-se em conta a situação financeira do estudante.
Do jeito que é aplicada hoje, de forma equivocada, torna-se inaceitável. Na verdade, acho que a meia entrada deve ser banida em razão das distorções observadas em qualquer espetáculo cultural no Brasil.
segunda-feira, maio 16, 2011
POr que o Rio de Janeiro continua como o túmulo do rock?
O Iron Maiden tinha acabado fazer um show debaixo de muita chuva no estacionamento do Anhembi, em São Paulo, para mais de 30 mil pessoas, em dezembro de 1998. Poucas pessoas sabiam, mas aqueles shows pela América do Sul eram a despedida do vocalista Blaze Bayley - nem ele mesmo sabia disso.
A banda voou para o Rio no dia seguinte, onde tocaria na enorme casa noturna que muda de nome a cada patrocinador (Claro Hall? ATL Hall? Imperator?). Foram colocados 10 mil ingressos à venda, mas nem 8 mil foram vendidos. O evento quase deu prejuízo aos produtores, que definiram ali mesmo: Iron no Rio novamente, só em festival, e olhe lá.
Um outro produtor de shows conhecido no mercado decretou algo que o músico Lobão sempre disse em relação à cidade do Rio de Janeiro: é o túmulo do rock. Nos últimos 15 anos, foram incontáveis as turnês internacionais que passaram pelo Brasil, com bandas de grande, médio e pequeno portes, e ignoraram o Rio. Quem insistiu, teve shows cancelados, como a excelente banda de thrash Death Angel, em outubro passado.
Até mesmo o Anvil, banda canadense que voltou à cena e a ter manchetes por conta de um maravilhoso documentário sobre a sua carreira, tocou em São Paulo e em Catanduva, mas ignorou o Rio. Os shows internacionais são cada vez mais esporádicos, e isso acontece há muito tempo.
E olha que 2010 nem foi tão ruim assim, com shows de gente como Manowar, Epica, Marduk e Blaze Bayley. O chato é que o público em todos os shows foi pequeno, muito aquém do esperado para atrações desse nível - parabéns para os heróis que promoveram esses eventos.
Bandas brasileiras de rock de nível internacional, como Angra, Korzus, Shaman, Krisiun e Hangar, tocam bem menos do que deveriam na cidade. Renato Tribuzy, vocalista e responsável pelo projeto Tribuzy, que gravaou CD e trouxe a São Paulo uma constelação de craques para um show - Ralf Scheepers, Bruce Dickinson, Kai Hansen e vários outros - é carioca, mas pouco se ouve falar de seus projetos na cidade.
Prejuízos
Por que o cidade natal do Rock in Rio despreza tanto o gênero quando ele resolve se manifestar fora do festival? Sobram teorias e explicações das mais diversas e contraditórias, mas o consenso está cada vez mais distante. Uma coisa é certa: produtores de shows de grande e médio portes, se puderem, fogem da cidade.
"O prejuízo é certo. Se não for um megaevento histórico, como Rush, Paul McCartney, U2, AC/DC, Rolling Stones, que vêm ao Brasil a cada cinco ou dez anos, esqueça o Rio. É mais garantido investir em Curitiba ou Porto Alegre, com um público cativo de rock. Até mesmo Belo Horizonte é mais interessante. Para shows de médio porte, o Rio perde até mesmo para Brasília, Goiânia e várias cidades do interior paulista", diz um experiente produtor de nível internacional que atua no Brasil e na Argentina, mas que pediu para não ser identificado.
Só um gigante como Paul McCartney para lotar um estádio no Rio (REUTERS/Mario Anzuoni)
Ele evita perder tempo em procurar explicações. "Não faz diferença. Existe um fato: o carioca gosta menos de rock do que o paulista e o gaúcho, que são povos mais aficionados, e mais ligados na música internacional, mais curiosos com o que vem do exterior. Enquanto quase todos os shows de grande porte acabam tendo show extra em São Paulo, o memso evento raramente vende 70% 08 80% dos ingressos no Rio em local bem menor - isso quando o evento também é marcado para a cidade. A diferença é abissal."
Rock sepultado
Lobão, carioca que se mudou para São Paulo em 2007, filosofa na hora de falar sobre o assunto, mesmo que em tom gerenalista. "O principal fator para eu sair do Rio foi ter sentido que a cidade perdeu o 'tom' do rock’n roll. O cenário do rock e tudo que se refere ao gênero estão em São Paulo. Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio é o túmulo do rock", afirmou à revista Quem em 2009 e ao Jornal da Tarde em 2010.
Eric Mattos tem quase 30 anos e já pasou por Curitiba antes de se estabelecer em São Paulo há sete anos. Deixou Niterói, onde nasceu e tocou em quase 20 bandas de metal e punk, para trabalhar com música e computação em outro lugar.
"Há roqueiro de monte no Rio e em Niterói, mas não há cena. Há é muita preguiça e falta de interesse. Cansei de tocar para 20 pessoas em boteco e praça na minha cidade, sabendo que todos os meus amigos preferiam estar na praia ou vendo jogo de futebol de várzea. Nem meus primos, que são todos roqueiros e tocam instrumentos, iam me ver tocar como eu ia vê-los. Chega uma hora que não dá", diz o músico fluminense.
Em Curitiba não tocou profissionalmente, mas não perdia um show de rock aos finais de semana. "Dependendo da banda, tinha de implorar por um ingresso, de tão lotado que ficava. Tudo bem, nem eram tantos lugares assim com shows de rock, mas havia público para todos, até mesmo para os batidos covers de rock nacional. Em vários shows de bandas locais não consegui entrar no bar. Jamais vi isso em Niterói ou no Rio, onde existem bandas espetaculares, mas que não tocam mais", afirma Mattos.
Em São Paulo, ele tenta conciliar o trabalho de programador com o de integrante da produção de vários shows internacionais. "Nem dá tempo para pensar. Há show de tudo quanto é tipo em São Paulo, as opções são tantas que fica difícil acompanhar. Claro que nem todos são um sucesso, há aqueles com pouco público, mas assim mesmo é vantajoso para quem trabalha nesta área, para quem investe. Não tem público hoje, mas tem amanhã. E as bandas locais conseguem ao menos levar uma galera para seus shows. As melhores bandas de Niterói nem sonham com uma cena dessas."
Longe da perfeição, mas sem comparação
Claro nem tudo é a maravilha que se pensa em São Paulo, ao menos em relação aos shows menores. Não é por outro motivo que o vocalista Thiago Bianchi, do Shaman, divulgou dois manifestos recentes a respeito da dificuldade que bandas brasileiras de metal em geral encontram para tocar com regularidade, seja em São Paulo, seja no resto do país.
Os paulistanos do Kavla suaram bastante quando reformaram a banda, em 2005, para divulgar EP "Impersonal World". Os santistas do Shadowside também tiveram de batalhar muito para conseguir tocar com regularidade em São Paulo entre 2006 e 2008. E assim caminha o esforço de quem faz rock de qualidade.
Os gaúchos do Holiness e do Hangar colhem agora o resultado de muito trabalho nos últimos três anos e têm conseguido um público considerado muito bom em shows em São Paulo, tanto na capital como interior, e no Paraná.
O Hangar atrai bom público com seus workshows (FOTO: ANTONIO ROSSA/DIVULGAÇÃO)
O Hangar até conseguiu um onibus de turnê de um patrocinador para levar seus "workshows" a vários lugares do Brasil. Lamentavelmente, as aparições das duas bandas no Rio são cada vez mais raras. "No Rio, só workshop mesmo do Aquiles Priester (bateria), e para poucas pessoas. Show ou workshow não dá para programar", disse um produtor paulista de bandas nacionais, que também prefere o anonimato.
Resignação
O tema é tão incômodo que os músicos carioca de rock e metal evitam falar no assunto. Pelo menos quatro artistas - de quatro bandas diferentes - foram procurados pelo Combate Rock para falar sobre o assunto, mas, educadamente, se esquivaram. Um deles apenas comentou resignado: "Se para ir a show legal tenho de ir a São Paulo, imagina então esperar por público para a minha banda..."
Das muitas conversas que tive nos últimos tempos com amigos jornalistas cariocas, com produtores e músicos ainda em busca de um espaço no mercado, deu para fazer um pequeno apanhado de explicações esparsas sobre o pouco público roqueiro no Rio - e só para registrar, foram pouquíssimos os que discordaram da minha tese:
- O Rio historicamente é uma cidade com diversidade cultural muito grande, assim como Salvador e Recife. Há atrações culturais regionais e locais em grande quantidade. Haveria, então de certa forma, uma autossuficiência neste quesito;
- Assim como Salvador e Recife, o Rio é uma cidade que tem praia, o que por si só já é uma atração e tanto. Muita gente fica muito tempo na praia, que um local de diversão gratuito e com estrutura, seja ela qual for, barata, ou até mesmo gratuita. As pessoas procuram ali mesmo por diversões culturais com baixo custo. Isso explicaria, de certa forma, o "ecletismo" do carioca, que teria menos preconceito em relação a ir a um show de rock e também a um de pagode. A questão é de cunho financeiro;
- O cosmopolitismo do Rio de Janeiro, tão acentuado como o de São Paulo, não foi suficiente para abrir espaço grande para o rock, que encontrou uma sólida cultura arraigada de samba e pagode - e o funk carioca dos morros surgiu para acentuar eesa característica. Para complicar ainda mais, são todos segmentos culturais que, se não são de baixo custo, apresentam custos bem menores do que o rock.
]- Um show internacional, por mais barato que custe, não sai por menos de R$ 50 no Rio. Por esse valor, o carioca médio assiste a pele menos cinco apresentações de artistas representativos de outros estilos - quando não esses eventos são gratuitos. Shows de metal de bandas brasileiras de qualidade não custam menos de R$ 30 o ingresso. As apresentações de bandas locais, por sua vez, têm dificuldade de concorrer com outras atrações de baixo custo, como ensaios de escola de samba ou rodas de samba em bairros importantes como Vila Isabel e Tijuca.
- Assim sendo, o ecletismo e a tolerância com várias manifestações culturais acabam prejudicando o rock. A cultura urbana do Rio, assim, teria sido direcionada culturalmente para valorizar as atrações locais e de baixo custo, enquanto que a cultura urbana paulistana, sem tantas opções "naturais", abriu-se mais para o cosmopolitismo e para manifestações culturais estrangeiras com mais assiduidade.
Pode ser tudo isso ou nada isso, por mais que algumas explicações façam sentido. Ainda sigo em busca de uma explicação para o pouco caso com o rock na Cidade Maravilhosa. Alguém quer acrescentar algo?????????
O Iron Maiden tinha acabado fazer um show debaixo de muita chuva no estacionamento do Anhembi, em São Paulo, para mais de 30 mil pessoas, em dezembro de 1998. Poucas pessoas sabiam, mas aqueles shows pela América do Sul eram a despedida do vocalista Blaze Bayley - nem ele mesmo sabia disso.
A banda voou para o Rio no dia seguinte, onde tocaria na enorme casa noturna que muda de nome a cada patrocinador (Claro Hall? ATL Hall? Imperator?). Foram colocados 10 mil ingressos à venda, mas nem 8 mil foram vendidos. O evento quase deu prejuízo aos produtores, que definiram ali mesmo: Iron no Rio novamente, só em festival, e olhe lá.
Um outro produtor de shows conhecido no mercado decretou algo que o músico Lobão sempre disse em relação à cidade do Rio de Janeiro: é o túmulo do rock. Nos últimos 15 anos, foram incontáveis as turnês internacionais que passaram pelo Brasil, com bandas de grande, médio e pequeno portes, e ignoraram o Rio. Quem insistiu, teve shows cancelados, como a excelente banda de thrash Death Angel, em outubro passado.
Até mesmo o Anvil, banda canadense que voltou à cena e a ter manchetes por conta de um maravilhoso documentário sobre a sua carreira, tocou em São Paulo e em Catanduva, mas ignorou o Rio. Os shows internacionais são cada vez mais esporádicos, e isso acontece há muito tempo.
E olha que 2010 nem foi tão ruim assim, com shows de gente como Manowar, Epica, Marduk e Blaze Bayley. O chato é que o público em todos os shows foi pequeno, muito aquém do esperado para atrações desse nível - parabéns para os heróis que promoveram esses eventos.
Bandas brasileiras de rock de nível internacional, como Angra, Korzus, Shaman, Krisiun e Hangar, tocam bem menos do que deveriam na cidade. Renato Tribuzy, vocalista e responsável pelo projeto Tribuzy, que gravaou CD e trouxe a São Paulo uma constelação de craques para um show - Ralf Scheepers, Bruce Dickinson, Kai Hansen e vários outros - é carioca, mas pouco se ouve falar de seus projetos na cidade.
Prejuízos
Por que o cidade natal do Rock in Rio despreza tanto o gênero quando ele resolve se manifestar fora do festival? Sobram teorias e explicações das mais diversas e contraditórias, mas o consenso está cada vez mais distante. Uma coisa é certa: produtores de shows de grande e médio portes, se puderem, fogem da cidade.
"O prejuízo é certo. Se não for um megaevento histórico, como Rush, Paul McCartney, U2, AC/DC, Rolling Stones, que vêm ao Brasil a cada cinco ou dez anos, esqueça o Rio. É mais garantido investir em Curitiba ou Porto Alegre, com um público cativo de rock. Até mesmo Belo Horizonte é mais interessante. Para shows de médio porte, o Rio perde até mesmo para Brasília, Goiânia e várias cidades do interior paulista", diz um experiente produtor de nível internacional que atua no Brasil e na Argentina, mas que pediu para não ser identificado.
Só um gigante como Paul McCartney para lotar um estádio no Rio (REUTERS/Mario Anzuoni)
Ele evita perder tempo em procurar explicações. "Não faz diferença. Existe um fato: o carioca gosta menos de rock do que o paulista e o gaúcho, que são povos mais aficionados, e mais ligados na música internacional, mais curiosos com o que vem do exterior. Enquanto quase todos os shows de grande porte acabam tendo show extra em São Paulo, o memso evento raramente vende 70% 08 80% dos ingressos no Rio em local bem menor - isso quando o evento também é marcado para a cidade. A diferença é abissal."
Rock sepultado
Lobão, carioca que se mudou para São Paulo em 2007, filosofa na hora de falar sobre o assunto, mesmo que em tom gerenalista. "O principal fator para eu sair do Rio foi ter sentido que a cidade perdeu o 'tom' do rock’n roll. O cenário do rock e tudo que se refere ao gênero estão em São Paulo. Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio é o túmulo do rock", afirmou à revista Quem em 2009 e ao Jornal da Tarde em 2010.
Eric Mattos tem quase 30 anos e já pasou por Curitiba antes de se estabelecer em São Paulo há sete anos. Deixou Niterói, onde nasceu e tocou em quase 20 bandas de metal e punk, para trabalhar com música e computação em outro lugar.
"Há roqueiro de monte no Rio e em Niterói, mas não há cena. Há é muita preguiça e falta de interesse. Cansei de tocar para 20 pessoas em boteco e praça na minha cidade, sabendo que todos os meus amigos preferiam estar na praia ou vendo jogo de futebol de várzea. Nem meus primos, que são todos roqueiros e tocam instrumentos, iam me ver tocar como eu ia vê-los. Chega uma hora que não dá", diz o músico fluminense.
Em Curitiba não tocou profissionalmente, mas não perdia um show de rock aos finais de semana. "Dependendo da banda, tinha de implorar por um ingresso, de tão lotado que ficava. Tudo bem, nem eram tantos lugares assim com shows de rock, mas havia público para todos, até mesmo para os batidos covers de rock nacional. Em vários shows de bandas locais não consegui entrar no bar. Jamais vi isso em Niterói ou no Rio, onde existem bandas espetaculares, mas que não tocam mais", afirma Mattos.
Em São Paulo, ele tenta conciliar o trabalho de programador com o de integrante da produção de vários shows internacionais. "Nem dá tempo para pensar. Há show de tudo quanto é tipo em São Paulo, as opções são tantas que fica difícil acompanhar. Claro que nem todos são um sucesso, há aqueles com pouco público, mas assim mesmo é vantajoso para quem trabalha nesta área, para quem investe. Não tem público hoje, mas tem amanhã. E as bandas locais conseguem ao menos levar uma galera para seus shows. As melhores bandas de Niterói nem sonham com uma cena dessas."
Longe da perfeição, mas sem comparação
Claro nem tudo é a maravilha que se pensa em São Paulo, ao menos em relação aos shows menores. Não é por outro motivo que o vocalista Thiago Bianchi, do Shaman, divulgou dois manifestos recentes a respeito da dificuldade que bandas brasileiras de metal em geral encontram para tocar com regularidade, seja em São Paulo, seja no resto do país.
Os paulistanos do Kavla suaram bastante quando reformaram a banda, em 2005, para divulgar EP "Impersonal World". Os santistas do Shadowside também tiveram de batalhar muito para conseguir tocar com regularidade em São Paulo entre 2006 e 2008. E assim caminha o esforço de quem faz rock de qualidade.
Os gaúchos do Holiness e do Hangar colhem agora o resultado de muito trabalho nos últimos três anos e têm conseguido um público considerado muito bom em shows em São Paulo, tanto na capital como interior, e no Paraná.
O Hangar atrai bom público com seus workshows (FOTO: ANTONIO ROSSA/DIVULGAÇÃO)
O Hangar até conseguiu um onibus de turnê de um patrocinador para levar seus "workshows" a vários lugares do Brasil. Lamentavelmente, as aparições das duas bandas no Rio são cada vez mais raras. "No Rio, só workshop mesmo do Aquiles Priester (bateria), e para poucas pessoas. Show ou workshow não dá para programar", disse um produtor paulista de bandas nacionais, que também prefere o anonimato.
Resignação
O tema é tão incômodo que os músicos carioca de rock e metal evitam falar no assunto. Pelo menos quatro artistas - de quatro bandas diferentes - foram procurados pelo Combate Rock para falar sobre o assunto, mas, educadamente, se esquivaram. Um deles apenas comentou resignado: "Se para ir a show legal tenho de ir a São Paulo, imagina então esperar por público para a minha banda..."
Das muitas conversas que tive nos últimos tempos com amigos jornalistas cariocas, com produtores e músicos ainda em busca de um espaço no mercado, deu para fazer um pequeno apanhado de explicações esparsas sobre o pouco público roqueiro no Rio - e só para registrar, foram pouquíssimos os que discordaram da minha tese:
- O Rio historicamente é uma cidade com diversidade cultural muito grande, assim como Salvador e Recife. Há atrações culturais regionais e locais em grande quantidade. Haveria, então de certa forma, uma autossuficiência neste quesito;
- Assim como Salvador e Recife, o Rio é uma cidade que tem praia, o que por si só já é uma atração e tanto. Muita gente fica muito tempo na praia, que um local de diversão gratuito e com estrutura, seja ela qual for, barata, ou até mesmo gratuita. As pessoas procuram ali mesmo por diversões culturais com baixo custo. Isso explicaria, de certa forma, o "ecletismo" do carioca, que teria menos preconceito em relação a ir a um show de rock e também a um de pagode. A questão é de cunho financeiro;
- O cosmopolitismo do Rio de Janeiro, tão acentuado como o de São Paulo, não foi suficiente para abrir espaço grande para o rock, que encontrou uma sólida cultura arraigada de samba e pagode - e o funk carioca dos morros surgiu para acentuar eesa característica. Para complicar ainda mais, são todos segmentos culturais que, se não são de baixo custo, apresentam custos bem menores do que o rock.
]- Um show internacional, por mais barato que custe, não sai por menos de R$ 50 no Rio. Por esse valor, o carioca médio assiste a pele menos cinco apresentações de artistas representativos de outros estilos - quando não esses eventos são gratuitos. Shows de metal de bandas brasileiras de qualidade não custam menos de R$ 30 o ingresso. As apresentações de bandas locais, por sua vez, têm dificuldade de concorrer com outras atrações de baixo custo, como ensaios de escola de samba ou rodas de samba em bairros importantes como Vila Isabel e Tijuca.
- Assim sendo, o ecletismo e a tolerância com várias manifestações culturais acabam prejudicando o rock. A cultura urbana do Rio, assim, teria sido direcionada culturalmente para valorizar as atrações locais e de baixo custo, enquanto que a cultura urbana paulistana, sem tantas opções "naturais", abriu-se mais para o cosmopolitismo e para manifestações culturais estrangeiras com mais assiduidade.
Pode ser tudo isso ou nada isso, por mais que algumas explicações façam sentido. Ainda sigo em busca de uma explicação para o pouco caso com o rock na Cidade Maravilhosa. Alguém quer acrescentar algo?????????
sexta-feira, maio 13, 2011
Música eletrônica é barulho, não é música
Música eletrônica não passa de barulho, e DJ pode ser tudo, menos músico. Aparentemente não há muito o que discutir sobre as duas máximas, mas há gente que insiste em brigar com os fatos, em espancar e torcer a realidade.
Os recursos eletrônicos sempre foram levados em consideração a partir do momento em que se inventou o abominável sintetizador, no finalzinho dos anos 60, trambolho barulhento que encantou gente decente como George Harrison (Beatles) e Pete Townshend (The Who).
Quando usado de forma inteligente e criativa, sem abuso, o sintetizador foi bastante útil, como nas trilhas sonoras compostas por Harrison e nas obras-primas do Who “Who’s Next” e “Quadrophenia”. Infelizmente, por outro lado, foi responsável por algumas das maiores porcarias já feitas dentro do rock.
Por que essa discussão surgiu? Por dois fatos isolados. Um deles foi uma antiga entrevista de Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, uma extinta revista de música pop a respeito do Benzina, seu projeto paralelo dos anos 90 com forte influência da música eletrônica.
Um amigo músico, ex-roqueiro e maluco por novas tecnologias, mas com gosto musical turvado pelas próprias porcarias eletrônicas que andam ouvindo. Ele fazia referência ao fato de Scandurra ter feito elogios às possibilidades criativas a respeito da música cibernética e artificial, feita por máquinas.
Para azar de meu amigo, ficou sozinho na defesa da “música eletrônica” em uma roda de amigos em um churrasco recente. Foi massacrado por gente inteligente e que tem discernimento e que não se contenta com barulhos artificiais de computadores e sintetizadores.
O outro fato que suscitou esse texto foi uma acidental passagem por um fórum roqueiro de discussões na internet, vinculado a uma revista, em que alguém foi igualmente massacrado por elogiar o trabalho da dupla de DJs MixHell, formada por Iggor Cavalera, ex-baterista do Sepultura e atualmente no Cavalera Conspiracy, e sua esposa, a artista plástica Laima Layton.
Assim como qualquer outra trilha de danceteria, o trabalho do MixHell é forrado de barulhinhos eletrônicos irritantes, tem o som artificial de baixo estrondoso e ensurdecedor e sua “trilha melódica” é repetitiva e anódina, como convém às pista de dança. Ou seja, pode ser tudo, menos música.
Respeito demais o trabalho instrumental de Cavalera. Com certeza ainda é um dos mais importantes bateristas de heavy metal, criou um estilo rico e técnico, com peso e velocidade que viraram referência no estilo. A migração para o barulho eletrônico chocou os puristas.
Se a música eletrônica “amplia os horizontes criativos e as possibilidades musicais”, como acredita Edgard Scandurra, então não é o caso do próprio Benzina e muito menos do MixHell, cujos trabalhos, vamos dizer assim, estão bem abaixo das qualidades musicais que o guitarrista do Ira! e Cavalera sempre apresentaram em suas carreiras.
Boa parte dos músicos consagrados e mesmo os de apoio costumam ser diplomáticos ao falar do uso de elementos eletrônicos em seus trabalhos, mas simplesmente ignoram o que conhecemos por música eletrônica, aquele barulho artificial e insuportável das pistas de dança.
Alguns aceitam que produtores criem arranjos com base em barulhos de computador, outros até brincam com os mesmos barulhinhos que os DJs e os incluem de forma discreta em seus trabalhos. Mas são poucos os artistas sérios que realmente fazem uso desses recursos de forma explícita e escancarada.
Dois gigantes do rock cometeram trabalhos péssimos nos últimos 20 anos, seduzidos pela suposta “modernidade”. Eric Clapton escorregou feio com “Pilgrim”, de 1998, CD no qual suas guitarras foram soterradas por arranjos eletrônicos e barulhos artificiais.
Jeff Beck, outro gênio da guitarra, caiu na armadilha e gravou os insuportáveis “Jeff”, de 2001, e “You Had It Coming”, de 2003, sendo que já flertava com o estilo em 1999 no álbum “Who Else!” Beck gostou do resultado de sua ousadia, mas os fãs não. O jeito foi voltar ao rock, ao blues e ao jazz para gravar “Emotion & Commotion” neste ano.
É possível ficar dias e dias colhendo exemplos para torpedear o barulho eletrônico. Quem gosta deste tipo de música se contenta com muito pouco. Isso não é música, e DJ não é músico, é um tocador de CD. No máximo, animador de festa. DJs que acham que são artistas não merecem respeito. São o que são, o que já é demais.
Música eletrônica não passa de barulho, e DJ pode ser tudo, menos músico. Aparentemente não há muito o que discutir sobre as duas máximas, mas há gente que insiste em brigar com os fatos, em espancar e torcer a realidade.
Os recursos eletrônicos sempre foram levados em consideração a partir do momento em que se inventou o abominável sintetizador, no finalzinho dos anos 60, trambolho barulhento que encantou gente decente como George Harrison (Beatles) e Pete Townshend (The Who).
Quando usado de forma inteligente e criativa, sem abuso, o sintetizador foi bastante útil, como nas trilhas sonoras compostas por Harrison e nas obras-primas do Who “Who’s Next” e “Quadrophenia”. Infelizmente, por outro lado, foi responsável por algumas das maiores porcarias já feitas dentro do rock.
Por que essa discussão surgiu? Por dois fatos isolados. Um deles foi uma antiga entrevista de Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, uma extinta revista de música pop a respeito do Benzina, seu projeto paralelo dos anos 90 com forte influência da música eletrônica.
Um amigo músico, ex-roqueiro e maluco por novas tecnologias, mas com gosto musical turvado pelas próprias porcarias eletrônicas que andam ouvindo. Ele fazia referência ao fato de Scandurra ter feito elogios às possibilidades criativas a respeito da música cibernética e artificial, feita por máquinas.
Para azar de meu amigo, ficou sozinho na defesa da “música eletrônica” em uma roda de amigos em um churrasco recente. Foi massacrado por gente inteligente e que tem discernimento e que não se contenta com barulhos artificiais de computadores e sintetizadores.
O outro fato que suscitou esse texto foi uma acidental passagem por um fórum roqueiro de discussões na internet, vinculado a uma revista, em que alguém foi igualmente massacrado por elogiar o trabalho da dupla de DJs MixHell, formada por Iggor Cavalera, ex-baterista do Sepultura e atualmente no Cavalera Conspiracy, e sua esposa, a artista plástica Laima Layton.
Assim como qualquer outra trilha de danceteria, o trabalho do MixHell é forrado de barulhinhos eletrônicos irritantes, tem o som artificial de baixo estrondoso e ensurdecedor e sua “trilha melódica” é repetitiva e anódina, como convém às pista de dança. Ou seja, pode ser tudo, menos música.
Respeito demais o trabalho instrumental de Cavalera. Com certeza ainda é um dos mais importantes bateristas de heavy metal, criou um estilo rico e técnico, com peso e velocidade que viraram referência no estilo. A migração para o barulho eletrônico chocou os puristas.
Se a música eletrônica “amplia os horizontes criativos e as possibilidades musicais”, como acredita Edgard Scandurra, então não é o caso do próprio Benzina e muito menos do MixHell, cujos trabalhos, vamos dizer assim, estão bem abaixo das qualidades musicais que o guitarrista do Ira! e Cavalera sempre apresentaram em suas carreiras.
Boa parte dos músicos consagrados e mesmo os de apoio costumam ser diplomáticos ao falar do uso de elementos eletrônicos em seus trabalhos, mas simplesmente ignoram o que conhecemos por música eletrônica, aquele barulho artificial e insuportável das pistas de dança.
Alguns aceitam que produtores criem arranjos com base em barulhos de computador, outros até brincam com os mesmos barulhinhos que os DJs e os incluem de forma discreta em seus trabalhos. Mas são poucos os artistas sérios que realmente fazem uso desses recursos de forma explícita e escancarada.
Dois gigantes do rock cometeram trabalhos péssimos nos últimos 20 anos, seduzidos pela suposta “modernidade”. Eric Clapton escorregou feio com “Pilgrim”, de 1998, CD no qual suas guitarras foram soterradas por arranjos eletrônicos e barulhos artificiais.
Jeff Beck, outro gênio da guitarra, caiu na armadilha e gravou os insuportáveis “Jeff”, de 2001, e “You Had It Coming”, de 2003, sendo que já flertava com o estilo em 1999 no álbum “Who Else!” Beck gostou do resultado de sua ousadia, mas os fãs não. O jeito foi voltar ao rock, ao blues e ao jazz para gravar “Emotion & Commotion” neste ano.
É possível ficar dias e dias colhendo exemplos para torpedear o barulho eletrônico. Quem gosta deste tipo de música se contenta com muito pouco. Isso não é música, e DJ não é músico, é um tocador de CD. No máximo, animador de festa. DJs que acham que são artistas não merecem respeito. São o que são, o que já é demais.