quarta-feira, agosto 29, 2012

Carta de Rodger Hodgson condenando o lançamento do DVD 'Paris'

“Queridos amigos,

Muitos de vocês têm me perguntado sobre o lançamento do DVD Paris, então eu gostaria de escrever diretamente para vocês sobre as últimas novidades. Infelizmente muitas leis, tanto legal quanto moral, foram quebradas e o DVD Paris agora está sendo lançado através de métodos ilegais e antiéticos.

Ele está agora nas mãos de advogados para resolver a disputa legal entre a editora e os rótulos (marcas). Eu não sei qual lado vai ganhar ainda, apesar de eu ter aprendido que na indústria da música geralmente são os advogados que têm a maior parte do rendimento, e não necessariamente aqueles que estão corretos.

O que a Eagle Rock, John, Bob e Dougie (que estão chamando-se de “Parceria Supertramp”), estão tentando fazer é tirar os nossos direitos legais como compositores. Legalmente, um rótulo (marca), precisa de aprovação dos compositores e dos editores para lançar esse tipo de material, e ao invés disso eles estão tentando algum mecanismo e dizendo que não precisam de licença para lançar o DVD.

Compositores têm direitos legais e mesmo assim na indústria da música, eles estão sendo roubados em todos os tipos de formas, e isso tudo torna as coisas ainda mais difíceis para os compositores. O que eles estão tentando fazer agora, alegando que podem tirar os direitos dos compositores e das editoras, pode fazer com que outros rótulos (marcas) façam a mesma coisa com outros compositores e editoras no futuro.

Um amigo meu que é advogado e também editor na indústria da música por mais de 40 anos, tendo trabalhado até no catálogo dos Beatles, disse para mim que nunca ouviu falar de alguém fazendo isso na indústria da música – um rótulo (marca) lançar um DVD sem a aprovação da editora de música e dos compositores. Toda esta questão é muito maior do que esse DVD. Eles não estão apenas tentando tirar os direitos de Rick e eu como compositores, estão também modificando as leis dos direitos autorais, dos compositores, no mundo todo.

Voltando para a primavera e verão de 2011, eu estava trabalhando com a Eagle Rock, em espírito de colaboração para o lançamento do DVD Paris. Eu passei por muitas e muitas horas de revisão para dar a minha opinião artística, e isso foi apenas no início de montar o DVD.

Havia muitas coisas que eu tinha me comprometido com eles, e ainda disse que eu daria a minha aprovação como compositor e outros direitos legais que eu tenho como um dos membros fundadores do Supertramp; eles concordaram por escrito e então eu nunca mais ouvi nada sobre isso.

No verão passado fomos informados de que o DVD foi arquivado devido a problemas de qualidade, verificados por Rick, e ele não aprovou o lançamento. Nós dissemos a Eagle Rock para não lançar o DVD até que tivessem a aprovação da editora musical que representa os compositores - então eu pensei que o projeto estava morto.

Depois de algumas semanas atrás, eu descobri que eles estavam trabalhando o tempo todo nesse DVD, secretamente pelas minhas costas, violando completamente o espírito de colaboração que tinham recebido de mim, até então.

A única razão de eu mesmo já ter recebido uma cópia desse DVD foi porque um fã me avisou sobre o lançamento desse DVD, e eu pedi para a Eagle Rock me enviar uma cópia.

Eu fiquei chocado ao receber o DVD completamente fabricado e produzido antes de eu ter visto o produto! Há toda uma montagem de fotos, materiais de bônus e encarte que eu nunca vi e nunca tive a oportunidade de opinar. Eles estão lançando um produto que supostamente representa todos os cinco de nós, e isso não é verdade. É representado apenas por três de nós.

Bob, John e Dougie estão declarando-se a Eagle Rock como a "Parceria Supertramp" e que o contrato é só entre os três e a Eagle Rock. Se você é um fã de Rick ou de Roger, ou ainda de ambos, então eu suponho que todos vocês vão concordar que isso não é correto; os três não são os compositores das músicas e não podem controlar o catálogo do Supertramp alegando que eu não tenho voz artística, e nem direitos de participar na criação de qualquer produto relacionado ao Supertramp, e mesmo assim ainda usam minhas atuações, minhas imagens e minhas canções.

Receber esse DVD todo embalado no último minuto, feriu a minha integridade. Eles não cumpriram os seus acordos e não honraram os meus direitos como compositor, músico e artista.

Por exemplo, eu queria que as canções fossem corrigidas em relação aos créditos dos compositores, para que fosse esclarecido quem compôs cada música. E, ao invés disso, eles foram tão longe que enterraram os compositores do publico. Não há nenhum crédito sendo dado aos compositores e aos editores na embalagem e no filme, entretanto, está sendo dado crédito aos comerciantes, a empresa de transporte rodoviário e qualquer um usando um terno de macaco. Eles não dando crédito aos compositores, dão a ilusão ao publico de que Supertramp, toda a banda, escreveu as canções, o que não é verdade.

E eles sabem o quanto é importante para eu ser reconhecido como compositor de minhas músicas. Essa é a única coisa que me ajudou a continuar com a minha carreira após o Supertramp.

Eu sei que os três vão dizer que estão fazendo isso para os fãs, mas isso não é o que realmente está ocorrendo. Se fosse realmente pensando nos fãs, eles saberiam que os fãs gostariam de ver os meus créditos no DVD. Isso tudo não é para os fãs ou sobre música. Este DVD é sobre um jogo de poder, é sobre dinheiro, controle, inveja e táticas de negócios escusos na indústria da música e eu não quero ter nada a ver com isso.

Particularmente, eu realmente estava envolvido nesse projeto, porque eu sei que muitos de vocês queriam um DVD daqueles concertos, quando eu estava com a banda (Supertramp). E eu espero que vocês compreendam que, embora eu sempre quis algo assim, eu não posso aprovar um produto que é criado com esse tipo de manipulação e fraude.

A outra razão que eu queria trabalhar no lançamento do DVD era para garantir que to...dos os cinco membros pudessem compartilhar suas experiências daquela turnê, e eu queria ter a certeza de que seria um produto da melhor qualidade possível. Infelizmente, eu também não posso endossar um DVD que tenha deficiências técnicas, imprecisões editoriais e má qualidade.

Então, eu não quero que nenhum fã seja enganado, e para aqueles que quiserem comprar o DVD, eu quero que saibam que esse DVD foi criado de uma maneira ilegal. A banda que você vê tocando no DVD não existe há mais de 30 anos.

Agora é tudo negócio, e parte da indústria da música tem crueldade e traição, assim como qualquer outra indústria pode ter. Essa é uma das razões que eu deixei de viver em Los Angeles e sair do negócio da música, todos aqueles anos atrás. Não é como eu quero viver a minha vida, e não é por isso que eu faço música.

Esta é uma das razões que agora eu estou mais feliz do que nunca, fazendo turnês, do que antigamente - não quero participar da indústria da música e de todas as partes feias do negócio.

Nenhuma gravadora me possui, nenhuma editora me possui, nenhum empresário me possui, nenhum agente me possui. Eu posso ficar fiel a mim mesmo e fazer tournês quando eu quiser, e como eu quiser. Eu posso tocar para 3.000 ou 85.000 pessoas em qualquer lugar. Eu não preciso mais tocar em arenas enormes, o importante é tocar música para ajudar a fazer as pessoas felizes, não importa o tamanho do publico.

Tornei-me um músico quando eu tinha 12 anos. É o que eu amo fazer e é o que eu sei fazer. E eu vou continuar por quanto tempo for possível a viajar pelo mundo, fazendo shows. Para mim, uma das coisas mais importantes como artista, é tocar música para a arte, para a magia que é possível com a música ajudando e elevando os espíritos das pessoas, abrindo seus corações para receber alguma cura e alívio de todos os problemas deste mundo.

Eu quero manter este DVD Paris separado daquilo que eu fui como artista durante todos estes anos, separado das minhas razões de fazer tournês e de tocar música. Eu sei que muitos de vocês queriam saber os meus pensamentos sobre o DVD Paris, de modo que é por isso que eu estou enviando este texto para os sites de fãs e você está convidado a deixar algum comentário lá nos sites.

Para algo mais positivo e edificante, você pode visitar o meu site do Facebook ou o meu livro de visitantes no meu website e ler algumas histórias realmente incríveis e emocionantes de fãs ao redor do mundo. Eu adoro muito todos vocês e estou plenamente ciente de que se não fosse por vocês amarem a minha música ou minhas canções, eu não estaria aqui realizando estas coisas. Ler as histórias e experiências que vocês escrevem sobre os meus shows é a minha inspiração.

Com amor,

Roger

P.S. Você também pode encontrar a minha agenda de turnê no meu website e na página de eventos no meu Facebook - espero que você possa se juntar a mim.”

quinta-feira, agosto 16, 2012

Cota desrespeita inteligência

Fernando Reinach - ESTADÃO.COM.BR Todo professor responsável enfrenta o desafio de lidar com a diversidade dos alunos. Parte da diversidade resulta de diferenças na motivação deles. Enquanto alguns chegam famintos por novos conhecimentos, outros preferiam estar longe da sala de aula. Mas também existe a diversidade dos conhecimentos na mente de cada aluno. Enquanto alguns sabem o suficiente para compreender o conteúdo da aula, outros têm dificuldade ou ainda são incapazes de acompanhar a matéria. Claro que essas duas categorias se entrelaçam. Muitos alunos perdem a motivação por estarem despreparados para acompanhar a aula, outros a perdem pelo fato de a aula não ser suficientemente desafiadora e instigante. O dilema é sempre o mesmo. Ao puxar o ritmo do aprendizado, o professor motiva os preparados, mas aliena os retardatários. Se optar por ajudar os retardatários, perde o interesse dos mais adiantados. Desde o surgimento da escola na sua forma atual, em que muitos alunos são ensinados por um professor, o problema da heterogeneidade das classes tira o sono de docentes dedicados. Esse problema está na origem do ensino seriado, em que alunos da mesma idade e conhecimento são agrupados em uma sala de aula e sua promoção para a próxima série depende do cumprimento de certas metas. Esse mecanismo, que garante um mínimo de homogeneidade, é a mãe dos exames de avaliação, da temida reprovação e das aulas de recuperação, talvez o melhor mecanismo para reduzir a diversidade. Nas cortes europeias, em que os jovens príncipes eram educados individualmente por tutores, esse problema não existia. Mas, assim que o ensino formal foi massificado, mecanismos capazes de organizar alunos em grupos relativamente homogêneos foram desenvolvidos. O custo de desrespeitar essa regra básica é um aproveitamento menor dos alunos e uma diminuição na eficiência e velocidade do ensino. Aprovação automática. Há alguns anos foi introduzida no Brasil a aprovação automática dos alunos, independentemente do conhecimento adquirido. Além de ser uma maneira barata e simplista de isentar o sistema educacional da responsabilidade de dar aulas de reforço e acompanhamento, essa medida aumenta a heterogeneidade das classes, dificulta o trabalho dos professores e diminui a eficiência do ensino. Nossos professores agora têm de motivar, durante uma mesma aula, alunos preparados e despreparados. Mas ninguém reclamou muito. Professores e diretores se livraram da meta básica de todo educador: fazer a maioria de seus alunos aprender, de maneira estimulante, o currículo de cada série. O governo pode mostrar estatísticas de aprovação róseas e os pais se livraram da frustração de ter seus filhos reprovados. O resultado é que a pressão por um sistema educacional melhor foi aliviada. Agora uma nova lei promete aumentar a heterogeneidade entre os alunos das universidades federais. É o sistema de cotas para alunos que estudaram em escolas púbicas. Não há dúvida de que é injusto que toda a população pague pela manutenção das universidades federais e somente os mais ricos, vindos de escolas privadas, ingressem nessas instituições. A questão é saber se as cotas são a melhor solução para essa distorção. Com o novo sistema de cotas, 50% das vagas nas universidades federais serão disputadas por todos os alunos. O restante será disputado por alunos de escolas públicas. Esse novo sistema vai gerar dois grupos de alunos em todas as classes, em cada um dos cursos de todas as universidades federais. Quão diferentes serão esses grupos? Se os melhores alunos da escola pública tivessem preparo semelhante ao dos melhores alunos das escolas privadas, a nova lei seria desnecessária. O alunos da escola pública já ocupariam hoje mais de 50% das vagas. Mas esse não é o caso e metade das vagas será ocupada por alunos menos preparados (mas não menos inteligentes). Basta simular esse tipo de seleção com base nos resultados dos vestibulares passados para verificar quão diferentes serão esses dois grupos. Qual será o efeito dessa medida sobre a qualidade do ensino ministrado nas universidades federais? Como o ensino será ministrado nessas novas classes, em que metade dos alunos será menos preparada que a outra metade? Os professores adequarão o ensino a essa metade, desestimulando os mais preparados, reduzindo o nível de toda a universidade? Ou será que o nível das aulas será mantido, alienando os alunos menos preparados e desencadeando reprovações em massa? Será que os defensores dessa lei acreditam que os professores das universidades federais são tão capazes, motivados e tão bem remunerados que facilmente darão conta desse novo desafio? Ou será que as universidades federais adotarão o sistema que existia nas pequenas escolas primárias do interior do País, em que todos os alunos do curso primário eram colocados na mesma sala, organizados por fileiras. Os de 7 anos numa fileira, os de 8 em outra e assim por diante, enquanto o professor dividia seu tempo entre as fileiras. Qualidade ameaçada. O mais provável é que esse aumento na heterogeneidade diminua a qualidade do ensino nas universidades federais. Só resta esperar que na esteira dessa nova lei não venha a obrigação da aprovação automática nas universidades federais ou um novo programa de cotas que garanta para os alunos egressos dessas universidades 50% das vagas no funcionalismo público. Antes de sancionar a nova lei, o governo deveria visitar diversos programas experimentais financiados pelo setor privado. Muitos desses programas, ministrando aulas complementares nos finais de semana, conseguem colocar até 80% de alunos carentes, vindos do ensino público, nas melhores universidades brasileiras. Isso depois de concorrerem com os melhores alunos do ensino privado. Vale a pena ver o orgulho estampado na face desses jovens. Na minha opinião, as cotas colaboram para a piora do ensino público e são um desrespeito à inteligência e à autoestima dos alunos das escolas públicas. Precisamos não de cotas, mas de um ensino público melhor. O ingresso de 50% de alunos do sistema público nas universidades federais deveria ser uma meta do Ministério da Educação e não mais uma maneira de diminuir a pressão da sociedade por uma educação de melhor qualidade. * BIÓLOGO

terça-feira, julho 17, 2012

São Paulo não comporta eventos gratuitos de grande porte

Eventos gratuitos na cidade de São Paulo com atrações de peso estão se tornando um tormento para organizadores, público e população em geral. O show gratuito da banda inglesa Franz Ferdinand no Parque da Independência, no bairro do Ipiranga, teve cenas dignas de brigas de torcidas organizadas de clube de futebol e policiais militares: pancadaria, bombas de efeito moral e gás de pimenta para conter o tumulto. E por que houve tumulto? Porque teve gente que não conseguiu entrar no parque onde fica o Museu do Ipiranga. Em show gratuito quem chega primeiro e antes entra e fica lá na frente. Quem chega depois não entra – se entra, fica no fundo. Simples assim. No entanto, como já virou rotina na cidade de São Paulo, quem não consegue entrar se sente “lesado” e “traído” e resolve causar tumulto. Em eventos pagos, ainda que tenham razão (caso tenham pago ingresso e não consigam entrar por graves problemas de organização e fraude), os supostos prejudicados jamais têm o direito de quebrar tudo e causar tumulto. A rotina dos que não conseguem entrar de protestar quebrando tudo ocorre em jogos de futebol, casa de show e até no Metrô. Quebrar tudo parece ser a solução para os males diversos de nossa sociedade. Algo não ia bem no Parque da Independência já por volta das 13h30, quando a fila para entrar dobrava a esquina e subia pela rua Bom Pastor até a outra esquina, com a rua dos Patriotas – uma fila de estimados 700 metros. Fãs subiram em árvores e se equilibraram em grades para tentar ver o show do Franz Ferdinand. Outros tentaram invadir pulando as cercas e forçando o portão de entrada, mas foram rechaçados pela Polícia Militar com bombas e gás de pimenta (FOTOS: MÁRCIO FERNANDES/AE) Às 15h30, a fila não parava de crescer e já ultrapassava o portão do Sesc Ipiranga, na mesma rua Bom Pastor. O fechamento dos portões ocorreu por volta de 17h30, quando a PM e os organizadores julgaram que a lotação quase total já tinha sido atingida. Foi o estopim da confusão, com tentativa de invasão, gente forçando o portão de entrada e outros querendo invadir pulando as grades em alguns pontos ao redor do parque. Os policiais não tiveram outra opção a não ser intervir com cassetetes agindo sem cerimônia e gás de pimenta voando sem piedade nos olhos dos fãs que tentavam entrar à força. E, infelizmente, como ocorre em tumultos envolvendo grande contingente de pessoas, os casos de excesso de força e até de violência são corriqueiros – mistura de policiais despreparados para lidar com multidões e problemas na organização do evento, como falta de planejamento. Mas há um terceiro elemento complicador para sabotar as tentativas de controle em eventos desse tipo: a falta de educação de parcela significativa de parte do público. Evento gratuito com atração de peso em local fechado é um convite à confusão, justamente por atrair gente demais – e gente demais disposta a entrar de qualquer jeito, nem que seja para criar confusão. Quando o Parque do Ibirapuera era sede de shows gratuitos promovidos por uma rede de supermercados, incluindo atrações importantes da música brasileira e internacional, foram raríssimos os registros de confusão, justamente por ser um local maior e mais aberto, capa de comportar com folga mais de 120 mil pessoas, como já fora registrado. É assim também no Central Park, em Nova York, e no Hyde Park, em Londres. Eventos desse porte sem que seja necessário pagar em locais estreitos ou fechados são um convite à confusão. Três anos atrás o guitarrista e cantor Lulu Santos encerrou um festival promovido por uma operadora de telefonia no mesmo Parque da Independência. Não houve tumulto, mas teve confusão porque lotou cedo demais. A polícia interveio em um tímido protesto em frente ao portão principal e teve trabalho para conter pessoas que tentaram pular a cerca de ferro em diversos pontos do parque. Na Virada Cultural deste ano também houve problemas em vários locais – nada tão grave como o que ocorreu no Ipiranga no último final de semana. O show da banda norte-americana de heavy metal /hardcore Suicidal Tendencies atraiu um grande público ensandecido na manhã de domingo e ocorreu o que se esperava, pouca segurança, organização falha, muita briga e até mesmo invasão de palco por parte de parcela do público. Por sorte não houve maiores consequências. Na verdade, deve-se agradecer ao vocalista Mike Muir, profissional da mais alta categoria e muito experiente, que percebeu logo como estava o ambiente e tratou de levar o show com fúria e peso, mas com muita serenidade e sobriedade para evitar confusões maiores. Infelizmente é preciso reavaliar a realização de certos tipos de eventos gratuitos em São Paulo. Planejamento corriqueiramente malfeito e público mal educado e pouco afeito a atrações desse tipo estão no topo da lista de contraindicações.

sábado, julho 14, 2012

Joe Bonamassa surpreende e lança mais um ótimo álbum

O workaholic Joe Bonamassa não quer perder tempo. Se não está nos palcos, está no estúdio gravando seus álbuns solo ou com quem for. Além de produzir muito e bem rápido – com bastante qualidade –, encontra tempo para fazer turnês mundiais e fazer participações especiais em shows e CDs de amigos e ídolos. “Driving Towards the Daylight” consegue a proeza de ser melhor do que “Dust Bowl”, de 2011, que já era excelente. Menos blueseiro, tem uma pegada roqueira menos pesada do que o seu trabalho com a superbanda Black Country Communion. Passeia com desenvoltura por gêneros tão diferentes como o country e o folk, além de brincar com o soft rock quase blues em algumas canções. O grande destaque é a faixa-título, que é um épico nos moldes de “Mountain Time”, “Dust Bowl”, “A New Day Yesterday”,“Heartbreaker”, esta com a participação do grande amigo Glenn Hughes (ex-Deep Purple e Black Sabbath, companheiro de Black Country Comunion), além do parentesco com as excelentes “Song for Yesterday” e “Battle of Hadrian’s Wall”, de sua banda com Hughes. Lenta e densa, “Driving Towards the Daylight”tem um refrão bem construído e uma levada bluesy contagiante. Aos 35 anos, se tornou o principal nome do blues rock da atual geração, superando os então gênios precoces Jonny Lang, Kenny Wayne Shepherd e Derek Trucks, que apareceram com tudo nos anos 90, mas não estouraram como se esperava, e nem perto chegaram de aranhar o legado de Stevie Ray Vaughan. Bonamassa é o que mais chega perto disso. “Driving Towards the Daylight”, faixa e álbum, serão os destaques dos dois shows que o guitarrista norte-americano fará no Brasil em 31 de maio e 2 de junho, no Rio e em São Paulo. A se lamentar apenas que este álbum, recém-lançado nos Estados Unidos e na Europa, ainda não tenha data para ganhar uma edição nacional. Por outro lado, há boa notícia neste pacote: a Som Livre, que está dando suporte para a vinda do guitarrista ao Brasil, acaba de colocar no mercado nacional mais um álbum antigo de Bonamassa jpa havia lançado por aqui “Dust Bowl” e “Live at Royal Albert Hall”. “The Ballad of John Henry” é de 2009 e traz o músico mais introspectivo e sombrio, orientado para um blues mais soturno e o folk tradicional. Não é exagero dizer que foi esse álbum que o transformou em uma estrela de primeira grandeza na música pop, extrapolando o cenário do blues. Ficou seis meses no topo das paradas da revista norte-americana Billboard, no segmento blues, embasado em canções ótimas como “From the Valley”, “Happier Times”, “Lonesome Raod Blues” e a faixa-título, e serviu de base para a pedrada que veio em seguida, “Black Rock”, de 2010, mais orientado para o hard rock e para o blues pesado. Foi “Black rock” o ponto de partida para a criação do Black Country Communion, com Glenn Hughes, Derek Sherinian (teclados, exDream Theater) e Jason Bonham (filho de John Bonham, do Led Zeppelin, na bateria). Os últimos dois anos foram intensos para o guitarrista: seis lançamentos com o seu nome chegaram ao mercado. Na carreira solo, lançou “Black Rock” em 2010, “Dust Bowl” no começo de 2011 e o excelente “Don’t Explain” em agosto do mesmo ano, em parceria com a cantora de pop/blues Beth Hart revisitando clássicos do jazz, do próprio blues e da música gospel. Enquanto gravava alucinadamente seus dois álbuns solo mais recentes conheceu o mestre Glenn Hughes. A identificação foi imediata, com o baixista participando dos dois álbuns solo do guitarrista norte-americano. A parceria foi mais além e Hughes o convenceu a montar uma banda de hard rock com pegada dos anos 70, mesclando Led Zeppelin (uma paixão de Bonamassa), blues pesado à la Humble Pie e soul music e funk bem ao gosto de Glenn Hughes. Nascia o Black Country Communion, que gravou dois álbuns entre 2010 e 2011. O sexto lançamento, ocorrido em abril deste ano, é “Live at the Beacon Theatre”, em CD e DVD. “Workaholic? Não, apenas gosto de tocar. Não gosto de desperdiçar tempo jogando golfe ou olhando a paisagem em uma fazenda qualquer. Tempo é música”, disse Bonamassa antes de um show histórico em Nova York, no ano passado. E ele tem toda a razão.

quarta-feira, julho 11, 2012

Pen card, uma alternativa interessante ao CD

Uma notícia importante para quem gosta de músic a teve pouco destaque na grande imprensa. Uma forma alternativa ao CD e a outras mídias físicas de se ouvir/adquirir/armazenar álbuns foi apresentada no final de maio em São Paulo. O texto abaixo é do site da revista Black Card Lifestyle: Adriana Farias – revista Black Card Lifestyle Em um momento em que o mercado fonográfico, os artistas e os fãs se debatem para se ajustar a novas formas de consumo de música na era digital, a companhia brasileira Neo Idea entra na briga e traz uma forma inovadora de se experimentar música. Trata-se do lançamento de um software inteligente que é armazenado em um pen drive em formato de cartão, apelidado de pen card, com 8 cm de comprimento por 5 cm de largura. Ao conectar o sistema em qualquer entrada USB bastará ao usuário fazer um registro online e desfrutar de uma série de opções vantajosas no universo musical. O fã poderá anexar ao seu portfólio a discografia completa do artista que aderir ao software, terá contato direto com ele e com sua agenda de trabalho, além de conseguir atualizar as novidades em música e vídeo ao mesmo tempo em que elas são finalizadas em um estúdio de som, antes mesmo de serem disponibilizadas no mercado. O pen card também terá a funcionalidade de um ingresso magnético, facilitando a compra e a entrada do fã ao show do seu ídolo preferido. Outras vantagens e operacionalidades do produto serão divulgadas em breve e prometem impressionar o futuro usuário desse software. Apresentado em São Paulo, o produto recebeu o aval de Bruno Gouveia, vocalista da banda de rock Biquini Cavadão, do aclamado Dieter Wiesner, manager de Michael Jackson (entre 1996 e 2009) e do cantor luso-francês Lucenzo, e da banda sertaneja Jorge & Matheus. Eles foram os primeiros nomes oficiais a aderirem ao projeto. O pen card do Biquini Cavadão, por exemplo, virá com os discos “1987/2007 – O Melhor” e o novíssimo “Roda Gigante”, além de uma variedade de videoclipes. A ideia é que a discografia completa da banda carioca esteja disponível no software. O mesmo acontecerá com o pen card dos músicos Lucenzo, autor do hit “Danza Kuduro”, e Jorge & Matheus. FOTOS: Divulgação/Vira Comunicação Segundo Alcir Abuchaim, CEO do Neo Idea, antes do produto ser lançado em larga escala ele será distribuído de forma institucional. “Primeiramente vamos entregar os pen cards a um público selecionado – imprensa, rádios e contratantes – com a finalidade de testar a receptividade e fazer possíveis reajustes”, explicou o CEO durante a coletiva. “Na sequência pensaremos na distribuição em massa”. Cada pen card será moldado com os pedidos do artista que aderir ao projeto. A banda Biquini Cavadão, por exemplo, já estima vender o seu software por cerca de R$ 10 a R$ 15 com uma capacidade que pode chegar a 120 GB. “Nós fomos uma das primeiras bandas a entrar na internet e a transmitir as nossas gravações na rede, por isso abraçamos essa ideia”, vibrou o vocalista na coletiva. O pen card trará os arquivos de música e vídeo, respectivamente, no formato MP3, com 320 Kbps, e em HD (high definition). A qualidade dessas extensões é ainda superior as mídias convencionais em CD e DVD. “Essa será até uma maneira de diminuir a pirataria, deixando as pessoas terem essas músicas em um só espaço e com alta qualidade de áudio e imagem”, garantiu Abuchaim. O Neo Idea estuda a possibilidade de um protótipo especial de dois grandes reis: Roberto Carlos, que poderá vir com 67 discos do músico entre ao vivos e raridades, bem como um especial de Michael Jackson. Na coletiva a sensação era de que a ideia poderia logo sair do papel. “Fechamos o pen card do Lucenzo, já o do Michael Jackson estamos pensando em aceitar ou não. Vamos tentar!”, confidenciou Dieter Wiesner, manager do rei do pop. A discussão de novos caminhos para a música ainda é uma batalha que está longe do fim. A chegada decisiva da internet, no começo dos anos 90, quebrou paradigmas e instigou o mercado fonográfico a pensar em novas possibilidades de consumo de música. Qual produto virá ou não a substituir os meios convencionais de experiência musical só o tempo e a volatilidade da era digital poderá dizer.

domingo, julho 08, 2012

O ano dos cinquentenários do rock inglês

Os Rolling Stones não estão fazendo muita questão de comemorar os 50 anos de criação da banda neste ano, tanto é que inventaram uma conversa de que o cinquentenário tem de ser comemorado em 2013, a data verdadeira – Charlie Watts entrou na banda somente no começo de 1963. Mas o fato é que Jagger, Richards, Watts e Wood continuam sendo a banda de rock mais antiga em atividade ininterrupta. Se os Stones fingem não dar boa para a data, outras bandas pretendem comemorar. É o caso do Status Quo, gigante britânico dos anos 60 e 70 que mistura rock pesado e o típico boogie woogie norte americano. Com apenas uma interrupção das atividades entre 1984 e 1986 – a banda chegou a acabar –, o Quo decidiu comemorar seu cinquentenário com a reunião da formação original: Francis Rossi e Rick Parfitt (guitarras e vocais), Alan Lancaster (baixo) e John Coglan (bateria). A última vez que os quatro tocaram juntos foi em 1981, quando do lançamento e turnê do álbum “Never Too Late”, de 1981. A formação atual, no entanto, continuará a coexistir com o agrupamento nostálgico, que vai gravar CD com músicas inéditas e realizar uma turnê inglesa ainda neste ano. Parfitt (esq.), Lancaster e Rossi em ação na Inglaterra no final dos anos 70 Por outro lado, quem tem pouco a comemorar em seu cinquentenário são os Kinks. Outra instituição britânica e também gigante do rock – bem maior do que o Quo –, o grupo está parado desde 1996, depois de mais uma interminável desavença entre os irmãos Ray e Dave Davies. Entretanto, parece que desta vez a coisa é bastante séria, pois desde então os irmãos não se falam. Ray Davies lançou apenas três álbuns nos últimos 15 anos e sempre que pode descarta qualquer tipo de reformulação da banda. Não bastasse isso, diz ignorar o cinquentenário de fundação. Gestado em 1962 e moldado definitivamente em 1964, os Kinks se tornaram os principais cronistas e críticos do cotidiano inglês dos anos 60 e 70. Ray e Dave, acompanhados do baterista Mick Avory (que chegou a tocar por muito pouco tempo no início dos Rolling Stones, para ajudar o amigo Brian Jones até que Charlie Watts decidisse entrar para a banda) e do baixista Pete Quaiffe, eram mestres em criar melodias grudentas e harmonias complexas em composições que mesclavam o pop das emissora de rádio com as tradições folk da canção típica inglesa. As letras de Ray desde cedo se tornaram o diferencial da banda em relação aos então concorrentes diretos – Stones, Who e Animals, todos bebendo direto na fonte do blues e do rhythm and blues. Formação dos Kinks em 1964; Ray Davies é o último à direita; Dave é o segundo da esq. para a dir. Ele foi o primeiro compositor britânico a investir pesada e prioritariamente em pequenas histórias, ora dramáticas, ora irônicas, tudo sempre temperado com um humor tipicamente inglês. Tal fato leva muitos historiadores da música a afirmar que a banda nunca foi tão grande quanto seus concorrentes diretos por ser “excessivamente inglesa”. Apesar disso, Ray Davies e os Kinks criaram uma penca de clássicos dos mais importantes do rock, como “You Really Got Me”, “All Days and All of the Night”, “Tired of Waiting for You”, “Lola”, “Where Have All the Good Times Gone”, “Celluloid Heroes” e muitos outros. Outro monstro inglês também está completando 50 anos da data de sua gestação, embora tal fato cause irritação em seu líder. The Who começou a surgir em 1962 quando o guitarrista Pete Townshend entrou para a banda The Detours, liderada por um guitarrista baixinho e briguento chamado Roger Daltrey. Townshend chegou a tocar em algumas bandas de jazz e em uma delas conheceu um garoto chamado John Entwistle, que tocava instrumentos de sopro e eventualmente guitarra e baixo. Diante da indigência musical dos Detours, Townshend foi tomando conta do pedaço e dois meses depois convidou Entwistle para ser o baixista, após ter convencido Daltrey a muito custo. Tanto Townshend como Daltrey desconversam sobre o assunto cinquentenário em 2012. Ambos consideram 2014 o ano verdadeiro e “oficial” dos 50 anos. Formação original do Who: da esq. para a dir., Daltrey, Moon, Entwistle e Townshend Foi naquele ano que os Detours se tornaram The Who, depois High Numbers para se decidirem por The Who assim que acertaram a gravação do primeiro single e a entrada do baterista Keith Moon, então às vésperas de completar 18 anos, no lugar do cansado e pouco entusiasmado Doug Sanden, que era bem mais velho que os outros integrantes. No meio musical de Londres, dá-se como certa a existência de planos em andamento pelo Who para comemorar com estilo o cinquentenário da banda em 2014, planos esses mantidos em sigilo – daí o mau humor dos integrantes em comentar o suposto cinquentenário neste ano. Seja como for, aparentemente nada indica que o Who esteja planejando algo. Townshend está às voltas com o lançamento de sua autobiografia, adiado para o segundo semestre, e com a ópera-rock “Floss”, que ele não sabe ainda se vai lançá-la em 2013 como obra solo ou da banda. Daltrey, por sua vez, irritado com a parada proposta por Townshend, se uniu a Simon, irmão de Pete e guitarrista de apoio do Who, para estender a turnê europeia e norte-americana que reproduz na íntegra a ópera-rock “Tommy”, clássico do Who de 1969.

quinta-feira, julho 05, 2012

Aos 50 anos, Status Quo reúne formação original

Marcelo Moreira Há bandas que conseguem superar diversos problemas com ajuda preciosa do tempo e conseguem se reconciliar de forma digna e civilizada. Não é o caso do Guns N’Roses, mas se ajusta perfeitamente ao Status Quo, gigante do rock britânicos dos anos 60 e 70 que resolveu comemorar seus 50 anos de fundação reunindo a formação original e clássica. O agora quarteto pretende se reunir após 31 anos para gravar um novo álbum e possivelmente uma nova turnê. A última vez que estiveram juntos em estúdio foi para gravar e lançar o fraco “Never too Late”, em 1981. Francis Rossi (vocal e guitarra), Rick Parfitt (guitarra e vocal), Alan Lancaster (baixo) e John Coglan (bateria) criaram uma mistura peculiar de rock pesado e boogie rock que resultou em milhões de álbuns vendidos nos anos 70, inspirando algumas bandas, como os compatriotas do Foghat, que tendiam mais para o blues. Ao contrário dos Rolling Stones, que estão na ativa ininterruptamente há 50 anos, o Status Quo anunciou sua separação em 1984 após vendas fracas de álbuns naquela primeira metade da década de 80. Parfitt (esq.), Lancaster e Rossi em ação na Inglaterra no final dos anos 70 Surpreendentemente, Rossi e Parfitt ressuscitaram a banda um ano e meio depois para gravar o bem-sucedido – mas nem tão bom – “In the Army Now”, de 1986. A notícia ruim foi a exclusão do baixista e fundador Alan Lancaster, ainda atritado com os então ex-amigos. Sua ausência no retorno foi motivo de muita mágoa por parte do baixista nos últimos 25 anos. Curiosamente, após anunciar o retorno da formação clássica para um novo álbum e uma nova turnê, Rossi disse que a formação que atualmente está com banda – John “Rhino” Edwards (baixo, guitarra e vocais), Matt Letley (bateria) e Andy Bown (guitarra e teclados) – não seria dissolvida. A ideia é manter as duas formações na ativa, embora não tenha dado nenhum detalhe de como pretende operacionalizar tal “coexistência”. Embora a música “Rockin’ All Over the World” seja talvez o seu grande sucesso contemporneo, ao lado de “Whatever You Want”, os seis primeiros álbuns do Status Quo são considerados clássicos do rock. São eles “Picturesque Matchstickable Messages” (1968), “Spare Parts” (1969), “Ma Kelly’s Greasy Spoon” (1970), “Dog of Two Head” (1971), “Piledriver” (1972) e “Hello!” (1973). Parte expressiva dos fãs, porém considera “Blue for You”, de 1976, como o seu melhor e mais pesado álbum.

segunda-feira, julho 02, 2012

A luta de quem ainda consegue vender CDs e DVDs novos em lojas de rua

Comprar toca-discos hoje virou uma missão quase impossível. Se você não for DJ ou mero tocador de LPs/DJs, que precisa de equipamento especializado, então encontrar uma pick-up legal para ouvir velhos discos vinil é muito difícil – só em lojas muitíssimo especializadas ou antiquários da região das ruas Santa Ifigênia ou Teodoro Sampaio, em São Paulo. Comprar CDs em loja de rua também se tornou uma tarefa inacreditável de difícil. Se não há tempo para ir em locais especializados ou “clusters”, como a Galeria do Rock e o Espaço Nova Barão (a Galeria do Rock B), ambas em São Paulo, ficou difícil. Um endereço caro aos amantes de música paulistanos, o Nuvem Nove, na rua Clodomiro Amazonas, no Itaim-Bibi, fechou as portas há uns três anos, e desde então quase todo mundo acha que as lojas de CDs ou de “música” hoje se restringem às megalivrarias, como a Fnac, a Saraiva-Siciliano e a Cultura, ou na Galeria do Rock. Quem permanece no ramo teve que aprender a oferecer serviços especializados para segurar a clientela, que caiu 50%, em média. E esses lojistas continuam planejando novidades para manter o faturamento, que varia entre R$ 50 mil e R$ 100 mil mensais. Nos últimos dez anos, o empresário Marco Aurélio de Melo, de 43 anos, desativou três de suas quatro lojas de CDs e DVDs na capital. Permanece com a Music Shop, no Shopping Eldorado, zona oeste. Sem deixar de vender títulos populares, seu diferencial são importados, raridades e clássicos que agradam aos colecionadores, sempre acima dos 30 anos. Marco Aurélio Melo, da Musical Shop, se define como um ‘personal music’ (FOTO: JB NETO / AE) “Eu me tornei um ‘personal-music’”, diz. Ele sabe explicar em detalhes cada um dos produtos que vende. “Meus clientes consideram a música uma cultura maior. Têm coleções com milhares de CDs. E nenhuma paciência para esperar uma faixa baixar no computador.” Seu desejo futuro é abrir um local com espaço para pocket shows e cafeteria. Mas eis que um empresário teimosos ainda resiste em uma área das mais nobres de São Paulo. Alain Cohen está há 34 anos vendendo música de qualidade na praça Vilaboim, em Higienópolis, a poucos metros da cara faculdade Faap e rodeado de restaurantes chiques, além da igualmente chique padaria Barcelona e de milhares de condomínios de alto e altíssimo padrões. A Musical Box é um oásis de cultura e inteligência – em frente há uma interessante livraria, que infelizmente diminuiu bastante de tamanho; Não há nada de pagode ou axé, muito menos sertanejo (eu pelo menos não vi, mas não fiz muita questão de ver). Há muitos títulos importados de jazz, rock e blues da melhor qualidade, uma área considerável dedicada à música erudita e um acervo admirável de MPB e música instrumental brasileira, com variedade e títulos difíceis de serem encontrados nas “megastores”. Alain Cohen, da Music Box É um endereço conhecido por poucos, frequentando na maioria por homens de 30 anos, das classes média e alta, ou por profissionais ligados às áreas de educação, cultura e comunicações. De vez em quando o local fica um pouco bagunçado com a chegada de mercadorias, mas nada que incomode. Não deixe de dar uma olhada nas diversas caixas de todos os estilos. Seus preços são salgados, mas isso faz sentido: virou um local especializado, que vende mercadorias bem difíceis de encontrar. A balzaquiana Woodstock, lendário endereço roqueiro do centro de São Paulo, ainda permanece por ali, na rua Dr. Falcão, pertinho do Vale do Anhangabaú. O batalhador Walcir Chalas, dono da loja e ex-radialista, mantém a chama há mais de 30 anos e chegou a vender mais roupas e camisetas com motivos de rock do que música propriamente durante algum tempo. Muita gente acha que loja não vende mais CDs e DVDS. E não vende mesmo. Hoje a Woodstock é especializada em vinis de todos os tios, até mesmo os importados de 180 g, caros e maravilhosos. Além dos nomes mais importantes do rock, ainda há algumas raridades por ali, a preços bem interessantes. Walcir Chalas, da Woodstock Discos Quem seguiu pelo mesmo caminho foi a lendária Metal, que ainda resiste na esquina das ruas Elisa Fláquer e Álvares de Azevedo, em Santo André. Ainda sob a batuta de Jean Lazare Gantinis, há 28 anos vendendo CDs, LPs, camisetas e até instrumentos musicais – divide a atenção com a banda de hard rock Montanha, da qual é guitarrista. Como o nome diz, a predominância é de heavy metal. Depois do desaparecimentos das lojas CD Store, na cidade e na vizinha São Bernardo, passou a ser o grande ponto de encontro dos roqueiros de todo o ABC – fato que a transformou também importante local de venda de ingressos para shows musicais na região e também em São Paulo. Independente do gosto musical do consumidor, a Metal é um local onde se respira música o tempo todo, ou seja, é um lugar onde nos sentimos muito bem. Jean e seus funcionários, entre eles os filhos igualmente roqueiros, são extremamente informais e bem humorados . É um local imperdível e bem agradável. Na vizinha São Bernardo ainda resiste no bairro Rudge Ramos a Merci Discos, que chegou a ter uma filial no shopping Metrópole, no centro da cidade. Com apenas um quinto do tamanho original, vende de tudo, com ênfase no rock, que é a paixão dos proprietários e dos funcionários. Continua ali na esquina da avenida Rudge Ramos com a praça onde fica a Igreja Matriz de Rudge Ramos. Os preços são um pouco mais altos, por motivos óbvios, do que os das megastores de shoppings, mas há vantagens que compensam: atendimento personalizado, conhecimento alto sobre os produtos que são vendidos e a possibilidade de fazer encomendas. Ainda conserva a aura de loja de bairro, mas com bom atendimento e produtos de qualidade, especialmente no rock e no jazz. E também no ABC fica outro pilar da resistência da venda de música em lojas de rua. A Rick Discos continua firme e forte no centro de São Caetano, rua Conde Francisco Matarazzo, nº 67, sala 8, depois de um período hibernando. Rick and Roll, o dono, é figura lendária na região, tendo promovido diversos festivais de rockabily e apoiado centenas de bandas e shows de rock. Respeira rocn’n roll e adora uma boa conversa. Se alguém conhencer mais um desses heróis que continuam vendendo mísica de qualidade em endereços físicos, na rua – e que não sejam “sebos” -, publique o nome e endereço nos comentários destinados a esta reportagem. Esses cidadãos merecem o nosso reconhecimento – e nosso eterno agradecimento.

sábado, junho 30, 2012

Lojas de música na rua: Eric Discos, Pops e Compact Blue, patrimônios de SP

Um labirinto de corredores, com prateleiras lotadas de vinis, e alguns móveis com tampa de vidro com os CDs importados mais cobiçados pelos moderninhos do fim dos anos 80 e primeira metade dos anos 90. Entrar na loja Eric Discos sempre foi uma viagem no tempo, mas também um mergulho maravilhoso na cultura ocidental. Os mais chegados podiam folhear livors de rock e de arte que ficavam no fundo da loja. A Eric Discos sempre foi um personagem da zona oeste de São Paulo – e da própria metrópole em si, tanto que serviu de inspiração para o fime “Durval Discos”, filme de 2002 dirigido por Ana Muylaert e protagonizado pelo ótimo ator Ary França. A loja foi uma omissão imperdoável do texto “A luta de quem ainda consegue vender CDs e DVDs novos em lojas de rua”, publicado ontem neste Combate Rock. Ainda bem que pedi ao final do texto por indicações aos leitores de lojas que ainda existiam. Eric e sua loja, em Pinheiros (FOTO E MONTAGEM: LEE SWAIN) A loja continua lá, na rua Arthur de Azevedo, lá embaixo, no bairro de Pinheiros. Eric Crauford, um inglês nascido na China radicado há 40 anos em São Paulo, ainda comanda o navio e mais forte do que nunca. Sem nenhuma modéstia, se auto-intitula o rei do vinil na capital paulista – e não é que é verdade? Sem dúvida é um dos templos sagrados da música e da arte na cidade. Desde sempre a loja foi especializada em vinis de todas as espessuras, em LPs de todos os gêneros. Dificuldade para achar alguma coisa no labirinto? Esse é umd os charmes do lugar, frequentado por grandes nomes da música nacional e internacional, além de parada obrigatória de turistas brasileiros e estrangeiros em busca de raridades. As aparições da loja na mídia especializada e na imprensa em geral têm rareado de forma inexplicável, o que induz muita gente – e o Combate Rock – ao erro desagradável: será que a loja ainda existe, mesmo tem tempos de CD morrendo, gravadoras falindo e downloads desenfreados e ilegais? Um dos maravilhosos labirintos da Eric Discos (FOTO: LEE SWAIN) “Muita gente pensa que a loja fechou por conta de muita coisa que rolou nos últimos anos, mas principalmente porque fui obrigado a retirar a plca com o nome da loja por causa da Lei Cidade Limpa, da Prefeitura de São Paulo”, diz Walcir Chalas, a alma e o coração da Woodstock Discos, meca do rock e do heavy metal em São Paulo por três décadas. A loja ainda está lá na rua Dr. Falcão, mas passou por modificações de foco de negócio e de decoração. Agorá é dedicada somente aos vinis. de todos os tipos e todos os matizes. Sem muita atenção da imprensa e meio escondida, como no caso da Woodstock, não é de se estranhar a dificuldade em lembrar da Eric Discos. A falta de informações e a devastação promovida pela música digital ilegal acabou por ocultar no tempo outra casa de mísica importante na cidade, a Pops Discos, localizada em uma galeria da rua Teodoro Sampaio, também em Pinheiros, em meio a dezenas de lojas de instrumentos musicais. O acervo já não é tão vasto, mas é possível encontrar ótimas coisas lá, especialmente em DVD. Outra coisa que sempre marcou a loja foi o bom atendimento e o conhecimento que os vendedores tinham sobre o catálogo e todos os gêneros. Fachada da Pops Discos E aí vai a dica do jornalista Fábio Fleury, o responsável pela rádio Unesp FM, de Bauru (SP), e prifundo conhecedor de MPB e jazz: a Compact Blue, que fica na rua Augusta. Foi uma das primeiras lojas paulistanas especializadas em trilhas sonoras de fimes nacionais e estrangeiros, de além de manter desde os anos 90 um acervo incomparável de DVDs musicais e de filmes de arte. Outra omissão imperdoável, mas plenamente consertada por um dos leitores do Combate Rock. Se algupem mais lembrar de lojas importantes que ainda existem, por favor, informem no espaço comentários abaixo do texto. A seguir, os endereços das lojas citadas neste texto e no de ontem: Compact Blue – Rua Augusta, 1.371 – Jardins – São Paulo – http://www.compactblue.com.br/ Eric Discos – Rua Arthur de Azevedo, 1.813, Pinheiros, São Paulo – http://www.ericdiscos.com.br / Musical Box – Rua Armando Penteado, 1 , Higienópolis – São Paulo – (11) 3825-6844 / Woodstock Discos - Rua Dr. Falcão Filho, 155, Centro – São Paulo // Rick and Roll - Rua Conde Francisco Matarazzo, nº 67 – sala 8 – centro, São Caetano - 11 3565 5900 Merci Discos – Av. Dr. Rudge Ramos, 17 – Rudge Ramos – São Bernardo – 11 4368-8569 Metal Discos – rua Dona Elisa Fláquer, 184 – centro, Santo André – 11 4436-5500. Pops Discos – Rua Teodoro Sampaio, 763 – Loja: 4 - 11 3083 – 2564 – http://www.popsdiscos.com.br Galeria do Rock – Av. São João, 439 – Centro – São Paulo – http://www.galeriadorock.com.br/blog/ - Lojas: Die Hard, Aqualung, Baratos Afins, Zeitgeist, Animal Records, Cactus, Hellion Records, entre outras. Espaço Nova Barão – Galeria Nova Barão – R. Sete de Abril, 154, centro, São Paulo – Lojas: Big Papa Records, The Records, Art Rock, entre outras. Music Shop – Shopping Eldorado – Av. Rebouças, 3.970 , Pinheiros, São Paulo – 11 38192246 e 11 38174835

quinta-feira, junho 28, 2012

O blues demolidor de Joe Bonamassa em São Paulo

Um nome pouco conhecido do blues no Brasil reuniu um público dos mais ecléticos o HSBC Brasil no último sábado. Em sua primeira passagem pelo país, o norte-americano Joe Bonamassa fez tudo aquilo que se esperava do nome mais importante e famoso do blues e do blues rock da atualidade: técnica, virtuosismo e muito entusiasmo. Aos 35 anos, o guitar hero que também toca no supergrupo Black Country Communion ao lado de Glenn Hughes (ex-Deep Purple e Black Sabbath) provavelmente era mais novo do que metade da plateia que lotou o local. Outra parte do era formado por músicos ávidos por escutar uma pegada forte e riffs bem construído, além de jovens em geral curiosos para ouvir esse discípulo direto de Stevie Ray Vaughan, Jimmy Page, Jeff Beck e Gary Moore. Com um público majoritariamente masculino e ganho, Bonamassa não economizou nos riffs e no peso, para certa irritação de uma parcela significativa de mulheres. Acompanhar esse tipo de show em mesas, como é de costume (infelizmente) em algumas casas em São Paulo, é o fim da picada, mas não impediu que o guitarrista e ótimo cantor fosse ovacionado durante quase todo o show, escorado por uma banda afiadíssima e extremamente competente. Bonamassa está mais sóbrio e mais maduro, apesar do ritmo alucinante de shows e gravações que empreende desde 2006. A voz está bem melhor do que, por exemplo, no CD ao vivo “A New Day Yesterday Live”, gravado em 2001 e recém-lançado no Brasil pela Som Livre. Enquanto tocava no Brasil, seu mais novo álbum, “Driving Towards the Daylight”, era lançado nos Estados Unidos e na Europa. E foi a maravilhsoa e emocionante faixa-título que abriu o bis dele, no fim da apresentação. No mais, foi um desfile de hits de sua carreira solo, com ênfase nos álbuns “A New Day Yesterday”, “Black Rock”, “Sloe Gin” e “Dust Bowl” – este responsável pelos momentos de maior frenesi da plateia, com as músicas “Dust Bowl” e “Slow Train”, mais conhecidas porque o álbum foi lançado aqui no final de 2011. Os momentos de maior peso ficaram por contra de uma excelente versão de “Blues Deluxe”, clássico imortalizado por Jeff Beck em 1967, com a ajuda de Rod Stewart nos vocais, e em um hard rock beirando o heavy metal, “Young Man Blues”, clássico do bluesman Moses Alison, mas que se tornou parte indissociável do rock por conta das poderosas versões de estúdio e ao vivo de The Who – versões que inspiraram a execução de Bonamassa. Como workaholic assumido, ele não perdeu tempo com papinhos estéreis com a plateia ou brincadeirinhas. Foram duas horas de pauladas e do melhor blues que passou pela cidade de São Paulo nos últimos tempos. Aparentemente o guitarrista gostou da recepção calorosa que teve por aqui e também no Rio de Janeiro, onde tocou em 31 de maio, dois dias antes. Em meio aos agradecimentos, disse que adorou a primeira vez no Brasil e que voltará em breve. Tomara.

segunda-feira, junho 25, 2012

John Entwistle, do Who, é o melhor baixista para a Rolling Stone

John Entwistle foi o primeiro baixista a fazer um solo em uma canção rock. ele nunca teve essa intenção, mas foi convencido pelo guitarrista Pete Townshend e pelo produtor Shel Talmy de que seria uma boa ideia brincar com isso naquele que se tornou o maior sucesso da carreira do Who, “My Generation”. Em uma entrevista à rádio BBC, de Londres, duas décadas depois do lançamento do single – na Inglaterra, no fim de 1965 –, Talmy disse que o Who era uma banda instintiva, orgânica e furiosa, e que só percebeu o tamanho do som do baixo de Entwistle no estúdio. “Eles tinham gravado ‘I Can’t Explain’ antes, além de ‘Zoot Suit’ como High Numbers, mas foi em ‘My Generation’ que o som alto e pesado de John preencheu a sala. Ele era um verdadeiro guitarra-base, com sua técnica apurada, precisão e velocidade. Era óbvio que seria natural aparecer um solo de baixo com o volume lá em cima. Townshend teve a mesma impressão na hora em que percebi isso”, disse o produtor. Entwistle, apelidado de “Thunderfingers” (dedos de trovão), foi eleito neste mês pelos leitores da revista norte-americana Rolling Stone como o melhor baixista de todos os tempos no rock. Talvez fosse desnecessária tal pesquisa, já que há muito tempo é consenso de que o baixista do Who ocupa tal posto. Se as listas de melhores vocalistas e bateristas de rock sempre são polêmicas, devido ao número elevado de candidatos, as de guitarristas e de baixistas sempre foram consideradas “barbadas”. Jimi Hendrix quase sempre liderou as de guitarristas, assim como Entwistle a de baixistas. Formação original do Who: da esq. para a dir., Roger Daltrey, Keith Moon, John Entwistle e Pete Townshend O instrumentista do Who sempre desdenhou de tal “título”. Com seu jeito quieto e discreto, sempre foi modesto ao analisar sua carreira. Fã de jazz e de rockabilly, costumava dizer que não conseguia encontrar algo de novo em seu trabalho. Nem sequer conseguia identificar um estilo, quanto mais afirmar ter criado um. Quem desmitifica a questão é Glenn Tipton, guitarrista fundador do Judas Priest, amigo de Entwistle desde os anos 70 e que o teve como companheiro de banda em dois de seus trabalhos solo, “Baptizm of Fire”, de 1997, e “Edge of the World”, de 2003, creditado a Tipton, Entwistle and Powell (Cozy Powell, baterista fantástico morto em acidente de carro em 1998). “Se é consenso que o heavy metal pode ter nascido a partir dos riffs de guitarra pesados de ‘You Really Got Me’, dos Kinks, o baixo pesado surgiu com Entwistle na mesma época. O som vibrante, gordo e intenso de seu baixo representava uma mudança de postura e de modo de encarar o instrumento. Em uma banda sem guitarra-base, o peso e a melodia que Entwistle imprimia ao som do Who era muito mais do que ritmo, era uma verdadeira base”, afirmou Tipton à revista Guitar World nos anos 2000. Entwistle com sua pequena coleção em sua mansão na Inglaterra, em 1975 A versatilidade e a genialidade de Entwistle às vezes incomodava Roger Daltrey, o cantor do Who, no palco. Não foram poucas as vezes que o vocalista brincava, mas dando o recado, quando o baixista fazia algum riff em músicas que requeriam tal procedimento: “Para que tantas notas ao mesmo tempo, John?”, perguntava Daltrey, geralmente no começo ou no final de músicas como “Boris The Spider”, “My Wife” ou “The Quiet One”. John Entwistle morreu em junho de 2002, em Las Vegas, às vésperas do início de mais uma turnê do Who pelos Estados Unidos. Tinha 57 anos e sofreu um ataque cardíaco após uma noite bebendo brandy (uma espécie de conhaque) e usando cocaína no hotel. Os demais nomes da lista dos dez melhores baixistas da Rolling Stone mostram algumas surpresas, como Flea (Red HOt Chili Peppers) em segundo lugar, Les Claypool, do Primus, em quinto lugar, e o jazzista Jaco Pastorius, em sétimo lugar. Clique aqui e leia a reportagem original da revista norte-americana. O baixista em show do Who nos Estados Unidos no ano de 2000 Ranking 1 – John Entwistle (The Who) 2 – Flea (Red Hot Chili Peppers) 3 – Paul McCartney (Beatles) 4 – Geddy Lee (Rush) 5 – Les Claypool (Primus) 6 – John Paul Jones (Led Zeppelin) 7 – Jaco Pastorius 8 – Jack Bruce (Cream) 9 – Cliff Burton (Metallica) 10 – Victor Wooten

sexta-feira, junho 22, 2012

Liverpool celebrará 50 anos de ‘Love Me Do’ com grande homenagem aos Beatles

EFE Reprodução The Beatles LONDRES – A cidade britânica de Liverpool se prepara para as comemorações do 50º aniversário de Love Me Do, o primeiro single dos Beatles, gravado no dia 6 de junho de 1962, e uma das músicas responsáveis por impulsionar o quarteto ao estrelato mundial. Apesar do lendário quarteto, formado por Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon e George Harrison, ter se reunido em 1960, a data oficial de sua formação é celebrada dois anos depois, justamente quando o grupo se reuniu para a primeira sessão de gravação no emblemático estúdio Abbey Road. Foi no ano de 1962 que um de seus principais integrantes entrou na banda, o baterista Ringo Starr – que segue vivo ao lado de Paul McCartney. Neste mesmo ano, o quarteto de Liverpool também lançou o pegajoso hit Love Me Do, o primeiro single do grupo, que, por sua vez, começou a fazer um enorme sucesso nas rádios do país pouco tempo depois. Essa alegre canção, que gira em torno de dois simples acordes, transformou o Beatles em um grupo internacional. Isso porque, com Love Me Do, o grupo deixou de ser “uma banda local” para levar suas melodias para além do condado de Merseyside. “Esse faixa (extraído do álbum de estreia Please, Please Me) foi o que tornou o grupo famoso no mundo todo”, assegurou à Agência Efe Jerry Goldman, diretor-geral da The Beatles Story, um centro que há 22 anos se dedica em narrar a evolução do quarteto de forma gráfica. “Antes dessa canção, os Beatles eram apenas um grupo bastante popular na região (de Liverpool). No entanto, ninguém conhecia a banda fora desta cidade”, acrescentou Goldman. Já George Martin, o lendário produtor que era apelidado de “quinto Beatle”, lembrou em alguma ocasião o curioso processo de formação de Love Me Do, que chegou a ser gravado em três vezes com bateristas diferentes. Em princípio, o baterista era Pete Best. Ele que estava no comando das baquetas na gravação de 6 de junho de 1962, que fez parte de uma audição para EMI nos estúdios londrinos de Abbey Road, um lugar que passou a ser cultuado por qualquer fã que se preze. No dia 4 de setembro deste mesmo ano, quando Ringo Starr já tinha substituído Best, a música foi gravada para retornar aos estúdios. Sete dias depois, o grupo voltou aos estúdios para uma nova gravação, agora com Andy White na bateria e Starr restrito a uma meia-lua. The Beatles Antology, um documentário de oito episódios, três álbuns e um livro monográfico, explica que esse singles foi um dos primeiros escritos pela célebre dupla Lennon e McCartney, embora este último assuma a autoria de mais estrofes. Dada a relevância da banda, 2012 será um ano especial para Liverpool, que homenageia seus quatro filhos ilustres com uma série de atividades comemorativas. Os atos previstos destacam a participação da Royal Philarmonic Orquestra, que interpretará temas de Lennon e McCartney, e do mítico clube The Cavern, que deverá ser oficialmente tombado. A casa de show onde o quarteto “nasceu” ainda apresentará uma série de show em tributo. Outro clássico de Liverpool, o festival anual de Matthew Street, realizado no final de agosto, deverá exaltar e rememorar algumas das principais músicas dos Beatles. Mas, apesar de todos os mitérios e indefinições, a principal comemoração será realizada no dia 5 de outubro, a mesma data em que Love Me Do chegou ao mercado. Essa canção chegou ao posto de 17º nas listas de sucessos do Reino Unido após seu lançamento e, em 1964, já aparecia no topo das paradas americanas. Com 13 álbuns de estúdio, uma recopilação, 13 EP’s (um deles duplo) e 22 singles em apenas oito anos de carreira (1962-1970), a “poção” mágica que transformou os Beatles em verdadeiros ícones da música internacional foi “a mistura entre música e personalidade”, aponta Goldman. A trajetória do grupo mais famoso do mundo começava a chegar ao fim meses depois da conclusão da gravação de seu décimo segundo álbum de estúdio, Abbey Road (16 de setembro de 1969), quando os quatro músicos já estavam envolvidos em projetos solos. O encarregado de anunciar a separação da banda foi McCartney, que emitiu um comunicado há 42 anos, no dia 10 de abril de 1970, para explicar que os quatro meninos de Liverpool já não voltariam a tocar juntos.

terça-feira, junho 19, 2012

Ziggy Stardust completa 40 anos, enquanto Bowie vive aposentadoria dourada

EFE Reprodução ‘The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars’ Há quarenta anos, um extraterrestre chamado Ziggy Stardust revolucionou a cena musical com sua imagem ambígua e andrógena, uma dúzia de memoráveis canções e um grupo que atendia pelo nome de Aranhas de Marte. Foi assim que David Bowie criou um dos personagens mais imprescindíveis da cultura musical do século XX, um herói destinado a morrer em palco e que se apresentou ao mundo no dia 6 de junho de 1972 com um álbum conceitual e de título quilométrico: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. O disco, que devia ser reproduzido “no volume máximo”, permitiu que Bowie, no auge de seus bem-vividos 25 anos, reunisse todas suas influências acumuladas até então, desde o teatro mímico de seu mestre Lindsay Kemp até a poesia de Baudelaire. Além disso, o “camaleão do rock” deu grande liberdade a suas fantasias futuristas com um personagem que interpretou em uma viagem inesquecível, cuja modernidade transgressora serviu de influência para milhares de jovens de todo o mundo. Essa época foi marcada por emblemáticas imagens, como aquela na qual Bowie – que havia se declarado gay publicamente -, fingia praticar sexo oral no guitarrista Mick Ronson. Ziggy era um extraterrestre transformado em estrela de rock para confortar a humanidade em fase de extinção com uma mensagem de esperança, que Bowie levava aos palcos vestido com modelos impossíveis e uma imagem andrógina. Foi a apoteose do glam rock. É certo que toda aquela história futurista que combinava moda e som se amparava em um repertório de primeira, que, segundo as instruções impressas na capa do disco, deveria ser escutado em “máximo volume”. O álbum começava com a apocalíptica Five Years e propunha uma verdadeira viagem através de suas 11 canções, sendo dez originais e uma versão de It Ain’t Easy, de Ron Davies. Envolvido em um som poderoso, que combinava guitarras ferozes e violinos espaciais, Bowie deu forma a produção do álbum ao lado de Ken Scott. Entre os temas, aparecem Starman, um dos singles mais celebrados da carreira de Bowie. Por conta de sua temática – uma mensagem de redenção vinda das estrelas -, a faixa se encaixava perfeitamente no álbum. Após o lançamento do disco, Ziggy Stardust e As Aranhas de Marte embarcaram em uma longa turnê pelo Reino Unido, Estados Unidos e Japão. No dia 3 de julho de 1973, Ziggy se despedia da humanidade no emblemático Hammersmith Odeon de Londres com uma interpretação de Rock n’ Roll Suicide, cujos primeiros versos traziam a frase “A vida é um cigarro…”. Ziggy não voltou a aparecer sobre o palco, mas várias de suas canções acompanharam Bowie em suas turnês posteriores. O emblemático álbum, que agora completa 40 anos, se transformou em um ícone da libertação gay e foi um dos marcos musicais da década. Desde então, sua influência não deixou de inspirar músicos de várias gerações. Aos 65 anos, David Robert Jones goza de uma aposentadoria dourada, a qual não parece que será alterada por conta do aniversário de Ziggy Stardust. A obstinada inatividade de Bowie, que já dura seis anos, deu margem a muitas especulações. E se, na verdade, Bowie fosse um personagem criado por Ziggy Stardust?

domingo, junho 17, 2012

Política argentina ‘exportar para importar’ atinge até show de Madonna

Marcia Carmo – De Buenos Aires para a BBC Brasil Restrições ao dólar faz produtora de Madonna ter problemas para pagar outros estrangeiros Além de barrar produtos na fronteira, a política “exportar para importar” do governo Kirchner fez mais um alvo nos últimos dias: Madonna. Para garantir a apresentação da cantora no país, a produtora da turnê deve promover a artistas argentinos no exterior, segundo declarações à imprensa local. A política do governo da Argentina visa impulsionar a produção local, ao controlar a entrada de importados, e conter a saída de dólares do país. Nas últimas semanas, o governo anunciou uma série de medidas para controlar a compra e venda da moeda americana. Madonna deve se apresentar em Buenos Aires e Córdoba em dezembro deste ano. Para poder expatriar os dólares do cachê da artista, a produtora Time For Fan (T4F) teve de prometer à Casa Rosada um plano para exportar espetáculos de artistas argentinos para os países da América Latina, segundo a imprensa local. “(O governo) nos pediu um esforço para aumentar a presença de artistas argentinos no exterior, para aumentar a exportação de artistas nacionais para se ter uma balança comercial mais equilibrada”, disse Fernando Moya, diretor da T4F, ao jornal La Nación. Segundo a reportagem, a produtora pediu audiência com o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, porque estariam tendo dificuldades para pagar em dólares os cachês de artistas internacionais que se apresentam no país, dada à rigidez para a compra da moeda. A medida foi ironizada por jornais locais como La Voz del Interior, cuja reportagem foi intitulada “Madonna por Andrés Calamaro”, em referência a um cantor argentino. Procurada pela BBC Brasil, a produtora não respondeu às ligações e aos emails. ‘Distorções’ Com a determinação de importar para exportar, o governo espera evitar a maior saída de dólares do país e equilibrar a balança comercial. A ordem de exportar para importar provocou outros casos inusitados como o do campeão de ciclismo e medalha de ouro olímpico Juan Curuchet, que não conseguia importar seus equipamentos necessários para treinar para os Jogos Olímpicos de Londres. Segundo a imprensa local, Curuchet contou que teria ouvido das autoridades locais a regra “para importar é preciso exportar”. Ele então reagiu: “Somos um grupo de esportistas olímpicos. O que podemos exportar além do nosso esforço físico?”. Economistas ouvidos pela BBC Brasil disseram que a medida da Secretaria de Comércio Interior gera “distorções” ao setor comercial argentino. Governo argentino vem agindo para controlar a venda de dólares “O caso da Madonna é emblemático e o primeiro que vai gerar de fato mais exportação. A produtora vai exportar shows de artistas locais para a América Latina, num plano que inclui 2012 e 2013″, disse o economista Abel Viglione, da consultoria Fiel. Segundo ele, o mesmo fluxo não é observado nos outros setores da economia que tiveram que se adaptar para atender a exigência do governo. Recentemente, chegou-se a especular que shows de artistas como Roger Waters e Eric Clapton corriam risco de não acontecerem porque não se sabia como atender à medida do governo. Carros por vinhos Segundo Viglione, os demais importadores precisam fazer uma engenharia sofisticada para atender as exigências do governo. Ele diz que há importadores de automóveis de luxo que passaram a exportar vinhos. Outros importam tecnologia e exportam, afirmou, alimentos balanceados para cachorros. O economista Mauricio Claveri, da consultoria Abeceb, disse que o governo começou a aplicar a exigência em 2010 e que no ano passado as empresas passaram a buscar alternativas para manter o fluxo de seus negócios com o exterior. “Mas as barreiras de importação e essa medida geraram distorções. Uma empresa que importa vidros deve comprar no mercado local. O governo diz que o país produz vidro e deve ser dada prioridade à empresa nacional. O problema é que às vezes o produto específico ainda não é fabricado no país ou a quantidade é limitada”, afirmou Claveri. Ele lembrou que o governo quer manter o superávit comercial de dez bilhões de dólares, como registrado no ano passado, e os números indicam que a meta será alcançada, mas com menos comércio com outros países, como o Brasil, por exemplo. Em maio deste ano, a União Europeia (UE) denunciou a Argentina na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as travas do país ao comércio exterior. Nesta semana, o Ministério das Relações Exteriores disse que atenderá pedido de consultas da UE.

quinta-feira, junho 14, 2012

Uma nova opção de boleto para o consumidor

De vez em quando o consumidor recebe uma boa notícia de órgãos como o Banco Central (BC) e a Receita Federal. O BC criou o boleto de oferta, um novo tipo de título exclusivo para o pagamento opcional de serviços oferecidos ao cidadão, como assinaturas de revistas e contratações de seguros. A novidade pretende acabar com a confusão feita com os boletos de pagamento obrigatório (contas de luz e telefone, por exemplo), que, se não forem debitados, podem levar o nome do consumidor aos órgãos de restrição ao crédito, como SPC e Serasa. Agora todos os boletos de oferta terão a informação de que o seu pagamento é dispensável. Também terá de estar claro nos documentos que, caso não sejam pagos, não ocorrerão protestos, cobranças judiciais ou extrajudiciais, nem a inclusão do consumidor em cadastros de restrição ao crédito. Assim, o cliente vai saber decidir com mais facilidade se paga ou não pelo serviço oferecido pelas empresas. De acordo com o BC, a emissão dos boletos de oferta terá de, necessariamente, ser feita por meio de convênio com instituições financeiras autorizadas pela própria instituição. Com o pacote de mudanças, vêm novas regras para o velho boleto de cobrança, o que deve necessariamente ser pago. Outras instituições, como corretoras e financeiras, passam a ter permissão para emitir diretamente os boletos de cobrança correspondentes aos serviços executados por elas. Além disso, a partir de abril de 2013, boletos de valor superior a R$ 250 mil, quando pagos, vão remeter a quantia prevista diretamente ao recebedor, sem intermediação do sistema financeiro, segundo as novas normas fixadas pelo Banco Central. O consumidor que sofrer qualquer tipo de cobrança incorreta deve reclamar e exigir da empresa a devolução dos valores. A companhia deve entregar o dobro do dinheiro debitado do cliente, com juros e correção monetária. Caso a pendência não se resolva na negociação com a empresa, pode-se reclamar no Procon e solicitar indenização por danos morais, em especial se o consumidor não tiver pago o valor indevido. Na Justiça, o caminho é o Juizado Especial Cível para causas de até 40 salários mínimos (R$ 22,5 mil).

terça-feira, junho 12, 2012

Não há mais vestígios do finado pop rock nacional

O pop rock nacional continua solidamente enterrado e dá sinais de que jaz na sepultura para sempre. Totalmente ausente das paradas radiofônicas do Brasil, tem algum espasmo quando algum medalhão anuncia turnê comemorativa de alguma coisa, caso dos Titãs (que comemoram 30 anos de atividade) e de uns poucos que ainda conseguem algum espaço com trabalhos autorais inéditos, como Jota Quest e Capital Inicial. A edição nacional da revista Billboard, gigante norte-americano da área de mídia de entretenimento, traz mensalmente as “paradas de sucesso” pelo Brasil, em pesquisa comprovada, com dados confiáveis da empresa Crowley/Music Media, que criou uma metodologia abrangente para aferir a execução de músicas em emissoras de rádio (Mais informações em www.crowlwy.com.br). Hoje, no Brasil, não vejo levantamento com mais credibilidade do que esse. No último levantamento, publicado na edição de maio de 2012 da revista, o cenário é mais desolador do que a análise que o Combate Rock fez em outubro passado. O principal ranking da Billboard Brasil é o Brasil Hot 100 Airplay, que elenca as 100 músicas com maior execução entre 19 de março e 18 de abril, reunindo tanto músicas nacionais como internacionais. Apenas quatro artistas brasileiros de pop rock aparecem na lista – vamos desconsiderar Dinho Ouro Preto, que aparece em 80º lugar, porque seu mais novo recente trabalho só traz versões para hits internacionais, como “Nothing Compares 2 U”, de Sinead O’Connor, responsável por colocá-lo em tal posição. Em outubro passado, também eram quatro os brasileiros listados. O melhor grupo rankeado é Charlie Brown Jr, em 42º lugar, com a música “Céu Azul”; o Restart, com a música “Menina Estranha”, ficou em 58º lugar – o que já dá uma amostra do abismo profundo em que se encontra o pop brasileiro. Em 69º aparece a música “Não É Normal”, de NX Zero; em 70º, “Mais Perto de Mim”, de Jota Quest. Ou seja, as bandas de rock mais bem colocadas são duas bandas emos de qualidade altamente questionável. O cenário piorou também em relação ao posicionamento. O melhor brasileiro roqueiro em outubro passado estava em 50º – e era a mesma “Não É Normal”, do NX Zero. Ou seja, a música resiste nas paradas, e demonstra, por outro lado, que os artistas do gênero não conseguem entrar no ranking. O número de artistas diminui, e as músicas despencam na lista. A banda NX Zero continua resistindo na parada principal da Billboard Brasil – o que não quer dizer que isso seja bom Nas listas regionais das 10 mais, não existe rock de tipo nehhum, muito menos o nacional. Parece que o gênero nunca existiu ou foi extinto. A Billboard faz a pesquisa em 14 cidades – 11 capitais de Estados mais Campinas, Vale do Paraíba e Ribeirão Preto. Nas 14 listas o rock aparece somente com “Paradise”, do Coldplay, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O cenário tétrico do pop rock nacional nas paradas brasileiras só não é definitivo porque, como consolo, o rock internacional também está ausente do Top 100 da Billboard Brasil. São apenas dois representantes: o chato e insosso Coldplay com a mesma “Paradise”, em 16º lugar, e o inexpressivo Maroon 5, com a música “Moves Like Jagger”. Sete meses atrás o rock estava na mesma, com dois artistas na lista – Coldplay aparece em 44º lugar com “Every Teardrop is a Waterfall”; Red Hot Chili Peppers é o 96º, com “The Adventures of Rain Dance Maggie.” E o que existe no topo da lista da Billboard? O pior cenário possível, com as piores coisas que se pode imaginar. A predominância absoluta é daquela coisa que se convencionou chamar de “sertanejo”, seja lá o que isso for. Michel Teló e Luan Santana são os líderes, seguidos Bruno & Marrone, Adele e Zezé di Camargo e Luciano. Ou seja, trevas totais, jogando por terra qualquer possibilidade de salvação do cenário musical brasileiro – e da cultura nacional, por tabela. O que sobra no cenário do pop rock nacional? Quando muito, o underground e o indie, e olhe lá. Vanguart, Cachorro Grande, Macaco Bong e mais uns poucos que ainda se aventuram nesta área. Há um abismo a partir de 2005, com a falta de artistas promissores no rock e o predomínio cada vez mais avassalador do lixo pop que tanta alegria anda dando a um mercado de entretenimento/fonográfico agonizante e quase moribundo. E não nos iludamos: a tendência é piorar muito até o final de 2012.

segunda-feira, junho 11, 2012

U2 completa 35 anos em cima dos placos, mas sem perspectivas

Um baterista enfezado e com cara de mau queria porque queria ser punk aos 16 anos de idade e decidiu montar uma banda na cozinha da sua casa. E decidiu que ele seria o líder e que mandaria em tudo, escreveria as músicas, letras e escolheria o figurino. Colocou cartazes na escola procurando guitarristas, baixista e cantor. Só três atenderam ao chamado. Para seu azar, aquele moleque feio e com cara de mais enfezado ainda decidiu naquela cozinha minúscula que ele seria o líder e que definiria o conceito da banda. Os outros dois concordaram. “Fui líder da minha banda por aproximadamente cinco minutos”, costuma dizer com uma ponta de sarcasmo Larry Mullen Jr, o baterista do U2. Foi na cozinha da casa dele, em Dublin, em 1976, que Paul Hewson assumiu as rédeas do pretenso grupo punk irlandês qiue se tornaria um gigante do mercado musical dez anos depois e a única banda a rivalizar em venda de ingressos e megalomania com os Rolling Stones 20 anos depois. Hewson logo em seguida o nome artístico de Bono Vox. Em 1977, o quarteto finalmente estrearia nos palcos e começaria a se tornar profissional. O quarteto completa 35 anos de atividade ininterrupta nos palcos e sem mudança de formação de forma discreta. Não há nada programado para lembrar a data – pelo menos nada anunciado até agora. O baú de preciosidades aos poucos vem sendo esvaziado desde 2000 com o lançamento de coletâneas com material inédito e reedições de álbuns dos anos 80 com CDs bônus. O que esperar então da banda para este ano. Jornais irlandeses especulam sobre a possibilidade de lançamento de shows raros da banda nos anos 80 e 81 em áudio e DVD. Sabe-se que esse matrial existe e que é praticamente inexplorado, justamente a fase mais “punk” e raivosa do U2. Ainda que as apresentações daquela época retratem o quarteto com muita energia, mas ainda sem aquela identidade que faria do U2 um monstro do rock após “War” e “Unforgettable Fire”, são registros históricos valiosos. Ali os garotos tentavam superar a decadência do movimento punk elevando o volume dos amplificadores e buscando uma alternativa às letras de contestação sem perspectivas de algumas das bandas da época. Estava claro para eles que o Clash era o caminho, em termos líricos, e foi nas extensas turnês daquele biênio que o U2 moldou o som e os temas que viriam a predominar nos três álbuns após “October”. Os colecionadores e fãs mais ardorosos já sabem que pelo menos duas apresentações de 1981 – em Amsterdã, na Holanda, e em Toronto, no Canadá – têm qualidade ótima de áudio, mas a dúvida é se há imagens decentes destes shows. Outra alternativa seria lançar, de forma oficial, em CD, com qualidade digital, o LP pirata “2 Sides Live”, gravado ao vivo no Paradise Theatre, em Boston, nos Estados Unidos, em 6 de março de 1981. Dessa época, é o melhor bootleg, com qualidade boa de áudio. Mas a dúvida persiste: foi registrado em vídeo? Se foi, esse vídeo, tem qualidade? Alheia a isso, a banda está oficialmente de férias neste momento, embora Bono tenha afirmado à revista Rolling Stone norte-americana em dezembro passado que logo os trabalhos de composição para um eventual novo álbum começariam, mas que também haveria a possibilidade de a banda chegar ao fim por “falta de perspectivas”.

sexta-feira, abril 27, 2012

STF mostra abismo entre elite e o país

PAULO MOREIRA LEITE REVISTA ÉPOCA A decisão do Supremo sobre cotas marca um momento histórico. A mais alta corte de Justiça do país admitiu não só que existem brasileiros tratados como cidadãos de segunda classe, mas que eles têm direito a um tratamento especial para vencer a desigualdade. A votação unânime mostrou, do ponto de vista jurídico, que as cotas são um projeto compatível com a Constituição. Do ponto de vista histórico, é a decisão mais relevante sobre o assunto desde a Lei Áurea. Pela primeira vez o Estado brasileiro não se limita a punir o racismo, como se faz desde os anos 50, mas pretende tomar medidas efetivas para beneficiar a população negra e ajudá-la a vencer uma perversidade histórica. Sai de uma perspectiva formal para assumir as funções concretas de combater a desigualdade na vida cotidiana. A decisão mostrou, do ponto de vista político, um abismo entre nossa elite econômica e política e o conjunto do país. O STF uniu-se para defender as cotas. Ministros chamados conservadores e progressivas responderam, cada um à sua maneira, às alegações dos adversários das cotas. Embora tenha usufruído de um espaço imenso nos meios de comunicação, no placar do Supremo o combate às cotas ficou ainda menor do que o partido que a patrocinou, o DEM, cada vez mais insignificante na definição dos rumos do país. Mas um partido político pode ser desfeito, incorporado a outro, reformado e assim por diante. Mas o que faz uma elite que não consegue compreender para onde vai o país onde ocupa o topo da sociedade, dirige a economia e tem uma influencia importância na ação do Estado, mesmo que o governo não esteja nas mãos de seus representantes prediletos? Essa é a pergunta. Ficou claro que, do ponto de vista dos ministros, nos últimos anos o Brasil foi inundado por argumentos retóricos, falsas questões, ginásticas verbais e até teses desqualificadas demais para serem levadas a sério. Vários ministros ensinaram aos interessados que a principal tese contra as cotas – de que elas ameaçam a igualdade entre os cidadãos – é puro improviso jurídico. Para começar, vários grupos sociais diferenciados – mulheres, crianças, deficientes físicos – têm direito a preferências negadas aos demais. Ninguém, nunca, achou ruim. Vários ministros lembraram Ruy Barbosa, que ensinou que é preciso tratar os iguais com igualdade e os desiguais com desigualdade. Cezar Peluso explicou que só é possível falar em disputa pelo “mérito individual” para ingresso nas universidades públicas entre pessoas que competem em situação de igualdade ou pelo menos “assemelhada.” Marco Aurélio Mello disse que o combate às cotas se alimenta de uma visão preconceituosa da própria Constituição. Lembrou que dez anos de experiência com o sistema em nada contribuíram para transformar o Rio de Janeiro num estado “racialista”, um dos fantasmas originalíssimos dos adversários, que querem nos fazer acreditar que o racismo brasileiro iria início com as políticas de ação afirmativa – e não seria fruto de um passado perverso, onde a escravidão foi abolida sem que se tomassem medidas coerentes para integrar os negros ao conjunto da sociedade. Celso Mello lembrou que o país se libertava, naquela votação, do pensamento que havia criado a “ideia, ou mito, da democracia racial” de Gilberto Freyre, para aderir a visão do professor Florestan Fernandes, autor do clássico A Integração do Negro na Sociedade de Classes, e seu aluno, Fernando Henrique Cardoso. Celso Mello ainda homenageou uma militante aguerrida do movimento negro, Edna Roland, uma das principais ativistas no combate ao racismo. Mencionando ironicamente um fato ocorrido durante a ditadura militar, Celso Mello lembrou que, ao ser questionado em organismos internacionais sobre medidas que havia tomado para enfrentar a discriminação racial, o governo dos generais escreveu a seguinte resposta: “não há medidas a relatar porque não há discriminação racial no Brasil.” Essa feia realidade começou a se transformar em entulho após a decisão do Supremo. O Brasil está mudando e tem gente que não percebe. Vários ministros falaram sobre a necessidade de modificar e ajustar a política de cotas, em particular na forma que ela assumiu na Universidade de Brasília, que foi o foco do julgamento. Este é o debate para o futuro. A lição de ontem foi vencer o passado, mostrando que não é possível manter eternamente um sistema de opressão e preconceito que prejudica e humilha 51% dos brasileiros. Quem queria, de verdade, que a desigualdade fosse vencida por idéias clássicas que nunca foram implementadas – como escolas melhores nos bairros pobres — deve reconhecer que o tempo histórico para iniciativas convencionais já passou. Foram décadas e décadas de promessas jamais cumpridas. Também cabe perguntar: se as escolas públicas ficaram piores até mesmo em bairros de classe média, por que se deveria levar a sério a promessa de ocasião de que irão melhorar na periferia? Vamos combinar: seria até falta de respeito pedir aos cidadãos negros que aguardassem o tempo histórico de várias gerações em nome da promessa de que, um dia, seus bisnetos e tataretos quem sabe poderiam disputar um lugar ao sol como os demais brasileiros. Seria lhes pedir — olha o tamanho da indignidade — que aceitassem a posição subalterna por muitos e muitos anos ainda, concordassem com a cidadania de segunda classe em nome do conforto alheio. Em resumo: o que se queria é seguissem concordando com a própria discriminação. Isso é até possível sob uma ditadura. Mas é difícil sob uma democracia, onde os homens e mulheres não são iguais mas, a cada quatro anos, cada um vale um voto. Essa é, no fundo, a grande mensagem da votação. Quem não entendeu, não entendeu o país.

sábado, abril 21, 2012

Intolerância religiosa

POR DRAUZIO VARELLA* O fervor religioso é uma arma assustadora, disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos. A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres. Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos. Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido. Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar. Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias. Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu? Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus? Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida? O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades. Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás. Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas. O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres. Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo. Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta. Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam. *Publicado hoje na “Folha de S.Pauo” e excepcionalmente aqui reproduzido.

terça-feira, abril 03, 2012

A volta por cima do Van Halen

Uma tentativa desesperada de buscar ecos do passado, mas feita com competência e de forma descontraída e espontânea. O Van Halen parece ter reencontrado o prazer de existir, mesmo que tenha perdido parte expressiva de sua relevância dentro do rock. Ficar 14 anos sem lançar nada novo e ter feito apenas duas turnês neste período cobra um preço alto, mas é possível suplantar isso com qualidade musical. A Different Kind of Truth, que será lançado na próxima semana, tinha tudo para jogar o Van Halen de novo para baixo, como ocorreu com “Van Halen III”, de 1998, com Gary Cherone (Extreme) nos vocais. O primeiro single do novo álbum, “Tattoo”, era enganoso e de longe é a música mais fraca do grupo. Não só trazia ecos do passado muito distante: era uma releitura de uma música dos anos 70 nunca lançada, mas tocada em shows na época. Os temores aumentaram com as reclamações iradas de fãs norte-americanos com o que consideraram “reciclagem” e falta de inspiração. Felizmente o restante do álbum passou por cima da má imagem que “Tattoo” deixou. É um CD alegre, vibrante e cheio de groove e suingue. É certo que está a milhões de anos-luz dos melhores trabalhos da banda, gravados na primeira metade dos anos 80, mas é muito melhor do que se podia esperar. De certa maneira, em uma analogia tosca, “A Different Kind of Truth” está para a carreira do Van Halen assim como “Death Magnetic” para o Metalilca – muita gente não esperava muita coisa boa após o decepcionante “St. Anger”. O climão dos anos 70 e 80 estão lá, assim como o talento de Eddie Van Halen. O baixo está bem mais discreto, já que Wolfgang Van Halen, filho de Eddie, é mais técnico em alguns momentos do que o Michael Anthony, o baixista original, mas é bem mais contido. “She’s a Woman” e “Blood Fire” são pérolas saídas diretamente do fantástico “Women and Children First”, de 1980, com o groove característico da banda, com leve acento pop e grudento. “China Town” e “Bullethead” são um pouco mais pesadas e aceleradas, típicos rocks de arena e perfeitas para fazer um show engrenar. “The Trouble With Never” e “Outta Space” formam uma dobradinha ótima, acrescentando um peso peculiar ao hard rock mais festeiro. A surpreendente qualidade do álbum anda entusiasmando críticos norte-americanos e brasileiros, alguns considerando “A Different Kind of Truth” como obra-prima ou fantástico. Flagrante exagero. Quando nada se esperava dessa reunião sem muito futuro, eis que surge um álbum muito interessante e agradável. De certa forma, pode-se dizer que começou a ser gestado ainda em 1996, quando David Lee Roth aceitou o convite de Eddie Van Halen para gravar duas músicas inéditas para a coletânea “The Best of Vol. 1”. “Me Wise Magic” e “Can’t Get This Stuff No More” foram duas tentativas de resgatar um passado que já era distante naquela época, mas que remetia a um período onde os músicos tinham prazer em compor. As duas músicas eram boas, mas não o suficiente para que Roth decidisse permanecer na banda – e também não eram boas o suficiente para que Eddie deixasse de lado seu projeto de gravar músicas mais soturnas e melancólicas, que apareceram em “Van Halen III”, com Cherone cantando. O novo trabalho do Van Halen é uma grande notícia (e enorme alívio) para quem gosta de rock nestes tempos difíceis para quem curte coisa boa. O quarteto cometeu um trabalho muito bom – bom o suficiente para resgatar grande parte do prestígio que a banda já teve.

sábado, março 31, 2012

Cursos livres entram na mira do Procon

Os cursos livres figuraram pela primeira vez no ranking de atendimentos do Procon-SP, aparecendo na lista do segundo semestre de 2011. Reclamações e esclarecimentos de dúvidas envolvendo cursos de informática, inglês, pré-vestibulares e profissionalizantes ocuparam a 10ª colocação na lista – com 5.223 atendimentos. Em todo o ano passado foram 9.881 registros, 9,8% mais que os 8.996 questionamentos realizados em 2010. Os cursos livres ficaram atrás de bancos, cartões de crédito, telefonia celular e fixa, aparelhos telefônicos, móveis, plano de saúde, produtos de informática e produtos da linha branca. “A posição dos cursos livres chama a atenção por ser um segmento relativamente menor em relação aos outros listados em nosso ranking. Estar equiparado com grandes setores da economia mostra o quanto às práticas das empresas são abusivas”, diz a diretora de atendimento do Procon, Selma do Amaral. O principal problema constatado pelo órgão de defesa do consumidor está relacionado a rescisão/alteração de contrato. Além de ter atenção ao ler o contrato, o Procon-SP recomenda muito cuidado com ofertas enganosas. Segundo É comum empresas abordarem o consumidor com a promessa de vaga de estágio ou de emprego. Mas é preciso desconfiar. São ofertas que atingem um público mais vulnerável, que não tem informação. São pais que não têm como pagar uma faculdade para o filho, mas querem dar uma formação e se iludem de que o curso garantirá um emprego. Para evitar problemas, é preciso conferir se a proposta é séria e a escola idônea, e pesquisar se a empresa tem queixa no Procon.

segunda-feira, março 26, 2012

Bancos e operadoras de telefonia lideram o ranking do Procon

As empresas do setor financeiro e as operadoras de telecomunicações foram as mais reclamadas nos Procons do Brasil no ano passado, respondendo por mais de 605 mil queixas registradas (39,33% do total). Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec), que reúne informações dos Procons de 23 Estados (inclusive São Paulo) e do Distrito Federal (DF). Em 2011, foram realizados 1.696.833 (um milhão seiscentos e noventa e seis mil, oitocentos e trinta e três) atendimentos – uma média mensal de 141.402 reclamações. Só o setor de assuntos financeiros responde por 336. 428 reclamações (21,87% do total). Nessa área em especial, se destacam 141.672 queixas contra cartões de crédito (9,21%), 111.648 contra bancos comerciais (7,26%), 58.445 contra financeiras (3,80%) e 24.663 contra cartões de lojas (1,60%). Na sequência dos serviços financeiros, o destaque é para as 268.660 reclamações contra os serviços de telecomunicações (17,46% do total). Neste caso, são 122.952 queixas contra a telefonia móvel (7,99% do total), 85.606 contra a telefonia fixa (5,56%), 32.276 contra tevê por assinatura (2,10%) e 27.826 contra operadoras de internet (1,81%). Com relação a produtos, os aparelhos de celular aparecem em evidência, com 83.649 reclamações (5,44%). “Fica claro que, com o crescimento econômico, mais pessoas têm acesso ao crédito e ao serviço de telefonia celular. Só que não há contrapartida das empresas para atender esses clientes. Elas apenas vendem o serviço e não melhoram a qualidade. Daí o grande número de problemas”, disse Maria Elisa Novaes, gerente jurídica do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em depoimento ao Jornal da Tarde.

sábado, março 24, 2012

Pirataria pode ‘matar a cultura’, diz MinC

Por Tatiana de Mello Dias Em audiência pública na Câmara, Ana de Hollanda apresentou os planos do MinC para 2012 e mostrou ter ouvido queixas da indústria cultural FOTO: Fabio Motta/AE SÃO PAULO – A ministra da Cultura Ana de Hollanda está preocupada com a internet – para ela, a pirataria online pode “matar a cultura brasileira”. A afirmação foi feita na manhã desta quarta-feira, 21, em audiência pública na Câmara dos Deputados. Ana de Hollanda se reuniu com os parlamentares da Comissão de Educação e Cultura para apresentar os projetos do MinC para 2012. A ministra falou por quase uma hora – mas a cultura digital e a reforma da lei de direitos autorais ficaram de fora dos principais tópicos do ministério. O MinC destacou projetos como a reforma do Teatro Brasileiro de Comédia, PAC das cidades históricas, escritórios de economia criativa para as sedes da Copa e a restauração de prédios históricos do centro histórico de Salvador. Deixou claro, portanto, que adota uma linha diametralmente oposta à gestão anterior do MinC, cujas políticas para a internet e a atualização das leis para o ambiente digital eram a prioridade. O assunto só apareceu após questionamento dos parlamentares. Sobre pirataria, Ana de Hollanda disse que essa não é uma atribuição do MinC, mas do Ministério da Justiça, embora essa seja uma preocupação de sua gestão. “Afeta demais a área cultural”, queixou-se. “Hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. Daí a preocupação do MinC com essas questões, que estão facilitando a pirataria”, disse Ana. “O MinC tem que ter uma preocupação com a preservação e com a condição de se produzir culturalmente sem que isso seja copiado como se não tivesse trabalho investido. Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado”, declarou. Ana disse que foi procurada no ano passado pela produtora de um filme, que se queixou de ter perdido R$ 4 milhões em seu último filme que “estava sendo copiado e vendido pela internet”. “Essa é uma queixa muito grande”, disse a ministra. Ana de Hollanda disse que ouviu a indústria cultural para lançar a última versão do texto da Reforma da Lei de Direitos Autorais. “Consideramos a consulta pública, mas abrimos para contribuição”, explicou. “Havia uma demanda enorme dos meios culturais de que diziam que não tinham sido ouvidos ou contemplados no processo anterior”. Segundo ela, o MinC “mexeu muito pouco”. “O que foi mexido era uma demanda forte dos setores de todas as áreas, audiovisual, música, livros, que não se sentiam contemplados.” A lei está agora na Casa Civil e será discutida pelos ministérios envolvidos e depois irá para o Congresso. O texto final, ao qual o ‘Link’ teve acesso, tem mecanismos como o de notificação e retirada, que permite que se elimine conteúdos da internet por infração de direitos autorais sem a necessidade de ordem judicial. O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) questionou a ministra sobre o Ecad e suas recentes cobranças indevidas. Ana disse que “essa área não compete ao MinC”, embora esteja nas mãos do próprio MinC (com a reforma na lei de direitos autorais) a decisão sobre fiscalizar ou não a arrecadação de direitos autorais no País. “O Ecad e os sites é uma discussão de entes privados. O ministério não tem essa função de mediar por enquanto. Pretendemos ter a supervisão, isso está sendo resolvido na justiça”, disse Ana. Em relação às queixas sobre falta de diálogo, a ministra afirmou várias vezes que o “diálogo é aberto”. “É uma questão de procurarem ‘os caminhos certos’”, disse a ministra.

quarta-feira, março 21, 2012

Lei que permite assassinatos causa revolta nos EUA

Por João Ozorio de Melo Uma campanha no Facebook convoca os americanos para a "marcha de um milhão de encapuzados" ("Million Hoodies March"), que pretende ocupar praças e ruas de Nova York, nesta quarta-feira (21/3). A marcha é uma homenagem a Trayvon Martin, de 17 anos, um estudante negro que foi morto por um patrulheiro voluntário de um condomínio, por parecer um "suspeito". O estudante caminhava à noite pela calçada, "observando as casas", com a cabeça coberta pelo capuz de seu agasalho de moletom. George Zimmerman, de 28 anos e branco, matou Trayvon, que estava desarmado, mas não foi preso. Ele está protegido por uma lei estadual da Flórida. O Departamento de Justiça e o FBI anunciaram, na terça-feira (21/3), que estudam uma maneira de interferir no caso, que se iniciou na noite de 26 de fevereiro. Zimmerman, que patrulhava as ruas de um condomínio de Sanford, Flórida, telefonou para a Polícia para denunciar a presença de um "suspeito" na área. Ele descreveu o "encapuzado" e comentou (conforme gravação liberada pela Polícia): "Esses filhos da puta sempre se safam". Ele ignorou a ordem do operador policial de não segui-lo, porque uma viatura policial já estava a caminho. Confrontou o garoto e lhe deu um tiro no peito. A Polícia sequer tentou prender Zimmerman. Declarou à imprensa que, se o prendesse, poderia ser processada, por infringir a lei estadual Stand Your Ground Law (Lei não ceda terreno). Essa lei estadual, aprovada em 2005 pelo então governador Jeb Bush (irmão do ex-presidente George Bush) e subsequentemente copiada por mais 15 estados americanos, mudou o conceito de legítima defesa, seguindo os preceitos de uma outra lei, conhecida como Castle Doctrine (Doutrina do Castelo), e Defense of Habitation Law (Lei da Defesa da Habitação). A doutrina da legítima defesa previa que a pessoa tinha a obrigação de recuar antes de usar "força fatal", e só usá-la como último recurso. A Castle Doctrine estabeleceu que o cidadão, quando é ameaçado dentro de sua casa, não tem de recuar coisa alguma. Pode matar, com garantia da imunidade prevista no princípio da legítima defesa. A doutrina, com raízes na Common Law, prescreve que a casa é "o castelo do cidadão". A Stand Your Ground Law absorveu esse conceito e o estendeu para virtualmente qualquer lugar no estado — a rua, a quadra de basquete, o bar, o restaurante, a calçada pela qual o estudante Trayvon caminhava com um lanche e um refrigerante, que comprara na loja, enquanto falava com a namorada pelo celular e usava o capuz da jaqueta sobre a cabeça, porque estava chovendo. Nos termos da lei, basta que a pessoa se sinta ameaçada ou que entenda que sua vida está em perigo para ter o direito de matar. Na conversa com a namorada, pelo celular, o estudante lhe contou que estava sendo seguido. Ela pediu para ele correr. Ele respondeu que só ia andar mais rápido. Zimmerman foi a seu encalço. Sua última informação ao operador da Polícia foi a de que o "suspeito" tinha alguma coisa na mão. Mais tarde, ao lado do corpo, a polícia encontrou o celular, o lanche e o refrigerante. Depois de aprovada, a lei ganhou rapidamente um apelido: Make my Day Law (em tradução livre, "Lei Me Ajude a Ganhar Meu Dia"). O apelido foi emprestado do roteiro do filme Sudden Impact, em que o violento investigador policial Harry Callahan, representado pelo ator Clint Eastwood, diz a um suspeito que o ameaça em uma lanchonete: "Vá em frente, me ajude a ganhar meu dia". Ele sabia que se o suspeito tentasse agredi-lo, ele podia atirar nele e matá-lo (o que aconteceu), sem ter de se defender mais tarde. Bastava alegar legítima defesa. Pela lei da Flórida, basta que o autor do crime forneça à polícia uma argumentação plausível para sustentar a legítima defesa. A acusação não pode, obviamente, contestar com a versão da vítima. O paradeiro de Zimmerman é desconhecido e ele sequer é procurado pela Polícia, segundo os jornais americanos. Mas sua impunidade está causando furor em todo o país. Manifestações foram feitas, por muitas centenas de pessoas, em igrejas e ruas de Sanford, Miami, Orlando e New York, noticia a CNN. Uma petição no site Change.org, exigindo a prisão de Zimmerman, já conta com mais de 700 mil assinaturas, entre as quais de várias celebridades, como o cineasta Spike Lee e o músico Wyclef Jean. As manifestações, a campanha no Facebook e a ampla cobertura da imprensa — e suas críticas — levaram as autoridades a anunciar que um júri de instrução será instalado, para avaliar o caso, em abril. Para um grande número de americanos, essa lei da Flórida passou dos limites. E, recentemente, ganhou mais um apelido de seus oponentes, segundo o site da MSNBC: Shoot First Law (Lei Atire Primeiro) — apelido derivado da expressão "aitre primeiro, pergunte depois", que muitas vezes foi atribuída, nos filmes de "bangue-bangue", aos bandoleiros mexicanos. Para um colunista do jornal Orlando Sentinel, os habitantes da Flórida estão revivendo o Velho Oeste. Ameaça presumida Há outro caso que está incomodando a população. Em setembro de 2010, Trevor Dooley matou David James, que estava jogando basquetebol com sua filha de 8 anos, por causa de uma discussão. Dooley teria iniciado a briga, ao tentar proibir um garoto de usar sua prancha de skate na quadra. No mês passado, ele alegou em um tribunal que tinha o direito de matar James, de acordo com a Stand Your Ground Law, porque sentiu que sua vida estava ameaçada. De acordo com o New York Times, um levantamento de 65 casos semelhantes ocorridos na Flórida que resultaram em mortes revelou que, em 57 deles, sequer houve indiciamento criminal. Em sete outros, a denúncia foi apresentada à Justiça, mas os réus foram absolvidos. A Suprema Corte da Flórida já decidiu que, com base nessa lei, os juízes podem rejeitar as denúncias, antes mesmo de iniciar o julgamento. Isso porque, segundo a Corte, a lei dá ao réu o que se chama de imunidade verdadeira. A venda de armas cresceu substancialmente na Flórida, e nos outros estados que copiaram a lei, depois da aprovação da Stand Your Ground Law. A lei foi aprovada graças, em boa medida, ao forte lobby da National Rifle Association (NFA), a associação americana que reúne os fabricantes de armas dos EUA e entusiastas de todos os calibres: a NFA foi presidida, por vários anos, pelo ator e ativista Charlton Heston(Os Dez Mandamentos, Ben-Hur ). A organização, considerada o grupo mais influente de lobby por parlamentares e assessores do Congresso dos EUA, segundo uma pesquisa da revista Fortune, se declara defensora dos direitos de porte de arma, garantidos pela Segunda Emenda da Constituição do país, explica a Wikipédia. O procurador geral do estado da Flórida, Willie Meggs, que lutou contra a aprovação dessa lei quando ela foi proposta, disse ao New York Times que as consequências da Stand Your Ground Law têm sido "devastadoras" em todo o estado. "O que estamos passando é quase uma loucura", afirmou. Ele contou que a lei tem sido usada por membros de gangues em guerra com outras gangues, traficantes em guerra com outros traficantes, bem como por namorados ciumentos em bares, que usam revólveres, facas e até mesmo um quebrador de gelo, como já aconteceu, para matar seus desafetos. E relatou que o estado perdeu um caso contra um homem que já estava em seu carro para ir para casa, mas, com muita raiva por causa de uma discussão com outro homem que havia sentado em seu veículo, pegou uma arma no porta-luvas, abriu a porta, desceu, caminhou até perto dele e o matou com um tiro. Zimmerman tinha direito a porte de arma, porque não tem antecedentes criminais, embora a Polícia saiba que, há algum tempo, ele bateu em um policial. Mas o fato não rendeu denúncia criminal. As previsões são de que ela vai se safar mais uma vez. O Departamento de Justiça dos EUA e o FBI já disseram a jornalistas que um possível caso federal contra Zimmerman será muito fraco. Eles poderiam, por exemplo, fazer uma denúncia contra Zimmerman por crime de ódio, uma vez que ele é branco e a vítima era negra. No entanto, ele tem descendência hispânica, o que o colocaria na mesma situação de minoria racial. O pai de Zimmerman já enviou um comunicado ao jornal Orlando Sentinel, declarando que a família tem membros de descendência negra e que, portanto, esse não é um caso de discriminação racial. O anúncio da programação de um Grand Jury, segundo algumas autoridades explicaram anonimamente a jornalistas, tem o objetivo principal de "acalmar as multidões". Para isso, uma equipe de profissionais de Relações Públicas foi despachada para a Flórida. E as autoridades estão pedindo calma à população, porque alguma coisa vai ser feita. João Ozorio de Melo é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.