A volta das óperas-rock e álbuns conceituais
Houve um tempo em que álbuns conceituais e óperas-rock eram considerados o que havia de mais criativo dentro da música pop. Seus autores eram incensados como gênios e eram comparados aos grandes mestres da música universal. Isso ocorreu no final dos anos 60 e perdurou até por volta de 1975, com ênfase aos artistas ligados ao rock progressivo.
Com a chegada do punk rock e a explosão da música disco e do funk negro norte-americano, já nos estertores da década de 70, álbuns conceituais e óperas-rock foram banidos do dicionário musical acusados de prepotência, arrogância e auto-indulgência, que muitos afirmavam nada terem a ver com a essência do rock.
Pois a onda retrô que assolou o final dos anos 90, com o retorno de vários “dinossauros” à ativa, acabou também trazendo de volta a curiosidade em relação às grandes obras dos anos 70. O resultado é que os álbuns conceituais voltaram à moda assim como as óperas-rock.
Grupos de heavy metal progressivo como Dream Theater e Virgin Steele, entre muitos outros, pegaram carona nessa onda influenciados por obras-primas do Rush e do Iron Maiden e produziram algumas das obras conceituais dentro do rock pesado mais elogiadas da atualidade. E muita gente foi atrás, sob as bênçãos de Yes, Emerson Lake and Palmer, King Crimson, Jethro Tull...
No caso das óperas-rock, nunca se viu tantas obras do gênero serem editadas como nesse início de milênio. Dentro do rock pesado, quatro merecem destaque.
“Nostradamus” é um CD duplo composto pelo guitarrista e maestro búlgaro Nikolo Kotzev, que vive há anos na Finlândia.
Líder do grupo Brazen Abbott, Kotzev compôs uma “sinfonia” baseada na vida e na obra do famoso “profeta” francês que viveu nos séculos 16 e 17. Ele fez a música e os arranjos e cada um dos seus convidados vocalistas, interpretando um personagem, fez a letra que cantou. Um trabalho que consumiu três anos e que reuniu músicos de alta qualidade, como Glenn Hughes (ex-Deep Purple e Black Sabbath), Joe Lynn Turner (ex-Deep Purple e Rainbow), Doogie White (ex-Rainbow), Jorn Lande, Allanah Myles e Sass Jordan.
“Leonardo” é o mais novo produto da gravadora Magna Carta e foi composto pelo guitarrista Trent Gardner, líder do Magellan. Baseada na vida de Leonardo da Vinci, tem como astro principal o maravilhoso vocalista canadense James LaBrie, do Dream Theater.
“Avantasia” é um superprojeto totalmente heavy metal liderado pelo vocalista alemão Tobias Sammet, líder da banda Edguy. Composto por vários personagens, narra uma história fantástica de lutas entre o bem e o mal em uma terra fictícia povoada por gnomos, elfos e entidades semelhantes. Sammet nunca escondeu sua admiração pela obra “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. Como convidados aparecem músicos importantes como Michael Kiske (ex-Helloween), André Matos (ex-Angra e atual Shaman), Kai Hansen (Gamma Ray) e David DeFeis (Virgin Steele), entre outros.
Da Holanda vem o projeto Ayreon, liderado pelo guitarrista Arjen Lucassen. Os últimos três trabalhos do Ayreon, “Into the Castle”, “The Flight of Migrator” e “The Dream Sequencer”, contam a história de uma civilização à beira da extinção em um planeta distante que luta contra vários inimigos ao mesmo tempo.
Esse projeto tem elenco multiestelar: Bruce Dickinson (Iron Maiden), Timo Kotipelto (Stratovarius), Ralph Scheepers (Primal Fear), Andi Deris (Helloween), Fish (ex-Genesis), Lana Lane, Erik Norlander, Floor Jansen, Anneke van Gisbergen (The Gathering), Sharon den Adel (Within Temptation) e muitos outros.
Todos os quatro projetos acima descritos estiveram entre nas listas de mais vendidos de quase todos os países da Europa Ocidental.
A onda das óperas-rock foi tão intensa nos últimos dois anos que até mesmo o Brasil entrou na festa. “Hamlet”, CD recém-lançado pela gravadora paulistana Die Hard, é baseada na obra-prima do dramaturgo inglês William Shakespeare e reúne cerca de dez das mais importantes bandas de heavy metal do Brasil. Esse é, com certeza, um dos trabalhos mais criativos do gênero.
Apenas para referência histórica: o termo ópera-rock foi criado para rotular o álbum duplo “Tommy”, do Who, lançado em 1969, que conta a história de um menino cego, surdo e mudo devido a um trauma que se transforma em campeão mundial de fliperama e líder de uma seita religiosa assim que fica curado milagrosamente.
Desde então outras obras que contavam “histórias” surgiram, como “Arthur” (1970), dos Kinks, “Quadrophenia” (1973), do Who, “Jesus Christ Superstar” e “Hair” (musicais compostos em meados dos 80), “The Wall” (1979), do Pink Floyd, “The Elder” (1980), do Kiss, entre outros.